Google+ Followers

Seguidores do Blog

3° LIÇÃO 2 TRIMESTRE 2014 DONS DE REVELAÇÃO


DONS DE REVELAÇÃO
Data: 20 de AbriI de 2014                         HINOS SUGERIDOS: 155; 387; 441.
TEXTO ÁUREO
"Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação (I Co 14,26).
VERDADE PRATICA
Os dons de revelação divina são indispensáveis à igreja da atualidade, pois vivemos em um tempo marcado pelo engano.
LEITURA DIÁRIA
Segunda       - 1 Rs 4-29-31         Sabedoria concedida por Deus
Terça             - 2 Rs 6.8-12           Deus revela o oculto
Quarta           - 1 Co 12-8              Sabedoria e ciência
Quinta           - Mt 2.12                   Proteção por divina revelação
Sexta             - Ef 1.17                   Espírito de sabedoria e revelação
Sábado         - Ap 1.1                    A revelação de Jesus Cristo
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
1 Coríntios 12.8,10; Atos 6.8-10; Daniel 2.19-22
1 Coríntios 12
8 - Porque a um, pelo Espírito, é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência;
10 - e a outro, a operação de maravilhas; e a outro, a profecia; e a outro, o dom de discernir os espíritos; e a outro, a variedade de línguas; e a outro, a interpretação das línguas.
Atos 6
8 - E Estêvão, cheio de fé e de poder; fazia prodígios e grandes sinais entre o povo.
9 - E levantaram-se alguns que eram da sinagoga chamada dos Libertos, e dos cireneus, e dos alexandrinos, e dos que eram da Cilicia e da Ásia, e disputavam com Estêvão.
10 - E não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava.
Daniel 2
19 - Então foi revelado o segredo a Daniel numa visão de noite; e Daniel louvou o Deus do céu.
20 - Falou Daniel e disse: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque dele é a sabedoria e a força;
21 - ele muda os tempos e as horas; ele remove os reis e estabelece os reis; ele dá sabedoria aos sábios e ciência aos inteligentes.
pq 22 - Ele revela o profundo e o escondido e conhece o que está em trevas; e com ele mora a luz.
INTERAÇÃO
Prezado professor; nesta lição estudaremos a respeito dos dons de revelação. Estes dons são concedidos à Igreja a fim de que ela seja edificada. Estamos vivendo “tempos trabalhosos", necessitamos da sabedoria que vem do alto, do poder de Deus. Durante o preparo da lição, ore, peça que o Senhor conceda aos seus alunos os dons de revelação. Siga o exemplo de Paulo, pois sua oração em favor dos crentes de Éfeso era: “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Ef 1.17). Deus deseja nos outorgar os dons de revelação, a fim de que sejamos edificados e jamais venhamos a cair nas astutas ciladas do Maligno.
OBJETIVOS
Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:
Analisar o dom da palavra da sabedoria.
Compreender o dom da palavra da ciência.
Saber a respeito do dom de discernimento dos espíritos.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Professor, reproduza no quadro o esquema da página ao lado. Utilize-o para introduzir a lição, pois a partir desta lição estudaremos, detalhadamente os dons, então é importante que os alunos conheçam a classificação geral dos nove dons descritos no capitulo 1 2 de 1 Coríntios. Ao explicar o quadro, ressalte a semelhança que existe entre os respectivos dons. Conclua explicando que todos os dons, independentemente da sua classificação, são importantes e necessários para a edificação do Corpo de Cristo.
PALAVRA-CHAVE
Revelação: Ato pelo qual Deus revela aos homens os seus mistérios, sua vontade.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
O teólogo pentecostal Stanley Horton afirma que “a maioria dos estudiosos classifica os dons de 1 Coríntios 12.8-10 em três categorias: revelação, podere expressão, [tendo] três dons em cada categoria". Na lição desta semana estudaremos a respeito dos dons da “primeira categoria”: os de revelação. Estes são concedidos aos servos de Deus para o aconselhamento e orientação da Igreja do Senhor.
I - PALAVRA DA SABEDORIA
1. Conceito. O termo palavra exprime uma manifestação verbal ou escrita. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss, sabedoria significa “discernimento inspirado nas coisas sobrenaturais e humanas”. A sabedoria abordada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 12.8a refere-se a uma capacitação divina sobrenatural para tomada de decisões sábias e em circunstâncias extremas e difíceis. De acordo com Estevam Ângelo de Souza, “a palavra da sabedoria é a sabedoria de Deus, ou, mais especificamente, um fragmento da sabedoria divina, que nos é dada por meios sobrenaturais”.
2. A Bíblia e a palavra de sabedoria. Embora na Antiga Aliança os dons espirituais não fossem plena e claramente evidenciados como na Nova, alguns episódios do Antigo Testamento vislumbram o quanto Deus conferia aos homens sabedoria do alto para executar tarefas ou tomar decisões. Um exemplo disso é a revelação e a interpretação dos sonhos de Faraó através de José, o filho de Jacó (Gn 41.14-41). Ele não apenas interpretou os sonhos de Faraó, mas trouxe orientações sábias para que o Egito se preparasse para o período de fome que estava para vir. A habilidade do rei Salomão em resolver causas complexas, igualmente, é um admirável exemplo de dom da sabedoria no Antigo Testamento (1 Rs 3.16-28; 4.29-34).
Em o Novo Testamento podemos tomar como exemplo de palavra da sabedoria a exposição da Escritura realizada pelo diácono e primeiro mártir cristão, Estevão.
O livro de Atos conta-nos que os sábios da sinagoga, chamada dos Libertos, “não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que falava” (At 6.9,1 0).
3. Uma liderança sábia. A palavra de sabedoria é de grande valor na tarefa do aconselhamento pessoal e em situações que demandam uma orientação no exercício do ministério pastoral Entretanto, tenhamos cuidado para não confundir a manifestação desse dom com o nosso desejo pessoal, Lembremo-nos de que Deus manifesta os dons em nossas vidas segundo o conselho da sua sabedoria, não da nossa. Tenhamos maturidade e cuidado no uso dos dons!
SINOPSE DO TÓPICO (1)
A sabedoria a que se refere 1 Coríntios 1 2.8 não é a humana, adquirida mediante os livros ou nas universidades, mas sim uma capacidade sobrenatural, divina, para tomar decisões sábias em circunstâncias extremante difíceis.
II - PALAVRA DA CIÊNCIA
1- O que é? Este dom muito se relaciona ao ensino das verdades da Palavra de Deus, fruto do resultado da iluminação do Espírito acerca das revelações dos mistérios de Deus conforme aborda Stanley Norton, em sua Teologia Sistemática (CPAD). Este dom também se relaciona à capacidade sobrenatural concedida pelo Espírito Santo ao crente para este conhecer fatos e circunstâncias ocultas.
2. Sua função. O dom da palavra da ciência não visa servir a propósitos triviais, como o de descobrir o significado dos tecidos do Tabernáculo ou a identidade da mulher de Caim, etc. isto é mera curiosidade humana, e o dom de Deus não foi dado para satisfazê-la. A manifestação sobrenatural deste dom tem a finalidade de preservar a vida da igreja, livrando-a de qualquer engano ou artimanha do maligno.
3. Exemplos bíblicos da palavra da ciência. Ao profeta Eliseu foram revelados os planos de guerra do rei da Síria. Quando o rei sírio pensou em atacar o exército de Israel, surpreendendo-o em determinado lugar, o profeta alertou o rei de Israel sobre os planos inimigos (2 Rs 6.8-12). Outro exemplo foi a revelação de Daniel acerca do sonho de Nabucodonosor, quando Deus descortinou a história dos grandes impérios mundiais ao profeta (Dn 2.2,3; 17- 19). Em o Novo Testamento, esse dom foi manifesto quando o apóstolo Pedro desmascarou a mentira de Ananias e Safira (At 5.1-11). O dom da palavra da ciência não é adivinhação, mas conhecimento, concedido sobrenaturalmente, da parte de Deus.
SINOPSE DO TÓPICO (2)
O dom da palavra da ciência não é para servir a propósitos triviais. A manifestação sobrenatural deste dom tem a finalidade de preservar a vida da igreja, livrando-a de qualquer engano ou artimanha do maligno.
III - DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
1. O dom de discernir os espíritos. É uma capacidade sobrenatural dada por Deus ao crente para discernir a origem e a natureza das manifestações espirituais. De acordo com o termo grego diakrisis, a palavra discernir significa “julgar através de”; “distinguir”. Ela denota o sentido de “se penetrar da superfície, desmascarando e descobrindo a verdadeira fonte dos motivos”. Stanley Horton afirma que este dom “envolve uma percepção capaz de distinguir espíritos, cuja preocupação á proteger-nos dos ataques de Satanás e dos espíritos malignos” (cf. 1 Jo4.1).
2. As fontes das manifestações espirituais. Ao longo das Escrituras podemos destacar três origens das manifestações espirituais no mundo: Deus, o homem e o Diabo. Uma profecia, por exemplo, pode ser fruto da ordem divina ou da mente humana ou ainda de origem maligna. Como saber? Aqui, o dom de discernir os espíritos tem o papel essencial de preservar a saúde espiritual da congregação. Segundo nos ensina o pastor Estevam Ângelo, o “discernimento de espíritos não é habilidade para descobriras faltas alheias”. O dom não é uma permissão para julgar a vida dos outros.
3. Discernindo as manifestações espirituais. A Palavra de Deus nos ensina que os espíritos devem ser provados (1 Jo 4,1). Toda palavra que ouvimos em nome de Deus deve passar peio crivo das Sagradas Escrituras, pois o Senhor Jesus nos advertiu sobre os falsos profetas. Ele ensinou-nos que os falsos profetas são conhecidos pelos “frutos que produzem”, isto é, pelo caráter (Mt 7.15-20). Jesus conhece o segredo do coração humano, mas nós não, e por isso precisamos do Espírito Santo para revelar-nos a verdadeira motivação daqueles que falam em nome do Senhor. O apóstolo João nos advertiu acerca do “espírito do anticristo” que já opera neste mundo (1 Jo 4.3).
SINOPSE DO TÓPICO (3)
O dom de discernimento dos espíritos é uma capacidade sobrenatural dada por Deus ao crente para discernir a origem e a natureza das manifestações espirituais.
CONCLUSÃO
A Igreja de Jesus necessita dos dons de revelação para discernir entre o certo e o errado, entre o legítimo e o falso. Os falaciosos ensinos e as manifestações malignas podem ser desmascarados pelo dom do discernimento dos espíritos. Que Deus conceda à sua igreja dons de revelação para não cairmos nas astutas ciladas do Maligno.
CLASSIFICAÇÃO GERAL DOS DONS - 1 Co 12
DONS DE REVELAÇÃO  DONS DE PODER             DONS DE ELOCUÇÃO
Palavra da sabedoria                     Fé                              Profecia
Palavra do conhecimento             Curar                         Variedade de línguas
Discernimento de espíritos    Operação de milagres   Interpretação de línguas
Extraído de Nos Domínios do Espírito, CPAD p. 131.
AUXÍLIO BIBLIOGRÁFICO I
Subsídio Teológico
“Uma Palavra de Sabedoria
Trata-se de uma palavra (uma proclamação, uma declaração) de sabedoria dada para satisfazer a necessidade de alguma ocasião [...]. Não depende da capacidade humana nem da sabedoria natural, pois é uma revelação do conselho divino. Mediante esse dom, a percepção sobrenatural, tanto da necessidade como da Palavra de Deus, traz a aplicação prática daquela Palavra [...] ao problema do momento.
Porque é uma palavra de sabedoria, fica claro que é concedida apenas o suficiente para aquela necessidade. Este dom não nos enaltece para um novo nível de sabedoria, nem nos torna impossibilitados de cometer enganos. [...]. Às vezes, este dom transmite uma palavra de sabedoria para orientar a Igreja, assim como em Atos 6*2- 4; 15.13-21. É possível, também, que cumpra a promessa dada por Jesus, que daria ‘boca de sabedoria a quem não poderão resistir nem contradizer todos quantos se vos opuserem’ (Lc 21.15). A prova de que Jesus falava em um dom sobrenatural (a palavra de sabedoria) é comprovada, quando proibiu a premeditação do que diriam nas sinagogas ou diante dos tribunais (Lc 21.13,14). Isso certamente foi cumprido pelos apóstolos e por Estêvão (At 8.4-14,19-21, 6,9,10)” (HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p.294).
AUXILIO BIBLIOGRÁFICO II
Subsídio Teológico ‘Discernimento de espíritos
A expressão inteira, no grego, apresenta-se no plural. Este fato indica uma variedade de maneiras na manifestação desse dom. Por ser mencionado imediatamente após a profecia, muitos estudiosos o entendem como um dom paralelo responsável por ‘julgar’ as profecias (1 Co 14.29). Envolve uma percepção capaz de distinguir espíritos, cuja preocupação é proteger-nos dos ataques de Satanás e dos espíritos malignos (cf. 1 Jo 4.1). O discernimento nos permite pregar a Palavra de Deus e todos os demais dons para liberar o campo à proclamação plena do Evangelho" (HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. l. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, p.475).
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
SOUZA, Estevam Ângelo de. Nos Domínios do Espírito. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1987.
HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
SAIBA MAIS
EXERCÍCIOS
1, De acordo com a lição, defina sabedoria.
R: Discernimento inspirado nas coisas sobrenaturais e humanas.
2. Cite dois exemplos de sabedoria vinda de Deus no Antigo Testamento.
R: José e Salomão.
3. O que é o dom da palavra da ciência?
R: Este dom se relaciona ao ensino das verdades da Palavra de Deus, fruto do resultado da iluminação do Espírito acerca das revelações dos mistérios de Deus.
4. Qual é a função do dom da 1 palavra da ciência?
R: Preservar a vida da igreja, livrando-a de qualquer engano ou artimanha do Maligno.
5. Segundo a lição, defina o dom de discernimento dos espíritos.
R: É uma capacidade sobrenatural dada por Deus ao crente para discernir a origem e a natureza das manifestações espirituais.
Revista Ensinador Cristão CPAD, n° 58, p.37.
Os dons são capacidades inatas, adquiridas, ou é algo que vem direto de Deus? Segundo Stanley Horton, "os dons são encarnacionais. Isto é, Deus opera através dos seres humanos". Logo, são capacidades sobrenaturais vinda d'Ele por intermédio do Espírito Santo. Deus colocou à disposição da igreja muitos dons e todos são extremamente úteis para a edificação e exortação dos crentes.
Para melhor estudar o assunto, os dons foram divididos em três categorias: dons de revelação, de elocução e de poder. Nesta lição estudaremos os dons de revelação: palavra de sabedoria, palavra do conhecimento e discernimento de espíritos.
Palavra de Sabedoria
O que seria este dom? "Sabedoria" no grego é shophia e segundo o Dicionário Bíblico Beacon quer dizer "julgamento de Deus diante das demandas feitas pelo homem, especificamente pela vida cristã". Esta sabedoria não é o resultado da capacidade cognitiva humana.
A sabedoria aqui é uma capacidade divina de julgar as questões práticas do nosso dia a dia de maneira que o nome do Senhor seja exaltado. Todo crente é exortado a buscarem Deus a sabedoria (Tg 1.5). Neste texto, segundo a Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, Tiago está falando a respeito da "habilidade de tomar decisões em circunstâncias difíceis". Logo, também não diz respeito ao conhecimento adquirido pelo homem. Muitos homens são dotados de grande capacidade intelectual, mas infelizmente desconhecem a Deus.
Sabedoria divina x sabedoria humana
Em 1 Coríntios 2.6, Paulo faz uma comparação, mostrando à igreja em Corinto a diferença entre a sabedoria humana e a espiritual. Paulo mostra que a razão humana não pode levar o homem à redenção dos seus pecados. Somos redimidos pela fé em Cristo. A fé salvifica é um dom divino. O homem que não aceita Cristo como Salvador não pode compreender a sabedoria de Deus revelada em Jesus.
Dom da Palavra de Sabedoria
De acordo com Estevam Ângelo de Souza, "a palavra de sabedoria é a sabedoria de Deus ou, mais especificamente, um fragmento da sabedoria divina, que é dada por meios sobrenaturais". É uma capacidade vinda diretamente de Deus, mediante a ação direta do Espírito Santo em nossas vidas. A liderança, bem como todos aqueles que querem servir à Igreja de Cristo, deve buscar este dom a fim de administrar e servir com excelência. A Bíblia nos mostra que os diáconos eram homens cheios do Espírito Santo e que Estêvão, dispunha de tanta sabedoria, que ninguém conseguia se sobrepor a ele durante a sua pregação (At 6.10).
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Os dons de revelação constituem parte da revelação de Deus, concedida ao homem salvo, para que, por eles, a “multiforme sabedoria” divina seja manifestada no meio da Igreja, e os crentes em Jesus sejam protegidos das sutilezas do Adversário e das maquinações humanas contra a fé cristã.
Sem a presença física de Cristo, após sua Ascensão aos céus, os salvos, reunidos em igrejas locais, precisam, de maneira indispensável, dos dons espirituais, tanto para cumprirem a Missão confiada por Cristo, quanto para lutar e vencer “as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” (Ef 6.12). Sem eles, a igreja local não passa de uma comunidade humana, uma associação religiosa, como um “vale de ossos”, transformados em corpos com tecidos humanos, mas sem vida. Tem estruturas humanas, ministeriais, denominacionais, intelectuais, políticas e administrativas, mas não tem o poder de Deus em sua vida institucional. Os dons espirituais propiciam a provisão divina para a igreja cumprir a sua missão, concedida por Cristo, de proclamar o evangelho por todo o mundo e a toda a criatura.
Dentre esses, os chamados “dons de revelação” aparecem como categoria de grande valor e necessidade, no meio das igrejas locais. No tempo de Paulo, havia confusões, mistificações doutrinárias, ensinos heréticos e tantos outros tipos de informações, que chegavam aos ouvidos dos crentes, que muitos se desviaram, iludidos pelos “ventos de doutrina” (Ef 4.14). O gnosticismo ameaçava a integridade da fé cristã. Os judaizantes queriam impor seus ensinos legalistas e ultrapassados. A igreja precisava de recursos espirituais sobrenaturais para não ser esmagada pelas heresias, muitas delas travestidas de verdades absolutas. Só a revelação de Deus, manifestada de forma incisiva, poderia evitar a derrocada do cristianismo.
E, nos dias presentes, será que não há necessidade da revelação especial de Deus, através de sua palavra e de dons ou carismas que façam a diferença, para que os cristãos saibam discernir o “joio do trigo”? Certamente hoje, mais do que nunca, a igreja de Jesus, em toda a parte, necessita desses recursos. Os dons de revelação podem identificar a origem, os meios e os propósitos de muitas falsas doutrinas que surgem a cada dia, no meio evangélico. Pela revelação sobrenatural, pode-se desmascarar os falsos pastores, os “obreiros fraudulentos”, “de torpe ganância”.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 31-32.
OS DONS ATUAM ATRAVÉS DOS MEMBROS DA IGREJA DE CRISTO
Quanto à natureza dos dons espirituais, há três posicionamentos teológicos:
1. Os dons espirituais são capacidades meramente naturais.
Ou seja: são inerentes ao ser humano como a poesia, a música ou a eloquência. Ora, se não passam de dotes naturais, como podem eles ser tidos na conta de espirituais? Não há aí uma contradição? Não está uma possibilidade a anular a outra?
2. Os dons espirituais são básica e essencialmente sobrenaturais.
Neste caso, atuam independentemente da anuência e da vontade humana, não passando nosso corpo de um mero recipiente para a atuação dos dons. A Bíblia, porém, afirma estar o espírito do profeta submisso ao profeta (1 Co 14.32).
3. Os dons atuam através dos membros da Igreja de Cristo, quando estes colocam suas mentes, corações e vontade, amorosa e voluntariamente, a serviço de Deus. Esta é a forma como a Bíblia revela a natureza dos dons espirituais.
A atuação destes, embora sobrenaturais, não anula de forma alguma a personalidade humana. Pelo contrário: usa a de tal forma, a fim de que a sublimidade divina tenha em tudo a preeminência.
Observemos, outrossim, que, de acordo com o padrão de Atos dos Apóstolos e das experiências pentecostais subsequentes, os dons espirituais ou nos são entregues quando recebemos o batismo no Espírito Santo ou posteriormente a este; não antecedem nem são conferidos independentemente do batismo no Espírito Santo.
Claudionor Corrêa de Andrade. Fundamentos Bíblicos De Um Autêntico Avivamento. Editora CPAD. pag. 109-110.
I - PALAVRA DA SABEDORIA
1. Conceito.
Observação Ev. Henrique - Ainda que haja certa vinculação entre dom palavra de Sabedoria e a palavra do Conhecimento, há uma diferença básica entre ambos. Sabedoria é falar sobre o futuro e Conhecimento ou ciência é sobre presente.
Lembrando que o dom é uma manifestação sobrenatural sem aviso para acontecer, sem premeditação, sem haver ai alguma coisa da sabedoria do homem, pois é futuro - coisa que ainda não aconteceu.
A palavra da sabedoria. O ensino, a busca da orientação divina, o conselho e a luta com as necessidades práticas do governo e administração da igreja devem ser buscados, mas isso não é dom de Palavra de Sabedoria. Todos podemos e devemos pedir sabedoria a DEUS (Tg 1.5)  e ELE conceder, mas isso não é dom de Palavra de Sabedoria.
Salomão não foi usado em Dom Palavra de Sabedoria, embora tenha recebido sabedoria de DEUS para governar. Se Salomão fosse usado pelo dom Palavra de Sabedoria não teria feito nenhum teste com as mulheres, mas dito imediatamente quem era a mãe verdadeira assim que colocou os olhos nelas.
É parte da sabedoria de Deus, com a finalidade de propiciar entendimento, na ministração da palavra ou pregação; é de grande valor na tarefa de aconselhamento, em situações que demandam uma orientação sábia, notadamente no ministério pastoral. E de fundamental importância no exercício da liderança, da administração eclesiástica, na separação de obreiros, ultrapassando os limites do saber intelectual ou humano. Jesus agradeceu ao Pai por essa revelação: “Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no Espírito Santo e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste às criancinhas; assim é, ó Pai, porque assim te aprouve” (Lc 10.21).
“Esse dom proporciona, pela operação do Espírito Santo, uma compreensão (cf. Ef 3.4) da profundidade da sabedoria de Deus, ensinando a aplicá-la, seja no trabalho seja nas decisões no serviço do Senhor, e a expô-la a outros, de modo a ser bem entendida”. Quando os que dirigem a igreja local contam com esse dom, dispõem de uma diversidade de serviços ou ministérios que dinamizam o trabalho da igreja (1 Co 12.28) e a edificação da igreja é feita com sabedoria (1 Co 3.10). Quando surgem problemas, no meio da congregação, as soluções são encontradas com a ajuda do Espírito Santo (At 6.1-7; 15.11-21).
Paulo recebeu essa visão, de que há uma sabedoria sublime, quando escreveu aos coríntios, dizendo: “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Co 2.9-11).
Essa sabedoria é de altíssimo nível, e transcende os limites da sabedoria natural ou humana. Não se adquire nas escolas seculares, nem também nas escolas teológicas ou filosóficas. Ela é concedida por Deus, a quem Ele quer, visando atender à necessidade da igreja, ou individual, de algum servo ou serva sua, principalmente em ocasiões em que o saber natural é insuficiente para a tomada de decisões, ou resoluções difíceis.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 33-34.
DOM DA PALAVRA DA SABEDORIA.
Aqui é focalizada a habilidade de compreender e de transmitir as coisas mais profundas do Espirito de Deus de compreender os mistérios cristãos, como também a capacidade de transmitir a outros esse conhecimento é provável que também esteja em foco a aplicação da sabedoria a circunstancias particulares, em que são resolvidos problemas difíceis, mediante a aplicação da sabedoria espiritual. Neste sentido, Salomão era supremamente possuidor desse dom. Não há razão para pensarmos que o «discernimento intuitivo», nos problemas da igreja e dos crentes individuais, não esteja incluso nesse dom da sabedoria. O «discernimento» através de meios espirituais está aqui em vista; e esse discernimento pode ter muitas aplicações. Provavelmente esse dom se aproxima e se mistura até certo ponto ao dom da profecia.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 222.
Palavra da sabedoria
    Este dom é uma palavra (uma proclamação, uma declaração) de sabedoria, dada por Deus através da revelação do Espírito Santo, para satisfazer a necessidade de solução urgente dum problema particular. Não se deve confundi-lo, portanto, com a sabedoria num sentido amplo e geral. Não depende da habilidade cultural humana de solucionar problemas, pois é uma revelação do conselho divino. Nos domínios do ministério cristão, este dom se aplica tanto ao ensino da doutrina bíblica, quanto à solução de problemas em geral.
    A manifestação deste dom pode ser evidenciada no caso dum jovem que foi enviado a pastorear uma igreja onde havia um seríssimo problema de discórdia, o qual vinha desafiando vários pastores que por ali já haviam passado.
    A igreja era formada por duas grandes famílias que viviam em constantes litígios, problema que já se vinha arrastando por vários anos. E, para resolver tão delicado assunto, o pastor entrou num regime de oração e jejum, pedindo a Deus a necessária sabedoria para dar solução ao caso. Foi assim que certo dia ele convocou uma reunião com a igreja, disposto a ouvir as partes litigantes. Levantando-se o líder duma das famílias, contou toda a sua história, e no final perguntou: “Pastor, nós temos ou não temos razão?” ao que o pastor respondeu: “Sim, os irmãos têm razão”. Levantou-se o líder da outra família, contou também a sua versão da história, e no final perguntou também: “Pastor, nós temos ou não temos razão?” ao que o pastor igualmente respondeu: “Sim, os irmãos têm razão.”
    Nesse momento criou-se um tumulto, pois, já que o pastor tinha dado razão a ambos os lados, o que se sentia era que a disposição dele de solucionar tão grave problema iria terminar em fracasso. Mas foi nesse momento que ele reassumiu o controle da situação, restabeleceu a ordem no culto, e, tomando a palavra, disse:
    “Irmãos, tenho-vos ouvido e dado razão a ambos os lados. Tenho observado que este problema ainda não foi resolvido exatamente porque ambos têm razão. Portanto, para que seja resolvido, façamos o seguinte: uma família fica com a razão e a outra fica com Jesus. Qual de vocês quer ficar com Jesus?” Como as duas famílias queriam ficar com Jesus, ambas perderam a razão e se reconciliaram, e a paz foi restabelecida na igreja.
    Outro exemplo da manifestação deste dom é dado pelo saudoso escritor pentecostal Donald Gee, no seu livro “Acerca dos Dons Espirituais”. Ele narra a história de certa moça, na Rússia, que num domingo, quando ia assistir a um culto que se realizava ocultamente nas matas, foi interceptada pela polícia. Em resposta às perguntas do guarda, a moça respondeu que ia ouvir a leitura do testemunho de seu irmão mais velho. A polícia deixou-a passar, desejando-lhe felicidade e que recebesse uma boa porção da herança.
    Ainda que haja certa vinculação entre este dom e a palavra do conhecimento, há uma diferença básica entre ambos. Sabedoria é a capacidade de raciocinar e de planejar com o uso do conhecimento e da experiência já adquiridos.
    A distinção entre palavra da sabedoria e palavra do conhecimento, pode ser melhor explicada em face do seguinte acontecimento:
    Certa igreja estava reunida num dos seus cultos habituais. Nem bem o culto havia começado, quando um dos mais simples membros foi possuído por um sentimento de convicção de que se aquele culto não fosse interrompido imediatamente, haveria de terminar em catástrofe. Ele levantou-se, pediu a palavra ao dirigente e contou o que sentia. Como este irmão era tido na conta dum crente de reconhecida piedade, o culto foi encerrado e a casa evacuada o mais rápido possível. Minutos depois o templo caiu desastrosamente.
    Agradecidos a Deus por lhes ter preservado a vida, os crentes se lançaram á construção dum novo templo. Mas, não demorou muito para que esmorecessem e interrompessem a obra. Por mais que o pastor os concitasse a continuar a construção, mais difícil ficava.
    Num culto em que o pastor falava mais uma vez da necessidade de se concluir a construção, aquele mesmo irmão, levantou-se pedindo a palavra e começou a estimular os irmãos a continuar a construção do templo. A certa altura, ele disse:
   “Façamos de conta que todos nós tivéssemos morridos sob as ruínas do templo que ruiu; quanto teríamos gasto pelo enterro de cada um de nós?” Contabilizado quanto teria sido pago, disse ainda esse simples irmão: “Irmãos, entreguemos aos cofres da igreja a importância que cada um de nós teria gasto com o seu próprio funeral e esta obra será concluída!”
   Naquele momento todos foram convencidos a fazer isso, e a construção foi reiniciada e concluída em tempo recorde.
    Na primeira parte da história vimos a manifestação da palavra do conhecimento, e na segunda, a palavra da sabedoria.
    Este dom é ferramenta indispensável para o sucesso do ministro no exercício do seu ministério de aconselhamento, e na solução de problemas espirituais, sociais e familiares dos membros em particular, e da Igreja em geral.
Raimundo F. de Oliveira. A Doutrina Pentecostal Hoje. Editora CPAD.
A Palavra da Sabedoria (12.8a)
O termo Palavra significa alguma coisa dita ou falada. Sabedoria (sophia) quer dizer: “Julgamento de Deus diante das demandas feitas pelo homem, especificamente pela vida cristã”.15 E essa sabedoria prática que Tiago considera como sendo um dom de Deus (Tg 1.5). Nesse sentido, “a sabedoria é a capacidade de aplicar nosso conhecimento aos julgamentos ou à prática”.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 335.
A palavra da sabedoria. O ensino, a busca da orientação divina, o conselho e a luta com as necessidades práticas do governo e administração da igreja podem oferecer oportunidade para o dom de sabedoria. Mas este não deve ser limitado à adoração na igreja ou às experiências na sala de aula. Ele ensina as pessoas a crescer espiritualmente quando apli-cam seus esforços ao estudo da sabedoria e fazem escolhas que levam à maturidade. Por si só, no entanto, o dom é uma mensagem, proclamação ou declaração de sabedoria, não significa que os que ministram a mensagem sejam necessariamente mais sábios que os outros.
Nossa fé não deve depender de sabedoria humana (1 Co 2.5). Se nos faltar a sabedoria, somos exortados a pedi-la a Deus (Tg 1.5). Jesus prometeu aos seus discípulos "boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lc 21.15). Esta promessa refere-se a um dom sobrenatural, pois assim demonstra o seu mandamento: "Proponde, pois, em vosso coração não premeditar como haveis de responder" (Lc 21.14). Esse dom, portanto, vai além da sabedoria e preparo humanos.
HORTON. Staleym. Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Editora CPAD.
2. A Bíblia e a palavra de sabedoria.
No Antigo Testamento, temos alguns exemplos marcantes dessa revelação da sabedoria de Deus. Vemos tal sabedoria na construção do Tabernáculo (Êx 36.1,2).
José, filho de Jacó, teve momentos especiais em sua vida, em que demonstrou ter a sabedoria concedida por Deus, em situações extremamente significativas. Na prisão, interpretou sonhos de servos de Faraó, os quais se cumpriram plenamente. Chamado ao palácio real, diante de todos os sábios, adivinhos e conselheiros do rei, interpretou os sonhos proféticos que Deus concedera ao monarca egípcio, e, ainda por cima, deu instruções e consultoria gratuita sobre planejamento, economia, contabilidade e finanças a Faraó. Se não fosse a sabedoria do Espírito de Deus, jamais o jovem hebreu teria tamanha capacidade para interpretar os misteriosos sonhos das vacas gordas e das vacas magras, e foi elevado à posição de Governador do Egito (cf. Gn 41.14-41).
A proverbial sabedoria de Salomão era, sem dúvida alguma, manifestação da sabedoria de Deus, para a resolução de “causas impossíveis”. O caso das duas mulheres, que disputavam a mesma criança demonstra tal capacidade, proveniente do Espírito de Deus (1 Rs 3.16-28). Antes de desviar-se dos caminhos do Senhor, em sua velhice, Salomão foi um exemplo como beneficiário da sublime sabedoria de Deus. “E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e largueza de coração, como a areia que está na praia do mar. E era a sabedoria de Salomão maior do que a sabedoria de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios” (1 Rs 4.29,30).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 34-35.
Atos 6.9. Deus não está amarrado a determinadas pessoas, nem mesmo quando lhes concedeu tarefas extraordinárias. Nada o impede de atuar também por meio de outras pessoas. Estêvão é autônomo também nos caminhos de sua evangelização. Em Jerusalém havia, além do templo, as “sinagogas”. Nelas a Escritura (i. é, o “AT”) era lida e explicada pelos escribas. No entanto, como sabemos fartamente da vida de Jesus e da história de Paulo, na sinagoga todo israelita podia ler da Escritura e comentar algo a respeito da leitura (cf. Mt 9.35; Lc 4.16-22; At 13.14-16; 17.2; 18.4; 19.8). Não nos surpreende que Estêvão faça uso desse direito, a fim de levar a mensagem de Jesus também desse modo para dentro do povo. Ele próprio era “helenista”, motivo pelo qual procurava as sinagogas helenistas de Jerusalém. Não depreendemos com certeza das palavras de Lucas se ele tem em mente cinco sinagogas diferentes ou apenas duas, de sorte que os “Libertos” usavam a mesma sinagoga junto com os judeus de Cirene e Alexandria, enquanto os da Cilícia e da província romana da “Ásia” (cf. acima o exposto sobre At 2.10) tinham à disposição uma segunda casa de oração. Com certeza também Saulo de Tarso estava na sinagoga dos cilícios naquela época, ouvindo assim a mensagem cristã pela primeira vez por meio de uma pessoa como Estêvão.
Uma sinagoga “helenista” parecia oferecer um campo de trabalho singularmente profícuo. Os judeus da diáspora ocidental tinham visão mais ampla e eram mais versáteis que os judeus de Jerusalém. O pensamento grego não deixou de exercer influência sobre eles. Contudo, em breve se constatou que justamente por isso também eram mais perigosos do que os “mestres da lei” do antigo tipo hebreu. Enquanto estes se interessavam mais por detalhes da interpretação da Escritura, aqueles captavam com maior rapidez e clareza as consequências de cada ideia no conjunto total. Os “prodígios e sinais” como tais novamente não foram capazes de conduzir à fé. Tão somente puderam despertar perguntas e incomodar uma falsa tranquilidade. Essas perguntas começam a se manifestar. Homens das sinagogas helenistas “levantaram-se e discutiam com Estêvão”. Uma vez que em seguida a acusação contra Estêvão se concentrava em “temos ouvido esse homem proferir blasfêmias contra Moisés e Deus” e “esse homem não cessa de falar contra o lugar santo e a lei”, a discussão deve ter versado mais e mais sobre os dois pontos “templo” e “lei”. Ao que parece, aconteceu algo muito similar ao que sucedeu mais tarde com Martinho Lutero. Os arautos do novo evangelho falaram primeiramente com alegria do positivo, daquilo que Jesus traz, daquele a quem Deus “exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.31). O caso de Estêvão não deve ter transcorrido de outro modo que o dos apóstolos. Agora, porém, Estêvão, como depois Martinho Lutero, é obrigado pelos adversários a traçar as consequências negativas. E os “helenistas”, ágeis no raciocínio, conseguem impeli-lo para ideias cada vez mais ousadas de forma mais eficaz do que os hierosolimitas, que ficam atolados numa indignação genérica e proíbem, sem justificativa clara, o “falar com base no nome de Jesus”. Os apóstolos associavam sua nova notícia com uma óbvia fidelidade ao templo e à lei, assim como Martinho Lutero também queria continuar sendo um bom católico depois de sua redescoberta do evangelho. Na discussão, porém, certas perguntas são dirigidas a Estêvão : se o perdão de todos os pecados é concedido em Jesus e sua cruz, que sentido ainda possuem o templo e todas as cerimônias no templo? Se a nova igreja está edificada sobre a “fé”, e se ela possui pela “fé” o relacionamento decisivo com Deus e sua justiça perante Deus, que, então, significa ainda a lei? São as questões que mais tarde também ocuparam vivamente as próprias igrejas cristãs (cf. as cartas aos Romanos, Gálatas, Hebreus!).
Atos 6.10. Nessas controvérsias acaloradas Estêvão experimenta a verdade da promessa de Jesus em Lc 21.35: “E não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito pelo qual ele falava.” O que mais tarde a irresistível limpidez e poder do Espírito nos apresenta nas cartas aos Romanos e aos Gálatas e o que constantemente gerou novas rupturas para a verdade e a liberdade em todos os séculos, já fora proferido naquele tempo por Estêvão. Interiormente Estêvão não podia ser derrotado. Sua palavra constantemente se apresentava cheia de Espírito e vida no recinto da sinagoga.
Werner de Boor. Comentário Esperança Atos. Editora Evangélica Esperança.
Estêvão defendeu a causa do cristianismo contra os que se opunham e debatiam contra ela (w. 9,10). Ele serviu aos interesses da religião como defensor da fé, nos lugares altos do campo, enquanto que outros serviram como vinhateiros e lavradores.
1. Quem eram os oponentes de Estêvão (v. 9). Eram judeus, judeus helenistas, judeus da dispersão que, pelo visto, eram mais zelosos que os nativos. Eles retiveram com dificuldade as práticas e as confissões judaicas no país onde moravam, onde eram como pássaros salpicados, e mantiveram a frequência a Jerusalém com grande despesa e labuta. Esta dificuldade e empenho os fizeram defensores mais ativos do judaísmo do que aqueles cuja confissão religiosa era fácil e barata. Eles eram da sinagoga chamada dos Libertos. Os romanos chamavam esses Libe-rti ou Libertini, que eram estrangeiros que se naturalizaram, ou escravos de nascença que foram alforriados ou se fizeram homens livres. Eruditos defendem que estes Libertos eram judeus que tinham obtido a cidadania romana, como Paulo (cap. 22.27,28). É provável que Paulo fosse o homem mais zeloso desta sinagoga chamada dos Libertos. Ele possivelmente debateu com Estevão e engajou outros na sua arguição. Essa dedução advém do fato cie o vermos ocupado com o apedrejamento de Estêvão e consentindo na sua morte. Havia ainda oponentes que pertenciam à sinagoga [...] dos cireneus, e dos alexandrinos, sobre cuja sinagoga os escritores judeus discorrem; e outros oponentes que pertenciam à sinagoga [...] dos que eram da Cilicia e da Asia. Se Paulo, como cidadão livre de Roma, não pertencesse à sinagoga [...] dos Libertos, pertenceria a esta por ser nativo de Tarso, cidade da Cilicia. Não é improvável que fosse membro de ambas.
Os judeus que nasceram em outros países e ali cuidavam de seus negócios, tinham oportunidades frequentes de ir e até residir em Jerusalém. Cada nação tinha sua sinagoga, como em diversas partes do mundo há igrejas francesas, holandesas e dinamarquesas. Essas sinagogas eram as escolas para as quais os judeus dessas nações enviavam seus filhos para serem educados no ensino judaico. Os que eram tutores e professores nestas sinagogas estavam vendo que o evangelho crescia e que os sacerdotes estavam sendo coniventes com seu crescimento. Eles temiam qual seria a consequência disto para a religião judaica, da qual eram zelosos. Além disso, tinham confiança na excelência da sua causa e em sua própria suficiência para tratar do assunto. Por isso, lutavam para acabar com o cristianismo por meio de debates. Tratava-se de um modo justo e racional de lidar com a situação. Este era procedimento sempre aceito pela religião. Apresentai a vossa demanda, diz o Senhor; trazei as vossas firmes razões, diz o Rei de Jacó (Is 41.21). Mas por que eles debateram com Estêvão? Por que não o fizeram com os próprios apóstolos? (1) Certos estudiosos pensam que eles menosprezaram os apóstolos porque os consideravam homens sem letras e indoutos (cap. 4.13). Julgavam-nos inferiores para entrarem em debate com eles.
Mas como Estêvão fora bem educado, achavam uma honra provocar alguém tão estudioso quanto eles. (2) Outros eruditos pensam que eles tinham grande temor dos após tolos. Ele a não se sentiriam tão desimpedidos e à vontade com eles como se sentiram com Estêvão que estava em posição inferior. (3) Talvez o desafio tenha sido feito publicamente e Estêvão foi escolhido e nomeado pelos discípulos para defendê-los. Não era, pois, razoável que os apóstolos deixassem a pregação da palavra de Deus para se ocuparem com controvérsias. Estêvão foi designado para este serviço, porque era apenas um diácono da igreja e um jovem muito inteligente e talentoso. Ele estava mais bem qualificado para lidar com altercadores do que os próprios apóstolos. Certos historiadores afirmam que Estêvão foi criado aos pés de Gamaliel, e que Saulo e os demais o abordaram violentamente - como se agiria com um desertor. (4) É provável que debateram com Estevão por ser ardoroso em argumentar com eles e convencê-los, e este era o serviço para o qual Deus o chamara.
2. Como Estêvão triunfou nesta disputa: E não podiam resistir ci sabedoria e ao Espírito com que falava (v. 10). Eles não conseguiam fundamentar os próprios argumentos nem responder aos argumentos de Estêvão. Ele provou por argumentos irrefutáveis que Jesus é o Cristo e se entregou com tanta pureza e inteireza à sua defesa que não tiveram como contestar o que dizia.
Embora não tenham sido convencidos, foram confundidos.
O texto sacro não diz: Eles não podiam resistir a Estêvão, mas: Eles não podiam resisti-lo, sabedoria e ao Espírito com que [Estêvão] falava, ao Espírito de sabedoria que falada por ele. Tratava-se de cumprimento da promessa: Eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem (Lc 21.15). Eles achavam que disputavam apenas com Estêvão e que levariam a melhor nesse páreo. Mas eles estavam disputando com o Espírito de Deus que nele estava, e contra o Espírito Santo ninguém é páreo.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 63-64.
Nem mesmo o intelecto de Saulo de Tarso era páreo à altura para Estêvão, porquanto este era ajudado divinamente em seu conhecimento e expressão, e possuía poderes miraculosos que confundiam os seus oponentes. Nesse tempo, quão pouco sabia Saulo de Tarso que, algum dia, seria ele mesmo um expositor ainda mais poderoso do cristianismo do que o próprio Estêvão, pois, de fato, foi o maior expositor das verdades divinas de todos os tempos! Como Estêvão teria morrido muito mais feliz, se tivesse tido tal conhecimento de antemão, conhecendo que a sua vida e o seu testemunho haveriam de produzir tão notável resultado!
«Estêvão não se satisfazia em fazer mais nada além de aliviar as necessidades dos pobres. Não demorou a tornar-se um defensor bem conhecido da causa de Cristo. As sinagogas eram os lugares costumeiros onde os homens argumentavam sobre as questões envolvidas na lei judaica.
Estêvão, pois, participava desses debates, ainda que por motivo inteiramente diferente. Era inevitável que encontrasse opositores. Foi a mesma forma de oposição que Pedro, João e seus colegas, já haviam encontrado». (Theodore P. Ferris, in loc.).
«É realmente notável que Estêvão tenha sido o primeiro mestre cristão ao qual se atribui, de modo especial, o dom da ‘sabedoria’. Nos evangelhos, essa virtude é atribuída a nosso Senhor (ver Mat. 13:54; Luc. 2:40,52), e também se fala sobre a ‘sabedoria de Salomão’ (ver Mat. 12:42). Nos escritos de Lucas, essa palavra subentende algo superior ainda à ‘consolação’ ou ‘profecia’, do que Barnabé derivava 0 seu nome—pensa- mentos mais latos, uma visão mais clara da verdade, o desenvolvimento do que antes se mostrara latente em indícios e parábolas e enigmas». (E.H. Plumptre, in loc.).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 3. pag. 136.
3. Uma liderança sábia.
Em o Novo Testamento, há diversas referências quanto à aplicabilidade dessa sabedoria divina. Paulo exorta aos colossenses a que saibam transmitir a palavra aos ouvintes, dizendo: “Andai com sabedoria para com os que estão de fora, remindo o tempo. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um” (Cl 4.5,6). A falta dessa sabedoria de Deus pode causar graves prejuízos à pregação do evangelho. Há pregadores, que usam o púlpito, em eventos evangelísticos, de maneira arrogante e prepotente. Houve um que dizia, para uma grande multidão, que os pastores eram um bando de trambiqueiros; e que a igreja (denominação da qual fazia parte) estava ultrapassada. E dizia, diante de pessoas não crentes; “Não sei por que Deus não tira essa velharia de cena”. A sabedoria desse tipo de pregador não é do Espírito Santo. “Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica” (Tg 3.15).
Na vida de Jesus, como o “Filho do Homem”, por diversas vezes, ele demonstrou essa sabedoria vinda do Alto. Ao chegar à sua pátria, causou profunda admiração em seus conterrâneos, por causa da sabedoria como que ministrava a mensagem. “E, chegando à sua pátria, ensinava-os na sinagoga deles, de sorte que se maravilhavam e diziam: Donde veio a este a sabedoria e estas maravilhas? Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, e José, e Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe veio, pois, tudo isso!” (Mt 13.54-56 — grifo nosso).
Essa mesma sabedoria tem sido identificada, na vida de irmãos humildes, ao longo da História da Igreja. Há casos em que pessoas de pouca instrução formal, usadas por Deus, transmitem mensagens de profundo significado e conteúdo espiritual, que provocam admiração nos que o ouvem. Em Natal, décadas atrás, o folclorista Luís da Câmara Cascudo, um dos ícones da literatura nacional, estava num culto, na Assembleia de Deus. Foi dada oportunidade a um crente muito humilde, que, cheio do Espírito Santo, entregou a mensagem na unção de Deus. O ilustre visitante não se conteve, e exclamou: “Esse homem prega e mostra o céu por dentro!”.
Na vida da igreja local, há casos interessantes, do exercício da sabedoria divina, pois Deus é o mesmo. Um novo convertido, homem do campo, recebeu a visita de um neto, que era formado em Medicina, em faculdade famosa. Sabendo que o avô houvera aceitado a Cristo, passou a criticá-lo com arrogância, dizendo que, em seus estudos houvera aprendido muitas coisas, inclusive que Deus não existe, que o homem proveio de um macaco, e, depois de desfilar outras informações do que aprendera, perguntou ao velho crente: “E, nessa crença, o que o senhor aprendeu?”. O novo convertido, que nem sequer tivera tempo de conhecer bem a Bíblia, respondeu ao neto ateu: “Eu aprendi a dizer: para trás de mim, Satanás!”. O materialista despediu-se, dizendo que não adiantava lutar “contra esses crentes...”.
É interessante que anotemos que o dom da palavra da sabedoria não faz do seu portador uma pessoa mais sábia do que as outras. Diz Horton: “O Espírito não torna a pessoa sábia por meio deste dom, nem significa que a pessoa mais tarde não possa cometer erros (cf. o exemplo do rei Salomão que, no fim da vida, não só errou, mas pecou)”.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 35-36.
CONSELHEIRO (ACONSELHAMENTO)
Os ministros evangélicos com frequência são chamados a dar conselhos. de maneira formal ou informal. Em anos recentes, o aconselhamento cristão tem recebido um renovado impulso e interesse com o surgimento de especialistas, dotados de bom treinamento nesse campo de atividades. Considerável literatura tem surgido sobre o assunto. Mas também tem havido muito abuso por parte de ministros que pouco ensinam da Bíblia, porquanto eles se tomaram mais psicólogos do que pastores e mestres, e sua prédica está eivada do vocabulário usado na psicologia. Outro tanto tem sucedido a conferências onde antes a Bíblia era o centro das atenções. Mas agora elas se assemelham mais a sessões psicológicas populares, com algum verniz de religiosidade. Por outra parte, é bom que os ministros do evangelho tenham algumas noções básicas sobre o assunto sabendo também como outros ministros, que se tornaram especialistas nesse campo, manipulam essas questões. Assim, são melhor capazes de examinar. expressar e manipular ideias. A ignorância nunca é recomendável, Um ministro do evangelho deve estar bem informado em muitas, mas, e quanto mais, melhor ao mesmo tempo em que jamais deve olvidar-se dos requisitos de seu alto chamamento como pregador do evangelho de Cristo. Em nosso moderno e complexo mundo, o ministro é uma pessoa que se dispõe a ajudar a outros, e cuja ajuda não seja dispendiosa em termos econômicos. Portanto, um pastor serâ procurado para aconselhar e ajudar quanto a muitos problemas. como aqueles envolvidos no matrimônio, no vicio com drogas nos casos de ansiedade, de tristezas de aspirações de necessidade de orientação, ou de qualquer coisa que aborde a vida humana diária. Ocasionalmente, um ministro do evangelho não se sentirá apto a aconselhar sobre determinados problemas, pelo que deveria ser capaz de encaminhar as pessoas a médicos, advogados, etc. Naturalmente, no campo das questões religiosas, um pastor jamais poderá desistir de suas funções deixando o bem-estar das almas entregue aos cuidados de quem não entende que o principal problema humano é como corrigir seu relacionamento com Deus e com os nossos semelhantes.
Infelizmente, isso tem sucedido.
Um dos mais bem conhecidos conselheiros cristãos da atualidade, um pastor presbiteriano surpreendeu-se quando descobriu, na universidade onde estava estudando psicologia, que a melhor técnica de aconselhamento é aquela que segue os moldes bíblicos, ou seja, fazendo os pacientes enfrentarem sua realidade moral, diante de Deus, dos homens e de si mesmos. A esse método ele chamou de aconselhamento noutético ou seja alicerçado sobre a iluminação da mente do paciente, com o uso da Palavra de Deus. Esse conselheiro cristão, Jay E. Adams, evoca trechos bíblicos como Rom. 15:14 e Col. 3:16, entre outros, como base bíblica de sua contenção.
O ministro evangélico que busca aconselhar deve dispor-se a enfrentar certo número de responsabilidades.
Em primeiro lugar, ele precisa ser um homem de sólidos conhecimentos. A ignorância, oculta por detrás de citações bíblicas, não é grande ajuda. Além disso, ele precisa ser um exemplo de espiritualidade, a fim de que suas palavras tenham peso. Também é mister que entenda a linguagem das emoções. Nunca deveria devolver hostilidade pela hostilidade recebida, prestando conselhos com termos aceitáveis. Haver! De tratar com mulheres, casadas, viúva e solteiras, que enfrentam muitos problemas com homens, mas têm sede de afeição. Isso posto, será objeto de tentativas de sedução. No caso de mulheres especialmente atraentes, será tentado a seduzi-las, porquanto um pastor é uma pessoa como outra qualquer, impulsionado por impulsos irracionais, como qualquer outra pessoa. Um dos piores escândalos que envolvem o tratamento psiquiátrico é a frequência das relações sexuais entre os médicos e suas pacientes.
Acrescente-se a isso que um ministro do evangelho, tal e qual um médico ou um advogado, deve saber guardar segredos, sempre que as pessoas aconselhadas solicitarem segredo, e sempre que o senso de propriedade do pastor assim mostrar que deve ser. Hâ aquele velho escândalo da esposa do pastor que espalha tudo quanto ouve. E um ministro também não deve usar os casos que trata como ilustrações em seus sermões. As pessoas não terão dificuldade em perceberem a quem ele se refere.
Quando um ministro toma-se conselheiro profissional, deve cuidar para não promover sua igreja ou sua denominação, embora, necessariamente, promova princípios bíblicos e espirituais. Em todo o seu envolvimento no campo da psicologia, sempre deveria conferir suprema importância à espiritualidade do homem, tratando com as pessoas como almas necessitadas, e não apenas como mentes perturbadas.
Um pastor sabe que o Senhor Jesus é o médico da mente, das emoções, do espirito, e não apenas do corpo (H)
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag. 874-875.
II - PALAVRA DA CIÊNCIA
1- O que é?
É manifestação da ciência ou do conhecimento de Deus, concedido ao homem salvo. Pode ser dado por sonho, por visão, por revelação especial, operando na esfera humana, no seio da igreja; sendo um conhecimento sobrenatural propiciado por Deus. Podemos dizer que a palavra da sabedoria é a aplicação da “ciência” de Deus, na vida prática pessoal ou da igreja. Escrevendo aos coríntios, sobre as “armas de nossa milícia”, Paulo diz que essas “armas” destroem “...os conselhos e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo” (2 Co 10.5 — grifo nosso). Paulo fala de “todos os mistérios e toda a ciência” (1 Co 13.2), que só têm valor se for sob a graça do amor de Deus. Através desse dom, o crente penetra nas profundezas do conhecimento de Deus (cf. Ef 1.17-19).
Em Cristo — “o mistério de Deus [...] em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.2,3), é que os dons devem ser exercidos, no meio da igreja cristã. Pois Deus quer que esse conhecimento profundo e sobrenatural esteja à disposição dos seus servos, que o amam. “Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus” (1 Co 2.9).
A Palavra de Deus mostra exemplos desse dom. Quando Jesus pregava para a mulher samaritana, soube detalhes da vida dela, que o conhecimento humano não teria condições de alcançar naquela circunstância de um encontro inesperado. Ele disse à mulher que chamasse seu marido. A mulher respondeu que não tinha marido e Jesus lhe disse que ela tivera “cinco maridos” e aquele com quem vivia não era seu marido. A mulher ficou admirada, e disse: “Senhor, vejo que és profeta” (Jo 4.16-19). A palavra da ciência não é adivinhação nem expressão de tentativa de erro e acerto. E dada pelo Espírito Santo.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 36-37.
    Este dom tem sido definido como sendo a revelação sobrenatural dalgum fato que existe na mente de Deus, mas que o homem, devido às suas naturais limitações, não pode conhecer, a não ser que o Espírito Santo lhe revele. Exemplos da manifestação deste dom são encontrados no ministério de Samuel: 1 Sm 9.15,20; 10.22; Eliseu: 2 Rs 5.20,26; 6.8; Aias: 1 Rs 14.6; Jesus: Jo 1.48; 4.18; Lc 19.5; Mt 16.23; Pedro: At 5.3,4, e Paulo: At 27.23-25.
    Através deste dom, os segredos do mais profundo do coração são revelados, enquanto que obstáculos ao desenvolvimento da Igreja são manifestos, e desmascarada toda e qualquer hipocrisia. Este dom é de grande importância para o ministério, pois pode apontar os maus obreiros, possíveis candidatos ao ministério cristão.
Raimundo F. de Oliveira. A Doutrina Pentecostal Hoje. Editora CPAD.
A Palavra da Ciência (12.86)
Ciência (ou conhecimento; gnosis) “implica em pesquisa e investigação, embora ciência não deva ser entendida em um sentido puramente intelectual; ela tem um caráter existencial”. Paulo também faz a associação da ciência com uma espécie de consciência mística sobrenatural, e a relaciona aos mistérios, revelações e profecias (13.2; 14.6). Enquanto a sabedoria vem inteiramente do Espírito, a ciência (ou conhecimento) vem à medida que o Espírito concede.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 335.
2. Sua função.
Esse dom revela coisas que não são percebidas pela visão natural (ver 1 Sm 16.7; Jo 2.24,25). Na vida prática da igreja, algumas experiências demonstram que o dom da palavra da ciência pode ser dado nos tempos presentes. Num Círculo de Oração, em Natal-RN, as irmãs estavam tranquilas, orando e louvando a Deus, numa congregação, anos atrás. Apresentou-se um homem, muito bem vestido, de paletó de tecido fino, sapato lustroso, gravata e Bíblia debaixo do braço. Ao ser interpelado, para ser apresentado, disse que era um servo de Deus, que estava de passagem por ali, e que viera visitar o trabalho. Acrescentou que era “filho do Ministro da Educação, Sr. Jarbas Passarinho”. A apresentação do “ilustre” visitante foi feita, e as irmãs de imediato quiseram ouvir uma palavra por ele.
Uma humilde serva de Deus, num lampejo divino, disse à dirigente: “Não dê oportunidade a ele. E um mentiroso, falso e procurado pela polícia...!”. Foi um mal-estar, pois a dirigente já ia anunciar a oportunidade ao visitante. Mas, diante da advertência, não o fez. Foi criticada por um santo irmão, que achou uma falta de respeito a um “servo de Deus”, “filho de uma autoridade pública”. Esse também convidou o visitante para ir à sua casa, num gesto de desagravo e de hospitalidade. No caminho, dizia ao visitante: “Essas irmãs não têm sabedoria”. E pediu desculpas pelo constrangimento. Recebeu-o em casa, apresentou à família, e ofereceu dormida ao desconhecido.
Pela madrugada, alguém bateu à porta. O anfitrião foi abrir, e deparou-se com policiais federais, apontando metralhadoras para sua casa, e dizendo que ele estava preso, pois dera acolhida a um criminoso, estelionatário, que vinha sendo rastreado em sua viagem. Quem revelaria tal coisa a uma simples serva de Deus? Sem dúvida, foi a operação do dom da ciência, num momento crucial. Este exemplo é prova de que Deus não muda. Agiu nos tempos antigos. E age em todos os tempos.
E preciso entender a diferença entre o dom da sabedoria e o dom da palavra da ciência. A ciência é o conhecimento profundo, concedido por Deus, em relação às coisas divinas ou às coisas dos homens, que estão além do conhecimento natural. O dom da sabedoria refere-se à utilização do conhecimento em questões práticas da vida. Conhecimento sem sabedoria é puro exercício intelectual infrutífero e diletante. O cristão deve ter conhecimento de Deus para viver o cristianismo de forma concreta, no seu dia a dia.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 38-39.
Palavra do conhecimento
    De acordo com o registro bíblico, quando este dom era exercido, o extraordinário acontecia, como mostram os exemplos que se seguem:
    - O rei de Israel foi avisado do perigo de destruição por parte do rei da Síria: 2 Rs 6.9-12.
    - Elias recebeu novo alento em meio à perseguição: 1 Rs 19.14-18.
    - A hipocrisia de Geazi foi manifesta: 2 Rs 5.20-
    - A samaritana foi convencida da necessidade dum Salvador: Jo 4.18,19,29.
    - Saul foi achado no meio da bagagem: 1 Sm 10.22.
    - A necessidade de Saulo foi revelada a Ananias: At 9.11.
    - Foi desmascarada a hipocrisia de Ananias e Safira: At 5.3.
    - O local da celebração da Páscoa de Jesus e seus discípulos, foi indicado: Mc 14.13-15.
    Este dom pode manifestar-se por diferentes meios, seja através da pregação no púlpito, da profecia, do aconselhamento aos necessitados e aos que buscam orientação divina, ou mesmo através de sonhos.
    Quando fui enviado para o meu primeiro campo de atividades pastorais, minha esposa ainda não tinha recebido a experiência do batismo com o Espírito Santo, razão por que fomos levados a orar mais intensamente durante o» primeiros meses de nossa atividade naquele vasto campo.
    Certa noite sonhei que me encontrava próximo a, uma grande árvore junto à margem dum enorme lago. De momento, vi aquela árvore ser envolvida por uma enorme chama de fogo. Pelo que vi, lembrei-me da experiência de Moisés diante da sarça que ardia em fogo, mas que não se consumia. O milagre parecia repetir-se diante dos meus olhos. Olhando ao meu redor, vi que estava bem no meio dum capinai tão seco como jamais eu havia visto antes. De momento, vi que minha esposa se aproximava de mim e me chamava para corrermos, antes que o fogo que envolvia aquela árvore se espalhasse pelo capinzal e viéssemos a ser queimados. Peguei minha esposa pelo braço e começamos a correr em direção à porteira daquela propriedade, que dava para uma estrada.
    Quando começamos a correr, as chamas que envolviam a árvore saltaram em forma de algodão nos meus pés, envolvendo-os. Pareciam algodão a meus pés, porém, era fogo de verdade, pois, onde quer que eu pisasse, começava um novo foco de incêndio que logo se espalhou por todo o capinai.
    Quando chegamos â estrada, minha esposa tinha um dos seus braços completamente queimado, enquanto que o capinai ardia em chamas incontroláveis.
    Ao acordar no dia seguinte, contei a ela o sonho e lhe disse: “Você será batizada com o Espírito Santo hoje”. Conforme havíamos previamente programado, realizamos, naquela noite, um culto de vigília numa das nossas congregações. Ali minha esposa recebeu o batismo com o Espírito Santo: cumpria-se, assim, o sonho que Deus me dera na noite anterior.
    Outro exemplo da operação deste dom aconteceu com o Dr. Mordecai Ham, instrumento que Deus usou para conduzir Billy Graham a Cristo.
    Ouvi um amigo do Dr. Mordecai contar que certo dia esse impetuoso pregador, acompanhado dum grande grupo de obreiros, partiu para uma fazenda no interior dos Estados Unidos, onde haveria de realizar uma série de cultos. Para espanto de todos, os arreios de suas montarias foram todos furtados na noite após a chegada à fazenda. Como não sabiam quem havia praticado tal ação, começaram a orar no sentido de Deus mover o ladrão a devolver tudo em tempo. Até a hora da realização do último culto, já haviam sido devolvidos quase todos os arreios, menos os do cavalo do próprio Dr. Mordecai.
    O Dr. Mordecai estava pregando quando, de momento, baixou-se e apanhou uma pedra que estava próximo à mesa que usava como púlpito, levantou-a e disse à grande multidão que o ouvia: “Bem senhores, os arreios dos cavalos dos meus companheiros foram todos devolvidos, porém ainda faltam os arreios da minha montaria. Sei que o ladrão que os está retendo está aqui presente me ouvindo; não sei exatamente em que lugar desse auditório ele se encontra, mas vou atirar esta pedra a esmo, certo que o Espírito Santo há de guiá-la e fazê-la cravar na fronte desse ladrão.
    Nesse momento levantou-se um homem e apressadamente saiu. Minutos depois, voltava trazendo os arreios do cavalo do Dr. Mordecai!
Raimundo F. de Oliveira. A Doutrina Pentecostal Hoje. Editora CPAD.
3. Exemplos bíblicos da palavra da ciência.
O profeta Eliseu sabia os planos de guerra do rei da Síria, mesmo à distância. Quando o rei pensava em atacar o exército de Israel de surpresa, em determinado lugar o profeta de Deus alertava ao rei de Israel dos planos do inimigo, por diversas vezes. O rei sírio ficou intrigado e desconfiou de que haveria um traidor no meio de suas tropas. Mas um dos servos do rei o fez saber o mistério: “E disse um dos seus servos: Não, ó rei, meu senhor; mas o profeta Eliseu, que está em Israel, faz saber ao rei de Israel as palavras que tu falas na tua câmara de dormir” (2 Rs 6.8-12).
Era um conhecimento muito mais aperfeiçoado do que todos os atuais sistemas de informação, com uso de tecnologia de ponta, usados no mundo atual. Eliseu não tinha informantes, nem sonhava com equipamentos de comunicação ou de satélites. Era a mensagem divina, diretamente do Espírito Santo ao seu coração. Quando o profeta Samuel disse a Saul que as jumentas do pai já haviam sido encontradas, foi pela ciência ou conhecimento de Deus (1 Sm 9.15-20).
A revelação dada a Daniel acerca dos impérios mundiais demonstra quão grande é a sabedoria de Deus, como recurso divino para ocasiões especiais, em que de nada adianta a sabedoria humana, ou os conhecimentos adquiridos pela experiência de quem quer que seja. Quis Deus utilizar-se de um rei estrangeiro ao seu povo para revelar segredos sobre acontecimentos que teriam lugar na História, na ocasião, e para o futuro. A visão de Nabucodonosor é uma referência para a Escatologia, com base nas interpretações dadas pelo Altíssimo a Daniel, seu servo, que estava vivendo naquele País, com uma missão do mais alto significado.
Trata-se de um caso bem emblemático do que significa receber o conhecimento, ou a revelação de Deus. O rei tivera um sonho muito estranho, que o perturbara sobremaneira. Pela manhã, reuniu “os magos, e os astrólogos, e os encantadores, e os caldeus, para que declarassem ao rei qual tinha sido o seu sonho; e eles vieram e se apresentaram diante do rei. E o rei lhes disse: Tive um sonho; e, para saber o sonho, está perturbado o meu espírito” (Dn 2.2,3). Tudo em vão. Ninguém soube interpretar o sonho, por uma razão muito óbvia: o rei não se lembrava do sonho! Furibundo, o rei mandou matar todos os sábios da Babilônia, pelo fato de não saberem interpretar um sonho de que não tiveram sequer o relato de sua visão.
Mas Daniel, que estava no reino, em posição de destaque, pediu ao mensageiro do rei que desse um tempo para que buscassem a interpretação. Seu pedido foi atendido, e, contando o grave problema a seus três companheiros, foram orar ao Deus dos céus. Diz a Bíblia: “Então, Daniel foi para a sua casa e fez saber o caso a Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros, e pediu que orassem a Deus, “para que pedissem misericórdia ao Deus dos céus sobre este segredo, a fim de que Daniel e seus companheiros não perecessem com o resto dos sábios da Babilônia. Então, foi revelado o segredo a Daniel numa visão de noite; e Daniel louvou o Deus do céu” (Dn 2.17-19). De maneira didática, com precisão histórica, Daniel interpretou o sonho, mostrando ao rei o desenrolar dos acontecimentos de sua época e de eventos futuros. Foi o conhecimento de Deus e não humano, lógico ou natural.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 37-38.
1. Antecedentes (5.1-16)
Houve três antecedentes à primeira perseguição: 1. A cura do coxo (3.1-10); 2. A curiosidade da multidão (3.11); 3. O corajoso desafio de Pedro (3.12-26). Da mesma forma, houve três antecedentes à segunda perseguição: 1. A morte de Ananias (5.1-6); 2. A morte de Safira (5.7-11); 3. Acura dos enfermos (5.12-16). a. A Morte de Ananias (5.1-6). E difícil entender como podem ter existido hipócritas na Igreja Primitiva, tão pouco tempo após o Pentecostes. E é difícil ver por que pessoas falsas e egoístas unem-se a uma igreja hoje, causando divisões e desentendimentos. Talvez, diriam os psicólogos, algumas pessoas “pequenas” pensem em “crescer” em uma congregação local e alcançar posições de liderança que nunca viriam a atingir em uma sociedade secular. Assim, elas encontram uma maneira de compensar um sentimento de inferioridade. Também deve ser dito que a igreja frequentemente oferece uma completa gama de serviços para aqueles que têm capacidades limitadas, e desta forma contribui para o desenvolvimento da personalidade.
Por outro lado, existem pessoas orgulhosas, de posses, que gostam de impressionar a igreja com métodos falsos. Ananias e Safira pertenciam a esta categoria. Eles tinham bons nomes. Ananias, o equivalente do Novo Testamento ao Hananias do Antigo Testamento, significa “aquele a quem Jeová foi gracioso”. Mas Ananias não era muito gracioso para Deus. Ele guardou para si parte do que fingiu estar dando à igreja. Safira significa “bonita”. Mas ao invés de ser uma pedra de “safira” brilhante, como sugere o seu nome, ela representa a falta de sinceridade, que é muito feia. Klausner registra o fato de que, em junho de 1923, foi desenterrado em Jerusalém um bonito ossuário que trazia o seu nome inscrito em hebraico e em grego. Ele opina que é provável que a referência seja à Safira do capítulo 5 do livro de Atos.
Barnabé tinha recebido um elogio especial pela sua generosidade para com a igreja. Ele vendera um terreno na ilha de Chipre e colocara todo o dinheiro aos pés dos apóstolos (4.36-37). Evidentemente, Ananias e Safira estavam ansiosos por receber um reconhecimento similar. Assim, venderam uma propriedade (1) — uma herdade (3) que possuíam.
Mas, diferentemente de Barnabé, eles retiveram parte do preço (2). O verbo pode ser traduzido como “defraudar, desviar”. Lake e Cadbury escrevem: “A expressão ocorre com certa frequências na prosa helenística... e sempre implica: (a) que o roubo é secreto; (b) que parte de uma quantia maior é usurpada... Deve-se observar, adicionalmente, que o verbo é mais comumente usado referindo-se à usurpação daquilo que é entregue em confiança... do que ao roubo de um indivíduo, por outrem”. Aqui é usado adequadamente neste contexto da mordomia cristã. A palavra é usada em Josué 7.1 (Septuaginta), sobre Acã, que “tomou do anátema”. E encontrada novamente no versículo 3, e no Novo Testamento somente em Tito 2.10, onde é traduzida como “defraudar”.
Guardar para si mesmos o que eles estavam ostensivamente entregando à igreja foi um ato premeditado de Ananias e Safira. O relato diz sabendo-o também sua mulher — literalmente, “a sua mulher também sabia, com” o seu marido. Por ser deliberado, o pecado era ainda mais grave.
Pedro provavelmente recebeu um discernimento especial dado pelo Espírito — embora alguns entendam que o relato não descarte a possibilidade de que ele tenha sido informado por algum indivíduo humano sobre o preço da venda da terra. De qualquer forma, ele desafiou Ananias. Por que este membro da igreja tinha permitido que Satanás entrasse no seu coração e fizesse com que ele mentisse ao Espírito Santo (3)? No versículo 4, Pedro diz: Não mentiste aos homens [ou seja, não somente aos homens] mas a Deus. Estas duas frases juntas indicam tanto a personalidade quanto a divindade do Espírito Santo.
Enquanto a terra fosse guardada, sem ser vendida, não ficava para ti? (4) E, vendida, não estava em teu poder [exousia, “autoridade”]? Estas duas perguntas confirmam o que já observamos em conexão com 2.44-45 e 4.32-35: uma comunidade universal de bens nunca foi praticada nem exigida pela Igreja Primitiva.
Quando Ananias ouviu esta revelação da sua tentativa de ludibriar, ele caiu e expirou (5). Uma única palavra em grego descreve este fato, exepsyxen — literalmente, “expirou”. A melhor tradução é “expirou”. No Novo Testamento, o verbo aparece somente aqui, no versículo 10 (sobre Safira) e em 12.23 (sobre a morte de Herodes Agripa I). Hobart diz: “A palavra ekpsychein é muito rara e parece estar quase sempre confinada aos autores médicos, e mesmo assim é raramente usada por eles”.
Os jovens (6) — lit., “os homens mais jovens” (NEB), os que estavam capacitados para aquele trabalho, em contraste com os homens mais velhos — cobriram o morto ou “envolveram-no com panos, cobrindo o seu corpo” (cf. NEB). Este é o costume no Oriente Próximo hoje — e, transportando-o para fora, o sepultaram. Era necessário que o morto fosse enterrado no mesmo dia, e também fora dos muros da cidade (exceto no caso de reis).
Este incidente mostra “O Alto Preço da Hipocrisia”. 1. O engano (1-2); 2. A descoberta (3-4); 3. A morte (5-6).
b. A Morte de Safira (5.7-11). Passadas três horas da morte tão repentina de Ananias, entrou... sua mulher (7) no principal local de reuniões da igreja — talvez o cenáculo (1.13). Ela não tinha sido informada do que acontecera com o seu marido. Pedro dirigiu-se a ela — e disse (8) — na Septuaginta e no Novo Testamento este termo frequentemente significa algo como “perguntou-lhe” (RSV). Talvez a melhor tradução seja a de Phillips: “Diga-me, você vendeu a sua terra por tanto?” A resposta dela foi: Sim, por tanto. Obviamente, a quantia mencionada nos dois casos foi a que Ananias tinha apresentado aos apóstolos. Então Pedro expôs a conspiração da fraude (9) e anunciou que aqueles que estavam acabando de retornar, tendo enterrado o seu marido, também iriam levá-la. Ela imediatamente “expirou” e os jovens (10) — uma expressão (um substantivo) diferente daquela do versículo 6, mas referindo-se ao mesmo grupo de pessoas — levaram- na para o seu sepultamento. O versículo 11 é uma ampliação da última frase do versículo
5. “E houve um grande temor em toda a igreja e em todos os que ouviram estas coisas”. Tanto a igreja quanto a comunidade ficaram atemorizadas por essa demonstração do julgamento divino.
Atos 5.10-12 O Testemunho em Jerusalém Houve muita discussão quanto ao fato de a morte de Ananias e Safira ter sido causada de forma natural ou sobrenatural. Em favor de um ato sobrenatural está Knowling, que diz: “Portanto, ele não pode ser encarado como um relato de um acontecimento ao acaso, ou o efeito de um choque súbito causado pela descoberta da culpa nas palavras de Pedro”. A maioria dos comentaristas conservadores mais velhos assume a opinião de que as duas mortes foram julgamentos divinos diretos, atos imediatos de Deus. Um pouco mais complicada é a opinião de F. F. Bruce, que normalmente é reconhecido como o estudioso do Novo Testamento mais conservador das ilhas britânicas hoje. No primeiro (1949) dos seus três comentários sobre o livro de Atos — um magnífico trabalho sobre o texto grego — ele sugere que Safira "... além da surpresa de ter sido descoberta e da condenação da culpa, sofreu o choque pela morte repentina do seu marido”.116 Em seu segundo comentário, ele diz que “o choque produzido pelo repentino senso da enormidade de tal crime foi o que causou a morte dela”. Mas no seu terceiro comentário, ele escreve: “Foi um evidente ato de julgamento”.
De qualquer forma, o ponto em que devemos insistir é que, em nenhum lugar, a narrativa afirma que Pedro matou ou amaldiçoou este casal de hipócritas. Ele predisse a morte de Safira no que poderia ser descrito como um anúncio do julgamento divino. Mas isto é tudo.
Sobre a gravidade do pecado cometido, Lumby tem a dizer o seguinte: “O pecado de Ananias e Safira mostrou desprezo por Deus, a vaidade e a ambição dos pecadores e uma total desconsideração da corrupção que eles estavam trazendo à sociedade”. Ele acrescenta: “Eles pensaram mais na exibição que estavam fazendo aos pés dos apóstolos do que no pecado perante os olhos de Deus”.
A palavra igreja (11) aparece aqui pela primeira vez no texto grego do livro de Atos.1210 histórico e o significado da palavra ecclesia já foram comentados em relação a Mateus 16.18; 18.17, os únicos lugares onde ela aparece antes deste ponto no Novo Testamento. Algumas observações adicionais serão feitas aqui. O substantivo ecclesia significa “uma assembleia reunida”. Deissmann diz: “Este nome auto-outorgado baseia-se na convicção de que Deus separou do mundo os seus ‘santos’ em Cristo, e ‘chamou-os’ ou ‘reuniu-os’ numa assembleia, que era ‘a assembleia de Deus’... porque Deus era aquele que os reunia”.
A palavra foi usada pela primeira vez em relação a uma assembleia dos cidadãos livres de uma cidade grega (cf. 19.32,39,41), porque eles tinham sido convocados (“chamados para fora”) por um arauto. Schmidt diz: “Naturalmente, isto sugere que, na Bíblia, a referência é a Deus em Cristo citando ou convocando os homens do mundo”, mas ele ainda observa: “Foi a Septuaginta que realmente deu a palavra ecclesia ao Novo Testamento; depois disso a palavra adquiriu o seu significado específico”. F. F. Bruce escreve: “Na LXX, ela é usada com referência à ‘congregação’ de Israel, a nação em seu aspecto teocrático, organizada como uma comunidade religiosa”. Macgregor comenta: “O uso da palavra pelos cristãos certamente implica a afirmação de que eles, e não os judeus, eram o verdadeiro ‘povo de Deus”’.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 7. pag. 238-240.
1. Desmascarado o pecado. O Espírito Santo, habitando no meio da Igreja, detecta todo o pecado. Ananias es- colheu um lugar muito perigoso e uma época desfavorável à pratica da hipocrisia. O divino Espírito de pureza, sinceridade e verdade tinha sido derramado em abundância. Portanto, era imediatamente reconhecido o espírito da falsidade e hipocrisia que, em tais circunstâncias, era ainda mais imperdoável. Num ambiente de tanta espiritualidade, havia pessoas dispostas à hipocrisia. O que aconteceria, então, em tempos mais difíceis se não condenassem este pecado? Pedro, mediante o dom do discernimento de espíritos, viu o que havia em Ananias. Ele não pertencia àquele ambiente espiritual. Pela inspiração divina, Pedro disse: “Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus”.
Pearlman. Myer. Atos: e a Igreja se Fez Missões. Editora CPAD. pag. 61.
Lucas acabara de narrar um exemplo de verdadeiro e
caridoso altruísmo ocorrido na conduta de Barnabé de Chipre. Infelizmente, contudo, a apreciação e o louvor que se dá a pessoas que mostraram verdadeira benevolência, leva muitas vezes hipócritas a fazer uma simulação e ostentação de grande amor, para que também se lhes diga palavras que soam agradáveis aos seus comichentos ouvidos. No paraíso da primeira igreja entrou a serpente do egoísmo e da corrupção. Lucas não apresenta qualquer ponderação nem encobre com moral, mas se atem à sua prática de simplesmente narrar os fatos da história. Havia certo homem, um membro da congregação de Jerusalém, de nome Ananias (“a quem o Javé tem sido gracioso”). O nome de sua mulher, a qual também pertencia aos que professavam o cristianismo, foi Safira (“a bela”). A estes dois pertencia uma posse, alguma propriedade, muito provavelmente um pedaço próspero de bens de raiz de bom valor. Pois bem, Ananias e bem assim sua mulher estiveram desejosos para serem considerados benfeitores de seus irmãos mais pobres, e por isso, provavelmente com algum alarde, venderam sua propriedade. Mas o interesse dos dois foi só uma simulação, e de modo nenhum se preocupavam com a aquiescência de Deus. Separaram, apropriaram-se para o seu próprio benefício, uma certa parte do produto de sua venda. É afirmado expressamente que Safira esteve plenamente ciente deste arranjo, que tudo foi feito com o total conhecimento e consentimento dela; era tão culpada como seu esposo. “Se tentarmos analisar o motivo do casal culpado, descobriremos que o seu ato foi um compromisso entre dois desejos impuros. O desejo de ter o louvor das pessoas, como foi concedido a Barnabé e outros mais, estimulou a venda e o dom, enquanto o amor do dinheiro, que ainda os prendia fortemente, estimulou a retenção duma parte, enquanto pretendiam dar o total.”15) Tendo eles decidido plenamente o curso, Ananias pegou a soma do dinheiro que haviam decidido necessário para proclamar sua fama como ministradores de caridade, trouxe-a para a sala de reunião dos apóstolos e da congregação, e a depositou no lugar costumeiro. O ato que o casal culposo estava cometendo não foi simplesmente um pecado seu como indivíduos, mas colocou a igreja inteira em grande perigo. Pois se outros soubessem deste subterfúgio, poderiam atrever-se a praticar a mesma hipocrisia. Mas, se a integridade e a verdade desaparecessem da congregação, a igreja de Cristo perderia seus ornamentos mais luminosos, e uma hipocrisia farisaica substituiria a santidade cristã. “Por isso, foi de importância vital para a igreja que a introdução dum mal de tal magnitude se depararia com uma resistência imediata e eficiente.” De modo muito apropriado, Pedro fez a Ananias a incisiva pergunta: Como acontece que Satanás encheu teu coração para mentires ao Espírito Santo? Tal como o diabo é o autor de cada pecado e transgressão, assim também aqui ele deu ao coração de Ananias a ideia da perversidade e do engano. Pois pretendendo um benefício que jamais sentira, o homem mentira, não tanto aos homens, a Pedro, aos apóstolos e à congregação, mas ao Espírito Santo, que falava e agia através dos apóstolos, que habitavam e se moviam na congregação cristã. Ele tentara ao Espírito de Deus, que prova corações e mentes, que, como o verdadeiro Deus, conhece os pensamentos mais íntimos do coração de cada homem. E Pedro, muito acertadamente, lembrou Ananias que a propriedade era sua para que a preservasse, caso assim o quisesse; não havia na congregação alguma espécie de comunismo obrigatório. E, se tivesse optado vender sua propriedade e conservar todo o dinheiro, também isso estava em seu poder. Também teria estado estritamente seu problema se tivesse dito com franqueza que trazia somente uma parte do produto, porque ele mesmo queria usar o resto.  Mas seu coração se tornara obstinado em conseguir crédito por caridade e benevolência que não possuía. “O ato de vender sua propriedade com o ostensivo propósito de trazê-la no depósito comum não lhes deixava qualquer controle ou posse adicional sobre a propriedade; e sua alegação que o dinheiro que trouxeram era o total do produto da venda foi em si mesma uma mentira inequívoca, e uma tentativa de enganar o Espírito Santo, sob cuja influência pretendiam agir. Nisto se constituiu a iniquidade de seu pecado.”16) Notemos: O fato que Satanás enchera o coração de Ananias, e o fato que ele concebera esta coisa em seu próprio coração, são colocados no mesmo nível. O fato que Ananias atendera a persuasão e tentação do diabo lançou sobre ele a responsabilidade, a culpa. O mesmo é verdade de cada pecador em cada pecado que comete, em especial se é feito com a mesma intenção deliberada como neste caso.
Marquemos também: Ananias, quando mentiu ao Espírito Santo, mentira ao próprio Deus, pois o Espírito Santo é verdadeiro Deus com o Pai e com o Filho. Como qualquer um que é culpado desses pecados, cedo ou tarde e para sua própria tristeza, descobrirá, engano e hipocrisia de toda e qualquer forma estão patentes diante de sua onisciência. O pecado de  Ananias recebeu imediatamente seu castigo, e uma punição que tem o objetivo de ser uma advertência para todos os tempos. Pois, logo que Pedro findara sua severa repreensão, logo que o homem culpado ouvira estas palavras, ele tombou ao chão e expirou sua alma; morreu imediatamente, atingido que fora pela ira do Espírito Santo. Desta forma a execução foi, sem dúvida, um ato de Deus para que grande temor caísse sobre todos quantos viram a penalidade e ouviram as palavras que a acompanharam. Quando Deus falar, então o coração do homem corrupto se enche de espanto.
E os jovens da congregação, não alguma classe ou corpo separado, mas os membros mais jovens da plateia, se ergueram de seus lugares. Não houve tempo nem para alguma lamentação ou para uma detalhada cerimônia fúnebre, caso o povo presente tivesse tido este desejo; não houve choro nem delonga. Os jovens, envolvendo o homem morto em sua própria capa, carregaram-no para fora e o sepultaram. Tal é o fim daqueles que abusam da graça do Senhor. Não vos enganeis, de Deus não se zomba.
Se, por ordem de Pedro, a informação sobre a morte de seu esposo fora ocultada de Safira, ou se o espanto do incidente que haviam testemunhado deteve os membros da difusão da história, não tem maior importância. Depois dum intervalo de cerca de três horas, Safira, que pode ter vindo preocupada pela longa ausência de Ananias, veio ao lugar de reuniões da congregação. Ela esteve plenamente preparada para guardar o acordo que fizera com seu esposo sobre o dinheiro, não sabendo que, horas antes, o destino dele fora selado. Por isso, quando Pedro lhe fez a pergunta se haviam vendido sua propriedade por exatamente aquela soma que ainda estava deitada ali, ela, sem hesitar, replicou: Sim, por exatamente tanto.
A pergunta de Pedro fora um último apelo à consciência dela, uma última admoestação para que contasse a verdade e desse toda glória a Deus. Ela, porém, desprezou a admoestação, perseverou em seu pecado, e apoiou a mentira vil de seu esposo. Foi uma persistência voluntária em pecado, em hipocrisia. Notemos a intensidade dramática da narrativa. Pedro, agora, em nome de Deus, como um profeta do Senhor, pronunciou a sentença sobre ela. Por qual razão, para que fim, concordastes entre vós para tentar o Espírito de Deus, para ver se fosse possível enganar a ele bem como à sua igreja? Os pés daqueles que levaram teu esposo estão junto à porta, e hão de levar a ti. E logo que Pedro proferira o juízo do Senhor, Safira tombou ao chão, exatamente como acontecera com seu esposo antes dela, e também deu seu último suspiro. Entrando os jovens, encontraram-na morta, e a sepultaram ao lado de seu esposo, para estar com ele na morte como estivera na vida. Esta foi uma sentença terrível, mas juta, que o Senhor aqui executou no meio da primeira congregação. Deus, com este ato, declarou para sua igreja em todos os tempos, que os hipócritas são aos seus olhos uma abominação. Em nossos dias acontece raramente que o Senhor torna conhecido seu poder vingativo na mesma maneira, como aqui, mas em nossos dias sua mão não se encurtou quando sua honra está em jogo. Notemos: Há uma repetição do pecado de Ananias e Safira na vida moderna da igreja, também em relação com à tesouraria do Senhor, a saber, quando membros da congregação fazem afirmações exageradas sobre as quantias que dão ou reduzem sua renda, para conseguir que suas contribuição ao reino se destaque sobre a de outros. O efeito desta história, ao contrário, devia ser, como aconteceu naqueles dias, que sobrevenha um grande temor ao povo, tanto sobre os que são membros da igreja como sobre aqueles de fora, mas que ouvem desta manifestação do poder de Deus. O mesmo Deus que julgou a Ananias e Safira, a seu modo e em seu tempo determinado, não falhará para visitar os pecados daqueles que seguem o exemplo destes dois hipócritas.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Volume 1. Editora Concordia Publishing House.
III - DISCERNIMENTO DOS ESPÍRITOS
1. O dom de discernir os espíritos.
Mais adiante, na epístola em apreço, encontramos o “dom de discernir os espíritos” (1 Co 12.10b). Refere-se à capacidade sobrenatural, concedida por Deus, com a finalidade de identificarem-se as origens e natureza das manifestações espirituais. Tais manifestações podem ter basicamente, três origens: De Deus, do homem (da carne) ou do maligno. Em determinadas ocasiões, uma manifestação espiritual pode apresentar-se, no meio da congregação, ou diante de um servo de Deus, com aparência de genuína, e ser uma mistificação diabólica, ou artimanha de origem humana. Pelo entendimento e pela lógica humana, nem sempre é possível avaliar a origem das manifestações espirituais. Mas, com o dom de discernir os espíritos o servo de Deus ou a igreja não será enganada.
Segundo Boyd, “a palavra ‘discernir’ (grego “diakrisis”) julgado através de, distinguir, e tem o sentido de penetrar por baixo da superfície, desmascarando e descobrindo a verdadeira fonte dos motivos e da animação”. Através desse dom, em suas diversas manifestações, a igreja pode detectar a presença de demônios, no meio da comunidade ou congregação, a fim de expulsá-los, no nome de Jesus. Na ilha de Pafos, Paulo defrontou-se com uma ação diabólica declarada com o objetivo de impedir a pregação do evangelho ali, e a conversão de uma autoridade pública. Mas o apóstolo, cheio do Espírito Santo, percebeu as artimanhas do Adversário, e, na autoridade de Deus, declarou que o opositor do evangelho ficaria cego por algum tempo, o que de pronto aconteceu. Diante de tamanho sinal, “Então, o procônsul, vendo o que havia acontecido, creu, maravilhado da doutrina do Senhor” (At 13.12).
Myer Pearlman diz que se pode saber a diferença entre uma manifestação espiritual legítima e uma falsa manifestação, através desse dom. “Pelo dom de discernimento que dá capacidade ao possuidor para determinar se um profeta está falando, ou não, pelo Espírito de Deus. Esse dom capacita o possuidor para ‘enxergar’ todas as aparências exteriores e conhecer a verdadeira natureza duma inspiração.” A manifestação espiritual precisa passar por duas provas de sua legitimidade: A prova doutrinária e a prova prática.
A prova doutrinária pode basear-se no ensino do apóstolo João, que diz:
“Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que está já no mundo. Filhinhos sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo. Do mundo são; por isso, falam do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus ouve-nos; aquele que não é de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos nós o espírito da verdade e o espírito do erro.” (1 Jo 4.1-6)
A prova prática tem base no ensino de Jesus, quando advertiu acerca dos falsos profetas, que podem ser conhecidos pelos “seus frutos”, ou seja, pelo seu caráter, demonstrado em seu testemunho, na vida prática: “Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura, colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.15-20).
Jesus tinha esse dom. Quando seus adversários queriam apanhá-lo em alguma palavra ou alguma falta, Ele já sabia o que se passava no interior das pessoas. “Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia e não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem” (Jo 2.24, 25). O apóstolo Pedro teve a percepção de que Ananias estava mentindo, quando sonegou parte da oferta que prometera a Deus, por esse dom especial de discernir os espíritos (At 5.3).
No ministério de Paulo, temos o exemplo notável do uso desse dom (At 16.12-18). Ao lado de seu companheiro, Silas, chegou à cidade de Filipos, na Macedônia, para onde se dirigiram por orientação do Espírito Santo. Após um período de oração e evangelização pessoal, foi acolhido por Lídia, a vendedora de púrpura, que aceitou a Cristo e foi batizada com toda a sua família. Era patente o sucesso da missão dos apóstolos naquele lugar. O Adversário não ficaria satisfeito de forma alguma e resolveu atacar de uma forma muito sutil, usando uma jovem para tecer um dos mais elevados elogios que um pregador poderia receber publicamente.
Ela era bem conhecida na cidade, pois era usada por comerciantes inescrupulosos que obtinham grande lucro, usando-a em seu proveito, pois possuía “espírito de adivinhação”. Quando os dois apóstolos saíram para a oração, a jovem os seguiu, dizendo em alta voz: “Estes homens, que nos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo” (At 16.17). E fez essa declaração elogiosa, durante vários dias. Pregadores são seres humanos, sujeitos às falhas próprias de sua natureza. Elogios em geral sempre fazem bem ao ego, à parte emocional, ainda mais, quando o elogio é verdadeiro, como era o que a moça propagava acerca dos dois servos de Deus.
Jamais alguém poderia imaginar que aquele elogio não seria de origem legítima. Podemos entender até, que, a princípio, os apóstolos devem ter ficado pensativos com aquela declaração. De fato, eles eram servos do Deus Altíssimo! O que haveria de errado ou repreensível ouvir tal elogio? Não teria a jovem percebido que eles eram cristãos autênticos? Acontece que Paulo e Silas eram homens de oração, tinham comunhão com o Espírito Santo. Depois de alguns dias, ouvindo aquela declaração, Paulo discerniu a sua origem.
Não era nada da parte de Deus. A afirmação era verdadeira, mas a origem e a intenção eram malignas. O Diabo queria iludir os apóstolos, com bajulação e lisonja, para que o demônio continuasse livre para agir, após a saída dos servos do Senhor. Assim, “Paulo, perturbado, voltou-se e disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, te mando que saias dela. E, na mesma hora, saiu” (At 16.18).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 39-42.
Como podemos conhecer um verdadeiro cristão (I Jo 4.1-21)
A PRINCIPAL TESE DO APÓSTOLO JOÃO nessa epístola é provar que temos a vida eterna (5.13). Ao longo da carta, João trabalha com três provas insofismáveis que identificam um verdadeiro cristão: a prova doutrinária, a social e a moral. No texto em apreço, o apóstolo retorna à prova doutrinária e social, ou seja, à fé e ao amor.
Um verdadeiro cristão é conhecido por aquilo que ele crê (4.1-6)
A igreja na Ásia Menor, no final do primeiro século, estava sendo atacada pelas heresias dos falsos mestres. O gnosticismo incipiente estava sendo proposto como alternativa à fé cristã. As verdades do cristianismo estavam sendo atacadas desde os seus alicerces. Os mestres gnósticos negavam tanto a divindade quanto a humanidade de Cristo. Eles pregavam um falso cristo, um falso evangelho, uma falsa fé e um falso amor.
E neste contexto que João exorta a igreja para não dar crédito a qualquer espírito. Em vez de ter uma fé ingênua, os crentes deveriam provar os espíritos se de fato procediam de Deus. A negação da encarnação de Cristo era uma evidência insofismável de que o espírito que estava por trás destes pregadores era o espírito do anticristo e não o Espírito de Deus. Algumas verdades devem ser aqui observadas:
Em primeiro lugar, um alerta solene (4.1). “Amados, não deis crédito a qualquer espírito...”. A palavra “espírito” neste versículo equivale a ensinamento.344 Os falsos mestres estavam tentando fazer uma combinação da filosofia grega com o cristianismo. A proposta deles era um concubinato espúrio entre o conhecimento esotérico e a fé cristã. A heresia nem sempre vem com uma negação ostensiva e integral da verdade. Ela propõe uma parceria. Ela vem com uma linguagem ecumênica. Ela está disposta a sentar-se à mesa para dialogar. A igreja de Cristo, porém, não pode ser crédula. Ela não pode ser acrítica. Ela não pode dar crédito àqueles que falam em nome de Deus sem trazer integralmente a doutrina de Deus.
John Stott diz que o tempo presente de “não deis crédito a qualquer espírito” indica que os leitores de João eram propensos a aceitar sem crítica todo ensino que parecesse dado por inspiração. Era preciso mostrar-lhes que identificar o sobrenatural com o divino é um erro perigoso.
Em segundo lugar, uma ordem expressa (4.1b). “[...] antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora”. João dá uma ordem e em seguida oferece a justificativa. Sua ordem tem uma razão de ser. Ela não vem num vácuo. Porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora, os crentes precisam provar os espíritos, para saber se de fato eles procedem de Deus.
Werner de Boor está correto quando diz que a expressão “têm saído” remete ao fato de que os falsos mestres destacavam enfaticamente seu “envio”, que os impelia atuar mundo afora. O aspecto sedutor desses homens era o fato de se apresentarem com essa consciência de envio, demandando fé e obediência.
Augustus Nicodemus diz que em vez de uma atitude de credulidade simplista, os crentes deveriam ter uma atitude crítica para com as manifestações alegadamente provenientes de Deus. “Provar” significa, à semelhança do metalúrgico que testa a integridade do metal por meio do fogo, testar a mensagem com a verdade apostólica, para saber qual o espírito que está por trás dela.
Os falsos mestres fizeram do mundo suas salas de aula. Desejavam conquistar a audiência de muitos cristãos. Simon Kistemaker fala de duas esferas espirituais neste mundo: uma é do domínio do Espírito Santo; a outra é do domínio do diabo.
O Espírito Santo habita nos filhos de Deus (3.24), mas o espírito do diabo vive nos falsos profetas, que falam em seu nome. Satanás imita o fenômeno da iluminação divina inspirando falsos profetas e mestres, com o objetivo de espalhar o erro religioso e afastar as pessoas da verdade (lTm 4.1,2; 2Pe 2.1).
Acolher todo pregador que fala em nome de Deus e ouvir de boa mente toda pregação como se fosse verdadeira
são uma atitude insensata. Precisamos ser crentes bereanos. Precisamos julgar os profetas. Precisamos passar tudo o que ouvimos pelo crivo da Palavra de Deus. Concordo com John Stott quando diz que não se deve confundir a fé cristã com credulidade. A fé verdadeira examina o seu objeto antes de depositar confiança nele.
Jesus preveniu os seus discípulos acerca dos falsos profetas (Mt 7.15: Mc 13.22,23). De igual forma o fizeram Paulo (At 20.28-30) e Pedro (2 Pe 2.1). Ainda hoje há muitas vozes clamando por nossa atenção. Somos um canteiro fértil onde têm florescido e prosperado muitas seitas, ganhando amplo apoio popular.
Há uma urgente necessidade de discernimento entre os cristãos. Nossa geração perdeu o entusiasmo pela defesa da verdade. Mais assustador do que a pregação herética dos falsos profetas é o silêncio dos profetas de Deus. Assistimos, estarrecidos, a uma perigosa tolerância para com as falsas doutrinas.
LOPES. Hernandes Dias. 1, 2, 3 JOÃO Como ter garantia da salvação. Editora Hagnos. pag. 185-188.
Deus nos concedeu o Espírito. Nessa posse do Espírito reconhecemos que Deus permanece em vós. Era o que João havia atestado às igrejas. Precisamos nos conscientizar de quanto isso era a convicção fundamental do primeiro cristianismo e que importância tinha a posse do Espírito para todo seu pensar e viver. Atualmente deveríamos revisitar pelo menos passagens tão centrais como 1 Co 2.6-16; Rm 8.1-10; Gl 5.16-22; 1 Co 12-14, não desconsiderando que também para Paulo o Espírito Santo constitui o “selo” da verdadeira condição cristã: 2 Co 1.22; Ef 1.13s; Gl 3.2. É necessário que fique bem claro para nós essa convicção geral do cristianismo primitivo, porque ela se tornou estranha para nós. Em geral, os membros de nossas igrejas dificilmente têm algo a dizer acerca do agir do Espírito. Quando lermos as passagens referidas veremos que no primeiro cristianismo isso era completamente diferente. O Espírito de Deus e sua atuação eram tão conhecidos das igrejas que o apóstolo João pode se limitar a apontar para eles com uma frase muito breve.
1 É comovente o fato de que o novo cristianismo precisou experimentar que não havia nesse caso qualquer “segurança” absoluta. João acrescenta imediatamente uma exortação à frase a respeito da certificação da filiação divina pela dádiva do Espírito Santo: “Amados, não a qualquer espírito deis crédito, mas examinai os espíritos, se são de Deus, porque muitos pseudoprofetas partiram para o mundo.” Inicialmente, nossa atenção pode ser despertada pelo plural “espíritos”. Contudo ele ocorre também em Paulo quando os coríntios são chamados de “zelosos de pneumata”, zelosos de “espíritos” em 1Co 14.12, quando ele fala dos “espíritos dos profetas” em 1Co 14.32. Na formulação, Paulo tem em mente as diferentes realizações do Espírito e a ação do Espírito em muitas pessoas, falando por isso do Espírito no plural. Mas igualmente existem “espíritos” de uma categoria muito diferente, que nos evangelhos são classificados como espíritos “imundos” ou “maus” (Mt 8.16; 12.43; Lc 6.18; 7.21; 8.2).
Já nos encontramos, assim, diante da situação que afligia as igrejas. Existem palavras cheias de ardor e poder de fascínio, e essas palavras também são “atestadas” por meio de feitos e efeitos admiráveis, que têm aparência de poder de Deus e apesar disso não “são de Deus”. Especialmente o falar profético demandava da igreja audição e fé, porque afiançava ser infundido por Deus e constituir palavra de Deus. Contudo existem “pseudoprofetas”, i. é, pessoas que parecem ser profetas, falam “profeticamente” e apesar disso na verdade não são “profetas”, ou seja, não são pessoas incumbidas por Deus e plenas do Espírito de Deus. Isso é um fato que realmente podia abalar e confundir uma igreja! Se não era mais possível “acreditar” simplesmente em “qualquer espírito”, nem aceitar como verdade norteadora qualquer palavra dita em nome de Deus, como então obter certeza?
Na mais antiga carta de Paulo que nos foi preservada há a solicitação de não “desprezar” as “profecias”, os “vaticínios”, e sim “examiná-los” (1Ts 5.19-21; de forma análoga também em 1Co 14.29). A igreja precisa e pode fazê-lo porque, como igreja crente em Jesus, possui pessoalmente o Espírito e por isso não está indefesa diante daqueles que alegam falar no Espírito. No caso de Paulo, porém, a situação ainda se limita à análise da palavra dos profetas, e não sua pessoa nem seu caráter profético em si. Paulo considera a possibilidade de que o profeta se equivoque, que ele pense falar uma palavra de Deus enquanto na realidade enuncia apenas pensamentos próprios. A princípio o apóstolo Paulo ainda não cogita do surgimento de “pseudoprofetas” propriamente ditos. Na verdade ele conhece o dom especial do discernimento dos espíritos (1Co 12.10). Aparentemente trata-se da mesma questão abordada por João: trata-se da pessoa e não apenas da palavra dos que falam “no Espírito”. Nesse caso surge a possibilidade – já caracterizada no AT – de que um profeta não apenas misture ou confunda coisas próprias e divinas, mas que nem mesmo seja convocado, incumbido e plenificado por Deus, tendo recebido sua palavra, seu ardor, seu poder de eficácia de uma fonte completamente diferente, do “mundo” (v. 5!) e, em decorrência, também do príncipe do mundo, do diabo. É um “pseudoprofeta” na raiz de seu ser e de seu envio.
João tem a experiência de que existem “muitos” desses pseudoprofetas que “têm saído para o mundo”. A expressão “têm saído” remete ao fato de que os falsos mestres destacavam enfaticamente seu “envio” que os impelia para atuar mundo afora. O aspecto sedutor desses homens era o fato de se apresentarem com essa consciência de envio, demandando “fé” e obediência. Talvez utilizassem a fórmula introdutória dos profetas do AT “Assim diz o Senhor”, ou rotulassem seus discursos e ditos como inspirados pelo Espírito, e talvez até mesmo se credenciassem “por meio de sinais e prodígios”. Como se torna difícil, então, “examinar”! Será que nesse caso de fato podemos questionar e examinar? Não cumpre simplesmente curvar-se e crer? Da maneira mais clara possível o apóstolo João afirma que não, expressamente desafiando as igrejas a não crer em qualquer espírito, mas “examinar os espíritos se são vindos de Deus”.
Werner de Boor. Comentário Esperança I João. Editora Evangélica Esperança.
2. As fontes das manifestações espirituais.
AS OBRAS DE DEUS
Outro aspecto da doutrina de Deus que requer a nossa atenção é o das suas obras. Este aspecto pode ser dividido em: 1) seus decretos 2) sua providência e 3) conservação. Os decretos divinos são o seu plano eterno que, em virtude de suas características, faz parte de um só plano, que é imutável e eterno (Ef 3.11; Tg 1.17). São independentes e não podem ser condicionados de nenhuma maneira. (SI 135.6). Têm a ver com as ações de Deus, e não com a sua natureza (Rm 3.26). Dentro desses decretos, há as ações praticadas por Deus, pelas quais tem Ele responsabilidade soberana; e também as ações das quais Ele, embora permita que aconteçam, não é responsável.41 Baseado nessa distinção, torna-se possível concluir que Deus nem é o autor do mal (embora seja o criador de todas criaturas subalternas), nem é a causa derradeira do pecado.
Além disso, Deus está sustentando ativamente o mundo que criou. Na conservação, Ele sustenta a criação através de leis estabelecidas (At 17.25). Na providência, Ele controla todas as coisas existentes no Universo, com o propósito de levar a efeito seu plano sábio e amoroso, de forma que não venha a interferir na liberdades das suas criaturas (Gn 20.6; 50.20; Jó 1.12; Rm 1.24).
Se reconhecermos tudo isso, e se nos deleitarmos no Senhor, meditando na sua Palavra de dia e de noite, receberemos todas as bênçãos divinas, pois entenderemos quem Ele é, como adorá-lo e de que maneira poderemos servi-lo.
Os salmos são de grande ajuda em nossa adoração. Muitos começam com a chamada tradicional hebraica à adoração: Aleluia! que significa: "louvem ao Senhor!" (ver SI 106; 111; 112; 113; 135; 146; 147; 148; 149; 150). Atualmente, esse termo é utilizado como declaração de exaltação. Originalmente, porém, era uma conclamação à adoração divina. Os salmos que começam com essa chamada, usualmente fornecem informações a respeito de Deus, focalizando nEle toda a adoração, e revelam aspectos da sua grandeza que são dignos do louvor.
Servir a Deus começa com o orar em seu nome. Isto implica em reconhecer como é distinta a sua natureza conforme revelada nos seus diversos nomes. Ele se revela a nós a fim de que o glorifiquemos e cumpramos a sua vontade.
HORTON. Staleym. Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. Editora CPAD.
HOMEM CARNAL
Paulo divide em três claras distinções os tipos de homens: 1. o homem carnal (I Cor. 3:1); 2. o homem espiritual (I Cor. 3:1); e 3. o homem natural (I Cor. 2:14). Apresento artigos separados sobre cada um desses tipos, pelo que neste artigo, não entro em detalhes, exceto no caso do homem carnal, que é o assunto que tenho em mãos. O homem natural, por sua vez, é o homem que ainda não foi regenerado. Esse é o homem que pertence à antiga natureza terrena. Ele é natural, e não espiritual. É o que permanece em seu estado natural, antes das operações do Espirito. O homem espiritual é aquele que já foi regenerado e que está vivendo de acordo com os principias ditados pelo Espírito, ou seja, vitorioso sobre os antigos impulsos carnais. Ele obedece à mente do Espirito e anda em novidade de vida.
O homem carnal é uma espécie de meio-termo entre os dois primeiros. Realmente, converteu-se, pelo que entrou nos primeiros estágios da regeneração; mas continua sendo derrotado por seus próprios antigos impulsos. Esse é o homem que se encontra em estado de tensão e conflito espirituais, conforme se vê no sétimo capitulo de Romanos. Faz coisas que, realmente, não aprova; mas não possui a energia espiritual necessária para obter a vitória sobre suas debilidades e vicias. Portanto, tal crente mostra ser uma contradição, pois aprova e é afetado pelas realidades espirituais, mas é incapaz de subir acima do nível da carnalidade.
Em I Cor. 3:1, Paulo chamou os crentes de Corinto de carnais, ou seja, homens da carne, crentes controlados pela carne. É possível interpretar que esse adjetivo significa que as pessoas assim qualificadas são inteiramente destituídas do Espirito de Deus (se considerarmos tão-somente o sentido verbal), mas o contexto geral não nos permite tirar essa conclusão. Mui facilmente, entretanto, Paulo poderia estar querendo dar a entender que toda a sua suposta e apregoada espiritualidade, no exercício dos dons espirituais (que os crentes coríntios exibiam), era algo falso, fraudulento; porquanto, não dispor das qualidades morais de Cristo.. e ao mesmo tempo, ser supostamente residência do Espirito de Deus, ao ponto de realizar feitos miraculosos, é uma aberrante contradição, é uma impossibilidade moral.
ELEMENTO. DA CARNALIDADE:
1. Embora certas pessoas se apresentem como espirituais, na verdade andam vendidas ao pecado, sendo escravas do principio do pecado (Rom. 7:14).
2. Tal pessoa é dotada de uma mente carnal, que está em conflito com Deus (Rom. 8:7).
3. O homem carnal vive como se não fosse regenerado (I Cor. 3:3).
4. O homem carnal é faccioso (I Cor. 3:4).
5. O homem carnal tem vicias na sua vida, e ignora o cultivo das virtudes espirituais (Gâl. 5:19 ss).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 3. Editora Hagnos. pag. 150-151.
DEMÔNIO, DEMONOLOGIA (Diabo, Satanás)
Duas coisas são indiscutíveis sobre esse assunto: primeira, nem os hebreus e nem os cristãos criaram as elaboradas demonologias e angelologias que, finalmente, vieram a ser aceitas. Segunda, apesar das elaborações, exageros e elementos místicos que entraram no pensamento hebreu e cristão, no tocante aos demônios, essas noções são corretas quanto à temível realidade dos demônios e sua capacidade de influenciar e de apossar-se das pessoas. Que os espíritos malignos existem e exercem poder sobre os homens tem sido uma ideia universalmente aceita. Essa ideia permeia todos os níveis da sociedade, podendo ser encontrada entre as tribos mais primitivas e as civilizações mais avançadas. Essa universalidade fala em favor da veracidade dessas noções, sem importar os exageros e os elementos mitológicos criados em torno do assunto. Os demônios são vistos como seres poderosos, sobre-humanos, pertencentes a vários níveis de seres. Alguns são tidos como espíritos humanos desencarnados, negativos, que ainda não chegaram ao seu destino, e que continuam tentando viver suas vidas nas vidas de outras pessoas, através de influência ou de possessão. Outras classes incluem os elementares, que são menos poderosos do que os espíritos humanos, como se fossem uma espécie de símios do mundo espiritual. Porém, até mesmo esses podem ser um incômodo. Então, se subirmos um pouco mais na escala, encontraremos os anjos caldos, os quais também pertencem a diversas categorias. Após o século V D.C., essa tornou-se a identificação mais comum dos demônios na teologia cristã, embora outras identificações não tenham sido abandonadas. Os demônios mais perigosos são aqueles que pertencem a elevadas ordens de seres espirituais; e a conexão com os anjos caldos sem dúvida está correta, pelo menos em parte.
No pensamento hebreu e cristão, tomou-se usual considerar maus todos os demônios. Esses são OS espíritos que mais chamam a atenção, porquanto são perturbadores. Os cristãos primitivos levavam muito a sério a existência e o poder dos demônios, conforme é demonstrado pela frequente menção a eles, no Novo Testamento. Males mentais e corporais eram atribuídos às atividades de espíritos invisíveis, o que ocorre na história da maioria das culturas. Jesus dava ordens aos maus espíritos, e eles lhe eram obedientes (Mar. 1:27). Eles reconheciam a autoridade espiritual dele, e não ousavam fazer-lhe oposição. Os discípulos de Jesus deram continuação ao seu ministério de curas, no tocante ao corpo e à mente, e se utilizavam da autoridade do nome de Jesus quando tratavam com os espíritos malignos (Atos 16:18; Mar. 9:38; Luc. 10:17). As culturas com as quais o cristianismo foi entrando em contato, à medida que se propagava, já tinham suas respectivas demonologias, havendo muitas interferências demoníacas, pelo que nada de novo foi introduzido nessa área, excetuando o fato de que há aquele Nome que é capaz de libertar, com o qual as pessoas das culturas pagãs não estavam acostumadas.
Entre os judeus era corrente a noção que a idolatria pagã era influenciada pelos demônios, e que, algumas vezes, os demônios são o próprio alvo da adoração idólatra. Paulo compartilhava dessa crença, pois, apesar de chamar um ídolo de coisa vil, em certas ocasiões (ver 1 Cor. 8:4), em outras oportunidades ele afirmava que os demônios eram objetos da adoração idólatra do paganismo (I Cor. 10:20). Por volta do século IH D.C. já havia surgido uma espécie de classe de exorcistas oficiais no cristianismo, usualmente constituída por ministros, e as pessoas apelavam para eles, a fim de serem ajudadas contra os demônios.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 48.
Satanás é o principal poder maligno, e a Bíblia apresenta-o como uma espécie de comandante das forças da malignidade. O poder de Satanás é limitado por Deus (Jô 1:12.; 2:6), apesar do que ele é muito poderoso, encabeçando um vasto exército do mal (ver Efé, 2:2; 6:12). Porém, sua queda final é certa (Luc. 10:18). Ver os artigos chamados Satanás e Diabo.
Anjos caldos, poderes e demônios fazem parte do reino das trevas, reino esse que tem o poder de influenciar os homens e de votá-los à perdição. O trecho de 11Ped. 2:11 refere-se ao poder desses seres malignos. O mundo inteiro está debaixo do poder deles, excetuando-se somente os lavados no sangue de Cristo (ver I João 5:19). Esses seres são numerosíssimos (Efé. 6: 12). Não obstante, esses poderes não têm forças para separar-nos do amor de Cristo (ver Rom. 8:38). A existência desses seres provoca um conflito de dimensões cósmicas (ver Efé. 6: 12). O reino das trevas é contrastado com o reino da luz (Col. 1:13). O dualismo (vide) ensina que o reino da luz e o reino das trevas estão em luta um contra o outro, e que há esperança que esses dois reinos, finalmente, separar-se-ão inteiramente. Porém. dentro desse sistema, não há qualquer expectação de que o reino das trevas possa vir a ser derrotado. A Bíblia Sagrada, por outro lado, é dualista somente em parte. Ela projeta a vitória do mundo da luz sobre o mundo das trevas, e não apenas uma separação final entre esses dois reinos. Os últimos capitulas do livro de Apocalipse refletem essa certeza. O trecho de Cal. 2: 15 refere-se ao triunfo garantido por Cristo sobre as forças do mal. segundo também se aprende em Rom. 8:38 ss.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 5. Editora Hagnos. pag. 311.
3. Discernindo as manifestações espirituais.
Temos aqui uma advertência contra os falsos profetas.
Devemos prestar atenção para não sermos enganados ou nos deixar impressionar por eles. Profetas são aqueles que preveem as coisas que vão acontecer. Existem alguns, mencionados no Antigo Testamento, que tinham a pretensão de fazer previsões, sem dar nenhuma garantia, e os acontecimentos desmentiram as suas pretensões; dentre eles, estão Zedequias (1 Rs 22.11) e um outro Zedequias (Jr 29.21). Os profetas também ensinavam ao povo o seu dever, de modo que os falsos profetas mencionados aqui também eram falsos mestres. Cristo, que além de Messias era um Profeta e um Mestre enviado por Deus com a missão de enviar outros mestres que com Ele aprendessem, está nos advertindo a prestar atenção nos impostores. Ao invés de terem a pretensão de curar as almas com tuna doutrina saudável, eles não fazem mais do que envenená-las.
Os falsos mestres e os falsos profetas:
1. São todos aqueles que afirmam ter certas incumbências, não as tendo. Aqueles que fingem que possuem garantia e orientação imediatas, supostamente enviadas por Deus e divinamente inspiradas; eles estão mentindo. Embora sua doutrina possa ser verdadeira, devemos ter cuidado, pois são falsos profetas. Falsos apóstolos são aqueles que dizem ser apóstolos, mas estão mentindo (Ap 2,2); eles são falsos profetas. “Tome cuidado com aqueles que fingem ter revelações; não os aceite sem provas suficientes, para que um absurdo não seja aceito, seguido de outra centena deles”.
2. São todos aqueles que pregam uma falsa doutrina sobre tudo aquilo que é essencial à religião. Que ensinam aquilo que é contrário à verdade que está em Jesus, a verdade que está de acordo com a santidade. A primeira dissertação parece ser a verdadeira noção do que é um pseudo-profeta, ou de alguém que finge ser um profeta, enquanto geralmente a última também está de acordo com ela. Pois aquele que exibe cores falsas, a pretexto delas, e com maior sucesso, ataca a verdade. “Tenha cuidado com eles, suspeite deles e, quando tiver descoberto sua falsidade, afaste-se e nada tenha a ver com eles. Fique em guarda contra essa tentação, que nos é geralmente dirigida nos dias da reforma, e do alvorecer de uma luz divina que possui imensa força e esplendor”. Quando a obra de Deus é reavivada, Satanás e seus agentes ficam mais ocupados.
Aqui temos:
I Uma boa razão para ter esse cuidado. Tenha cuidado com eles, pois são lobos vestidos como ovelhas (v. 15).
1. Precisamos ter muito cuidado porque suas pretensões são muito justas e plausíveis e, assim sendo, irão nos enganar se não estivermos em guarda. Eles aparecem vestidos como ovelhas, usando a mesma vestimenta dos profetas, que era simples, grosseira e tosca. Usarão trajes rudes para enganai' (Ze 13.4). A Septuaginta chama o manto de Elias de manto de pele de ovelha. Devemos prestar atenção para não sermos iludidos com as vestes e a aparência dos homens, como as dos escribas, que preferiam andar usando vestes longas (Lc 20.46).
Ou, falando figurativamente, eles pretendem ser cordeiros, e externamente parecem ser totalmente inocentes, inofensivos, humildes, úteis e tudo mais que é bom, e se colocam acima de todos os homens. Eles fingem ser homens justos e, por causa da sua aparência, são aceitos entre as ovelhas e isso lhes dá a oportunidade de fazer-lhes o mal sem que ninguém perceba. Eles e suas mentiras estão cercados de ilusórias pretensões de santidade e devoção. Satanás se transforma num anjo de luz (2 Co 11.13,14). 0 inimigo tem chifres como um cordeiro (Ap 13.11), e as feições de um homem (Ap 9.7,8). Sua linguagem é sedutora e suas maneiras são suaves como a lã (Em 16.18; Is 30.10).
2, Também precisamos ter muito cuidado porque sob essas pretensões seus desígnios são mal-intencionados e enganadores e, no seu interior, eles não passam de lobos devoradores. Todo hipócrita é um lobo com peie de ovelha. Ele não é uma ovelha, mas o seu pior inimigo, que aparece apenas para destruir, devorar e espantar as ovelhas (Jo 10.12), para levá-las para longe das suas companheiras e de Deus, conduzidas por atalhos tortuosos.
Aqueles que pretendem nos enganar com qualquer verdade, e nos dominam com terror, sob qualquer que seja seu propósito, têm a intenção de faze)- mal à nossa alma. Paulo dá a eles o nome de lobos cruéis (At 20.29).
Eles são glutões e servem ao próprio ventre (Rm 16.18), eles lucram conosco e fazem de nós a sua presa. Como isso é muito fácil, e também muito perigoso, tenha cuidado com os falsos profetas.
II Eis aqui uma boa regra para ser obedecida em nossos cuidados; devemos examinar todas as coisas (1 Ts 5.21), e provar todos os espíritos (1 Jo 4.1). Aqui temos uma prova fundamental, iremos conhecê-los pelos seus frutos (vv. 16-20). Observe:
1. O exemplo dessa comparação - o fruto serve para revelar a árvore. N em sempre podemos distinguir a árvore pelo tronco ou pelas folhas, nem pela distribuição dos seus ramos. Somente através dos frutos ficaremos conhecendo a sua natureza, pois o fruto está de acordo com a árvore. Os homens podem, através da sua religião, influir na sua natureza e contradizer princípios interiores, porém a corrente e a inclinação das suas práticas estarão de acordo com ela. Cristo insistiu nesse ponto, sobre a concordância entre arvore e o seu fruto. (1) Se você conhece a árvore, sabe também qual fruto deve esperar. Nunca procure colher uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos. Não faz parte da sua natureza produzir esses frutos. Podemos confundir uma maçã, e um cacho de uvas pode estar pendurado num espinheiro, da mesma maneira que uma boa verdade, ou uma boa palavra ou ação, podem sei- encontradas num homem mau, mas esteja certo de que elas nunca nasceram lá.
Veja bem: (1) Corações corruptos, malvados e pecadores são como o espinheiro e o abrolho, que vieram com o pecado, esses corações são inúteis, inquietos e destinados ao fogo. [2J As boas obras São como os bons frutos, como as uvas e os figos, elas são agradáveis a Deus e proveitosas ao homem. (3) Nunca podemos esperar um bom fruto de um homem mau, e coisas limpas de coisas impuras, pois a eles falta a influência de um princípio reconhecido.
Um mau tesouro irá produzir coisas más. (2) Por outro lado, se você conhecer como o fruto é, poderá conhecer como é a árvore que o produziu. Uma boa árvore não poderá produzir maus frutos, assim como uma árvore corrompida não poderá produzir bons frutos, mas apenas frutos maus. Devemos considerar o fruto que é produzido natural e genuinamente por uma árvore, e de forma constante e abundante. Os homens não são conhecidos através de atos particulares, mas pelo curso e teor da sua conduta e pelos atos praticados com mais frequência, especialmente aqueles que parecem ser livres, próprios e isentos da influência de qualquer persuasão ou motivos externos. 2. A aplicação dessas verdades aos falsos profetas.
(1) Através do terror e da ameaça (v. 10). Toda árvore que não produz bons frutos deve ser cortada. O próprio João Batista usou essa citação (cap. 3.10). Cristo poderia ter falado a mesma coisa com outras palavras, poderia ter feito alguma alteração ou Lhe dado uma nova forma. Mas acreditou que não havia nenhum descrédito para Ele se repetisse o que João Batista havia afirmado antes. Os ministros não devem ser ambiciosos a ponto de produzir novas expressões, nem o ouvido das pessoas ansiar por novidades. Falar e escrever as mesmas coisas não deve ser penoso, pois é mais seguro.
Eis aqui: (1) A descrição de árvores estéreis, árvores que não produzem bons, frutos. Embora os frutos possam existir, se não forem bons a árvore será considerada estéril. Mesmo que as ações representadas por estes frutos sejam provenientes de boas intenções, elas não serão aceitáveis se não forem realizadas da maneira correta, e com os propósitos corretos. [2] O destino das árvores estéreis. Elas certamente serão cortadas e lançadas ao fogo. Deus irá fazer com eles o mesmo que o homem faz com as árvores secas que ocupam inutilmente terreno. Ele irá marcá-los com algum sinal da sua insatisfação, despindo-os da suas partes e dos seus dons, irá abatê-los até a morte e lançá-los ao fogo do inferno, um fogo atiçado com a ira de Deus e alimentado com a madeira das árvores estéreis, Compare isso com Ezequiel 31.12,13; Daniel 4.14; João 15.6. (2) Através do julgamento. Pelos seus frutos iremos conhecê-los.
[1] Pelos seus frutos como pessoas, isto é, suas palavras e atos, e pelo curso da sua conduta. Se você não sabe se estão certos ou errados, observe como vivem.
Suas obras irão testificar a favor ou contra eles. Os escribas e fariseus sentavam-se na cadeira de Moisés e ensinavam a lei, mas eram orgulhosos, falsos, opressores e cobiçosos, portanto Cristo preveniu os apóstolos para tomar cuidado com eles e com sua influência (Mc 12.38). Se os homens fingem sei' profetas, mas são imorais, isso irá contradizer as suas pretensões. Qualquer que seja a religião que professam, se 0 deus a que servem estiver no seu ventre, se só pensarem nas coisas terrenas, não serão verdadeiros amigos da cruz de Cristo (Fp 3.18,19). Não foram ensinados, nem enviados pelo Deus Santo, e suas vidas provam que são guiados por um espírito imundo. Deus coloca tesouros era vasos de barro, mas não em vasos corrompidos como estes. Eles podem declarar os estatutos de Deus, mas de que maneira devem fazê-lo? [2] Através dos frutos da sua doutrina, dos seus frutos como profetas. Porém, essa não é a única maneira de provar sua doutrina, sejam eles enviados por Deus ou não. O que eles tendem a fazer? A quais sentimentos ou práticas guiarão aqueles que os aceitam? Se a doutrina for de Deus, ela promoverá uma sincera piedade, humildade, caridade, santidade e amor, além de outras virtudes cristãs. Mas, se ao contrário, as doutrinas pregadas por esses profetas revelarem uma manifesta tendência para tomar as pessoas orgulhosas, mundanas e provocadoras, negligentes e descuidadas em suas condutas, injustas, exigentes, revoltadas ou perturbadoras da ordem pública, se elas toleram a liberdade sexual, e afastam as pessoas do autocontrole e das suas famílias, de acordo com as rigorosas leis do caminho estreito, podemos concluir que essa persuasão não vem daquele que nos chamou (G15.8). Essa sabedoria não vem do alto (Tg 3.15). A fé e uma boa consciência sempre caminham juntas (1 Tm 1.19; 3.9), Veja que as doutrinas de duvidosa controvérsia devem ser comprovadas através de graças e deveres devidamente confessados. Essas opiniões não vêm de Deus e levam ao pecado. Se não pudermos conhecê-los pelos seus frutos, devemos recorrer à grande pedra fundamental, à lei e ao testemunho. Será que eles falam de acordo com essa regra?
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 85-87.
Mt 7:15-20 Durante alguns séculos, antes da vinda de Cristo, acreditava-se de modo geral que a profecia havia cessado. O período entre os dois testamentos às vezes é chamado de período de silêncip. Vindo João Batista, retornou a voz profética, e no início do cristianismo a profecia floresceu. A multidão reunida no dia de pentecoste, Pedro explicou que o fenômeno das línguas era o cumprimento da promessa feita por Joel segundo a qual nos últimos dias Deus derramaria seu Espírito em todos, de tal modo que os moços teriam visões, os velhos teriam sonhos, e homens e mulheres proclamariam a mensagem (Atos 2:17-18; cp. 1 Coríntios 14:29-31).
A medida que a igreja crescia, o problema dos falsos profetas ia-se tomando agudo. Jesus havia-nos advertido contra o surgimento de falsos profetas que enganariam o povo (Mateus 24:11, 24). João também advertiu os crentes (1 João 4:1-3; Apocalipse 2:20). De que maneira os cristãos poderiam reconhecer um falso profeta? Nos tempos antigos o profeta ficava desacreditado se aquilo que ele houvesse proclamado em nome de Deus não se cumprisse (Deuteronômio 18:20-22). O didache apresenta alguns testes simples para identificar o falso profeta (se ele permanecer mais de dois dias ou se pedir dinheiro, 11:5-6). É “pelo comportamento dele, portanto, [que] o falso profeta é distinguido do verdadeiro” (didache 11:8).
Jesus nos adverte contra os falsos profetas. Eles chegam disfarçados em ovelhas (isto é, parecem pertencer ao rebanho de crentes; cp. Números 27:17 e Salmo 100:3, quanto afigura de linguagem; além disso, os profetas usavam roupas feitas de peles de animais, Zacarias 13:4; Mateus 3:4), mas interiormente são lobos devoradores (todas as atividades deles são motivadas pela ambição pessoal; matarão e destruirão os outros se isso for para seu lucro egoísta). Apresentar-se com vestes de profeta era o mesmo que vindicar essa posição. De início parecia que o ensino deles era verdadeiro, mas, quando se examinou o modo como viviam, descobriu-se que eram lobos (falsos profetas; cp. Ezequiel 22:27; Zacarias 3:3).
Os falsos profetas são conhecidos pelos seus frutos. Numa época em que Deus ainda estava revelando sua vontade mediante o ofício profético, era mais difícil dar validade a uma mensagem com base em seu conteúdo teológico, que deveria ser aceitável. Os falsos profetas podiam ser identificados de modo mais simples mediante o modo de vida deles. Colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Se não houver uvas é que não há videira. Se os frutos são maus, é que você não tem uma árvore boa. De modo semelhante, se a vida do profeta não se nivela à sua pregação, você estará diante de um falso profeta. “Tal pai, tal filho; o fruto se parece com a árvore” eram os ditados dos antigos. A boa teologia deve produzir retidão ética. A conduta revela o caráter.
ROBERT H. MOUNCE. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Baseado na Edição Contemporânea de Almeida. Editora Vida Nova. pag. 76-77.
Mencionam-se profetas! São pessoas que falam em nome de Deus. Assim também esses profetas se apresentam no meio da comunidade de Cristo como quem usa palavras santas e fala em nome de Deus. Não obstante, o que dizem e o que fazem não é de Deus, porque sua motivação íntima é sombria e sacrílega. Por isso se comparam a lobos vorazes que andam sob a veste de ovelhas e, como piores inimigos do rebanho, dividem a comunidade do Senhor.
Como seria bem mais fácil viver seguindo a Jesus, andar no caminho estreito, se não irrompessem sempre de novo na própria comunidade de Jesus a ânsia de poder e de vantagem pessoal, a necessidade de prestígio e as discórdias. Desse modo, cada um precisa acautelar-se diante do outro e cuidar de si próprio e do “rebanho”.
O sinal de reconhecimento para discernir quem é lobo e quem é ovelha é definido por Jesus nos termos: Pelos seus frutos os conhecereis! Quando a comunidade do Senhor for fiel na oração e na vigilância, em breve se revelará quais foram os poderes ocultos e sombrios e as motivações dos “lobos em peles de ovelha”. Promoveram a sua própria obra e não a obra de Deus. Será descoberto se tinham o Espírito de Deus ou o espírito de baixo, se produziram fé ou descrença, se levaram à paz ou à discórdia, se buscaram a santificação ou não, se aproximaram de Deus ou fixaram as pessoas a si próprios, se defenderam com toda a clareza a vontade de Deus ou perseguiram alvos egoístas.
Efeitos e frutos do Espírito Santo somente podem crescer sobre o chão do Espírito Santo, não sobre a areia desértica do espírito anticristão. Para tornar isso mais uma vez palpável o Senhor lança mão de outra dupla de parábolas, das sebes de espinhos e das árvores imprestáveis em combinação com os seus frutos.
Do mesmo modo como é impossível que a fruta de uma árvore seja outra que a da própria árvore, também é impossível que o diabo busque a santificação, que a injustiça dê à luz a justiça, que a mentira produza a verdade, que a motivação falsa efetue um crescimento na fé, que a briga leve à paz, e o egoísmo gere o amor ágape.
Porque, apesar de não podermos olhar para dentro do coração da pessoa, podemos, com o tempo, deduzir a partir do que “sai dela” o que a moveu internamente. Assim como o fruto produzido pela árvore corresponde exatamente ao que a árvore é em si, tudo o que o ser humano faz também está profundamente ligado ao que ele é em sua essência. Se não recebeu o Espírito de Deus, tampouco pode gerar frutos do Espírito, nem mesmo quando “emoldura” seu falar e agir com o nome de Deus.
O juízo de Deus queimará esses frutos aparentes e frutos falsos juntamente com a árvore. Porém a comunidade de Jesus tem o dever de separar-se o quanto antes de tais “falsos profetas” e “lobos em pele de ovelha”. Isso é o que a disciplina exige, pois o Espírito Santo é um Espírito de disciplina.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Mateus. Editora Evangélica Esperança.
Advertência contra os falsos profetas, V.15: Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Esta é uma das maneiras pelas quais os discípulos de Cristo poderão ser desviados do caminho ao céu, o que torna o fato uma advertência necessária. Tomai cuidado, conservai-vos longe, não tende nada a ver com pseudo-profetas, com profetas falsos. Até mesmo é loucura parar e discutir com eles. Pois, eles são profetas falsos. Falsificam, deliberadamente, a Palavra de Deus. Eles colocam suas próprias mentiras e a sabedoria de pessoas falíveis no lugar da verdade eterna. Chegam, sem serem convidados, sem chamado. Têm, como prática, ir àquelas pessoas que são membros duma igreja, com a intenção deliberada de induzi-las a abandonarem a verdade. São sábios em sua própria presunção e nas formas do engano. Chegam numa forma muito humilde, na vestimenta da inocência e inofensividade. Confessam ter autorização do próprio Deus, e são adeptos de fingida amabilidade. Mas seu verdadeiro caráter se mostrará depois, visto que, por inclinação e treinamento, são lobos vorazes. Sua natureza é devorar. São gananciosos por dinheiro, ambiciosos por poder, mas, acima de tudo, são ansiosos para destruir almas. São assassinos de almas humanas.
O princípio de testar mestres falsos e todos os fraudes, V.16: Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? 17) Assim toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. 18) Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Um ponto importante: Não só os discípulos de Cristo, por si mesmos, podem identificar estes falsos mestres, mas o Senhor espera que os reconheçam porque estudaram seus métodos e maneira de viver.Os cristãos são capazes de provar os espíritos - até têm o sagrado dever de faze-lo - e de examinar e testar a doutrina que lhes é oferecida. Eles têm uma regra infalível, que é o ensino de Cristo, a Palavra da Verdade. Conforme este critério e padrão, devem julgar, não só a doutrina, mas também as obras dos mestres falsos, as quais, aqui, são chamadas de seus frutos. As pessoas nunca imaginam colher uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos. Eles não são enganados por falsas aparências, tal com o botânico que, com uma olhadela, apontará a variedade venenosa de fruta ou dum cogumelo duma boa. Mas, mesmo lá onde não acontece tanto o conhecimento botânico, se distingue imediatamente a árvore boa, a que está em boas condições e sadia, da árvore doente, degenerada por causa do mau solo, ou que, por causa da idade, já não produz mais fruto. Todas estas árvores carregam fruto de acordo com sua natureza própria. Este teste nunca falha. “Como, perfeitamente, sabemos que uma árvore boa não produzirá fruto mau, e que uma árvore má não produzirá bom fruto - e nem o poderá -, assim, também sabemos que, enquanto o viver é impiedoso, a confissão de piedade é impossível, mas é hipocrisia e engano”.
O fim dos impostores, V.19: Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. 20) Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis. Quanto ao que diz respeito ao teste de árvores, o julgamento das pessoas é tão claro e absoluto, que elas não hesitam em cortar e queimar uma árvore ruim. Elas sabem muito bem, que para aquela árvores é totalmente impossível produzir, mesmo no próximo ano, fruto bom. Este juízo, porém, também acertará aqueles que são culpados de doutrina e vida falsas, cujos frutos, finalmente, irão revelar a condição de suas almas. Será sua a punição do fogo do inferno. Enquanto isto, os cristãos não devem esquecer seu dever de testar e examinar a doutrina e as obras dos mestres falsos, para que não se tornem culpados de negligência em assuntos espirituais. “Nenhuma doutrina falsa ou heresia, jamais, surgiu sem ter o sinal que o Senhor indica aqui, a saber, que eles produziram outras obras do que aquelas mandadas e ordenadas por Deus...Deixem que aquele, que deseja julgar corretamente, faça como Cristo lhe ensina aqui, pegando suas obras e frutos, para as colocar ao lado da Palavra e dos mandamentos de Deus. Assim ele verá, imediatamente, se eles concordam entre si... Desta forma possuis um juízo seguro, que não poderá falhar, como Cristo te ensina a conhecê-los pelos seus frutos. Pois, tenho estudado a respeito de todos os heréticos e seitas, e verifiquei que eles sempre produziram e trouxeram algo que foi diferente daquilo que Deus ordenou e impôs, um nesse, outro naquele artigo. Um proibiu comer de tudo. O segundo, o casamento. O terceiro condenou qualquer governo, escolhendo cada um o seu próprio. Concluo que todos eles andam neste trilho”.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Volume 1. Editora Concordia Publishing House.
I João 4. 3. Ele apresenta um teste para os discípulos poderem provar esses espíritos fingidos. Esses espíritos levantaram-se como profetas, doutores ou doutrinadores na religião cristã e, assim, eles precisavam ser provados pela sua doutrina; e a prova naquele tempo ou naquela parte do mundo em que o apóstolo residia (pois em várias épocas e em várias igrejas as provas seriam diferentes) precisava ser esta: “Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne (ou confessa a Jesus Cristo que veio em carne) é de Deus” (v. 2). Jesus Cristo deve ser confessado como o Filho de Deus, a Vida e Palavra eternas, que estava com Deus desde o início; como o Filho de Deus que veio ao mundo e veio em nossa natureza humana mortal e nela sofreu e morreu em Jerusalém. Aquele que confessa e prega isso, por meio de uma mente sobrenaturalmente bem informada e iluminada dessa maneira, faz isso pelo Espírito de Deus ou Deus é o autor dessa iluminação. Do contrário: “...todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne (ou a Jesus Cristo que veio em carne) não é de Deus (v. 3). Deus concedeu tanto testemunho de Jesus Cristo, que esteve nos últimos tempos aqui no mundo e na carne (ou em um corpo físico como o nosso), embora agora no céu, que vós podeis estar assegurados de que qualquer impulso ou inspiração simulada que contradiga isso está longe de ser do céu e de Deus”. O resumo da revelação é compreendido na doutrina acerca de Cristo, sua pessoa e sua função. Por isso, vemos o incremento de uma oposição sistemática a Ele e a isso. “...mas este é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e eis que está já no mundo” (v. 3). Foi previsto por Deus que anticristos surgiriam e espíritos anticristãos se oporiam ao seu Espírito e à sua verdade; também foi previsto que um anticristo eminente surgiria e travaria uma batalha longa e fatal contra o Cristo de Deus e sua instituição e honra e reino no mundo. Esse grande anticristo teria seu caminho preparado e sua origem facilitada por outros anticristos menores, e o espírito do erro trabalharia e inclinaria a mente dos homens para si: o espírito do anticristo começou cedo, mesmo que esse começo ocorresse no tempo dos apóstolos. Terrível e insondável é o julgamento de Deus, pois pessoas cederam a um espírito anticristão e a esse tipo de escuridão e desilusão a ponto de colocar-se contra o Filho de Deus e todo testemunho que o Pai tinha apresentado do Filho! Mas nós fomos avisados antecipadamente de que esse tipo de oposição ocorreria; deveríamos, portanto, cessar de ficar escandalizados e quanto mais vermos a palavra de Cristo cumprida, tanto mais devemos ser confirmados pela sua verdade.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 926.
Um esclarecimento necessário (4.2,3).
Nisto reconhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessar que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo.
Simon Kistemaker diz que, no grego, João usa o tempo perfeito para a palavra veio a fim de indicar que Jesus veio em natureza humana e, ainda agora, no céu, ele possui uma natureza humana, ou seja, além de sua natureza divina, ele também tem uma natureza humana.
Os falsos mestres gnósticos negavam tanto a divindade quanto a humanidade de Cristo. Eles negavam tanto a sua encarnação como a sua ressurreição. Eles negavam tanto o seu nascimento virginal quanto a sua morte expiatória.
A critologia deles procedia do anticristo. Embora o anticristo seja um personagem que aparecerá no futuro, seu espírito já opera no mundo. Os verdadeiros profetas são instrumentos de comunicação do Espírito de Deus (4.2).
Os falsos profetas são instrumentos de comunicação do “[...] espírito do erro” (4.6). Por trás de cada profeta está um espírito, e por trás de cada espírito está Deus ou o diabo. Antes de podermos confiar em quaisquer espíritos, precisamos prová-los, se procedem de Deus. O que importa é a sua origem.
Augustus Nicodemus tem razão quando diz que o anticristo é uma figura escatológica sombria que virá no fim dos tempos, cuja característica principal é a guerra contra o povo de Deus e o desejo de ocupar o lugar de Deus. Ele virá no poder de Satanás, fazendo sinais e prodígios e disseminando o erro, sendo finalmente destruído pelo Senhor. Esse grande anticristo tem seu caminho preparado, e seu surgimento facilitado por outros anticristos menores, o espírito do erro que opera e dispõe a mente das pessoas para ele.
Qualquer espírito que nega que Jesus é o Cristo e qualquer espírito que nega que Jesus veio em carne não é de Deus. William Barclay diz que para ser de Deus, um espírito deve confessar que Jesus é o Cristo, o Messias. Negar esta verdade é negar que Jesus é o centro da História, aquele para quem toda a História tem uma preparação; é negar que ele é o cumprimento das promessas de Deus; é negar sua soberania.
Jesus Cristo veio não só para morrer, mas também para estabelecer o seu Reino de graça e de glória. Entretanto, negar que Jesus veio em carne, ou seja, a sua encarnação, é negar que ele pode ser o nosso exemplo; é negar que ele seja o nosso Sumo Sacerdote, que nos abre acesso à presença de Deus; é negar que ele seja o nosso Salvador; é negar a redenção do corpo bem como a possibilidade do encontro entre o humano e o divino.
Simon Kistemaker é enfático sobre esse ponto:
Qualquer um que separa a natureza humana da natureza divina de Jesus Cristo fala sem a autoridade de Deus. E qualquer um que negue a natureza humana ou divina de Jesus “não procede de Deus”. Além disso, qualquer um que ensine que Jesus recebeu de Deus um espírito divino quando foi batizado e que esse espírito o deixou quando ele morreu na cruz está distorcendo o evangelho. E, finalmente, qualquer um que diga que depois da morte de Jesus ele foi feito Filho de Deus, não está apresentando a verdade da Palavra de Deus. Todos esses mestres não falam como representantes de Jesus Cristo, não foram comissionados por Deus e não são porta-vozes do Espírito de Deus neste mundo.
João faz certamente uma distinção entre o conhecimento e a confissão. Não basta saber que Jesus Cristo veio em carne, é preciso confessar essa bendita verdade. Até os espíritos impuros reconheceram a divindade de Jesus durante o seu ministério (Mc 1.24; Mc 3.11; Mc 5.7,8). Contudo, embora o conhecessem, não o confessavam. O Espírito de Deus, porém, dá testemunho de que Jesus Cristo, sendo Deus, se fez carne.
O ministério particular do Espírito é testemunhar de Jesus (Jo 15.26; 16.13-15). O ministério do Espírito é o ministério do holofote. Ele aponta sua luz para Jesus. O Espírito veio para testemunhar que Jesus não deixou de ser Deus ao se fazer homem. Sua encarnação não foi aparente como ensinavam os falsos mestres do docetismo nem sua divindade foi uma mera simulação.
Os falsos mestres do gnosticismo separavam o Jesus do Cristo; faziam uma distinção entre o Cristo divino e o Jesus histórico. Para eles, o Cristo veio sobre Jesus no batismo e se retirou dele na cruz. João classifica esta posição como herege e procedente do anticristo. Não foi o Cristo que veio “para” a carne de Jesus, mas o próprio Jesus era o Cristo vindo “em” carne.
John Stott é oportuno quando diz que o homem Jesus de Nazaré não é outro senão o Cristo ou o Filho encarnado. Longe de vir sobre Jesus no batismo e deixá-lo antes da cruz, o Cristo veio realmente em carne e nunca a deixou de lado. Com isto João está dizendo que a doutrina cristã fundamental, que nunca pode ser transigida, é a da Pessoa divino-humana e eterna de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Nenhum sistema pode ser tolerado, por mais estrondosas que sejam as suas pretensões ou por mais cultos que sejam os seus adeptos, se negar que Jesus é o Cristo vindo em carne, isto é, se negar a sua divindade eterna ou a sua humanidade histórica.
Em quarto lugar, um contraste profundo (4.4). “Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo.”
João faz uma transição dos falsos profetas para os verdadeiros crentes. Os falsos profetas são governados pelo espírito do anticristo; os verdadeiros crentes procedem de Deus, são de Deus e são habitados por Deus. Os verdadeiros crentes vencem os falsos profetas porque o Deus que neles está é maior do que o espírito do engano que habita nos falsos profetas.
Werner de Boor diz que o Deus vivo, infinitamente maior que o inimigo, não apenas está com os crentes, mas também está neles. A mais necessária armadura para todas as lutas e a força para repetidas vitórias está em saber que o próprio Senhor está “em nós” pelo Espírito Santo.
Em quinto lugar, uma procedência distinta (4.5,6).
Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto conhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro.
Simon Kistemaker diz que os falsos profetas “são do mundo”. Eles tiram seus princípios, cuidados, objetivos e existência do mundo de hostilidade, no qual Satanás governa como príncipe (Jo 12.31).359 Pensamentos satanicamente inspirados são atraentes para as mentes mundanas, diz Augustus Nicodemus. Os falsos profetas procedem do mundo, e os verdadeiros crentes procedem de Deus; o mundo ouve os falsos profetas enquanto os verdadeiros crentes ouvem o ensinamento dos apóstolos. Aqueles que são de Deus ouvem as palavras de Deus (Jo 8.47). As ovelhas de Cristo ouvem a sua voz (Jo 10.4,5,8,16,26,27). Aqueles que são da verdade ouvem o testemunho da verdade (Jo 18.37). No entanto, o mundo ouve os falsos profetas. O mundo é governado pelo espírito do erro e não pelo espírito da verdade.
LOPES. Hernandes Dias. 1, 2, 3 JOÃO Como ter garantia da salvação. Editora Hagnos. pag.188-192.
I João 4. 2s Nesse caso, porém, o apóstolo precisa ajudar as igrejas a “examinar” e mostrar-lhes marcas identificadoras em que se evidencia se um profeta é “de Deus” ou não. É o que João também passa a fazer já na frase seguinte. “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: Cada espírito que confessa Jesus Cristo como vindo na carne é de Deus.” Como isso é notável para nós: não é para manifestações de poder de qualquer tipo, ou para capacidades e forças prodigiosas que o apóstolo remete como característica determinante para a autenticidade de um profeta! Importa-lhe unicamente o conteúdo de sua mensagem. Entretanto, de que forma peculiar se fala, nesse caso, do conteúdo central da proclamação! Novamente precisamos reconhecer que se trata de uma “carta” autêntica que – ao contrário de um tratado teológico genérico – fala a pessoas concretas em uma situação concreta, que a princípio não precisa ser igual à nossa. Inicialmente teremos pouco uso para a frase de João. Mas a igreja daquele tempo imediatamente prestou atenção! Estava sendo afligida por propagandistas de um “gnosticismo cristão”. Os grandes sistemas religiosos deles evidentemente também falavam de “Cristo”. Atestava-se que um Cristo celestial teria vindo do mundo da luz para conduzir as almas humanas de volta da perdição nas trevas e na morte, rumo ao reino da luz. Contudo esse “Cristo” havia se conectado apenas temporariamente com o homem histórico Jesus e vestia essa configuração humana apenas como traje exterior. Quem padeceu e sangrou foi apenas o ser humano Jesus; somente ele morreu. Afinal, sofrer, sangrar e morrer jamais seria possível para o ser celestial “Cristo”. Por isso a redenção tampouco acontece através do sofrer, sangrar e falecer, mas através da gnosis, do “conhecimento”, ainda que ele não seja intelectual, mas místico-religioso. Para o gnosticismo cristão a afirmação de que “o Verbo” não apenas se “revestiu” de carne, mas “veio a ser carne”, “veio na carne”, era completamente absurda, e até mesmo blasfema. Para a mensagem apostólica, porém, toda a importância residia justamente no rebaixamento do Filho de Deus, em sua verdadeira humanização, em ter vindo “na carne”. Porque somente assim era possível que acontecesse a única coisa que redime o ser humano que resistia a Deus, culpado e perdido diante dele: o sofrimento e a morte no madeiro maldito da cruz. Aqui os caminhos das igrejas apostólicas e do gnosticismo cristão divergiam radicalmente.
Agora fica claro para nós o quanto a frase de João, apesar de seu foco histórico, é uma frase decisiva, e por isso também divisora, para qualquer época, inclusive a nossa. De diferentes formas o ser humano sempre tenta ter um Cristo imponente, um Cristo “ajustado ao moderno”, que ele possa recomendar a qualquer pessoa. Tenta não precisar “se envergonhar” do evangelho. Tanto hoje como outrora o Cristo que sofre, sangra e morre na cruz é “uma loucura” ou “um escândalo” (1Co 1.23). Subjacente a isso, porém, está algo mais profundo. Nessa questão estamos em jogo nós mesmos e nossa auto-apreciação. O Filho de Deus teve de “vir na carne”, habitar no mundo sem esplendor e poder e morrer tão terrivelmente no madeiro maldito por causa de nossos pecados. Ou seja, quem adora o verdadeiro “Cristo”, o único Redentor de pessoas perdidas, na pessoa de Jesus, que foi expulso pelos humanos, entregue por Deus ao juízo e morto na cruz, precisa considerar a si mesmo uma pessoa condenada, cuja culpa miserável não lhe concede saída perante Deus e que só pode ser redimido a esse custo. É contra isso que nosso orgulho se rebela! É a essa condenação que resistimos. É em razão disso que queremos ter outro Cristo: um Cristo nobre e magnífico, junto ao qual nós mesmos podemos ser “magníficos”, um “Cristo” que é o “exemplo” que nos impele a ações próprias de melhoramento do mundo. “Crer como Jesus”, “amar como Jesus”, assumir a cruz como fez Jesus, isso passa a ser o caminho para a salvação. Quem, no entanto, não tem no centro de sua confissão o Jesus Cristo que “veio na carne” e seu morrer em nosso favor, evidencia-se assim como cego que ainda não experimentou sua real perdição. Aqui abre-se o abismo que separa vários tipos de cristianismos e teologias da mensagem apostólica.
Por essa razão João prossegue: “E todo espírito que não confessa a Jesus não é a partir de Deus.” É assim que o NT grego de Nestle apresenta o texto. Se João realmente escreveu assim, ele pretendia dizer: quem fala somente de um Cristo celestial e não confessa de fato “o Jesus” e, consequentemente, a verdadeira encarnação do Redentor (com todo o padecimento e morte, em função dos quais ela aconteceu), esse “não é a partir de Deus”. Passa longe da verdadeira revelação de Deus, conduzindo a igreja ao engano. Os manuscritos da koiné e o Códice Sinaítico também acrescentam aqui a expressão “como vindo na carne”. Então a frase negativa é totalmente paralela à frase positiva anterior. Mas isso caracteriza uma adequação posterior.
Lemos a respeito dos pais da igreja Ireneo (178, bispo de Lyon), Orígenes (nasc. 185/186) e Clemente de Alexandria (por volta do ano 200) que os manuscritos de 1Jo utilizados por eles continham a seguinte frase na presente passagem: “e todo espírito que dissolve a Jesus não é a partir de Deus”. Essa variante possui grande peso. Em primeiro lugar porque os manuscritos de que esses homens dispunham no final do séc. II eram muito mais antigos que os primeiros manuscritos disponíveis para nós. Trata-se de uma atestação mais antiga. Em segundo lugar é totalmente inexplicável como um copista teria inserido essa curiosa expressão “que dissolve o Jesus” no texto se a versão original tivesse trazido o confortável “que não confessa”. Em contraposição é fácil imaginar que os copistas posteriores não sabiam o que fazer com a expressão “dissolver Jesus”, adequando a formulação negativa à precedente positiva. “Quem confessa” – “quem não confessa”, era um raciocínio quase automático. Para nós, porém, a expressão “dissolver a Jesus” explicita com exatidão o que João imputava com apaixonada seriedade aos novos mestres: “dissolveis” ao Jesus que os apóstolos testemunham, colocando no lugar dele vossa própria construção mental de “Cristo”. Desse modo dissolveis “o que era desde o início, o que ouvimos e vimos com os olhos, o que contemplamos e apalpamos com as mãos, a palavra da vida” (1Jo 1.1s). Assim não tendes uma teologia um pouco diferente, mais moderna, sobre a qual se possa discutir, mas dissolveis e descartais todo o fundamento de fé e toda a certeza de salvação da igreja.
A igreja precisa ver isso e proferir um não radical a esses novos mestres. Sendo “dissolvido Jesus”, o Cristo feito ser humano, entregue em favor de nós na cruz para a sentença mortal de Deus, e ressuscitado por Deus, então fica aniquilada toda a salvação para pecadores perdidos. A igreja não deve considerar as novas teorias como sendo interessantes; não deve pensar que, afinal, é preciso ocupar-se delas, não as condenando de antemão. Não, a igreja precisa reconhecer: “E esse é o (espírito) do anticristo, do qual ouvistes que ele virá, e que agora ele já está no mundo.” Esse cristianismo novo supostamente superior e mais puro é, pelo contrário, “anticristianismo”. Aqui opera “o espírito do anticristo”, não o Espírito de Deus. A advertência “não a partir de Deus” é agora positivamente aguçada. A igreja ouviu a proclamação de que o anticristo “virá”. Contudo não deve perder, diante desse olhar correto para o futuro, o olhar lúcido para a atualidade. Precisa reconhecer que o “espírito” do anticristo “virá” não apenas em um momento posterior, mas que “já está no mundo”, e precisamente na hora em que lhe é apresentado um novo “cristianismo”! O soberano anticristão do mundo um dia tentará “dissolver” a Jesus e sua igreja com toda a força brutal. Porém a igreja deve notar: essa “dissolução” já se inicia agora de maneira sutil sob a aparência de um melhoramento do cristianismo.
Werner de Boor. Comentário Esperança I João. Editora Evangélica Esperança.

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

Um comentário:

  1. Da onde sai tanto subsídio EBD você tem uma biblioteca em casa rsrsrs parabéns pena que não dá pra falar tudo isso em uma aula de apenas 2 horas.

    ResponderExcluir