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7° LIÇÃO DO 2° TRI DE 2013 O DIVÓRCIO


O DIVÓRCIO
Data: 19/04/2013.                           Hinos sugeridos: 23, 441, 597.
TEXTO ÁUREO
Eu vos digo, porem, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério. Mt 19. 9.
VERDADE PRÁTICA
O divórcio embora admissível em caso de infidelidade sempre trás seria consequências à família. Por isso Deus o odeia.
LEITURA DIÁRIA
Segunda        - Dt 24. 1.                O divórcio no Antigo Testamento.
Terça              - Dt 24. 1-4.            O divórcio sem volta.
Quarta            - Gn 2. 24.               Deus institui o casamento.
Quinta             - 1 Co 7. 34.           Ate que a morte os separe.
Sexta              - Mt 5. 31-32          O ensino de Cristo sobre o divórcio.
Sábado          - 1 Co 7. 21.           O ensino de Paulo sobre o divórcio.
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Mateus 19. 3-12.
3. Então, chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o e t dizendo-lhe: E licito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?
4. Ele, porem, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que, no principio, o Criador os fez ‘macho e femea
5. e disse: Portanto, deixara o homem pai e mãe e se unira a sua mulher, ‘e serão dois numa só carne?
6. Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.
7. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moises dar-lhe carta de divorcio e repudia-la?
8. Disse-lhes ele: Moises, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossa mulher; mas, ao principio, não foi assim.
9. Eu vos digo porem, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.
10. Disseram-lhe seus discípulos: Se assim e a condição do homem relativamente a mulher, não convém casar.
11 Ele, porem, lhes disse: Nem todos podem receber esta palavra, mas 's. aqueles a quem foi concedido.
12 Porque ha eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; 'e ha eunucos que foram castrados pelos homens; e ha eunucos que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber isso que o receba.
INTERAÇÃO
Prezado professor, divorcio e o tema da lição desta semana. É um assunto laborioso para se desenvolver. Por isso, tenha muita atenção e cuidado ao tratar desse tema, pois e possível que exista alguém nessa situação em sua classe. Lembre-se que o objetivo de ministrarmos esta lição é o de descrever o que as Escrituras Sagradas têm a falar sobre o assunto. Assim, teremos o respaldo bíblico para agirmos quanto à realidade do divorcio na igreja local. No decorrer da lição procure enfatizar que no projeto original de Deus não havia espaço para o divorcio.
OBJETIVOS
Apos a aula, o aluno devera estar apto a:
Dissertar sobre o divorcio no Antigo Testamento.
Defender como padrão o ensinamento de Jesus sobre o divorcio.
Explicar o porquê do ensino de Paulo acerca do divorcio.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Professor para lhe auxiliar na ministração dos tópicos II e III, sugerimos que reproduza o esquema da pagina seguinte. Este sintetiza a opinião bíblica, acerca do procedimento do divorcio na vida da igreja. A fim de aprofundar-se no assunto, sugerimos também que o prezado professor leia a obra do Pastor Esequias Soares, Casamento, Divórcio e Sexo a Luz da Bíblia, Editado pela CPAD. Boa aula.
PALAVRA CHAVE Divórcio: Dissolução do vinculo matrimonial.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Por ser algo traumático o divórcio é sempre um assunto difícil de ser tratado. Existem pessoas que não o aceitam em nenhuma condição. A pessoas que sob determinadas circunstancias são favoráveis e ate buscam base nas sagradas escrituras para admiti-lo em qualquer situação. Qual a posição da Bíblia? É o que estudaremos nesta lição.
I. O DIVÓRCIO NO ANTIGO TESTAMENTO.
1. A lei de Noises e o divórcio. O capitulo 24 do livro de Deuteronômio trata a respeito do divórcio. Como a prática havia se tornado comum em Israel, o proposito da lei era regulamentar tal situação a fim de evitar os abusos e preservar a família. Nenhuma lei do Antigo Testamento incentivava a alguém a divorciar-se, mas servia como base legal para a proibição de outros casamentos com a mulher divorciada. O divórcio era um ato extremo ( Ml 2. 16). Infelizmente, muitos que conhecem a palavra do Senhor se divorciam por qualquer motivo.
O casamento é uma aliança de amor inclusive com Deus, um pacto que não pode ser quebrado, sobretudo por motivos fúteis e torpes.
2. A carta de Divórcio. Uma vez que recebia a carta de divórcio, tanto o homem quanto a mulher estavam livres para se casarem novamente. Todavia, segundo a lei, a mulher que fora repudiada, depois de viver com um outro marido, não poderia retornar para o primeiro, pois tal atitude era considerada abominação ao Senhor (Dt 24. 4). Divorciar-se não era fácil, pois havia varias formalidades, e somente o homem poderia pedir o divórcio. A mulher não tinha tal direito. A lei de Moises apesar de não incentivar o divórcio, dispunha de vários mecanismos para torna-lo mais humano (D t 24).
SINOPSE DO TÓPICO (1)
A Lei de Moisés não incentivava o divórcio, mas dispunha de mecanismos diversos, com o objetivo de garantir a dignidade humana.
II - O ENSINO DE JESUS A RESPEITO DO DIVÓRCIO.
1. A pergunta dos fariseus. Procurando incriminar Jesus, e imbuídos da ideia difundida pela escola do rabino Hilel (que defendia o direito de o homem dar carta de divórcio á mulher "por qualquer motivo”), os fariseus questionaram: "É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo"? (Mt 19. 3b). Respondendo aos acusadores, Jesus relembrou o "princípio" divino para o casamento, quando Deus fez o ser humano, "macho e fênea", "ambos uma [só] carne" Cf. Gn 2.24). Assim, o Mestre concluiu: "Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem" (Mt 1 9.6b). Essa é a doutrina originária a respeito da união entre um homem e uma mulher; ela reflete o plano de Deus para o casamento, considerando-o uma união indissolúvel,
2. O ensino de Jesus. Os fariseus insistiram: Então. Por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la? (Mt 19.7b). Respondendo à insistente pergunta, Jesus explicou que Moisés permitiu dar carta de repúdio às mulheres, “por causa da dureza dos vossos corações". Uma mulher abandonada pelo marido ficaria exposta á miséria ou á prostituição para sobreviver. Com a carta de divórcio ela poderia casar-se novamente. Deus não é radical no trato com os problemas decorrentes do pecado e com o ser humano, Ele se importava com as mulheres e sabia o quanto elas iriam sofrer com a dureza do coração do homem e tornou o trato desse assunto mais digno para elas.
Segundo o ensino do Senhor Jesus, o divórcio é permitido somente no caso de Infidelidade conjugal. Ao invés de satisfazer o desejo dos fariseus, que admitiam o divórcio "por qualquer motivo”; o Mestre disse: Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério" (Mt 19.9). Numa outra versão bíblia, lê-se: “exceto por causa de infidelidade conjugal" ou relações sexuais ilícitas". Essa foi a única condição que Jesus entendeu ser suficiente para o divórcio.
3. Permissão para novo casamento. Pelo texto bíblico, está claro que Jesus permite o divórcio, com a possibilidade de haver novo casamento, somente por parte do cônjuge fiel, vítima de prostituição, ou infidelidade conjugal, Deus admite a separação do casal, não como regra, mas como exceção, em virtude de práticas insuportáveis relacionadas à sexualidade, que desfazem o pacto conjugal. Do contrário, um servo ou uma serva de Deus seria lesado duas vezes: pelo Diabo, que destrói casamento e, outra, pela comunidade local, que condenaria uma vítima a passar o resto da vida em companhia de um ímpio, ou viver sob o jugo do celibato, que não faz parte do plano original de Deus {Gn 2.18). Todavia, em Jesus o crente tem forças para perdoar e fazer o possível para restaurar seu casamento.
SINOPSE DO TÓPICO (2)
O Senhor Jesus condena o divórcio, excetuando àquele que foi motivado por prostituição.
III - ENSINOS DE PAULO A RESPEITO DO DIVÓRCIO.
1. Aos casais crentes. Paulo diz: "Todavia, aos casados, mando não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que reconciliem com o marido; e que o não deixe a mulher" (1 Co 10-11). Esta passagem refere-se aos "casais crente", os quais não devem divorciar-se, sem que haja algum dos motivos prescritos na Palavra de Deus (Mt 19.9; I Co 7. 15). Se há desentendimentos o caminho não é o divórcio, mas a reconciliação acompanhada do perdão sincero ou o celibato por opção e não por imposição eclesiástica.
2. Quando um dos cônjuges não é crente. Paulo ensina que, se o cônjuge não crente concorda em viver (dignamente) com a crente, que este não o deixe (1 Co 7. 12-14). O crente agindo com sabedoria poderá inclusive ganhar o descrente para jesus (1 Pe 3. 1).
3. O cônjuge fiel não está sujeito à servidão. O apóstolo, porém, ressalva: "Mas, se o descrente se apartar aparte-se; porque neste caso o irmão, ou Irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos- para a paz. Porque, donde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, donde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?" (1 Co 7 ,15-16). Ou seja, o cristão fiel, esposo ou esposa, não é obrigado a viver até a morte sob a servidão de um ímpio. Messe caso, ele ou ela, pode reconstruir a sua vida de acordo com a vontade de Deus (1 Co 7,27,28,39). Entretanto, aguarde o tempo de Deus na sua vida.
SINOPSE DO TÓPICO (3)
O apóstolo Paulo afirma que a pessoa crente, quando abandonado pelo cônjuge não crente, esta livre para conceder novas núpcias. Contanto que seja no Senhor.
CONCLUSÃO
O divórcio causa sérios inconvenientes à igreja local, as famílias e a sociedade. No projeto original de Deus, não havia espaço para o divorcio. Precisamos tratar cada caso de modo pessoal sempre em conformidade com a palavra de Deus. Não podemos fugir do que recomenda e prescreve a Bíblia Sagrada. Não podemos nos esquecer de que a igreja também é uma comunidade terapêutica.
AUXÍLIO BIBLIOGRAFICO I.
Subsidio Lexicográfico
De onde Veio à ideia de que a fornicação é o pecado sexual entre solteiros? O citado Dicionário Patrística responde a essa pergunta em seguida: Basilio, o único entre os Padres, junto com Ambrosiáster, a manter uma desigual concepção de adultério, com hesitação aplica o termo de fornicação á União de um homem casado com uma jovem não casada e reserva a palavra adultério para os casos em que se traia de uma mulher casada'. Diante disso, não se sustenta a Ideia de que o termo prostituição', na cláusula de exceção, aplica-se apenas aos solteiros; também não é verdade que 'fornicação' é o pecado sexual entre os solteiros. Essa interpretação não resiste a exegese bíblica.
Tudo é pecado, tudo é prostituição, casados também se prostituem como a prática da sodomia pode ocorrer dentro do casamento. Ninguém pode provar que pornela se aplica apenas a pessoas solteiras. Nenhuma autoridade em língua grega afirma isso (SOARES, Esequias. Casamento, Divórcio & Sexo à Luz da Bíblia. I, ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, pp.48-49).
AUXÍLIO BIBLIOGRÁFICO II.
A Lei do Divórcio
[Mateus 19] vv 3-12
Nós temos aqui a lei de Cristo no caso do divórcio, ocasionada, como algumas outras manifestações da sua vontade, por uma discussão com “os fariseus”. Ele suportou tão pacientemente as contradições dos pecadores, que as transformou em instruções para os seus próprios discípulos! Observe aqui: O caso proposto pelos fariseus (v. 3): “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” Os fariseus lhe perguntaram isso para provocá-lo, e não porque desejassem ser ensinados por Ele. Algum tempo atrás, Ele havia, na Galileia, manifestado seu pensamento sobre esse assunto, contra aquilo que era uma prática comum (cap. 5.31,32); e se Ele, do mesmo modo, se pronunciasse agora contra o divórcio, eles fariam uso disso para indispor e enfurecer o povo desse país contra Ele, que olharia com desconfiança para alguém que tentasse diminuir a liberdade de que eles tanto gostavam.
Os fariseus esperavam que Ele perdesse o afeto das pessoas tanto por esse como por qualquer um dos seus preceitos. Ou então, a armadilha pode ter sido planejada dessa forma: se Ele dissesse que os divórcios não eram legais, eles o apontariam como um inimigo da lei de Moisés, que os permitia; se dissesse que eram legais, eles caracterizariam a sua doutrina como não tendo em si aquela perfeição que era esperada na doutrina do Messias, uma vez que, embora os divórcios fossem tolerados, eles eram vistos pela parte mais rígida do povo como não sendo algo de boa reputação. Alguns pensam que, embora a lei de Moisés permitisse o divórcio, ainda que houvesse uma causa justa, havia uma controvérsia entre os próprios fariseus, e eles desejavam saber o que Cristo diria sobre isso. Causas matrimoniais têm sido numerosas, e algumas vezes intrincadas e confusas; elas se tornam assim não por causa da lei de Deus, mas pelos desejos e pela loucura dos homens. Nesses casos, as pessoas frequentemente decidem o que vão fazer, antes de perguntarem qual seria a melhor solução.
A pergunta dos fariseus foi a seguinte: Será que um homem pode repudiar a sua mulher por qualquer motivo? O divórcio era permitido por alguns motivos, como por prostituição, mas o divórcio era praticado, como acontecia geralmente, por pessoas irresponsáveis, e por qualquer motivo. Será que ele poderia ser praticado por qualquer motivo que um homem pudesse julgar adequado (embora fosse, como sempre, frívolo), como também por qualquer antipatia ou desagrado? A tolerância, nesse caso, permitia isso: “Se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia, ele lhe fará escrito de repúdio” (Dt 24.1). Eles interpretavam esta passagem literalmente; e assim, qualquer desgosto, mesmo que sem motivo, poderia se tornar a base para um divórcio.
HENRY. Matthew, Comentário Bíblico Novo Testamento. Mateus A João. I. ed- Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p 240.
BIBLIOGRÁFIA SUGERIDA
ARRINGTON, French L.; STRONSTAD. Roger (Eds.). Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento- l -ed- Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João. l. ed. Rio de janeiro: CPAD, 200&.
SOARES, Esequias. Casamento, Divórcio & Sexo à Luz da Bíblia- 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.
EXERCÍCIOS
1. Segundo a lição qual era o propósito da lei do divórcio?
R: Como a prática havia se tornado comum em Israel, o proposito da lei era regulamentar tal situação a fim de evitar os abusos e preservar a família.
2. Que a escola de Hilel defendia acerca do divórcio?
R: Defendia o direito de o homem dar carta de divórcio á mulher por qualquer motivo, os fariseus questionaram: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo
3. Qual a resposta de Jesus aos fariseus a respeito do divórcio?
R: Que Moisés permitiu dar carta de repúdio às mulheres, “por causa da dureza dos vossos corações”.
4. Qual o ensino de Paulo aos casais crentes?
R: "Todavia, aos casados, mando não eu, mas o Senhor, que a mulher se não aparte do marido. Se, porém, se apartar, que fique sem casar ou que reconciliem com o marido; e que o não deixe a mulher" (1 Co 10-11).
5. O que Paulo ensina quando um dos cônjuge não é crente?
R: Paulo ensina que, se o cônjuge não crente concorda em viver (dignamente) com a crente, que este não o deixe (1 Co 7. 12-14).
VOCABULÁRIO Repúdio: Rejeitar a esposa legalmente divorciar-se.
Revista Ensinador Cristão CPAD, n° 54, p.39.
O divórcio é a dissolução do casamento. No direito brasileiro, é a oficialização do término de um compromisso conjugal e a oportunidade de se contrair novas núpcias.
Para Deus, o divórcio é um ato nocivo, condenado em diversos textos da Bíblia devido ao seu grande prejuízo para a instituição familiar.
O parecer de Jesus quanto ao divórcio - Em certa ocasião, Jesus se deparou com a questão do divórcio quando foi questionado por seus opositores. Isso porque nos anos finais do Antigo Testamento não era incomum os homens de Israel abandonarem suas esposas para contraírem um novo casamento com mulheres mais novas de outras nações: Deus usa o profeta Malaquias para condenar a atitude dos israelitas: "Além disso, ainda cobris o altar do Senhor com lágrimas, choro e gemidos , porque ele não olha mais para as ofertas, nem as aceita da vossa mão com prazer. Mesmo assim, perguntais: por quê? Porque o Senhor tem sido testemunha entre ti e a esposa que tendes desde q juventude, para com a qual foste infiel, embora ela fosse tua companheira e a mulher da tua aliança matrimonial... Pois eu odeio o divórcio e também odeio aquele que se veste de violência" (Ml 2.13,14,16). Se analisarmos o texto, teremos duas observações a fazer: primeiro, que não adianta a pessoa se derramar diante do altar do Senhor e ofertar de forma abundante se não for fiel à companheira de sua mocidade (uma referência ao casamento feito na juventude e desprezado após os anos de convivência); e segundo, aos olhos de Deus, o divórcio e a violência são como se fossem a mesma coisa. Divórcio e violência são usados no mesmo verso, como se demonstrasse que o divórcio é uma verdadeira violência para com Deus e a família.
Retornemos para Jesus, quando questionado no tocante à licitude do divórcio. Jesus só entendeu ser tolerável o divórcio em caso de infidelidade conjugal, e isso porque os israelitas tinham um coração duro. E quando os fariseus citaram a pessoa de Moisés, querendo dizer que a Lei deveria ser "respeitada", Jesus retornou ao princípio da criação, ou seja, séculos antes da Lei, quando Deus criou o homem e a mulher e fez dos dois "uma só carne" no casamento.
Os fariseus queriam colocar Jesus contra a Lei, mas se esqueceram de analisar o que Deus havia proposto antes de a Lei de Moisés ser apresentada ao povo de Israel. E foi esse lembrete que Jesus fez, a fim de que o divórcio não fosse uma prática comum entre o povo de Deus, mas, sim, uma exceção entre os santos.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Divórcio é permitido por Cristo como uma exceção, ante à prática da infidelidade, que quebra a aliança matrimonial. O tema do divórcio talvez seja um dos mais discutidos e pouco resolvidos no meio das igrejas evangélicas. De um lado, há os que não o aceitam em qualquer hipótese, entendendo a indissolubilidade do casamento de modo radical. Por outro lado, há os que o aceitam, sob determinadas circunstâncias, buscando base para tal entendimento na Bíblia Sagrada, como regra de fé e prática. E há os que são liberais, admitindo o divórcio em qualquer situação.
I - O QUE É O DIVÓRCIO
O divórcio é o rompimento da aliança, celebrada diante de Deus, perante um ministro, ou autoridade eclesiástica ou diante da sociedade, representada pela autoridade civil, encarregada de oficiar o casamento. Na prática, é a expressão marcante da falta de amor, de entendimento, de união e de fidelidade conjugal. Todo divórcio deixa marcas profundas nos que são alcançados por essa medida de caráter radical. Os que mais sofrem são os filhos, que não entendem porque seus pais não conseguem viver juntos, em amor, cuidando da missão de zelar pelo lar e pela família.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 81-82.
No Brasil, a partir da Constituição de 1967, com o advento da Emenda Constitucional de 28 de junho de 1977, foi permitido, de forma muito tímida e restrita, o instituto do divórcio. Para regulamentar o referido dispositivo constitucional foi editada a Lei n° 6.515/1977, que passou a disciplinar todos os procedimentos para a efetivação do divórcio, cujo pedido, à época, podia ser formulado por uma pessoa somente uma vez.
Só com o advento da Constituição Federal de 1988 é que a matéria foi institucionalizada, tendo o texto magno inserido este instituto de forma positiva no ordenamento jurídico nacional. A Constituição Federal vigente trata do divórcio no seu Art. 226, parágrafo 6o. O Supremo Tribunal Federal reconheceu que a Lei n° 6.515/1977, com as modificações que lhes deram as Leis n° 7.841/1989 e n° 8.408/1992, foi admitida na atual ordem constitucional do país. O Código Civil vigente (Lei n° 10.406, de 10 de janeiro de 2002) também disciplinou a matéria a partir do Art. 1.571 até o Art. 1.582. Dando um passo em direção à celeridade processual, foi editada a Lei n° 11.441 /2007, a qual autoriza que a separação e o divórcio consensuais, assim como a partilha de bens, em que não haja interesse de menores, sejam feitos diretamente em cartório, desde que com a presença obrigatória de advogado.
AVALIAÇÃO
Isso não significa que a Igreja seja obrigada a admitir o divórcio por qualquer motivo, salvo no caso das pessoas que só conheceram a Jesus quando já estavam nessa situação (Jo 6.37). Nem tudo o que é legal é ético: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convém" (ICo 6.12). As bases para o divórcio nas culturas judaica, grega e romana eram frouxas; entretanto, o Senhor Jesus e o apóstolo Paulo não se deixaram influenciar pela legislação vigente. Mas a Igreja precisa pronunciar-se sobre o assunto, uma vez que o Senhor Jesus lhe conferiu essa autoridade (Mt 16.19; 18.16-18). As igrejas, os ministérios ou as convenções devem estabelecer critérios embasados na Palavra de Deus. Há muito pouca referência ao divórcio nos primeiros séculos do cristianismo. Alguns dos pais da Igreja, Agostinho, por exemplo, consideraram equivocadamente o casamento um sacramento. A base dessa distorção é a VL, uma tradução malfeita de Jerônimo da palavra
grega mystêrion "mistério, segredo", em Efésios 5.32, traduzida pelo termo latino sacramentum, "sacramento".1 Erasmo de Roterdã descobriu esse e outros erros de tradução na VL e esse termo é um deles (MCGRATH, 2005, p. 89). É com base nessa visão que a Igreja Católica, ainda hoje, não permite o divórcio.
Os reformadores não consideravam o casamento um sacramento e tinham sobre o assunto uma visão mais voltada para a Bíblia, e não para a longa tradição da Igreja Católica. A Igreja Anglicana da Inglaterra apresenta dois relatórios: O Casamento, o Divórcio e a Igreja, datado de 1971, e O Casamento e a Tarefa da Igreja, de 1978. Segundo a Enciclopédia I lisLórico Teológica da Igreja Cristã esses documentos "recomendavam que a Igreja da Inglaterra relaxasse sua regra rigorosa, atual, de que nenhuma pessoa com cônjuge ainda vivo pode se casar na Igreja, embora pessoas divorciadas, que tenham recebido permissão para tal, possam ser admitidas à Santa Comunhão (ELWELL, 1988, p. 482).
Resumindo o que vimos até agora, existem duas linhas opostas sobre o divórcio: uma que crê que Jesus revogou o divórcio previsto em Deuteronômio 24.1-4; outra que admite que o Novo Testamento permite o divórcio em situações excepcionais, já discutidas. Analisando o divórcio à luz da Bíblia, vimos que ele estava previsto na lei de Moisés e era realizado nos tempos do Antigo Testamento. Era uma prática comum nas comunidades judaica, grega e romana, nos dias do ministério terreno de Jesus e de seus apóstolos. Vimos também que o divórcio está amparado pelo Novo Testamento nos seguintes casos: prática de prostituição (Mt 5.31,32; 19.9) e impossibilidade de reconciliação entre os cônjuges em casais mistos, desde que a iniciativa seja da parte descrente (1 Co 7.15). Fora isso, o divórcio será adultério, caso o divorciado ou a divorciada contraia novas núpcias.
John Stott, em sua obra Grandes Questões sobre Sexo, declara de maneira resumida o propósito de Deus com o casamento e de que maneira o divórcio é visto biblicamente, nos seguintes termos:
1. Deus criou o homem, no princípio, macho e fêmea, tendo ele mesmo instituído o casamento. Era seu propósito e ideal que a sexualidade humana se realizasse através do casamento, e que esta fosse uma união exclusiva, amorosa e vitalícia.
2. Em nenhum lugar da Escritura se aconselha ou se encoraja o divórcio. Pelo contrário, mesmo no caso de ser biblicamente justificado ele continua sendo um lamentável pecado em relação ao ideal divino.
3 .0 divórcio e o novo casamento são permissíveis (não imperativos) sobre duas bases. A primeira é aquela em que há uma parte inocente e outra culpada de imoralidade sexual. Em segundo lugar, o cristão pode concordar com a deserção do cônjuge no caso de este se recusar a viver com ele ou ela. Entretanto, em ambos os casos a permissão é concedida em termos negativos e relutantes. Somente querendo alguém se divorciar sobre o fundamento de infidelidade conjugal é que recasamento não resulta em adultério. Somente se a parte não cristã insiste na não convivência é que a parte cristã "não está mais sujeita" (STOTT, 1993, pp. 93, 94).
Sem essa compreensão sobre casamento e divórcio, fica difícil para o pastor aconselhar as pessoas que se encontram nessa situação. Quem defende tais princípios terá condições de êxito no aconselhamento para os casais. Essa linha resumida, traçada acima por John Stott, é o padrão que a maioria das igrejas evangélicas segue, e está amparada pela Palavra de Deus.
Afora as exceções previstas em Mateus 5.31,32; 19.9, ICoríntios 7.15, já discutidas nesta obra, existem casais crentes que esgotaram todos os recursos para a reconciliação. Esses casos devem ser analisados pela Igreja, por meio do pastor ou de comissões, para que o divórcio possa ser aceito ou não pela Igreja. Não é apenas por causa da falta do culpado que o divórcio terá validade aos olhos de Deus, pois, em algumas ocasiões, há intransigências que impedem a reconciliação. É necessário, pois, analisar as causas pelas quais o cônjuge culpado procede dessa maneira. Quais seriam os estímulos que provocaram tais reações? O simples fato de se estar divorciado legalmente, conforme a legislação brasileira, não garante o amparo bíblico. A Igreja não está obrigada a aceitar essas pessoas no rol de membros. Por isso, cada caso deve ser analisado cuidadosamente.
O problema do divórcio não se resume ao que temos visto até agora. Há o lado prático, extremamente complexo e, em muitos casos, de difícil conclusão. A injustiça, o ódio, as mágoas e os ressentimentos deixam sequelas que marcam para sempre a vida de ambas as partes, comprometendo toda a estrutura emocional, psicológica e espiritual. Há a destruição do lar, a situação dos filhos, principalmente se forem menores. Ou o pai vai tomar-se pai solteiro, ou a mãe, mãe solteira. Muitas vezes os filhos ficam traumatizados por toda a vida. Isso não raro envolve a família de ambos os lados, a Igreja e os amigos. Por essa e outras razões, a Bíblia não "ordena nem sequer encoraja o divórcio".
Considerando superados todos os problemas familiares, vem o lado espiritual. Se o cônjuge infiel divorciado vier ao arrependimento e pedir a sua reconciliação com a Igreja, qual deve ser a posição desta última? O Senhor Jesus disse que quem se casa com cônjuge divorciado ou divorciada, que tenha sido a parte infiel no primeiro casamento, comete adultério. Assim ambos estarão em adultério (Mt 19.9; Mc 10.11,12). Como a Igreja pode receber em comunhão uma pessoa que cometeu adultério, destruiu o próprio lar, depois vem com outro cônjuge pedir a sua reconciliação com Igreja, visto que à luz da Bíblia ambos estão em adultério? Será que não há reconciliação para situações dessa natureza?
A Bíblia nada declara sobre isso. Afirma apenas que eles estão em adultério, mas não diz se a situação é irreversível. Fica difícil generalizar, pois cada caso é um caso. Em situações extremas, cabe ao pastor da Igreja analisar cada situação. Quando o culpado pede reconciliação com a Igreja, estando sem cônjuge, é menos complicado, mormente se resolve tornar-se eunuco, vivendo sozinho (Mt 19.10-12). Do contrário, à luz da Bíblia, seu novo casamento será adultério. Mas, se a parte inocente ainda não contraiu novas núpcias, é a ocasião para a reconciliação do casal, mas o relacionamento conjugal só deverá acontecer após se casarem novamente, pois do contrário será adultério, visto que ainda não são "marido e mulher", mas divorciados.
Quanto ao que vem para Jesus já nessa situação, as condições são diferentes. Essa pessoa, após o encontro com Jesus, passou a ser nova criatura (2Co 5.17). Jesus disse: "O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora" (Jo 6.37); pois Deus não leva "em conta os tempos da ignorância" (At 17.30). Essa pessoa deve consertar o que puder. Fora isso, já foi alvejada pelo perdão e pela misericórdia de Deus, assim cada um deve ficar "diante de Deus no estado em que foi chamado" (ICo 7.24). E uma situação diferente daquela em que a pessoa se desviou ou abandonou o seu cônjuge.
No caso de casais mistos, isto é, quando um dos cônjuges se desvia, ou quando um se converte e o seu cônjuge não quer saber do evangelho, o ensino bíblico é que vivam juntos. Os casamentos mistos, nesse caso, são legítimos, não devendo haver a dissolução do matrimônio (1 Co 7.12-14). O divórcio não é e nunca foi um mandamento, mas uma permissão, em casos humanamente insolúveis. Deus assim permitiu por causa da pecaminosidade do gênero humano (Mt 19.8). Se a irmã ou o irmão está impossibilitado de viver com o seu cônjuge incrédulo,
sem possibilidades de reconciliação, o assunto deve ser levado ao pastor da Igreja. Esgotados todos os recursos para uma vida pacífica – Deus nos chamou para a paz (ICo 7.15) -, a Igreja poderá aprovar esse divórcio, pois nesse caso ele é válido e estará amparado pela Bíblia. O papel da Igreja é o de ajudar e orientar, e não rejeitar, as pessoas já divorciadas, procedendo como Jesus ao tratar com a mulher samaritana (Jo 4.17,18). A Igreja deve, assim, aconselhar os casais que estão com problemas a superar os obstáculos e buscar reconciliação.
SOARES. Esequias. CASAMENTO, DIVÓRCIO E SEXO A LUZ DA BÍBLIA. Editora CPAD. pag. 55-61.
I. O DIVÓRCIO NO ANTIGO TESTAMENTO.
1. A lei de Moises e o divórcio.
Divórcio
Os casamentos às vezes eram dissolvidos, podendo o homem divorciar-se da esposa se encontrasse “coisa indecente nela” (Dt 24.1). Os advogados judeus interpretavam essa frase de diferentes maneiras. Nos dias de Jesus, os seguidores da escola de Shammai acreditavam que ela se referia ao adultério ou má conduta sexual.
Os seguidores da escola de Hiliel acreditavam que a frase podia abranger até um jantar estragado. Na sociedade da época, o homem podia simplesmente avisar à mulher que se divorciara dela, mas os judeus eram obrigados a dar uma “carta de divórcio” por escrito,
anulando o contrato de casamento original. Parte da carta (ou documento) de divórcio permitia que a mulher se casasse de novo (Dt 24.1,2), mas uma moça que se casasse com um homem por ter sido antes estuprada por ele não podia ser mandada embora (Dt 22.28,29). O homem que acusasse falsamente a mulher de não ser virgem quando se casaram, não podia também divorciar-se dela (Dt 22.13-19). Se uma mulher divorciada voltasse a casar e seu novo marido morresse ou lhe desse carta de divórcio, o primeiro marido não podia casar-se de novo com ela (Dt 24.3,4); mas se não tivesse casado outra vez, ela e o primeiro marido podiam voltar a casar-se (Os 3). O povo judeu foi muito bem esclarecido, de modo a não restarem dúvidas.de que o divórcio era inaceitável para Deus (Ml 2.16), e Jesus repetiu que aqueles que Deus uniu ninguém poderia separar (Mt 5.31,32; 19.6). Não era permitido que as mulheres dessem início ao divórcio.
GOWER. Ralph. Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos. Editora CPAD. pag. 70.
O ANTIGO TESTAMENTO E A SUA INTERPRETAÇÃO
É do Antigo Testamento que vem o significado do termo "divórcio".
Na verdade, o assunto é tratado com escassez na Bíblia. As poucas referências bíblicas dificultam elucidar o tema e deixam margem a muitas interpretações. Tudo isso revela que se trata de algo que não é da vontade de Deus.
1 Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então, será que, se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia, ele lhe fará escrito de repúdio, e lho dará na sua mão, e a despedirá da sua casa. 2 Se ela, pois, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem, 3 e se este último homem a aborrecer, e lhe fizer escrito de repúdio, e lho der na sua mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, 4 então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a tomá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o SENHOR; assim não farás pecar a terra que o SENHOR, teu Deus, te dá por herança (Dt 24.1-4).
Aqui está o ponto de partida para compreendermos o assunto em foco. Primeiro, o divórcio não foi instituído por Deus nem é mandamento divino, já existindo na época de Moisés. O termo "quando" (v. la) mostra ser uma prática social à qual o grande legislador dos hebreus deu forma jurídica ao escrever: "Ele lhe fará escrito de repúdio, e lho dará na sua mão" (v. lb). O termo hebraico usado aqui para repúdio é keríthüth, "rompimento (de relações), demissão, divórcio", do verbo kãrath, "cortar fora" (DITAT, pp. 751, 752). Esse significado é o mesmo nas línguas semitas cognatas (GESENIUS-TREGELLES, 1982, p. 414; BAUMGARTNER, vol. I, 2001, pp. 497, 500). A LXX usa 0 termo grego apostasion, "certificado de divórcio" (BALZ & SCHNEIDER, vol. I, 2001, p. 423), o mesmo que aparece no Novo Testamento (Mt 5.31).
A expressão "escrito de repúdio" é, em hebraico, sêpher kenthüth, "carta, livro, escrito, termo, documento de divórcio, de repúdio". Essa carta de divórcio era um documento público reconhecido pelas autoridades judaicas, que liberava a mulher para se casar novamente com outro homem. A LXX emprega biblion apostasiou, expressão grega para designar a carta de divórcio (Dt 24.1,3). A expressão reaparece também em Isaías: "Onde está a carta de divórcio de vossa mãe, pela qual eu a repudiei?" (50.1), em Jeremias: "A rebelde Israel despedi e lhe dei o seu libelo de divórcio" (3.8) e em duas ocorrência do Novo Testamento: "Por que Moisés mandou dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la" (Mt 19.7) e "Moisés permitiu escrever carta de divórcio e repudiar" (Mc 10.4). A ARA traduz por "termo de divórcio".
Assim, o conceito de divórcio em toda a Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento, é de ruptura do casamento, o fim e o corte do relacionamento conjugal.
O texto sagrado continua: "Se ela, pois, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem" (Dt 24.2). Essa mesma mulher, em quem foi encontrada "coisa feia", motivo que deu causa à separação, tem a permissão da lei para contrair novas núpcias, pois o divórcio é o fim e a ruptura definitiva do casamento. A sociedade israelita naquela época aceitava essa situação, e ninguém era considerado adúltero por causa disso. Não há indícios, nem aqui nem em qualquer outra parte do Antigo
Testamento, que provem ser proibido um divorciado casar-se pela segunda vez. Jamais, na história de Israel, alguém ousou considerar adúltera uma mulher divorciada, ou vice-versa, que contraiu novas núpcias. O que a legislação mosaica proibia, naqueles dias, era o retorno da esposa ao seu primeiro marido, caso ela fosse divorciada ou viúva do segundo marido (vv. 3, 4).
A base para a realização do divórcio ficou sem solução nesse texto até a vinda do Messias. A expressão "Se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia" (v. 1), ou "coisa indecente" (ARA), é muito vaga e foi ponto de discussão ao longo dos séculos.
Essa mesma expressão aparece também em Deuteronômio 23.14, mas não nos ajuda a compreender a passagem em apreço. Isaías 50.1 nada de novo acrescenta. Jeremias 3.8 dá a entender que o adultério justifica o divórcio.
O clímax desses debates aconteceu pouco antes do nascimento de Cristo. Havia nos dias de Herodes, o Grande, dois rabinos que fundaram escolas: um deles chamava-se Shammai, extremamente radical, e o outro, Hillel, liberal. Eles discutiram sobre o assunto.
Shammai insistia dizendo que o divórcio seria legítimo somente em caso de adultério. A Mishná afirma que Shammai interpretava a expressão "coisa indecente" como pecado imoral (Gittin IX. 10). Ainda há muitos que pensam dessa maneira, acreditando que tal expressão diz respeito ao pecado pré-marital. O adultério era punido com a morte:
"Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera" (Lv 20.10); "Quando um homem for achado deitado com mulher casada com marido, então, ambos morrerão, o homem que se deitou com a mulher e a mulher; assim, tirarás o mal de Israel" (Dt 22.22). Se ambos, adúltera e adúltero, deviam ser apedrejados, logo não havia espaço para o divórcio. Visto que essa mesma lei se aplicava também ao pecado pré-marital: "Porém, se este negócio for verdade, que a virgindade se não achou na moça, então, levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão com pedras, até que morra; pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim, tirarás o mal do meio de ti" (Dt 22.20,21), tal interpretação é inconsistente.
Hillel, por outro lado, insistia que o divórcio podia ser aprovado por qualquer razão apresentada pelo marido. Relacionava a expressão "coisa indecente" a qualquer coisa de que o marido não gostasse na mulher. O rabino Akiva (falecido em 132 d.C.) interpretava a referida "expressão" como tendo 0 homem direito de se divorciar de sua mulher, caso encontrasse outra mais bonita. Alfred Edersheim, citando a Mishná, diz que "coisa indecente" para Hillel era "no sentido mais amplo possível, e declarava que havia base para 0 divórcio, se uma mulher perdia 0 jantar do seu marido" (EDERSHEIM, vol. 2, 1989, p. 280). Por exemplo, continua Edersheim, se passasse a achar feia a sua mulher, isso era considerado "coisa indecente". Se a comida preparada por ela já não 0 agradasse, era também tido como "coisa indecente". Assim, o homem se divorciava quando quisesse.
SOARES. Esequias. CASAMENTO, DIVÓRCIO E SEXO A LUZ DA BÍBLIA. Editora CPAD. pag. 36-39.
Os versículos primeiro a quarto deste capítulo abordam questões como o divórcio e um novo casamento, constituindo a sexta das vinte leis que ocupam esta seção.
24.1 Se um homem tomar uma mulher. No Dicionário foi examinado, de forma exaustiva, o assunto abordado neste artigo (ver Divórcio e Divórcio, Carta (Termo) de, quanto a completas informações). Achamos aqui “um antigo caso real que tratava de novo casamento após 0 divórcio. Quem tomava a iniciativa do divórcio era 0 homem, embora ele não pudesse agir sem seguir um processo legal, incluindo a formulação de uma carta de divórcio (ver Jer. 2.2,3), que dissesse 0 motivo” (Oxford Annotated Bible, comentando sobre este versículo). A prática de divórcio e novo casamento era comum no antigo Oriente Próximo e Médio, incluindo Israel. Jesus, porém, afirmou que essa lei era uma concessão, por causa da dureza dos corações, que tinham perdido de vista 0 propósito original e a santidade do casamento. Quanto a isso ver Mat. 19.8 ss.. Jesus limitou as causas do divórcio ao adultério, mas as palavras usadas neste texto, “por ter ele achado cousa indecente nela”, foram interpretadas das mais diversas maneiras pelos intérpretes rabínicos. De fato, a natureza vaga dessa afirmação permitia que um homem se divorciasse de sua esposa quase por qualquer motivo, até mesmo por “ter queimado seus biscoitos da primeira refeição”, conforme disse um intérprete. Visto que 0 adultério requeria a pena de morte, a “cousa indecente” deste versículo não pode referir-se a isso. Ver Deu. 22.22, quanto à execução de uma mulher principalmente adúltera.
E também não pode estar em pauta 0 homem descobrir que a mulher tinha tido sexo pré-marital, visto que isso também requeria execução (Deu. 22.20,21). Portanto, alguma coisa menos grave estava em pauta; e os homens tiravam proveito desse fato para que coisas até de somenos importância se tornassem razões legais para 0 divórcio.
O divórcio era um costume milenar, e não podemos achar nenhum trecho do Antigo Testamento que 0 tenha instituído. A passagem que ora comentamos simplesmente regulamentava um costume já existente. E essa regulamentação era: um homem só podia divorciar-se se tivesse uma boa causa (embora essa causa tivesse sido deixada indefinida). Era-lhe mister apresentar seu caso diante de um oficial público; um documento legal tinha de acompanhar 0 processo, determinando as razões, as condições etc. Talvez essas formalidades envolves- sem algum tempo e dinheiro, 0 que atuaria como um fraco aviso contra divórcios precipitados. A monogamia era a ordem original desde a criação (Gên. 1 e 2). O divórcio é algo repugnante para Deus (Mal. 2.14,15).
Os Targuns interpretam as palavras “cousa indecente” de várias maneiras: desonestidade; maneiras sem polidez; algum tipo de impureza cerimonial persistente etc. A escola rabínica de Hilel interpretava isso de forma liberal, incluindo até a “queima de algum alimento”; comida salgada demais; negligência quanto aos deveres domésticos. Akiba dizia que era suficiente que um homem achasse uma mulher “mais bonita” para que ele pudesse divorciar-se de sua esposa. Se a mulher deixasse de usar 0 véu em público; se se ocupasse de atos tolos em público; se tomasse um banho em lugar público, onde homens a pudessem observar; se tivesse um odor corporal desagradável; se flertasse com outros homens; se tivesse mau hálito; se tivesse sinais cutâneos pelo corpo... Quase qualquer razão era suficiente para que 0 pedido de divórcio fosse atendido. Não há que duvidar, Israel era uma sociedade patriarcal.
24.2 Regras acerca do Divórcio. Essas regras permitiam que a mulher, uma vez divorciada do primeiro marido, se casasse novamente. O divórcio era a dissolução do casamento, como se este nunca tivesse ocorrido. Havia apenas uma restrição: a mulher não podia casar-se de novo com o mesmo marido, se seu segundo casamento também fracassasse. Os ensinamentos de Jesus mostram-se muito mais estritos. Para Ele, uma mulher divorciada não poderia casar-se de novo, enquanto seu marido continuasse vivo. Se ela viesse a casar-se de novo antes da morte do marido, estaria cometendo adultério. Ver Mat. 5.31,32 e a exposição sobre esses versículos no Novo Testamento Interpretado. Alguns intérpretes dizem que temos aí um ideal que nunca foi realmente posto em prática na sociedade humana. Meu artigo do Dicionário, intitulado Divórcio, entra em todos os aspectos dessa questão.
24.3 Ou se este último homem... vier a morrer. Uma grande falta de sorte no casamento, sem dúvida! Ela fora desprezada pelo marido, casara-se de novo, mas somente para ser desprezada de novo. E todo o processo se repetia, seguindo as mesmas regras aqui determinadas. Ou então a morte do segundo marido deixara a mulher novamente descasada. Nesse caso, ela poderia casar-se pela terceira vez, contanto que não fosse com o seu primeiro marido. E as razões dessa proibição figuram no versículo seguinte. Todavia, poderia casar-se com um terceiro homem.
24.4 Depois que foi contaminada. Este texto não dá a entender que a mulher havia cometido adultério. A possibilidade do divórcio, segundo a legislação mosaica, dificilmente pode ser entendida como se permitisse 0 adultério. Mas o fato de ter-se casado com outro homem tinha contaminado a mulher. Ela se havia tornado uma mulher de segunda classe, que tinha passado de um homem para outro, mesmo que esse passar de mão em mão fosse permitido por lei. O texto subentende certo desgosto com 0 sexo, especialmente com 0 segundo caso de sexo. Cf. Deu. 23.10 e seus paralelos. O sêmen masculino tornava imundos tanto o homem quanto a mulher, mesmo que os dois estivessem liga- dos pelos laços do matrimônio. Um banho cerimonial (ver as notas a respeito em Lev. 14.8; 15.16; 17.15; Num. 8.7; 19.7,19) tinha de ocorrer após cada ato sexual, embora tal banho fosse deixado para o dia seguinte, quando era mais conveniente. Ver Deu. 15.18. Fica assim patente que se um banho cerimonial tinha de ocorrer até mesmo no caso de um primeiro e único matrimônio, quanto mais quando uma mulher ficava contaminada caso se casasse de novo, após ter-se divorciado. Se tais coisas eram permitidas, a mente hebreia via algo de sujo e contaminador na questão, mesmo que a mulher nunca chegasse a adulterar. Cf. Jer. 3.1. Jesus fazia um segundo casamento tornar-se adultério, caso 0 primeiro marido de uma mulher ainda não tivesse morrido. Logo Jesus levava a questão mais além do que 0 fazia a antiga mentalidade dos hebreus. Ver Mat. 5.31,32.
Mulheres que se Divorciavam de Seus Maridos? Isso jamais foi permitido na sociedade dos hebreus. Em tempos posteriores, entretanto, uma mulher dispunha de recursos para forçar o marido a divorciar-se dela. E assim ela acabava obtendo o mesmo resultado.
Contaminação e Pecado. Se uma mulher voltasse a seu primeiro marido, depois de ter sido esposa de um segundo homem, isso constituiria pecado, e de natureza tal que contaminava a terra inteira, pelo que devia ser evitado a todo custo. A terra era a herança que Yahweh tinha dado a Abraão e seus descendentes, por meio do Pacto Abraâmico (sobre 0 qual ver as notas em Gên. 15.18). A Terra Prometida era santa porque havia sido dada por Deus, o Santo, e não devia ser contaminada por meio de atos imprudentes e pecaminosos. A ideia é que esse pecado feminino era algo comunal, pois ninguém peca sozinho. Abominação. O autor sacro usou esse vocábulo forte para indicar tanto a idolatria quanto o adultério espiritual.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 843-844.
24.1-4 — Esta situação envolve o retorno de uma divorciada ao primeiro marido, após o casamento com um segundo homem.
24.1,2 — Coisa feia. A natureza do problema não é especificada, embora estivesse bastante clara no contexto original. E provável que fosse algo relacionado a um problema físico, tal como a inaptidão para conceber filhos. Neste caso, o marido poderia conceder o escrito de repúdio à sua esposa, o qual era um documento legal que provia direitos ao divorciado (Lv 21.7,14;22.13; Nm 30.9; Mt 19.3-9). Tal certificado permitia que a mulher se casasse novamente.
24.3,4 — Contaminada. Retornar ao primeiro marido após um segundo casamento provavelmente colocava a mulher na mesma posição de uma esposa infiel.
24.5,6 — Uma mó era uma pedra usada para triturar o cereal e transformá-lo em farinha. A combinação de duas mós constituía um instrumento familiar que gerava a provisão diária de alimento. O princípio é claro: uma família não poderia ser privada de suprir suas necessidades do dia-a-dia.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 345.
Dt. 24. Vv. 1-4. Quando a providência de Deus, ou uma má escolha no matrimônio, traz ao cristão uma tribulação, ao invés de uma ajuda idônea, ele preferirá de todo o seu coração levar a cruz, do que o alívio que tenda ao pecado, à confusão ou à desgraça. A graça divina santificará a sua cruz, sustentá-lo-á nela, e ensiná-lo-á a comportar-se de tal maneira que o seu problema seja paulatinamente mais tolerável.
HENRY. Matthew. Comentário Bíblico de Matthew Henry. Editora CPAD. Deuteronômio. pag. 37.
Deuteronômio 24. Leis da Família. 24:1-5.
O divórcio conforme permitido na Lei Mosaica (cons. Lv. 21:7, 14; 22:13 ; Nm. 30:9), por causa da dureza do coração dos israelitas Mat. 19:8; Mc. 10:5), punha em perigo a dignidade das mulheres dentro da teocracia. Por isso, o abuso da permissão foi prevenido, cercando o divórcio de regias técnicas e restrições (Dt. 24:1-4). A E.R.A. está certa em considerar os versículos 1-4 como uma só sentença, sendo que 1-3 constituem a condição e o 4 a conclusão. A E.R.C. dá a impressão de que o divórcio era obrigatório na situação descrita. Na realidade, o que era obrigatório não era o divórcio, mas (se alguém recorresse ao divórcio) um processo legal que incluía quatro elementos: a) Devia haver motivo sério para o divórcio. O significado exato das palavras coisa indecente (v. 1; cons. 23:14) é incerto. Não se trata de adultério, pois a lei prescrevia para isto a pena de morte (22:13 e segs.; Lv. 20:10; cons. Nm. 5:11 e segs.). b) Uma certidão da separação devia ser colocada na mão da mulher para sua subsequente proteção. O preparo deste instrumento legal implica no envolvimento de c) um oficio público que também deveria julgar a suficiência da base alegada para o divórcio. d) O homem devia fazer uma despedida formal – despedir de casa (v. 1).
O ponto principal desta lei, contudo, era que um homem não poderia tornar a se casar com sua esposa depois do divórcio, caso ela viesse a se casar novamente, mesmo se o seu segundo marido se divorciasse dela ou morresse. Em relação ao primeiro marido, a divorciada casada de novo era considerada contaminada (v. 4). Tal era a anormalidade desta situação, tolerada nos tempos do V.T., mas revogada por nosso Senhor no interesse do padrão original (Mt. 19:9; Mc. 10: 6-9; cons. Gn. 2:23, 24).
MOODY. Comentário Bíblico Moody. Deuteronômio. pag. 82-83.
24.1-4 - Alguns pensam que nessa passagem viabiliza o divórcio, mas não é o caso. Nela, apenas há o reconhecimento do divórcio como prática em Israel. Para uma melhor compreensão do objetivo desse texto, releia a passagem e verá que certamente não há sugestão para que o homem se divorcie de sua esposa por um capricho, pelo contrário. O divorcio era um ato extremo, colocava um ponto final o permanente no relacionamento do casal. Uma vez divorciados, os ex cônjuges poderiam casar com outras pessoas, mas jamais poderiam reatar um com o outro (Dt 24.4) Esta restrição tinha a finalidade de prevenir a separação por motivos frívolos. As pessoas deveriam pensar duas vezes antes de divorciar-se.
APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de estudo. Editora CPAD. pag.260.
2. A carta de Divórcio.
A carta d e divórcio. Era um documento legal, fornecido à mulher repudiada, a qual ficava livre para casar de novo. Chamava-se de “carta de liberdade” — “documento de emancipação” — que lhe dava direito a novo casamento (Duty, p. 29,30).
A carta de divórcio ou de repúdio deveria ser dada em presença de duas testemunhas, e as partes estariam livres para um novo matrimônio. Aliás, o divórcio só tinha sentido se houvesse em vista um novo casamento. Se assim não fosse, por que motivo a mulher receberia carta de divórcio? Seria simplesmente abandonada. Note-se, também, que a mulher não tinha direito de pedir divórcio. Era privilégio do homem. Este poderia escolher com quem viver, inclusive possuindo mais de uma mulher, além de ter concubinas a seu dispor.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 83.
DIVÓRCIO CARTA (TERMO) DE
No hebraico, sayfer, «escrito». No grego, bibIion, «Livrinho». No Antigo Testamento encontramos o «termo de divórcio», em Deu. 24:1. Em Isaías 50:1, a «carta de divórcio». A palavra grega, usada por trinta e uma vezes, principalmente no Apocalipse, é usada em Mat. 19:7, dentro da expressão «carta de divórcio», refletindo o hebraico sayfer. Um judeu
podia divorciar-se de sua esposa, simplesmente entregando-lhe esse certificado. Ver o NTI, em Mat. 19:7, quanto a detalhes sobre a questão. Esse documento. naturalmente, era preparado pelas autoridades religiosas judaicas, concordando com a lei da nação, por mais brutal que isso parecesse ser para as mulheres.
O termo grego gramma, «escrito», usado por catorze vezes, de Lucas 16:6 ali Tim. 3:15, também indicava uma «conta corrente», conforme se vê em Luc, 16:6, dentro da parábola do administrador injusto. E, em 11 Tim, 3:15, aponta para os livros sagrados, dentro da expressão usada por Paulo, «as sagradas letras». Paulo também usava a palavra para indicar as letras graúdas que ele escreveu, com suas próprias mãos, no autógrafo da epistola aos Gálatas, dentro da expressão -letras grandes» (Gál. 6:11).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora HAGNOS pag. 201.
II - O ENSINO DE JESUS A RESPEITO DO DIVÓRCIO.
1. A pergunta dos fariseus.
A Lei do Divórcio w. 3-12
Nós temos aqui a lei de Cristo no caso do divórcio, ocasionada, como algumas outras manifestações da sua vontade, por uma discussão com “os fariseus”. Ele suportou tão pacientemente as contradições dos pecadores, que as transformou em instruções para os seus próprios discípulos! Observe aqui:
I. O caso proposto pelos fariseus (v. 3): “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” Os fariseus lhe perguntaram isso para provocá-lo, e não porque desejassem ser ensinados por Ele. Algum tempo atrás, Ele havia, na Galileia, manifestado seu pensamento sobre esse assunto, contra aquilo que era uma prática comum (cap. 5.31,32); e se Ele, do mesmo modo, se pronunciasse agora contra o divórcio, eles fariam uso disso para indispor e enfurecer o povo desse país contra Ele, que olharia com desconfiança para alguém que tentasse diminuir a liberdade de que eles tanto gostavam.
Os fariseus esperavam que Ele perdesse o afeto das pessoas tanto por esse como por qualquer um dos seus preceitos. Ou então, a armadilha pode ter sido planejada dessa forma: se Ele dissesse que os divórcios não eram legais, eles o apontariam como um inimigo da lei de Moisés, que os permitia; se dissesse que eram legais, eles caracterizariam a sua doutrina como não tendo em si aquela perfeição que era esperada na doutrina do Messias, uma vez que, embora os divórcios fossem tolerados, eles eram vistos pela parte mais rígida do povo como não sendo algo de boa reputação. Alguns pensam que, embora a lei de Moisés permitisse o divórcio, ainda que houvesse uma causa justa, havia uma controvérsia entre os próprios fariseus, e eles desejavam saber o que Cristo diria sobre isso. Causas matrimoniais têm sido numerosas, e algumas vezes intrincadas e confusas; elas se tornam assim não por causa da lei de Deus, mas pelos desejos e pela loucura dos homens. Nesses casos, as pessoas frequentemente decidem o que vão fazer, antes de perguntarem qual seria a melhor solução.
A pergunta dos fariseus foi a seguinte: Será que um homem pode repudiar a sua mulher por qualquer motivo? O divórcio era permitido por alguns motivos, como por prostituição, mas o divórcio era praticado, como acontecia geralmente, por pessoas irresponsáveis, e por qualquer motivo. Será que ele poderia ser praticado por qualquer motivo que um homem pudesse julgar adequado (embora fosse, como sempre, frívolo), como também por qualquer antipatia ou desagrado? A tolerância, nesse caso, permitia isso: “Se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia, ele lhe fará escrito de repúdio” (Dt 24.1). Eles interpretavam esta passagem literalmente; e assim, qualquer desgosto, mesmo que sem motivo, poderia se tornar a base para um divórcio.
II. A resposta de Cristo para essa pergunta. Embora ela fosse apresentada para tentá-lo, mesmo sendo um caso de consciência, e de consciência pesada, Ele deu uma resposta satisfatória. Não foi uma resposta direta, mas foi eficaz, afirmando os bons princípios, como prova inegável de que os divórcios arbitrários que estavam sendo praticados, que tornavam os laços matrimoniais tão precários, não eram de forma alguma legítimos.
O próprio Cristo não daria a regra sem uma razão, nem declararia o seu julgamento sem uma prova nas Escrituras para apoiá-lo. Seu argumento é este: “Se estão, marido e mulher, pela vontade e desígnio de Deus, ligados pela mais rígida e íntima união, então eles não devem ser, levianamente e em qualquer ocasião, separados; se a ligação for consagrada, não poderá ser facilmente desfeita”. Para provar que existe tal união entre marido e mulher, Ele ressalta três pontos.
1. A criação de Adão e Eva. No que se refere a isso, Ele apela para o próprio conhecimento que eles tinham das Escrituras: “Não tendes lido?” Há alguma vantagem em discutir, tratar com aqueles que possuem e têm lido as Escrituras. Vocês têm lido (mas não têm considerado) “que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea” (Gn 1.27; 5.2). Note que será de grande utilidade para nós pensarmos frequentemente sobre nossa criação, como e por quem, por que e para que, fomos criados.
Ele os criou macho e fêmea, uma fêmea para um macho; de modo que Adão não poderia se divorciar de sua esposa, e tomar outra, porque não existia nenhuma outra para ser tomada. Isso, da mesma forma, sugeria uma união inseparável entre eles. Eva era uma costela tirada de Adão, de modo que ele não podia repudiá-la, porque não devia remover um pedaço de si mesmo, contradizendo as manifestas indicações da criação dela. Cristo faz uma breve alusão a isso, mas, recorrendo ao que eles tinham lido, Ele os remete ao registro original, onde é observado que, muito embora o restante das criaturas vivas tenha sido criado macho e fêmea, ainda assim isso não é dito no que se refere a nenhuma delas, mas apenas no que concerne à raça humana; porque a conjunção entre homem e mulher é racional, e planejada para propósitos mais nobres do que meramente a satisfação dos sentidos e a preservação da semente. E ela é, portanto, mais íntima e sólida do que aquela que existe entre macho e fêmea entre os animais, que não são capazes de se ajudar mutuamente como Adão e Eva. Por conseguinte, a forma de expressão é um tanto singular (Gn 1.27):
“E criou Deus o homem à sua imagem, macho e fêmea os criou”; algumas traduções da Bíblia em inglês trazem os pronomes “ele” e "eles” (singular e plural) de uma forma alternada. O singular é utilizado no princípio da criação, antes que se tomassem dois. Porém, mais tarde, eles se tornam novamente um, através de uma aliança de casamento, uma união que só poderia ser íntima e indissolúvel.
2. A lei fundamental do casamento é: “Deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher” (v. 5). A relação entre marido e mulher é mais íntima do que aquela que existe entre pais e filhos; então, se a relação filial não pode ser facilmente rompida, muito menos pode a relação de casamento ser rompida. Pode um filho abandonar seus pais, ou pode um pai ou mãe abandonar seus filhos, por qualquer motivo, seja ele qual for? Não, de modo nenhum. Muito menos pode um marido repudiar a sua esposa. Entre marido e esposa, a relação é mais íntima, e o laço da união é mais forte, do que entre pais e filhos - embora não por natureza, mas por desígnio divino. Observe que a relação pais-filhos é, em grande medida, substituída pelo casamento quando um homem deixa os seus pais para se unir à sua esposa. Veja aqui o poder de uma instituição divina. O resultado dela é uma união mais forte do que aquela que resulta das obrigações mais elevadas da natureza.
3. A natureza do contrato matrimonial. Esta é uma união de pessoas; os cônjuges “serão dois numa só carne”, de modo que (v. 6) “já não serão dois, mas uma só carne”. Os filhos de um homem são partes dele mesmo; mas a sua esposa é ele mesmo. Assim como a união conjugal é mais íntima do que aquela que existe entre pais e filhos, ela também é, até certo ponto, equivalente àquela união que existe entre um membro e outro no corpo natural. Uma vez que esta é uma razão pela qual os maridos devem amar suas esposas, também é uma razão pela qual eles não devem repudiá-las, pois “nunca ninguém aborreceu a sua própria carne”, ou a separou de si, “antes, a alimenta e sustenta”, e faz tudo o que pode para preservá-la. Os dois serão um; por isso deve haver apenas uma esposa, pois Deus fez apenas uma Eva para um Adão (Ml 2.15).
A partir daí, o Senhor deduz: “O que Deus ajuntou não separe o homem”. Note que: (1) Marido e mulher são uma união de Deus; synezeuxen - Ele os colocou sob um mesmo jugo, assim é a palavra, e é muito significativa. O próprio Deus instituiu o relacionamento entre marido e mulher no estado de inocência. O casamento e o sábado sagrado são as instituições, mais antigas. Embora o casamento não seja exclusivo da igreja, mas comum para o mundo, mesmo sendo caracterizado por uma instituição divina, que é aqui ratificada pelo nosso Senhor Jesus, ele deve ser conduzido como uma união sagrada, e santificado pela Palavra de Deus, e pela oração. Um respeito consciencioso para com Deus nessa instituição teria uma boa influência sobre o dever, e, consequentemente, sobre a tranquilidade e o conforto do relacionamento.
(2) Marido e mulher, sendo unidos pela lei de Deus, não podem ser separados por qualquer lei humana. Homem nenhum deve separá-los; nem o próprio marido, nem alguém designado por ele; nem mesmo o magistrado, pois Deus jamais lhe deu autoridade para fazer isso. “O Senhor, Deus de Israel, diz que aborrece o repúdio” (Ml 2.16). O homem não deve tentar separar aquilo que Deus uniu. Esta é uma regra geral.
III. Uma objeção levantada pelos fariseus contra o dever do homem não separar o que Deus ajuntou - uma objeção não destituída de plausibilidade (v. 7): “Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la?” Jesus utilizou as Escrituras para argumentar contra o divórcio; os fariseus, por sua vez, alegam a autoridade das Escrituras para defendê-lo. Note que as aparentes contradições na Palavra de Deus são grandes obstáculos para homens de mente corrompida. E verdade, Moisés era fiel àquele que o designou, e não ordenou nada além daquilo que recebeu do Senhor; mas, nesse caso, o que eles chamam de mandamento era apenas uma concessão (Dt 24.1), planejada mais para conter os excessos do que para encorajar o divórcio em si. Os próprios doutores judeus observam tais limitações naquela lei; o divórcio não podia ser concedido sem uma grande deliberação.
Uma razão particular deve ser apontada: o atestado de divórcio deveria ser escrito, e, como uma ação judicial, deveria ter todas as suas formalidades executadas e registradas. Ele deveria ser entregue nas mãos da própria esposa (o que obrigaria os homens, se eles tivessem alguma consideração, a refletir), e os cônjuges eram expressamente proibidos de se juntar novamente.
IV. A resposta de Cristo a essa objeção.
1. Ele retifica o erro dos fariseus com relação à lei de Moisés. Eles a chamaram de um mandamento, Cristo a chama somente de permissão, uma tolerância. Corações carnais tomarão o braço se lhes dermos a mão. A lei de Moisés, nesse caso, era uma lei política que Deus concedeu como o Governante daquele povo; e o divórcio era tolerado por razões de Estado. Sendo o rigor da união matrimonial o resultado de uma lei não-natural, mas formal, em alguns casos a sabedoria de Deus prescindia dela através do divórcio, sem qualquer depreciação de sua santidade.
Mas Cristo diz aos fariseus que havia uma razão para essa tolerância - e esta não se devia, de modo algum, a algum mérito deles: “Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossa mulher”.
Moisés se queixou do povo de Israel em seu tempo, pois o coração do povo estava endurecido (Dt 9.6; 31.27), endurecido contra Deus; naquela ocasião, a permissão para o divórcio se devia ao fato de eles estarem endurecidos contra o próximo; os homens eram geralmente violentos e ultrajantes, qualquer que fosse o caminho que seguissem tanto em seus desejos como em suas paixões. E então, se a eles não tivesse sido permitido repudiar suas esposas quando expressassem antipatia por elas, eles as teriam tratado com crueldade, teriam agredido e abusado delas, e talvez as matassem. Note que não há maior crueldade no mundo do que um homem ser rude e áspero com a sua própria esposa. Os judeus, ao que parece, eram abomináveis por isso, e então lhes foi permitido repudiá-las; melhor divorciar-se delas do que fazer pior, do que cobrir “o altar do Senhor de lágrimas” (Ml 2.13). Uma pequena complacência para satisfazer a vontade de um louco, ou de um homem que delira, pode evitar um dano maior. Leis formais podem ser prescindidas em prol da preservação da lei da natureza, pois “Deus quer misericórdia e não sacrifício”. Entretanto, aqueles que tornaram isso necessário são infelizes, são perdidos que possuem um coração endurecido.
E ninguém pode desejar ter a liberdade do divórcio, sem virtualmente confessar a dureza de seu coração. Jesus diz: “por causa da dureza do vosso coração”, não apenas daqueles que viviam naquela época, mas de toda a sua semente. Deus não apenas vê, mas também antevê a dureza do coração dos homens. Ele adaptou os mandamentos e a providência do Antigo Testamento ao temperamento daquela gente, e o fez através do medo. Observe também: a lei de Moisés considerava a dureza do coração dos homens, mas o Evangelho de Cristo, a cura; e sua graça tira do homem o coração de pedra e lhe dá um coração de carne. Através da lei, vinha o conhecimento do pecado; mas através do Evangelho, ele é derrotado.
2. Jesus os leva de volta à instituição original: “Mas, ao princípio, não foi assim”. Note que as perversões que se insinuam em qualquer lei de Deus devem ser expurgadas recorrendo-se à instituição original. Se a cópia estiver incorreta, ela deverá ser examinada e retificada pelo original. Desse modo, o apóstolo Paulo, ao corrigir as transgressões da igreja de Corinto em relação à Santa Ceia, recorreu ao que aconteceu naquela reunião (1 Co 11.23): “Porque eu recebi do Senhor”. A verdade estava disponível desde o princípio; nós devemos então perguntar “pelas veredas antigas, qual é o bom caminho” (Jr 6.16), e devemos fazer as devidas correções, não pelos padrões recentes, mas pelas regras antigas.
3. Jesus define a questão através de uma lei explícita: “Eu vos digo” (v. 9), e isso está de acordo com que Ele havia dito antes (cap. 5.32). Naquela ocasião, isso foi dito em um sermão; aqui, em uma discussão. Mas é a mesma Palavra, pois Cristo não muda. Entretanto, em ambas as passagens:
(1) Ele permite o divórcio em caso de adultério; sendo que a razão da lei contra o divórcio consiste na máxima: “Serão dois numa só carne”. Se a esposa se prostituir e se tornar uma só carne com um adúltero, a razão da lei cessa, e também a lei. O adultério era punido com a morte pela lei de Moisés (Dt 22.22). Então, o nosso Salvador suaviza o seu rigor, e determina que o divórcio seja a penalidade.
O Dr. Whitby entende isso não como adultério (porque o nosso Salvador usa a palavra porneia - fornicação), mas como a impureza cometida antes do casamento, que é descoberta mais tarde; porque se fosse cometida depois do casamento, seria um pecado capital, e assim o divórcio não seria necessário.
(2) O Senhor desaprova isso em todos os outros casos: “Qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério”. Essa foi uma resposta direta para a pergunta dos fariseus, e que não estava de acordo com a lei. E nisso, como em outras coisas, o tempo do evangelho é “tempo de correção” (Hb 9.10). A lei de Cristo tende a restabelecer o homem em sua integridade primitiva; a lei do amor, do amor conjugal, não é um novo mandamento, mas era desde o princípio. Se considerarmos quantos danos às famílias e países, quantas confusões e desordens resultariam de divórcios arbitrários, entenderemos o quanto essa lei de Cristo é para o nosso próprio benefício, e que amigo o cristianismo é para nossos interesses seculares. Alei de Moisés, que permite o divórcio por causa da dureza do coração dos homens, e a lei de Cristo, que o proíbe, sugerem que estando os cristãos sob a dispensação do amor e da liberdade, pode-se, legitimamente, esperar uma brandura de coração entre eles, pois eles não serão desumanos como os judeus, pois “Deus chamou-nos para a paz”. Não haverá oportunidade para divórcios se os cônjuges forem indulgentes um com o outro, e perdoarem um ao outro no amor, como aqueles que são, e esperam ser, perdoados, e que descobriram que Deus não nos repudiará (Is 50.1). Não há necessidade de divórcios se os maridos amarem suas esposas, se as esposas forem obedientes a seus maridos, e se ambos viverem juntos como herdeiros da graça da vida: e estas são as leis de Cristo. Não encontramos uma lei como essa em todas as leis de Moisés.
V Aqui está uma sugestão dos discípulos contra essa lei de Cristo (v. 10): “Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar”. Parece que os próprios discípulos estavam relutantes em renunciar à liberdade do divórcio, considerando-a como um bom expediente para preservar o bem-estar na condição de casado; e então, como crianças mal-humoradas, se eles não tivessem o que queriam ter, jogariam fora aquilo que tinham. Se a eles não for permitido repudiar suas esposas quando lhes aprouver, eles não terão esposas de modo nenhum. Entretanto, desde o princípio, quando o divórcio não era permitido, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só”, e os abençoou, declarando como abençoados aqueles que fossem, dessa forma, completamente unidos; no entanto, a menos que possam ter a liberdade do divórcio, os discípulos acham que é melhor o homem não se casar. Note que: 1. A natureza corrupta não tolera o controle e as restrições, e de bom grado romperia os laços de Cristo ao meio para obter a liberdade para a sua própria luxúria. 2. E uma atitude tola.e impertinente para os homens, abandonar os confortos desta vida por causa das cruzes que habitualmente os acompanham, como se precisássemos necessariamente sair do mundo por não termos todas as coisas que desejamos; ou precisássemos assumir uma ocupação ou uma condição improdutiva, porque a sobrevivência nele se tornou a nossa obrigação. Não. Qualquer que seja a nossa condição, devemos direcionar nossas mentes para isso: ser agradecidos pelos nossos confortos, obedientes às nossas cruzes, sabendo que quando pensarmos nos nossos dias, deveremos ter em mente que “Deus fez este em oposição àquele”, e assim fazermos o melhor com o que tivermos (Ec 7.14). O fato de não podermos desfazer os laços do casamento a nosso bel-prazer não significa que não devamos nos submeter a eles; mas que quando nos submetermos, deveremos decidir nos comportar de acordo por amor, submissão, e paciência, o que tornará o divórcio a coisa mais desnecessária e indesejável que pode existir.
VI A resposta de Cristo a essa sugestão (w. 11,12), na qual: 1. Ele reconhece que é bom para alguns não se casar: Aquele que é capaz de receber essa palavra, que a receba - “Nem todos podem receber esta palavra, mas só aqueles a quem foi concedido”. Cristo consentiu com o que os discípulos disseram, “não convém casar”; não como uma objeção contra a proibição do divórcio, como eles o pretendiam, mas dando-lhes uma regra (talvez não menos desagradável para eles): que aqueles que têm a dádiva da abstinência, e não sentem qualquer necessidade de casar-se, fazem melhor se continuarem solteiros (1 Co 7.1); pois aqueles que não estão casados têm a oportunidade, se tiverem disposição, de se preocupar mais com as “coisas do Senhor, em como hão de agradar ao Senhor” (1 Co 7.32-34), sendo menos comprometidos com os cuidados desta vida, e tendo uma maior disponibilidade de tempo e pensamento para preocupar-se com coisas melhores. O crescimento da graça é melhor do que o crescimento da família, e a comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo deve ser preferida à qualquer outra comunhão.
2. Ele desaprova, como absolutamente prejudicial, proibir o casamento, porque “nem todos podem receber esta palavra”; realmente poucos podem - é preferível que as cruzes da condição de casado sejam carregadas do que esses homens caírem em tentação para evitá-las; “é melhor casar do que abrasar-se”. Cristo fala aqui de uma dupla incapacidade para o casamento.
(1) Aquela que é uma calamidade pela providência de Deus; tal como a daqueles que nascem eunucos, ou se tornam assim através dos homens, e que, sendo incapazes de corresponder a uma finalidade do casamento, não devem se casar. Mas que lhes seja permitido compensar essa calamidade com a oportunidade que existe na condição de solteiro - servir melhor a Deus.
(2) Aquela que é uma virtude pela graça de Deus; como é a daqueles que se fizeram eunucos “por causa do Reino dos céus”. Essa é uma incapacidade para o casamento, não no corpo (e alguns, por erro de interpretação dessa Escritura, prejudicaram a si mesmos de forma tola e perniciosa), mas na mente. Aqueles que se tornaram eunucos alcançando um sagrado desinteresse por todos os prazeres da condição de casado, têm uma decisão estabelecida, na força da graça de Deus, de se privar completamente deles; e por jejum, e outros exemplos de mortificação, subjugaram todos os desejos voltados a eles. Estes são aqueles que podem receber esta palavra; além disso, não devem obrigar a si mesmos, através de voto, a nunca se casar. Eles só devem entender que, da forma como pensam agora, pretendem não se casar.
Então: [1] Essa simpatia pela condição de solteiro deve ser concedida por Deus; pois ninguém pode recebê-la, exceto “aqueles a quem foi concedido”. Note que a abstinência é um dom especial de Deus para alguns, e não para outros; e quando um homem, na condição de solteiro, descobre por experiência que tem esse dom, ele pode resolver permanecer solteiro, e (como o apóstolo diz, 1 Coiintios 7.37) ficar “firme em seu coração, não tendo necessidade”, mas tendo poder sobre a sua própria vontade para se manter assim. Mas os homens, nesse caso, devem tomar cuidado para não se gabarem de um falso dom (Pv 25.14).
[2] A condição de solteiro deve ser escolhida por amor ao Reino dos céus. Pois naqueles que resolvem nunca se casar apenas para que possam economizar nas despesas, ou para satisfazer um temperamento mal-humorado e egoísta, ou ainda para ter uma maior liberdade para servir a outros desejos e prazeres, isto está muito longe de ser uma virtude - é um vicio perverso.
Mas quando é por amor à religião - não sendo um ato meritório em si mesmo (em que os papistas o transformaram), mas apenas como um meio para manter a mente mais aplicada e mais direcionada aos serviços da religião, e para que, não tendo família para sustentar, a pessoa possa fazer mais obras de caridade -, isto é aprovado e aceito por Deus. Note que essa condição é melhor para nós. E ser escolhido e comportar-se adequadamente, que é o melhor para a nossa alma, nos leva a nos prepararmos mais e a nos preservarmos para o Reino dos céus.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 240-243.
3. A LEI MOSAICA ACERCA DO DIVÓRCIO (Mt 19:7, 8)
Como tantas pessoas que gostam de "discutir religião", os fariseus não estavam interessados em descobrir a verdade, mas apenas em defender a si mesmos e suas convicções.
Foi esse desejo que os levou a perguntar sobre a lei judaica do divórcio registrada em Deuteronômio 24:1-4. Algumas versões da Bíblia deixam claro que Moisés deu apenas um mandamento: a esposa divorciada não poderia voltar para o primeiro marido, caso fosse rejeitada pelo segundo marido. Moisés não ordenou o divórcio; apenas o permitiu. Ordenou que o marido desse à ex-esposa uma carta de divórcio; mas, caso a esposa se casasse e se divorciasse novamente, não poderia voltar ao primeiro marido. Trata-se de uma lei extremamente sábia, pois, para começar, o marido pensaria duas vezes antes de se livrar apressadamente de sua esposa, uma vez que não poderia tê-la de volta. Além disso, levaria tempo para achar um escriba (nem todos podiam redigir documentos legais) e, durante esse período, o casal separado poderia se reconciliar. Os fariseus estavam interpretando a lei de Moisés como se fosse um mandamento. Jesus deixa claro que Moisés estava apenas dando permissão para o divórcio. Mas a que Moisés se referia com as palavras
"ter ele achado coisa indecente nela"? No hebraico, isso quer dizer "alguma questão de nudez", mas não se refere a pecado sexual. Trata-se de um equivalente a "algo vergonhoso" (ver Gn 2:25; 3:7, 10). A interpretação dessa frase foi a causa da divisão que deu origem às escolas do rabino Hillel e do rabino Shammai, estudiosos judeus conceituados do primeiro século. Hillel seguiu uma linha bastante liberal e afirmou que o marido poderia divorciar-se da esposa por quase qualquer razão, enquanto Shammai seguiu uma linha mais rigorosa, afirmando que Moisés estava falando somente de pecado sexual. Qualquer lado que Jesus escolhesse tomar partido seria motivo de ofensa para alguém.
Os judeus possuíam várias leis referentes ao casamento e devemos examiná-las, a fim de ter uma melhor perspectiva. Se, por exemplo, um homem se casasse e descobrisse que sua esposa não era virgem, podia tornar público o pecado da mulher e providenciar para que fosse apedrejada (Dt 22:13-21). É evidente que deveria ter provas disso, pois, do contrário, teria de pagar uma multa e não poderia jamais se divorciar da esposa. Essa lei protegia tanto o homem quanto a mulher.
Se um homem suspeitasse de infidelidade da esposa, deveria seguir os procedimentos descritos em Números 5:1 Iss. Não se pode mais seguir esses procedimentos (que, sem dúvida, incluíam elementos de julgamento divino), pois não há mais sacerdócio nem tabernáculo.
É importante lembrar que a lei de Moisés determinava a pena de morte para os que cometessem adultério (Lv 20:10; Dt 22:22).
Os inimigos de Jesus lançaram mão dessa lei quando tentaram armar uma cilada para ele (Jo 8:1). Embora não haja registro no Antigo Testamento de que alguém tenha sido apedrejado por cometer adultério, essa era a lei divina. A experiência de José (Mt 1:18-25) indica que, ao tratarem de esposas adúlteras, os judeus usavam o divórcio em vez do apedrejamento. Por que Deus ordenou que a pessoa adúltera fosse morta por apedrejamento? Por certo, para servir de exemplo e para advertir as pessoas, pois o adultério corrompe a estrutura da sociedade e da família. A fim de haver estabilidade na sociedade e na igreja, é preciso haver compromisso no casamento e fidelidade do marido para com a esposa bem como do casal para com o Senhor.
Era necessário que Deus preservasse Israel, pois o Salvador prometido descenderia dessa nação. Deus opôs-se ao divórcio em Israel, pois enfraquecia a nação e representava uma ameaça para o nascimento do Messias (ver Ml 2:10-16).
No entanto, havia outro motivo para a pena capital: deixava o cônjuge fiel livre para se casar novamente. A morte rompe os laços do casamento, pois o casamento é uma união física (Rm 7:1-3). Era importante que as famílias tivessem continuidade em Israel, a fim de que pudessem proteger sua herança (Nm 36).
Antes de passar para a seção seguinte, convém observar um fato importante: o divórcio que Moisés autoriza em Deuteronômio 24, na verdade, representa um rompimento da relação matrimonial original. Deus permitia que a mulher se casasse novamente, e esse segundo casamento não era considerado uma forma de adultério. Seu segundo companheiro era chamado de "marido", não de adúltero. Isso explica como foi possível a mulher samaritana ter tido cinco maridos e, ainda assim, estar vivendo com um homem que não era seu marido (Jo 4:16-18). Ao que parece, os cinco casamentos anteriores haviam sido legais e de acordo com as Escrituras. Isso significa que o divórcio legal rompe o relacionamento matrimonial. O homem não pode romper esse relacionamento com suas próprias leis, mas Deus pode. O mesmo Deus que dá as leis para unir as pessoas também pode dar leis para separá-las. Tratasse de algo que só pode ser feito por Deus, nunca pelos homens.
Por fim, Jesus deixa claro que a lei mosaica do divórcio era uma concessão da parte de Deus. A lei original de Deus quanto ao casamento não deixava espaço para o divórcio, mas essa lei começou a vigorar antes de o homem pecar. Em lugar de ter duas pessoas vivendo juntas em conflito constante, com um dos cônjuges ou ambos procurando satisfação fora do casamento, Deus preferiu permitir o divórcio. Esse divórcio incluía o direito de se casar novamente. Os fariseus não perguntaram sobre a possibilidade de casar novamente, pois esse não era o problema. Aceitavam o fato de que as duas partes divorciadas procurariam outros cônjuges e de que isso era permitido por Moisés.
WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. I. Editora Central Gospel. pag. 90-92.
A escola de Shammai. Este rabino tinha uma interpretação radical de Deuteronômio 24.1. Segundo seu entendimento, a carta de divórcio só podia ser dada à mulher em caso de fornicação ou de infidelidade conjugal. De certa forma, era uma evolução do pensamento judaico, pois uma leitura cuidadosa de Deuteronômio 24.1 dá a entender que a mulher só podia ser despedida se o homem achasse nela “coisa feia”, ou “coisa indecente”, sem que isso fosse a prática de infidelidade ou prostituição, visto que às mulheres infiéis só restava a pena de morte (cf. Lv 20.10; Dt 22.20-22). Mas a visão de Shammai era bem aceita por grande parte dos intérpretes da Lei. Veremos que Jesus corroborou esse pensamento, quando doutrinou sobre o assunto.
A escola d e Hillel. Este era um rabino de visão liberal, e favorecia a posição do homem em relação à mulher. Para ele, o homem poderia deixar sua mulher, divorciando-se dela, “por qualquer motivo”, por qualquer “coisa feia”, ou “coisa indecente”. Tais coisas seriam as que já enumeramos antes: andar de cabelos soltos, falar com homens que não fossem seus parentes, maltratar os sogros, falar muito alto etc. Assim, o homem podia divorciar-se a seu bel-prazer.
Com isso, o divórcio, ao invés de proteger a mulher, dando-lhe direito a uma nova oportunidade de constituir um lar, fez dela uma vítima em potencial dos caprichos machistas da época. Segundo o Dr. Alfred Edersheim, citado por Da Silva (p. 30), a mulher podia, “como exceção, divorciar-se, no caso de ser o marido leproso ou trabalhar em serviço sujo, por exemplo, em curtume ou em caldeira, e também no caso de apostasia religiosa, caso abraçasse uma religião herética”. Esse último conceito não tem base veterotestamentária. Era uma evolução da lei judaica.
1 O divórcio não faz parte dos planos de Deus. Assim como a poligamia, no Antigo Testamento, que Ele permitiu ou melhor, tolerou. Há casos em que é impossível manter um relacionamento conjugal. Se o esposo espanca a esposa; se ele vive traindo sua mulher; se ela vive na prática de adultério; se um ou outro entra pelo caminho do homossexualismo; tais práticas são tão abomináveis, que desfazem o vínculo conjugal, e, na permissibilidade de Cristo, Ele admite o divórcio. Não como regra, mas como exceção, como um “remédio amargo” para um mal maior. Se não fosse assim, um servo ou uma serva de Deus seriam atingidos duas vezes: uma pelo Diabo, que destrói relacionamentos; e, outra, pela igreja local, que condenaria uma vítima a passar o resto da vida em companhia de um ímpio, ou viver sob o jugo do celibato, que não faz parte dos planos de Deus. Disse o Senhor, o Criador: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18). Mas graças a Deus que não é assim.
O evangelho de Cristo é sábio, justo e bom. Jesus não incentiva nem aprova o divórcio, mas o permite como um meio de reparar um dano moral de consequências drásticas, como um direito ao cônjuge que permanece fiel a Deus e ao casamento. Viver solteiro pode ser opção, mas não um estado que foi planejado por Deus. No final do texto em que Jesus responde aos fariseus, seus discípulos ficaram estarrecidos. “Disseram-lhe seus discípulos: Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar” (Mt 19.10). Ficaram chocados com o ensino de Jesus, que só admite divórcio e novo casamento, no caso de infidelidade. Eles que viviam numa sociedade patriarcal e machista, estavam acostumados a ver o divórcio “por qualquer motivo”.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 83-84.
2. O ensino de Jesus.
Os ensinamentos de Jesus. No Novo Testamento, Jesus reafirmou o caráter permanente do matrimônio, ressaltou que a permissão divina para o divórcio foi dada apenas por causa da natureza pecaminosa do homem (e não porque fosse o ideal de Deus), afirmou que a imoralidade sexual era a única causa legítima para o divórcio, e ensinou claramente que a pessoa que se divorcia de um cônjuge infiel e se casa com outro comete adultério (e faz com que o novo cônjuge também cometa adultério). Como os líderes judeus que questionavam o significado da palavra impureza, alguns eruditos modernos discutiram o significado da expressão “exceto em caso de relações sexuais ilícitas”, em Mateus 5.32 e 19.9. A palavra grega traduzida por “relações sexuais” é porneia, que se refere a todo tipo de intercurso sexual fora do casamento. Este comportamento viola o conceito de uma só carne, que é fundamental ao matrimônio bíblico.
Mesmo quando há infidelidade envolvida, o divórcio não é ordenado; ele é simplesmente permitido. O perdão e a reconciliação ainda são preferíveis ao divórcio. No entanto, se o divórcio ocorrer nestas circunstâncias, a opinião de muitos eruditos evangélicos é que a parte inocente está livre para se casar novamente.
COLLINS. Gary R. Aconselhamento Cristão Edição Século 21. Editora Vida Nova. pag. 531.
A opinião pública sobre o divórcio estava dividida durante o tempo do ministério terreno de Jesus, pois naquela época o divórcio era uma prática generalizada e o casamento estava em vias de ser banalizado.
O estado da mulher samaritana pode servir como uma amostra da situação: "A mulher respondeu e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido, porque tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido" (Jo 4.17,18). O pensamento de Hillel contribuía para esse estado de coisas. Jesus não deixou a situação como estava; algo precisava ser feito, por essa razão falou sobre o assunto em seu célebre discurso do Sermão do Monte.
31 Também foi dito: Qualquer que deixar sua mulher, que lhe dê carta de desquite. 32 Eu, porém, vos digo que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de prostituição, faz que ela cometa adultério; e qualquer que casar com a repudiada comete adultério (Mt 5.31, 32).
Se a expressão "também foi dito" (v. 31a) é referência a alguns ensinos dos antigos rabinos ou diretamente à lei, não vem ao caso aqui, pois direta ou indiretamente o assunto remete a Moisés (Dt 24.1-4). O termo grego para "desquite" é apostasion, o mesmo usado na LXX (Dt 24.1,3). A ARA e a TB empregam, para a segunda palavra, um termo mais preciso: "carta de divórcio", em vez de "carta de desquite" (v. 31). O mesmo procedimento legal desde Moisés se mantém aqui: o marido devia entregar na mão da repudiada um documento público dizendo ser ela divorciada (v. 31b). Assim, Jesus não revogou o divórcio nem instituiu um novo tipo de repúdio diferente do mencionado na lei. Se ele tivesse introduzido algo radicalmente novo, isso estaria claro.
A lei deixou claro que o divórcio é a dissolução do vínculo matrimonial,
um termo legal para o ato de remover as obrigações do contrato de casamento, mas não esclareceu qual era a base para justificar a ruptura definitiva do casamento. Jesus reconhecia a autoridade de Moisés e também a existência do divórcio, e, em hipótese alguma, discutiu a validade do preceito mosaico, apenas substituiu a expressão vaga "coisa feia" ou "indecente" por "a não ser por causa de prostituição" (v. 32). Assim, restringia as razões para justificar o motivo desse ato de repúdio, pois o que deveria ser exceção se tornara prática comum naquela época. O episódio da mulher samaritana é uma amostra daquele contexto social.
O divórcio a que Jesus se refere é o mesmo da lei de Moisés (Dt 24.1-4), o que significa permissão para novas núpcias, pois ele disse: "E qualquer que casar com a repudiada comete adultério" (v. 32b).
Considerava a existência do novo casamento. Ele repete essa observação na discussão com os fariseus (Mt 19.9). A lei não proíbe as novas núpcias da parte culpada no divórcio, pois a mulher em quem foi encontrada "coisa feia" tinha a mesma permissão para se casar outra vez (Dt 24.1,2). Jesus, contudo, não deixou a situação da mesma maneira que Moisés, já que a parte culpada estará em adultério se contrair novas núpcias, bem como o cônjuge, o seu novo cônjuge estará também em adultério (Mc 10.11,12).
Não são poucos os que recusam a aceitar a autenticidade da cláusula de exceção: "a não ser por causa de prostituição". Afirmam que se trata de interpolação posterior acrescentada por copistas ou escribas.
Entre esses expositores, estão os que admitem que Mateus escreveu essa frase, mas que Jesus jamais teria dito essas coisas. A Crítica Textual confirma a presença dessa cláusula em todos os manuscritos e papiros gregos, o que é em si mesmo um atestado científico de sua autenticidade. Na impossibilidade de negar essa verdade, outros afirmam que Mateus escreveu o que Jesus não disse e usam como base para a sua declaração o silêncio de Marcos e Lucas. O assunto em Lucas está restrito a um só versículo (Lc 16.18), omitindo a exceção.
Mateus omite o fato de a mulher poder divorciar-se do marido, como era comum nas legislações romana e grega. Por outro lado, Marcos omite a expressão "por qualquer motivo" (Mt 19.3; Mc 10.2) e a exceção apresentada em Mateus 19.9, além da pergunta dos discípulos e a resposta de Jesus sobre os eunucos (Mt 19.10-12). Segundo O Novo Dicionário da Bíblia: "o motivo para a omissão da cláusula excepcional em Marcos e Lucas pode ter sido que nenhum judeu, romano ou grego jamais duvidou de que o adultério constituía motivo para divórcio, e os evangelistas consideraram isso como ponto pacífico" (p. 1.017). Mateus escreveu para os judeus e a tal cláusula estava no contexto deles desde os dias de Shammai e de Hillel; ela é autêntica e Jesus falou exatamente como está escrito.
3 Então, chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?
4 Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea 5 e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? 6 Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. 7 Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la? 8 Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossa mulher; mas, ao principio, não foi assim. 9 Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério (Mt 19.3-9).
"É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?" (v. 3). Na passagem paralela (Mc 10.2), não aparece a expressão "qualquer motivo". Se a passagem for analisada simplesmente no texto de Marcos, dá a impressão de que os judeus queriam saber se Jesus questionava a legitimidade da lei de Moisés. Não é o que ocorre aqui. Isso fica evidente porque todos sabiam que Moisés escreveu sobre o assunto.
Assim, está mais do que claro que não era essa a questão, mas que se tratava das bases para o divórcio. A pergunta dos fariseus girava em torno das razões de se legitimar o divórcio. Eles não perguntaram se o divórcio era ilícito, mas se seria lícito fazê-lo por "qualquer motivo".
Essa era a grande controvérsia das escolas rabínicas, principalmente das disputas entre os seguidores de Hillel e os de Shammai. Os fariseus queriam saber de qual deles Jesus seria partidário, porém o Mestre foi mais profundo, desconsiderou totalmente essas escolas rabínicas e reivindicou a Palavra de Deus.
A pergunta era sobre a base para o divórcio, entretanto Jesus começou a sua resposta pelo casamento, levando as autoridades judaicas à Palavra de Deus. Nos w . 4-6 vemos que o Senhor Jesus foi além da letra, baseando-se no espírito da lei de Moisés. Ele recorreu aos propósitos originais de Deus com relação ao casamento estabelecido desde o princípio. Primeiro ele combinou as palavras de Gênesis 1.27, "macho e fêmea os criou", com as de Gênesis 2.24, "Portanto, deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (w. 4, 5), mostrando com isso que Deus é o Criador também da sexualidade humana e que o casamento é uma ordem divina.
Ambos são de origem divina. Ele também afirmou que o texto sagrado da criação diz respeito à indissolubilidade do matrimônio, com as seguintes palavras: "Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem" (v. 6). A expressão de Jesus em foco diz respeito ao propósito divino e original para o casamento.
Diante da resposta de Jesus, que provou nas próprias Escrituras dos judeus que Deus instituiu o casamento originalmente indissolúvel, perguntaram-lhe os fariseus: "Por que mandou então Moisés dar carta de divórcio e repudiar?" (v. 7; Mc 10.4). Jesus já havia dito que o divórcio nunca esteve no propósito divino e que Moisés não mandou nem estabeleceu esse repúdio, mas simplesmente o permitiu. Os fariseus queriam saber por que isso estava na lei de Moisés e Jesus respondeu:
"Por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio" (v. 8). As autoridades judaicas eram incapazes de compreender entre a vontade absoluta de Deus (Gn 1.27; 2.4) e a provisão legal como concessão temporária ao pecado humano (Dt 24.1-4).
A palavra grega usada para "dureza de coração" é sklêrokardia, formada das palavras skleros, "seco, duro, áspero, dificultoso, exigente",» que diz respeito ao homem extremamente obstinado, e kardia, "coração".
Essa combinação só aparece no grego bíblico, tanto no Novo Testamento grego como na LXX (Dt 10.16; Jr 4.4). Com isso Jesus dizia que o divórcio estava fora do plano de Deus desde o princípio. Ele mostrou que se trata de uma concessão ao pecado humano como pro visão da misericórdia divina para limitar os danos procedentes da pecaminosidade humana. Podia servir, por exemplo, como saída honrosa numa situação de infidelidade (Mt 1.19). Uma vez que a mulher era considerada um objeto, que podia até ser comprada por alguém, o divórcio veio como válvula de escape, como proteção para ela. Jesus restaurou a posição da mulher, reconhecendo o seu direito de se divorciar do marido, conforme previam as legislações romana e grega (Mc 10.11,12). Assim, ele conferiu à mulher os mesmos direitos do homem, conforme o plano de Deus no princípio.
O adultério é um dos efeitos da queda no Éden. Todo o adultério é pecado, mas nem todo o pecado é adultério. O segundo casamento depois do divórcio é adultério, são palavras do Senhor Jesus; portanto, é um risco muito grande alguém querer se aventurar nessa inglória empreitada. É um casamento que estará sob contínuo julgamento divino.
SOARES. Esequias. CASAMENTO, DIVÓRCIO E SEXO A LUZ DA BÍBLIA. Editora CPAD. pag. 41-44.
A lei do Senhor acerca do casamento (Mt 19:9-12; 5 :31, 3 2 )
Com as palavras: "Eu, porém, vos digo", Jesus está afirmando ser Deus, pois somente Deus pode instituir ou alterar as leis do casamento.
Declara que o casamento é uma união permanente que só pode ser rompida por causa de pecado sexual. A palavra impureza, no Novo Testamento, abrange vários tipos de pecados sexuais, e sua definição como fornicação ou "pecado sexual entre duas pessoas não casadas" não se aplica a esse caso, pois Jesus está se referindo a pessoas casadas. Devemos imaginar que os 23 mil homens que se entregaram à lascívia em Baal-Peor (Nm 25) eram todos solteiros? E a admoestação de Atos 15:20, 29 refere-se apenas aos membros solteiros da igreja?
O casamento é uma união física permanente que só pode ser rompida por uma causa física: morte ou pecado sexual (a meu ver, o homossexualismo e a bestialidade também se aplicam). Os seres humanos não podem romper a união, mas Deus pode. Sob a lei do Antigo Testamento, o pecador era apedrejado até a morte. Mas a igreja de hoje não empunha a espada (Rm 13:1-4). Acaso o adultério e a impureza sexual eram mais sérios sob a lei do que o são hoje? Claro que não! Hoje, tais pecados são ainda piores, quando consideramos a revelação completa da graça e santidade de Deus que temos agora em Jesus Cristo. Ao que parece, podemos concluir que o divórcio no Novo Testamento é o equivalente à morte no Antigo Testamento: libera o cônjuge inocente para se casar novamente.
É importante observar que a nova lei de casamento e divórcio instituída pelo Senhor tem como fundamento três leis anteriores. Da lei do Éden, Jesus pegou o princípio de que o casamento é uma união física que somente pode ser rompida por uma causa física e que apenas Deus tem poder de permitir o rompimento da união. Do sétimo mandamento, pegou o princípio de que o pecado sexual rompe, de fato, a união do casamento. E da lei mosaica do divórcio, pegou o princípio de que Deus pode ordenar o divórcio e romper a união, e a parte livre pode casar-se novamente sem ser culpada de adultério.
Assim, Jesus ensina que há somente uma base legal para o divórcio: as relações sexuais ilícitas. Se duas pessoas se divorciarem sob qualquer outro pretexto e se casarem com outra pessoa, estarão cometendo adultério.
Jesus não ensinou que o cônjuge ofendido deve se divorciar. Sem dúvida, há espaço para o perdão, para a cura e para a restauração do relacionamento rompido. Essa deve ser a abordagem cristã da questão. Infelizmente, porém, por causa da dureza do coração humano, há ocasiões em que se torna impossível curar as feridas e salvar o casamento. O divórcio é o último recurso, não a primeira opção.
Casamentos felizes não são acidentes, mas sim resultado de compromisso, amor, compreensão mútua, sacrifício e trabalho duro. Se um marido e uma esposa estão cumprindo os votos de seu casamento, desfrutarão de um relacionamento cada vez mais profundo que os satisfará e os manterá fiéis um ao outro. Exceto pela possibilidade de uma tentação repentina, nenhum marido ou esposa cogitaria ter um relacionamento extraconjugal, visto que seu relacionamento em casa é cada vez melhor e satisfatório. E o amor puro do marido e da esposa é uma excelente proteção até mesmo contra tentações repentinas.
A reação dos discípulos aos ensinamentos de Cristo mostrou que não concordavam com ele. "Se não há nenhum jeito de pular fora de um casamento horrível, então é melhor permanecer solteiro!", argumentaram. Jesus não queria que eles considerassem o divórcio uma "solução", pois, se o fizessem, não tratariam o casamento com a devida seriedade.
Em Mateus 19:12, Jesus deixa claro que cada homem (e mulher) deve considerar a vontade de Deus com respeito ao casamento. Algumas pessoas não devem se casar por causa de problemas físicos ou emocionais congênitos. Outros não devem se casar por causa de suas responsabilidades para com a sociedade - aqueles que foram feitos "eunucos pelos homens" (Mt 19:12). Uma filha ou filho único que deve tomar conta de seus pais idosos pode ser um exemplo dessa categoria. Outros, como o apóstolo Paulo, permanecem solteiros para melhor servir ao Senhor (1 Co 7:7).
É bastante apropriado que os ensinamentos de Jesus acerca do casamento sejam seguidos da bênção às crianças, pois as crianças são a herança maravilhosa dos que se casam. Jesus não considerou as crianças uma maldição ou um fardo. "De modo que já não são mais dois, porém uma só carne" - esse conceito se cumpre na geração de filhos, e o amor dos pais aprofunda-se e amadurece ao ser compartilhado com os outros membros da família.
Os pais levaram as crianças a Jesus para que fossem abençoadas. Essa passagem não se refere, de maneira alguma, ao batismo nem mesmo à salvação, pois as crianças que ainda não são capazes de prestar contas de seus atos (Is 7:16) sem dúvida alguma são salvas pela morte de Cristo (Rm 5:1 7-21). As crianças nascem pecadoras (SI 51:5), mas se morrem antes de poder prestar contas de seus atos, são regeneradas e levadas para o céu (2 Sm 12:23; SI 23:6).
Essas crianças que Jesus pegou no colo e pelas quais orou certamente foram privilegiadas. O costume atual de consagrar nossos filhos ao Senhor procura seguir esse exemplo. Como são felizes as crianças cujos pais estão casados na vontade de Deus, procuram obedecer ao Senhor e as levam até Jesus para serem abençoadas.
WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. I. Editora Central Gospel. pag. 92-93.
3. Permissão para novo casamento.
Os ensinamentos sobre o novo casamento. A controvérsia sobre o divórcio nos círculos judaicos, pelo menos no tempo de Cristo, estava centrada nas causas. Algumas pessoas dentro da comunidade judaica nunca puseram em dúvida o direito de se casar novamente depois de um divórcio. Hoje em dia, o foco da discussão nos meios evangélicos está colocado na questão das segundas núpcias.
De acordo com vários autores: Deuteronômio 24.2 prova que o divórcio dissolve um casamento e dá o direito de se casar novamente. Esta passagem não obriga a pessoa a se casar de novo, mas garante esse direito se a pessoa quiser [...].
A exceção explicitada em Mateus 5.32 e Mateus 19.9, indica claramente que, quando o cônjuge pratica fornicação (porneia) e ocorre um divórcio, o cônjuge fiel tem o direito de se casar novamente. Jesus parece estar ensinando nesta passagem que, enquanto o divórcio torna o contrato sem efeito, a imoralidade habitual torna o pacto sem efeito e, portanto, dá à parte fiel uma oportunidade de se casar novamente. Jesus não obriga as pessoas a se casarem de novo. No entanto, fica claro em Mateus 19.9 que ele presume que um segundo casamento irá ocorrer [...]. Em ICoríntios 7.15 [...] como é o cônjuge incrédulo que toma a decisão de ir embora e desencadeia o divórcio, [...] o crente fica livre para casar-se outra vez, se desejar.
Também neste caso as segundas núpcias não são obrigatórias. Mesmo sendo permitido um segundo casamento, esta atitude nem sempre é sensata. Paulo recomendou que as pessoas que não eram casadas (isso poderia incluir os ex-casados) permanecessem solteiras, e muitos concordariam com um autor moderno que apresentou algumas razões para não se casar. Se os problemas do passado não foram corrigidos ou resolvidos, se o indivíduo não tem uma ideia clara sobre o novo casamento, ou se ele não tem muita vontade de se casar outra vez, então é melhor continuar solteiro.
COLLINS. Gary R. Aconselhamento Cristão Edição Século 21. Editora Vida Nova. pag. 532.
NOVO CASAMENTO
1. Novos Casamentos Populares. Há homens e mulheres tão ciumentos que proíbem seus cônjuges de casarem-se novamente, mesmo depois de terem eles morrido. Isso é ridículo. Conta-se a história de uma esposa ciumenta que, em seu leito de morte, tentou convencer seu esposo a não se casar novamente. Ele retrucou: Isso eu não lhe posso prometer. Mas posso prometer-lhe que farei melhor a próxima vez», E também há histórias de fantasmas em que uma falecida esposa volta para perseguir a nova esposa de seu ex-marido. Ao que parece, espíritos masculinos não se dão ao trabalho de voltar para assombrar outros homens.
2. Novos Casamentos Eclesiásticos. Na Igreja Católica Romana, o clero não se casa, pelo que, nessa organização religiosa, não existe o problema de novos casamentos. No clero inferior da Igreja Ortodoxa Oriental (os padres, mas não os bispos) é permitido o casamento, mas não um segundo casamento. Assim, é porque estaria envolvi do o ideal de um-homem-uma-mulher, tanto no matrimônio literal quanto no noivado espiritual entre Cristo e sua Igreja. Para que esse ideal não seja violado. o clero ortodoxo não torna a casar-se.
3. Novos Casamentos, no Novo Testamento. Podemos alistar três casos, a saber:
a. Quando o outro cônjuge morre. Os trechos de Rom. 7:1-3 e I Cor. 7:39 deixam claro que um novo casamento por parte de um crente, depois da morte de seu cônjuge, é espiritualmente legitimo e permissível, contanto que se faça «no Senhor», ou seja, com outro crente em Cristo.
b. Quando um dos cônjuges divorcia-se do outro por motivo de adultério do outro (ver Mat. 5:31,32; 19:3-9). O cônjuge inocente, pois, pode casar-se novamente. No entanto, se uma parte da Igreja aprova isso com um sim, outra parte reprova com um não. Concordo com aqueles que dizem sim. Por outra parte, de acordo com I Tito 3:2 e I Tim. 1:6 (segundo alguns estudiosos), uma pessoa divorciada e novamente casada não deveria assumir posto de liderança na Igreja. a menos que extraordinariamente qualificada (conforme alguns dizem). Também concordo com isso, embora a maioria discorde.
c. A exceção paulina, Um crente pode divorciar-se legal e espiritualmente de seu cônjuge, se este é incrédulo. e se esse cônjuge incrédulo é que quer o divórcio (I Cor. 7:10-15). Diante de tal conjuntura o crente pode casar-se de novo, tendo sido abandonado por seu cônjuge. Essa é a interpretação de alguns (incluindo eu mesmo), embora outros neguem tal direito. Se não é possível um novo casamento, nesse caso, então é difícil perceber como é que tais crentes não ficam sujeitos à «escravidão». Em minha estimativa, tais crentes também podem exercer autoridade na Igreja, embora isso também seja negado por outros intérpretes, que aplicam. rigorosamente, os textos de Tito 3:2 e I Tim. 1:6.
4. Pontos de Vista Mais Liberais. Muitos intérpretes insistem em que as regras neotestamentárias sobre o divórcio e um novo casamento são parciais, porquanto existem razões ainda mais fortes para o divórcio do que o adultério, incluindo a insanidade e a criminalidade, os maus tratos, as perseguições, os abusos físicos, etc. Ver o artigo geral sobre o Divórcio, onde essas questões são ventiladas.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 4. Editora HAGNOS pag. 526-527.
III - ENSINOS DE PAULO A RESPEITO DO DIVÓRCIO.
O divórcio na visão paulina.
O apóstolo Paulo enfrentou alguns dos maiores questionamentos que perturbaram a igreja cristã nos seus primórdios. Um deles, sem sombra de dúvidas, foi a questão do divórcio. E ele soube posicionar-se com elevado discernimento espiritual, sob a direção divina. Interpretando a doutrina de Cristo sobre o divórcio, o apóstolo dos gentios apresentou sérias argumentações doutrinárias a respeito do assunto.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 84-85.
1. Aos casais crentes.
Aos casais crentes — “aos casados” (1 Co 7.10). Esta passagem refere-se aos “casais crentes”, os quais não devem divorciar-se. Essa é a “regra geral”. Se não houver algum dos motivos permissivos (Mt 19.9 e 1 Co 7.15), não há qualquer justificativa para o casal crente se divorciar.
Sabemos que há cristãos que são, na prática, “discípulos” de Hillel, que querem o divórcio “por qualquer motivo”. Se há desentendimentos, incompatibilidade de gênio, ou se a esposa ficou feia (ou o marido), o caminho não é o divórcio, mas a reconciliação com o perdão sincero, ou o celibato, caso sejam esgotados todos os recursos para a vida em comum.
Não vemos, na Bíblia, qualquer razão que justifique o divórcio para os casais cristãos, quando não há as exceções previstas na Palavra de Deus.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 83.
7.10-16 — Paulo deixou de se preocupar com os celibatários e passou a falar dos casados. Ele discorreu sobre os mandamentos que Cristo deixou sobre o tema enquanto esteve na terra, além de apresentar a visão que ele tem como apóstolo do Senhor.
7.10,11 — Não eu, mas o Senhor. Quando Cristo esteve na terra, Ele disse que não nos devemos divorciar de nosso cônjuge. Em vez de divórcio, Paulo usou a palavra chorizo traduzida pelo verbo apartar-se. A ideia é a mesma: o marido e a esposa cristãos não devem deixar um ao outro. A afirmação adicional de que, se o casal se divorciar, deve ficar sem casar condiz com o ensinamento de Jesus (Mc 10.9-12).
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 422.
7:10: Todavia, aos casados, mando, não eu mas o Senhor, que a mulher não se aparte do marido.
Neste ponto encontramos o parecer do apóstolo dos gentios acerca do
divórcio. (Quanto ao problema inteiro do «divórcio», que é abordado em
seus pormenores, e com várias interpretações dos trechos bíblicos que falam sobre essa questão, ver as notas expositivas acerca de Rom. 7:3). As diversas escolas dos judeus diferiam sobre essa questão. Assim é que a escola de Hilel assumia o ponto de vista mais liberal, típico da atitude masculina. Segundo essa escola, um homem podia divorciar-se de sua mulher, mas não esta de seu marido, e isso praticamente por qualquer razão, contanto que encontrasse alguma imundícia nela. E essa «imundícia» era interpretada com ridícula liberalidade. (Ver Deut. 24:1). Já a escola de Shammai era mais estrita, permitindo o divórcio somente em caso de adultério. Naturalmente, a poligamia e o concubinato não eram consideradas relações adúlteras, de acordo com a legislação judaica, motivo por que o divórcio estava limitado praticamente aos contactos sexuais ilícitos, com a mulher de outro homem. E isso reduzia grandemente o número dos casos em que um homem se divorciava de sua legítima esposa, meramente para ter outra mulher. Pois poderia deitar-se com ela, sem divorciar-se de sua esposa verdadeira, e isso com sanção da legislação interpretativa do judaísmo.
A posição original do Senhor Jesus, acerca de toda essa questão do divórcio, parece ser aquela que aparece no evangelho de Marcos, onde não é dado qualquer motivo que permita o divórcio. (Ver Marc. 10:2-12). O evangelho de Mateus modifica essa posição extrema, mais para perto da interpretação da escola de Shammai, permitindo o divórcio sob a condição do adultério; e talvez com a mesma definição de adultério que era aceita por aquela escola. É bem possível que essa tenha sido a posição da igreja cristã primitiva.
A posição de Paulo sobre essa questão, até onde podemos determiná-la, alicerçados no sétimo capítulo da epístola aos Romanos e na presente secção, era a mesma expressa pelo Senhor Jesus, conforme o evangelho de Marcos; e essa posição é que não há qualquer base para o divórcio, embora Paulo abra uma exceção. Mas, aquilo que Paulo estipula não se aplica ao caso de um crente, quando casado com uma mulher incrédula, embora se aplique ao cônjuge incrédulo, que queira «separar-se» do cônjuge crente.
Neste último caso, o crente não está «obrigado» a conservar os laços matrimoniais. (Ver o décimo quinto versículo deste capítulo). No entanto, se o casal se compõe de dois crentes, temos de reverter a posição ensinada pelo Senhor Jesus, a qual não admite qualquer exceção. (Ver o décimo primeiro versículo deste capítulo). Mas, se Paulo fazia qualquer ideia quanto à possibilidade dessa exceção, ele nada diz a respeito. O crente não está «sujeito» às obrigações matrimoniais quando seu cônjuge incrédulo quer separar-se dele. Isso significa, logicamente, que o crente tem a liberdade de casar-se novamente, que é o oposto do que é dito quando se trata de dois crentes (ver o décimo primeiro versículo), porque, nesse caso, «ela» precisa permanecer sem marido.
Alguns estudiosos, entretanto, procurando defender um duplo padrão, um para o homem e outro para a mulher, supõem que o homem pode casar-se novamente, mesmo que se tenha separado de sua esposa, sendo ambos crentes. Todavia, isso não concorda com a posição judaica, porque, ali, sem importar qual a situação exata do divórcio, tanto o homem como a mulher têm o direito de se casarem novamente. O que se pode concluir de tudo isso, portanto, é que Paulo parece proibir novo casamento, tanto para o homem como para a mulher, quando se tra ta de crentes, embora o cônjuge crente possa casar-se outra vez, se porventura seu primeiro cônjuge era incrédulo.
Para os judeus, o casamento entre os pagãos não era válido. Por essa razão, quando alguém se tornava judeu, é como se tivesse nascido de novo. E assim, quaisquer contratos de casamento porventura anteriormente firmados, ficavam sem valor, não impedindo tal pessoa de contrair matrimônio com uma pessoa judia. Parece que Paulo reconhece até certo ponto essa atitude, embora também reconheça a «validade» dos casamentos mistos, entre crentes e incrédulos, algo que os judeus não reconheciam, no caso de casamentos entre judeus e gentios, conforme aprendemos através da correta interpretação do décimo quarto versículo deste mesmo capítulo.
Muitos intérpretes bíblicos modernos não têm ficado satisfeitos com as provisões do divórcio, conforme elas se encontram nas Escrituras. Esses, apesar de não considerarem errôneas essas provisões, pelo menos acham-se inadequadas, incompletas. (Ver a explanação sobre isso, igualmente, nas notas expositivas sobre Rom. 7:3, onde o problema inteiro é ventilado com mais riqueza de detalhes do que aqui).
«...não eu, mas o Senhor...» O que Paulo quer dizer é que suas recomendações sobre o divórcio, que ele faz agora, nos versículos décimo e décimo primeiro, não eram de sua própria lavra, mas antes, estavam baseadas sobre instruções conferidas pelo próprio Senhor Jesus. As declarações de Cristo sobre o divórcio figuram entre as declarações mais bem confirmadas, dentro da tradição dos evangelhos, tanto no evangelho original—o de Marcos—como no ensinamento tradicional intitulado «Q», que foi usado tanto por Mateus como por Lucas. (Ver Marc. 10:5-9; Mat. 5:31 e ss.; 19:3-11 e Luc. 16:18). Conforme foi mencionado antes, algumas variantes ocorrem nessas tradições, provavelmente devido a adições feitas durante o período da igreja primitiva, modificando até certo ponto a posição inflexível de Jesus sobre essa questão. Evidentemente Paulo não tinha consciência da exceção proposta pelo evangelho de Mateus, porquanto a ignorava. Paulo escreveu esta primeira epístola aos Coríntios antes da publicação de qualquer dos nossos quatro evangelhos. Portanto, não fez aqui qualquer alusão aos mesmos, mas antes, às tradições orais dos ensinamentos e declarações de Jesus, o que, finalmente, veio a ser concretizado em forma escrita, nos nossos quatro evangelhos. As referências do apóstolo Paulo às declarações de Jesus são extremamente raras, e esta é uma das mais significativas dessas referências.
Paulo estabelece distinções entre suas próprias opiniões pessoais (ver os versículos primeiro a nono), suas próprias declarações «inspiradas» (ver o quadragésimo versículo), e os mandamentos conhecidos de Cristo (versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo). Abordava nesta secção o problema, porque tal questão se levantara no seio da igreja cristã de Corinto. O fato que ele estipula, «...que a mulher não se separe do marido...», mostra-nos que esse era o tipo de caso ou de casos sobre os quais tinha ouvido dizer, ou, pelo menos, que esses eram os casos mais numerosos de separação. Ê bem provável que alguma mulher, membro da igreja de Corinto, tenha pedido o conselho de Paulo sobre essa delicada questão. Pois, na sociedade coríntia, as mulheres podiam divorciar-se de seus maridos, conforme era comum no império romano, nos dias de Paulo, em contraste com as sociedades judaicas, onde a mulher não tinha o direito de divorciar-se de seu marido, mas tão-somente o homem podia divorciar-se de sua mulher. Paulo lembra aqui, porquanto, que as instruções dadas pelo Senhor Jesus já haviam respondido às perguntas formuladas por aqueles crentes de Corinto. É verdade que, na sociedade moderna, grande porcentagem, que talvez forme até uma maioria quase absoluta, dos divórcios, são obtidos pelas mulheres. E isso, na maioria dos casos, esteja com base no direito. Talvez a mesma coisa ocorresse na sociedade pagã dos dias de Paulo.
Paulo proíbe o divórcio com base em qualquer motivo, incluindo o desejo de entrar na vida do celibato, o que provavelmente era a causa que levava algumas mulheres crentes de Corinto a desejarem abandonar seus maridos, os quais não queriam concordar com elas acerca de uma «mútua abstinência sexual». É evidente que as mulheres crentes, mais do que os homens crentes, se deixavam impressionar pelos argumentos dos ascetas, visto que elas já tinham impulsos sexuais mais fracos. É quase certo que isso era motivo de dissensão em vários lares crentes de Corinto. Isso, por sua vez, provocava separações, divórcios. E tudo supostamente a fim de seguir algum princípio religioso mais elevado. Mas Paulo lembra aqui que o Senhor Jesus proibiu o divórcio em termos gerais, que se aplicaram a todos os casos, sem exceção.
7:11: se, porém, se apartar, que fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.
O apóstolo dos gentios reiterava aqui a tradição, bem-conhecida na igreja cristã primitiva, ensinada originalmente pelo Senhor Jesus, no que tange ao divórcio. Essa tradição foi amplamente ventilada nos comentários sobre o versículo anterior. O evangelho de Marcos concorda com o que Paulo diz aqui, visto ser aquele o único documento que obviamente concorda com as verdadeiras opiniões de Jesus em tudo. Os demais evangelhos sinópticos— Mateus e Lucas—acrescentam certas modificações criadas pela igreja cristã, a fim de enfrentarem determinadas situações críticas, de conformidade com os princípios exarados pela escola interpretativa de' Shammai, os quais permitiam o divórcio por motivo de adultério, permitindo que ambos os cônjuges casassem novamente, visto que o adultério desfaz o contrato do casamento. Os judeus desconheciam o casamento apenas do cônjuge «inocente» em segundas núpcias. Para eles, uma vez dissolvido o casamento, isso era o fim de seus efeitos obrigatórios, pelo que também permitiam que tanto o homem como a mulher se casassem novamente.
A maioria dos intérpretes, comentando sobre as passagens paralelas dos evangelhos de Mateus e Lucas, permitem somente o novo casamento do cônjuge inocente. Mas outros bons intérpretes acreditam que, a despeito das claras afirmativas constantes nesses dois evangelhos, a igreja cristã primitiva mui provavelmente assumia a atitude tipicamente judaica sobre a questão. (Ver Mat. 5:31 e ss. e 19:33 ss.). O trecho de Rom. 7:3 nos apresenta a nota expositiva que sumaria a questão em sua inteireza. Porém, a despeito das modificações que possam ter sido adicionadas às declarações originais do Senhor Jesus (conforme são vistas no evangelho de Marcos, o qual não dá margem a qualquer exceção que permita o divórcio, e certamente nenhum novo casamento de qualquer dos cônjuges, inocentes ou culpados, porquanto nos problemas matrimoniais raramente existe mesmo qualquer cônjuge «inocente»), parece que ó próprio Senhor Jesus, defendendo o ideal de «um homem para uma mulher», não podia dar lugar a qualquer divórcio dentro desse ideal, pelo que também nunca abordou qualquer possibilidade de «novo casamento» enquanto ambos os cônjuges estiverem vivos. Não possuímos evidências da existência de qualquer outra instrução dada pelo Senhor Jesus quanto a essa particularidade, a não ser que o presente versículo deixe subentendido que Jesus declarou algo sobre isso.
O texto de Marc. 10:5-9, que certamente é a forma mais pura das declarações do Senhor Jesus sobre essa questão, não envolve divórcio e nem qualquer consideração sobre novas núpcias. Já o apóstolo Paulo considera aqui a possibilidade de divórcio, para os crentes, embora tenha proibido novas núpcias até mesmo para o cônjuge «inocente» (o que é permitido em Mat. 19:9). Entretanto, a regra exarada pelo Senhor Jesus é «universal», aplicando-se a todos os casais; ao passo que a regra de Paulo se aplica exclusivamente aos «crentes», pois imediatamente em seguida encontramos a «exceção paulina» (no décimo quinto versículo deste capítulo), que remove a servidão matrimonial nos casos de casamentos «mistos», isto é, entre crentes e incrédulos. Uma vez removida essa «servidão», é permitido novo casamento, com a condição que seja realizado «...somente no Senhor...» (versículo trinta e nove deste mesmo capítulo), isto é, contanto que se case com outro crente. Não obstante, qualquer casamento já firmado ou por firmar, entre crente e incrédulo, é «legítimo», conforme declara o décimo quarto versículo deste capítulo, embora nunca seja recomendado ao crente que procure cônjuge incrédulo. Contudo, os judeus não reputavam legítimos os casamentos mistos, entre judeus e gentios, e tais casamentos eles não levavam em consideração. 1 Este versículo parece ser um reflexo do duplo padrão seguido pelos judeus. Conforme esses padrões, uma mulher não podia divorciar-se de seu marido, embora um homem pudesse divorciar-se de sua mulher. Assim sendo, neste versículo deve ser o «marido» que está em foco como aquele que se separou. Não obstante, é fato sobejamente conhecido que, na sociedade judaica, uma mulher sempre dispunha de meios indiretos para forçar seu marido a divorciar-se dela; e assim, infernizando a vida de seus respectivos maridos, muitas mulheres obtinham indiretamente o divórcio. «O apóstolo Paulo, à semelhança de nosso Senhor, proíbe o divórcio em termos absolutos: a ‘pornéia’ (impureza sexual) não é mencionada aqui como algo que cria a exceção, sendo bem possível que essa exceção (ver Mat. 5:32 e 19:9)... fosse desconhecida do apóstolo, porque não fora estabelecida pelos lábios do próprio Cristo». (Robertson e Plummer, in loc.).
Desconhecida, dentro dessa citação de Robertson e Plummer, deve significar «entre as declarações feitas pelo próprio Cristo», porquanto Paulo conhecia a exceção aludida, com base nos ensinamentos judaicos sobre a matéria.
Mas, se por qualquer razão, a despeito dos próprios ensinamentos de Jesus a respeito, um homem ou uma mulher crente viesse a encontrar-se divorciado, então, segundo a recomendação de Paulo, que permanecesse sem casar-se novamente, passando a viver como celibatário. Esse é um elevado ideal, mas poucos são os que conseguem seguir tal norma. Os ensinamentos constantes no evangelho de Mateus, todavia, se adaptam melhor às situações e necessidades humanas. «...ou que se reconcilie com seu marido...». Essa palavra dão-nos a entender que o motivo da separação aqui corrigida não foi o «adultério», mas antes, alguma outra razão qualquer, talvez até mesmo o desejo de unir-se a mulher crente ao partido dos ascetas, que viviam como celibatários, o que evidentemente acontecia até mesmo em Corinto. Ora, se alguém se separasse de seu cônjuge, por alguma razão assim, então deveria permanecer sem casar-se com outrem; mas, se descobrisse ser-lhe impossível continuar em tal estado, então que entrasse em reconciliação com seu legítimo ex-cônjuge, e não procurasse união com outra pessoa. Mui provavelmente Paulo tencionou incluir essa ideia; mas não há razão alguma para supormos que ele não estivesse falando em termos gerais, incluindo casos de adultério.
Por conseguinte, parece que, na opinião de Paulo, não pode haver novo casamento para o crente divorciado, nem mesmo se ele é o cônjuge «inocente», e nem mesmo que o motivo do divórcio tenha sido o adultério praticado pelo outro cônjuge. Naturalmente, poderia haver novo casamento se o cônjuge culpado viesse a falecer. E é bem possível que o que Paulo diz aqui também seja o ensinamento do Senhor Jesus sobre a questão. Trata-se de um ponto de vista extremamente idealista, sendo necessário um homem altamente espiritual como o Senhor Jesus ou como Paulo para que viva de conformidade com o mesmo. Por essa razão é que no evangelho de Mateus encontramos uma exceção a essa regra, e os estudos modernos sobre a matéria têm postulado outras exceções lógicas, conforme é ilustrado nas notas expositivas sobre o trecho de Rom. 7:3.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 99-101.
2. Quando um dos cônjuges não é crente.
Aos casais mistos — “aos outros” (1 Co 7.12,13). “Mas, aos outros, digo eu, não o Senhor: se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe”. Valorizando a família, a Palavra de Deus reconhece a união de um cônjuge que aceita a Cristo, e a esposa (ou o esposo) continua na incredulidade, ou de um fiel, cujo cônjuge se desvia. Entretanto, no caso de o cônjuge descrente (ou desviado) quiser abandonar o crente fiel, pedindo divórcio, não pode ficar “sujeito à servidão”, ou seja, sob o jugo de um casamento insuportável.
Há casos em que o descrente é prostituído, com risco de levar doenças para a esposa; ou é beberrão contumaz, ou que espanca a esposa, proibindo-a de ser crente, etc. O crente não deve tomar a iniciativa do divórcio. Deve deixar que o descrente o faça: “Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não está sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz” (v. 15).
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 85.
7.12,13 — Digo eu, não o Senhor. Paulo apresentou um problema que não foi discutido por Jesus. As vezes, o marido ou a esposa se converte, mas o outro não. Paulo exorta o cristão a continuar casado se o cônjuge não cristão não quiser divorciar-se.
7.14 — O principal significado de santificado é separado. Aqui, o termo se refere à situação especial de que a esposa ou o marido incrédulos desfrutam quando seu cônjuge é cristão, sendo expostos aos ensinos de Deus. Imundos, neste contexto, provavelmente, significa o oposto de santificado. Os filhos com um dos pais que seja cristão podem aprender coisas sobre Deus e achegar-se a Cristo.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 423.
ACERCA DE CÔNJUGES INCRÉDULOS (7.12-16) - Digo eu, não o Senhor (12). Paulo agora passa a tratar de um problema que não fora objeto de nenhum mandamento específico de nosso Senhor. Que fazer quando um cônjuge é crente e o outro ainda é pagão? Devia haver muitos casos desses em Corinto, como ocorrem hoje constantemente no campo missionário. Aconselha os cristãos a não se separarem do cônjuge incrédulo, a não ser que este voluntariamente vá embora (12,13,15). Tal conselho nos impressiona de pronto, por sua caridade e espírito cristão.
O apóstolo tece outros comentários: O marido incrédulo é santificado no convívio da esposa, e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos (14).
Os comentadores não são acordes sobre o sentido destas palavras. Quererão dizer que o incrédulo ou a incrédula em razão de sua união conjugal com uma crente ou um crente, participa com o cônjuge fiel de uma posição de santidade diante de Deus e, além disso, que os filhos nascidos de tal união (e a fortiori, da união de dois crentes) são de algum modo santos (i. e., isentos da mancha do pecado original)? Significarão que, por serem santificadas as relações com o cônjuge inconverso, no mundo subjetivo do pensamento e vida do crente, nada há de mal em manter tais casamentos já existentes, aos quais se refere? Se as relações, dessa forma, não fossem santificadas, então os filhos, por igual, seriam uma ofensa a Deus (impuros), porém agora são santos, isto é, não há mal que lhes pegue por serem filhos de tal casamento «misto». Ou, ainda, significarão simplesmente que, por ser Cristo mais forte que Satanás, o cônjuge fiel exercerá uma influência dominadora no lar, introduzindo, neste, dose elevada de santidade, de modo que, de fato, os filhos que aí se criem são santos? Este escritor subscreve esta terceira alternativa, visto a mesma estimular os cônjuges crentes à evangelização dos seus familiares.
NOVO. Comentário da Bíblia. 1 Coríntios. pag. 38-39.
7.12 - A ordem de Paulo referente à permanência do casamento (7.10) tem como base o AT (Gn 2.24) e o ensinamento de Jesus (Mc 10.2-12). Sua sugestão neste versículo é baseada na ordem de Deus. Paulo a aplicou à situação que os coríntios estavam enfrentando. Sua ordem estava acima da sugestão porque uma trata de um princípio eterno enquanto a outra é uma aplicação especifica. Não obstante, para as pessoas em situações semelhantes, a sugestão de Paulo é o melhor conselho que poderiam obter. Paulo era um homem de Deus, um apóstolo, e tinha a mente de Cristo.
7.12-14 Por causa do desejo de servir a Cristo, algumas pessoas na igreja coríntia pensaram que deveriam divorciar-se de seu cônjuge pagão e se casar com um cristão. Mas Paulo reafirmou o compromisso do casamento. O ideal de Deus é que marido e esposa permaneçam juntos — mesmo quando um dos cônjuges não for crente. O cônjuge cristão deve tentar ganhar o outro para Cristo. Seria fácil pensar no rompimento do relacionamento.
Paulo, porém, enfatizou que se deve permanecer com o cônjuge incrédulo e ser uma influência positiva na união. Assim como Jesus, Paulo acreditava que o casamento deve ser para sempre (ver Mc 10.1-9).
7.14 - As bênçãos que fluem para os crentes não se limitam a eles; estendem-se também às outras pessoas. Deus considera o casamento como algo separado para seu uso por causa da presença de um cônjuge cristão. O outro cônjuge não recebe a salvação automaticamente, mas é santificado por essa relação. Os filhos desse casamento recebem uma influência espiritual positiva por parte do cônjuge cristão e são guardados (por causa da bênção de Deus na unidade familiar) até que tenham idade suficiente para tomar sua própria decisão em relação a Cristo.
APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de estudo. Editora CPAD. pag. 1592.
3. O cônjuge fiel não está sujeito à servidão.
Em nenhum momento, neste capítulo, desejamos incentivar o divórcio. O casamento deve ser realizado dentro de uma perspectiva para toda a vida, até que a morte separe o casal. Entretanto, a vida conjugal é complexa, e podem surgir casos em que a convivência torna-se insuportável. As exceções, na Bíblia, são prova do amor de Deus para com os que permanecem fiéis aos seus princípios para o casamento, não os condenando a uma vida inteira sob o jugo de uma penosa servidão a um infiel, desviado ou incrédulo.
LIMA. Elinaldo Renovato de. A família cristã e os ataques do inimigo. Editora CPAD. pag. 86.
A Exceção Paulina. (O Divórcio nos Escritos de Paulo). Também poderíamos denominar esta seção de o Privilégio Paulino. Paulo tem pouquíssimo a dizer sobre esse assunto.
A passagem de Rom. 7:1-3 não pode ser considerada corno uma declaração dogmática sobre a questão do divórcio. O apóstolo dos gentios ignorou propositadamente qualquer exceção, porquanto não estava procurando ensinar qualquer doutrina acerca da questão, mas meramente se utilizava do matrimônio como ilustração simbólica sobre a nossa nova lealdade a Cristo. Não encontramos nesse texto, por conseguinte, o pensamento de Paulo sobre a questão do divórcio. Poderíamos supor, entretanto, que sendo ele um ex-fariseu, teria seguido ou a ideia de Hilel ou o pensamento de Shamai sobre essa particularidade, mas que teria seguido mais provavelmente a opinião da escola de Shamai, porém com uma importante exceção.
Note-se que, na passagem de I Cor. 7: 10-16, Paulo permite que o cônjuge «crente. se separe de seu cônjuge <<incrédulo>>, contanto que o cônjuge incrédulo deseje tal separação. Neste caso, o crente pode casar-se de novo, porque não está sob servidão. Esta expressão implica que o divórcio, nestes casos, é o verdadeiro fim do casamento, e que o crente está totalmente livre. Devemos nos lembrar de que os judeus nem reconheceram casamentos mistos como legais. Paulo nos informa que tais casamentos são legais (não são adulterinos), mas não são totalmente obrigatórios.
Nestes casos, pode existir uma variedade de razões para desfazer o casamento. Paulo exige, entretanto, um esforço honesto de evangelização do incrédulo, antes de qualquer consideração de divórcio. Além disto, a decisão de desfazer o casamento (sob circunstâncias normais) deve ser do incrédulo. Mas isso ainda deixaria sem solução, de forma absoluta, a questão se uma pessoa crente, casada com um incrédulo, tendo sido abandonada por este, e tendo-se casado pela segunda vez, com um crente, pode participar ou não como membro da igreja local, não ficando reduzido à condição apenas de um espectador. 'S verdade que os trechos de I Tim. 3:2 e Tito 1:6 proíbem aos anciãos e diáconos terem «mais de uma esposa»; e isso certamente é mais do que uma provisão para evitar a poligamia, embora isso também esteja em foco. Tal pessoa, pois, que antes era casada com um incrédulo, que a abandonou, mas que agora é casada com um crente, visto que teve o direito legitimo de fazer tal, sem incorrer em culpa (contanto que o div6rcio haja sido provocado pelo incrédulo, já que ao próprio crente é vedado o direito de separar-se, mas antes, deve procurar conquistar seu cônjuge incrédulo para Jesus Cristo), também deve ter o direito de participar na igreja, até mesmo na capacidade de figura lideram-te. Além disso, posto haver a possibilidade de ambas as formas á resposta para essa questão, homens bons e bons intérpretes têm assumido posições diametralmente opostas.
Parece razoável, de conformidade com a linha paulina de pensamento, sobre esse particular, pensarmos que essa liberdade é total, ou seja, se tal crente vier a distinguir-se por seu progresso espiritual, não devemos negar-lhe o privilégio de participar ativamente das atividades da igreja local, somente por causa de um erro cometido antes de sua conversão.
Por consequência, poderia até mesmo vir a ocupar um cargo oficial lideram-te na igreja local. Desnecessário é dizer, entretanto, que muitíssimos intérpretes discordam dessa opinião. Ainda teríamos que resolver o problema da participação de alguém que, sendo antes incrédulo, estivera casado com um crente, para em seguida divorciar-se do mesmo, e tomar a contrair núpcias.
Com base em razões paulinas, parece-nos seguro dizermos que a tal pessoa devemos encorajar manter-se fora da liderança das igrejas locais, ainda que venha a ser aceita como membro ativo de uma delas.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Candeias. pag. 199-200.
7.15,16 Este versículo é usado erroneamente por algumas pessoas como um modo de sair do casamento. Mas as declarações de Paulo foram dadas para encorajar o cônjuge cristão a tentar um entendimento com o incrédulo e tornar o casamento harmonioso. Se. porém, o cônjuge incrédulo insistir em partir. Paulo disse que é melhor deixá-lo ir. A única alternativa seria o cristão negar sua fé para preservar o casamento, o que seria pior do que dissolvê-lo. O principal propósito da carta de Paulo era exortar as pessoas casadas a buscarem a união, não a separação (ver 7.17; 1 Pe 3.1. 2).
APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de estudo. Editora CPAD. pag. 1592.
7:15: Mas, se o incrédulo se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou a irmã, não está sujeita à servidão; pois Deus nos chamou em paz. A exceção Paulina. Paulo permite o divórcio e o novo consórcio ao cônjuge crente, evidentemente devido a grande variedade de razões, se o casamento era misto e se a iniciativa do divórcio partiu do cônjuge incrédulo, e não do crente. O cônjuge crente tem a obrigação de preservar os laços matrimoniais enquanto o cônjuge incrédulo assim desejá-lo, consentindo com isso.
Porém, se o cônjuge incrédulo manifestar o seu desejo de divorciar-se e estiver firme nessa resolução, não desejando vir a Jesus Cristo, então o crente, homem ou mulher, está desobrigado dessa questão; e isso deve incluir a idéia de novas núpcias, contanto que seja efetuado esse casamento «...no Senhor...», isto é, com outro crente, conforme fica demonstrado pelo trigésimo nono versículo deste capítulo, juntamente com o sexto capítulo da segunda epístola aos Coríntios.
«.. .apartar-se...» A palavra grega assim traduzida não é a mesma que foi empregada nos versículos doze e treze deste mesmo capítulo, onde é traduzida por «abandone» e «deixe», respectivamente. (Mas em todos os casos, na realidade, o sentido é «divórcio»), Essa palavra grega significa «dividir», «separar», «partir». Neste texto, porém, é óbvio que está em vista o «divórcio», e não meramente a separação de leito e mesa. A «sujeição» envolvida no matrimônio é suspensa, não precisando mais ser observada.
Aqueles intérpretes que têm pensado que o incrédulo pode separar-se de seu cônjuge crente, mas que este último, subsequentemente, não pode contrair novas núpcias, pensam que o cônjuge crente fica em «servidão» ao cônjuge incrédulo que se afastou. Mas essa interpretação é claramente contrária à intenção expressa por Paulo, sendo o oposto do que ele dizia.
Razões que permitem esse divórcio dos casamentos «mistos»: O presente texto é muito geral, pelo que também podemos supor que várias razões são perfeitamente válidas. A única coisa necessária é que
cônjuge incrédulo é quem tenha tomado a iniciativa no processo de divórcio, ao mesmo tempo que, com base no que Paulo diz no próximo versículo, o cônjuge crente faça um esforço consciente no sentido tanto de preservar seus laços conjugais com o incrédulo como de conduzi-lo aos pés de Cristo. Uma vez que esses dois tipos de esforço tenham fracassado, se o cônjuge incrédulo ainda estiver disposto a separar-se, então o cônjuge crente não deve sentir-se na obrigação de continuar casado, e nem deve ter a relutância de casar-se novamente, contanto que o faça com outro crente.
Pano De Fundo Judaico Desse Conceito Poderemos entender melhor a natureza da exceção paulina, se nos lembrarmos que, de acordo com o pensamento judaico, um casamento misto (judeu com pagão) não era considerado um matrimônio legal; e que sempre era ordenado que houvesse separação nesses casos, e que o cônjuge judeu se casasse com outra pessoa israelita. Paulo não ordenou tal coisa, entretanto, mas também não insistiu que um casamento misto fosse mantido, sendo extremamente provável que ele permitisse novo casamento de um crente, com outro crente, sem qualquer censura.
«...descrente...», sem importar se é o marido ou a mulher, conforme fica demonstrado pelo restante deste versículo, porquanto é o «irmão» ou a «irmã» que não fica mais em «sujeição», em tais casos.
Naturalmente, alguns bons intérpretes insistem que o cônjuge crente abandonado pelo descrente, não procure casar-se de novo. Mas assim fazem ignorando o contexto geral da passagem, bem como esquecendo o sentido da palavra «...servidão...», que faz parte deste versículo, e assim também o fundo histórico desta passagem. De acordo com a mentalidade judaica, era até mesmo «desejável», e não apenas «permissível», que um judeu que estivesse casado com um gentio, abandonasse a este último, a fim de casar-se com outro judeu. Nenhum princípio teológico judaico jamais forçaria tal judeu a continuar casado com um gentio, conforme fica bem ilustrado na narrativa do livro de Esdras. E não somente isso, mas também de acordo com essa mentalidade, era exigido que os judeus que tivessem caído no erro de se casarem com gentios, quando voltassem ao bom senso, se separassem de seus cônjuges gentios, se porventura estes se recusarem a se converter ao judaísmo.
O apóstolo Paulo, entretanto, modificou em muito essa questão. Ele aconselhava antes um esforço honesto, da parte do crente, por converter o seu cônjuge incrédulo. Outrossim, defendia a legitimidade dos casamentos «mistos», entre crentes e incrédulos. No entanto, proibia que o cônjuge crente tomasse a iniciativa de divorciar-se de seu cônjuge descrente; todavia, não proibia o divórcio, nesses casos, contanto que a iniciativa partisse da parte descrente. E certamente, sendo judeu, ele não proibia novas núpcias do cônjuge crente, em tais casos, porque isso deixaria o mesmo em verdadeira «sujeição» ao seu ex-cônjuge incrédulo, o que para Paulo era uma situação inconcebível. Essa é a única interpretação que se coaduna com o contexto histórico em que encontramos esta secção, ainda que isso seja contrário à grande parte da moderna posição teológica.
«...não fica sujeito à servidão...» O cônjuge crente abandonado pelo cônjuge incrédulo não fica em «servidão» ao mesmo, através das várias exigências próprias do contrato matrimonial. Compare-se esse uso com o que diz Rom. 7:1-6, onde o matrimônio é apresentado como uma espécie de «servidão», tanto para com o outro cônjuge como para com as leis que governam o matrimônio.
«...o abandono, em tal caso, e acompanhado de tais circunstâncias, é um rompimento do contrato matrimonial, uma dissolução do vínculo, e a pessoa abandonada pode casar-se legalmente outra vez; doutro modo, um irmão ou uma irmã, em casos semelhantes, ficaria em sujeição e servidão a tal pessoa». (John Gill, in loc.).
Lutero concordava com a interpretação dada aqui, mas avançava ainda mais um passo. Argumentava ele que até mesmo o casamento com crentes aparentes poderia ser dissolvido, quando se tornasse evidente que tais pessoas realmente não eram crentes, tomando-se em consideração os seus frutos. Naturalmente, se alguém não é realmente um crente, o texto em foco se aplica a isso, mas sempre há o problema da averiguação da realidade da questão, e sempre o indivíduo interpretará os casos em seu próprio favor.
Portanto, a questão inteira está passível de abusos, e se alguém abusa dessa questão sobre a «permissão paulina» é uma questão entre esse alguém e seu Deus.
Erasmo fez um comento curioso sobre o casamento e o divórcio: «Enquanto um casamento é meramente um purgatório, ele deve ser respeitado. Quando se torna um inferno, deve ser dissolvido.»
«...Deus vos tem chamado à paz...» O sentimento destas palavras pode ser comparado com os trechos de Gál. 1:6; Efé. 4:4 e I Tes. 4:7. A chamada divina tende para a instauração da paz com Deus e com nossos semelhantes, devendo ser vista especialmente no fato que produz o caráter pacífico entre os crentes. A escravização, mediante o mau casamento com um incrédulo, tende por destruir esse estado de paz. Paulo estava asseverando que a preservação do vínculo da paz, no coração, no lar e na comunidade cristã, é mais importante do que a preservação de um péssimo casamento com um incrédulo. (Quanto ao tema da paz com Deus, ver Rom. 5:1. Quanto a outras notas expositivas sobre a «natureza da paz», acompanhadas de poesia ilustrativa, ver os trechos de João 14:27 e 16:33).
O fato da importância crucial da paz, no coração do indivíduo e no seio da igreja, é a razão central pela qual Paulo está dando a sua «permissão», está abrindo a sua «exceção» à regra que proíbe o divórcio. E que Paulo ventila casos e facetas nos quais se reputava influenciado pelo Espírito, se não mesmo guiado palavra por palavra, ou ideia por ideia, daquilo que dizia. (Ver o quadragésimo versículo deste capítulo). (Quanto a notas expositivas sobre a «chamada e a eleição divinas», ver Efé. 1:4. Ver também Rom. 8:30 quanto a notas expositivas acerca do termo «chamar», o convite divino).
A chamada ou convite divinos, uma vez aceito, conduz o indivíduo à paz com Deus e com os seus semelhantes, bem como consigo mesmo. Isso é extremamente importante. Se um mau casamento vier a perturbar isso, e se tal casamento tiver sido firmado com um incrédulo, é melhor que tal vínculo termine, contanto que isso tenha sido iniciativa e desejo do cônjuge incrédulo. Em Corinto, bem como em muitas outras localidades, naqueles primeiros dias do cristianismo, os homens abusavam da nová fé, odiando-a profundamente. Esse abuso se estendia aos próprios lares, e a vida inteira de muitas pessoas era perturbada. Os crentes eram perseguidos por causa de sua fé ou por outros motivos, e assim a sua «paz» com Deus era perturbada. Ora, Paulo recomenda aqui que não é necessário ser conservado um tal matrimônio, e a dissolução do casamento pode ser a solução correta, uma vez que todas as tentativas para ganhar o incrédulo para Cristo falharam.
Somos chamados «.. .à paz...», o objetivo do convite divino e não «na paz», embora isso também seja um aspecto verdadeiro. Somos chamados «com a finalidade» que vivamos em paz com Deus, com nossos semelhantes e conosco mesmos, visto que toda a alienação foi removida. Maimonides, mais ou menos da mesma maneira se referiu ao divórcio como algo permitido por Moisés, visando preservar «a paz no casamento e a tranquilidade no lar».
7:16: Pois, como sabes tu, 6 mulher, se salvarás teu marido? ou, como sabes tu, marido, se salvarás tua mulher?
Essa permissão ou «exceção» de Paulo não é o ideal paulino. Na opinião desse apóstolo, é melhor ainda persistir no matrimônio, transformando o lar em um campo missionário, procurando conquistar para Cristo o cônjuge incrédulo, do que ceder imediatamente à pressão. Portanto é melhor salvar uma alma—nesse caso, do marido ou da mulher—do que estar livre de problemas matrimoniais. Assim, pois, Paulo encerra essa discussão com um desafio, e não com uma concessão. Sim, salvar uma alma, sobretudo a do esposo ou a da esposa, é mais importante do que a felicidade matrimonial. A persistência sob os erros sofridos, sob os abusos, ao mesmo tempo que o crente dá testemunho fiel do poder de Cristo para transformar a vida e salvar a alma, a despeito dessas dificuldades, pode ser uma atitude que sirva de instrumento para transformar até mesmo os corações mais endurecidos. Paulo recomenda que, nesses casos, ao menos se dê uma boa oportunidade ao matrimônio.
Que o cônjuge crente não desista facilmente. «É sempre cedo demais para desistir.» (Edmans). Entretanto, se todos os esforços vierem a falhar, se os sofrimentos se tornarem intoleráveis, se o incrédulo persistir em seu desejo de divorciar-se, então é chegado o tempo de aplicar a permissão paulina, a sua «exceção» à regra que proíbe o divórcio. Mas somente então é que essa regra deveria ser aplicada. Poucos indivíduos conseguiriam cumprir essas condições; mas os crentes espirituais conseguirão cumpri-la.
Alguns intérpretes têm sugerido que este versículo dá a entender exatamente o contrário, afirmando que as duas perguntas retóricas têm o intuito de dar a entender a remota possibilidade do cônjuge crente vir a conquistar a relutância de seu cônjuge incrédulo. Assim sendo, essas perguntas equivaleriam a: «O que te faz pensar que poderás conquistar teu marido ou tua mulher, a despeito de todas essas evidências em contrário? O casamento não é um campo missionário. É melhor seguir a paz». Mas essa interpretação, apesar de ser possível para o original grego, é decididamente contrária ao pensamento paulino, bem como ao próprio contexto desta passagem, visto que os versículos décimo segundo e décimo terceiro deste capítulo falam contra o divórcio, recomendando a preservação dos laços matrimoniais. Portanto, é melhor pensarmos que neste décimo sexto versículo temos um outro apelo em favor da preservação do matrimônio, e não o reforço da permissão ou «exceção» que aparece no décimo quinto versículo. Portanto, nos é apresentada aqui a «esperança» que é possível a salvação do cônjuge incrédulo, e, portanto, a possibilidade desse cônjuge vir a ser persuadido, até mesmo às custas da felicidade matrimonial pessoal, e não por motivo de temor que tal perseverança venha a destruir a mui desejada paz para a qual fomos convocados por Deus. «Suporta a tua cruz e olha para Deus, e ele poderá dar-te, em face das tuas orações, teu marido ou tua mulher incrédulos. (Adam Clarke, in loc.).
Assim foi que Rute, a moabita, converteu-se à fé de seu esposo; e que José e Moisés, mui provavelmente, conquistaram suas esposas. Em contraposição com isso, o marido incrédulo pode ser ganho pela mulher crente. (Ver I Ped. 3:1)». (Faucett, in loc.).
«A oportunidade de salvar o cônjuge incrédulo justifica qualquer inconveniência temporal». (Lightfood, in loc.).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 103-104.
7:27: Estás ligado a mulher? não procures separação. Estás livre de mulher? Não procures casamento.
Paulo sugeria aqui a manutenção do «status quo», o que é típico do capítulo inteiro. Essa será a última ação dolorosa, quando a tempestade irromper. Até mesmo sob circunstâncias normais, Paulo advogaria tal coisa, porquanto, para ele, era errado cortar os laços matrimoniais a fim de buscar o celibato (ver I Cor. 7:2 e ss.), ao mesmo tempo que era preferível, se alguém já vivia como celibatário, viver como tal, visto que assim tal crente poderia entregar-se muito mais prontamente ao serviço de Cristo, sem distrações. (Ver os versículos trigésimo segundo e trigésimo terceiro). Tal advertência teria ainda muito maior aplicação no período da Grande Tribulação, quando qualquer modificação só fará intensificar a dor que já é necessária ser sofrida.
«...casado...» Embora assim diga esta versão portuguesa, que serve de base textual para nosso comentário, no original há alusão a laços e responsabilidades do matrimônio, e não apenas ao noivado. No original grego temos «ligado a mulher», e não «casado». Mas essa «ligação» importa em matrimônio, e não noivado ou algum compromisso de menor importância com alguma mulher. Portanto, «mulher», nesse caso (seu primeiro uso neste versículo, mas que não aparece na nossa tradução em português), significa esposa. Paulo não permitia nem uma separação indefinida e nem real divórcio, nem mesmo por causa de alguma suposta razão espiritual (ver I Cor. 7:2-6), nem separação permanente por meio do divórcio (versículos décimo e décimo primeiro deste capítulo).
«.. .livre de mulher...», isto é, sem laços matrimoniais, solteiro. Paulo não estava falando daqueles que se tornaram livres por meio do divórcio, dando-lhes o conselho que permanecessem divorciados. Se esse fosse o caso, mui provavelmente Paulo teria recomendado novo casamento, sob todas as hipóteses. Antes, o apóstolo falava a solteirões, viúvas, viúvos, e todos aqueles que não estavam obrigados por qualquer contrato de casamento.
Aos tais, Paulo aconselhava que não tentassem modificar suas circunstâncias, especialmente em vista do período de angústia que se avizinhava. Parece que Paulo esperava que a igreja passaria pelo período da Grande Tribulação, porquanto aconselhava que não houvesse novos casamentos e nem mudança de situação, porquanto isso serviria apenas para complicar a vida dos crentes quando da grande tribulação, e não porque seriam repentinamente arrebatados, escapando assim de toda a tribulação. É possível criarmos um argumento em favor do «status quo», mesmo que a igreja deva ser «arrebatada». Esse argumento é que visto que o fim está tão próximo, é melhor nos concentrarmos somente nas questões celestiais, ignorando as terrenas. Isso expressa uma verdade; mas não era assim que Paulo apresentava a questão, ou pelo menos, não era exclusivamente assim que ele a apresentava.
Os que estivessem «livres» não deveriam procurar empenhar-se por modificar as suas circunstâncias. Embora Paulo recomende isso, devido à grande «angústia», contudo, todo este capítulo mostra-nos que ele preferia que todos os crentes vivessem solteiros, e isso sob quaisquer circunstâncias, embora ele considerasse isso como algo não-realista, porquanto nem todos recebem o dom para viverem como celibatários.
7:28: Mas, se te casares, não pecaste; e, se a virgem se casar, não pecou. Todavia estes padecerão tribulação na carne e eu quisera poupar-vos.
Paulo Responde Aos Objetores
1. Os celibatários se julgavam elementos super-espirituais e autoridades
religiosas no seio da igreja. Requeriam exigências impossíveis, baseadas sobre teorias absurdas.
2. Paulo responde como segue: a. O celibato se limita àqueles que foram dotados para isso. Não pode nem deve ser uma prática universal, mesmo no caso dos ministros do evangelho, b. Quem casa não comete pecado por isso; de fato, o casamento é preferível no caso de alguns, pois, para viver com bom êxito no estado celibatário é mister que o indivíduo tenha sido dotado para tanto. c. Seja como for, ninguém pode impor o celibato a outrem, pela força de algum decreto. É lamentável que a igreja dos séculos passados não tenha aprendido essa lição.
3. Paulo poderia ter acrescentado que o celibato, verdadeiramente, não é garantia de santidade, pois não está revestido de qualquer força espiritual inerente. O celibato forçado leva ao desastre.
O casamento é bom (ver 0 trigésimo oitavo versículo), e não é pecado alguém contrair matrimônio. Isso é óbvio para nós; mas o partido dos celibatários, em Corinto, mui provavelmente apresentava o matrimônio como uma condição «inferior», como se, para os iluminados, constituísse um pecado, visto que não estariam seguindo a vontade de Deus conforme toda a extensão de sua iluminação. Paulo, entretanto, negava tal coisa. O celibato poderia ser melhor, mas o matrimônio é unja instituição divina, não havendo nele qualquer aspecto de maldade. Outrossim, é preciso mais do que iluminação para que um crente possa viver como «celibatário»: é preciso o «dom» para isso. Fica subentendido que aquele que sente a necessidade de casar-se, só por isso estará mostrando que não possui aquele «dom». Portanto, para 0 tal, o casamento é melhor do que o celibato.
Ninguém pode inferir, pois, que casar-se é algo mau, em qualquer sentido.
Pelo contrário, a tentativa de permanecer alguém no celibato, sem as necessárias qualificações espirituais para tanto, pode levar o crente ao pecado. Ao assim dizer, Paulo derrubou pela base os argumentos do partido dos celibatários, que procuravam impingir a outros, incluindo as jovens virgens, exortando-os para que permanecessem tais; e nesse processo até mesmo os pais dessas jovens vinham sendo persuadidos a conservarem suas filhas como virgens.
«...eu quisera poupar-vos...» A palavra «...eu...», neste caso, é enfática.
Do princípio ao fim Paulo reconhece quão impraticável é esse conselho em prol do celibato, embora não possa deixar de mostrar sua preferência por esse estado. E assim, uma vez mais, mesmo depois de haver solapado os argumentos dos membros do partido de celibatários, acabou mostrando que ele mesmo favorecia o celibato. Aqueles que não atingem esse estado, certamente sofrerão «...angústia na carne...», na forma de «tribulações seculares», e não meramente na forma de ajustamentos necessários aos seus respectivos cônjuges, o que nem sempre é fácil. Antes, sofreriam angústias porque estariam complicando sua vida, envolvendo-se em problemas que, de outra forma, poderiam ser facilmente evitados. Por exemplo, os casados têm responsabilidades sociais e financeiras muito maiores. Grande parte de sua vida será consumida com o trabalho material necessário para prover o necessário para a esposa e os filhos. Além disso, poderíamos pensar na questão da educação dos filhos; e isso para não falar nas enfermidades, nas revoltas dos filhos contra seus pais, o que provoca muitas tragédias e dores de coração.
Naturalmente, não interessava ao argumento de Paulo expor aqui as vantagens dos casados, pelo que também o seu estudo é unilateral, porquanto tudo reflete a sua própria preferência. Uma lista das bênçãos certamente poderia destacar-se favoravelmente, devido ao contraste, com a lista de tribulações. Entretanto, a passagem de Efé. 5:22,23 nos fornece o outro lado da moeda, onde o casamento é descrito em suas vantagens; mas o certo é que isso não é atitude tipicamente paulina. Lembramo-nos, naturalmente, que aquilo que Paulo dizia, dizia por opinião, e não por «revelação». (Ver o vigésimo quinto versículo deste capítulo). Há um bom número de intérpretes que não concorda com essas opiniões de Paulo. Pois, dizem eles, as angústias podem incluir a ideia da angústia da tribulação; mas Paulo parece estar falando aqui em termos mais gerais sobre as formas de tribulação que geralmente acompanham os casais, em qualquer época da história.
Paulo parece ter atribuído ao celibato uma grande «excelência moral», e não meramente que tal estado envolve menos «perturbações externas», sem importar se estamos de acordo com ele ou não, e sem importar qual seja a verdade de toda essa questão.
Fótio concordava com Paulo. Disse ele: «Mais facilmente, e com menos angústias, poderemos suportar as tribulações se não tivermos esposas e filhos para levar conosco, nas perseguições e outras incontáveis misérias».
«Aquele que tem esposa e filhos tem dado hóspedes à fortuna. Os filhos adoçam os labores, mas tornam o infortúnio ainda mais amargo». (Francis Bacon).
As palavras «...e eu quisera poupar-vos...» têm provocado comentários e pareceres os mais diversos, a saber:
1. Alguns intérpretes pensam que isso significa: Não vos entristecerei mais, continuando a falar. Mas essa interpretação é altamente improvável.
2. Agostinho era da seguinte opinião: «Poupo-vos maiores detalhes sobre as inconveniências do matrimônio». Essa interpretação é possível, mas não é provável.
3. Antes, o que Paulo queria era poupar os crentes das «angústias» do casamento, procurando convencê-lo a continuarem celibatários.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 110-111.
ELABORADO: Pb. Alessandro Silva.

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