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2° LIÇÃO 2 TRIMESTRE 2014 O PROPÓSITO DOS DONS ESPIRITUAIS


O PROPÓSITO DOS DONS ESPIRITUAIS
Data: 13 de Abril de 2014                         HINOS SUGERIDOS 5, 85, 440.
TEXTO ÁUREO
“Assim, também vós, como desejais dons espirituais, procurai sobejar neles, para a edificação da igreja” (1 Co 14.12).

VERDADE PRÁTICA
Os dons são recursos concedidos por Deus para fortalecer e edificar a Igreja espiritualmente.
LEITURA DIÁRIA
Segunda      - 1 Co 12.12             A igreja — um só corpo
Terça            - 1 Co 12.4,11         Diversidade de dons no mesmo Espírito
Quarta          -  1 Co 14.26            Tudo deve ser feito para a edificação
Quinta           - 1 Co 12.12-27       A verdadeira unidade
Sexta            - 1 Co 1 3-1,2          Exercendo os dons amorosamente
Sábado        - 1 Co 12.7               A manifestação do Espírito e sua utilidade
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
1 Coríntios 12.8-11; 13.1,2
I Coríntios 12
8 - Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência;
9 - e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé; e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar;
10 - e a outro, a operação de maravilhas; e a outro, a profecia; e a outro, o dom de discernir os espíritos; e a outro, a variedade de línguas; e a outro, a interpretação das línguas.
11 - Mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.
1 Coríntios 13
1 - Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2 - E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor; nada seria.
INTERAÇÃO
Qual é o real propósito dos dons espirituais? Você, professor, tem uma visão bíblica e teológica a respeito do objetivo dos dons? Muitos estão se utilizando dos dons de forma interesseira e egoísta. As dádivas divinas nos são concedidas pela graça e devem ser utilizadas com sabedoria e santidade a fim de que o nome do Senhor seja exaltado e todos os membros do Corpo de Cristo sejam edificados. Os dons não são para elitizar o crente. Também não são sinal de superioridade espiritual.
OBJETIVOS
Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:
Conscientizar-se de que os dons espirituais não são para elitizar o crente.
Compreender que os dons devem ser utilizados para edificar a si mesmo e aos outros.
Saber que o propósito dos dons é a edificação do Corpo de Cristo.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Professor, para introduzir o primeiro tópico da tição, divida a classe em dois grupos. Depois, escreva no quadro as seguintes indagações: “O que precisamos fazer para receber os dons espirituais?” “A santidade é condição para o recebimento dos dons?” Cada grupo deverá ficar com uma questão. Dê alguns minutos para que os alunos discutam as questões. Em seguida reúna a todos formando um único grupo. Peça a um representante de cada grupo fazer suas considerações sobre a sua questão. Ouça os alunos com atenção. Depois, explique que os dons espirituais são habilidades concedidas pelo Espírito Santo para edificação da igreja. Para receber estas habilidades basta crer e pedir com fé.
Os dons são presentes divinos e fruto da misericórdia do Pai. É graça de Deus!
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Nesta lição estudaremos o verdadeiro propósito dos dons espirituais concedidos por Deus à sua Igreja. Os dons do Espírito Santo são recursos imprescindíveis do Pai para os seus filhos. O seu propósito é edificar-nos e unir-nos, fortalecendo assim a Igreja de Cristo (1 Tm 3.15).
I - OS DONS NÃO SÃO PARA ELITIZAR O CRENTE
1. A igreja Coríntia. A Igreja em Corinto localizava-se numa cidade comercial e próxima do mar, sendo uma das mais importantes do Império Romano. Corinto era uma cidade economicamente rica, porém marcada pelo culto idolátrico. Durante a segunda viagem missionária de Paulo, a igreja recebeu a visita do apóstolo (At 18.1-18). Por conhecer muito bem a comunidade cristã em Corinto foi que o apóstolo dos gentios tratou, em sua Primeira Epístola dirigida àquela igreja, sobre a abundância da manifestação dos dons do Espírito, chegando a afirmar daquela igreja que “nenhum dom” lhe faltava (1 Co 1.7).
2. Uma igreja de muitos dons, mas carnal. Os dons do Espírito concedidos por Deus à igreja de Corinto tinham por finalidade prepará-la e santificá-la para o serviço do evangelho: a proclamação da Palavra de Deus naquela cidade. Todavia, além de aquela igreja não usar corretamente os dons que recebera do Pai, tinha em seu meio divisões, inveja, imoralidade sexual, etc. Como pode uma igreja evidentemente cristã ser ao mesmo tempo carnal e imoral? Por isso Paulo a chama de carnal e imatura (1 Co 3.1,3). Com este relato, aprendemos que as manifestações espirituais na igreja local não são propriamente indicadoras de seriedade, espiritualidade e santidade. Uma igreja onde predominam a inveja, contenda e dissensões, nem de longe pode ser chamada de espiritual, e sim de carnal.
3. Dom não é sinal de superioridade espiritual. Muitos creem erroneamente que os irmãos agraciados com dons da parte de Deus são, por isso, mais espirituais que os outros. Todavia, os dons do Espírito são concedidos pela graça de Deus. Por ser resultado da graça divina, não recebemos tais dons por méritos próprios, mas pela bondade e misericórdia de Deus. Que a mensagem de Jesus possa ressoar em nossa consciência e convencer-nos de uma vez por todas de que os dons não são garantia de espiritualidade genuína: “Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22,23).
SINOPSE DO TÓPICO (1)
Os dons do Espírito Santo são concedidos pela graça divina; eles não devem ser usados para elitizar o crente.
Il - EDIFICANDO A SI MESMO E AOS OUTROS
1. Edificando a si mesmo. Paulo diz que quem “fala língua estranha edifica-se a si mesmo” (1 Co 14.4). O apóstolo estimulava os crentes da igreja de Corinto a cultivarem sua devoção particular a Deus através do falar em línguas concedidas pelo Espírito, com o objetivo de edificarem a si mesmos. Isto não significa que o apóstolo dos gentios proibia o falar em línguas publicamente, mas ao fazê-lo de maneira devocional o crente batizado com o Espírito Santo edifica-se no seu relacionamento com Deus. Falar ou orar em línguas provenientes do Espírito é uma bênção espiritual maravilhosa.
2. Edificando os outros. Os crentes de Corinto falavam em línguas e exerciam vários dons espirituais, mas parece que eles não se preocupavam muito em ajudar as pessoas. Por isso, o apóstolo lembra que os dons só têm razão de existir quando o portador preocupa-se com a edificação da vida do outro irmão em Cristo (1 Co 14.12). Em lugar de buscarmos prosperidade material, como se pudéssemos barganhar com Deus usando dinheiro em troca de bênçãos, busquemos os dons espirituais. Agindo assim edificaremos a nós mesmos e também aos outros.
3. Edificando até o não crente. Embora o apóstolo dos gentios estimulasse todos os crentes a falarem em línguas, isto é, a edificarem a si mesmos, seu desejo era que também esses mesmos crentes profetizassem a fim de que a igreja toda fosse edificada. O comentário da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal diz sobre esse texto: “Embora o próprio Paulo falasse em línguas, enfatizava a profecia, porque esta edificava a Igreja inteira, enquanto falarem línguas beneficiava principalmente o falante”. Todos quantos vierem a frequentar nossas reuniões devem ser edificados, sejam crentes ou não. Por isso, não podemos escandalizar aqueles que não comungam a mesma fé que nós (1 Co 14.23). Como eles compreenderão a mensagem do evangelho se em uma reunião não entenderem o que está sendo falado? (1 Co 14.9).
SINOPSE DO TÓPICO (2)
Os dons só têm uma razão de existir na vida do crente: edificar a vida do outro irmão em Cristo.
IIl - EDIFICAR TODO O CORPO DE CRISTO
1. Os dons na igreja. Na Primeira Carta aos Coríntios, Paulo dedica dois capítulos (1 2 e 14) para falar a respeito do uso dos dons na igreja. O apóstolo mostra que quando os dons são utilizados com amor, todo o Corpo de Cristo é edificado. Conforme diz Thomas Hoover, parafraseando Paulo em Efésios 4.16, “os membros do corpo, cada qual com sua própria função concedida pelo Espírito, cooperam para o bem de todas. O amor é essencial para os dons espirituais alcançarem seu propósito”. Se não houver amor, certamente não haverá edificação (1 Co 13). Sem o amor de Deus nos tornamos egoístas e acabamos por colocar nossos interesses em primeiro lugar. O propósito dos dons, que é edificar o Corpo de Cristo, só pode ser cumprido se tivermos o amor de Deus em nossa vida.
2. Os sábios arquitetos do Corpo de Cristo. Deus levanta homens para edificarem espiritual, moral e doutrinariamente a igreja local. A Igreja é o “edifício de Deus” (1 Co 3.9). Os ministros, sábios arquitetos (1 Co 3.10). O fundamento já está posto pelos apóstolos: Jesus Cristo (1 Co 3.11). Mas os ministros têm de tomar o cuidado com as pedras assentadas sobre este alicerce, pois eles também tomam parte na edificação espiritual da Igreja de Cristo segundo a mesma graça concedida aos apóstolos. Por isso, Paulo faz uma solene advertência para a liderança hoje: “mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3.10,11).
3. Despenseiros dos dons. O apóstolo Pedro exortou a igreja acerca da administração dos dons de Deus (1 Pe 4.10,11). Ele usou a figura do despenseiro que, antigamente, era o homem que administrava a despensa e tinha total confiança do patrão. O despenseiro adquiria os mantimentos, zelava para que não estragassem e os distribuíam para a alimentação da família. Desta forma, os despenseiros da obra do Senhor devem alimentar a “família de Deus” (1 Co 4.1; Ef 2.19). Eles precisam ter o cuidado no uso dos dons concedidos pelo Senhor para prover a alimentação espiritual, objetivando a edificação do Corpo de Cristo: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o sempre” (1 Pe 4.10,11).
SINOPSE DO TÓPICO (3)
Quando os dons espirituais são utilizados com amor todo o Corpo de Cristo é edificado.
CONCLUSÃO
A igreja de Jesus Cristo tem uma missão a cumprir: proclamar o evangelho em um mundo hostil às verdades de Cristo e descrente de Deus. Diante desta tão sublime tarefa, a igreja necessita do poder divino. Os dons espirituais são um “arsenal” à disposição do corpo de Cristo para o cumprimento eficaz de sua missão na terra. Como já foi dito, o propósito dos dons é edificar toda a igreja, todo Corpo de Cristo para ser abençoado, exortado e consolado. Por isso, nunca devemos usar os santos dons de Deus em benefício particular, como se fosse algo exclusivo de certas pessoas. Somos chamados a servir a Igreja do Senhor, e não a utilizar os dons de Deus para nós mesmos.
AUXILIO BIBLIOGRÁFICO I
Subsídio Teológico
Dado conforme o Espírito Deseja
A primeira relação dos dons com a repetição do fato que cada um é dado pelo Espírito (1 Co 12.8-10) leva ao clímax no versículo 11, que diz: ‘Mas um só e o mesmo Espírito opera todas as coisas, repartindo particularmente [individualmente] como quer'. Aqui temos um paralelo com Hebreus 2.4, que fala dos apóstolos que primeiramente ouviram o Senhor e depois transmitiram a mensagem: ‘Testificando também Deus com eles, por sinais [sobrenaturais], e milagres, e várias maravilhas [tipos de obras de grande poder] e dons [distribuições separadas] do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade’. É evidente, à luz destes trechos, que o Espírito Santo é soberano ao outorgar os dons. São distribuídos segundo a sua vontade. Buscamos os melhores dons, mas Ele é o único que sabe o que é realmente melhor em qualquer situação. Fica evidente, também, que os dons permanecem debaixo de sua autoridade. Nunca são nossos no sentido de não precisarmos do Espírito Santo, pela fé, para cada expressão desses dons. Nunca se tornam parte da nossa própria natureza, ao ponto de não perdê-los, de serem tirados de nós. A Bíblia diz que os dons e a vocação de Deus são permanentes (Deus não muda de opinião a respeito deles), mas aqui há referência a Israel (Rm
11,28,29)" (HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 201 2, ,.P- 230).
A U X ÍLIO BIBLIOGRÁFICO II
Subsídio Bibliológico
“O amor é essencial
Os dons têm um lugar especial na igreja e são muito úteis. Mas o amor representa a essência da vida cristã, e é absolutamente necessário. Ele encontra um lugar mesmo entre os dons carismáticos, porém os dons sem a presença do amor são como um corpo sem alma.
Sem amor, o dom de falar se torna vazio e imprudente — ele é como o metal que soa ou como o sino que tine. O metal que soa (‘gongo barulhento’) significa que um pedaço de metal não lavrado ou gongo usado para chamar a atenção. Tinir (alalazon) significa ‘colidir’, ou um som alto e áspero. O sino (ou símbolo) consistia de duas meias circunferências que eram golpeadas causando um estrondo. A ideia aqui é de um inexpressivo som de metal em lugar de música.
O objetivo do apóstolo é mostrar que o homem que professa o dom da glossoíalia, da forma como era praticada em Corinto, mas que não tem amor, na realidade não é mais que um instrumento metálico impessoal” (Comentário Bíblico Beacon. 1 .ed. Vol. 8. Rio de Janeiro. CPAD, 2006. pp 343-344.
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
SOUZA, Estevam Ângelo de. Nos Domínios do Espírito. 2.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1987. HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 201 2.
EXERCÍCIOS
1. Qual é o verdadeiro propósito dos dons divinos?
R: Edificar-nos e unir-nos, fortalecendo assim a Igreja de Cristo.
2. De acordo com a lição, Paulo priorizava na igreja o ato de profetizar ou o de falar em línguas? Por quê?
R: O ato de profetizar. Porque assim todos seriam edificados.
3. Quantos capítulos, Paulo dedicou para falar a respeito dos dons? Quais são estes capítulos?
R: Dois capítulos: 13 e 14.
4. O que é essencial o crente ter para que a igreja seja edificada?
R: Amor.
5. Segundo a lição, o que fazia o despenseiro?
R: Era a pessoa responsável por administrar a despensa.
Revista Ensinador Cristão CPAD, n° 58, p.37.
Muitas dúvidas pairam sobre os crentes pentecostais quando o assunto é os dons espirituais. Elas prejudicam a obra de Deus e o recebimento das bênçãos divinas. Os dons do Espírito Santo são recursos indispensáveis para o Corpo de Cristo. Eles contribuem para a expansão e edificação da Igreja.
Os dons são sempre concedidos aos crentes visando um propósito específico. Qual será este objetivo? O alvo divino é a edificação de todos os membros do Corpo. Infelizmente, alguns fazem um uso errado dos dons. Vemos crentes tentando usar os dons para alcançar interesses pessoais. Em vez de glorificar o nome do Senhor, estes se utilizam dos dons a fim de galgar posições eclesiásticas. Muitos não estão mais sendo usados pelo Espírito Santo, mas estão tentando usar o Espírito. Eles estão enganando a si próprios. O Senhor conhece nossos corações e as nossas intenções. Haverá um dia que teremos que prestar contas ao Senhor a respeito do uso dos nossos dons e talentos. Neste dia muitos ouvirão do próprio Senhor a quem tentaram enganar (Mt 7.24).
O objetivo dos dons não é a superioridade ou elitização de um grupo (1Co 12.7)
Por falta de conhecimento bíblico, muitos acreditam, erroneamente, que os dons são um sinal de grande espiritualidade e até de superioridade, mas não o são. Tomemos como exemplo os irmãos da igreja de Corinto. Ao visitar aquela igreja, Paulo relatou que ali havia a manifestação de muitos dons espirituais (1Co 1.7). Corinto era uma cidade cosmopolita, marcada pela idolatria, paganismo e imoralidade. Ser um crente fiel naquela cidade não era fácil. Logo, Deus concedeu muitos dons do Espírito Santo àqueles irmãos a fim de que tivessem condições de lutar contra a idolatria, a imoralidade e permanecessem em santidade até a volta de Cristo. Todavia, a igreja de Corinto estava longe de ser uma igreja espiritual. O pecado havia adentrado ali. Paulo chama os irmãos de Corinto de carnais e meninos (1 Co 3.1). Fica então a pergunta: "O que torna o crente espiritual? Os dons?" Podemos aprender, por intermédio dos irmãos de Corinto, que não. Quem tem poder para santificar os crentes é o Espírito Santo. Os dons são dádivas divinas. São presentes e não tem o poder de nos santificar.
Os dons espirituais são dádivas importantes e necessárias à igreja nestes últimos dias antes da Segunda Vinda de Cristo. Estamos vivendo tempos trabalhosos (2Tm 3.1), por isso, precisamos ser cheios do Espírito Santo e procurar com dedicação os dons espirituais (1Co 12.31).
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Os propósitos dos dons podem ser compreendidos a partir de sua natureza. Myer Pearlman diz que os dons do Espírito “...descrevem as capacidades sobrenaturais concedidas pelo Espírito para ministérios especiais...”.3 Para esse teólogo, o propósito principal dos dons do Espírito Santo é “edificar a Igreja de Deus, por meio da instrução aos crentes e para ganhar novos convertidos”.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 26.
I Tm 3.15 Proceder: portar-se, executar sua incumbência, levar sua conduta, também se comportar uns diante dos outros. 2 Co 1.12: “O testemunho de nossa consciência de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo”, i. é, que nos comportamos.
A conduta cristã, a verdadeira devoção, não se fundamenta na opinião humana, não no costume burguês ou antiburguês, não na “natureza”, mas no mistério de Deus.
No AT casa de Deus designa o templo no qual reside o nome de Deus. A pessoa que ora deseja poder habitar constantemente na casa de Deus e ter nela comunhão com Deus. Vale notar que em lugar algum “casa de Deus” é equiparada a “casa de Israel”, como acontece posteriormente no NT: “Sua casa somos nós.”
Percebe-se que o efeito do templo visível, feito por mãos, era tão grande que a ideia de uma “casa espiritual” teve dificuldades para firmar-se. Contudo existem rudimentos para o habitar de Deus entre os humanos que transcende um santuário visível. O profeta vê chegar uma época em que a lei não será mais escrita exteriormente sobre tábuas, guardada no tabernáculo itinerante ou no templo imóvel em Jerusalém, mas deitada no interior da casa de Israel, i. é, escrita em seu coração, e assim Deus será o seu Deus, e eles serão o seu povo (A 5).
Aquilo que se pode notar rudimentarmente no AT, a saber, que a igreja convocada e chamada para fora por Deus (é esse o significado do termo ekklesia), que o povo de Deus também é casa de Deus, na qual ele habita, ocupa agora um espaço bem central no NT. Contudo, não é verdade que agora mais uma vez o templo, isto é, a igreja se encontre no centro; seu centro é o Senhor.
Como as past veem a casa de Deus? (A 5) Nas casas dos cristãos deve ser evidenciada aquela piedade que corresponde ao caráter da casa de Deus, na qual Deus se manifesta em Cristo, o mistério da beatitude. Somente nesse Cristo é real e possível a vida em beatitude. Toda família que tiver Cristo no centro é uma casa de Deus. “O que se esperava dos presidentes e diáconos como pais de família possui sua fundamentação e cumprimento em Deus, o Pai, do qual toda paternidade no céu e na terra possuem o nome.” A família é a pequena casa (ainda que naquele tempo fosse em geral um tanto diferente de nosso núcleo familiar: com muitas crianças, avós ou parentes que vivem com a família, servos e servas, escravos, administradores e supervisores), a igreja é a casa grande, em que o dono da casa utiliza as diferentes vasilhas para seu serviço. Timóteo deve considerar e exortar os diversos membros de igreja como família Dei.
A igreja do Deus vivo: uma intensificação em relação a “igreja de Deus” (v. 5). O Deus vivo não se deixa fixar por desejos e concepções humanas, ou exercícios religiosos. Ele se entrega inteiramente à igreja e não obstante continua sendo totalmente seu Senhor.
Desde o princípio e por natureza a igreja sempre está tanto no movimento de ser chamada e reunida por Deus como em permanecer e perseverar no grande ponto de reunião e repouso de Deus: em Cristo Jesus. Por essa razão não nos deve surpreender que o texto inclua uma terceira qualificação:
Coluna e fundamento da verdade. Diante do fato de que cada pessoa renascida pode ser uma coluna (ou uma pilastra) no templo de seu Deus, indivíduos também podem se tornar colunas particularmente fortes. Deus deseja construir um templo vivo de pedras e colunas vivas.
Fundamento da verdade. Será que de fato temos diante de nós uma concepção apenas estática de igreja? Porventura a igreja recebe uma relevância até agora não conhecida, como fundamento e portadora da verdade? Contra essas suposições cumpre explicitar:
1) Ambas as palavras, “coluna” e “fundamento”, aparecem sem artigo, ou seja, não se trata da igreja como uma grandeza própria, mas de qualquer reunião de cristãos apoiados na palavra de Cristo.
2) Paulo escreve, sem considerar isto como uma contradição, que como construtor ele lançou o fundamento que já está posto: Jesus Cristo. Ele lança a base ao anunciar a Cristo, a pedra fundamental. Chega à verdade aquele que reconhece o único Mediador entre Deus e os humanos, Jesus Cristo. Ouviu a palavra da verdade e crê nela. A igreja é “fundamento da verdade” na medida em que se baseia em Cristo.
3) Uma comparação com 2Tm 2.19s confirma que no entendimento das past Deus é aquele que lança a base firme, e que a última decisão sobre quem pertence à igreja e quem não permanece com Deus.
O firme fundamento lançado por Deus permanece, ele possui um lacre duplo: a) Deus conhece aqueles aos quais chamou, b) a Deus, que chama e santifica, o ser humano responde deixando-se santificar, ou seja, distanciando-se da não-santidade (veja o comentário a 2Tm 2.19s). Persiste a mesma tensão existente no discurso de Jeremias sobre o templo: quem confessa que pertence ao templo do Senhor está sujeito ao Senhor do templo, ao Deus santo e vivo, que possibilita sua vida em santificação e por isso também a espera.
4) As três imagens sobrepostas “casa”, “igreja”, “fundamento” (de Deus, do Deus vivo, da verdade) representam um movimento de transição de um para outro, desse modo assinalando o móvel e o permanente, o dinâmico e o constante.
5) Assim como Paulo encerra suas afirmações sobre a conduta de homens e mulheres no culto dos coríntios com uma referência à “igreja de Deus”, assim ocorre também aqui. O fato de que aqui são acumuladas mais palavras não constitui prova de que a igreja seja tomada mais a sério. Paulo havia utilizado todas as expressões, e mais do que essas, também nas cartas aos Coríntios, ainda que dispersas no contexto.
6) Decisivo, porém, é o fato de que o capítulo não acaba com o olhar sobre a igreja, mas com um hino para Cristo. É em direção desse hino que tudo aponta; a primeira e última coisa não é a igreja, mas Cristo, não o corpo, mas o cabeça. Contudo ambos formam uma unidade da forma como os v. 15 e 16 os conectam. Não se pode detectar uma evolução e solidificação diante de exposições mais antigas de Paulo, mas acontece o oposto. Uma comparação com o hino cristológico da carta aos Filipenses o sugere. Em Fp 2.5-11 Paulo fundamenta a conduta da igreja (na humildade cada um considere o outro superior) por meio do hino à humildade de Jesus. Cristo não é simplesmente exemplo para imitação moral. Sua mentalidade e sua ação fundamentam a mentalidade e ação dos filipenses. Do mesmo modo 1Tm 3.16 é alvo final e ao mesmo tempo fundamentação da beatitude, da mentalidade santa e da ação na igreja.
Fp 2.5 não se refere à “mentalidade”, que se orienta pelo ideal de uma virtude, mas a um “direcionar-se para”, um “orientar-se” conforme uma realidade dada e cumprida, que foi resolvida e inaugurada em Cristo Jesus. É precisamente dessa maneira que o hino cristológico de 1Tm 3.16 está inserido no conjunto da carta e de suas instruções.
Hans Bürki. Comentário Esperança I Timóteo. Editora Evangélica Esperança.
Esses que estão servindo na casa de Deus devem cuidar para que se comportem de acordo, para que não tragam opróbrio para a casa de Deus e ao nome digno de quem os chamou. Os ministros devem comportar-se devidamente e cuidar não somente da sua oração e pregação, mas do seu comportamento. O seu ofício os vincula ao seu bom comportamento, porque qualquer comportamento não será suficiente nesse caso. Timóteo deve saber comportar-se, não somente na igreja específica onde foi designado para habitar por um tempo, mas, sendo evangelista e o substituto do apóstolo, ele deve aprender a comportar-se em outras igrejas, onde seria designado da mesma forma para habitar por um período; e, portanto, * não é a igreja de Éfeso, mas a igreja católica (ou “universal”), que é aqui chamada de a casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo. Observe o seguinte: 1. Deus é um Deus vivo. Ele é a fonte da vida. Ele é a própria vida e aquele que dá vida, a respiração e todas as coisas às suas criaturas. Nele vivemos, e nos movemos, e existimos (At 17.25,28). 2. A igreja é a casa de Deus; Ele mora lá. O Senhor escolheu Sião para ali morar. “Este é o meu repouso.
Aqui habitarei, pois o escolhi”. Ali podemos ver o poder e a glória de Deus (SI 132.2).
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 692.
Esta seção tem sido bem descrita (M. Dibelius) como sendo “a cesura” da carta, i.é, o ponto de divisão que lhe dá relevância. Não somente forma a ponte entre a primeira parte, com suas instruções acerca da oração e do ministério, e as orientações práticas da segunda parte, mas, sim, ao ressaltar as funções verdadeiras de uma igreja, fornece a base teológica para as regras e os regulamentos, bem como para o ataque contra o falso ensino, que formam o corpo da carta. A essência da mensagem de Paulo é que a ordem, no senso mais amplo do termo, é necessária na congregação cristã precisamente porque é a casa de Deus. Seu instrumento escolhido para pregar aos homens a verdade salvífica da revelação do Deus-homem, Jesus Cristo.
14,15. A sintaxe dos dois primeiros versículos é desajeitada; Paulo teria expressado aquilo que queria dizer de modo mais claro se tivesse escrito: “Embora espere ir ver-te em breve, escrevo-te estas coisas para que, se eu tardar, fiques ciente...” Para a situação contemplada, e o argumento de que demonstra traços de artificialidade, ver a nota sobre 1:3. As “instruções” (estas coisas) abrangem todas as exortações contidas na carta. Visto que há uma possibilidade real de atraso, Paulo naturalmente quer colocá-las por escrito, especialmente porque seu conselho acerca da ordem eclesiástica e a necessidade de manter a sã doutrina claramente visa um auditório maior do que Timóteo somente. Isto se aplica especialmente à presente passagem, com suas sugestões subentendidas acerca das responsabilidades de ser membro da igreja. A tradução como se deve proceder na casa de Deus supõe que o Grego queira dizer “como a pessoa deve comportar-se,” e não “como você deve comportar-se.” A favor do último texto, que foi preferido por alguns dos pais, estão (a) o verbo no singular para que fiques ciente, e (b) o fato de que dependia de Timóteo, mais do que qualquer outra pessoa, cuidar que os ideais de Paulo fossem realizados em Éfeso. Do outro lado, o verbo “proceder” (Gr. anastrephestai) é compreensivo, e abrange de modo apto a conduta esperada de todos os grupos discutidos, e os relacionamentos mútuos entre eles. Entender que se aplica à igreja em Éfeso de modo geral também concorda melhor com o caráter semi-público da carta e com a ideia da congregação como sendo a família de Deus. A casa de Deus tem sido traduzida assim ao dar-se ao Gr. Oikos o sentido de uma “construção.” Isto é perfeitamente possível, e é apoiado por (a) as metáforas arquitetônicas na segunda metade do versículo, e (b) a linguagem de Paulo noutros lugares (e.g. 1 Co 3:9, 16-17; Ef 4: 12). Nesta passagem, no entanto, Paulo está claramente retomando o pensamento de 3:4, 5, 12, onde oikos significa “casa” no sentido de “lar” e “família” (cf. 2 Tm 1:16; Tt 1:11) e a analogia entre uma igreja e uma família humana está explícita ou implicitamente presente. Fala de cristãos formando uma família entre si na fé em G1 6:10 e com Deus em Ef 2:19.
É semelhante família ou casa, transformada numa unidade pela sua Cabeça divina, que cada congregação, ou igreja do Deus vivo, forma.
Como em 3:5, não há artigo definido antes de igreja, e isto sugere que Paulo está pensando primariamente da comunidade local específica. Seu comentário pode ter implicações para a igreja universal, mas nenhuma doutrina dela é explicitamente exposta aqui. Paulo frequentemente descreve Deus como sendo vivo (4:10; 2 Co 3:3; 6:16; 1 Ts 1:9). Toma emprestado o epíteto do A.T., onde serve para ressaltar o contraste entre Javé e os ídolos mortos.
A congregação local, Paulo acrescenta, é coluna e baluarte da verdade. Como nas Pastorais de modo geral (ver sobre 2:4), a verdade representa a plena revelação de Deus em Cristo, mas leva consigo a nuança de “a fé ortodoxa.” A escolha da palavra aqui é motivada pela oposição consciente aos mestres do erro que estão para ser denunciados em 4:1 ss. O que Paulo está dizendo é que a função e a responsabilidade de cada congregação é apoiar, reforçai, e assim salvaguardar o ensino verdadeiro pelo seu testemunho consciente. Devemos notar (a) que baluarte é provavelmente a tradução mais exata do Grego hedraiõma (que não se acha em nenhum outro lugar) e (b) que a igreja local é descrita como coluna etc., e não “a coluna, etc.”, porque há muitas igrejas locais em todo o mundo que desempenham este papel. Duas outras interpretações da passagem devem ser mencionadas. Tem sido proposto que coluna e baluarte da verdade deva (a) ser tomada em aposição a Timóteo, o sujeito oculto de fiques ciente supra, ou (bj ser ligada àquilo que se segue e ser usada para qualificar o mistério da piedade. A última pode ser rejeitada imediatamente. Envolve uma tautologia, visto que o mistério da piedade não é o apoio da verdade mas, sim, a própria verdade; e o anticlímax de Evidentemente grande vindo depois de coluna e baluarte é intolerável. A primeira é um pouco  mais plausível. Mas, em primeiro lugar, há muita matéria interveniente entre estas palavras e fiques ciente para permitir que sejam ligadas com aquele verbo; em segundo lugar, o assunto em pauta não é Timóteo, mas, sim, a função da igreja. Os exegetas têm apelado a estes expedientes porque imaginaram que, conforme é comumente interpretada, a passagem deve subentender que a igreja é, dalguma maneira, o fundamento ou base do evangelho, ao passo que a verdade é exatamente o oposto disto (1 Co 3:11). Mas se a tradução e a explicação dadas supra forem corretas, a alegada dificuldade não existe. A única preocupação de Paulo é enfatizar que os membros de cada comunidade local devem ser um baluarte forte do evangelho contra os assaltos dos falsos mestres.
John N. D. Kelly. Epístolas Pastorais Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 87-89.
I - OS DONS NÃO SÃO PARA ELITIZAR O CRENTE
1. A igreja Coríntia.
CORINTO Capital da província romana da Acaia.
1. Topografia. A cidade era uma das mais estrategicamente localizadas do mundo antigo. Estava situada em um planalto que contemplava o istmo de Corinto, cerca de 3 km do Golfo. Assentada aos pés do Acro corinto, uma acrópole que se ergue precipitadamente a quase 600 m de altitude, tão fácil de defender que era chamada de um dos '‘grilhões da Grécia”. Era uma fortaleza tão impenetrável que só foi tomada à força depois da invenção da pólvora. Corinto comandava todas as rotas terrestres da Grécia central para o Peloponeso ao longo do istmo.
Havia bons portos em ambos os lados do istmo: Cencréia no Golfo Sarônico ao leste e o Lichaeum no Golfo de Corinto ao Oeste. Uma moeda do imperador Adriano representava os portos mediante duas ninfas, olhando em direções opostas com um leme entre eles. Nos tempos antigos os navios eram arrastados através do istmo sobre cilindros, para evitar a longa e perigosa passagem em tomo do Cabo Malea na extremidade sul do Peloponeso. Periander o tirano (c. 625-585 a.C.) planejou abrir um canal no istmo, e o Imperador Nero começou de fato este projeto, mas um canal S& foi completado em 1893.
2. História. Os primeiros habitantes de Corinto foram colonizadores do período neolítico e da Antiga Idade do Bronze, que parecem ter se mudado para um local mais próximo à costa, em Koraku, próximo a Lichaeum. Por volta da Nova Idade do Bronze, Koraku era uma colônia próspera em comparação com o local clássico de Corinto, nesta mesma época. E suposto, portanto, que a “Corinto abastada” da Ilíada (Livros 2 e 13) era Koraku, também chamada de Efira no livro 6. Evidências arqueológicas indicam que a colonização na Idade do Bronze foi abandonada pelos dórios em favor do local clássico.
A próspera cidade-estado de Corinto surgiu no 82 séc. a.C. Ganhou controle sobre o istmo e o sul de Megara. Colonos foram enviados para Corcira, Itaca e Siracusa. A expansão da cidade foi liderada pelo clã dos Baquíades. Durante este período, uma escola de poesia liderada por Eumelus se desenvolveu e o estilo Proto-Corinto de olaria apareceu, o qual foi muito influenciado pelo contato com o Oriente. Os Baquíades foram derrotados pelo tirano Cipselo (c. 657), cuja linhagem reinou até 582 a.C. Durante este período, Corinto alcançou o auge de sua prosperidade e poder. Periandro, o último e o
maior dos tiranos, construiu um corredor de pedras (Síoakoç) através do istmo para a transferência de navios e carga. Navios coríntios navegavam tanto para o Oriente quanto para o Ocidente carregados com as lindas mercadorias produzidas na cidade.
No início do 52 séc. a.C. o mercantilismo e imperialismo ateniense levaram Corinto ao declínio. As duas competiam pela influência sobre Samos, em Megara e ao longo do Golfo de Corinto. Uma disputa pela conquista de Corcira e Potidéia levou à deflagração da Guerra do Peloponeso em 431 a.C., que foi desastrosa para ambas. No início do 4- séc. a cidade se aliou a várias forças mais poderosas. Aliou-se com Atenas, Argos e Beócia contra Esparta. Logo em seguida (395-385 a.C.) foi estabelecido um governo democrático de pouca duração, substituído depois por uma oligarquia. Depois da batalha de Queronéia (338 a.C.) Corinto perdeu sua independência. Filipe II da Macedônia guarneceu o Acrocorinto e fez da cidade o centro de sua liga helénica.
No período helenístico Corinto era um centro industrial, comercial e de prazer. Tomou-se membro e, por um tempo, a principal cidade da Liga Aqueana, no período entre a morte de Alexandre e o surgimento da influência romana na Grécia. Depois de uma breve campanha que resultou na conquista da Grécia em 196 a.C., Corinto foi declarada pelos romanos uma cidade livre. Entretanto, logo os romanos foram forçados a restringir a influência de Corinto e da liga, e a cidade foi completamente destruída por Múmio em 146 a.C.
Corinto ficou em ruínas por cem anos, até o decreto de Júlio César em 46 a.C. que dizia que deveria ser reconstruída. Uma colônia romana foi fundada no local, a qual mais tarde se tomou a capital da província da Acaia. Sua população era formada de gregos locais, orientais incluindo um grande número de judeus, homens livres da Itália, oficiais do governo de Roma e comerciantes. A cidade se tomou um lugar favorito dos imperadores romanos. Nero exibiu sua extraordinária habilidade artística nos jogos istmianos e, em um momento de exuberância, declarou a cidade livre. Ele próprio, Vespasiano e Adriano foram patronos da cidade e fizeram de Corinto a cidade mais bela da Grécia. Pausanias, o viajante e geógrafo grego, visitou Corinto no 2- séc. d.C. e fez uma descrição concisa dos monumentos da cidade imperial.
A cidade romana foi destruída por hordas góticas no 3 e 4a sécs. Sua destruição pelos godos, em 521 d.C., levou Procópio a comentar que Deus estava abandonando o império romano. A cidade foi fundada novamente pelo imperador Justiniano e mantida na Idade Média pelos normandos, venezianos e turcos. O antigo local foi abandonado em 1858 devido a um forte terremoto. A nova cidade foi construída perto do golfo e mais para o leste.
Nos tempos romanos, a cidade era notória como lugar de prosperidade e indulgência. “Viver como um coríntio” significava viver em luxúria e imoralidade. Sendo um porto marítimo, Corinto era o local de encontro de todas as nacionalidades e oferecia todos os tipos de vícios. O templo de Afrodite no Acrocorinto era único na Grécia. Suas sacerdotisas eram mais de mil hierodouloi, “escravas sagradas”, que se ocupavam na prostituição. Sua riqueza vinha de seu movimento comercial por mar e por terra, sua cerâmica e indústrias de metal, e sua importância política como a capital da Acaia. Em seu apogeu, provavelmente atingiu uma população de 200.000 homens livres e 500.000 escravos.
Importância bíblica. Existem três itens de interesse arqueológico que se relacionam ao relato de Atos acerca da visita de Paulo a Corinto. O tribunal romano, para o qual ele foi arrastado (At 18.12) pela multidão, para comparecer diante de Gálio, foi descoberto no centro do ágora. Era uma plataforma alta apoiada por dois degraus, revestida com mármore azul e branco. Dos lados havia recintos com assentos e, mais adiante, corredores que levavam da porção inferior à superior do ágora. Esta construção é perfeitamente coerente com a concepção romana de um rostro, uma plataforma para oratória pública.
Ao sul do teatro há uma área grande e pavimentada, datada da metade do l2 séc. d.C. Em uma das pedras do calçamento está a inscrição Eratus,pro aedilitate sua pecunia stravit, “Erasto, em troca pelo título de édilo, colocou [o pavimento] responsabilizando-se por seus custos.” Paulo, escrevendo de Corinto, mencionou em sua epístola aos Romanos (16.23)um Erasto, a quem ele descreveu como “tesoureiro” ou “administrador da cidade”. Embora exista alguma dúvida se 0ík0v6|10ç é um equivalente próprio de edil, comumente em grego, em geral se afirma que este é o mesmo Erasto, um convertido ou amigo do apóstolo.
Uma inscrição encontrada perto do pórtico diz identificada como Zdvcc Ycoyn Epp aícov [“sinagoga dos hebreus”]. Provavelmente era o bloco da verga da porta de um prédio próximo. Embora a inscrição seja em geral datada no 3S séc. d.C., ela atesta a existência de uma comunidade judaica em Corinto.
O apóstolo Paulo visitou Corinto, pela primeira vez, em sua segunda viagem missionária (Atos 18). Ele havia acabado de chegar de Atenas, onde fora miseravelmente recebido. Posteriormente ele disse que começou seu trabalho em Corinto em fraqueza, medo e temor. Pretendia permanecer apenas por um curto período de tempo, antes de retomar a Tessalônica, mas o Senhor falou com ele numa visão durante a noite (At 18.9,10; lTs 2.17,18). Paulo pregou na cidade por um ano e meio. Por um tempo ele residiu na casa de Aquila e Priscila, judeus que haviam recentemente sido expulsos de Roma pelo imperador Cláudio. Assim como Paulo, os dois eram fabricantes de tendas e Paulo trabalhou com eles durante sua estada na cidade, para que seus motivos como pregador não fossem contestados. Logo depois de sua chegada, Silas e Timóteo se juntaram a ele, vindos da Macedônia.
Paulo pregou na sinagoga todos os sábados, até que uma forte oposição surgiu entre os judeus.
Ele então se voltou para os gentios e ficou na casa de Tício Justo, um gentio adepto do Judaísmo, que morava ao lado da sinagoga. Paulo fez vários convertidos durante sua estada, dentre eles Crispo, o administrador da sinagoga.
Em certo momento, uma multidão de judeus arrastou Paulo diante do procônsul romano da Acaia, L. Junius Gálio. O vencimento de seu mandato era para o ano 51-52 ou 52-53, de acordo com uma inscrição encontrada em Delfi, em 1908 (SIG II3.801). Gálio ouviu as acusações no tribunal, mas se recusou a julgar assuntos concernentes à lei judaica. Mesmo quando a multidão libertou Paulo e começou a espancar Sóstenes, o administrador da sinagoga, ele não se envolveu (At 18.12-17). Esta opinião, dada por um oficial romano altamente respeitado, de que a pregação de Paulo não era contrária à lei romana, sem dúvida deu a ele uma compreensão da proteção que Roma lhe daria ao pregar o evangelho. O relato da primeira visita de Paulo a Corinto é encerrado com a observação de que ele partiu, algum tempo depois deste incidente, para Jerusalém e Antioquia via Éfeso.
Paulo escreveu as epístolas aos Tessalonicenses durante sua estada em Corinto. Tão logo chegou na cidade, Silas e Timóteo se uniram a ele. As notícias que Timóteo trouxe da Macedônia levaram Paulo a escrever a primeira epístola aos Tessalonicenses. A segunda epístola foi escrita provavelmente logo após a primeira ter sido recebida.
O livro de Atos conta muito pouco sobre a história do começo da Igreja em Corinto, mas alguns poucos detalhes adicionais podem ser derivados das epístolas aos Coríntios. Apoio, um convertido de Áquila e Priscila enquanto eles estavam em Éfeso, foi enviado com uma carta de recomendação e exerceu um grande papel na igreja, embora às vezes involuntariamente, tenha sido causa de divisões (At 18.27—19.11; ICo
1.12). As evidências indicam que Paulo pretendia visitar a igreja novamente, em sua terceira viagem missionária (2Co 12.14; 13.1).
Enquanto estava em Éfeso, Paulo enviou uma carta para Corinto, que não foi preservada (ICo 5.9). A resposta da igreja, que pedia conselho acerca de problemas que estava enfrentando, e um relatório oral que indicava que a igreja estava muito mal, levou o apóstolo a escrever a primeira epístola aos Coríntios. Esta foi provavelmente levada para Corinto por Tito (2Co 7.13) ou por Timóteo (ICo 4.17), porque ambos haviam visitado a igreja nesta época. Depois da partida apressada de Paulo de Éfeso, ele foi para Trôade com a esperança de encontrar Tito com novidades acerca de Corinto. Sua expectativa foi frustrada, mas ele o encontrou mais tarde na Macedônia. Quando ele recebeu o relato sobre o reavivamento na igreja, Paulo escreveu sua segunda epístola da Macedônia. Depois disso, ele passou três meses na Acaia, grande parte, sem dúvida, em Corinto (At 20.2,3). Enquanto estava lá, arrecadou uma oferta para os santos pobres de Jerusalém, para a qual a Igreja de Corinto também deve ter contribuído, e de onde ele provavelmente escreveu a epístola aos Romanos (Rm 16.23).
A Igreja em Corinto reaparece na história literária ao final do l2 séc. d.C.; por volta do ano 97 Clemente de Roma escreveu uma carta, que ainda sobrevive, à igreja. Esta revela que a igreja ainda era afligida por muitos dos mesmos problemas sobre os quais Paulo escreveu.
MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 1. pag. 1173-1179.
CORINTO Uma cidade muito antiga. Os primeiros colonizadores chegaram a Corinto no quinto ou no sexto milénio a.C. Mas a Corinto do período clássico foi realmente estabelecida com a invasão dos dórios. Por volta de 1000 a.C. este povo grego se estabeleceu no sopé da acrópole de Corinto. Ocupando um lugar de segurança, eles também controlavam a principal rota comercial por terra entre o Peloponeso e a Grécia central, como também a rota Istmiana. Chegando logo a um alto grau de prosperidade, a cidade colonizou Siracusa na Sicília e a ilha de Corcira (a atual Corfu) e alcançou um pico de prosperidade através do desenvolvimento comercial e industrial. A cerâmica e o bronze de Corinto foram largamente exportados pelo Mediterrâneo. Por volta da metade do século V as fortunas da cidade diminuíram como resultado de uma eficaz concorrência da produção industrial ateniense. Durante o período clássico, Corinto controlava cerca de 100 quilómetros quadrados de território, aproximadamente um quarto do tamanho de Rhode Island. Não é possível contar a história de Corinto detalhadamente. E suficiente dizer que ela entrou em conflito com Roma durante o século II a.C, foi finalmente destruída pelos romanos em 146 a.C, e permaneceu virtualmente desabitada até que Júlio César fundou-a novamente em 44 a.C. O crescimento de Corinto foi rápido e, na época de Paulo, ou logo depois, a cidade se tornou o maior e mais próspero centro no sul da Grécia. Ela serviu como a capital da província romana da Acaia, com uma população que variava entre 100.000 a várias centenas de milhares de pessoas.
A história posterior de Corinto não possui nenhum valor especial para os estudantes do NT. A cidade sofreu várias catástrofes até que em 1858, quando foi destruída por um terremoto, ela se moveu para um novo local no golfo de Corinto; por isso escavadores da Escola Americana de Estudos Clássicos foram capazes de descobrir como era o lugar na época do NT.
Nos dias de Paulo, a cidade ficava a aprox.. dois quilômetros e meio ao sul do golfo de Corinto, no lado norte de sua acrópole, a uma altitude de aprox. 130 metros. O monte Acrocorinto ou acrópole se estendia a 500 metros sobre a cidade, a uma altitude de 623 metros. A cidade e sua acrópole eram limitadas por um muro que tinha um perímetro superior a 10 quilómetros. Do lado de fora dos muros, nas planícies circunvizinhas, se estendiam campos de grãos, olivais, vinhas, e outras propriedades rurais da cidade. Ao norte da parte central da cidade ficava a Agora, o centro nervoso da metrópole. A Agora tinha aproximadamente 230 metros de leste a oeste, e cerca de 100 metros de norte a sul. Seguindo a configuração natural da terra, a seção sul era cerca de 4 metros mais alta que a parte norte. Na linha divisória dos dois níveis, havia uma fileira de prédios baixos flanqueando um rostro ou bema, que funcionava como um púlpito para proclamações públicas e assentos de julgamento (q.v.) para magistrados. Aqui Paulo compareceu perante Gálio (q.v.), governador da Acaia, como resultado das acusações dos judeus de que ele havia violado a lei (At 18.12,13). Ao longo do lado sul da Agora, havia um pórtico ou colunata que era um centro de compras, medindo cerca de 150 metros de comprimento. Aqui e no lado noroeste perto do templo de Apolo, havia lojas para os vendedores de carne e vinho, provavelmente o mercado ou o "açougue" ao qual Paulo se referiu em 1 Coríntios 10.25. Uma inscrição foi encontrada perto do teatro, declarando que Erasto (q.v.; provavelmente mencionado em Romanos 16.23) o edil (tesoureiro da cidade), havia colocado o pavimento por sua própria conta. Quanto aos aspectos não-físicos de Corinto, deve ser observado que uma grande parte da população era muito inconstante (navegadores, negociantes, oficiais do governo, et ai.) e estavam, portanto, excluídos dos habitantes da sociedade estabelecida. Para tornar as coisas piores, a prostituição religiosa era comumente praticada em conexão com os templos da cidade. Por exemplo, de acordo com Strabo, 1000 sacerdotisas ou jovens escravas do Templo de Afrodite, na acrópole, eram empregadas na prostituição religiosa. Uma inscrição revela que estas possuíam seus próprios assentos no teatro a noroeste da Agora. A partir da mobilidade social e dos males das práticas religiosas ali, surgiu uma corrupção geral da sociedade. A péssima "moral de Corinto" se tornou um provérbio pejorativo até mesmo no mundo romano pagão. Não é de se admirar que Paulo tivesse tanto a dizer sobre a santidade do corpo em sua primeira carta aos coríntios. Perto de Corinto, os jogos ístmicos ocorriam a cada dois anos em homenagem a Posêidon, deus do mar. Eventos atléticos incluíam corridas a pé, corridas com carros puxados por dois cavalos, o pentatlo (salto, corrida, luta livre, lançamento de disco e lançamento de dardo) e o pancratium (uma combinação de boxe e luta livre). A coroa de vitória parece ter sido um aipo selvagem seco durante o século I d. C, realmente uma coroa corruptível (1 Co 9.25).
PFEIFFER. Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 462.
Dons Espirituais Abundantes (1.7)
Na expressão De maneira que nenhum dom vos falta, o verbo falta significa ser deficiente, ser insuficiente. Declarado em termos positivos, os coríntios tinham abundância de dons espirituais, ou seja, tinham tudo o que era necessário para a salvação. A palavra dom (charisma) é usada apenas por Paulo no NT (exceto 1 Pe 4.10). Paulo usou a palavra de duas formas. De forma geral, a palavra significa “o efeito das ações misericordiosas de Deus, a bênção positiva conferida aos pecadores através da graça”. Neste sentido geral ela inclui todas as graças espirituais e os atributos espirituais. Ela também é usada por Paulo, de uma maneira especial, para referir-se a atributos espirituais em particular que seriam usados no ministério do evangelho de Jesus Cristo. Tais dons são discutidos no final desta carta, nos capítulos 12-14.
Neste primeiro capítulo Paulo usou a palavra dom em seu sentido mais geral. Com respeito ao uso da palavra aqui, o Bispo Lightfoot escreve: “Que ela é usada aqui em seu sentido mais amplo, fica claro a partir do contexto, o qual mostra que Paulo está se expressando especialmente sobre os dons morais, como por exemplo sobre a santidade de vida”. Deus havia enriquecido suas vidas para que não lhes faltasse nada que fosse necessário para a salvação.
Expectativa Espiritual (1.7)
Paulo, com os coríntios, esperava a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo. O apóstolo combinou a vitalidade espiritual presente com a antecipação espiritual futura. Ele observou a vida de uma forma realista, sabendo dos pecados do homem e proclamando a graça redentora de Deus. Ele também buscou com expectativa, sabendo que a segunda vinda de Cristo era a resposta definitiva da graça a um mundo irremediavelmente enredado no pecado. O verbo traduzido como esperando transmite a ideia de uma expectativa forte e ardente, e uma vigilância bastante alerta. A palavra manifestação (revelação, apocalypsis) significa literalmente descobrir, desvelar. “Aqui ela se refere ao retomo do Senhor para receber os seus santos para si mesmo em sua Parousia... Ela é usada em relação à sua vinda com seus santos e anjos para distribuir os juízos de Deus...” Paulo tornou o evangelho relevante para as atuais necessidades do homem. Mas ele, juntamente com outros escritores do NT, sempre fez da expectativa da volta do Senhor Jesus Cristo um estímulo para a busca espiritual e um meio de enriquecimento espiritual e de poder espiritual (cf. 2 Pe 3.11-12; 1 Jo 3.2-3).
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 247-248.
I Cor 1.7. O resultado disso tudo é que os coríntios não têm falta de nenhum dom. Esta palavra é utilizada com referência (1) à salvação (Rm 5:15), (2) aos excelentes dons de Deus em geral (Rm 11:29), e (3) às capacitações especiais do Espírito, por exemplo, falar em línguas (12: 4, ss). Aqui o pensamento é dado em seu sentido amplo (2). Deus lhes enriquecera as vidas, e não tinham falta de nenhum dom espiritual. A referência à segunda vinda do Senhor é inesperada. A associação de idéias pode ser a de que o presente antegozo do Espírito faz o nosso pensamento voltar-se para a experiência mais completa do último grande dia (cf. Rm 8:23; Ef 1:13, 14). Apokalupsin, traduzido pela VA por “ vinda” , significa “ manifestação” (RC), revelação (RA). Há diferentes modos de ver o segundo advento. Este o vê como uma revelação de Cristo. Nós O veremos como Ele é (cf. 1 Jo 3:2).
Leon Monis. I Corintos. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag.  29-30.
Da ação de graças dirigida a Deus pelo apóstolo por causa deles. Paulo começa a maioria de suas epístolas com ações de graças a Deus por seus amigos e com oração por eles. Note que a melhor maneira de manifestar nossa afeição aos nossos amigos é orando e agradecendo por eles. Essa é uma parte da comunhão dos santos, agradecer a Deus mutuamente por nossos dons, graças e bem-estar. Ele agradece: 1. Pela sua conversão à fé em Cristo: “pela graça de Deus que vos foi dada em Jesus Cristo” (v. 4). Ele é o grande provedor e distribuidor do favor de Deus. Aqueles que são unidos a Ele pela fé, e tornaram-se participantes de seu Espírito e méritos, são os objetos do favor divino. Deus os ama, os conduz com completa boa vontade, e concede sobre eles seu sorriso paternal e suas bênçãos. 2. Pela abundância de seus dons espirituais. A igreja de Corinto era famosa por isso. Eles não estavam atrás de nenhuma igreja na manifestação de qualquer dom (v. 7). Ele especifica palavra e conhecimento (v. 5). Onde Deus tem concedido esses dois dons, Ele tem dado grande capacidade para o seu uso. Muitos têm a flor da palavra mas não têm a raiz do conhecimento, e a sua conversão é infecunda. Muitos têm o tesouro do conhecimento, e querem a palavra para usá-lo para o bem dos outros, e, neste caso, ele está por assim dizer envolvido num guardanapo. Mas, onde Deus concede ambos, um homem está qualificado para elevado proveito. Quando a igreja de Corinto foi enriquecida com toda a palavra e todo o conhecimento, era conveniente que muitos louvores fossem dados a Deus, especialmente pelo fato de esses dons serem um testemunho da verdade da doutrina cristã, uma confirmação do testemunho de Cristo entre eles (v. 6). Eles eram “sinais, prodígios e dons do Espírito Santo”, pelos quais Deus levou testemunho aos apóstolos, em sua missão e doutrina (Hb 2.4), de maneira que, quanto mais abundantemente eles eram derramados sobre qualquer igreja, mais pleno testemunho era dado daquela doutrina pregada pelos apóstolos, e maior evidência comprobatória eles tinham de sua missão divina. E não é de admirar que, por terem tal fundamento para a sua fé, eles deviam viver na expectativa da vinda do Senhor Jesus Cristo (v.7). É da natureza dos cristãos que eles esperem a segunda vinda de Jesus Cristo; toda a nossa religião atenta para isso: nós cremos nela, e a esperamos, e ela é a ocupação de nossa vida no sentido de nos prepararmos para ela, se realmente somos cristãos. E quanto mais confirmados estivermos na fé cristã, mais firme será a nossa fé na segunda vinda de nosso Senhor, e mais zelosa será a nossa expectativa por ela.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 429.
2. Uma igreja de muitos dons, mas carnal.
O vocábulo «...irmãos...» é um termo que subentende afeição, usado para suavizar as severas reprimendas que Paulo precisava dirigir contra os crentes de Corinto. (Ver outros usos desse termo em I Cor. 1:10,26; 2:1; 4:6; 10:1; 12:1 e 14:20).
«...espirituais...» Paulo postulou aqui três classes de homens, a saber, «espirituais», «carnais» e «naturais». Os homens espirituais e os carnais são ambos crentes, mas de inclinações opostas. Os homens naturais são os indivíduos ainda sem regeneração. (Ver as notas expositivas a esse respeito em I Cor. 2:14, onde as palavras gregas são explicadas).
«...carnais...» Em outras palavras, «homens da carne», ou seja, crentes controlados pela carne. É possível interpretar que esse adjetivo significa que as pessoas assim qualificadas são inteiramente destituídas do Espírito de Deus (se considerarmos tão-somente o sentido verbal), mas o contexto geral não nos permite tirar essa conclusão. Mui facilmente, entretanto, Paulo poderia estar querendo dar a entender que toda a sua suposta e apregoada espiritualidade, no exercício dos dons espirituais, era falsa, fraudulenta; porque não dispor das qualidades morais de Cristo, e, ao mesmo tempo, ser supostamente habitado pelo Espírito de Deus, a ponto de realizar feitos miraculosos, é uma aberrante contradição, uma impossibilidade moral.
(Ver o desenvolvimento desse tema na introdução ao presente capítulo). Os crentes «...espirituais...», de conformidade com o uso que Paulo fez desse vocábulo, eram os crentes «experientes», espiritualmente maduros, segundo se lê em I Cor. 2:6. Já os «carnais», em contraste com isso, eram os, que davam excessivo valor à sabedoria «humana», conforme a menção e os comentários existentes em I Cor. 1:18,19;21 e 2:1,4,5.
A sabedoria humana, em sua exaltação por parte dos retóricos e sofistas cristãos, que abundavam na igreja de Corinto, é que havia causado as lamentáveis divisões que Paulo repreende com tanta severidade nesta epístola. Príncipes se encontravam entre os sábios deste mundo; mas esses são inteiramente despidos da sabedoria divina, tendo cometido o pior de todos os crimes da humanidade, a saber, a crucificação do Senhor Jesus.
(Ver I Cor. 2:6-8). E poderiam crentes verdadeiros imitar tal sabedoria, provocando assim tão desgraçadas divisões no seio do cristianismo? Tal possibilidade pareceria inconcebível, mas era exatamente o que aquela gente tinha feito. Dessa maneira, se tinham desqualificado a si mesmos como crentes «espirituais». Antes, eram imaturos, crianças na fé. Eram crentes «carnais», o que significa que não eram necessariamente destituídos da presença do Espírito Santo, e, sim, que não eram controlados por ele, conforme supunham, e, sim, pela carne. Não tinham ainda atingido a plenitude da experiência espiritual, apesar de se julgarem supremamente espirituais. Todas as suas supostas elevadas experiências espirituais, portanto, eram fraudulentas.
A palavra «carnal», em sua definição básica, significa simplesmente «da carne e do sangue», não indicando, necessariamente, qualquer qualidade ética inferior. Mas o homem que é dominado por seus desejos inferiores, que se originam da mera mortalidade, como as concupiscências, as paixões, a busca pela fama, pela exaltação pessoal, etc. (tudo o que caracterizava certo grupo de crentes da igreja de Corinto, conforme se lê na primeira e na segunda epístolas aos Coríntios), se torna «eticamente carnal, e não apenas metafisicamente carnal. Isso significa que pouco se conhece sobre o predomínio do «princípio espiritual», também chamado «princípio celestial», que faz com que um homem se torne um crente espiritual. Essa palavra, pois, significa: 1. Pertencente à ordem das coisas terrenas, «materiais», sem ou com algum conteúdo ético. (Ver o trecho de I Cor. 9:11 quanto ao uso dessa palavra, sem qualquer conteúdo moral).
2. Pode também significar «composto de carne», que é uma referência ao corpo humano. (Ver I Pol. 2:2).
3. Finalmente, pode significar pertencente ao reino da carne, isto é, algo débil, pecaminoso e transitório, em contraste com o reino espiritual. (Ver I Cor. 3:4 e I Ped. 2:11). Nesse caso entra o elemento ético, o que mostra que o adjetivo «carnal» significa pecaminoso, controlado por princípios errôneos.
Portanto, por si mesma, essa palavra pode aplicar-se à totalidade dos homens não-regenerados, a todos os homens, como seres .humanos mortais, ou aos crentes carnais. Essa é a aplicação que esse vocábulo tem no presente texto. As pessoas a quem Paulo se referiu não estavam subordinadas à «lei superior» dos céus, mas permaneciam verdadeiros filhos deste mundo terreno. Com isso se pode comparar a afirmativa de Paulo, em Rom. 7:14, em que ele se declara que fora «carnal, vendido ao pecado». Isso é menção à carnalidade que controla o crente infantil, o que abafa as influências espirituais superiores em sua pessoa.
No N.T. grego existem duas palavras extremamente similares, «sarkinos» e «sarkikos». Nem mesmo no grego clássico esses dois termós são distinguidos claramente, e muito menos ainda no grego «koiné». «Sarkinos» é a palavra que aparece neste texto. «Sarkikos» figura em Rom. 7:14; 15:27 e outros trechos. Os manuscritos confundem os dois vocábulos, usando-os como sinônimos. (Ver a iiota textual que as segue).
«.. .crianças em Cristo...»A palavra grega aqui traduzida por «crianças» é «nepios». Esse vocábulo usualmente indica alguém que ainda não sabe falar (derivado de «ne», o negativo, e de «epos», palavra), ou seja, uma criança tão pequena que ainda não aprendeu a falar, isto é, com menos de dois anos de idade. Notemos, pois, quão severa é a repreensão de Paulo. Eram virtuais «recém-nascidos», como crentes, totalmente destituídos de outras experiências cristãs válidas. Eram crentes imaturos, sem espiritualidade, embora se julgassem altamente espirituais. Paulo os põe em antítese com «experimentados», isto é, os crentes maduros, em I Cor. 2:6, que é uma de suas descrições acerca dos crentes «espirituais». Paulo se utilizou da palavra «crianças», algumas vezes, em sentido depreciativo, conforme vemos em Rom. 2:20; Gál. 4:3 e Efé. 4:4. Em diversas referências literárias se verifica que esse termo era empregado para indicar os noviços nas escolas, os prosélitos recentes de alguma religião. Paulo gostaria de ter-lhes escrito uma mensagem como aquela que encontramos na epístola aos Efésios, um tratado profundo sobre as questões espirituais; mas isso lhe era impossível, porquanto se dirigia a pessoas que eram principiantes na fé cristã, que se admiravam ante a sabedoria humana, e não por causa da sabedoria divina.
«Eram pessoas convertidas, mas tinham um entendimento infantil, no conhecimento e na experiência; tinham bem pouco discernimento quanto às coisas espirituais, e não possuíam ainda habilidade na palavra da justiça». (John Gill, in loc.).
«É extremamente comum que pessoas de conhecimento e compreensão muito moderados se mostrarem excessivamente convencidas. O apóstolo atribuiu sua ínfima eficiência, no conhecimento do cristianismo, como uma das razões pelas quais ele não lhes podia transmitir mais profundas verdades». (Matthew Henry, in loc.).
O vocábulo grego aqui usado para indicar «...carnais...» é «sarkikoi», e não «sarkinoi», conforme se lê no primeiro versículo deste capítulo, ainda que alguns manuscritos apresentem a mesma palavra também nesse primeiro versículo. (Ver as notas textuais e os comentários a respeito desse primeiro versículo). Alguns eruditos pensam que «sarkikoi» é termo mais fraco que «sarkinois»; porém, o leitor que acompanhar as referências dadas em um bom léxico grego ou concordância grega, ficará convencido de que ambas essas palavras eram frequentemente usadas para dar a entender a mesma coisa, porquanto são sinônimos entre si. É bem provável, pois, que Paulo tenha usado essas palavras como termos intercambiáveis.
A segunda menção do termo grego sarkikoi neste versículo (onde essa palavra é empregada por duas vezes), é alterada, em alguns manuscritos gregos, para «sarkinoi». Assim dizem os mss P(46), D(1)G, o que certamente mostra que, para muitos escribas antigos, não havia diferença apreciável entre essas palavras. Portanto, a suposta distinção feita por alguns estudiosos, os quais dizem que o final «inos» denota uma relação «material», ao passo que o término «ikos» envolve uma relação «ética», é uma distinção artificial, tanto quanto ao uso real dessas palavras como quanto ao sentido dessas palavras. Diversas outras interpretações estabelecem diferenças quanto a esses vocábulos gregos, mas nenhuma delas é convincente. Assim é que alguns eruditos pensam que «sarkinoi» significa «totalmente da carne», ao passo que «sarkikoi» significaria «dominado pela carne», embora restem ainda alguns elementos espirituais presentes nos indivíduos assim qualificados. Contudo, não é provável que Paulo tenha dito uma coisa, no primeiro versículo, para então, logo adiante, no nosso atual versículo terceiro, ter dito outra, mais suave. Simplesmente Paulo usou esses termos como sinônimos intercambiáveis.
«....ciúmes...» Essa palavra, no original grego, «zelos», pode significar «zelo», «ardor», não sendo má por si mesma. (Ver II Cor. 9:2; Fil. 3:6; Luciano, Adv. Ind. 17: I Macabeus 2:58). Esse é o vocábulo grego do qual se derivou a nossa «inveja», «ciúme», tal como em Plur. Thess. 6:9; Atos 5:17; 13:45; Rom. 13:13; II Cor. 12:20 e Gál. 5:20. Nesta última referência, o «ciúme» é alistado como uma das «obras da carne», isto é, um dos resultados da pervertida carnalidade do homem, em contraste com o «fruto do Espírito», o qual produz a transformação moral do crente segundo a imagem de Cristo. Por conseguinte, a inveja é aqui pintada através do mau sentido de «zelo» ou «ardor», provocado pela criação de facções, alicerçadas na adoração a «heróis» humanos. Porém, Cristo é o único verdadeiro «herói» da igreja cristã; e, assim sendo, adorar ou venerar a quem quer que seja equivale à idolatria, furtando algo da glória de Cristo.
«...contendas...» Essa palavra tem por sinônimos «discórdia», «querelas», «dissensão». (Ver Fil. 1:15; Tito 3:9; I Cl. 35:5; 46:5 e Tito 3:9). Essa palavra aparece na lista dos muitos vícios que caracterizavam os pagãos, que haviam abandonado o conhecimento de Deus, segundo se aprende em Rom. 1:29. Portanto, os crentes de Corinto agiam como homens ainda sujeitos às obras da carne (ver Gál. 5:20), como pagãos que ainda não conheciam a Cristo. No entanto, ao mesmo tempo, se exaltavam como elementos altamente espirituais, ufanando-se no uso extraordinário dos dons espirituais. A estimativa que deles fazia o apóstolo Paulo, contudo, era inteiramente diferente disso. Aquele que é verdadeiramente espiritual deve demonstrar o fruto do Espírito, exercendo predomínio sobre as obras da carne. Devemos observar que essa palavra, aqui traduzida por «contidas», também aparece na lista de Gál. 5:20, como obra da carne, aparecendo ali imediatamente antes de «ciúmes». É possível que esses dois defeitos de caráter tenham alguma conexão vital. As contendas começam quando surge a inveja no coração.
«As contendas são o resultado exterior do sentimento invejoso. (Ver Gál. 5:20; Clemente Rom. Cor. 3)». (Robertson e Plummér, in loc.).
«..e andais segundo o h om em? ...» Isto é, de conformidade como o homem de inclinações «carnais», o homem controlado pelos apetites da natureza carnal. Paulo estabelecia aqui o contraste com o homem «espiritual», referido no primeiro versículo deste capítulo, que ele definiu como «experimentado» ou maduro (ver I Cor. 2:6). Aqueles crentes de Corinto, embora inchados com pensamentos de uma espiritualidade superior, na realidade eram homens controlados pelas paixões carnais, tal como qualquer outra pessoa deste mundo.
Variante Textual·.
Ao invés das palavras: «.. .segundo o homem...», alguns manuscritos dizem «segundo a carne» (no grego, «sarkikoi»), fazendo com que este versículo apresente essa expressão por três vezes. Mas isso é apenas uma tentativa escribal de esclarecer o que Paulo queria dizer com as palavras «segundo o homem», que alguns escribas devem ter imaginado que não seriam compreendidas .Essa modificação aparece em alguns outros textos posteriores).
A operação autenticado Espírito Santo derrota os impulsos carnais na experiência do crente. (Ver Rom. 8:3 e ss.). Os crentes de Corinto, pois, não contavam com uma autêntica operação do Espírito de Deus em suas vidas.
Por causa disso, tinham perdido de vista a glória de Deus, na pessoa de Cristo, substituindo-a pelo orgulho e pela vangloria humanos. Viviam na carne, e não no Espírito; e estavam completamente equivocados quanto a essa questão. Ê admirável como os facciosos, provocadores de divisões entre os irmãos na fé, alicerçados sob questões imaginárias, podem continuar a pensar que são os melhores e mais espirituais elementos de sua comunidade, chegando até a convencer disso a terceiros. Tudo não passa de um colossal ludibrio, que atinge tanto aos enganadores como aos enganados.
«‘Andais como homens’, isto é, como homens sem regeneração. (Comparar com Mat. 16:23). ‘Segundo a carne e não segundo o Espírito’, conforme sucede aos regenerados pelo Espírito. (Ver Rom. 8:4 e Gál. 5:25,26)». (Faucett, in loc.).
Com essas palavras se pode comparar os trechos de Rom.3:5; 15:5 e Gál. 1:2, onde lemos «segundo Jesus Cristo», quanto ao caráter dessa maneira de andar, o que também é um contraste com a maneira carnal de viver. Pois aquele que anda como Cristo andou, segundo Jesus Cristo, só pode fazê-lo por meio do Espírito de Deus.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 38-40.
Paulo censura os coríntios pela fraqueza e incompetência deles. Aqueles que são santificados somente o são em parte: ainda há lugar para crescimento e aumento na graça e no conhecimento (2 Pe 3.18). Aqueles que são renovados pela graça divina para uma vida espiritual, ainda podem ser defeituosos em muitas coisas. O apóstolo lhes diz que “não lhes pôde falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo” (v. 1). Eles estavam tão longe de basear suas máximas e medidas sobre o chão da revelação, e entrar no espírito do Evangelho, que se tornou muito evidente que eles estavam sob o controle das inclinações corruptas e carnais.
Eles ainda eram meros bebês em Cristo. Eles haviam recebido alguns dos primeiros princípios do cristianismo, mas não haviam crescido até a maturidade de entendimento neles, ou de fé e de santidade; e ainda está claro, por diversas passagens nesta epístola, que os coríntios eram muito orgulhosos de sua sabedoria e conhecimento.
Note que é muito comum para pessoas de entendimento e conhecimento muito restritos terem uma grande medida de orgulho próprio. O apóstolo assinala a pouca competência que eles têm no conhecimento do cristianismo como uma razão pela qual ele não lhes havia comunicado mais das suas coisas profundas. Eles não podiam suportar tal comida, eles precisavam ser alimentados com leite, não com carne (v. 2). Note que é tarefa do fiel ministro de Cristo estudar a capacidade de entendimento de seus ouvintes e ensinar-lhes o quanto eles puderem suportar. E também é natural que os bebês cresçam até se tornarem homens; e bebês em Cristo devem se empenhar em crescer em estatura e tornar-se homens em Cristo. Espera-se que seu desenvolvimento no conhecimento seja proporcional aos seus recursos e oportunidades, e ao tempo da profissão da sua religião, que eles possam ser capazes de suportar discursos sobre os mistérios de nossa religião, e não descansar sempre em coisas simples e claras. Era uma vergonha para os coríntios que eles tivessem se sentado tanto tempo sob o ministério de Paulo e não tivessem feito progresso significativo no conhecimento cristão. Observe que os cristãos são totalmente culpados se não se empenham em crescer na graça e no conhecimento.
nEle os censura por sua carnalidade, e menciona sua disputa e discórdia acerca de seus ministros como evidência dela: “porque ainda sois carnais, pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois, porventura, carnais e não andais segundo os homens?” (v. 3). Eles mantinham rivalidades mútuas e rixas e facções entre eles, por conta de seus ministros, “porque, dizendo um: eu sou de Paulo; e outro: eu, de Apoio; porventura, não sois carnais?” (v. 4). Essas são provas de que eram carnais, que inclinações e interesses carnais os controlavam. Note que rivalidades e rixas sobre a religião são tristes evidências de carnalidade remanescente.
A verdadeira religião torna os homens pacíficos e não contenciosos. Os espíritos de divisão atuam com base nos princípios humanos, não nos princípios da religião verdadeira; eles são guiados por seu próprio orgulho e paixões, e não pelas regras do cristianismo: “não andais segundo os homens?” Note que é para lamentar-se que muitos que deveriam se comportar como cristãos, isto é, acima da média dos homens, andam realmente como homens comuns, e vivem e se comportam exatamente como os outros homens.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 436-437.
Cristãos carnais (3:1-4). Uma vez mais, quando Paulo introduz uma repreensão, suaviza-a com o afetuoso irmãos. Sua expressão, não vos pude falar como a espirituais, evidentemente se refere aos dias da missão em Corinto. Naqueles primeiros dias, ele não pôde dirigir-se a eles como a espirituais, isto é, como a espécie de homens de que acabara de falar. Eram carnais então, o que ele explica como crianças em Cristo. Não parece que Paulo acha algo de errado nos coríntios naquele estágio da carreira cristã deles. É inevitável que os que acabaram de ser ganhos para Cristo sejam crianças em Cristo. Não podem ainda ser amadurecidos. Têm que ser Carnais.
3. Paulo chega à raiz da questão com a sua denúncia de que são “ainda carnais” (na AV e na ARC, “ ainda sois carnais” constam do v. 3; na ARA, do v. 2). Mudou a sua palavra pára carnais, de sarkinos, do v. 1, para sarkikos. O sufixo inos significa, “ feito.de...” ; assim, em 2 Co 3:3, tábuas “ feitas de pedra” , lithinos, são contrastadas com as “ feitas de carne” , sarkinos. Em vez disso, o sufixo ikos significa, “ caracterizado por...”; vemos isso em psuchikos, do homem “ natural” e pneumatikos, do homem “ espiritual” , em 2:14,15. A diferença entre sarkinos e sarkikos é como a que há entre “cárneo” e “ carnal” . Sarkinos é a palavra mais abrangente, mas não há censura associada a ela, quando aplicada aos que são novos na fé. Mas sarkikos, “caracterizado pela carne” , quando empregada com referência aos que são cristãos já há anos, contém censura. O crente maduro é pneumatikos, “ caracterizado pelo espírito” . Ser, em vez disso, caracterizado pela carne, como eram os coríntios, é o oposto exato daquilo que o cristão deve ser. “ Carne” , naturalmente, como muitas vezes nos escritos de Paulo, é empregada em sentido moral e ético. Indica os aspectos inferiores da natureza do homem, como em Rm 13:14; Gl5:13; Ef 2:3, etc.
A acusação faz-se específica com a menção de ciúmes e contendas (“divisões”, AV, está ausente dos melhores MSS). A primeira palavra significa basicamente algo como “zelo”, “ardor”. Normalmente é classificada como designativo de virtude por escritores clássicos, e às vezes também por escritores do Novo Testamento. Contudo, esta disposição de ânimo muitíssimo facilmente leva ao ciúme e quejandos, e o conceito característico do Novo Testamento é que é uma das “obras da carne” (G1 5:20). Contendas é palavra que já encontramos em 1:11. Tanto ciúmes como contendas apontam para autoafirmação e para rivalidades doentias. Enquanto que os cristãos devem ser atenciosos para com os outros, os coríntios estavam procurando afirmar-se.
Paulo indaga se isto não é ser carnal (sarkikos) e andar segundo o homem. Esta última expressão significa, “como homens naturais” (cf. 2:14).
Leon Monis. I Corintos. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 50-51.
3. Dom não é sinal de superioridade espiritual.
MUITOS. A incidência dos falsos profetas c de seus discípulos, realizando todos os tipos de milagres cm nome de Cristo, não será um fenômeno isolado.
·Naquele dia·. (Ver 11:24 e Luc. 10:12. o dia do juízo). Provavelmente essa expressão significa «o dia do Senhor», o grande dia, expressão usada pelos profetas do V.T. (que também aparece no N.T.) para indicar o grande juízo divino. (Ver fs. 2:20 e 25:9). Entre os judeus era costumeiro designar esse dia somente como aquele dia. Tinham pavor desse dia. Mal. 4:5 diz:
·...o dia grande e terrível do Senhor.... Mal. 3:2 se lê: Mas quem suportará o dia da sua vinda? e quem subsistirá quando ele aparecer? porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros. e assentar-se-á, afinando e purificando a prata. A passagem de Joel 1:15 diz: «Ah! aquele dia! porque o dia do Senhor está perto, e virá como uma assolação do todo-poderoso». O trecho dc I Tes. 5:2,3 demonstra que essa ideia sobre o caráter espantoso do dia do Senhor entrou no N.T. sem sofrer grande modificação. Ver a nota detalhada sobre o ·dia do Senhor·, que inclui os acontecimentos c os sinais que o antecederão, em Apo. 19:19.
’Profecia·. Inclui a previsão sobre o futuro, mas também indica o ensino público, inspirado pelo Espírito, o ensinar com autoridade especial, exercendo o dom profético. (Ver I Cor. 12:28 e Efé. 4:11). A indicação é que tais pessoas eram mestres na igreja, autoridades religiosas. O dom da profecia é classificado—em segundo lugar, depois do apostolado. (Ver I Cor. 12:28).
...Expelimos demônios... Como o próprio Cristo fez, é um caso de poder especial. Ver nota em Marc. 5:2 sobre a questão dos demônios. Essa nota tem detalhes sobre a própria palavra c a personalidade e obra dos demônios. O mundo dos espíritos é—perfeitamente—real, e quando nosso conhecimento tiver crescido bastante, a própria ciência haverá de demonstrar o fato de que não estamos sozinhos neste mundo. Os sentidos humanos podem captar pequena fração da realidade da criação. Ê fato conhecido que pouquíssimo sabemos sobre a natureza real da criação, pois nem sabemos o que seja a matéria, algo que podemos ver c tocar. Como poderíamos negar a existência de seres e poderes mais altos do que o homem? Pouco sabemos ainda de nossa própria natureza física, quanto menos de nossa natureza espiritual. Mas ainda haveremos de aprender mais sobre esses fatos.
Muitos milagres. São palavras que mostram que o argumento dessas pessoas se baseia em três pontos principais: 1. O exercício das profecias: 2. a expulsão dos demônios: 3. outros tipos inúmeros de milagres. Todos os três pontos demonstram que haverá imitação dos poderes de Cristo e de seus verdadeiros discípulos. Mas todos eles juntos—não provam—a presença e a aprovação de Deus. Tudo pode ser mera imitação.
Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim · (João 10:14).
»DIREI explicitamente·. Palavras que fazem contraste com as palavras proferidas pelos falsos discípulos, que tanto falam de seus trabalhos, de seus milagres. As palavras de Jesus, baseadas na compreensão verdadeira da situação, mostram a verdadeira condição de tais indivíduos. Jesus não negou a realidade das obras, mas demonstrou que a fonte não é Deus. As palavras podem ter o sentido de ·proclamar abertamente», ou seja, revelar totalmente. O trecho de Mat. 10:31 diz: ·Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus·. Essas palavras—pressupõem—que a confissão, feita pelos discípulos de Cristo, é sincera e autêntica. Tal confissão garante a maior confissão, feita por Cristo, em favor de seus discípulos verdadeiros.
Nunca vos conheci·. A ideia não é que houve um contato com Deus que depois foi interrompido, ou que esse contato foi fraco, c. sim, que apesar das palavras e obras desses indivíduos, tal contato jamais houve. A palavra «conhecer» pode conter a ideia de um conhecimento especial de Deus, de aprovação divina, de seu amor pelas pessoas conhecidas, e não indica mera familiaridade. Esse uso da palavra pode ser visto em Rom. 8:29. As pessoas que são conhecidas por Deus dessa maneira (não como simples consciência da existência, da vida ou das decisões delas) são aquelas que Deus predestinou para serem moldadas à imagem de seu Filho. Amós 3:2 expressa a mesma ideia: «De todas as famílias da terra, a vós somente conheci». É óbvio que Deus conhece, de modo geral, todas as «famílias» ou nações do mundo, mas só Israel foi conhecido e amado de forma especial. Esses falsos discípulos nunca tiveram contato algum com Cristo. Cristo nunca os conheceu como amigos, como discípulos verdadeiros. Afirmavam fazer tudo cm nome de Cristo, mas cm realidade praticavam a «iniquidade», o que explica as palavras *...os que praticais a iniquidade».
Adam Clarkc diz neste ponto: «...quantos pregadores há que parecem profetas em seus púlpitos; quantos escritores e obreiros evangélicos, cujas obras nos admiram, mas que nada são. c que são pior do que nada diante de Deus, porque não fazem a 'sua vontade‘ a sua própria vontade! Que horrível é a situação de um homem iminente, cujos dons sobressaem, cujos talentos são fonte de utilidade pública, e que só podem servir de indicadores do caminho que leva à felicidade eterna, mostrando esse caminho ao povo, quando eles mesmos não podem andar por esse caminho!»
«.Apartai-vos de mim·. Resultado final desse tipo de vida—renúncia (não confissão) por parte do próprio Cristo. Ver Sal. 6:8 e Mat. 25:41. Jesus indica o julgamento, nessas palavras. Ver nota detalhada, em Apo. 14:11.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 1. pag. 336.
Falsa Profissão de Fé (7.21-23). Enquanto a advertência anterior estava particularmente voltada aos líderes religiosos, esta trata do grupo de membros dentro da Igreja. O verdadeiro teste do discipulado é a obediência. Nem mesmo a pregação e a operação de milagres em Nome de Jesus Cristo prova que uma pessoa é aceita diante de Deus. O termo demônio, diabolos (“Diabo”) é sempre singular no grego. A palavra aqui é plural, daimonia, “demônios”. A penalidade para a desobediência é a separação de Deus.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 6. pag. 69.
Ele mostra, através de uma clara exposição de razões, que uma visível profissão de fé, embora seja digna de nota, não basta para nos levar ao céu, a não ser acompanhada por uma correspondente conduta (w. 21-23). Todo julgamento pertence ao Senhor Jesus, as chaves foram colocadas em suas mãos. Ele tem o poder de prescrever novos termos de vida ou morte e de julgar os homens de acordo com eles. Essa. é uma solene declaração que está em conformidade com esse poder. Portanto, observe que:
1. Alei de Cristo foi estabelecida (v, 21), “Nem todos aqueles que dizem Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus” , no reino da graça e da glória. Esta é uma resposta ao Salmo 15.1. "Quem habitará no teu tabernáculo?” A igreja militante. E quem morará no teu santo monte? A igreja triunfante. Cristo está mostrando aqui:
(1) Que não basta dizer as palavras “Senhor, Senhor” para ter Cristo como nosso Mestre, ou para se dirigir a Ele professando nossa religião. Nas orações a Deus e nas conversas com os homens, devemos invocar o Senhor Jesus Cristo. Quando doemos "Senhor, Senhor”, estamos dizendo bem, pois é isso que Ele é (Jo 13.13). Mas será que imaginamos que isso é suficiente para nos levar ao céu, que essa expressão de formalidade deveria ser recompensada ou que Ele sabe e exige que o coração esteja presente nas demonstrações essenciais? Os cumprimentos entre os homens são uma demonstração de civilidade, retribuída com outros cumprimentos, e nunca são expressos como se fossem serviços reais. E o que dizer destes em relação a Cristo? Pode haver uma aparente impertinência na oração “Senhor, Senhor” , mas se as impressões interiores não forem acompanhadas pelas correspondentes expressões exteriores, nossas palavras serão como o metal que soa ou como o sino que tine. Isso não nos deve impedir de dizer “Senhor, Senhor” , de orar, e de sermos sinceros nas nossas orações, de professar o nome de Cristo, com toda clareza; porém jamais devemos expressar alguma forma de piedade sem o poder de Deus.
(2) Que será necessário - para nossa felicidade – fazer a vontade de Cristo, que. na verdade, é a vontade do Pai celestial. A vontade de Deus, como Pai de Cristo, é a verdade que está no Evangelho, onde Ele é conhecido como Pai do nosso Senhor Jesus Cristo e, através dele, O nosso Pai. Esta é a vontade de Deus; que creiamos em Cristo, nos arrependamos dos nossos pecados, vivamos uma rida santa e amemos uns aos outros. Essa é a sua vontade; a nossa santificação. Se não obedecermos à vontade de Deus, estaremos zombando de Cristo ao chamá-lo de Senhor, da mesma forma como fizeram aqueles que o vestiram com um manto suntuoso e disseram: “Salve, Rei dos Judeus” . Dizer e fazer são duas coisas que muitas vezes estão separadas nas palavras dos homens: existe aquele que diz: “Eu vou, senhor” , porém jamais dá sequer um passo na direção prometida (cap. 21.30). Mas Deus reuniu essas duas coisas no seu mandamento, e nenhum homem poderá separá-las se quiser entrar no Reino dos céus.
2. O argumento dos hipócritas contra o rigor dessa lei oferece outras coisas no lugar da obediência (v. 22).
Esse argumento deve se referir àquele dia, àquele grande dia, quando cada homem irá comparecer exibindo todas as suas cores, quando o segredo dos corações irá se manifestai- e, entre outras, irão aparecer as secretas pretensões com as quais os pecadores dão suporte às suas vãs esperanças. Cristo conhece a força da causa deles, que, na realidade, não passa de uma fraqueza. O que eles agora abrigam no seu seio será revelado para impedir o julgamento e suspender o seu destino, mas isso será em vão, pois irão apresentar seu argumento com grande impropriedade. “ Senhor, Senhor” e, a esse respeito, irão apelar a Cristo com grande confiança. Senhor, não sabes: (1) “Não profetizamos nós em teu nome?”
Pode ser que sim. Balaão e Caifás foram dominados pela profecia e, contra a sua vontade, Saul se encontrou entre os profetas. No entanto, isso não bastou para salvá-los. Eles profetizaram no nome do Senhor, mas Ele não os havia enviado. Fizeram uso do seu nome apenas para servir a uma circunstância. Veja bem, o homem pode ser um pregador, pode ter os dons do ministério e até um chamado externo para exercê-lo; pode até ser bem-sucedido nisso e, ao mesmo tempo, ser um homem vil; pode ajudar os outros a ir para o céu e, no entanto, estar desqualificado e ficar fora dele. (2) “Em teu nome, não expulsamos demônios?” Isso também pode acontecer. Judas expulsou os demônios, no entanto, era filho da perdição. Orígenes diz que em seu tempo o nome de Cristo era tão prevalecente para expulsar os demônios que, às vezes, esse nome também ajudava, mesmo quando era pronunciado por cristãos indignos.
Um homem pode expulsar o demônio de outros homens e ainda ter, ou ser, o próprio demônio. (3) “Em teu nome, não fizemos muitas maravilhas?” Pode haver alguma fé nos milagres, onde não existe nenhuma fé para a justificação; nenhuma fé que opera através do amor e da obediência. Os dons de línguas e de cura podem recomendar os homens ao mundo, mas somente a verdadeira piedade e santidade serão aceitas por Deus. A graça e o amor são a maneira mais eficiente de remover montanhas, ou de falar as línguas dos homens e dos anjos (1 Co 13.1,2). A graça irá levar o homem para o céu mesmo sem milagres; porém os milagres nunca irão levar o homem para o céu sem a ajuda da graça. Observe que aqueles que confiam e colocam os seus corações na prática dessas obras, veem muitas maravilhas. Simão, o mágico, ficou atónito com os milagres (At 8.13), portanto daria qualquer quantia para ter o poder de fazer o mesmo. Veja que eles não tinham muitas boas obras para pleitear, nem podiam fingir que tinham feito muitas obras de piedade ou de caridade. Qualquer uma destas teria sido melhor para sua avaliação do que muitas e maravilhosas obras, que de nada serviriam enquanto persistissem na desobediência. Atualmente, os milagres continuam a acontecer. Mas será que o coração humano ainda encontra o encorajamento em esperanças infundadas, com seus vãos esteios? Aqueles que são descritos nesse versículo pensam que vão para o céu porque têm tido uma boa reputação entre os mestres da religião, observam o jejum, dão esmolas e têm sido promovidos na igreja, como se isso fosse suficiente para reparar seu permanente orgulho, mundanismo, sensualidade e a falta de amor a Deus e ao próximo. Betei é a sua confiança (Jr 48.13), eles se ensoberbecem no monte santo de Deus (Sf 3.11), e se vangloriam de ser o templo do Senhor (Jr 7.4). Devemos prestar atenção nos seus privilégios e performances externos para não nos enganarmos e não perecermos eternamente, como ocorre com as multidões, que seguram uma mentira em sua mão direita.
3. A rejeição desse argumento por ser frívolo. Aquele que é o Legislador (v. 21) está aqui como Juiz e, de acordo com essa lei (v. 23), irá publicamente anular esse argumento. Irá comunicar a eles, com toda solenidade possível, a sentença emitida pelo Juiz: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade”. Observe: (1) A razão e os fundamentos que Ele usa para rejeitá-los, e aos seus argumentos, se resume no fato de praticarem a iniquidade. Observe que é possível a um homem adquirir um nome notável como pessoa piedosa, e ainda assim ser um praticante de iniquidades. Aqueles que agem assim irão receber uma condenação maior. Quaisquer esconderijos secretos do pecado, guardados sob o manto de uma evidente profissão de fé, são a ruína dos homens. Anulam as pretensões dos hipócritas. Viver deliberadamente em pecado anula as pretensões dos homens, por mais capciosas que sejam. (2) A maneira como esse argumento é expresso: “Nunca vos conheci” . “Nunca me pertencestes como servos, nem mesmo quando profetizáveis em meu nome, quando estáveis no auge da vossa profissão de fé, e éreis elogiados” . Isso indica que, se alguma vez o Senhor os tivesse conhecido, como Ele conhece aqueles que são seus, se os tivesse possuído e amado como se fossem seus, Ele os teria conhecido e possuído e amado até o fim. Mas Ele nunca os reconheceu, pois sempre soube que eram hipócritas e tinham o coração corrompido, como aconteceu com Judas. Portanto, Ele diz: “Apartai-vós de mim”.
Será que Cristo precisava de tais convidados? Quando Cristo veio em carne e osso, Ele chamou a si os pecadores ao arrependimento (cap. 9.13), e quando voltar novamente, coroado de glória, irá afastar de si os pecadores.
Aqueles que não forem até Ele para serem salvos deverão partir para serem condenados. Afastar-se de Cristo será o verdadeiro inferno do inferno, será a razão fundamental da miséria de ser condenado, de ter sido desprovido de toda esperança dos benefícios da mediação de Cristo. Ele não irá aceitar nem trazer a si no grande dia aqueles que, a seu serviço, não vão além de uma simples profissão de fé. Veja a que ponto um homem pode cair das alturas da esperança ao abismo da desgraça. Como pode ir para o inferno através das portas do céu! Essas deveriam ser palavras de alerta a todos os cristãos. Se um pregador que expulsa os demônios e realiza milagres for rejeitado por Cristo porque praticou iniquidades, o que será dele, e o que seria de nós, caso isso acontecesse conosco? Se agirmos assim, isto certamente acontecerá conosco. No tribunal de Deus, uma profissão de fá nunca Irá defender homem algum da prática e do vício do pecado, portanto todo aquele que pronuncia o nome de Cristo deve abandonar toda Iniquidade.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 87-88.
Mt 7.22. Não profetizamos nós em teu nome? O uso de oú na pergunta pede a resposta afirmativa.
Eles afirmam ter profetizado ou pregado em nome de Cristo e feito muitos milagres. Mas Jesus lhes arrancará a pele de ovelha e exporá o lobo voraz.
Mt 7.23. Nunca vos conheci. “Nunca me fui pessoalmente conhecido de vós” (conhecimento experimental).
O sucesso, segundo estimação do mundo, não é um critério de conhecer Cristo e ter uma relação com ele. “Eu lhes direi abertamente”, o mesmo vocábulo usado para confessar Cristo diante dos homens (Mt 10.32). Esta expressão Jesus usará para o anúncio público e franco do destino dessas pessoas.
A. T. ROBERTSON. COMENTÁRIO MATEUS & MARCOS A luz do novo testamento Grego. pag. 93-94.
Il - EDIFICANDO A SI MESMO E AOS OUTROS
1. Edificando a si mesmo.
Diz Paulo que “O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja” (1 Co 14.4). É um aspecto muito interessante do propósito dos dons. O membro da igreja, em particular, precisa ser edificado, para que a coletividade, a igreja, também o seja. Não pode haver igreja edificada, se os membros não tiverem edificação espiritual. Quando o crente fala línguas, sem que haja intérprete, não edifica a igreja, porque o que fala fica sem entendimento para os demais. Mas não se deve proibir que o crente fale língua para si próprio (1 Co 14.39). Tão somente, deve ser ensinado que ele se controle e não eleve a voz, numa mensagem ininteligível. Há irmãos que, ao falar línguas, querem chamar a atenção para si, para mostrar que são espirituais. Isso é falta de maturidade.
O apóstolo ensina: “E, agora, irmãos, se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina?” (1 Co 14.6). Ele quer dizer que, se falar língua sem interpretação, é ótimo para si próprio, pois “edifica a si mesmo”. Mas, se não houver interpretação, não haverá revelação, ciência, profecia ou doutrina. E a igreja fica sem edificação, sem aproveitamento. Daí, porque, no mesmo capítulo, ele exorta: “Pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar. Porque, se eu orar em língua estranha, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto” (1 Co 14.13,14).
Quem fala línguas, sem interpretação, “edifica-se a si mesmo”, mas “... não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em espírito fala de mistérios” (1 Co 14.2). Naturalmente, quando o crente ora em línguas, mesmo que ele não saiba o sentido das palavras, Deus o entende. O crente, batizado com o Espírito Santo, deve procurar desenvolver uma adoração individual, plena da unção do Espírito Santo. Há ocasiões em que as palavras do seu idioma nativo não conseguem expressar o que sua alma deseja dizer a Deus, seja glorificando, intercedendo ou suplicando ao Senhor.
E nessas horas, quando o crente não sabe orar, que o Espírito Santo intercede por ele de maneira especial. “E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Esses “gemidos” do Espírito, pronunciados em línguas estranhas, são incompreensíveis ao que ora, mas perfeitamente entendidos por Deus, pois há línguas estranhas que são linguagem do céu, ou “línguas dos anjos” (1 Co 13.1).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 28-29.
Nem mesmo o dom de línguas, desacompanhado de interpretação, deixa de ter seu devido propósito. As línguas podem servir de meio de edificação própria, no nível da alma, ainda que a mente não entenda o que é dito. As línguas são um meio de entrarmos em contacto com o divino, ainda que o conhecimento não se beneficie. As experiências místicas, até mesmo aquelas da mais elevada ordem, geralmente são inefáveis, isto é, sua natureza e seus resultados não podem ser bem expressos verbalmente. Não obstante, tais experiências produzem um efeito «purificador», um efeito elevador, um efeito até mesmo transformador. É óbvio que isso beneficia a pessoa envolvida; contudo, trata-se de um benefício de natureza egoísta, a despeito de ser aprovado e desejado pela vontade divina. Por essa mesma razão é que o apóstolo dos gentios jamais proibiu que se falassem em línguas (ver o trigésimo nono versículo deste capítulo), ainda que tivesse recomendado que as línguas, sem interpretação, não fossem usadas na adoração pública (ver os versículos vigésimo sétimo e vigésimo oitavo deste capítulo). As línguas particulares seriam altamente benéficas para cada crente, porquanto nada há de errado com a alma que se comunica com Deus, ainda que o intelecto não tire proveito. No entanto, os crentes de Corinto apreciavam o caráter teatral das línguas, e lhe davam preferência acima da profecia, conforme este capítulo inteiro deixa subentendido. Esse foi o «abuso» que Paulo procurou corrigir.
O dom profético, em contraste com as línguas, é uma manifestação de natureza altruísta; portanto, está mais conforme ao grande princípio do amor cristão (altruísmo puro), segundo Paulo havia demonstrado no décimo terceiro capítulo desta epístola. Esse exaltado princípio do amor cristão é que deve governar todas as atividades da igreja cristã; portanto, em uma comunidade cristã bem orientada pelo Senhor, o dom profético terá proeminência sobre as línguas. A profecia é tão mais importante que o dom de línguas como a edificação da congregação inteira é mais importante que a edificação de uma única pessoa.
Acerca do benefício do dom de línguas, comenta Findlay (in loc.): «A impressão causada sobre aquele que fala em línguas, por sua ejaculação verbal, visto tudo suceder em um arrebatamento, e sem concepção clara (ver o décimo segundo versículo e ss.), deve ser vaga; mas isso confirma poderosamente a sua fé, porquanto deixa um senso permanente de possessão do Espírito de Deus (comparar com II Cor. 12:1-10). Nossos mais profundos sentimentos entram na mente abaixo da superfície do consciente».
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 216-217.
Ele apresenta as razões dessa preferência. E é digno de nota que ele somente compare o profetizar com o falar em línguas. Parece que esse era o dom com o qual os coríntios principalmente se valorizavam a si mesmos. Isso era mais ostentação do que a clara interpretação das Escrituras, mais adequado para satisfazer o orgulho, porém menos adequado para buscar os propósitos da caridade cristã; ele não edificaria da mesma forma, nem faria bem à alma dos homens. Pois: 1. Aquele que falava em línguas devia falar unicamente entre Deus e si mesmo; pois, quaisquer mistérios que pudessem ser comunicados em suas línguas, nenhum de seus conterrâneos poderia entendê-los, porque eles não entendiam a língua (v. 2). Note que o que não puder ser entendido nunca poderá edificar. Não se pode tirar vantagem alguma dos mais excelentes discursos, se pronunciados em uma língua ininteligível, que o público não consegue falar nem entender; mas, aquele que profetiza fala para a vantagem de seus ouvintes; eles podem lucrar com seu dom. A interpretação da Escritura será para a sua edificação; eles podem ser exortados e confortados por ela (v. 3). E de fato, esses dois devem caminhar juntos. A obediência é o modo correto de confortar; e aqueles que são confortados devem tolerar ser exorta dos. 2. 0 que fala em línguas pode edificar-se a si mesmo (v. 4). Ele pode entender e ser afetado por aquilo que fala; e assim cada ministro deve fazê-lo; e aquele que mais se edifica a si mesmo está disposto e em bom estado para fazer bem a outros pelo que ele fala; mas, aquele que fala em línguas, ou em linguagem desconhecida, somente pode edificar-se a si mesmo; outros não podem aproveitar nenhum benefício de sua fala. Ao passo que a finalidade do falar na igreja é a edificação da igreja (v. 4), à qual se adapta o profetizar, ou o interpretar as Escrituras por inspiração ou de outra maneira. Note que é o dom mais desejável e vantajoso, que melhor responde aos propósitos da caridade e realiza o melhor bem; não que ele possa somente nos edificar, mas que também edificará a igreja. Tal é a profecia, ou a pregação, e a interpretação da Escritura, comparada com o falar em uma língua desconhecida. 3. De fato, nenhum dom deve ser desprezado, mas deve-se preferir os melhores. “E eu quero, diz o apóstolo, que todos vós faleis línguas estranhas, mas muito mais que profetizeis” (v. 5). Cada dom de Deus é um favor de Deus, e pode ser melhorado para a sua glória, e como tal deve ser valorizado e recebido com gratidão; mas então, devem ser mais valorizados os que forem de maior utilidade, “...porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação” (v. 5). A benevolência torna um homem verdadeiramente grande. Mais bem-aventurada coisa é dar que receber. E é verdadeira magnanimidade estudar e procurar ser útil aos outros, mais do que aumentar a admiração e ganhar a estima deles. Tal homem tem uma grande alma, copiosa e difundida na proporção de sua benevolência e inclinada na mente para o bem público. O que interpreta a Escritura para edificar a igreja é maior do que aquele que fala línguas para recomendar-se a si mesmo. E não é fácil dizer que outra finalidade o que falava em línguas podia ter, a menos que interpretasse o que falava. Note que contribui mais para a honra de um ministro o que é mais para a edificação da igreja, e não o que mostra mais vantagem. Ele age em uma estreita esfera, enquanto tem por alvo a si mesmo; mas seu espírito e caráter crescem em proporção à sua utilidade, quer dizer, sua própria intenção e esforço em ser útil.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 488- 489.
A profecia edifica a igreja (14.4-6). Como a profecia é entendida pelos homens, ela edifica a igreja (4). Falar em línguas desconhecidas serve apenas para fortalecer o indivíduo. Entretanto, Paulo não proíbe completamente esta prática: Quero que todos vós faleis línguas estranhas (5). O verbo quero, ou desejo (thelo), “não expressa uma ordem, mas uma concessão sob a forma de um desejo improvável de ser realizado (cf. 7.7)”.80 Quanto a essa declaração, Bruce escreve: “E provável que Paulo receasse ter ido muito longe ao rejeitar as línguas. Portanto, ele deixa claro que não está proibindo as línguas, mas insistindo na superioridade da profecia”. Como era difícil fazer a distinção entre um dom válido de falar em línguas, ou a legítima expressão de um desejo de êxtase espiritual, e uma inválida expressão de alegria pessoal, Paulo preferiu não proibir o falar em línguas. Entretanto ele indica, de forma rápida e distinta, que o dom de profecia é superior: ...mas muito mais que profetizeis.
O critério de avaliação de qualquer dom é o seu valor para a igreja. Mesmo quando Paulo faz a concessão do falar em línguas, ele imediatamente insiste que seu valor é menor que a profecia, a não ser que elas sejam interpretadas para que a igreja receba edificação (5). As palavras a não ser que também interprete “não se referem à particular interpretação de uma mensagem transmitida em línguas, mas ao dom permanente da interpretação... Paulo tem em vista uma pessoa que recebeu dois dons, o de falar em línguas e o de ter a sua interpretação”. Dessa forma, o apóstolo indica que qualquer glossolalia deveria ser interpretada para fortalecer a congregação.
Quando Paulo faz alusão à sua futura visita a Corinto, ele novamente faz da edificação da igreja o critério pelo qual se estabelece o valor dos dons do Espírito: Que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? (6)
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 349-350.
Paulo, continuando suas admoestações, reporta-se mais uma vez ao seu grande salmo em louvor ao amor: Buscai o amor! Esta deve ser a maior preocupação deles, pois, como expressa certo comentarista: O amor é a patroa; os demais dons espirituais são servos, criados. Por isso, enquanto continuam no empenho proposital de ir após o amor, os coríntios deviam lutar com dedicação pelos dons espirituais, sendo o uso de todos eles, em sua dedicação à congregação, regulado pelo padrão estabelecido pelo amor.
E neste sentido o dom da profecia está acima dos demais, pois seu objetivo principal foi ensinar e instruir outros nas coisas de sua salvação. Deviam cobiçar este dom mais do que todos os outros, até mais do que o de línguas, que naturalmente fazia uma profunda impressão sobre os coríntios e era considerado especialmente desejável.
O apóstolo dá os motivos de sua preferência: Pois aquele que fala em língua, incitado pelo Espírito nalguma língua estranha, em especial se isto acontece no culto público, então ele não fala a pessoas, mas a Deus. As pessoas não têm benefício do seu falar, porque não conseguem entendê-lo.
Ouvem os sons de sua voz, mas não têm qualquer idéia sobre o significado de sua elocução, visto que no espírito fala ministérios, os segredos de Deus continuam encobertos, ocultos aos ouvintes, e provavelmente também a quem fala. Doutro lado, aquele que profetiza, a pessoa que tem o dom da profecia, de fato fala às pessoas. Sua fala, sendo por eles entendida, serve como meio de comunicação; Comunica-lhes ideias, edificação e exortação e consolo. A fala daquele que profetiza serve para fazer os cristãos crescer em conhecimento, promovendo assim o progresso da igreja. Ela os admoesta, os estimula para se aplicarem mais sinceramente ao seu dever cristão. Dá-lhes força e consolo espiritual quando estão em perigo de serem dominados pelo medo. Esse, pois, é o propósito principal do culto público, que a Palavra de Deus seja pregada e aplicada, que as pessoas possam entender o que é dito e sejam edificadas, admoestadas e confortadas. Este objetivo não é alcançado no caso daquele que fala em língua. Na melhor das hipóteses ele edifica a si mesmo, enquanto que aquele que profetiza edifica a assembleia da igreja. Era fato que aquele que falou em línguas foi confirmado em sua fé, visto que deve ter sentido o poder do Espírito, o qual fez uso de sua boca com um instrumento de sua declaração. Foi, porém, o único que foi atingido desta forma, enquanto que no caso daquele que profetizou a congregação reunida recebeu o benefício.
Paulo, fazendo esta afirmação, não quer se entendido erradamente como se subestimasse o valor do dom de línguas: Não obstante desejar que todos vós falásseis em línguas, desejo muito antes que profetizásseis. Desta forma ele não faz quaisquer medíocres concessões aos coríntios, mas está bem consciente do fato que o dom de línguas poderia ter uma profunda impressão sobre um ímpio que chegasse à reunião deles e que poderia abrir caminha para sua conversão. Mas sabe, devido ao uso efetivo e prático, que o dom da profecia deve ser preferido. Além disso, aquele que profetiza é maior do que aquele que fala em línguas. Ocupa uma posição de maior utilidade e por isso também de maior dignidade, a não ser que, aquele que fala em línguas tem também, ao mesmo tempo, o dom e a capacidade de interpretar suas extáticas elocuções, de forma que todas as pessoas possam entendê-lo e a congregação receba, desta forma, edificação. Numa pergunta dirigida a todos eles, Paulo à sua decisão sobre o assunto: Agora, porém, irmãos, sendo tal a situação atual em Corinto, se viesse a vós falando em línguas, que proveito, que ajuda vos seria, se não vos falasse em revelação, ou em sabedoria, ou em profecia, ou em ensino? Se Paulo tivesse sido só um orador em línguas, e incapaz para interpretar os mistérios que o Espírito Santo exprimia através de sua boca, então o seu trabalho evidentemente não teria tido qualquer valor, a não ser que ele, de fato, se pudesse fazer entender por meio duma fala inteligível, em revelação e profecia, pelo ensino dos grandes mistérios que compreendeu, trazendo juntos tanto o conhecimento como a doutrina. A profecia se refere a fatos particulares, para cuja compreensão era precisa luz adicional, a mistérios que só por revelação podiam ser conhecidos. Doutrina e conhecimento foram deduzidos do credo dos cristãos e foram usados para confirmar os cristãos no assunto de sua salvação. Este apelo ao senso comum dos coríntios não podia deixar de convencê-los da verdade do argumento de Paulo, visto que sabiam que ele sempre buscou o bem-estar espiritual deles, e não sua própria satisfação e edificação espiritual.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento. Editora Concordia Publishing House.
2. Edificando os outros.
Este versículo reitera essencialmente a declaração introdutória do primeiro versículo, a fim de levar a discussão a seu ponto final. Todos os dons espirituais são proveitosos, incluindo 0 dom de línguas; mas nem todos se revestem de igual importância. Ao buscarem os dons espirituais (ver I Cor. 12:31 e 14:1), os coríntios deveriam deixar de buscar o dom de línguas e abusar do mesmo, porquanto isso causara efeitos prejudiciais à sua comunidade cristã, como meio que era de auto-glorificação, além de interromper a comunicabilidade entre os membros da igreja que assim faziam. Portanto, se os crentes de Corinto estivessem genuinamente interessados em buscar os dons espirituais, a profecia deveria ser o seu grande alvo, e não as línguas. Isso é o que o apóstolo dissera nos versículos primeiro a décimo primeiro, e que agora confirma nesta sentença breve e conclusiva.
O grande teste da contribuição que os nossos dons espirituais podem fazer à igreja é o teste da edificação. Que temos feito para edificar a igreja onde somos membros? Quantas pessoas têm sido levadas a uma maior aproximação a Cristo, por causa do que temos falado e ensinado? O zelo é bom, mas pode mal orientar inocentemente ou propositadamente, com o propósito de exaltação própria.
«A edificação é o teste a ser aplicado (ver a exposição sobre os versículos terceiro e quarto deste capítulo). Em sua sabedoria, o apóstolo lhes forneceu um alvo controlador e disciplinador que provê a expressão mais completa e satisfatória para um dom, sem importar qual ele seja...Os coríntios deveriam ‘esforçar-se sobremaneira para edificar a igreja’. Esse é o teste prático. Mais do que isso, quando esse teste é satisfeito, as consequências se tornam óbvias para todos. Ninguém, senão os mais totalmente despeitados, poderiam criticar isso. Paulo desenvolve o tema naquilo que é uma das passagens mais notáveis desta epístola». (John Short, in loc.).
«...dons espirituais...», se literalmente traduzidas, diriam «espirituais», porquanto não é usada a palavra grega «charismata» («dons», I Cor. 12:4), e nem «pneumatika» («coisas espirituais», I Cor. 12:1). Essa não é a expressão usada em I Cor. 12:1 e em vários outros trechos, por toda a discussão desse décimo segundo capítulo, cuja tradução literal seria «coisas espirituais», bem como no décimo quarto capítulo. O trecho de I Cor. 12:4 diz «charismata», de onde se desenvolveu o termo técnico que designa os dons espirituais. Entretanto, esses treze vocábulos gregos mui provavelmente eram usados como sinônimos.
Alguns eruditos pensam que Paulo abordava os dons espirituais como diferentes manifestações espirituais, como se representassem certa variedade de «espíritos». Outros estudiosos imaginam que essa palavra indicaria emanações da parte do único Espírito. O mais provável é que encontramos aqui o plural, «espíritos», simplesmente para indicar «dons espirituais», numa espécie de metonímia, em que o nome de uma coisa é usado para indicar algo diferente, que lhe é associado, ou sugerido pelo mesmo. Seja como for, é muito improvável que Paulo se tenha referido à pluralidade de espíritos em qualquer sentido literal, que devessem ser buscados, como forças espirituais «invisíveis»; em sentido geral, porém, talvez haja uma alusão «pessoal». Nesse caso, é possível que «poderes espirituais» sejam aqui reputados como «personificados», devido ao uso da palavra, sem que seja sugerida a ideia de uma pluralidade de «espíritos». Para todos os efeitos práticos, entretanto, os três termos aqui usados, «pneumatika», «pneumata» e «charismata», são sinônimos.
Paulo queria dar a entender que visto aqueles crentes de Corinto tanto ansiarem pelos dons espirituais que os distinguissem de outros homens, deveriam buscar aqueles dons, como a profecia, que verdadeiramente os distinguiria, visto que através de dons dessa ordem a igreja é verdadeiramente edificada, mediante uma atuação verdadeira de Deus. Se fizessem o que era devido se distinguiriam deveras; mas, se, em seu orgulho, abusassem do dom de línguas, embora pensassem nisso residiria a sua glória, não passariam de crentes carnais e insensíveis para com as necessidades da comunidade cristã. Eles se tinham degradado. Para reverter isso, precisavam buscar exceder-se na edificação da igreja local.
«...a força desta passagem é aquela dada acima —cumpria-lhes buscarem os dons espirituais visando ao benefício alheio, e não tanto para se beneficiarem pessoalmente. Assim serviriam a seus irmãos na fé, no que deveriam abundar mais e mais (ver I Cor. 8:7 e I Tes. 4:1)». (Shore, in loc.).
Edificação
1. Esse é o objetivo mesmo do ofício ministerial (ver Efé. 4:11,12).
2. Com esse propósito é que os dons espirituais nos foram concedidos (ver I Cor. 14:3-5,12).
3. A perfeição e a união com Cristo são seus alvos (ver Efé. 4:16).
4. A autonegação é necessária para seu pleno desenvolvimento (ver I Cor. 10:23,33).
5. Espera-se que os crentes se edifiquem mutuamente (ver Rom. 14:19). 6. Todas as ações efetuadas no seio da igreja precisam ter esse alvo em mira (ver Efé. 4:29).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 219.
I Cor 14.12. Outra vez Paulo tem um enfático vós para fazer entender a relevância daquilo que diz aos seus correspondentes. “ Zelosos” (AV) é realmente um substantivo, “ zelotes” . É da mesma raiz que o verbo empregado no versículo 1 e em 12:31, “ procurai com zelo” (AV: “ desejai” e “ cobiçai ardentemente” , respectivamente). Existe esta diferença, que, ao passo que o verbo é frequentemente usado em mau sentido, o substantivo é usado geralmente em bom sentido. Dons espirituais é realmente “de espíritos” (pneumatõn), mas, provavelmente, há pouca diferença. Esta palavra salienta um pouco mais a verdade de que os dons quanto aos quais os coríntios eram “zelotes” tinham sua origem no Espírito Santo. Paulo não censura o desejo deles, mas o toma como base para concitá-los a procurarem progredir, para a edificação da igreja. Precisamente mediante esta passagem, ele retorna a este pensamento. A coisa de valor para o cristão é que possa edificar outros. Embora seja seu direito desejar progredir no exercício de dons espirituais, deve procurar os dons úteis para a edificação. Os outros são relativamente sem importância.
Leon Monis. I Corintos Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag.
No versículo 12, Paulo volta incansavelmente ao seu ponto de maior ênfase: Assim, também vós, como desejais dons espirituais, procurai sobejar neles, para a edificação da igreja. O primeiro objetivo do cristão deve ser a edificação da igreja e o fortalecimento dos seus membros. Se o crente quiser promover o bem-estar da igreja, ele analisará os seus dons de acordo com este critério.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 351.
3. Edificando até o não crente.
Paulo teve coragem de dizer que era um “sábio arquiteto”, na edificação da igreja. Nem todo obreiro pode dizer isso, nos dias presentes. Os terrenos em que a igreja está sendo edificada são tão instáveis, que desafiam a capacidade de todos os engenheiros ou arquitetos. Os ventos fortes de falsas doutrinas e movimentos heréticos, disfarçados de genuínos movimentos cristãos conspiram contra a estabilidade e a unidade da Igreja de Cristo. Os edificadores de hoje têm tantos ou maiores desafios do que os do tempo de Paulo, mesmo que tenham mais recursos humanos e técnicos que o apóstolo dos gentios.
Mas a missão dos obreiros do Senhor é cuidar da evangelização, buscando as almas que se integram à igreja, e o cuidado delas, através do discipulado autêntico, que se fundamenta na sã doutrina, esposada por Jesus Cristo, e interpretada e aplicada pelos seus apóstolos e discípulos, ao longo da História. Os cristãos devem ser edificados para serem templos do Espírito Santo (1 Co 6.19,20). E os dons são indispensáveis nessa edificação espiritual.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 30-31.
I Cor 14.9. Se diversos instrumentos destituídos de vida podem levar os homens a compreender certas atitudes e sentimentos, reagindo conforme os mesmos, ou compreendendo uma ordem emitida por aqueles, em ocasião de batalha, então, quão mais expressivo instrumento precisa ser a voz humana, que conta com o apoio da inteligência, e até mesmo de dons espirituais concedidos por Deus! Assim equipados, os crentes devem ser capazes de transmitir benefícios espirituais a seus ouvintes. Porém, se algum idioma não for compreendido pelos seus ouvintes, perde-se o desígnio inteiro da comunicação de ideias, e a voz humana se torna muito menos significativa do que o instrumento musical visto não haver transmitido pensamento ou sentimento nenhum.
«...como se falásseis ao ar...» Isso seria um ditado antigo, equivalente ao nosso moderno «falar a uma porta». Está em foco um falar inútil, ao qual ninguém dá qualquer atenção, visto não transmitir qualquer entendimento.
Aquele que falava «ao ar» não tinha nenhum ouvinte ao alcance de sua voz; portanto, não podia transmitir ele qualquer mensagem. Assim também sucede ao dom de línguas, sem o dom da interpretação de línguas.
«...língua...» Essa palavra, que aparece aqui no singular, se refere à linguagem ou ao membro literal e físico da língua, que há no interior da boca; mas o contexto deixa claro que essa «língua» é o «falar em línguas», ou seja, mediante aquele dom do Espírito que recebe esse nome. A «língua» é o instrumento da comunicação verbal, tal como a trombeta, a harpa, a flauta, etc., são instrumentos de comunicação musical.
«Essa frase denota a inutilidade de um discurso ininteligível. Tal discurso morre na própria atmosfera, jamais atingindo a mente de um ouvinte».
(Kling, in loc.).
Embora o dom de línguas seja uma manifestação genuína da parte de Deus, a sua utilidade se perde se nada consegue comunicar. Pode reter, entretanto, certa utilidade particular, para o próprio crente que as fala; mas não tem uma utilidade coletiva, altruísta. Portanto, as línguas, caso não acompanhadas do dom paralelo da interpretação de línguas, devem ser praticadas em particular, e não publicamente.
I Cor 14.23. Os versículos vigésimo terceiro a vigésimo quinto fornecem-nos a sexta razão pela qual Paulo dizia que as «línguas» devem ser consideradas um dom espiritual inferior à profecia. Os «indoutos» e os «incrédulos», que estivessem presentes ao culto público, se ouvissem línguas sem a sua interpretação, tenderiam por sentir-se ofendidos, e poderiam até pensar que os que assim falassem estariam mentalmente desequilibrados. No entanto, a profecia serve de força poderosa, tanto na conversão dos incrédulos como na edificação dos crentes.
«...toda a igreja se reunir...» Paulo se referia ao culto público, à ordem eclesiástica, ao referir-se ao valor comparativo dos dons espirituais, cujo grande alvo é a edificação da comunidade; não aludia ao uso particular desses dons espirituais.
«...no mesmo lugar...» Essas palavras podem significar «para o mesmo objetivo»; e alguns eruditos, por isso mesmo, têm imaginado que os vãos coríntios se reuniam com o expresso propósito de exibirem os seus dons espirituais. Apesar disso talvez expressar uma verdade, o original grego, neste caso, muito mais certamente expressa as reuniões dos crentes em algum lugar designado, provavelmente em uma das mansões maiores pertencentes a seus membros. Na época apostólica, segundo tudo parece indicar, ainda não havia templos especialmente erigidos para os cristãos. A sinagoga, entretanto, era um lugar separado de reuniões, e não o lar de algum de seus membros; e é bem possível que até mesmo a primitiva igreja cristã tivesse seu equivalente às sinagogas judaicas. Os lares, outrossim, eram os lugares ordinários de reunião dos crentes, talvez por conveniência ou talvez por razões econômicas; pois os crentes primitivos tradicionalmente provinham das classes menos abastadas. (Ver I Cor. 1:26-28).
Nem todas as assembleias locais, quando se reuniam especificamente com o propósito de adorar, permitiam que «estranhos» (incrédulos) estivessem presentes. Mas isso dependia muito dos costumes locais. Os amigos (ou parentes) dos crentes, quase sem dúvida, eram admitidos em quase todas essas reuniões. Tais pessoas, entretanto, poderiam pensar que o exercício descontrolado do dom de línguas, em que um crente após outro exercia esse dom, visto que nada se entendia do que diziam, seria apenas um sinal de descontrole emocional, ou mesmo de insanidade mental.
«...indoutos...» (ver a discussão sobre essa palavra, nas notas expositivas sobre o décimo sexto versículo deste capítulo). Concluiu-se ali que esses «indoutos» seriam crentes, embora destituídos de «dons espirituais», ou, pelo menos, não possuidores do dom de línguas; e esses não simpatizariam com o exagero no exercício da «glossolalia», talvez até mesmo por motivo de inveja. Dificilmente poderíamos pensar que os mesmos seriam incrédulos (ainda que o vocábulo grego aqui empregado possa significar exatamente isso), porquanto dificilmente os tais diriam «Amém», ao que os crentes dissessem em suas reuniões (conforme Paulo declarou que tais pessoas naturalmente diriam, se porventura compreendessem o que ali fosse dito); e aqui, além disso, esses «indoutos» são contrastados com os «incrédulos». E o vocábulo grego usado para os tais indica exatamente isso; por conseguinte, não pode restar dúvida alguma quanto ao sentido dessa expressão. Ambos esses grupos, os «indoutos» e os «incrédulos», poderiam suspeitar de que aqueles que falavam em línguas eram indivíduos psicóticos, em maior ou menor grau, ou, pelo menos, que fossem pessoas mentalmente desequilibradas.
Pode-se comparar isso com as atitudes dos incrédulos, na narrativa de Atos 2:13, os quais pensavam que os crentes que falavam em línguas estivessem bêbedos. As passagens de Atos 12:15 e 26:24 são outros exemplos, existentes nas páginas do N.T., acerca dessas atitudes dos incrédulos para com os cristãos, o que se vem manifestando desde os longínquos tempos apostólicos até aos nossos próprios dias.
«...e todos se puserem a falar em outras línguas...» Isso indica o abuso a que haviam sujeitado o dom de línguas. Mui provavelmente também falavam todos ao mesmo tempo, tal como os seus profetas, que não esperavam uns pelos outros. Assim sendo, mostravam-se descorteses e extremamente fanáticos no uso que faziam de seus dons espirituais. (Ver os versículos vigésimo nono em diante).
«...estais loucos...» Temos aqui tradução do verbo grego «mainomai», de onde se deriva a palavra moderna «mania», que indica qualquer forma de obsessão, embora também possa indicar alguma insanidade violenta. O termo grego indica perda de controle da mente, insanidade. As «línguas», sem sua interpretação, exerciam um efeito adverso sobre os incrédulos (bem como sobre os crentes sem dons espirituais), ao passo que as línguas, acompanhadas de interpretação, levavam muitos aos pés de Cristo. Os crentes de Corinto, com suas línguas não-interpretadas, produziam dano para a causa de Jesus Cristo. Estavam ocupados em «negócios desvairados»; não procuravam fazer da igreja, com seriedade, um poder em prol do bem da humanidade, que é o seu propósito real.
As observações contrárias de Paulo, por todo este capítulo, visam as línguas desacompanhadas de interpretação. Portanto, ele não contradiz, no presente versículo, a ideia de que as línguas são um sinal para os incrédulos.
Imaturidade Espiritual
1. A imaturidade espiritual se evidencia no egoísmo (ver Rom. 15:1), pois o amor é a verdadeira medida de nossa maturidade. Estás servindo a ti mesmo mais diligentemente do que ao próximo? Nesse caso, és um crente espiritualmente imaturo. A tua maturidade pode ser aquilatada pelo quanto serves aos outros.
2. Os crentes de Corinto demonstravam sua imaturidade ao transformarem a igreja em um teatro, onde os dons espirituais entraram em competição uns com os outros. Isso era destrutivo para a unidade e a paz, e, por conseguinte, para o desenvolvimento espiritual.
3. Os crentes coríntios, em surpreendente ausência de santificação, demonstravam a sua imaturidade quando, o tempo todo, se vangloriavam de seu grande avanço.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 218; 224-225.
Falar em línguas pode não ajudar os incrédulos (14.23-25). Agora Paulo apresenta um caso hipotético para os coríntios. O que acontecerá se toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas (23). Como esse dom era desejável, conforme indicavam os coríntios, toda a igreja tinha o direito, e até a obrigação, de buscá-lo. Mas o que aconteceria se os incrédulos viessem a essa igreja, onde todos estivessem falando em línguas de forma desordenada? Não dirão, porventura, que estais loucos? Paulo não estava preocupado com as pesquisas de popularidade eclesiástica. Nem estava ajustando a mensagem do evangelho para conformá-la ao molde da opinião pública. O apóstolo entendia que a tarefa da igreja era atrair os incrédulos e conquistá-los para Cristo. Ele estava alarmado com o fato de que, ao invés de ajudar a converter os pecadores, o ato de falar em línguas de forma desordenada poderia despertar somente o escárnio e o desprezo dos descrentes.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 352.
Agora Paulo introduz uma passagem da Escritura, para dar aos coríntios a correta compreensão do dom de línguas: Está escrito na lei, no livro das Escrituras do Antigo Testamento: Falarei a este povo por meio de homens que falam uma língua estranha e em lábios de estrangeiros, e mesmo assim não hão de escutar-me, não me darão ouvidos atentos, diz o Senhor, Is. 28. 11, 12. Na passagem original “os israelitas embriagados estão debochando em seus cálices o ensino do Senhor por meio de Seus profetas, como se isto se prestasse só a uma escola de crianças; por isso, em ira os ameaça afirmando dar-lhes Suas admoestações por meio dos lábios de conquistadores estrangeiros.” Paulo cita a passagem para mostrar que o falar em línguas pode operar prejuízo na igreja: Por isso as línguas estranhas são um sinal, ou servem de sinal, não aos que creem, mas aos que não creem; por este dom Deus manifestou Sua presença, não tanto por causa dos membros da congregação como por causa daqueles que ainda eram descrentes. Quando Deus fala numa maneira não inteligível, então Ele se manifesta “não como aquele que revela Seus pensamentos aos fiéis, mas como aquele que se oculta diante daqueles que não querem crer.” Assim, por meio deste fenômeno, os obstinados descrentes, tendo rejeitado a pregação clara e inconfundível da cruz, conforme sua própria opinião, se acham confirmados, e mesmo justificados. Poro outro, o dom da profecia não é papa os descrentes, mas para os cristãos. Não somente acontece que a correta exposição do evangelho da salvação opera a fé e a fortalece, mas também que serve como um sinal da misericórdia de Deus e transforma descrentes em cristãos. Desta forma Paulo desacredita o dom de línguas e desaprova seu uso nos cultos públicos, porque por meio de seu exercício não é alcançado o objetivo da edificação.
Agora o apóstolo mostra a impressão desastrosa que o exercício do dom de línguas necessariamente faz sobre as pessoas que de não possuem quaisquer conecção com a congregação: Sendo este o caso, se a congregação inteira está reunida num mesmo lugar e se todos estiverem falando em línguas, e entrarem pessoas não versadas e não familiarizadas com o que acontece, ou seja, que são gentias, acaso elas não dirão que sois loucos, que todos vos tendes afastado de vossos sentidos? Este quadro não é em nada exagero, mas muito bem pode ser imaginado nas circunstâncias que reinavam em Corinto, ou como aqueles que por esta possa ansiavam as poderiam ter tornado, a saber: Um culto regular, com ensino, louvor e oração, e todos os cristãos ativamente envolvidos em línguas estranhas na oração e no louvor, então entram gentios, ou descrentes, que ainda não estavam versados com a situação, - o que, nesta situação, foi mais natural do que a suposição de que estas pessoas todas estavam falando sob os efeitos da demência? Pois aos visitantes era algo próprio esperar uma exposição clara de alguma doutrina cristã, e não tagarelar infindo, incoerente e heterogêneo. Nota: Este pensamento podia ser aplicado a muitas congregações de hoje, em que o culto da pregação se tornou um tagarelar infrutífero sobre tópicos mal amadurecidos, que só remotamente, caso o forem, estão ligados à doutrina das Escrituras.
Mas o efeito do dom da profecia é totalmente diferente: Mas se todos profetizam, e entra alguma pessoa descrente ou ignorante, esta por todos será persuadida, por todos julgada. O dom da profecia incluía uma explanação e exposição clara e inequívoca da Palavra de Deus na língua comum, seguida pela aplicação apropriada às circunstâncias reinantes. Por isso um visitante casual do culto, ou alguém que estava preso em incredulidade, podia ser persuadido pelo testemunho da Escritura Sagrada quando aplicadas ao seu caso, acontecendo que podia ser tornado cônscio de seu pecado e de sua incredulidade. E, incidentalmente, podia ser examinado pelas palavras de saber onisciente, sendo reveladas as coisas secretas, ou os pecados ocultos, de seu coração. E o resultado, evidentemente, podia ser que uma pessoa assim iria prostrar-se sobre seu rosto e adorar a Deus, admitindo publicamente que Deus estava em meio á congregação cristã. Nada é mais poderoso do que a viva Palavra de Deus, pela qual Ele examina os corações e as mentes, Hb. 4. 12, e discerne os pensamentos e as intenções do coração. Desta forma o dom da profecia resultaria não só no ganho de almas para Cristo, mas também no dar glória ao Senhor.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento. Editora Concordia Publishing House.
IIl - EDIFICAR TODO O CORPO DE CRISTO
1. Os dons na igreja.
«...de quem...» Paulo emprega aqui uma metáfora fisiológica, tal como o faz em Col. 2:19. Na epístola aos Colossenses a metáfora por ele empregada salienta o fato que a criação inteira depende de Cristo como cabeça, unificador, restaurador e governador de tudo. Aqui, embora idêntica linguagem seja usada, a porção enfatizada é Cristo, como cabeça da igreja, a qual é o seu corpo. 6 do Cabeça que o corpo recebe suas energias e poderes vitais, como também a sua coesão. Entretanto, no corpo há também aquela coesão mútua e aquela participação nas energias vitais de uma união perfeita, a despeito do que essa participação vital de energias mútuas depende do Cabeça, já que ele é a origem da mesma e o seu unificador. Por conseguinte, há uma certa «interdependência»' no corpo, nenhum membro fica isolado, e nenhum membro possui a vida espiritual vital que se encontra no próprio corpo. E também há uma dependência mútua do corpo inteiro ao Cabeça, para que receba essa mesma energia de vida divina.
«...bem ajustado e consolidado...» Um corpo se caracteriza pela maravilhosa cooperação de muitos elementos, que são perfeitamente unidos um ao outro. É a essa admirável unidade de muitas porções que Paulo se refere, fazendo disso uma ilustração de como tal condição deveria prevalecer na igreja. São usados verbos no particípio presente a fim de salientar como essa unidade, tão intricada e perfeita em sua natureza e atuação, deve existir na forma de uma operação contínua. As ideias de «harmonia», de «adaptação», de< «solidariedade» e de «unidade na diversidade», são assim expressas. (Comparar com Col. 2:2,19).
Nomes, seitas e partidos caem:
Tu, ó Cristo, és tudo em todos!
Esses dois verbos têm sido variegadamente compreendidos, a saber:
1. Alguns pensam que o primeiro indica «harmonia» e que o segundo indica «solidez».
2. Outros pensam que o primeiro verbo indica «agregação», e que o segundo quer dizer «interadaptação».
3. Mas essas duas expressões não precisam expressar qualquer coisa distintiva, ainda que ambos os verbos, na forma de expressões acumuladas, simplesmente falam da perfeita unidade e da harmonia do corpo, em todas as suas conexões e funções. Se Paulo tivesse realmente querido dar a entender a existência de alguma diferença sutil entre essas duas palavras, como se se estivesse referindo à unidade do corpo, ser-nos-ia impossível descobrir exatamente do que consiste tal diferença. Portanto, parece-nos melhor reputar esses dois verbos como maneiras diferentes de expressar a mesma unidade e de que se compartilha das mesmas energias vitais.
«...toda junta...» Quanto a estas palavras também têm havido diferenças de opinião, ou seja:
1. A maioria dos intérpretes e das traduções pensa que o termo grego «aphe» significa «junta». Tal vocábulo era usado para significar «junta», «ligamento», «conexão».
2. Mas alguns intérpretes pensam estar em foco o sentido geral de «conexão», de «contato»; e isso quer dizer que poderíamos traduzir por «mediante cada contato do suprimento». E isso sugeriria o modo como as forças vitais se dispersam por todo o corpo, como variedade interminável de «contatos». O «suprimento» se refere à vida que Cristo nos outorga, a nutrição do corpo, a formação da vida divina no homem. (Ver João 5:25,26 e 6:57).
O segundo desses sentidos concorda mais com aquilo que se sabe sobre a função do corpo, porquanto as juntas realmente não suprem e nem propagam a vitalidade do corpo. Mas não sabemos o quanto Paulo sabia acerca da função do corpo humano, e nem como exatamente ele se expressa aqui, mesmo que soubesse muito da fisiologia do corpo humano; portanto, é bem possível que ele tivesse feito alusão às «juntas». Uma vez mais é impossível determinarmos com qualquer exatidão a natureza dessa alusão; mas o sentido geral é perfeitamente claro. Existe uma vida, uma energia vital, que vem primeiramente do Cabeça, e que então se difunde por todo o corpo. Por essa razão, o corpo ê vivificado pela vida divina; pois a participação na mesma vida, que vem da mesma fonte originária, é motivo de uma união perfeita. Cada porção, pois, tanto é beneficiada como serve de canal mediante o qual a vida é passada para outras porções.
• «... segundo ajusta cooperação de cada parte...» De acordo com a tradução inglesa RSV (aqui vertida para o português), isso quer dizer «...quando cada porção está operando apropriadamente...» Neste caso, «apropriadamente» é tradução do original grego «en metro», literalmente, «por medida»; e é bem provável que isso aluda às palavras «...segundo a proporção do dom de Cristo...», do sétimo versículo deste capítulo. Por conseguinte, cada «...parte...» (ou membro) tem um dom, ou seja, serve de entidade que dispersa a vida de Cristo no corpo, como agente de desenvolvimento espiritual. Portanto, cada crente, «de acordo com sua medida e capacidade» no corpo, torna-se um «contato» mediante o que a vitalidade do Espírito de Deus é dispersa por todo o corpo.
«...edificação de si mesmo em amor...» (Quanto a notas expositivas completas sobre a «edificação», ver Efé. 4:12). Cumpre-nos observar que todo esse processo de crescimento e nutrição, que produz a maturidade espiritual, se alicerça sobre o «amor», pois Paulo reiterava a ideia que mencionara no versículo anterior. (Ver as notas expositivas ali existentes, onde são dadas outras referências acerca da «importância do amor cristão»). Isso concorda com o que se lê em I Cor. 12-14. Os dons espirituais devem ser buscados, pois são necessários; mas só são úteis esses dons quando são administrados em «amor» (ver o décimo terceiro capítulo da primeira epístola aos Coríntios), pois essa virtude ê maior que todos os dons espirituais. Assim é que um dom espiritual administrado na igreja sem o concurso do amor, não será de grande utilidade na igreja. Boas obras, feitas sem o condimento do amor, não valem coisa alguma aos olhos de Deus. O amor é o elemento onde funcionam a unidade verdadeira e o benefício mútuo no corpo de Cristo. Sem amor, essa realização é simplesmente impossível. «...0 amor edifica...» (I Cor. 8:1). O amor «...é o vínculo da perfeição...» (Col. 3:14). Isso mostra-nos a suprema importância do amor, porque é mediante o amor que Cristo «habita em nossos corações»; e é nesse amor que chegamos a conhecer a pessoa de Cristo, mediante a iluminação do Espírito Santo. (Ver Efé. 3:17-19). O próprio vocábulo «amor» fala sobre «mutualidade», fala sobre «harmonia», «participação», «cuidado pelo próximo», sendo contrário às ideias do «egoísmo», da «cobiça», da «facção» e do «ódio».
Ao mencionar a harmonia e a participação na vida mútua que o amor cristão propicia, Paulo chega ao final da presente secção, reiterando a ideia de unidade, que inspirou esta passagem, a começar por Efé. 4:1, como é necessário nos suportarmos uns aos outros em amor, tendo em vista a preservação da unidade do Espírito no vínculo da paz. (Ver Efé. 4:3).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 605.
Para crescermos “...em tudo naquele que é a cabeça, Cristo”. Crescer em tudo em Cristo quer dizer estar mais arraigado nele. Em todas as coisas - no conhecimento, no amor, na fé e em todos os aspectos do novo homem. Devemos crescer rumo à maturidade, que é o oposto de continuar sendo meninos. Aqueles que crescem em Cristo são cristãos saudáveis. Quanto mais crescermos no conhecimento de Cristo, na fé nele, no amor a Ele e na dependência dele, tanto mais prosperaremos em graça. Ele é a cabeça, e nós devemos crescer de tal forma que estejamos em condições de honrar essa cabeça.
0 crescimento cristão sempre será para a glória de Cristo. (4) Devemos auxiliar uns aos outros, como membros do mesmo corpo (v. 16). Aqui o apóstolo faz uma comparação entre o corpo natural e o corpo místico de Cristo, esse corpo do qual Cristo é a cabeça. Paulo observa que do mesmo modo que há comunhão e comunicação mútua dos membros do corpo entre si, para o seu crescimento e melhoramento, assim deve haver amor e unidade mútua, junto com o fruto apropriado, entre os cristãos, para que ocorra o melhoramento e crescimento espiritual na graça, “...do qual, diz ele (isto é, de Cristo, seu cabeça, que transmite influência e alimento para cada membro específico), todo o corpo, bem ajustado e ligado (estando unidos firme e ordenadamente, cada um em seu devido lugar), pelo auxílio de todas as juntas (pelo auxílio que cada uma das partes, assim unidas, dá ao todo, ou pelo Espírito, fé, amor, sacramentos etc., que, semelhantemente às veias e artérias no corpo, servem para unir os cristãos a Cristo, seu cabeça, e uns aos outros como membros desse corpo), segundo a justa operação de cada parte (isto é, dizem alguns, de acordo com o poder que o Espírito Santo exerce para tornar os meios designados por Deus eficazes para esse grande fim, em relação à medida que Cristo julga ser suficiente e apropriada para cada membro, de acordo com seu respectivo lugar e ministério no corpo; ou, como outros pensam, segundo o poder de Cristo, que, como cabeça, influencia e aviva cada membro; ou, de acordo com o trabalho eficaz de cada membro em comunicar aos outros o que recebeu; assim o alimento é levado a todos na devida proporção e segundo o estado e exigência de cada parte) faz o aumento do corpo”, em conformidade com a necessidade do corpo. Observe: Cada cristão recebe seus dons e graças de Cristo para o benefício de todo o corpo. “...para sua edificação em amor”. Podemos entender isso de duas maneiras: uma maneira é que todos os membros da igreja podem alcançar uma medida de amor maior para com Cristo e uns para com os outros; a outra maneira é que eles são movidos a agir na forma mencionada do amor a Cristo e uns aos outros. Observe: O amor mútuo entre os cristãos é um grande aliado do crescimento espiritual; ao passo que “...um reino dividido contra si mesmo não pode subsistir” (veja Mc 3.24).
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 593.
Ef 4.16. É somente de Cristo, como Cabeça, que o corpo recebe toda sua capacidade para crescer e para desenvolver sua atividade, recebendo assim uma direção única para funcionar como entidade coordenada. Colossenses 2:19 é um texto paralelo bem próximo deste versículo, e ambos deveriam ser estudados em conjunto, embora não se encontre ali a palavra que é traduzida por bem ajustado. Essa palavra só aparece outra vez no Novo Testamento em Ef. 2:21. Deriva de uma palavra (harmos) que designa um tipo de junta ou amarração usada na construção de edifícios, ou para as juntas de articulação do corpo. O segundo particípio (sunbibazomenon) é empregado para a ação de reunir, ligar coisas ou pessoas, para reconciliar aqueles que tenham brigado e também para relacionar fatos ou argumentos num plano de aula ou programa de ensino. Assim, ambos os particípios têm o sentido daquela unidade funcional que se torna possível entre os membros, quando orientados pelo Cabeça. Mas depois desses particípios o grego já se torna difícil. A palavra traduzida junta (haphê) possui inúmeros significados. Denota basicamente “toque”, de sorte que pode significar “contato”, “ponto de contato” ou “pegas”, e estes sentidos levaram os comentadores a uma variedade de interpretações. O uso da palavra tanto no contexto quanto no âmbito restrito da medicina justifica a sua tradução por “junta”, e assim, afirma que é pelo auxilio de toda junta, com que o corpo é equipado, é que o crescimento e funcionamento verdadeiros se tornam possíveis. Em outras palavras, o corpo depende para seu crescimento e atividade: da direção do Senhor, de Sua provisão para tudo o que necessita (compare versículos 11, 12), e também do bom relacionamento entre os membros.
E agora estamos de volta com uma palavra que se tornou familiar nesta epístola (1,19 e 3:7), pois o apóstolo deixa de considerar os membros e a conexão entre eles para tratar da justa cooperação de todo o corpo. A “energização” de Deus no corpo todo torna possível este funcionamento de cada parte, em sua medida e de acordo com sua necessidade. Então menciona-se mais uma vez o propósito do crescimento, e está claro que cada membro não procura o seu próprio crescimento, mas o do corpo como um todo: não sua própria edificação, mas a edificação do todo. Basicamente, a edificação não é o aumento numérico da Igreja, mas o crescimento espiritual. E este crescimento é acima de tudo em amor. Esta pequena frase aparece novamente (1:4; 3:17; 4:2; 5:2), pois o amor determina que cada membro procurará a edificação de todos. Então, sem dúvida, se houver a comunhão da convivência em amor e a demonstração da verdade em amor, o aumento numérico virá como consequência natural.
Francis Foulkes. Efésios Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 103-104.
Ef 4.16 A partir do cabeça resulta, no encerramento dessas considerações sobre a unidade e o crescimento do corpo que Cristo presenteia com dons, o ensejo de ilustrar resumidamente a concomitância e o entrelaçamento desse organismo singular.
Viabilizado por esse cabeça e emanando dele “o corpo todo efetua… o crescimento do corpo para a edificação de si próprio no amor”. O corpo “todo”, até as menores ramificações, recebe de Cristo impulso e vigor para o crescimento, para a edificação. Como em Ef 2.20ss, aparecem também aqui lado a lado as figuras do corpo e da construção. Com o crescimento do corpo em direção do cabeça amplia-se também a construção, favorecendo a sua conclusão. A ligação vital com o cabeça, a única coisa que torna viável esse “efetuar”, exclui a possibilidade de que essa “edificação de si próprio” possa tratar-se de um agir autocrático da igreja. A igreja somente pode ser reconhecida a partir de seu cabeça, Cristo. Toda vez que ela perde isso de vista, o presente trecho visa estimular a retornar para o cabeça.
Todo o corpo é “bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta de apoio”. De maneira muito semelhante, Paulo diz, em Cl 2.19: “… o cabeça, a partir do qual o corpo todo é apoiado por articulações e tendões e mantido coeso e cresce pelo agir de Deus.”
Quando se entende o v. 16 como síntese de Ef 4.7-15, as “juntas de apoio”, que possuem uma função central para a coesão do corpo, serão relacionadas com as pessoas incumbidas das tarefas citadas no v. 11.
Também aqui é preciso chamar novamente atenção para o fato de que a tarefa de apoio daqueles especificamente incumbidos apenas é possível a partir de sua ligação vital com o cabeça, uma vez que não representam apenas “dons” para o corpo, mas que também receberam os “dons” pessoalmente de Cristo, de acordo com a vontade dele (Ef 4.7s).
Essa coesão é fomentada “segundo a força atribuída a cada parte”. A formulação “a cada” retoma o v. 7, motivo pelo qual igualmente não deve ser restrito aos que são especificamente encarregados, mas à totalidade dos que creem: a cada um foi concedida, de acordo com a medida do dom de Cristo, a graça com os dons dela decorrentes. De forma análoga o corpo é favorecido por todos os membros. Isso ocorre conforme a força medida para cada parte (cf. Ef 3.7 com vistas ao próprio Paulo).
Assim este versículo sintiza de fato todo o trecho precedente: partindo da unidade de Deus e de seu agir no corpo de Cristo, o olhar se estende para a multiplicidade dos dons distribuídos aos crentes. Na sequência, Paulo destaca as tarefas específicas dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres no preparo dos santos, para que a igreja de Cristo possa alcançar a idade adulta e resistir a doutrinas ardilosas e enganosas. Por fim o apóstolo enfoca novamente a cooperação de todos na edificação do corpo. A característica marcante de toda a incumbência é que a edificação acontece “no amor” (v. 13). Isso sucede quando o conhecimento do amor de Cristo (Ef 3.19) cresce mais e mais e por isso também se fala a verdade em amor (Ef 4.15).
Eberhard Hahn. Comentário Esperança Efésios. Editora Evangélica Esperança.
2. Os sábios arquitetos do Corpo de Cristo.
I Cor 13.9. Nosso conhecimento é parcial, até mesmo com a ajuda dos mais elevados dons da sabedoria e do conhecimento. Essa admissão é declaração, feitas pelo apóstolo, deveria ensinar-nos a sermos cautelosos quando cercamos a Deus com os nossos dogmas, como se, já sabendo tudo quanto tem importância, não precisássemos mais de fazer qualquer pesquisa honesta pela verdade. A tendência da religião «ortodoxa» é olvidar-se desse grande fato, apodando de heterodoxa qualquer opinião que não se adapte facilmente dentro dos limites dos dogmas já aceitos.
Da covardia que teme novas verdades,
Da preguiça que aceita meias-verdades,
Da arrogância que conhece toda a verdade,
Oh, Senhor, livra-nos. (Arthur Ford).
Os intelectuais de Corinto faziam uma ideia exagerada da grandiosidade de seu conhecimento. Foi mister que Paulo lhes lembrasse que, quando muito, o que sabiam era parcial; e ele nem ao menos aborda aqui o problema dos «erros» incorporados no sistema deles. Mui provavelmente isso é verdade porque ele via o conhecimento mais especificamente como aquilo que nos é dado mediante os dons da sabedoria e do conhecimento, ou seja, aquilo que seria ensinado como correto até onde vai, mas sem qualquer pronunciamento da verdade de Deus. De fato, tal pronunciamento é impossível para nós, no presente estado de mortalidade. Para nós o conhecimento se acha em estado de constante expansão, nunca chegando a um ponto final. Todos os campos do conhecimento, das ciências à teologia, estão sempre franqueados à modificação e revisão, à medida que nossos conceitos são expandidos e aprofundados. A doutrina do fluxo, postulada por Heráclito: «Não se pode pisar no mesmo rio por duas vezes», encerra uma verdade que se aplica à situação humana. E isso porque se o conhecimento de Deus é perfeito, o homem, contudo, devido ao seu estado mortal, nunca pode compartilhar plenamente desse conhecimento; e, assim, a sua participação está sempre em estado de fluxo.
O conhecimento e a profecia, pois, conforme os conhecemos e podemos conhecer, serão sempre indiretos, parciais e fragmentários; e disso participam os tipos exatos de descrição que a moderna epistemologia atribui a todo o conhecimento, incluindo o conhecimento científico. Existe uma realidade permanente e perfeita; porém, agora nos dirigimos nessa direção, e finalmente chegará o tempo quando o que é «perfeito» virá substituir o que é imperfeito, quando o incompleto cederá lugar ao que é completo. (Ver o décimo versículo deste capítulo).
Nessa conexão, podemo-nos lembrar da alegoria de Platão acerca da caverna. Platão imaginou homens no interior de uma caverna, sentados de costas para uma fogueira. Entre eles e a fogueira tinham sido postos vários objetos que havia na superfície da terra. Mas aqueles homens jamais tinham visto a superfície, e nem as imitações das coisas que aqui existam.
Tudo quanto conheciam era as sombras das imitações projetadas pela luz da fogueira, na outra extremidade da caverna. Naquela lamentável condição, eles imaginavam que aquelas sombras, as sombras projetadas pelas imagens, eram as próprias realidades da vida. O que aconteceria, indagou Platão, se um daqueles homens da caverna pudesse subir à superfície e contemplar a realidade; e em seguida voltasse a seus companheiros, contando-lhes o que vira? Os outros poderiam até matá-lo, porquanto ele se tornaria uma afronta para o «conhecimento» aceito entre eles. E assim também é e deve continuar sendo no caso de nosso atual conhecimento sobre as coisas divinas e mais elevadas. Esquecendo-nos disso, ficamos inchados em face de nosso conhecimento, criticando e perseguindo àqueles que têm idéias que não se adaptam bem ao nosso sistema. Alguns «crentes» têm chegado mesmo a matar a outros, por causa de diferenças de opinião, e muitos outros «assassinam» o caráter daqueles que deles diferem em suas ideias, ou excluem-nos, de alguma maneira, da comunhão da igreja.
Quando muito, no presente, vemos através de um espelho baço (ver o décimo segundo versículo deste capítulo), onde os reflexos (isto é, o conhecimento) são imperfeitos, e, algumas vezes, até mesmo ilusórios. «Muitos dos chamados hereges teriam sido salvos de perseguições impróprias do cristianismo, se essa imperfeição e caráter indireto do conhecimento cristão houvesse sido mais geralmente percebido e reconhecido. Com grande frequência os hereges têm sido apenas pioneiros quanto a grandes verdades. O próprio Jesus foi um herege aos olhos dos judeus ortodoxos de seu dia. Não havia qualquer necessidade de fazer assertivas dogmáticas sobre qualquer ponto de vista pessoal, na igreja de Corinto; mas havia toda a necessidade de um espírito de tolerância e fraternidade, capaz de perceber que a luz branca do conhecimento e da profecia se compõe de muitas cores, tornando-se ainda mais rica em face disso. E essa verdade continua de pé até hoje: ela convida aqueles que se chamam pelo nome de Cristo a praticarem tudo de mente aberta, percebendo que ainda há mais e mais luz que provém da Palavra de Deus».
(John Short, in loc.).
«O bispo Butler tem demonstrado que, neste mundo, o conhecimento completo ao menos de uma parte, é algo impossível; pois não podemos dispor disso enquanto não conhecermos sua plena relação para com o todo; e, a fim de fazer isso, precisamos ter conhecimento completo do todo, o que é impossível». (Robertson e Plummer, in loc.).
«Conhecimento e pregação são ambos incompletos; portanto, quando esta dispensação terminar, e a dispensação completa for inaugurada, então esses dons imperfeitos cessarão. Os dons espirituais são apenas os implementos da lavoura divina; as graças são as próprias sementes. Quando chegar o tempo da grande colheita, os instrumentos, ainda que úteis, serão inteiramente postos de lado; e as sementes, em face do próprio processo da morte, serão transformadas en. inflorescências e frutos, e, nessa forma aperfeiçoada, permanecerão para sempre». (Shore, in loc.).
Quando Newton surpreendeu o mundo científico, com novas e admiráveis descobertas, um poeta qualquer continuou salientando a parcialidade do nosso conhecimento, como segue:
Seres superiores, quando viram ultimamente,
Um homem mortal explicar as leis da natureza,
Admiraram-lhe a sabedoria em forma 'terrena'.
E mostraram a Newton como se mostra um macaco.
Contudo esse poeta, mesmo sem ter reconhecido a sua dívida, na realidade tomou de Platão essa ideia, por empréstimo, pois este outro escreveu: «O mais sábio dos mortais se assemelha apenas a um macaco segundo a estimativa de Deus».
O argumento usado por Paulo é que aquilo que é «parcial» e «imperfeito», em face dessas mesmas características, não pode ser permanente. O amor, por outro lado, sendo perfeito, é permanente. Um conhecimento mais elevado, um conhecimento perfeito, é possível; mas isso somente quando da inauguração do estado eterno.
I Cor 13.10. A imperfeição é temporária. A perfeição é permanente. Um conhecimento novo continuamente toma obsoleto o conhecimento anterior.
A profecia, similarmente, jamais poderá atingir qualquer alto pináculo de perfeição. Mesmo assim ela é útil em sua forma imperfeita, a despeito de sujeita à eliminação. O conhecimento e a profecia, embora imperfeitos e temporais, não podem ser desconsiderados; mas nossa esperança se eleva acima disso. A perfeição nos será conferida na forma da parousia ou segundo advento de Cristo, acontecimento ao qual Paulo faz alusão aqui; ou, pelo menos, isso representará para nós um notável salto para a frente, pois, ficando então libertos do corpo mortal, nossos espíritos se elevarão mais rapidamente na direção de sua origem—o Senhor Deus. Nessa elevação para Deus, no estado eterno que haverá nos lugares celestiais, é que os dons espirituais que conhecemos agora na terra, serão eliminados; mas isso somente para nos tornarmos capazes de contemplar diretamente as grandes realidades celestiais. Finalmente a perfeição nos envolverá completamente, visto que compartilharemos, de modo perfeito, tudo aquilo que Cristo é e tem, em sua natureza moral, em sua natureza metafísica (e, portanto, em sua herança perfeita), e também em sua herança. (Ver Rom. 8:17,29,30; Efé. 1:23; II Cor. 3:18 e II Ped. 1:4).
O que é «imperfeito» não desaparecerá enquanto não vier o que é perfeito.
E isso é um poderoso argumento em favor da possibilidade da continuação dos dons miraculosos (e não miraculosos), continuação essa que prosseguirá até à «parousia» ou segunda vinda de Jesus Cristo. Isso vai de encontro aos argumentos distorcidos de alguns, que pretendem eliminar os dons miraculosos, como se os mesmos .houvessem desaparecido quase imediatamente depois da era apostólica, os quais supõem encontrar base bíblica para essa opinião no fato que o oitavo versículo deste capít. diz que esses dons eventualmente «cessarão». Ê verdade que os dons espirituais cessarão; mas o tempo é definidamente determinado no presente versículo, isto é, no fim da presente era da graça, quando da segunda vinda de Cristo. Porém, enquanto não vier o que é perfeito, teremos necessidade dos dons espirituais «imperfeitos» visto que eles são muito, muito superiores a qualquer coisa meramente humana.
Não existe aqui, obviamente, nenhuma referência ao «cânon» das Escrituras do Novo Testamento, como a «perfeição» que esperamos. Esta interpretação é uma invenção do século XX para obter um texto de prova para ensinar que os dons, necessariamente, deveriam ter acabado ao fim da era apostólica. A «perfeição» do texto é adequadamente descrita: Nesta perfeição, «conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido», (vs. 12). Vs.8 mostra que não é só as línguas que cessarão. O nosso «conhecimento» (como agora existe, i.e. bastante parcial) também cessará. O «cânon» das Escrituras, claramente, não trouxe estas condições.
Paulo está antecipando a perfeição que a segunda vinda de Cristo trará. Os dons podem existir, então, até lá, mas isto não quer dizer que realmente existem. O movimento carismático dos nossos tempos não tem se recomendado como do Espírito Santo. Homens espirituais dos nossos dias possuem os dons de maneiras diferentes do que aquela do tempo do N.T.
Haverá uma grande transição de uma dispensação para outra, da era presente para o estado eterno, em razão do segundo advento de Cristo. Essa transição é pintada pelo apóstolo Paulo mediante aquilo que tem lugar entre a meninice e a idade adulta. A «meninice», neste caso, representa a era inteira da imperfeição, a nossa era presente. Não importa quão grandemente os dons sejam desenvolvidos, não importa quão elevada se torne a nossa sabedoria e o nosso conhecimento, e não importa quão eloqüentes se tornem a profecia e as línguas—em comparação com o que haverá eventualmente, tudo quanto obtivermos agora é apenas brinquedo de crianças, sentimentos infantis, pensamentos infantis, coisas próprias de meninos. Isso serve de poderosa ilustração instrutiva, sobre a estatura de nosso presente conhecimento. Portanto, aqueles que temem qualquer teologia especulativa, esquecem-se de que toda a teologia presente na realidade não se afasta muito dessa teologia especulativa, embora com bases em verdades divinas fixas e permanentes.
Paulo fez voluntariamente a admissão de imaturidade, algo que os altivos intelectuais da igreja de Corinto teriam grande dificuldade em fazer, e algo a que se negam a fazer muitos dos crentes de hoje em dia, os quais, bem pelo contrário, preferindo seguir o exemplo dos antigos coríntios, exaltam o seu próprio conhecimento e tratam-no como se fora algo completo e perfeito.
Esta vida, portanto, consiste em uma «infância espiritual», e a era vindoura, ou melhor, a eternidade, será a «idade adulta espiritual». Isso é muito encorajador, pelo progresso dos séculos, o que, para nós, indica um progresso de natureza espiritual, o abandono de todas as imperfeições, o aprendizado da perfeição.
«...falava como menino...» A expressão verbal de uma criança, aqui aludida, tem por finalidade apresentar o uso das «línguas», da «profecia» e do «ensino», porquanto são modos pelos quais expressamos o nosso conhecimento. Quão humilhante deve ter sido para os coríntios essa ilustração, visto que muito se ufanavam de sua eloquência, especialmente de suas declarações místicas, proferidas em estado de êxtase arrebatado, em línguas, e até mesmo nas línguas dos anjos, conforme pensavam (ver o primeiro versículo deste capítulo): No entanto, assim faziam porque eram infantes.
«...sentia como menino...» O original grego não se refere aqui às «emoções», conforme poderíamos compreender pela tradução. A palavra grega «phroneo» se refere antes à «maneira de pensar». Significa «formar opinião». Assim sendo, o que é indicado é «...pensava como menino...»
Também poderíamos traduzir a frase por «tinha atitudes de menino». É possível que Paulo agora esteja se referindo aos dons espirituais da sabedoria e do conhecimento. Nosso «entendimento», até mesmo em tais dons, é apenas parte integrante de nossa presente meninice; por conseguinte, não pode servir de desculpas para criar facções, adoração a «heróis» e a degradação dos irmãos menos dotados.
«...pensava como menino...» No grego temos o vocábulo «logidzomai», que significa «raciocinar», «considerar», «calcular». Estão aqui em foco os «poderes do raciocínio desenvolvido», graduação acima do simples processo do pensamento. Porém, até mesmo nesse estágio mais alto do pensamento, enquanto estivermos nesta era, seremos simples crianças. Paulo atacava a suposta «sabedoria» daqueles crentes de Corinto. Nem mesmo suas capacidades intelectuais mais bem desenvolvidas faziam deles mais do que crianças espirituais; pois nem mesmo o recebimento de dons espirituais, como o da sabedoria e do conhecimento, podem alterar isso.
«.. .quando cheguei a ser homem...» Paulo não quis dizer com isso que ele mesmo chegara à posição de «maturidade espiritual». Isso destruiria a analogia inteira. Somente quando a parousia tiver lugar (a segunda vinda de Cristo) é que um crente atingirá o estado de maturidade espiritual (que é exatamente o que é dito no versículo anterior, e que ilustra este versículo).
No sentido físico, porém, Paulo já chegara à idade adulta; e esse estado ele compara com a inauguração da perfeição, quando então será eliminado aquilo que é «imperfeito», isto é, os dons espirituais segundo eles são conhecidos por nós, levando-os a serem ultrapassados por uma elevada expressão espiritual de conhecimento e poder, nos lugares celestiais. (Ver Efé. 2:6).
Há certo desenvolvimento infantil, da criança, indicado aqui.
Primeiramente a criança balbucia, então pensa, então começa a raciocinar; no entanto, continua sendo uma criança o tempo todo. Outro tanto sucede no caso do exercício dos dons espirituais, conforme os conhecemos agora.
Um deles pode ser melhor um pouco do que o outro, mas todos fazem parte de nossa infância espiritual.
«Quantos pontos de vista estreitos, quantas noções indistintas das coisas, têm as crianças, em comparação com os adultos! E quão naturalmente os homens, quando a razão se lhes amadurece, desprezam e dispensam os seus pensamentos infantis, pondo-os de lado, rejeitando-os, considerando-os como nada! Assim é que pensaremos sobre nossos dons mais valiosos e aquisições neste mundo, quando chegarmos ao céu». (Matthew Henry, in loc.).
«...desisti...» No grego encontramos o termo «katargeo» (que aqui figurano aoristo, a fim de indicar uma ação ocorrida de uma vez para sempre).
Essa palavra significa abolir, enxugar, pôr de lado, dar fim, remover, fazer cessar. Está em foco o abandono completo de tudo quanto é «infantil», sua eliminação, ainda que, na qualidade de sementes, tudo isso venha a florescer no estado eterno, em formas fantasticamente mais elevadas do que aquelas que agora conhecemos e usamos; e isso significará a eliminação real das formas de dons espirituais conforme agora os conhecemos. A «infância», nas Escrituras, é sempre usada para falar sobre a imaturidade espiritual nesta vida, ao passo que a «idade adulta» indica a maturidade espiritual. (Ver Efé. 4:14; Rom. 2:20; I Cor. 3:1). Mas não é esse o sentido dessas palavras, no presente capítulo.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 210-211.
O amor é perfeito e completo (13.9-12). Na consumação final da história redentora, todas as imperfeições serão substituídas pelo perfeito - Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado (10). Nesse dia, todas as imperfeições desaparecerão e tudo que aqui parece obscuro e incompreensível se tomará claro.
1) A imperfeição do entendimento parcial (13.11). O atual conhecimento do homem, comparado ao que ele terá no céu, é igual ao conhecimento de uma criança em relação ao de um homem maduro. A palavra menino (nepios) quer dizer criança pequena, ou infante, embora sem nenhum limite específico de idade. Ela se refere ao primeiro período da existência antes da meninice ou da puberdade.
O verbo sentia (ephronoun) se refere aqui “ao primeiro e pouco desenvolvido exercício da mente infantil: a um pensamento que ainda não está ligado ao raciocínio”.74 O pensamento (logizomai) denota uma progressão para o entendimento, e de logizomai vem o significado de inferir as coisas ou relacionar conceitos. A ideia aqui é que quando Paulo amadureceu no amor cristão, ele abandonou as coisas infantis com deliberada decisão e finalidade.
2) A imperfeição da visão parcial (13.12). Paulo escreve: Porque, agora, vemos por espelho em enigma. Por causa da natureza dos espelhos da época de Paulo, seu reflexo era vago ou obscuro. O espelho dos gregos e romanos era um disco delgado de metal polido de um lado, sendo que o outro lado era liso ou continha algum desenho. Nessa época também eram feitos espelhos de vidro, mas não eram amplamente utilizados.
A palavra enigma (ainigmati) significa na verdade uma “adivinhação” e sugere um enigma ou uma obscura intimação. Portanto, da maneira como foi usada pelo apóstolo, a palavra significa de forma obscura, vaga, ou imperfeita. A expressão então, veremos face a face indica uma brilhante antecipação. Quando o homem estiver na presença de Deus sua visão será perfeita, e nada se colocará entre eles para obscurecer a presença de Deus.
O mesmo que acontece com a visão, acontecerá com o conhecimento. Paulo já havia afirmado que nosso conhecimento terreno é parcial (9), mesmo quando resulta de um dom especial. Contra esse conhecimento parcial o apóstolo coloca o perfeito conhecimento do redimido na presença de Deus. Os termos da versão TEV transmitem a seguinte ideia: “Agora, conheço em parte; mas, então, conhecerei de forma completa, assim como sou conhecido por Deus”.
3) A perfeição do amor (13.13). Fazendo um contraste com os dons temporários que tanto haviam ocupado a atenção dos coríntios, fica confirmada a permanência das três principais graças cristãs: Permanecem a fé, a esperança e a caridade. De acordo com Paulo a fé é essencial à salvação (Rm 3.28; G1 2.20). E impossível viver sem esperança. Quando a esperança morre o espírito morre. Mas, dessas três graças cristãs básicas - a maior é o amor.
Faris D. Whitesell intitula esta exposição do capítulo 13 como: “A Excelência do Amor Demonstra a Sua Excelência”.
1) O amor torna os dons da vida aproveitáveis, 1-3;
2) O amor transforma os relacionamentos da vida em algo maravilhoso, 4-7;
3) O amor faz com que as contribuições da vida se tornem eternas, 8-13 (da obra Sermon Outlines on Favorite Bible Chapters).
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 347-348.
A primeira sentença é o tópico da última secção deste capítulo: O amor jamais acaba, ele dura mais que todos os dons, nunca se esgota sua existência; tal como o Deus eterno, ao qual deve sua existência, dura para sempre. O dom de profetizar, de inspiração da parte do Senhor, de predizer os acontecimentos futuros e de explicar a Palavra de Deus ligado a isto, chegarão à ruína, serão tornados sem sentido e nulos, serão abolidos. Eles prescreveram e acabaram quando seu objetivo foi atingido, quando o conteúdo de toda profecia será revelada em sua plenitude, quando tudo o que esteve oculto será claramente revelado, então não haverá mais necessidade de profecia. O dom de línguas, de pronunciamentos extáticos em línguas estranhas e desconhecidas, cessará, acabará, visto que só teve um significado temporário. O dom do conhecimento, da compreensão das coisas reveladas, será removido. Virá um tempo quando este, como o resto, terá servido ao seu propósito e por isso será abolido para sempre.
Visto que a asserção que os dons de conhecimento e de profecia cessarão podia parecer estranho, Paulo explica sua afirmação: Pois em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas quando vier o que é perfeito, então o imperfeito será abolido. Nosso conhecimento é imperfeito neste mundo, inadequado para um entendimento completo de Deus, de Sua essência, de Sua vontade. Entendemos somente partes pequenas da verdade eterna e celeste, mesmo tendo nós uma razão cristã iluminada. Não temos uma visão compreensiva do total, da ligação dos pensamentos e conselhos divinos. A plenitude da magnitude e majestade de Deus ainda nos é desconhecida.
Sabemos unicamente tanto da essência e da vontade de Deus quanto é necessário para a nossa salvação. E os comentaristas mais iluminados e inspirados da Bíblia são capazes de conseguir lampejos dos mistérios do mundo espiritual, das glórias celestes, por meio da revelação que nos foi dada pelo evangelho. Todavia esta condição de imperfeição cessará, o conhecimento e a profecia terão seu fim, tão logo que o que é perfeito aparecer, do mesmo modo como o rubro do amanhecer desaparece quando o sol surge em pleno esplendor no horizonte. Quando Cristo há de retornar em glória, quando nós havemos de ser glorificados com ele no céu, então todas as imperfeições deste conhecimento atual serão deixadas para trás.
A grande diferença entre a condição presente e a futura é ilustrada no texto pela diferença entre a condição da criança e a condição do homem: Quando fui criança, falei como uma criança pensei como uma criança, raciocinei como uma criança; minha fala, meus objetivos, e minha atividade mental eram as duma criancinha, sendo imaturos e imperfeitos. No tempo atual nossas ideias das coisas celestes e divinas não alcançam a glória e a dignidade do assunto. Agora que cheguei a ser homem, aboli as coisas da criança, sendo que o adulto não se apega mais às opiniões e ideias imperfeitas e imaturas da criança. Do mesmo modo o conhecimento pleno, madura e completo de Deus está reservado ao mundo do além. Marquemos, contudo, que teremos exatamente as mesmas coisas divinas, belas e espirituais para nos alegrarem no céu que agora temos no mundo: aquilo que agora só compreendemos e conhecemos em parte então nos será revelado em sua inteireza, na glória total de sua substância. Assim como a flor perde suas pétalas, mas retém seu centro, que eventualmente amadurecerá numa fruta perfeita, assim nós despiremos as opiniões imperfeitas de nossa compreensão, enquanto reteremos o núcleo em sua condição totalmente desenvolvida e veremos sua fruição no céu.
O contraste entre o presente imperfeito e o conhecimento futuro perfeito é ilustrado por meio de outro quadro: pois agora enxergamos por meio dum espelho, num enigma; contudo, então, face a face. No tempo antigo os espelhos eram feitos de metal polido, que refletia só indistintamente a imagem, sem contornos fortes e distintos. Assim é a nossa contemplação das glórias de Deus, tal como nos é apresentada em Sua Palavra, e isto, não porque a Palavra seja obscura, mas porque nosso entendimento não é suficiente para captar as maravilhas de Sua substância e de suas qualidades. Nós enxergamos num enigma, ou seja, o que muitas vezes consideramos uma charada. Por causa de nosso entendimento obscurecido, mesmo em nosso estado regenerado, a fraseologia do Senhor em Sua Palavra apresente muitas vezes dificuldades, muitas vezes só conseguimos uma ideia obscura e incerta de Seu significado. É isto que são Paulo afirma com franqueza, fazendo de sua própria pessoa um exemplo da cristandade em geral: Agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. Porque o Senhor precisou adaptar os mistérios celestes à fala imperfeita dos seres humanos, porque precisou vestir seus pensamentos eternos e divinos em palavras, expressões, figuras e parábolas buscadas deste mundo perecível, por isso a perfeição da glória divina precisa estar oculta aos nossos olhos. No céu, porém, cada cristão verá, conhecerá e compreenderá a plenitude da essência, dos atributos, planos e conselhos divinos numa compreensão perfeita e bendita, de modo tão completo como ele mesmo foi conhecido por Deus, quando o Senhor mudou na conversão seu coração. É um conhecimento perfeito e bendito de Deus. Então Deus não mais verá algo esquisito, estranho e hostil entre ele e nós. Todos os nossos pecados terão sido plenamente removidos de Sua visão. Como escreve Lutero: “Então O conhecerei de maneira mais clara possível, sem qualquer cobertura; pois a cobertura não foi tirada Dele, mas de mim, pois Ele não alguma sobre Si.” No céu, finalmente, conheceremos em amor a Deus por meio de contato direto, e todo o conhecer mediato e imperfeito que agora nos é possível será deixado bem longe atrás e totalmente esquecido na ventura da perfeita salvação. Cf. Sl. 17. 15.
O prospecto desta dentição maravilhosa leva o apóstolo a concluir seu salmo de amor numa maravilhosa irrupção de alegria triunfante: Mas, como acontece, permanecem fé, esperança e amor, esses três. Todos os demais dons, as demais virtudes, passam, mas estes três permanecem sempre.
Fé, esperança e amor permanecem na eternidade, porque o que o cristão crê, espera e ama permanece para sempre, visto que Deus é eterno, com quem estamos unidos na fé, na esperança e no amor. Esta conclusão é praticamente exigida pela afirmação que todas as coisas imperfeitas serão abolidas. Pois o apóstolo não diz destes três que são imperfeitos, ou seja, que cremos em parte, que esperamos em parte, que amamos em parte. A fé, mesmo a fé fraca, ainda que conhece a Deus só em parte, aceita, porém, como fé salvadora, o Deus inteiro, o Cristo inteiro, a redenção inteira em Cristo, e o pleno perdão dos pecados. Também a esperança, mesmo vendo e conhecendo somente alguns raios da glória vindoura, tem, ainda assim, o futuro total como seu alvo. E o amor se concentra sobre o inteiro Deus trino de nossa salvação, e não sobre algum restinho miserável.
Mas o amor não é mais duradouro, mas maior entre eles, sendo o maior dos três. Fé e amor também permanecem para sempre, visto que aquilo em que cremos e aquilo que esperamos dura para sempre. Mas a natureza da fé e da esperança cessará; pois o que aqui cremos e esperamos (pretérito) lá possuiremos e gozaremos. Nossa fé alcançará a perfeição de sua condição no enxergar. Nossa esperança será aperfeiçoada no usufruir. Mas nosso amor a Deus e Cristo, e por isso também a todos os nossos irmãos, permanecerá absolutamente imutável, sendo tão somente purificado, visto que todos os obstáculos que aqui entravam a atividade do amor lá serão removidos. No céu o amor será completamente livre e destravado em sua capacidade de sem evidenciar, e encontrará em todos os lugares amor em retorno e assim será bendito na companhia de Deus, dos santos anjos, e de todos os santos. Nota: O fato que aqui o amor é chamado a maior das virtudes de modo nenhum está em desacordo com o fato que a fé é o único meio de obter a salvação. “Objetam, porém, que o amor é posto acima da fé e da esperança. Pois Paulo diz: ‘O maior destes é o amor.’ Ora, é razoável que a virtude máxima e principal justifique, ... Todavia, concedemos inteiramente aos adversários que o amor a Deus e ao próximo é a virtude máxima, pois que o preceito supremo é este: ‘Amarás o Senhor Deus’, (Mt.22. 37). Mas como inferirão daí que o amor justifica? A virtude máxima, dizem, justifica. Pelo contrário: assim como nem a maior ou primeira lei justifica, assim também não justifica a virtude máxima da lei. O que justifica é aquela virtude que apreende a Cristo, que nos comunica os méritos de Cristo, virtude pela qual recebemos graça e paz de Deus. Mas esta virtude é a fé. Pois, como muitas vezes se disse, fé não é apenas notícia, senão, muito mais, querer receber ou apreender aquilo que se oferece na promessa referente a Cristo.”24)
Resumo: O apóstolo louva o alto valor do amor, dá uma descrição de seus aspectos essenciais, e descreve sua duração eterna.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento. Editora Concordia Publishing House.
Ele sugere que esses dons são apenas adaptados a um estado de perfeição: “...porque, em parte conhecemos e, em parte, profetizamos” (v. 9). Nosso melhor conhecimento e nossas maiores habilidades são no presente semelhantes à nossa condição, estreitos e temporais.
Até o conhecimento que eles tinham por inspiração era parcial. Quão pequena porção de Deus, e do mundo invisível, era ouvida até pelos apóstolos e pelos homens inspirados! Como é grande a desvantagem de outros em relação a eles! Mas esses dons eram adequados ao presente estado imperfeito da igreja, valiosos em si mesmos, mas não para serem comparados com a caridade, porque eles desapareceriam com as imperfeições da igreja, e, além disso, em breve, enquanto a caridade duraria para sempre.
mEle aproveita a ocasião para mostrar quanto melhor será para a igreja no futuro do que pode ser aqui. Um estado de perfeição está em vista (v. 10): “Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será aniquilado”. Quando o fim é uma vez alcançado, os recursos, claro, serão abolidos. Não haverá nenhuma necessidade de línguas, profecia e conhecimento inspirado em uma vida futura, porque então a igreja estará em um estado de perfeição, completa em conhecimento e santidade. Então Deus será conhecido claramente e, de certa forma, por intuição, e tão perfeitamente quanto a capacidade de mentes glorificadas permitirão; não através de tais vislumbres transitórios, e pequenas porções, como aqui. A diferença entre esses dois estados é aqui apontada com dois detalhes: 1.0 presente estado é um estado de infância, o futuro da humanidade:
“Quando eu era menino, falava como menino (isto é, como pensam alguns, falava em línguas), sentia como menino, ephronoun - sapiebam (isto é, “eu profetizava, eu era instruído nos mistérios do Reino dos céus, de tal modo extraordinário quanto é manifesto que eu não deixei meu estado infantil”), discorria, ou raciocinava, elogizomen, como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”. Tal é a diferença entre terra e céu. Que visões estreitas, que noções indistintas e confusas das coisas as crianças têm em comparação com os homens crescidos! E como é natural que os homens, quando a razão é desenvolvida e amadurecida, desprezem e abandonem seus pensamentos infantis, coloquem-nos de lado, rejeitem-nos, não os estimem mais! Assim nós pensaremos acerca de nossos mais valiosos dons e aquisições neste mundo, quando formos para o céu. Nós desprezaremos nossa tolice infantil em nos orgulharmos com tais coisas, quando crescermos e nos tornarmos homens em Cristo. 2. As coisas são todas escuras e confusas agora, em comparação com o que serão depois: “Porque, agora, vemos por espelho em enigma (en ainigmati, em mistério); mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido”. Agora nós apenas podemos discernir as coisas a uma grande distância, como através de um telescópio, e envolvidas em nuvens e obscuridade; mas depois as coisas a serem conhecidas estarão mais próximas e óbvias, abertas aos nossos olhos; e o nosso conhecimento estará livre de toda obscuridade e erro. Deus será visto face a face; e nós o conheceremos como também somos conhecidos por ele; de fato, não perfeitamente, mas, de certa forma, no mesmo modo. Nós somos conhecidos por Ele por mera inspeção; Ele volta seus olhos em nossa direção, vê e nos busca integralmente. Nós então fixaremos nossos olhos nele, e “...assim como é o veremos” (1 Jo 3.2). Nós conheceremos como somos conhecidos, entraremos em todos os mistérios do amor e da graça divinos. Oh! Mudança gloriosa! Passar da escuridão para a luz, das nuvens para a clara luz do sol da face de nosso Salvador, e ver a luz na própria luz de Deus! (SI 36.9). Note que é apenas a luz do céu que removerá todas as nuvens e escuridão da face de Deus. Há no máximo só uma penumbra enquanto ainda estamos neste mundo; lá haverá um dia perfeito e eterno.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 487.
3. Despenseiros dos dons.
10. Vida na comunidade cristã é vida de serviço aos outros. Jesus foi o Servo de Deus, Aquele que “não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). Na Sua vida, tal como nos mostram os Evangelhos, Ele demonstrou esse princípio, servindo ao Seu povo e aos Seus (como ilustrado em Jo 13.1-17). Servi uns aos outros é, assim, um chamado a sair de si mesmo e dos seus problemas, e se dedicar aos outros. É  essa exteriorização que está o fundamento da ética cristã, como vida de serviço aos outros “enquanto outros” (ou seja, não uma extensão de mim próprio, ou “outros” a quem eu comando ou manipulo, e coloco dentro do meu esquema). A palavra grega é diakonuntes, de onde vem diaconia, serviço. Aqui, ela tem um significado abrangente, incluindo todo tipo de serviço que se pode prestar a outros (em palavra e ação).
Essa diaconia é possível porque todos receberam dons com os quais podem servir aos outros. Charisma é o termo usualmente empregado no N.T. para se referir aos chamados “dons espirituais”. São várias as definições e especificações deles (cf. 1 Co 12; Rm 12; Ef 4); trata-se de capacidades que Deus concede a todos os cristãos (associadas à habitação do Espírito Santo neles, 1 Co 12.7) para o serviço dentro do contexto da comunidade cristã. Podem se tratar de talentos naturais que recebem um novo impulso e uma nova orientação pela ação do Espírito, ou de capacitações originais, concedidas ao crente para que com elas sirva aos outros.
Esta questão dos dons às vezes tem causado polêmicas entre os cristãos. Nunca devemos perder de vista que são dados soberanamente pelo Espírito Santo, e que sua função é servir (nada mais que isso; usá-los para autopromoção é absolutamente contrário à sua natureza, sendo uma atitude exemplarmente repreendida em At 8.18-24).
Importante é também que cada um dos crentes recebeu um dom, o que, de saída, nivela a todos, e toma todos igualmente importantes uns para os outros. Cada um deve colocar o dom que tem a serviço de todos, porque, ao receberem dons, os cristãos se tomam despenseiros da graça de Deus. A charis (graça) é a fonte dos charisma (dons, carismas). Quem os recebe, recebe graça de Deus, e os recebe por causa da graça de Deus que lhes concedeu o Espírito Santo. Ter um dom espiritual, então, é ter um “depósito de graça”, que deve extravasar (porque graça é para ser doada). Despenseiros é oikonomoi, um termo técnico referente ao mordomo, o administrador da casa (lembrando que “casa” é a oikos do mundo da época, uma instituição social fundamental, a “comunidade doméstica” que incluía família e trabalhadores, bem como os hóspedes). O oikonomos era o encarregado de atender as necessidades de todos, administrando os bens nessa direção. E uma bela figura para o papel dos cristãos na igreja (e note-se que todos o são). Todos na “casa de Deus” têm necessidade de “graça”, e todos são chamados a suprir essa necessidade mutuamente. E não devemos espiritualizar em demasia a questão, pois essas necessidades muitas vezes serão bem materiais e rotineiras. E o chamado ainda é para ser bons despenseiros, estando implícito que se pode não ser um bom administrador da graça de Deus. Vem a propósito aqui a parábola do bom e do mau oikonomos (mordomo), de Lc 12.42-48 (especialmente pelo contexto escatológico).
A graça de Deus, por fim, é multiforme. Visualmente, isso seria como um cristal que reflete a luz em vários matizes e uma sempre nova e surpreendente combinação de cores e tons. Esse conceito é importante e tem sido desprezado na prática, muitas vezes, pelos cristãos. Está subentendido que a questão dos dons é sempre dinâmica. Não podemos deduzir uma lista fixa de dons a partir das passagens do N.T. que falam sobre o assunto, e mantê-los a todo custo como os únicos dons espirituais.
Deus dá os dons de modo multiforme, de acordo com as características locais e as necessidades do momento. Quando a situação muda, quando novos quadros se apresentam, Ele dará os dons de forma apropriada à nova realidade, sempre nos surpreendendo com o Seu agir. Multiforme também significa, para um mundo dividido como o nosso em culturas e características regionais bastante diferenciadas, que o Espírito leva em conta essa diversificação e trabalha dentro dela. Indispensável nas relações entre os cristãos (também a nível internacional) é a eliminação de todo resquício de prepotência e espírito de julgamento, e a disposição ao amor e ao serviço ao outro como outro (respeitando-o e valorizando-o naquilo em que é diferente de mim ou de nós).
I Ped 4.11. Na comunidade cristã, esta graça de Deus (ou a ausência dela) revela-se também na forma como a comunidade é organizada. Todos receberam dons; portanto, todos participam de uma forma ou outra. Não há maiores ou melhores entre os cristãos, todos receberam de Deus o que possuem, e isso nivela a todos de forma irrevogável. A distinção entre os dons é funcional, e não de classe (a sociedade cristã é sem classes, G1 3.28). 1 Pedro apresenta uma divisão muito simples entre os dons.
Basicamente há dois tipos de dons, que correspondem às duas formas básicas em que o evangelho de Cristo é Se alguém fala inclui, assim, todos os tipos de ministério a igreja que primam pela comunicação da graça de Deus em palavra (pregação missionária, pregação pastoral, ensino, etc.; hoje teríamos de incluir a palavra escrita, a literatura). A estes a exortação é que fale de acordo com os oráculos de Deus. A expressão grega é bem breve, e por isso está sujeita a várias leituras dá então, o sentido literal “se alguém fala, como palavra de Deus”. O sentido é bem preservada na nossa versão ARA, Quem falar na comunidade cristã, deve fazê-lo em acordo com o falar de Deus. O termo logia está se referindo, provavelmente, de forma bem ampla à palavra de Deus (nas Escrituras do A.T., na pregação de Jesus e dos apóstolos, nas mensagens dos profetas nas congregações cristãs). A Bíblia tem, na igreja cristã, justamente essa função de ser “cânon”, regra e critério para o falar de todos os cristãos. Deus falou, e o nosso falar deve se guiar pelo dEle. Naturalmente, o nosso falar terá suas formas próprias de expressão (um apego legalista à “linguagem de Canaã”, a linguagem das traduções da Bíblia em português, não seria muito bíblico). Dentro da nossa realidade e situação concreta, o nosso falar será nosso, sem dúvida, mas a partir da inspiração e do critério que representa o falar de Deus (por ele também deverá ser julgado o nosso falar). Isto se aplica à pregação nas igrejas, aos estudos bíblicos comunitários e em grupos, à pregação evangelística também ao labor teológico dos que a isso são chamados dentro da igreja, pois teologia é pensar e expressar o falar de Deus para dentro de uma nova geração, dentro de um novo contexto sócio-cultural e político, dentro de uma nova configuração psico-cultural representada por cada uma das partes da multiforme igreja de Deus; sendo assim a pregação e a teologia tarefas que perpetuamente se renovam, para poderem ser fiéis tanto ao falar de Deus como ao mundo em que este falar de Deus deve ser anunciado e vivido.
Se alguém serve dá aqui um sentido um pouco mais restrito de diakonein do que no versículo anterior (onde ele resumia todo o ministério cristão). Aqui, a palavra designa os dons considerados como propriamente “de serviço”, e que já na época podiam ser os mais diversos (exemplos teríamos em Rm 12.8, “o que contribui”, “o que preside”, “quem exerce misericórdia”). Pode se incluir aqui tudo que a comunidade necessitar para a sua organização, para o seu culto, todos aqueles pequenos itens técnicos que tantas vezes são simplesmente “pressupostos”, sem que se dê conta de que foram feitos por alguém (talvez com mais amor do que os serviços que mais aparecem), e sem que, talvez, sejam valorizados adequadamente. O versículo também não exclui (e não vemos razões por que excluir) o serviço prestado para fora da comunidade cristã, onde de muitas maneiras os cristãos podem dar eloquente testemunho de sua fé, simplesmente servindo aos outros (cf. 3.1, sobre o testemunho de mulheres aos maridos não-crentes). O fator determinante nesse serviço parece ser a “necessidade” concreta e imediata (cf. At 2.45, “à medida que alguém tinha necessidade”), especialmente as necessidades materiais (que é o assunto de que se fala no texto mencionado de Atos; várias vezes no N.T. diakonia refere-se a uma coleta em dinheiro que se levantava na igreja para as igrejas e os cristãos mais pobres cf. 2 Co 8.4,20; 9.1,12).
A mesma divisão simples do trabalho na comunidade cristã encontramos também em At 6.1-7, onde os serviços são divididos em “serviço da palavra” e “serviço das mesas” (a distribuição de pão entre os\pobres da comunidade). E não há primazia de uns sobre outros; porquanto os que se dedicam à palavra são fundamentais para a igreja, ela também não subsistiria sem estes outros, que igualmente devem ser “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Também as igrejas de hoje são chamadas a observar este duplo ministério cristão, dando o devido valor ao serviço da palavra, mas não permitindo que ele faça com que o serviço do amor seja negligenciado. Pelo contrário, um ministério da palavra que seja realmente “de acordo com os oráculos de Deus” vai saber privilegiar o serviço de amor como forma eloquente de presença cristã no mundo, tal como foi a presença serviçal do Senhor da igreja em meio aos pobres deste mundo. Principalmente em realidades sofridas como as do Brasil e do Terceiro Mundo em geral, a presença cristã dessa forma é fundamental.
Quem serve, faça-o na força que Deus supre. O termo ischyos (força) na maioria das vezes significa “força física”, evidenciando que os serviços são trabalhos que se realizam em prol dos outros, coisas talvez bem “mundanas” e do dia-a-dia, que os cristãos talvez não saibam valorizar direito como dons concedidos pelo Espírito de Deus. Aos cansados neste serviço, fica a lembrança de que Deus supre as forças necessárias para ele. Por isso, ele deve ser feito de tal modo que Deus seja glorificado através dele (cf. 2.12, “observando as vossas obras, glorifiquem a Deus; Mt 5.16); ou seja, é importante a humildade daquele que serve, de não atrair para si uma glória que é de Deus, doador da graça e das forças (de todas as dádivas que nos dão e sustentam a vida no corpo). Em todas as cousas se refere ao todo do ministério cristão: que tanto no serviço da palavra como no serviço de amor seja Deus glorificado. Como costumamos ver glória a Deus mais na pregação da palavra do que no serviço, não custa insistir em que todos os pequenos trabalhos de amor do cristão em prol dos outros glorificam a Deus, sendo dignos de que a eles nos dediquemos. Cl 3.17 oferece um bom comentário neste ponto. A glória vai a Deus por meio de Jesus Cristo, sendo importante que atentemos devidamente para essa mediação, tanto em termos do pensamento e das intenções da pessoa que serve, como em termos de que haja algum tipo de reconhecimento final de que Jesus Cristo está presente no serviço cristão (embora, quanto a isso, Mt 25.31-46). A quem 1 Pedro 4.11. pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculoí pode se referir tanto a Deus como a Jesus Cristo. Na verdade, nem parece conveniente tomá-los separadamente. A glória e o domínio que pertencem a Deus foram concedidos a Jesus Cristo na Sua ascensão (3.22; Ap 11.15), sendo uma glória que Ele já tinha antes mesmo de vir ao mundo (Jo 17.5).
Arriên é tanto uma expressão de reconhecimento (“realmente é assim”; cf. o “em verdade, em verdade” de Jesus, Jo 3.5,11, etc.) como de desejo piedoso (“assim seja”, não tanto de que “seja” na realidade de Deus, onde já é, mas de que seja reconhecido neste mundo como tal).
Ênio R. Mueller. I Pedro. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 238-243.
I Ped 4.10 Cada um, conforme recebeu um dom da graça – servi uns aos outros com ele como bons administradores da multiforme graça de Deus. Visto que os dons da graça (em grego: charisma) são dados pelo Espírito Santo, eles também são chamados de “dons do Espírito” (1Co 14.1). Este versículo presta uma importante contribuição para a pergunta a respeito do que são os carismas e como devem ser exercidos. O contexto demonstra que ser hospitaleiro, falar a palavra de Deus e exercer a diaconia são serviços dos dons da graça. O NT, portanto, não restringe o termo “dom da graça” aos dons particularmente notórios, p. ex., cura de enfermos (1Co 12.9) ou línguas (1Co 12.10; 14.13). Quem pratica de modo alegre e consciente a hospitalidade provavelmente obteve um carisma para isso. Porém, todo aquele que recebeu um dom para a edificação da igreja é um “carismático”. Pedro não escreve: “cada um, quando recebeu um dom da graça”, mas como (ou: “na proporção em que”) recebeu. Logo tem por certo que cada cristão participa da multiforme graça de Deus, que conseqüentemente também possui dons da graça. Não é possível produzi-los a partir de si mesmo, mas somente recebê-los. É verdade que podemos “buscá-los” (1Co 14.1), mas sempre continuarão sendo dádiva de Deus através do Espírito Santo. Servi uns aos outros com eles significa: os dons da graça foram dados para o serviço mútuo. Obviamente os dons não devem ser mal usados pelo seu detentor, p. ex. para a fama pessoal, pois então se tornam uma ameaça. Os dons da graça que nos foram confiados não devem nos tornar “carismáticos” deslumbrados, mas servidores humildes e singelos. Desse modo a dádiva se torna incumbência. Cada qual é servo do outro, essa é a ordem da igreja de Jesus. Como bons administradores da multiforme graça de Deus. A graça de Deus é sua dadivosa dedicação aos seus (cf. o comentário a 1Pe 1.13). Multiforme ela é na medida em que exerce uma obra diversificada na igreja e em cada cristão (cf., p. ex., 1Pe 5.10). Como graça multiforme ela também é suficiente para todas as múltiplas carências da igreja. Administradores é o nome dado pelo próprio Jesus a seus discípulos em várias parábolas (Lc 16.1; cf. Mt 25.14ss). Um administrador é caracterizado pelo fato de ter recebido dádivas em confiança para o serviço, que não são de sua propriedade. Cabe-lhe prestar contas sobre seu uso, razão pela qual tem de aproveitar tempo e oportunidade, enquanto possui os dons. Um laborioso empenho em prol de seu Senhor com os dons da graça que lhe foram confiados constitui o bom administrador.
I Ped 4.11 Quando alguém fala – em palavras de Deus; quando alguém serve – a partir da força que Deus oferece. Uma vez que aqui se trata do serviço mútuo (v. 10), com “falar” Pedro provavelmente tem em vista tanto o discurso na reunião da igreja como também a palavra pessoal de irmão para irmão. Quando alguém fala, que sejam palavras (ou: “enunciações”) de Deus. Aqui não se refere a palavras da Bíblia, mas a palavras que brotam de ouvir a Deus, embora não dissociadas da Sagrada Escritura. Trata-se do falar de Deus aqui e agora, de seu falar relativo a uma situação específica. Quando alguém fala – em palavras de Deus não devemos traduzir de forma atenuada: “como palavras de Deus”. No grego não apenas se usa uma comparação, mas designa-se a realidade. Aquele que fala deve enunciar palavras que de fato se originam de Deus. Quando isso acontece, será um falar eficaz – para honra de Deus e não para a honra pessoal – determinado pelo Espírito Santo e seus dons da graça (cf. também Cl 3.16): um “culto carismático”. A presente palavra de Pedro corresponde à de Paulo: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis. (em grego propheteuein)” (1Co 14.1). Importa para Pedro a fala compreensível, concedida por Deus e desmascarando o que está oculto no coração (1Co 14.24s). Em 2Co 2.17 Paulo assevera: “É da parte de Deus, na presença de Deus, em Cristo que falamos” [TEB]. É vontade do Senhor que isso aconteça na igreja de forma abundante e clara. Quando alguém serve – a partir da força que Deus oferece. O grego diakonein = “servir” formou o termo “diaconia”. Originalmente diakonein significa “servir à mesa” e se refere, no NT, ao auxílio prestado em situações de carência e necessidade física, mas também espiritual (cf. ThBl, artigo “Dienen”). O fato de Pedro citar, dentre a grande variedade de carismas, justamente o diakonein demonstra como ele é importante em uma igreja viva. Uma vida eclesial apropriada sempre se manifestará através da diaconia. Não estamos diante de uma exortação especial para diáconos e diaconisas, mas de uma convocação para toda a igreja. Pedro conta naturalmente com o fato de que na igreja existem muitos servidores. Todos os discípulos são instruídos a servir (Jo 13.15-17). É verdade que nos primórdios do NT já houve exercício do ministério do diácono e da diaconisa (At 6.3; Fp 1.1); a exortação de Pedro à igreja toda, no entanto, revela com nitidez e clareza que esses serviços organizados não devem tornar desnecessário o agir diaconal específico de todos os membros da igreja. A incumbência diaconal é tão grande que o “ministério” diaconal do indivíduo e o agir diaconal de todos os membros da igreja precisam completar um ao outro. Quando alguém serve – a partir da força (ou “vigor”) que Deus oferece. Na força que Deus oferece residem, teológica e historicamente, as raízes da diaconia. Por isso a diaconia verdadeira somente poderá ser exercida por alguém que vive diariamente da força que Deus oferece. A miséria com que o cristão se depara pode ser tão dura e desanimadora que não se pode enfrentá-la de outra forma que não pela força suprida por Deus. Também nesse ponto fica evidente: a diaconia somente pode ser realizada mediante oração e no poder de Deus.
É significativo como o presente trecho termina: para que em tudo Deus seja exaltado por meio de Jesus Cristo. Somos chamados a ser algo para o louvor da glória de Deus (Ef 1.12). É para isso que aponta toda a atuação do Filho (Mt 6.9s; Jo 17.4). É para isso que aponta também o Espírito Santo em nós, que ele convocou. Não existimos para nós mesmos. Quando nos transformamos no centro das atenções, erramos nosso alvo. Sempre estão em jogo Deus e sua honra. Toda a vida, também o amor fraternal, a hospitalidade e diaconia, têm em Deus seu fundamento e alvo: para que em tudo Deus seja exaltado (ou: honrado, glorificado) por meio de Jesus Cristo. Servindo ao irmão o cristão honra a Deus. Em tudo (ou: através de todos) Deus deve ser exaltado. O alvo da exortação apostólica é que cada um viva, em tudo que fizer, para a glória de Deus, engrandecendo assim o nome dele. Além disso, importa que Deus seja exaltado através de todos. Um cristão não pode fazer nada sem Jesus, nem mesmo prestar a Deus a honra que lhe é devida. O que ele fizer para a honra de Deus acontece por meio de Jesus Cristo. Conseqüentemente, também na glorificação de Deus a honra não cabe aos cristãos, mas a Jesus Cristo. Para ele é (ou: ele possui) a honra e o poder para os éons dos éons. Amém. O trecho encerra com uma exaltação, uma “doxologia” (de doxa = honra). Como nosso Deus é grande! Aqui Pedro diz enfaticamente: “Para ele é a honra e o poder”, não apenas “para ele seja” ou “a ele compete a honra”, como normalmente. Devemos estar cientes disso no sofrimento. Éon significa “era”. A Sagrada Escritura desconhece nosso conceito estático, onerado pela filosofia, de “eternidade” em repouso. A Bíblia fala de forma mais dinâmica de éons, referindo-se às diferentes eras marcadas pelo agir salvador de Deus. Quanto à expressão: para os éons dos éons, lemos, p. ex., no Comentário Esperança sobre Rm 16.27: “O futuro não é eternidade vazia, mas uma plenitude de novas eras, que hão de desenvolver cada vez mais e de forma mais profunda a exuberante riqueza de sua graça (Ef 2.7).”
Uwe Holmer. Comentário Esperança Cartas aos I Pedro. Editora Evangélica Esperança.
I Cor 4.1. Tendo apresentado a sua polêmica contra o espírito faccioso, Paulo agora passa a mostrar qual deve ser a atitude certa dos crentes para com os verdadeiros ministros do evangelho, e, em particular, para com ele mesmo, que era um apóstolo autêntico, que tinha apresentado muitas evidências sobre a validade do seu apostolado. Em Corinto havia detratores de Paulo que haviam convencido a alguns dos membros daquela igreja que ele não era verdadeiro apóstolo. O nono capítulo da presente epístola expõe a defesa de Paulo contra essa calúnia. No capítulo que ora iniciamos a comentar, porém, esse apóstolo mostra-nos que tais detratores, ao denegri-lo, tão-somente deixavam de mostrar o devido respeito pela dignidade de seu oficio, que lhe fora conferido pelo Senhor. Isso era apenas um outro resultado negativo do fato de se terem deixado encantar pelos líderes de diversas facções, os quais exaltavam aos homens e se gloriavam no homem. Os ministros autênticos da Palavra de Deus não podem estar sujeitos aos caprichos da comunidade religiosa, e contra esse abuso, Paulo agora fazia objeção firme.
A Fidelidade
1. Essa deveria ser uma das características essenciais de todos os crentes professos (ver Efé. 1:1 e Apo. 17:14).
2. A fidelidade se exibe no serviço prestado (ver Mat. 24:45), e na pregação da Palavra (ver II Cor. 2:17).
3. Deveria ser tão geral que incluísse todas as coisas (ver I Tim. 3:11).
4. Não pode haver período de férias no campo da fidelidade (ver Apo. 2:10).
5. Ela redunda em uma espécie notável de bem-aventurança (ver Mat. 24:45,46).
6. Consideremos o exemplo de Paulo (ver Atos 20:20,27). «...ministros...» Paulo substitui aqui o termo grego mais comum, «diakonos» pelo vocábulo grego «uperetes». Originalmente, essa palavra indicava aqueles que manuseavam a fileira de remos mais inferior de uma trirreme; em seguida veio a significar qualquer pessoa que serve subordinada a outra, um «servo», um «assistente», um «ajudante». O trecho de Luc. 1:2 aplica esse termo grego a qualquer tipo de serviço em que esteja envolvida a «Palavra de Deus». Em tempos posteriores, esse vocábulo passou a ser usado em um sentido técnico, no vocabulário eclesiástico, a fim de denotar os «subdiáconos». Mediante o uso dessa palavra, pois, o apóstolo dos gentios assume sua correta posição como servo de Jesus Cristo. Ele não exalta a si mesmo, como se exigisse ser respeitado devido aos seus próprios méritos; não obstante, não é coisa de pouca monta ser um homem um verdadeiro ministro do grande Rei, o Senhor Jesus Cristo. Tais ministros requerem um respeito verdadeiro da parte daqueles para quem ministram.
«...despenseiros...» é tradução do vocábulo grego «oikonomos» (derivado de «oikos», casa, e «nemo», distribuir, determinar), que indica alguém que tinha por função controlar uma casa, determinando a cada qual, os seus deveres específicos. Eram os despenseiros quem controlavam o dispêndio de dinheiro, a compra dos suprimentos e a distribuição dos bens, dentro da casa. Essa palavra também indicava alguém que geria os negócios externos de uma casa; razão também pela qual era aplicada aos oficiais administradores do governo, que manuseavam os fundos públicos e conduziam os negócios em geral do império. Na sociedade antiga, o «gerente» de uma casa, em relação ao seu senhor, era apenas um escravo.
Por essa razão é que era frequente que escravos de alguma habilidade fossem selecionados para essa tarefa. Perante os demais escravos, entretanto, tal homem possuía elevada posição aos olhos dos quais ele era o «superintendente» ou «chefe» de todas as operações. (Ver Luc.. 12:42 e Mat. 20:8).
No terreno das realidades espirituais, Deus ou Jesus Cristo é quem aparece como o grande Senhor (ver I Cor. 3:23), e a casa cristã é a igreja (ver I Tim. 3:15). Os «despenseiros» ou superintendentes estavam encarregados da distribuição dos «mistérios de De'is». Em termos gerais, esses mistérios são as verdades bíblicas que os pregaoores deveriam ensinar. Sendo assim comissionados para ensinarem as verdades divinas, exigiam o respeito de todos os membros da comunidade cristã. Entre o Senhor e os despenseiros permanecia ainda o Filho (ver I Cor. 15:25 e Heb. 3:6), e todos os «ajudantes» são seus ministros e despenseiros. E esses despenseiros são «distribuidores da graça divina», da mensagem da verdade.
«...mistérios...» (Ver as notas expositivas sobre I Cor. 2:7, acerca desse tema; e então sobre Rom. 11:25, onde se expõe o sumário de todos os «mistérios do N.T.»). Paulo alude aqui aos cultos misteriosos, ou, pelo menos, aos primórdios de tal atividade na igreja cristã, introduzida principalmente através do gnosticismo. Os gnósticos contavam com os seus mistérios, suas verdades supostamente divinas mas ocultas, e das quais somente uma elite, os iniciados, podiam saber e entender. (Ver Rom. 11:25 e as notas expositivas ali existentes sobre os «cultos misteriosos». Ver Col. 2:18, acerca do «gnosticismo»). Em contraste com essas supostas «verdades ocultas», os mistérios do N.T. são «segredos franqueados», coisas reveladas em Cristo, por intermédio do seu Santo Espirito, e através da instrumentalidade dos servos de Cristo, principalmente dos apóstolos, cujas revelações constituem o tema mesmo do novo pacto.
A sabedoria humana, que o apóstolo dos gentios vinha atacando coerentemente, desde, o princípio desta epístola, conta com seus supostos mistérios profundos.
«...considerem...» Essa palavra indica uma «estimativa razoável», extraída de princípios aprovados de julgamento espiritual. (Comparar com os trechos de Rom. 6:11 e 12:1).
«Paulo tinha um vivido senso da dignidade de sua posição como despenseiro de Deus, a qual lhe fora dada pelo Senhor (ver Col. 1:25 e Efé. 1:10). O ministério da Palavra é muito mais do que uma profissão ou negócio. É a própria chamada de Deus para a gerência». (Robertson, in loc.).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 57.
A Missão do Apóstolo (4.1-5)
A missão de Paulo e de todos os que foram chamados para pregar o evangelho foi construída sobre quatro elementos: serviço, mordomia, fidelidade e sensibilidade aos juízos de Deus. Embora todos estes elementos estejam relacionados, há diferença entre eles.
a) Serviço (4.1). Paulo e Apoio não deveriam ser considerados como líderes de evangelhos diferentes. Ambos eram ministros de Cristo. A palavra ministros (hyperetas) significa “servos”. Originalmente o termo se referia a remadores que ajudavam a impulsionar barcos através das águas do mar. A palavra sugere a labuta e o trabalho contínuo envolvido na obra do evangelho.
b) Mordomia (4.1). Paulo e Apoio também eram despenseiros dos mistérios de Deus. Um despenseiro (oikonomos) era literalmente o “administrador de uma casa”. Freqüentemente ele era um escravo respeitado e eficiente a quem o negociante ou o dono da terra havia entregue a administração da propriedade. Como tal, o despenseiro tinha autoridade sobre os ajudantes ou empregados. Ele atribuía trabalho e distribuía mantimentos. Ele era o superintendente sobre a operação de todo o empreendimento. Contudo, ele estava sempre ciente de que era um escravo, e estava sob a obrigação de iniciar e executar a vontade do proprietário.
O termo mistérios se refere a todo o plano da salvação (cf. o comentário sobre 2.7). Paulo e Apoio não possuíam qualquer conhecimento secreto escondido de todos, exceto de alguns escolhidos. Eles eram mestres e pregadores da verdade revelada sobre a salvação em Jesus Cristo e através dele.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 267.
Paulo, apesar das condições que sabia existirem em Corinto, precisa irromper num hino de agradecimento. A ferida causada pelos corintianos ingratos foi grande, mas sua ingratidão não acabou com a gratidão de Paulo.”4) O modo como Paulo lida com o caso é, incidentalmente, um belo exemplo da fé do amor em todas as coisas. Pois esteve certo que a violação que se achava na congregação de Corinto não representava o que eram as suas personalidades espirituais, e que sua admoestação de fato seria aceita. Foi por isso que ele se empenhou em sempre dar graças a Deus, bendizendo e louvando Sua misericórdia, a respeito dos cristãos de Corinto, por causa da graça de Deus que em Cristo Jesus lhes fora dada. Este foi o motivo do seu contínuo dar graças. Eles, apesar de suas muitas fraquezas, ainda eram cristãos. De Deus eles haviam recebido a graça, e ainda a tinham, como um dom gracioso em Cristo Jesus, um dom que fora tornado possível por meio dos méritos de Cristo em seu ofício vicário. “Este também é um tesouro indescritível do cristão, que ele tem como certa, antes de tudo, a Palavra de Deus que é a palavra da graça e conforto eterno, batismo, o sacramento, a compreensão dos dez mandamentos e da fé, e, além disso, também um refúgio e uma certeza certa que Ele, quando em angústia o invocamos, nos ouvirá.”)
Agora o apóstolo mostra a maneira em que a graça de Deus concedeu provas práticas de seu poder vivificante nos corações dos cristãos de Corinto: Que Nele vós fostes enriquecidos, abundantemente abençoados em todos os pontos, a saber, em toda palavra e em todo o conhecimento, que significa, em toda doutrina e em todo o entendimento. “É isto o que Paulo chama ‘ser rico’, primeiro ‘em toda doutrina ou saber,’ que é a sublime compreensão espiritual da palavra que diz respeito à vida eterna, isto é, o conforto da fé em Cristo; também sobre a invocação e oração a Ele. E ‘em todo o conhecimento,’ isto é, conhecimento e distinção corretos de toda vida física externa e da existência sobre a terra.”6) Haviam chegado a conhecer o caminho da vida eterna, haviam sido enchidos com as riquezas da certeza da graça de Deus, e estavam ricos em todo o conhecimento, haviam alcançado um discernimento da verdade da doutrina de Deus em sua aplicação à vida diária, às suas necessidades em todas as condições da vida. E a abundância deste conhecimento e desta compreensão que havia neles foi em proporção da sua aceitação da verdade do evangelho: Assim como, ou, viso que, o testemunho de Cristo foi em vós confirmado. O testemunho de Cristo, as boas novas de Deus sobre Seu Filho, “a verdade firmemente estabelecida da mensagem” da salvação, lhes fora tornada certa. Haviam-se fixado, haviam permanecido firmes na verdade, seus corações haviam sido fundamentados, Hb. 13. 9, estavam certos de sua realidade.
Assim como então, também hoje este estabelecimento no testemunho de Cristo é algo que sua graça realiza, um objetivo de oração, e uma causa para gratidão.
Outro resultado deste dom da graça e do estabelecimento sólido do evangelho: Assim que já não sois mais deficientes em qualquer dom. Os cristãos de Corinto não tinham falta, não sentiam a deficiência, de qualquer dom da graça de que precisassem para a edificação, ou por meio do qual eram qualificados para o trabalho do Senhor por meio de instrução, de exortação, de governo, de serviço. Nenhuma congregação dos dias antigos excedeu a de Corinto na variedade de suas dotações e na satisfação que sentiram, cap. 12. 7-11. os cristãos desta cidade gentia estiveram de posse de tão ricas dotações, enquanto ansiosamente esperavam a vinda, a final revelação, do Senhor Jesus Cristo. Receberam a rica dotação dos dons da graça e os usaram em benefício da obra de Cristo, mas, ao mesmo tempo, seus corações voltavam em ansiosa antecipação de sua final redenção, Fp. 3. 20; Tt. 2. 13; 2.Pe. 3. 12. É assim que o coração de cada cristão está cheio de saudade pelas mansões lá do alto. Mas é exatamente este mesmo fato que o leva a trabalhar em favor do Mestre enquanto é dia, ou seja, usar todos os seus dons e suas habilidades em favor de seu Senhor. Enquanto isto ele sabe que Cristo o Senhor nos confirmará, estabelecerá, até o fim, ao fim do mundo, caso este estiver tão próximo, ou ao fim de nossa vida, caso o Senhor nos chamar para casa antes de Seu último grande dia. Mas, não importando quando o dia há de vir, ele nos estabelecerá para que sejamos inculpáveis, para que não sejamos mais culpados e sob a condenação, Rm. 8. 33, 34. Esta irrepreensibilidade dos cristãos não consiste em quaisquer méritos da parte deles, mas no fato que a justiça de Cristo lhes é imputada pela fé, Fp. 3. 9. A razão para a aceitação de cada cristão por Deus e, desta forma, só colocada no lado de Deus e de Cristo, e é feita a promessa, com uma certeza absolutamente certa, que ela será a base duma feliz esperança, Jo. 10. 27, 28.
O motivo final e mais profundo para Paulo ter esta esperança pela salvação dos cristãos de Corinto é a fidelidade de Deus: Deus é fiel, por quem sois escolhidos à comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Nossa esperança da vida eterna se baseia sobre a promessa de Deus, que não pode mentir, Tt. 1. 2. A nossa eleição à comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, ou seja, o fato que por Ele fomos trazidos à fé e temos assim sido unidos com Ele nesta maravilhosa união espiritual de membros de seu corpo, é o penhor que ele nos deu que nossa salvação está firme em suas mãos. Cristo não é ninguém menos do que o Primogênito dentre muitos irmãos, e nós somos com Ele co-herdeiros das bênçãos da vida eterna. Contudo, visto que ele é também o nosso exaltado Senhor, nossa comunhão com Ele nos investe de Sua atual grandeza e certifica a manifestação de sua glória em nós. Desta forma a fé do cristão não alguma esperança vaga e incerta, mas se baseia sobre o fato que recebeu a garantia da final consumação de suas esperanças. “Aquilo que Cristo começou em nós, e o que Ele já nos deu , nisso Ele certamente vos conservará até o fim e por toda a eternidade, caso vós não cairdes voluntariamente dela e a lançais de vós; pois Sua palavra e promessa, que vos foram dados, e Sua obra, que Ele realiza em vós, não é mutável como o são a palavra e a obra das pessoas, mas firme, certa e uma verdade divinamente inamovível. Então, visto que tendes uma tal vocação divina, consolai-vos nela e apegai-vos firmemente nela.”) “Testifica outrossim a Santa Escritura que Deus, o qual nos chamou, é tão fiel que, quando ‘começou boa obra em nós’, há de conservá-la também até ao fim e completá-la, se nós mesmos não nos desviarmos deles, mas guardarmos firme até o fim a obra principiada, para o que ele prometeu sua graça.”)
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Editora Concordia Publishing House.
Ef 2.19. Por meio da conversão, os efésios têm o mesmo acesso a Deus que os judeus, e pelo mesmo Espírito, o apóstolo diz: “Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros” (v. 19). Isso ele menciona em contraste com o que tinha observado deles no seu paganismo: eles já não eram mais separados da comunidade de Israel. Os judeus estavam acostumados a considerar todas as outras nações da terra estrangeiros para Deus, mas agora eles também eram “...concidadãos dos Santos e da família de Deus”, isto é, membros da igreja de Cristo, e tendo direito a todos os privilégios dela. Observe aqui: A igreja é comparada a uma cidade, e cada pecador convertido está livre do seu pecado. Ela também é comparada a uma casa, e cada pecador convertido faz parte dela, é membro da família, servo e filho na casa de Deus.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 585.
Ef 2.19 O reconquistado acesso a Deus para os que antes estavam longe acarreta uma consequência significativa: “Logo já não sois estrangeiros e peregrinos”.
Em Gn 23.4 (cf. também Gn 24.37; Sl 39.12) Abraão se classifica como “forasteiro e ocupante” em Canaã, a terra da promessa. Essa formulação é interpretada em Hb 11.13 com vistas à trajetória da fé: os patriarcas estavam a caminho da celestial terra da promessa (Cf. Hb 11.14ss). Do mesmo modo os cristãos são “estrangeiros e peregrinos” (1Pe 1.1; 2.11), porque não têm neste mundo “cidade permanente, porém buscam a que há de vir” (Hb 13.14). Por essa razão seu modo de vida também precisa corresponder a essa situação básica: não devem prender-se de forma definitiva a coisas desta vida, mas “ter como se não tivessem” (1Co 7.29ss).
A locução dupla “estrangeiros e peregrinos” adquire mais um sentido em relação à posição de gentios e judeus cristãos. Enquanto os gentios estavam “naquele tempo… alienados da comunidade da promessa” (Ef 2.12), porque eram mantidos afastados do Deus de Israel pela cerca da lei, essa situação foi eliminada e radicalmente alterada em Cristo: são agora “concidadãos dos santos e familiares de Deus”.
Isso não significa que os gentios cristãos sejam incorporados à “cidadania de Israel” (em grego: politeia; Ef 2.12) como “concidadãos” (em grego: sympolitai). A “comunidade” da igreja gerada em Cristo é uma criação completamente nova, na qual são acolhidos adeptos tanto judeus como gentios. Por um lado, é totalmente incorreto pensar que a atuação de Cristo praticamente suspendeu a história de Deus com seu povo, tornando-a nula, ou seja, que a igreja substituiu Israel sem compensação. Para qualquer pensamento nessa direção vale a admoestadora recordação de Paulo: “sabe que não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz, a ti”, o ramo de oliveira outrora brava, mas agora enxertada (Rm 11.17s). Por outro lado, essa situação na história da salvação de Israel não propicia aos membros do povo da aliança veterotestamentária uma posição especial, na qual pudessem trilhar um caminho singular à parte da fé em Jesus Cristo. Os “santos”, cujos “concidadãos” os destinatários da carta se tornaram, não são formados nem por judeus nem por judeus cristãos, mas por todos os crentes que já integram a igreja de Jesus Cristo.
Como essa cidade (grego: polis) de Deus é celestial (cf. Hb 12.22), o direito de cidadania (grego: politeuma) também está no céu (Fp 3.20). É a herança (Ef 1.14,18), da qual os cristãos já participam em Jesus Cristo (Ef 2.6).
Com a ilustração da cidade (“concidadãos”) está associada a metáfora da casa: “familiares de Deus”. A igreja é “casa espiritual” (1Pe 2.5; cf. 4.17), à qual pertencem “familiares da fé” (Gl 6.10).
Eberhard Hahn. Comentário Esperança Efésios. Editora Evangélica Esperança.
Ef 4.19. O estudo da unidade de todos os cristãos “em um Espírito” receberá ênfase e será desenvolvido no capítulo quatro, mas aqui o apóstolo volta-se especificamente para os gentios a fim de prosseguir tratando da mudança operada em sua situação, Antes eles estavam “separados da comunidade de Israel” (v. 12). Em relação ao povo da aliança de Deus, eram estrangeiros e peregrinos (xenoi e paroikoi), isto é, pessoas que ainda que vivessem no mesmo país, tenham contudo os mais superficiais direitos de cidadania. Essa era sua situação anterior, mas de agora em diante já não o é. No dizer do apóstolo, agora são concidadãos dos santos. Ele deve ter pensado nos santos do Antigo Testamento, ou nos membros da Igreja Cristã, aos quais a palavra se aplica (veja comentário sobre 1:1); provavelmente pensou naqueles que, em todos os sentidos, podiam ser chamados povo de Deus, e assim disse aos gentios que eles agora estavam incluídos entre os santos, e em igualdade de condições.
Cidadania do povo de Deus, eis um modo expressivo de estabelecer a verdadeira posição que judeus e gentios igualmente partilhavam com Deus e entre si. Mas essa ilustração conduz a uma outra verdade mais profunda, qual seja a intimidade maior que os cristãos têm com Deus, e também uns com os outros. Judeus e gentios, homens de quaisquer raças, cores ou posições, estão juntos na família de Deus, na mesma família. Gálatas 4:10 usa a mesma palavra oikeioi para falar da “família da fé”. Embora tal palavra não seja perfeita para expressar completamente a verdade de serem todos “filhos de Deus, mediante a fé em Cristo Jesus” (G1 3:26; e veja também o comentário sobre 1:5), ainda assim o pensamento se refere mais a pessoas da casa, do que ao edifício em si (Hb 3:2, 5; 1 Pe 4:17).
Francis Foulkes. Efésios. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 72-73.

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

Um comentário:

  1. QUE DEUS O ABENÇOE IRMÃO POIS POSTO SUAS LIÇÕES NA MINHA PAGINA ,POIS E MUITO IMPORTANTE APRENDERMOS,E A ESCOLA DOMINICAL E REALMENTE UMA ESCOLA BÍBLICA PRA NOS,DEUS CONTINUE A LHE DAR SABEDORIA

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