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6° LIÇÃO 2 TRIMESTRE 2014 O MINISTÉRIO DE APÓSTOLO


O MINISTÉRIO DE APÓSTOLO
Data: 11 de Maio de 2014                        HINOS SUGERIDOS: 96, 149, 355.
TEXTO ÁUREO
E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores ( Ef 4.11).

VERDADE PRÁTICA
O dom do apostolado foi concedido por Deus a Igreja com o proposito de expandir o evangelho de Cristo.
LEITURA DIÁRIA
Segunda       - Hb 3.1                    Jesus, o apóstolo por excelência
Terça             - 2 Co 12.12            Sinais do apostolado
Quarta           - At 2.42                   A doutrina dos apóstolos
Quinta            - 1 Tm 1.1                Paulo, apóstolo de Jesus Cristo
Sexta             - 1 Co 4.9                 Apóstolo, uma missão sacrifical
Sábado         - Lc 6.12-16             Os doze apóstolos de Cristo
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Efésios 4-7-16
7 - Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo.
8 - Pelo que diz: Subindo ao alto, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens.
9 - Ora, isto — ele subiu — que é, senão que também, antes, tinha descido às partes mais baixas da terra?
10 - Aquele que desceu é também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas.
11 - E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
12 - querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo,
13 - até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo,
14 - para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente.
I5 - Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.
16 - do qual todo o corpo, bem ajustado e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo, para sua edificação em amor.
INTERAÇÃO
Prezado professor, já estudamos nas lições anteriores os dons espirituais de poder, de elocução e de revelação. A partir da lição desta semana você terá a oportunidade ímpar de estudar e ensinar a respeito dos dons ministeriais. Estes dons se encontram relacionados em Efésios 4.11. Estas dádivas divinas são igualmente importantes e necessárias para que a igreja cumpra a sua missão neste mundo e os crentes cresçam "na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pe 3.18). Sabemos que o ministério apostólico, segundo os moldes do colégio dos doze, não existe mais, todavia o dom ministerial descrito em Efésios 4.11 continua em plena vigência. Por isso, precisamos orar para que Deus levante apóstolos a fim de que o Evangelho seja pregado a todas as nações.
OBJETIVOS
Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:
Analisar biblicamente o colégio apostólico.
Descrever o ministério apostólico de Paulo.
Conscientizar-se a respeito da apostolicidade atual.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Professor, para introduzir a lição de forma dinâmica, faça a seguinte indagação: “Quais são os dons ministeriais?” Ouça os alunos com atenção e em seguida leia a relação descrita em Efésios 4.11, Depois, utilizando o quadro da página seguinte, explique a respeito do termo apóstolo e faça um pequeno resumo a respeito deste dom. Enfatize que Deus continua levantando apóstolos em nosso tempo. Conclua orando para que o Senhor distribua este dom entre os seus alunos.
PALAVRA CHAVE
Apóstolo: Do gr. apóstolos, enviado.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
A partir da lição desta semana estudaremos os Dons Ministeriais distribuídos por Deus à sua Igreja, objetivando desenvolver o caráter cristão da comunidade dos santos, tornando-o semelhante ao de Cristo (Ef 4.13). De acordo com as epístolas aos Efésios e aos Coríntios, são cinco os dons ministeriais concedidos por Deus à Igreja^ apóstolos profetas, evangelistas, pastores e doutores (1 Co 12.27-29). Veremos o quanto esses ministérios são necessários avida da igreja local para cumprir a missão ordenada pelo Senhor ante o mundo e, simultaneamente, crescer “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 3.18). Mostrando a sequência de Efésios 4.11, iniciaremos o estudo peio dom ministerial de apóstolo.
1 - O COLÉGIO APOSTÓLICO
1. O termo “apóstolo”. O Dicionário Bíblico Wycliffe informa que o termo grego apostolas origina-se do verbo apostellein, que significa “enviar”, "remeter". A palavra apóstolo, portanto, significa “aquele que é enviado”, “mensageiro”, “oficialmente comissionado por Cristo”. Ao longo do Novo Testamento, o verdadeiro apóstolo é enviado por Cristo igualmente como o Filho foi enviado pelo Pai com a missão de salvar o pecador com autoridade, poder, graça e amor. O verdadeiro apostolado baseia-se na pessoa e obra de Jesus, o Apóstolo por excelência (Hb 3.1).
2. O colégio apostólico. Entende-se por colégio apostólico o grupo dos doze primeiros discípulos de Jesus convidados por Ele a auxiliarem o seu ministério terreno. O Salvador os separou e nomeou. Os primeiros escolhidos não eram homens perfeitos, mas foram vocacionados a levar a mensagem do Evangelho a todo o mundo (Mt 28.19,20; Mc 16.15-20). De acordo com Stanley Horton, eles foram habilitados a exercer “o ministério quando do estabelecimento da Igreja (At 1.20,25,26)”. Em outras palavras, os doze apóstolos constituíram a base ministerial para o desenvolvimento e a expansão da Igreja no mundo. Mas antes, como nos mostra a Palavra de Deus, receberam o batismo com o Espírito Santo (Lc 24,49; At 1.8; 2.1-46).
3. A singularidade dos doze. Aqui á importante ressaltar que o apostolado dos doze tem uma conotação bem singular em relação aos demais encontrados em Atos e também nas epístoias paulinas.
a) Eles foram convocados pessoalmente pelo Senhor. Multidões seguiam Jesus por onde Ele \ passava (Mt 4.25), e muitos se tornavam seguidores do Mestre. Mas para iniciar o trabalho da Grande Comissão, apenas doze foram convocados pessoalmente por Ele (Mt 10.1; Lc 6.13).
b) Andaram com Jesus durante todo o seu ministério. Desde o batismo do Senhor até a crucificação, os doze andaram com o Mestre, aprenderam e conviveram com Ele (Mc 6.7; Jo 6.66-71; At 1.21-23).
c) Receberam autoridade do j Senhor (Jo 20.21-23). Os doze receberam de Jesus um mandato [ especial para prosseguirem com
a obra de evangelização. Eles foram revestidos de autoridade de Deus para expulsar os demônios, curar os enfermos e pregar o Evangelho à humanidade (Mc 16.17,18; cf. At 2.4).
SINOPSE DO TÓPICO (1)
O verdadeiro apostolado é centrado única e exclusivamente em Jesus Cristo, pois Ele é o Apóstolo enviado pelo Paí.
II - O APÓSTOLO PAULO
1. Saulo e sua conversão. Saulo foi um judeu de cidadania romana, educado “aos pés de Ga- malier, e também um importante mestre do judaísmo (At 22.3,25). Ele era intelectual, fariseu e foi perseguidor dos cristãos. Entretanto, a caminho de Damasco, em busca dos cristãos que haviam fugido devido à perseguição em Jerusalém, e com carta de autorização para prendê-los, Saulo teve uma experiência com o Cristo ressurreto (At 9.1-22). A sua vida foi inteiramente transformada a partir desse encontro pessoal com Jesus. De perseguidor, passou a perseguido; de Saulo, o fariseu, a Paulo, o apóstolo dos gentios.
2. Um homem preparado para servir. Dos vinte sete livros do Novo Testamento, treze foram escritos pelo apóstolo Paulo. Quão grande tratado teológico encontramos em sua Epístola aos Romanos! O seu legado teológico foi grandioso para o cristianismo. Mas para além da intelectualidade teológica, o apóstolo dos gentios levou uma vida de sofrimento por causa da pregação do Cristo ressurreto. Eis a declaração apostólica que denota tal verdade: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4.7).
3. “O menor dos apóstolos”. O apóstolo Paulo não pertencia ao colégio dos doze. Ele não andou com Jesus em seu ministério terreno nem testemunhou a ressurreição do Senhor — requisitos indispensáveis para o grupo dos doze (At 1.21-23). Humildemente, o apóstolo reconheceu que não merecia ser assim chamado, pois considerava-se um “abortivo”, como que nascido fora de tempo, o menor de todos (1 Co 15.8,9). Entretanto, o Senhor se revelou a ele ressurreto (At 9.4,5) e ensinou- lhe todas as coisas. O apóstolo recebeu o Evangelho diretamente do Senhor (Cl 1.6-24; 1 Co 11.23). Embora o colégio apostólico tenha reconhecido o apostolado paulino (Cl 2,6-10; 2 Pe 3.14-16), as igrejas plantadas por ele eram o seio do seu ministério apostólico (1 Co 9.2). 
SINOPSE DO TÓPICO (2)
Paulo viu o Cristo ressurreto. Esta era a sua credencial apostólica.
III - APOSTOLICIDADE ATUAL (Ef 4.11)
1. Ainda há apóstolos? No sentido estrito do termo, e de acordo com a sua singularidade, apóstolos como os doze não mais existem. A Palavra de Deus diz que durante o milênio, os doze se assentarão sobre tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt 19.28). Os seus nomes também estarão registrados nos doze fundamentos da cidade santa (Ap 21.12-14). Logo, o colégio apostólico foi formado por um grupo limitado de discípulos, não havendo, portanto, uma sucessão apostólica.
2. Apóstolos fora dos doze. A carta aos Efésios apresenta a vigência do dom ministerial de apóstolo. O teólogo Stanley Horton informa-nos que “o Novo Testamento indica que havia outros apóstolos que também haviam sido dados como dons à Igreja. Entre estes se acham Paulo e Barnabé (At 14.4,14, bem como os parentes de Paulo, An- drônico eJúnia (Rm 16.7)”. Ao longo do Novo Testamento, e no primeiro século da Igreja, o termo apóstolo recebeu um significado mais amplo, de um dom ministerial distribuído à igreja locai (Dicionário Vine).
3. O ministério apostólico atual. Não há sucessão apostólica. Esta é uma doutrina formada pela igreja romana e, infelizmente, copiada por algumas evangélicas para justificar a existência do poder papal. O ministério dos doze não se repete mais. O que há é o ministério de caráter apostólico. Atualmente, missionários enviados para evangelizar povos não alcançados pelo Evangelho são dignos de serem reconhecidos como verdadeiros apóstolos de Cristo. Homens como John Wesley, William Carey (cognominado “pai das missões modernas”), Hudson Taylor, D. L. Moody, Gunnar Vingren, Daniel Berg, “irmão André” e tantos outros, em tempos recentes, foram verdadeiros desbravadores apostólicos. Cidades e até países foram impactados pela instrumen- talidade desses servos de Deus.
SINOPSE DO TÓPICO (3)
Segundo Efésios 4.11 o dom ministerial de apóstolo está em plena vigência na igreja atuai.
CONCLUSÃO
Nos moldes do colégio dos doze, o ministério apostólico não existe atualmente. Entretanto, o dom ministerial de apóstolo citado por Paulo em Efésios 4.11 está em plena vigência. Pastores experimentados, evangelistas e missionários que desbravaram os rincões do nosso país ou em países inimigos do Evangelho, são pessoas portadoras desse dom ministerial. São os verdadeiros apóstolos da Igreja de Cristo hoje.
AUXILIO BIBLIOGRÁFICO I
Subsidio Teológico
“Jesus é o supremo Sumo Sacerdote e Apóstolo (Hb 3.1). A palavra apóstolo era usada, no entanto, para qualquer mensageiro nomeado e comissionado a algum propósito. Epafrodito foi um mensageiro (apóstolo) nomeado pela igreja em Filipos e enviado a Paulo (Fp 2.25). Os companheiros de Paulo eram os mensageiros (apóstolos) enviados peias igrejas e por elas comissionados (2 Co 8.23).
Os doze, apenas, eram apóstolos específicos. Depois de uma noite em oração, Jesus os escolheu do meio de um grupo de discípulos e os chamou apóstolos (Lc 6.13). Pedro recomendou que os doze tinham um ministério e supervisão especiais (At 2. 20,25,26), provavelmente tendo em mente a promessa de que eles futuramente julgariam (governariam) as 12 tribos de Israel (Mt 19.28). Sendo assim, nenhum apóstolo foi escolhido, depois de Matias, para estar entre os doze. Nem foram nomeados substitutos, quando estes foram martirizados. Na Nova Jerusalém há apenas 12 alicerces, com os nomes dos 12 apóstolos inscritos neles (Ap 21J 4). Os doze, portanto, eram um grupo limitado, e realizavam uma função especial na pregação, no ensino e no estabelecimento da Igreja, além de testificar da ressurreição de Cristo, com poder. Ninguém mais pode ser um apóstolo no sentido em que eles foram” (HORTON, Stanley M, A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p.287).
AUXÍLIO BIBLIO GRÁFICO II
Subsídio Teológico
“APÓSTOLO
Os apóstolos foram testemunhas oculares das atividades de Jesus na terra e consequentemente testificaram que Jesus era o Senhor res- surrecto (Lc 24.45-48; 1 Jo 1.1-3). Os pré-requisitos para a substituição apostólica nesta função única são dados em At 1.21,22. A lista de apóstolos de Lucas (Lc 6.14-16; At 1.13) corresponde à lista dos doze dadas em Mateus 10.2-4 e Marcos 3.16-1 9. Mateus lista os discípulos aos pares, supostamente como enviados por Jesus. Tadeu (em Mateus e Marcos) era idêntico ajudas o filho de Tiago (em Lucas). Pedro, Tiago e João formavam um círculo íntimo dentre os doze, e estavam presentes no episódio da transfiguração (Mt 1 7.1-9; Mc 9.2-10; Lc 9.28-36) e no Cetsêmani (Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.39-46). Os doze foram selecionados para ser os companheiros de Jesus e proclamar o Evangelho (Mc 3.14). Durante o ministério de Jesus, os doze serviram como seus representantes, uma função compartilhada por outros (Lc 10.1).
Aparentemente, a posição dos apóstolos não foi fixada permanentemente antes da ressurreição (Mt 19.28-30; Lc 22.28-34; cf. Jo 21.15-18). O Cristo ressurrecto fez deste grupo seleto de testemunhas do seu ministério e ressurreição, apóstolos e testemunhas permanentes de que Ele é o Senhor, os comissionou como missionários, os instruiu a ensinar e batizar (Mt 28.18-20; Mc 1 6.1 5-1 8; Lc 24.46-48), e completou o processo com o envio do Espírito Santo no Pentecostes (Lc 24.49; At 1.1-8; 2.1-13). No período inicial, os 12 apóstolos eram os únicos ensinadores e líderes da igreja, e outros ofícios foram derivados deles (At 6.1-6; 15.4). O apostolado não implicava em uma liderança permanente. Embora Pedro tenha iniciado missões aos judeus (Atos 2) e aos gentios (At 10.11.18), Tiago o substituiu como líder entre os judeus, e Paulo como líder entre os gentios.
Os membros da igreja são sacerdotes, reis, servos de Deus e santos que usam seus dons para a edificação da igreja como um todo (1 Co 1 2.1-11; 1 Pe 2.9; Ap 1.6; 5.8,10; 7.3) e, como os apóstolos, são mediadores de Cristo (Mt 25.40,45; Mc 9.37; Lc 9.48) e reinarão com Ele (Ap 3.21).
Os apóstolos, porém, através do testemunho de sua palavra, sempre serão a norma e os arautos do fundamento sobre o qual Cristo edifica a sua igreja (Ef 2.20; Ap 18.20; 21.14). Os apóstolos são as primeiras dádivas de Cristo para a sua igreja (Ef 4.11) e os ministros estabelecidos por Deus na igreja (1 Co 12.28,29)” (PFEIFFER, Charles F.; REA, John; VOS, Howard F. (Eds.). Dicionário Bíblico Wydiffe. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p. 162).
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
HORTON, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo no Antigo e Novo Testamento. 12. ed. Rio dejaneíro: CPAD, 201 2.
HORTON, Stanley M (Ed). Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.
EXERCÍCIOS
1. Segundo as epístolas aos Efésios e aos Coríntios, quantos e quais são os dons ministeriais?
R: São cinco dons: Apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores.
2. De acordo com o Dicionário Bíblico Wycliffe, defina o termo grego apóstolos. R: Apostolos origina do verbo aposteliein que diz respeito a “enviar”, “remeter". 3. Qual era a cidadania do apóstolo Paulo?
R: Ele erajudeu de cidadania romana.
4. De acordo com a lição, ainda existem apóstolos?
R: Nos moldes do colégio dos doze, o ministério apostólico não existe mais. Todavia o dom ministerial de apóstolo citado em Efé- sios 4.11 está em plena vigência.
5. Na atualidade, quem são os verdadeiros apóstolos?
R: Os missionários.
Revista Ensinador Cristão CPAD, n°58. p.39.
Estudamos a respeito dos dons espirituais de locução, poder e revelação nas primeiras cinco lições. A partir desta, trataremos dos dons ministeriais relacionados em Efésios 4.11: apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e doutores. O primeiro dom listado por Paulo é o de apóstolo, vamos começar nosso estudo por ele. A primeira indagação que, em geral, fazemos quando estudamos a respeito deste dom ministerial é: "Ainda existem apóstolos?" Primeiro precisamos da definição do vocábulo que significa literalmente enviado. De certa forma, todos os crentes são enviados a pregar as Boas-Novas.
O colégio apostólico foi único. Ele foi formado por Jesus no momento da escolha dos Doze que receberam o nome de enviados. Como homem perfeito, Jesus tinha consciência de que não poderia realizar sua missão sozinho.
Para ser apóstolo, um dos requisitos era ter estado pessoalmente com Cristo. Atualmente, de certa forma, todos que creem em Jesus e já tiveram um encontro com Ele são apóstolos, pois Cristo, antes de ascender aos céus, declarou a todos os seus discípulos: "Ide por todo o mundo" (Mc 16.15). A Igreja de Jesus tem uma missão apostólica. O apóstolo é alguém enviado por Jesus Cristo com uma mensagem especial, servos de Deus separados para uma missão específica, diferente dos mestres, profetas e evangelistas. Estes receberam o dom ministerial, descrito em Efésios 4.11. Podemos afirmar que os missionários são os apóstolos da atualidade. O apostolado não é um título pomposo, especial, também não é um cargo hierárquico. Ser apóstolo é ter uma missão específica a cumprir no Reino de Deus.
O apóstolo Paulo - Paulo teve sérios problemas com os crentes de Corinto, pois alguns não reconheciam o seu apostolado. Por isso, ele inicia a primeira carta aos Coríntios, declarando-se apóstolo de Jesus Cristo (1 Co 1.1). Paulo enfatiza que seu chamado se deu "pela vontade de Deus". Os orgulhosos crentes de Corinto não aceitavam o apostolado de Paulo pelo fato dele não ter feito parte do colégio apostólico. Todavia, Paulo teve um encontro pessoal com Cristo no caminho de Damasco (At 9). Este encontro mudou seu ser. A missão confiada a Paulo foi dada pelo próprio Senhor Jesus At 9.15. Os próprios coríntios eram a marca do apostolado de Paulo. Ele declara isso em 1 Coríntios 9.2.
Apóstolo e sevo - Aprendemos com Paulo que ser apóstolo é ser um servo, um cooperador de Deus no ministério da reconciliação (2Co 6.1). Quem deseja o dom ministerial de apóstolo deve seguir os passos de Jesus, estando sempre pronto para servir e não buscar ser servido.
O ministério de Mestre é tão necessário que os demais, e sua importância é a mesma que os demais, não é o último como afirma alguns teólogos, a sua importância é vital em todas as épocas, pois onde ouve avivamento havia ali um mestre.
O ministério de mestre é um e o de Pastor é outro e nunca os dois são um só.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
A partir deste capítulo, estudaremos acerca dos dons ministeriais, que identificam uma diversidade enorme de funções, ofícios e atividades, de homens, chamados por Deus, e designados pela igreja local, para exercerem a operacionalidade de serviços ou ministérios.
Os dons ministeriais são indispensáveis ao “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12). Neste estudo, o texto básico para referência é o capítulo 4, da epístola de Paulo aos efésios. Os dons espirituais são voltados para a igreja em seu ambiente interno, congregacional, com manifestações sobrenaturais, no falar línguas estranhas, profecia, interpretação, dons de curar e outros carismas, os dons ministeriais ampliam a ação do Espírito Santo, com sua ação poderosa e sobrenatural, tanto no âmbito interno como externo, da missão da Igreja, na Terra.
Os dons ministeriais confundem-se com aqueles a quem Deus lhes concede. Se alguém é chamado para ser evangelista, ele mesmo é um “dom”, assim como sua função de evangelizar. E Deus que concede os que podem ser chamados de “homens-dons” à igreja. Por isso, o apóstolo Paulo diz “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros evangelistas, e outros para pastores e doutores” (Ef 4.11). A expressão “ele mesmo deu” indica que o dom precede o ofício. Diz Donald Gee: “Se ‘Ele concedeu, está fora de dúvida náo poder haver ministério divinamente ordenado sem o Seu dom”.
O primeiro dom ministerial que estudaremos é o de apóstolo. Há uma controvérsia que atravessa séculos acerca da atualidade do ministério de apóstolo. Há uma corrente de estudiosos da Bíblia, que podemos chamar de “cessacionista”, a exemplo do que ocorre com a atualidade dos espirituais, que também entende que o ministério apostólico “cessou” com os primeiros discípulos de Cristo. Outros entendem que ainda existem apóstolos, hoje, ainda que numa conotação um tanto diferente dos primeiros doze apóstolos de Cristo. A Igreja Católica tem como patrimônio de fé a chamada “sucessão apostólica”, concedendo aos papas o título de “sucessores de Pedro”, considerado o primeiro papa.
Além dos 12 apóstolos de Cristo, que integraram o chamado “Colégio Apostólico”, vemos, no Novo Testamento, que outros apóstolos foram levantados por Deus, sem que nenhum se considerasse sucessor de outro. Paulo e Barnabé não pertenciam ao “grupo dos 12”; mas eram apóstolos, credenciados por Deus para realizar a missão que lhes foi confiada (1 Co 1.1; Cl 1.1; At 13.46); Tiago, “irmão do Senhor”, também recebia a qualificação de apóstolo (Gl 1.19).
Um apóstolo de Cristo, como Pedro, Tiago ou João, reunia em si diversas funções ministeriais, além da missão de evangelizar, ou de proclamar as Boas-Novas de salvação. Ele tinha que ser, além de evangelista, profeta e mestre. Podemos dizer que um apóstolo, nos primórdios da Igreja, era um homem polivalente. Nos dias atuais, após a expansão da Igreja, percebemos que o Espírito Santo quis distribuir, não só os “dons espirituais”, “repartindo particularmente a cada um como quer” (1 Co 12.11), mas, também, concedendo diversas operações e ministérios à igreja, através de homens, chamados por Deus com variadas missões, concedidas a cada um.
Um dos maiores equívocos, cometidos por muitos líderes de igrejas, nos dias presentes, é o de entender que o título de “Apóstolo” lhes confere posição hierárquica superior ao de pastor, evangelista, bispo ou presbítero. Já são conhecidos exemplos diversos de obreiros, que eram detentores do título de “pastor”, devidamente ordenados por seus ministérios ou convenções, os quais arrogaram para si o título de “apóstolo”, com o objetivo de se colocarem em posição ministerial “superior”. Procedimento totalmente fora de propósito ou de fundamento escriturístico. Esquecem-se tais “apóstolos”, que a maior função, no ministério de Cristo, é o de “servo fiel” (Nm 12.7; Hb 3.5; Mt 25.21-23).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 70-72.
Ef 4.11 O mesmo que levou cativos os poderes também concedeu dons à sua igreja: “os apóstolos, os profetas, os evangelistas, os pastores e mestres”. Diferentemente do v. 7, onde se falava da distribuição de dons individuais para todos os membros da igreja, Paulo aqui designa determinadas pessoas como dom de Cristo. Em vista da proximidade do presente trecho com Ef 1.20-23 é preciso chamar atenção para o fato de que em Ef 1.22 o Cristo exaltado foi “concedido” como cabeça sobre a igreja toda. Logo Cristo é a “dádiva principal” para sua igreja, no seio da qual ele próprio “concede” determinadas pessoas.
De modo diverso da listagem análoga em 1Co 12.28-30, Paulo emprega aqui o artigo definido para cada uma das pessoas. Isso permitiria concluir que na carta aos Efésios não se trata da tarefa em geral, mas do grupo claramente delimitado de representantes incumbidos do serviço específico. Essa diferença também é constatável em relação a Rm 12.6s, onde são arroladas não as respectivas pessoas, mas cada uma das atividades: profecia, diaconia, exortação, etc.
No mesmo sentido Paulo havia falado também em Ef 2.20 do “fundamento dos apóstolos e profetas” e em Ef 3.5 de “seus santos apóstolos e profetas”. Diante das demais considerações em Ef 4.12ss, parece que essa ênfase refere-se especificamente às tarefas de proclamação, direção e ensino. Por isso não são mencionados aqui outros dons da graça que aparecem em Rm 12 e 1Co 12.
Não se deve esquecer que também na primeira carta aos Coríntios os dons da palavra e as pessoas agraciadas com eles aparecem no começo das respectivas listas, de modo que o tratamento do conflito causado por fenômenos entusiastas é marcado por uma clara premissa: isso diz respeito em 1Co 12.8 à palavra da sabedoria e à palavra do conhecimento, dadas pelo Espírito, e em 1Co 12.28 “primeiramente a apóstolos, em segundo lugar a profetas, e em terceiro lugar, a mestres”. A combinação de “profetas e mestres” ocorre em At 13.1. Em 1Tm 2.7 (também em 2Tm 1.11) Paulo relaciona consigo mesmo o serviço de “pregador” (cf. “evangelista”), apóstolo e mestre (dos gentios). É digno de nota que também esse trecho está visivelmente próximo de Ef 4.4ss: a confissão do único Deus e do único Mediador entre Deus e os humanos, que se “deu” como pagamento de resgate, é seguida pela transição para a investidura de Paulo como “arauto” desse evento de salvação.
Segundo esse pensamento Cristo presenteou sua igreja com dons, i. é, com pessoas incumbidas e capacitadas que possuem uma relevância fundamental para a construção e o crescimento da igreja. Trata-se aqui daqueles que proclamaram e explicaram o evangelho da salvação em Jesus Cristo de acordo com a situação atual dos ouvintes, bem como firmaram, exortaram e encorajaram as incipientes igrejas através dessa palavra.
Nesse contexto duas coisas são irrenunciáveis: a importância das referidas pessoas como “detentores de cargo” não vem delas mesmas. Pelo contrário, são presentes do Senhor à igreja dele. Elas, por sua vez, receberam seus dons daquele que é o verdadeiro presente para a igreja (Ef 1.23). Possuem importância fundamental para a constituição da igreja, motivo pelo qual de forma alguma podem ser arbitrariamente substituídos.
Ef 4. 13 A edificação, o crescimento do corpo de Cristo, estão direcionados para um alvo que é indicado neste versículo. A expressão “chegar” pode significar literalmente alcançar um lugar (diversas vezes em At: p. ex., At 16.1; 18.19; etc.), mas também pode ser usada em sentido figurado (o fim dos tempos chegou: 1Co 10.11). Assim como aqui, em Fp 3.11 ela implica a atenta orientação rumo ao alvo visado, quando Paulo afirma de si: “para alcançar a ressurreição dentre os mortos”.
Pode parecer estranho que desde já a igreja seja a “plenitude de Cristo”, concidadã crente dos santos, família de Deus, pedra no templo santo, e que apesar disso ainda se diga que haverá um crescimento, um vir-a-ser. A mesma duplicação já chamara atenção no contexto da herança colocada à disposição: os direitos já foram transferidos, mas ainda não se tomou posse dela (Ef 1.18; 2.7). Consequentemente a plenitude de Cristo é ponto de partida e alvo de todo o crescimento.
Agora isso passa a ser relacionado a uma situação concreta: na realidade pode haver na igreja uma só fé, visto que esta só pode ser fé em um só Senhor Jesus Cristo (Ef 4.5). Na realidade a “unidade do Espírito” é algo dado, porque o Espírito Santo é um só (Ef 4.3). Não obstante cabe “segurar” essa unidade, ou “chegar” a ela. A força motriz de todos os esforços nessa direção não é a utopia de uma igreja unificada, mas a realidade do único corpo de Cristo.
A unidade da fé está estreitamente ligada à “unidade do conhecimento”, que por sua vez se concentra no “Filho de Deus”. Em Ef 1.17-19 Paulo já suplicara pelo Espírito da sabedoria, para que os leitores reconheçam a esperança e a força resultante da ressurreição de Cristo. De maneira semelhante Cl 2.2 interliga o esforço para que “os corações sejam unidos em amor” e o “conhecimento do mistério de Deus: Cristo”. Por isso uma fé aumentada e um conhecimento aprofundado do Filho de Deus caracterizam o crescimento da unidade eclesial.
À unidade corresponde a perfeição. A igreja, “todos nós”, devemos nos tornar “seres humanos perfeitos”: “unidade e perfeição constituem o alvo da igreja, e o Cristo concede participação a cada um nessa unidade e perfeição; ao procurar „chegar‟, impelido pela palavra de Deus, o indivíduo cresce em direção ao alvo da totalidade.”
Discordando de tentativas equivocadas de derivação de concepções gnósticas, o “ser humano perfeito” deve ser entendido como a pessoa amadurecida, adulta. Isso é elucidado pela segunda expressão: “para a medida cheia da plenitude de Cristo”. “Medida plena” é a tradução literal para “medida da idade da vida” ou também “medida da estatura”. Trata-se da “idade adulta” ou da “medida cheia da figura”. O trabalho dos encarregados edifica o corpo de Cristo. Terá alcançado seu tamanho completo “quando todos que são destinados à igreja segundo o plano divino de salvação pertencerem à igreja… A igreja, que é o corpo do Cristo, constitui na estatura completa o pleroma de Cristo.”
Eberhard Hahn. Comentário Esperança Efésios. Editora Evangélica Esperança.
A Classificação dos Dons (Ef 4.11)
Tudo indica que Paulo, quando escreveu estas palavras, tinha em mente a lista dos ministérios relacionados em 1 Coríntios 12.28. A passagem coríntia compreende uma lista mais longa de dons espirituais (charismata). Mas nesta passagem, Paulo está interessado em apresentar os ofícios necessários para a expansão e sustento da igreja. Cristo deu à igreja os apóstolos: os ministros supremos, os doze que haviam visto o Senhor ressurreto e recebido suas tarefas diretamente dele. Os profetas têm posição proximal à dos apóstolos, e o seu dom especial era o de ministério inspirado. Foulkes afirma que a função primária dos profetas era similar à dos profetas do Antigo Testamento: “anunciar” a palavra de Deus. Porém, ocasionalmente prediziam acontecimentos futuros, como em Atos 11.28 e 21.9,ll.30 Os evangelistas eram pregadores itinerantes, que iam de lugar em lugar para ganhar os incrédulos (cf. 2 Tm 4.5), de modo muito semelhante como se faz hoje.
Certos intérpretes sugerem que as primeiras três categorias se aplicam à igreja universal, ao passo que as outras duas se ajustam especificamente à igreja local. Pastores são pastores de um rebanho de comunicantes; a palavra grega (poimen) empregada aqui significa, literalmente, “pastor de ovelhas”. A tarefa dos pastores é alimentar o rebanho e protegê-lo dos perigos espirituais. Doutores pode ser uma outra função do pastor. Bruce afirma que estes dois termos “denotam a mesma e uma única classe de homens”.31 Contudo, pode ser que os doutores representem uma classe de responsabilidade um tanto quanto menor que os pastores, mas que, mesmo assim, detêm lugar especial na igreja. Os cinco ministérios são concedidos pelo Espírito e dados por Cristo à sua igreja.
Estes dons ministeriais são dados para promover maturidade. O versículo 13 rememora o anterior e oferece explicação adicional da “edificação” da igreja. Uma vez mais, Paulo usa três frases, cada uma iniciada com a preposição grega eis: 1) à unidade da fé; 2) a varão perfeito; 3) à medida da estatura completa de Cristo. Estas não são idéias paralelas. A primeira fala do meio da maturidade, a segunda fala da realidade da maturidade e a terceira fala da medida da maturidade. Uma tradução melhor do versículo seria esta: “Assim, todos finalmente atingiremos a unidade inerente em nossa fé e em nosso conhecimento do Filho de Deus, e chegaremos à maturidade, medida por nada menos que a estatura completa de Cristo” (NEB).32
A unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus constitui o meio do amadurecimento (cf. RA). A unidade é um dom do Espírito (cf. 3), mas requer-se fé e conhecimento para recebê-la. Neste texto, a fé é a resposta que damos ao Filho de Deus e a nossa confiança nele — Deus manifestado na carne que morreu no Calvário em nosso benefício. Aqui, conhecimento (epignosis) é semelhante à fé no ponto em que significa “compreensão, familiaridade, discernimento”. Não devemos equipará-lo a conhecimento intelectual, mas a relações pessoais. A unidade se origina dessa intimidade com o Filho proporcionada pela graça. Paulo não está falando da experiência inicial com Cristo. O apóstolo se preocupa com o crescimento e aumento em entendimento e compreensão dos propósitos e vontade de Deus conforme estão revelados em associação com Cristo. Os membros da igreja podem e devem ter tal crescimento em maior medida enquanto o servem.33
A varão perfeito refere-se ao nível de maturidade coletiva e individual na igreja, no qual o poder de Deus se manifesta inteiramente em santidade e justiça. Tal estado será atingido em seu significado máximo futuramente, quando possuirmos a graça de Cristo na perfeição da ressurreição (cf. Fp 3.7-16).34
A medida da estatura completa de Cristo é o padrão de medida que determina a maturidade cristã. Hodge escreve: “A igreja se torna adulta, homem perfeito, quando alcança a perfeição de Cristo”.36 A chave para interpretar o versículo é a expressão estatura completa de Cristo. Qual é esta estatura? Salmond diz que é “a soma das qualidades que fazem o que ele é”.36 Quando a igreja está à altura da maturidade plena do seu Senhor, ela é perfeita. E à medida que cresce em direção a essa maturidade, ela fica mais próxima de sua meta em Cristo. Precisamos também destacar que não há crescimento na igreja separadamente de nosso crescimento individual como crente. É cada um de nós individualmente que tem de se dirigir com empenho à estatura completa de Cristo.
Willard H. Taylor. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag.160-162.
O apóstolo então nos relata quais foram os dons de Cristo na sua ascensão: “E ele mesmo deu uns para apóstolos...” (v. 11). Na verdade, Ele enviou alguns desses antes da sua ascensão (Mt 10.1-5), mas um foi acrescentado depois (At 1.26). E todos eles foram mais solenemente empossados e publicamente confirmados, em seu ofício, pelo seu derramar visível do Espírito Santo de uma forma extraordinária. Observe: O grande dom que Cristo deu à igreja na sua ascensão foi o ministério da paz e da reconciliação. O dom do ministério é o fruto da ascensão de Cristo. E ministros têm seus vários dons, que são todos dados pelo Senhor Jesus. Os ministros que Cristo deu à sua igreja eram de dois tipos - os extraordinários, investidos de um ofício superior na igreja: tais eram apóstolos, profetas e evangelistas. Os apóstolos eram os dirigentes. Cristo os investiu com dons extraordinários, poder para operar milagres e uma infalibilidade para anunciar sua verdade. Tendo eles sido testemunhas dos seus milagres e doutrina, Ele os enviou a espalhar o evangelho e a implantar e governar igrejas. Os profetas expunham os escritos do Antigo Testamento e prediziam as coisas do futuro. Os evangelistas eram pessoas ordenadas (2 Tm 1.6) que os apóstolos levavam como companheiros de viagem (G12.1), e os enviavam para estabelecer igrejas que eles, os apóstolos, tinham implantado (At 19.22). Os evangelistas não estavam presos a nenhum lugar específico; por isso, deveriam continuar o seu trabalho até que fossem chamados de volta (2 Tm 4.9). Também existem os ministros ordinários, empregados em uma esfera mais restrita tais como pastores e mestres. Alguns entendem que esses dois nomes significam um ofício só, envolvendo as tarefas de governar e ensinar. Outros entendem que eles representam dois ofícios distintos, ambos regulares e de uso permanente na igreja. Os pastores são colocados como dirigentes principais de igrejas particulares, com o intento de guiar, instruir e alimentar os membros de acordo com as instruções de Cristo. Eles são frequentemente chamados de bispos e anciãos. Os mestres eram aqueles que também pregavam o evangelho e instruíam o povo por meio da exortação. Vemos aqui que é prerrogativa de Cristo designar oficiais e ofícios em sua igreja. A igreja é rica pelo fato de ter tido uma diversidade tão grande de oficiais e continuar tendo uma diversidade tão grande de dons! Como Cristo é amável com sua igreja!
Quão grande é o seu cuidado por ela e pela sua edificação! Quando Ele subiu, enviou o dom do Espírito Santo; e os dons do Espírito Santo são vários: alguns receberam mais, outros, menos; mas todos os dons são para o bem do corpo, o que nos leva ao terceiro argumento:
Todos são designados para preparar-nos para o céu: “...até que todos cheguemos...”(v. 13). Os dons e ministérios (alguns deles) que foram mencionados devem continuar na igreja até que os santos sejam aperfeiçoados, o que não acontecerá “...até que todos cheguemos à unidade da fé (até que todos os verdadeiros crentes se unam, por meio da mesma preciosa fé) e ao conhecimento do Filho de Deus”, o que não quer dizer um conhecimento meramente especulativo, ou o reconhecimento de Cristo como o Filho de Deus e o grande Mediador, mas como deveria ser observado, com apropriação e afeto, com a devida honra, confiança e obediência; “...a varão perfeito”, para o crescimento completo dos dons e graças, livre das fragilidades imaturas às quais estamos sujeitos no presente mundo; “...à medida da estatura completa de Cristo”, tornando-nos cristãos maduros em todas as graças providas pela plenitude de Cristo. Ou, de acordo com a medida dessa estatura que é completar a plenitude de Cristo e seu corpo místico. Nunca chegaremos a ser o varão perfeito, até que cheguemos ao mundo perfeito. Há uma plenitude em Cristo, e uma plenitude a ser obtida dele; uma certa estatura dessa plenitude e uma medida dessa estatura são determinadas no conselho de Deus para cada crente, e nunca chegaremos a essa medida até chegarmos ao céu. Os filhos de Deus, enquanto estiverem neste mundo, estão crescendo. O Dr. Ligthfoot entende que o apóstolo está falando aqui dos judeus e gentios ligados na unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, constituindo, dessa forma, um homem perfeito, e a medida da estatura completa de Cristo.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 592.
A Igreja é Unificada, Mas Diversificada (12.27-30)
Em seguida, Paulo faz sua aplicação: Vós sois o corpo de Cristo. “A igreja de Corinto como tal é o corpus Christi, um organismo feito por Cristo e mantido por Ele, e tem o caráter de um corpo como o que foi descrito”.46 Como na realidade a igreja é um organismo espiritual, os indivíduos são seus membros em particular. Cada um deles pertence ao corpo. Portanto, ninguém pode legitimamente afirmar ser mais importante que os outros, e nem ninguém deve considerar o outro como seu inferior.
a) A Igreja unificada tem muitas funções e diferentes dons (12.28). Paulo agora passa das idéias gerais para questões específicas. Ele mostra que no corpo de Cristo os homens não escolhem esta ou aquela função, e também não escolhem os seus dons. Foi Deus quem pôs cada um na igreja para fazer coisas particulares.
Estas funções e estes dons estão relacionados da seguinte maneira: 1) apóstolos, 2) profetas, 3) doutores, 4) milagres, 5) dons de curar, 6) socorros, 7) governos, 8) variedades de línguas. “A ordem na qual... a relação de ministérios foi expressa é deliberada. Os apóstolos receberam o lugar mais elevado, e aqueles que falam em línguas o mais baixo”.47 Outro texto faz ecoar a mesma idéia: “Em Corinto... era necessária a presença de um intérprete para explicar a língua àqueles que não a conheciam. Portanto, Paulo colocou esse dom na posição mais baixa de todas. Ele suscitou admiração, porém o seu benefício foi um tanto restrito”.48 Ainda outro autor escreve: “Em vez de uma simples enumeração, Paulo preferiu fazer um arranjo na ordem da classificação”.49 As funções, os dons, e sua importância podem ser analisados de forma breve.
1) Apóstolos. Estes foram homens convocados e comissionados diretamente por Cristo para serem suas testemunhas.
2) Profetas. Os profetas eram aqueles convocados para predizer o curso da história redentora, para proclamar a mensagem de Deus e para exortar.
3) Doutores. Os doutores eram considerados extremamente essenciais e necessários ao bem-estar da Igreja Primitiva. Em uma época em que os livros eram raros, os doutores significavam uma peça fundamental para apresentar e interpretar os ensinos do AT e as doutrinas da igreja.
4) Milagres. Paulo passa de “pessoas dotadas a dons abstratos”.50 Aparentemente, Deus concedeu a algumas pessoas poderes especiais para realizar feitos que seriam impossíveis do ponto de vista da capacidade humana (cf. v. 10).
5) Dons de curar. A Igreja Primitiva foi testemunha de curas dramáticas e de eventos de instantânea recuperação da saúde (At 3.1-11; 9.32-42).
6) Socorros. Alguns membros da igreja mostravam um cuidado especial, compaixão e capacidade para socorrer os necessitados. A referência também pode estar mencionando pessoas que agiam como secretários da igreja, tesoureiros ou pastores assistentes.
7) Governos. A palavra governos (kyberneseis) “denota a atividade do timoneiro de um navio, do homem que pilota o barco através de perigosos bancos de areia e o conduz com segurança até o porto”.51 Portanto, ele provavelmente está se referindo “aos administradores do governo da igreja, como os presbíteros”.
8) Variedades de línguas. Em relação a este dom, Clarke escreve: “E o poder de falar, em todas as ocasiões necessárias, línguas que eles não tinham aprendido”.53 Alguns estudiosos acreditam que esse dom carismático inclua o dom das línguas inteligíveis do Pentecostes, assim como as da pneumatika de 14.2ss. Outros afirmam que os dons (charismata) são diferentes da pneumatika.
b) A realidade da diversidade na igreja (12.29-30). Agora Paulo faz uma série de perguntas retóricas. São todos apóstolos? São todos profetas? Estas perguntas, em grego, foram introduzidas com a partícula me, o que indica que ele esperava uma resposta negativa. A atitude cristã é aceitar a diversidade na igreja e honrar e respeitar todos os seus membros por serem importantes e essenciais.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 311-312.
I Co 12. 27 Paulo aposta tudo no mostrar a vida do corpo com seus membros em toda a sua realidade. Nessa realidade encontram-se também os coríntios. “Ora, vós sois corpo de Cristo; e, individualmente, membros desse corpo.” Também aqui está em primeiro lugar o ser, a condição real concedida. Paulo obviamente também sabe que uma igreja como ―corpo‖ não funciona por si mesma como o corpo humano. Na verdade não temos de primeiro constituir o corpo de Cristo nem ―fazer‖ de nós membros. No entanto, podemos prejudicar ou até destruir o que nos foi concedido. É por isso que Paulo escreverá o capítulo 13 e dará no capítulo 14 instruções marcantes para a vida da igreja. Inicialmente, porém, sua preocupação é dizer aos coríntios: ―Tudo o que agora lhes mostrei no corpo humano realmente existe; vocês são o corpo de Cristo, vocês são membros. Portanto vocês têm a unidade na multiformidade dos membros, dons, poderes e serviços e possuem toda essa riqueza na unidade da igreja.‖
I Co 12. 28 Na seqüência Paulo retorna ao que ele havia dito nos v. 7-11 sobre os carismas. Agora, no entanto, depois do ensinamento sobre a igreja como ―corpo‖, isso se pode tornar palpável aos coríntios ainda de outro modo. Agora Paulo acrescenta à plenitude dos dons de serviço, que são recebidos respectivamente por indivíduos na igreja, os três ministérios, que evidentemente não são dons variáveis, mas se tornam a firme ―vocação‖ de determinadas pessoas. É por isso que agora ele não cita dons e poderes, mas pessoas, com uma contagem expressa de sua seqüência: “A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres.”
Nesse caso a palavra ―igreja‖ não se refere isoladamente à congregação de Corinto, mas à igreja em si, à igreja em todos os lugares, que se forma pelo trabalho dos apóstolos e cujo surgimento é alvo específico justamente do serviço dos “apóstolos”. Contudo é significativo que a totalidade das ―igrejas locais‖ não receba um nome diferente, assim como a igreja em Corinto por outro lado também não recebe a designação depreciativa de igreja ―local‖. Tudo é essencial e integralmente ―igreja‖, a multidão dos que crêem em Corinto e em outros locais, bem como a soma de todos os crentes na face da terra. A totalidade das igrejas não é mais importante nem ―igreja‖ ou ―denominação‖ num sentido superior do que a ―igreja local‖ em Corinto, Filipos ou Icônio.
Ao serviço de fundação de igrejas pelos apóstolo agregam-se “profetas” e “mestres”. Desde já somos lembrados com clareza de que ―ser profeta‖ é algo diferente do que ter os dons de ―profetizar‖ que Paulo deseja com tanta insistência a todos os membros da igreja. Em 1Co 14 nos depararemos novamente com esse fato. O ―profeta‖ recebe certeza sobre a vontade e os planos de Deus, comunica-os à igreja e, assim, dirige a igreja. A igreja, porém, de forma alguma depende unicamente de revelações proféticas renovadas. Ao lado do ―profeta‖ está o “mestre”, que com base na palavra de Deus é capaz de mostrar à igreja de forma abundante o que Deus lhe concede e o que ele quer dela. Em conseqüência, na presente carta Paulo se apresenta de forma muito especial como ―mestre‖, que não anuncia à igreja oráculos proféticos, mas que a conduz para entender e captar verdade divina.
Diferentemente de Ef 4.11, não se mencionam aqui os ―evangelistas‖ e os ―pastores‖. Ao falar dos ―apóstolos‖ Paulo talvez esteja pensando não apenas nos apóstolos em sentido mais restrito, mas também nas pessoas que mais tarde serão especialmente citadas como ―evangelistas‖. Afinal, prosseguem o trabalho dos ―apóstolos‖, anunciam a mensagem salvadora de Jesus, a fim de fazer com que das pessoas salvas se forme a ―igreja‖, ou que uma igreja já existente cresça por meio delas. O ―serviço pastoral‖ acontecia tanto por meio dos ―apóstolos, profetas e mestres‖, como também através do serviço recíproco dos membros da igreja (Cl 3.16; 1Ts 4.18; 5.11), e somente mais tarde se destacou como uma atividade própria conferida a determinados membros. A designação ―pastores‖ também pode referir-se às pessoas que de resto são chamadas de ―presbíteros‖ e que conforme At 20.28 têm de executar especialmente o serviço de ―pastorear‖ a igreja. Lá Paulo os designa de ―bispos‖. No primeiro cristianismo tudo ainda é bastante livre e flexível, sem ―cargos‖ instituídos.
Às pessoas singularmente vocacionadas de forma permanente agregam-se os ―dons‖ concedidos aos respectivos membros da igreja para o serviço. Não são citadas outra vez a ―palavra de sabedoria‖, a ―palavra do conhecimento‖ e a ―fé‖. Em contrapartida são acrescentados aos ―poderes de milagre‖ [tradução do autor] e “dons de curar” ainda a “assistência” [TEB] e os ―dons de direção‖, que faltam nos v. 8-10. Para prestar assistência e para dirigir obviamente há também capacidades naturais, que não devem ser desprezadas na igreja. Contudo, considerando que uma ―igreja‖ não é uma organização secular, e sim um organismo ―pneumático‖ = espiritual, nesse caso, por natureza, nem mesmo a melhor aptidão natural será suficiente. Também toda ―assistência‖ e ―direção‖ carece de um ―dom‖ que somente pode ser presenteado pelo Espírito Santo. No entanto é significativo que os “dons de direção” não se encontrem entre os primeiros, mas entre os últimos carismas. Ao mesmo tempo somos lembrados de que justamente também para os necessários cargos de direção não devemos buscar unilateralmente por pessoas com as respectivas aptidões inatas, mas que podemos rogar sinceramente pelos dons espirituais da ―direção‖ e da ―administração‖. Do contrário, com quanta facilidade a igreja e suas obras se tornam mundanas por intermédio dos que por nascimento têm a natureza de comandar! Também agora as “variedades de línguas” são mencionadas em último lugar.
I Co 12. 29,30 Após essa listagem dos múltiplos serviços e dons necessários para a vida da igreja Paulo novamente se dedica a combater as mazelas em Corinto que – a partir de complexos de inferioridade e de arrogância – tolhiam a boa vida da igreja. Por essa razão ele cita outra vez os serviços e dons, agora, porém, perguntando se “porventura todos” na igreja detêm igualmente cada um desses serviços e possuem cada um desses dons espirituais. É evidente que aqui a resposta somente pode ser: ―Não, obviamente que não.‖ Não é obrigatório que todos tenham e saibam tudo. Cada um pode servir em seu lugar com o seu dom. A igreja como um todo obviamente pode e deve ser rica em muitas forças e capacidades, serviços e efeitos. É isso que perfaz sua vitalidade. Porém ela é rica quando cada um de seus muitos membros possui algo dessa riqueza e a coloca a serviço do todo.
Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos I Corinto. Editora Evangélica Esperança.
Começando com o v. 12, Paulo dera o relato detalhado da inter-relação dos membros e órgãos que há no organismo humano, indicando, contudo, mesmo no v. 13, que quis que a aplicação fosse feita ao caso da igreja. E aqui ele afirma que toda esta passagem deve ser aplicada à congregação cristã: Vós sois o corpo de Cristo, e muitos membros. Em relação a Cristo tendes a relação dum corpo, em relação de uns aos outros tendes a relação de membros. Por isso na igreja deviam ser levadas em conta as lições dos membros descontentes e menos nobres, o orgulho dos membros mais corretos, e do cuidado mútuo e da solicitude dos membros em geral. E Paulo francamente afirma que há de fato uma diversidade de talentos, de ministérios, de realizações na igreja. Foi Deus quem operou estas distinções. Foi Ele quem escolheu e estabeleceu certos funcionários na igreja, sendo que eles detiveram um ofício pela Sua vontade, At. 20.. 28. Havia, primeiro, os apóstolos, que constituíram os mestres de toda a igreja até o fim do tempo, originalmente por meio da palavra proclamada, depois por sua doutrina transmitida de forma escrita. Havia, em segundo lugar, profetas, que foram homens que tinham o dom da profecia, vv. 8, 10. Em terceiro lugar, havia os mestres, homens que foram capazes de ensinar a doutrina transmitida, e de aplicá-la aos casos individuais. Estes três representaram as ordens de ensino. E na congregação em geral, e sem distinção devida ao cargo, se encontravam poderes milagrosos, dons de cura, vv. 9, 10; socorros, que era a tarefa que principalmente era feita pelos diáconos; governos, que era a obra que foi realizada pelos funcionários executivos na organização da congregação; e, por fim, variedades de línguas, v. 10.
Nota: Aqui evidentemente o apóstolo se refere à organização visível da igreja, à qual Ele confiara a administração dos meios da graça. Quando uma pessoa que se chama cristã evidencia o espírito de independência, mantendo que pode ignorar o trabalho do ministério, então este não está em conformidade com esta passagem das Escrituras.
Deus concedeu os ofícios e distribuiu os dons, mas Ele em pessoa fez a distinção, escolhendo os veículos de Sua graça assim como Ele o julgou melhor. Insatisfação com a posição designada a qualquer um na igreja é rebelião contra o Seu governo: São todos apóstolos? Todos profetas? todos mestres? todos poderes? Possuem todos dons de curas? Falam todos em línguas?
Todos interpretam? Na igreja todos os cristãos não podem ser tudo, não podem deter todos os ofícios, não podem possuir todos os mesmos dons; o Senhor distribuiu os dons, e todos são responsáveis a Ele, seja o dom que lhes foi confiado grande ou pequeno em sua apresentação diante das pessoas. Que o apóstolo, o profeta, o mestre, o curador, o intérprete, o diácono fazer, sem ciúme, cada um seu trabalho no lugar que lhe foi indicado, como também se estar descontente com seu fardo. Todas estas posições são necessárias e mutuamente são interdependentes; todas elas devem servir para glória do Senhor e para o bem-estar de Seu povo. O auto-engrandecimento e o ciúme são a morte do verdadeiro trabalho da igreja.
Em lugar de fomentar o orgulho e a vaidade, os cristãos de todos os tempos devia, ao contrário, empenhar seus esforços em outro sentido: Mas sede zelosos pelos dons melhores, lutai por aqueles dons do Espírito que são para o melhor benefício da obra do Senhor na igreja. Quando os cristãos são realmente ansiosos para estarem dispostos na obra do Senhor, por meio dum empenho totalmente altruísta, então o Senhor há de recompensar este zelo devoto. A tais pessoas será concedida a oportunidade de dispor seus talentos para o Rei da graça. Paulo não só quer exortar seus leitores para este fim, mas também deseja mostrar-lhes uma maneira excelente, um meio impar, por meio do qual poderão alcançar o cumprimento de seu desejo e serem colocados numa posição em que podem servir a igreja em todos os seus membros, para a glória de Deus.
Resumo: O apóstolo discute a diversidade dos dons do Espírito, assim como são distribuídos para a vida da igreja, sendo todos necessários e sendo todos honrosos quando usados apropriadamente, como ele o mostra por meio duma comparação detalhada dos membros do organismo humano e suas funções, mas que nenhum deve ser buscado num espírito de emulação.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento. Editora Concordia Publishing House.
1 - O COLÉGIO APOSTÓLICO
1. O termo “apóstolo”.
Na língua grega, em que foi escrito o Novo Testamento, a palavra apóstolo tem o significado de um enviado, um mensageiro ou um delegado. “Apóstolos. Um delegado; especialmente um embaixador do evangelho; oficialmente, uma pessoa comissionada por Cristo [um apóstolo’] (com poderes miraculosos): — apóstolo, mensageiro, aquele que é enviado”.2 Essa é a conceituação de apóstolo, em seu sentido original. Apóstolo não é qualquer pessoa que “vai” ou que é mandada por alguém, numa visão humana. “O apóstolo é enviado por Cristo do mesmo modo pelo qual foi Ele enviado pelo Pai; e pelo menos com algo quanto de tudo implica autoridade e poder, e graça e amor”.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 72.
Em sentido litúrgico, isso traz em si a idéia de um confessionário, onde o pecador arrependido busca perdão para seus pecados. No caso dos santos, esse confessionário são os pés de nosso Senhor Jesus Cristo. Jesus foi constituído por Deus como “... apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão”. Diante dEle: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (I Jo 1.9).
Severino Pedro Da Silva. Epistola aos Hebreus coisas novas e grandes que Deus preparou para você. Editora CPAD. pag. 46.
O autor demonstrou tanto a divindade quanto a humanidade do Messias e toda a adequação do seu sofrimento e morte. Pelo que (Em vista disso), ele agora desafia seus irmãos santos, que participam com ele na vocação celestial, a considerar cuidadosamente o apóstolo e sumo sacerdote da sua confissão, Jesus Cristo (l). Esta comparação não é feita em relação aos anjos, Adão ou Abraão, mas em relação a Moisés. A voz de Moisés havia se tornado virtualmente a voz de Deus no pensamento hebraico. Um apelo a Moisés respondia a todas as perguntas. A transferência de fé e lealdade de Moisés para o Homem da Galiléia era muito difícil, e a pressão para retomar a Moisés era constante.
Os devotos de Moisés podiam apontar para os milagres no Egito, os acontecimentos poderosos no Sinai e a saída da nação da terra do Egito. Os discípulos de Jesus podiam apontar somente para os milagres locais em indivíduos e um pequeno bando de seguidores desprezados. Moisés morreu com dignidade no topo de um monte e foi enterrado pelos anjos (Dt 34.9; Jd 9); Jesus passou por uma morte pública desonrosa e cruel nas mãos dos seus inimigos. Os discípulos de Jesus se apegaram à sua ressurreição e à promessa da glória futura — uma promessa que até então não mostrava sinais de materialização. E a ressurreição era prova de superioridade somente para aqueles que criam nela. Na tentativa de provar que Jesus é maior que Moisés, precisamos observar que a ressurreição não faz parte da argumentação. Em vez disso, o argumento está baseado somente na identidade, já vista nas Escrituras do AT, de que Jesus é o divino Filho de Deus. Mas, independentemente da abordagem, o autor é verdadeiramente paulino em sua explanação de como Cristo ofuscou completamente a Moisés. A pergunta da perpetuidade da autoridade de Moisés surgiu muito cedo na Igreja, mesmo em Jerusalém, e a primeira grande assembléia foi convocada para resolver esta questão (At 15). Na sua firme oposição à tendência dos judaizantes de tornar o cristianismo uma forma de judaísmo, Paulo e o escritor aos Hebreus, se não são a mesma pessoa, tinham ao menos a mesma opinião.
Richard S. Taylor. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 10. pag. 36.
Os títulos que ele dá a Cristo, a quem ele quer que eles considerem: (1) Como o apóstolo da nossa confissão, o primeiro-ministro da igreja do evangelho, um mensageiro e o principal mensageiro enviado por Deus aos homens, com a mais importante missão, o grande revelador daquela fé em que professamos crer e da esperança que professamos ter. (2) Não somente como o apóstolo, mas também como o sumo sacerdote da nossa profissão de fé, o principal ministrante do Antigo Testamento, como também do Novo, o cabeça da igreja em qualquer estado, e em cada dispensação, de cuja satisfação e intercessão confessamos depender para o perdão dos pecados e a aceitação por parte de Deus. (3) Como o Cristo, o Messias, o ungido e em todas as formas qualificado para a missão tanto de apóstolo quanto de sumo sacerdote. (4) Como Jesus, nosso Salvador, o que nos cura, o grande médico da nossa alma, tipificado na serpente de bronze que Moisés levantou no deserto, para que os que haviam sido picados pelas serpentes de fogo pudessem olhar para Ele e ser salvos.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 767.
Ao enraizamento da existência humana na eternidade de Deus corresponde, porém, uma orientação espiritual da vida que tem de parecer contraditória ao pensamento natural. O apóstolo convoca os fiéis: considerai atentamente (“voltem seu olhar firmemente para”) o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus! Acaso não é impossível olhar para uma pessoa que nem sequer está visivelmente presente? Esse questionamento válido prontamente deixa claro para nós que não se está pensando num processo de percepção física, mas em uma experiência espiritual. O apóstolo refere-se à atualidade de Deus em nossa vida, da qual devemos nos conscientizar repetidamente (cf. de modo análogo 2Tm 2.8: “Mantém na memória a Jesus Cristo”).
Pelo que se evidencia, é intencional que o autor cite, aqui como em Hb 2.9 e 12.2, somente o nome de Jesus, sem o título messiânico Cristo. Trata-se da identidade do Senhor terreno como o exaltado. O Cristo celestial, ao qual vêem com os olhos do coração (Ef 1.18), não é outro senão o Jesus de Nazaré anunciado pelos apóstolos. A participação na vocação celestial, a saber a filiação pessoal de cada fiel à igreja, impõe, assim como a nuvem de testemunhas (Hb 12.1,2), um compromisso interior, para manter o olhar da fé dirigido para Jesus, i. é, para permanecer na inviolada comunhão de vida com ele.
Novamente não se pode separar a confissão da fé da vida com o Senhor e da integração na igreja. Nessa confissão o apóstolo não entende uma confissão de fé qualquer de uma igreja, fixada por escrito, mas sim o firme testemunho da salvação pessoal em Cristo, que cada filho de Deus deve ao mundo, justamente quando se tem em vista a ameaça que significam para ele os poderes antidivinos (Rm 10.10).
Quando em nosso versículo se fala de Jesus, o Apóstolo e Sumo Sacerdote, então dois fatos básicos da salvação constituem o conteúdo da confissão: Jesus é o último enviado de Deus, que pelo seu sacrifício efetuou a expiação perfeita de toda a culpa dos seres humanos.
Fritz Laubach. Comentário Esperança Hebreus. Editora Evangélica Esperança.
2. O colégio apostólico.
Entende-se por “Colégio apostólico” o grupo dos 12 primeiros discípulos de Jesus, que foram convidados por Ele para dar início ao seu ministério terreno. Primeiramente, Ele os fez discípulos ou seguidores. Jesus foi o Apóstolo Líder do Grupo dos Doze. Ele foi enviado pelo Pai (Jo 20.21). Foram três anos aproximadamente, em que eles aprenderam as verdades de Deus com o maior Mestre da História. Após o seu disci- pulado, aos pés de Cristo, e o recebimento do batismo com o Espírito Santo (Lc 24.49; At 1.8), aqueles 12 foram enviados para proclamar o evangelho, ou as Boas-Novas de salvação (Lc 6.13). Eles constituíram a base ministerial para o crescimento, o desenvolvimento e a expansão do Reino de Deus e da Igreja de Cristo, por todo o mundo.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 72-73.
A escolha que Jesus fez dos doze discípulos que gradualmente se reuniram ao seu redor é uma importante referência na história do evangelho.
Tal ato divide o ministério do nosso Senhor em duas partes provavelmente muito semelhantes quanto à duração, mas diferentes quanto à extensão e a importância do trabalho realizado em cada uma. No período inicial Jesjjs trabalhou sozinho; suas obras milagrosas estavam confinadas a uma área limitada, e seu ensino era, em sua maior parte, de caráter elementar. Mas na ocasião em que os doze foram escolhidos, a obra do reino "assumiu dimensões que requeriam organização e divisão de trabalho. O ensino de Jesus estava começando a ser de natureza mais profunda e elaborada, e suas atividades beneficentes estavam crescendo muito.
E provável que a escolha de um número limitado de discípulos para ser seus companheiros íntimos e constantes tenha se tornado uma necessidade para Cristo, em conseqüência de seu próprio sucesso ao fazer discípulos. Seus seguidores eram tão numerosos a ponto de serem um impedimento aos seus movimentos, especialmente nas longas jornadas que marcam a parte posterior de seu ministério. Era impossível que todos os que criam pudessem então continuar a segui-lo de modo literal, para onde quer que Ele fosse: o grande número de pessoas agora poderia ser apenas de seguidores ocasionais. Mas era seu desejo que alguns homens escolhidos estivessem consigo em todos os momentos e em todos os lugares — seus companheiros de viagem em todas as suas jornadas, testemunhando toda a sua obra e ministrando às suas necessidades diárias. E assim, nas palavras singulares de Marcos: “E subiu ao monte e chamou para si os que ele quis; e vieram a ele. E nomeou doze para que estivessem com ele...”.
Estes doze, contudo, como sabemos, deveriam ser mais que meros companheiros de viagem ou servos comuns do Senhor Jesus Cristo. Eles deveriam ser, então, aprendizes da doutrina cristã, e ocasionais cooperadores das obras do reino, e mais tarde agentes treinados, escolhidos por Cristo para propagar a fé depois que Ele deixasse a terra. A partir do momento em que foram escolhidos, de fato, os doze iniciaram um aprendizado regular para o grande ofício do apostolado, no curso do qual deveriam aprender, na privacidade de um relacionamento íntimo diário com seu Mestre, como deveriam ser, agir, crer, e ensinar como suas testemunhas e seus embaixadores no mundo. Doravante o treinamento desses homens deveria ser uma parte constante e proeminente da obra pessoal de Cristo. Ele os orientava à noite a respeito do que deveriam falar de dia, e falava aos seus ouvidos o que nos anos posteriores anunciariam publicamente.
A ocasião em que ocorreu essa eleição (embora não se conheça tal data com precisão) é fixa em relação a certos eventos-chave da história do evangelho. João se refere aos doze como uma companhia organizada na ocasião em que o Senhor realizou o milagre de alimentar mais de cinco mil pessoas, e do discurso sobre o Pão da vida na sinagoga de Cafarnaum, proferido pouco tempo após aquele milagre. Desse fato aprendemos que os doze foram escolhidos pelo menos um ano antes da crucificação; pois o milagre da multiplicação dos alimentos ocorreu, de acordo com o quarto evangelista, logo após a festa da Páscoa. A partir das palavras ditas por Jesus aos homens que havia escolhido, transmitindo a sua pergunta em relação à fidelidade devida a ele depois da multidão tê-lo abandonado: “Não vos escolhi a vós os doze? E um de vós é um diabo”, concluímos que a escolha não era tão recente. Os doze haviam estado juntos durante tempo suficiente para dar ao falso discípulo a oportunidade de mostrar o seu verdadeiro caráter.
Voltando agora aos evangelistas sinópticos, encontramo-los tentando estabelecer a posição da eleição em referência a dois outros eventos ainda mais importantes. Mateus fala pela primeira vez dos doze como um corpo distinto em relação à sua missão na Galiléia. Ele não diz, contudo, que foram escolhidos imediatamente antes e com referência direta a tal missão. Antes, fala como se a fraternidade apostólica já existisse anteriormente, sendo estas as suas palavras: “E, chamando os seus doze discípulos...”
Lucas, por outro lado, faz um relato formal da eleição, como um prefácio de seu relatório do Sermão ia Montanha, dando a impressão de que um evento ocorreu logo após o outro5. Finalmente, a narrativa de Marcos confirma o ponto de vista sugerido por essas observações de Mateus e Lucas, isto é, os doze foram chamados pouco antes da realização do Sermão da Montanha, e um tempo considerável antes de terem sido enviados em missão para pregar e curar. Está escrito: “E subiu ao monte (t )6 e chamou para si os que ele quis” — a subida obviamente se refere à ocasião em que Jesus subiu antes de pregar seu grande discurso. Marcos continua: “E nomeou doze para que estivessem com ele e os mandasse a pregar e para que tivessem o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios”. Aqui há uma alusão feita a uma intenção da parte de Crist® de enviar seus discípulos em uma missão, mas a intenção não é representada e imediatamente executada. Nem pode ser dito que a execução imediata esteja implícita, embora não tenha sido expressa; o evangelista faz um relato da missão como consta em vários capítulos seguintes em seu Evangelho, iniciando com estas palavras: “Chamou a si os doze, e começou a enviá-los de dois a dois...”.
Deve ser considerado, então, como toleravelmente certo, que o chamado dos doze tenha sido um prelúdio à pregação do grande sermão sobre o reino, em cuja fundação eles teriam, posteriormente, uma participação ainda mais distinta. Não podemos determinar com exatidão em que período do ministério de nosso Senhor o sermão em si deve ser precisamente alocado. Nossa opinião, contudo, é que o Sermão da Montanha foi proferido próximo ao primeiro ministério prolongado de Cristo na Galiléia, durante o tempo passado entre as duas visitas a Jerusalém em ocasiões de festas mencionadas no segundo e no quinto capítulo do Evangelho de João.
O número da companhia apostólica é significativo e, sem dúvida, uma questão de escolha, assim como a composição daquele grupo seleto. Um número maior de homens elegíveis poderia ser facilmente encontrado no círculo de discípulos que, mais tarde, não se tornou menor que setenta auxiliares na obra evangelística9; e um número menor pode ter servido a todos os propósitos presentes ou futuros do apostolado. O número doze foi recomendado por óbvias razões simbólicas. Expressava de uma forma feliz e figurada o que Jesus reivindicava ser e o que veio fazer e, deste modo, fornecia apoio à fé e estímulo à devoção de seus seguidores. Isto sugeriu de forma significativa que Jesus era o divino Rei messiânico de Israel, que veio para estabelecer o reino cujo advento fora anteriormente previsto pelos profetas em linguagem fervorosa, sugerida pelos dias de felicidade da história de Israel, quando a comunidade teocrática existia em sua integridade, e todas as tribos da nação escolhida eram unidas sob a casa real de Davi. Sabemos que o número doze estava designado a conter tal significado espiritual através das próprias palavras de Cristo aos apóstolos em uma ocasião posterior, quando, ao descrever as recompensas que os esperavam no reino pelos serviços e sacrifícios prestados, Ele disse: “Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho «do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”.
E possível que os apóstolos conhecessem muito bem a importância espiritual do seu número, e tenham encontrado nele o encorajamento para a terna e ilusória esperança de que a vinda do reino não deveria ser apenas um cumprimento espiritual das promessas, mas uma restauração literal de Israel em relação à sua independência e integridade política. O risco de tal equívoco era um dos obstáculos relacionados ao número doze em particular, mas não foi considerado por Jesus como uma razão suficiente para estabelecer outro. Seu método de procedimento nesse caso, como em todas as coisas, era continuar o que era verdadeiro e certo, e então corrigir os equívocos à medida que surgissem. Do número do grupo apostólico passamos para as pessoas que o compõem. Sete dos doze — os primeiros sete na lista de Marcos e Lucas, presumindo que Bartolomeu seja Natanael — são pessoas já conhecidas por nós. Dois dos cinco restantes — o primeiro e o último — conheceremos bem à medida que avançarmos na história.Tomé, chamado Dídimo ou o Gêmeo, aparece como um homem de coração terno, mas de temperamento melancólico, pronto para morrer por seu Senhor, mas lento para crer em sua ressurreição. Judas Iscariotes e conhecido em todo o mundo como o Traidor. Ele aparece pela primeira vez nessa lista de apóstolos com o título infame marcado em sua testa: “Judas Iscariotes, aquele que o traiu”. A presença de um homem capaz de trair entre os discípulos eleitos é um mistério no qual não devemos tentar penetrar. Meramente fazemos aqui uma observação histórica sobre Judas — ele parece ter sido o único não galileu entre os doze. Seu sobrenome veio aparentemente de seu lugar de origem, Queriote; e no livro de Josué podemos constatar que existia uma cidade com tal nome na fronteira do sul da tribo de Judá.
Os três nomes que restam são extremamente obscuros. Em bases familiares aos estudiosos da Bíblia, existem tentativas de identificar Tiago, filho de Alfeu, com Tiago, o irmão ou parente do Senhor. O próximo na lista de Mateus e Marcos é apontado por muitos como sendo o irmão deste Tiago, e assim, possivelmente um outro irmão de Jesus. Esta opinião é baseada no fato de, em lugar de Lebeu e Tadeu dos dois primeiros Evangelhos, encontrarmos na lista de Lucas o nome Judas “... de Tiago”. A elipse nesta designação foi preenchida pela palavra irmão, e presume-se que o Tiago aludido seja Tiago, filho de Alfeu. Independentemente de quão tentador esses resultados possam ser, não podemos considerá-los como apurados, e devemos nos satisfazer com a idéia de que em meio aos doze havia um segundo Tiago, além do irmão de João e filho de Zebedeu, e também um segundo Judas, que novamente aparece como um interlocutor na conversa de despedida entre Jesus e seus discípulos na noite anterior à crucificação, cuidadosamente distinguido do traidor, pelo evangelista, através da anotação parentética: “não o Iscariotes”. Este Judas, que é o próprio Lebeu ou Tadeu, foi chamado de discípulo de três nomes.
O discípulo a quem reservamos o último lugar, como aquele que fica no topo de todas as listas, é Simão. Este segundo Simão é desconhecido, enquanto o primeiro é notório, porque não é mencionado na história do evangelho, exceto nas listas dos apóstolos; e assim, pouco se sabe a respeito dele, o apelido anexado ao seu nome leva a uma informação curiosa e interessante. Ele é chamado de kananita (não de cananita), o que é uma designação política e não geográfica, como consta no termo grego que Lucas usou para substituir o termo hebraico, chamando o discípulo do qual falamos de Simão, o zelote. Este apelido, zelote, relaciona Simão indiscutivelmente ao famoso partido que surgiu da rebelião sob a coordenação de Judas nos dias da taxação14, aproximadamente vinte anos antes do mício do ministério de Cristo, quando*a Judéia e Samaria ficaram sob o comando direto do governo de Roma, e o censo populacional foi feito com a intenção de se impor uma tributação subseqüente.
Que fenômeno singular foi a presença desse ex-zelote entre os discípulos de Jesus! Dois homens não poderiam diferir mais em relação ao seu espírito, metas, e pretensões do que Judas (o líder dos zelotes) e Jesus de Nazaré. Um era um político descontente; o outro, completamente vencedor, daria a César o que era de César. O primeiro desejava a restauração do reino de Israel, adotando como lema: “Nós não temos um Senhor ou Mestre, exceto Deus”; o segundo desejava a fundação do reino que não era nacional, e sim universal; não deste mundo, e sim “puramente espiritual”. Os métodos empregados pelos dois eram tão diferentes quanto os seus objetivos e fins. Um havia recorrido às armas carnais de guerra, a espada e o punhal; o outro confiava apenas na força bondosa e amável, porém onipotente, da verdade.
Não sabemos o que levou Simão a deixar Judas (o líder dos zelotes) para seguir Jesus; mas ele fez uma troca feliz para si, pois anos depois o partido que ele abandonou atraiu a ruína para si e seu país devido a seu patriotismo fanático, inconseqüente e inútil. Embora a insurreição de Judas fosse subjugada, o fogo do descontentamento ainda queimava no peito dos seus adeptos; e com o tempo, eclodiu na fogueira de uma nova rebelião, que fez surgir uma luta mortal contra o poder gigantesco de Roma, e terminou na destruição da capital do judaísmo, e na dispersão do povo judeu.
A escolha desse discípulo para ser um apóstolo fornece uma outra ilustração do desprezo de Cristo pela sabedoria humana. Não era seguro transformar um ex-zelote em um apóstolo, porque ele poderia ser o meio de transformar Jesus e os seus seguidores em objetos de suspeitas políticas. Mas o Autor da nossa fé estava disposto a correr este risco. Ele desejava ganhar tanto discípulos das classes perigosas como das classes desprezadas, e queria que também estivessem representados entre os doze.
É uma surpresa agradável pensar que Simão, o zelote, e Mateus, o publicano, homens de posições opostas, estivessem juntos e em comunhão naquele pequeno grupo de doze pessoas. Na pessoa desses dois discípulos os extremos se tocam — o ex-coletor de impostos e aquele que odiava os impostos: o judeu que não era patriota, que havia se degradado ao se tornar um servo do governante estrangeiro, e o judeu patriota, que se irritava com o domínio estrangeiro, e suspirava pela emancipação.
Esta união dos opostos não era acidental, mas havia sido designada por Jesus como uma profecia daquilo que aconteceria no futuro. Ele desejava que os doze fossem a igreja em miniatura ou como o seu embrião; e assim, Ele os escolheu para que a distinção entre publicanos e zelotes não existisse, e então na igreja do futuro não deveria haver nem gregos nem judeus, circuncisão ou incircuncisão, escravos ou livres, mas somente Cristo — Ele é tudo em todos e todos estão nele. Estes eram os nomes dos doze conforme consta nas listas dos evangelistas. Quanto à ordem são apresentados, examinando-se cautelosamente as listas, podemos observar que elas contêm três grupos de quatro pessoas, e em cada um deles os mesmos nomes são sempre encontrados, embora a ordem não seja a mesma. O primeiro grupo inclui aqueles que são mais conhecidos, o segundo inclui aqueles que são pouco menos conhecidos, e o terceiro inclui aqueles que são os menos conhecidos de todos, exceto no caso do traidor, que ficou muito bem conhecido. Pedro, a figura mais proeminente entre os doze, está no topo de todas as listas, e Judas Iscariotes no rodapé, cuidadosamente designado, conforme já foi observado, como o traidor. O rol apostólico, a partir da ordem fornecida em Mateus, e empregando os cognomes característicos da história do evangelho como um todo, é o seguinte: 
PRIMEIRO GRUPO
Simão Pedro                       O homem de pedra
André                                     Irmão de Pedro
Tiago e João                        Filhos de Zebedeu, e filhos do trovão
SEGUNDO GRUPO
Filipe                                    O inquiridor sincero
Bartolomeu ou Natanael    O israelita em quem não havia dolo
Tomé                                    O melancólico
Mateus                                 O publicano (assim chamado apenas por si mesmo)
TERCEIRO GRUPO
Tiago (filho) de Alfeu                                 (Tiago o menor? Marcos 15 .40)
Lebeu.Tadeu, Judas de Tiago                 O discípulo que tinha três nomes
Simão                                                         O zelote
Judas, o homem de Queriote                   O traidor
Estes foram os homens que Jesus escolheu para o acompanharem enquanto estivesse nesta terra, e para dar continuidade à sua obra depois de sua partida. Estes são os homens que a igreja celebra como “a companhia gloriosa dos apóstolos”. O louvor é merecido; mas a glória dos doze não era deste mundo. Sob um ponto de vista mundano, alguns podem considerá-los, de fato, uma companhia insignificante — um grupo de pobres e iletrados galileus provincianos, totalmente desprezados, privados das características sociais mais elevadas, com mínimas chances de serem escolhidos por alguém que valorizasse as considerações da prudência.
Por que Jesus escolheu tais homens? Teria Ele sido levado por sentimentos de antagonismo por aqueles que possuíam vantagens sociais, ou uma predileção por homens de sua própria classe? Não; sua escolha foi feita com base na verdadeira sabedoria. Se Ele escolheu principalmente os galileus, não foi por preconceito provincial contra aqueles do sul; se, como algumas pessoas pensam, Ele escolheu dois ou mesmo quatro de seu próprio parentesco, não foi por nepotismo; se Ele escolheu homens rudes, ignorantes, humildes, não foi movido pela inveja do conhecimento, da cultura, ou da boa origem. Se qualquer mestre, homem rico, ou governante estivesse disposto a se entregar sem reservas ao serviço do reino, nenhuma objeção teria sido feita a ele em virtude de suas habilidades, posses ou títulos. O caso de Saulo de Tarso, o pupilo de Gamaliel, prova a verdade dessa afirmação. Nem mesmo o próprio Gamaliel poderia ter impedido que Paulo se tornasse um discípulo do Nazareno. Mas sim! Nem ele nem nenhuma de suas ordens chegariam tão longe. Por esta razão o desprezado Senhor não teve nenhuma oportunidade de mostrar sua disposição de aceitá-los como díscípulos e escolhê-los como apóstolos.
A verdade é que Jesus quis se contentar com pescadores, publicanos, e antigos zelotes como apóstolos. Eles eram o melhor que se poderia obter. Aqueles que se consideravam melhores, eram também muito orgulhosos para se tornarem discípulos, e por isso se excluíram do que o mundo considera agora como a honra de serem os príncipes escolhidos do reino. A aristocracia civil e religiosa se gabava de sua descrença. Os cidadãos de Jerusalém se sentiram, por um momento, interessados no jovem entusiasta que havia purificado o templo com um chicote de correias curtas; mas a fé deles era superficial e sua atitude era defensiva, e por isso Jesus não se entregou a eles, porque sabia o que havia no interior de cada um deles17. Alguns poucos eram simpatizantes sinceros, mas não estavam decididos quanto ao seu ingresso na eleição para o apostolado. Nicodemos mal era capaz de dizer uma tímida palavra apologética a favor de Cristo, e José de Arimatéia foi um discípulo “secretamente”, por medo dos judeus. Estes dificilmente seriam os homens certos para ser enviados como missionários da cruz — homens tão presos aos laços sociais e conexões partidárias, e tão escravizados pelo medo dos homens. Os apóstolos do cristianismo devem ser feitos de material rígido.
E assim Jesus preferiu optar pelos homens da Galiléia: rústicos, porém simples, sinceros e motivados. E Ele ficou bastante satisfeito com sua escolha, e devotadamente agradeceu a seu Pai por ter-lhe concedido homens como esses. Jesus não desprezaria a erudição, a posição, a riqueza, o requinte, voluntariamente deixados em razão de seu serviço; mas preferia homens devotos que não tivessem nenhuma dessas vantagens a homens não devotos que tivessem todas elas. E com uma forte razão; isso importava muito pouco, exceto aos olhos do preconceito contemporâneo, para o qual a posição social ou mesmo a história prévia dos doze teria algum significado. O importante é que eram espiritualmente qualificados para o trabalho que foram chamados a fazer. Ou seja, o que importa não é o exterior do homem, mas o seu interior. João* Bunyan foi um homem de origem simples, de posição inferior, e até à sua conversão tinha hábitos pouco louváveis; mas era por natureza um homem capacitado e, pela graça, um homem de Deus. Ele teria se tornado — como de fato foi — um dos apóstolos mais eficientes.
A. B. BRUCE. O Treinamento dos Doze. Editora CPAD. pag. 44-54.
“Até que do alto sejais revestidos de poder”. Esta expressão tem um som místico, e o seu sentido parece difícil de definir; contudo, o sentido geral é, certamente, simples o bastante. Ela significou não total ou principalmente um poder para operar milagres, mas justamente o que Jesus tinha dito em seu discurso de despedida, antes de sua morte. Este poder que vem do alto significa tudo o que os apóstolos receberiam através da missão do Consolador — esclarecimento da mente, dilatação do coração, santificação de suas faculdades e transformação de caráter, para tornálos espadas afiadas e flechas polidas para subjugar o mundo à verdade; essas qualidades, ou o efeito combinado delas, constituíram o poder que Jesus direcionou os onze a esperar. O poder, portanto, era espiritual, não mágico; uma inspiração, não uma possessão; um poder que não agiria como uma força fanática cega, mas que se manifestaria como um espírito de amor e de uma consciência sã. Depois que o poder desceu, os apóstolos não se tornaram menos racionais, porém mais racionais; não loucos, mas sóbrios; não meros entusiastas inflamados e vazios, mas entusiastas equilibrados, claros e dignos expositores da verdade divina, tal como o relato de Lucas sobre o seu ministério. Em resumo, estavam prestes a ser diferentes daquilo que foram no passado, e mais parecidos com o seu Mestre: e não mais ignorantes, infantis, fracos, carnais, mas iniciados nos mistérios do Reino, e habitualmente sob a direção do Espírito de graça e santidade.
Tal poder prometido era evidentemente indispensável para que fossem bem-sucedidos. Os títulos oficiais não seriam o mais importante, e sob certos aspectos poderiam ser vãos — apóstolos, evangelistas, pastores, professores, governantes; as vestes clericais seriam vãs se a alma dos onze não fosse vestida com esta peça de roupa do poder divino. Vãos, então, e igualmente vãos agora. O mundo está prestes a ser evangelizado, não pelos homens investidos com dignidades eclesiásticas e com peças de roupas parcialmente coloridas, mas por homens que têm experimentado o batismo no Espírito Santo, e que estão visivelmente imbuídos do poder divino da sabedoria, amor e zelo. O poder prometido era indispensável, e também era, em sua natureza, algo a ser simplesmente esperado. Os discípulos foram instruídos a esperar até que viesse. Não deveriam tentar fazer nada sem ele, nem tentar alcançá-lo. E foram sábios o suficiente para seguir as instruções. Entenderam completamente que o poder era necessário, e que não poderia ser alcançado, mas que deveria vir sobre eles. Nem todos são igualmente sábios. Muitos virtualmente assumem que o poder do qual Cristo falou pode ser dispensado, e que, de fato, não é uma realidade, mas uma quimera. Outros, mais devotados, acreditam no poder, mas não na impotência do homem de investir-se dele por si mesmo. Estes tentam ganhar o poder por meio de seu próprio trabalho, ou assumem para si e para outros uma situação de frenesi e entusiasmo. O fracasso, mais cedo ou mais tarde, convence essas pessoas de seus erros, mostrando que os resultados espirituais são produzidos por algo mais do que eloqüência, intelecto, dinheiro e organização; mostra, também, que o verdadeiro poder espiritual não pode ser produzido, como faíscas elétricas, por fricção ou estímulo, mas deve, soberana e graciosamente, vir do alto.
A. B. BRUCE. O Treinamento dos Doze. Editora CPAD. pag. 573-574.
Atos 1. 20. «...encargo...» Do termo grego aqui traduzido assim é que se deriva o nosso moderno vocábulo «episcopado». Algumas traduções dizem «bispado». O sentido básico é 0 de «supervisor» (no grego, se deriva de «epí» e «skopeo»—literalmente, «ver de cima»). Pode ser apropriadamente traduzido por «ofício», conforme se vê em I Ped. 2:12. O sentido eclesiástico em que esse vocábulo pode ser usado é encontrado em I Tim. 3:1: «Fiel é a palavra: Se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja». Nesse capítulo da primeira epístola a Timóteo são descritos os deveres e as qualificações dos anciãos e dos diáconos, aqueles que são os líderes das igrejas cristãs locais. O ofício mais formal de «bispo», no sentido moderno, como alguém que supervisiona um distrito de igreja, foi um desenvolvi- mento posterior, em parte alguma ensinado nas páginas do N.T.
No que diz respeito a Judas Iscariotes, está em foco a sua missão apostólica, conforme fica demonstrado por toda esta secção, porquanto este trecho bíblico (Atos 1:15-26) descreve para nós como 0 ofício de Judas Iscariotes foi assumido por outrem, a fim de que se completasse novamente 0 número de «doze» apóstolos. (Ver as notas expositivas, no décimo quinto versículo deste capítulo, sobre o ofício apostólico; ver também Mat. 10:1 a respeito). O vocábulo, por conseguinte, se reveste de um sentido bem geral, podendo referir-se a qualquer dos diversos ofícios da liderança das igrejas cristãs primitivas.
Atos 1. 25. (Quanto a notas expositivas sobre o «apostolado» cristão, sobre suas exigências, sobre suas descrições e propósitos, ver os trechos de Mat. 10:1 e Atos 1:15,21). Judas Iscariotes caiu de seu elevadíssimo ofício apostólico e do destino associado ao mesmo, isto é, dos lugares celestiais, além de outros serviços futuros especialmente reservados para os apóstolos, sem falarmos no tremendo desenvolvimento espiritual que capacitará os apóstolos a serem instrumentos especiais e sem-par, no serviço eterno de Deus, tendo-se precipitado a uma posição de que se tornara merecedor, embora fosse lugár de sofrimento e punição. (Quanto a notas sobre o destino especial que têm os crentes, na qualidade de instrumentos sem-par de Deus, no estado eterno, e como indivíduos sem igual em seu desenvolvimento segundo a imagem moral e metafísica de Cristo, ver 0 trecho de Apo. 2:17. Essa é uma daquelas exaltadas doutrinas cristãs que dizem respeito ao futuro dos crentes, mas que raramente são mencionadas na igreja evangélica moderna).
Ao invés de um destino sem-par, com Cristo, em glória exaltada, Judas Iscariotes desceu ao seu lugar exclusivo de punição. A expressão «...seu próprio lugar...» tem deixado perplexos a muitos intérpretes, razão pela qual muitos sentidos diversos têm sido vinculados à mesma. Aqui damos apenas um exemplo dessa variedade:
1. A maioria dos intérpretes pensa que está em foco meramente a «geena» ou inferno. Citações rabínicas são apresentadas para mostrar que essa expressão pode indicar simplesmente 0 sofrimento da punição eterna, como Baal-Turim, sobre a passagem de Núm. 24:25 (e Gên. 31:55), onde 0 pervertido profeta Balaão é retratado como alguém que foi precipitado nesse lugar de castigo, sobre o qual é asseverado que era 0 «seu próprio lugar». Outros intérpretes, no entanto, negam que tal comentário bíblico tenha esse sentido; e salientam que Inácio (Magn.v) se utilizou dessa exata expressão em seus escritos, onde pode significar até mesmo um lugar de galardão. O citado comentário de Inácio, contudo, longe de negar essa verdade, na realidade confirma (já que se trata de um comentário acerca deste texto sagrado) que essa expressão pode indicar 0 lugar de castigo eterno, merecido por todos aqueles que ali são lançados. Policarpo (Phil, ix) expressa essa expressão para aludir à recompensa especial dos mártires, que se vão para a companhia do Senhor Jesus. (Quanto ao «inferno», expresso através desse termo, ver também Midrash Kohelet, foi. 74.3; e Maimonides, Hilchot Chobel, cap. 8, secção 9).
2. Tal expressão, pois, seguindo-se os indícios oferecidos sobre a primeira posição, acima, provavelmente visa aquele lugar especial que alguém obtém para si mesmo, na vida após-túmulo, sem importar se está em vista a recompensa nos lugares celestiais ou a punição eterna no hades e na geena. Cada indivíduo merece a sua própria recompensa ou retribuição, e esse galardão ou castigo é distintivo para cada pessoa. Assim sendo, foi dito acerca de Judas Iscariotes que ele foi para aquele lugar de castigo distintivamente seu, o «seu próprio lugar».
3. Isso significa, outrossim, que essa expressão subentende certo grau de recompensa ou de castigo, e talvez até mesmo certa diferença de local onde a recompensa ou o castigo são recebidos; e isso concorda com a idéia paulina dos «lugares celestiais», que subentende uma multiplicidade de. lugares. (Ver também as «multas» moradas, em João 14:1). Por conseguinte, é lógico pensarmos que os mundos espirituais que fazem parte do hades são uma multiplicidade de lugares, e não apenas um grande abismo profundo de horror. Dante, em sua famosa obra/4 Divina Comédia, pinta Judas Iscariotes nos lugares mais baixos do inferno; e isso parece destacar o fato de que ali Judas tinha reservado um lugar especial, o «seu próprio lugar».
4. Mas outros intérpretes, como Adam Clarke (in loc.), negam que esteja aqui em vista, necessariamente, o castigo final no inferno. Chegam mesmo ,a supor que o arrependimento de Judas Iscariotes, após ter traído ao Senhor Jesus, foi genuíno, e que a misericórdia de Deus se estendeu até ele, embora tivesse perdido para todo 0 sempre a sua posição apostólica. Há uma minoria de expositores bíblicos que tem assumido essa posição. No que diz respeito à declaração feita por Jesus: «...ai daquele por intermédio de quem o Filho do homem está sendo traído! Melhor lhe fora não haver nascido!» (Mat. 26:24), supõe-se estar envolvida uma expressão judaica proverbial, que subentendia as mais graves transgressões, embora não indique, necessariamente, a condenação eterna. Não obstante, a maioria dos eruditos bíblicos não apóia essa opinião.
5. Alguns estudiosos pensam que essa expressão indica o estado dos mortos em geral, 0 que poderia estar subentendido em um trecho como Ecl. 3:20, que diz: «Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó, e ao pó tornarão».
6. Mas outros pensam que essa expressão alude a Matias, recém-eleito ao ofício apostólico, e não a Judas Iscariotes; e pensam que esse «lugar» especial seria o do apostolado. Assim opinaram Adam Clarke e John Gill (in loc.).
7. Dr. M.R. De Haan, expositor popular pelas ondas de rádio e em seus livretos de estudos bíblicos, que também foi autor de vários volumes, um evangelista internacionalmente conhecido, especialmente nos Estados Unidos da América do Norte, onde atuou por muitos anos, até que morreu com mais de sessenta anos de idade, supunha que essas palavras, seu próprio lugar, indicavam uma habitação .qualquer, e não a punição no inferno, pelo menos não um castigo eterno, no qual Judas Iscariotes atualmente habitaria, mas do qual retornaria, a fim de ser o futuro anticristo. Em outras palavras, reencarnado, ele ocuparia o ofício de anticristo, voltando ao palco deste mundo em uma segunda missão satânica. Trata-se, sem dúvida, de um pensamento assaz interessante. Pode estar com a razão, embora não contemos com meios para asseverar ou negar a sua veracidade. De Haan expressou essa opinião com base na observação de que tanto Judas Iscariotes como o anticristo são chamados na Bíblica como «filho da perdição», com exclusividade. (Ver João 17:12 e II Tes. 2:3). Também se alicerçou na declaração de Cristo que o chamou de«diabo», não querendo dar a indicar mera possessão demoníaca. (Quanto a uma discussão mais ampla sobre o «anticristo», ver as notas expositivas referentes a II Tes. 2:3). (Essa teoria foi exposta por De Haan em seu livro sobre 0 Apocalipse, págs. 183 e 184).
A verdadeira interpretação provavelmente é aquela que combina a segunda e a terceira dessas posições. (Quanto a uma nota expositiva completa sobre o «inferno», ver Apo. 14:11. Ver também as passagens de I Ped. 3:18-20 e 4:6).
O incidente inteiro mostra-nos até que ponto a fibra moral de Judas Iscariotes havia sido destruída; pouco lhe restava da consciência. Todavia, isso não foi algo que lhe tenha acontecido repentinamente—mas foi um processo gradual, que provavelmente teve começo na infância.
Atos 1. 26. Esta história nos faz lembrar das práticas do A.T. Por enquanto a igreja primitiva ainda não usava da imposição de mãos, mas uma espécie de cerimônia que provavelmente vinha desde os tempos de Moisés. O método de «lançar sortes» consistia em colocar pedras ou tabuinhas, com nomes escritos, em um vaso, o qual era sacudido até que um deles caísse. Aquele cujo nome estivesse nessa pedra ou tabuinha, era considerado como a pessoa escolhida por Deus, porquanto pensava-se que de algum modo 0 Senhor Deus é quem causara aquela ação particular. Não obstante, alguns estudiosos têm pensado que tudo quanto se fazia em tais casos era «tomar um voto», o que seria uma antiga expressão idiomática acerca do lançamento de sortes. No entanto, a maioria dos intérpretes se tem manifestado contrariamente a essa noção, a qual, mui provavelmente, apareceu como tentativa de «limpar» 0 texto sagrado, posto que muitos cristãos modernos pensam que esse tipo de ação é muito estranho, posto ser uma forma antiga de adivinhação.
«Interpretada à luz da oração que se fez, no vs. 24, bem como pela palavra ‘caiu’, que aqui aparece, parece não restar dúvidas de que a passagem fala sobre lançamento de ‘sortes’, e não sobre ‘votos’.» (E.H. Plumptre, in loc.).
A literatura antiga revela-nos que essas práticas eram extremamente comuns em outras culturas da época, como, por exemplo, entre os gregos. A bem conhecida história do estratagema de Cresponto, na divisão do território, após a invasão dos dóricos (Sófocles, Aias. 1285), é um exemplo disso. A passagem de Pro. 16:33 reflete tanto essa prática como também à confiança que Deus se utilizava desses meios para revelar a sua vontade: «A sorte se lança do vaso, mas do Senhor procede toda a sua disposição». Isso pode refletir um tipo de diferente modo de proceder, em que se punham várias sortes dentro de um vaso; quando estas eram retiradas, as primeiras a saírem eram as favorecidas, sem importar quais decisões estavam sendo tomadas.
No tocante a essa passagem, John Gill diz o seguinte(m loc.): «...lançadas em seu colo, nas vestes de um homem, no seu seio, em seu chapéu, capa, urna ou o que quer que tivesse no colo, de onde eram retiradas. Essa prática era usada na escolha de líderes, tanto civis como eclesiásticos, nas divisões de heranças e na determinação de casos duvidosos; também no estabelecimento de contendas e para pôr fim aos conflitos e desentendimentos, 0 que, de outro modo, não se poderia conseguir...o juízo que se deveria fazer mediante essa prática, acerca de pessoas ou de coisas...era assim dirigido por Deus, de tal modo que (a sorte) caía sobre a pessoa certa, ou então ficava conhecido aqui 0 que era o motivo da dúvida...Isso deveríamos atribuir não ao acaso cego ou à sorte, ou à influência das estrelas, ou a qualquer ser criado invisível, anjo ou demônio, e, «im, somente ao próprio Senhor. Pois não existe aquilo que se convencionou chamar de sorte, e nem acontecimentos fortuitos; tais ocorrências, ainda aquelas que parecem mais fortuitas ou contingentes, são todas dispostas, ordenadas e governadas pela vontade soberana de Deus». (Isso dizia John Gill referindo-se ao trecho de Pro. 16:31. Ver também o uso dessa prática por parte de Aarão, em Lev. 16:8. Ver também Núm. 34:13; I Crô. 24:6; João 1:17 e Luc. 1:9, referências bíblicas essas que mostram que a ordem particular do serviço prestado pelos sacerdotes, isto é, quando e como haveriam de servir, em suas várias capacidades no templo, era determinada por alguma forma de sorte, quando se empregavam diversos sistemas possíveis, conforme fica subentendido nas notas expositivas acima).
Outras alusões antigas a essa prática, fora da cultura hebraica, são as seguintes: Lívio xxiii.3; Sófocles, Aias. 1285. Josefo menciona igualmente tal prática, no trecho de Antiq. vi.5, havendo referências à mesma nos antiqüíssimos escritos de Homero.
«...recair sobre Matias...» Sem importar qual método de lançamento de sortes foi usado, 0 resultado é que Matias foi considerado apóstolo por escolha divina, porquanto se aceitou o fato de que Deus havia dirigido o salto da sorte para fora do vaso ou urna; ou que, no caso da mesma haver sido retirada com a mão, de algum recipiente, que Deus orientara a mão para que retirasse o nome escolhido pelo Senhor. Desse modo Matias tomou lugar, junto com os outros onze apóstolos, no ofício apostólico.
Com base nessa circunstância, ficamos sabendo da grande fé dos apóstolos na providência divina, e que eles não criam que as coisas acontecem por acaso.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 3. pag. 38; 40-41.
Atos 21/22 Pedro constata inicialmente as exigências imprescindíveis a um “apóstolo”. Um “apóstolo” é acima de tudo uma “testemunha da ressurreição de Jesus”. A ressurreição de Jesus é – obviamente mediante ligação indissolúvel com sua cruz! – o evento decisivo que realmente faz do evangelho um evangelho. Sem o acontecimento do dia da Páscoa, o “cristianismo” jamais teria surgido no mundo. Não teria significado extremo para nós e para o mundo todo o fato de que o ser humano Jesus de Nazaré viveu, ensinou, curou, amou e sofreu, se esse Jesus não tivesse sido despertado por Deus e transformado em seu “Senhor e Cristo” (cf. At 2.32-36; 3.13-15; 4.10-12; 13.38s; 17.30s). Jesus foi “designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos” (Rm 1.4). Essa ressurreição dentre os mortos, contudo, constitui ao mesmo tempo o “impossível”, o humanamente inconcebível e por isso escandaloso, irritante e ridículo (At 17.32). Por isso o testemunho originário do apostolado, fundador da igreja, somente pode ser prestado nesse mundo alienado de Deus por aquela pessoa que presenciou pessoalmente o fato inaudito da ressurreição de Jesus e que experimentou sua verdade. Essa ressurreição, porém, não é um evento isolado em si. Jesus, e unicamente Jesus, é aquele que ressuscitou dentre os mortos! E precisamente Jesus é, como o Ressuscitado, de fato o Salvador glorioso de que os pecadores precisam. Por isso a testemunha de sua ressurreição igualmente precisa ter conhecido bem a Jesus pessoalmente. No entanto, ele não é “apóstolo” como pessoa isolada e solitária, mas – já falávamos disso – unicamente como membro do grupo de apóstolos. Por isso precisa ter estado em contado desde o início com esse grupo a que deverá pertencer integralmente. Ele deve exercer o ministério “conosco”.
Atos 25 Expõem diante dele a necessidade de suas preces. É o que podemos fazer na oração. Judas se demitiu da “vaga neste ministério e envio”, para ir “para seu próprio lugar”, i. é, para a perdição. O lugar vazio precisa ser preenchido e assumido por outro.
Atos 26 O Senhor deve decidir agora através do sorteio. O texto não deixa inequivocamente claro se eles “lançam sortes por eles” (assim traduz A. Schlatter) ou se fazem que os dois tirem a sorte. Seja como for, o sorteio indicou Matias como aquele que foi eleito pelo Senhor, e “foi acrescentado aos onze apóstolos” [NVI].
Portanto, tão vivos e múltiplos eram os acontecimentos no começo da igreja! Pedro age a partir de si com sua própria autoridade. Na igreja existem homens que a lideram. Mas então ele convoca a própria igreja para agir, depois que lhe mostrou sobre o que deve dirigir sua atenção. E em oração a igreja entrega a última decisão na mão do Senhor, recorrendo uma vez, aqui no começo, ao método do sorteio. Não se implanta nenhum princípio, nem “episcopal”, nem “democrático”, nem tampouco se estabelece um direito de gozar constantemente da maravilhosa direção através do Senhor. De forma livre fez-se justiça a tudo, conforme a respectiva situação demandava.
Às vezes se afirmou que apesar disso a igreja agiu com precipitação. O décimo segundo apóstolo preparado pelo Senhor seria Paulo, por cuja vocação a igreja deveria ter esperado. Porém, será que a igreja podia esperar durante anos por algo incerto? Para isso ela teria necessidade de uma instrução clara do Senhor. Sobretudo, porém, Paulo nunca se considerou entre os “Doze”, aos quais diferencia expressamente de si em 1Co 15.5 como sendo um grupo especial. Em sua característica numérica, os Doze se dirigiam a Israel. Quem desejasse pertencer a eles de fato precisava ter vivenciado, como Pedro está demandando aqui, a história especial de Deus no âmbito de Israel desde o movimento de arrependimento desencadeado por João até o último desfecho na ascensão de Jesus. Nesse sentido, Paulo não podia ser um apóstolo. Em vista disso, Paulo se considerou pessoalmente uma exceção muito peculiar: 1Co 15.8-10. Ele tinha consciência de ser um “apóstolo das nações”, embora, nessa tarefa, fosse plena e integralmente um “apóstolo” – Paulo lutou com todas as forças pelo reconhecimento de seu envio e autoridade apostólicos – mas não como um dos “Doze”, que juntos exerciam seu ministério em Jerusalém, sobretudo em prol de Israel.
Werner de Boor. Comentário Esperança Atos. Editora Evangélica Esperança.
O termo bispado (20) corresponde ao grego episcope, de onde vem “episcopal”, e realmente significa “supervisão”. Um episcopos era um supervisor. Finalmente, este substantivo, traduzido como “bispo”, foi atribuído aos supervisores da igreja. E provável que a melhor tradução aqui seja “ofício” (ASV).
As principais qualificações e funções de um apóstolo estão declaradas nos versículos 21 e 22, pelo menos como entendidas por Pedro. O escolhido para assumir o lugar de Judas deve ser alguém que tenha estado associado com Jesus, desde o seu batismo por João até a sua ascensão. A principal função do apóstolo é ser testemunha da ressurreição.
Dois homens foram indicados para esta posição: José Barsabás, palavra aramaica que significa “filho do sábado”, e Matias (“presente de Jeová”). Em seguida, os discípulos oraram pedindo a orientação divina na escolha do candidato correto entre os dois. E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias, que assumiu o seu lugar com os onze apóstolos (26). “O método empregado pelos judeus era o de colocar os nomes escritos em pedras dentro de um recipiente e agitá-lo até que uma das pedras caísse”.52 Os apóstolos tinham orado antes das suas indicações e também antes de lançarem sortes? Não sabemos. Mas depois do Pentecostes, não se lê mais que os discípulos tenham lançado sortes. O Espírito Santo, que passou a habitar em cada um, guiava-os.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 213.
·...envio sohre wísupromessa de meu Pai...» A promessa que se cumpriu 110 dia dc Pcntccoste, antecipa também, neste passo bíblico, a declaração mais completa que se vê no livro d Atos. que Lucas tencionava escrever, a fim de completar a sua obra cm dois volumes, que versa sobre as origens do cristianismo (Lucas-Atos); e não c mesmo impossível que Lucas já tivesse dado início a essa obra, em algum estágio preliminar. Este versículo é paralelo a Atos 1:4-5. 8; 2:1-13. (Quanto a uma nota sobre O dia de Pentecoste. ver Atos 2:1; quanto ao batismo do Espirito, ver I Cor. 12:13). A promessa feita pelo Pai, que é o próprio Espírito Santo, não é claramente definida nos evangelhos sinópticos. mas podemos aceitar o trecho de Luc. 11:13 como indicação sobre isso; e não há que duvidar que a mensagem dc Joào Batista, na tradição evangélica mais primitiva, conforme nos é dada cm Marc. 1:8 - «...mas ele vos batizará com o Espírito Santo...» · deve scr compreendida como paralela à promessa aqui registrada. Trata-sc. por conseguinte, da tradição evangélica mais remota. O evangelho de Joào a anuncia de forma ainda mais clara. (Ver Joào 14:16 c 15:26). A ordem dada aos discípulos dc sc demorarem cm Jerusalém, até que se cumprisse essa promessa, é paralela à passagem dc Atos 1:4.
*...revestidos de poder...*Essa traduçào da AA (·...revestidos...·) é um reflexo do sentido original do grego, o que, cm algumas traduçftes, tem sido alterado para «dotados«. A figura simbólica fala mais de revestir-se, porém, conforme Aristófancs a empregou, no sentido de alguém estar vestido de «audácia·. Homero falou dc sermos *vestidos de fortaleza*. Plutarco se referiu ao fato dc alguém ser revestido de *nobreza e riqueza*. Em sua forma mais antiga, esse verbo era simplesmente 0 mesmo usado para indicar alguém vestir suas roupas, mas o seu significado se estendeu a ponto de significar qualquer maneira de alguém adquirir atributos ou características especiais.
Ora, a característica cspccial que os mensageiros cristàos necessitariam, a fim dc alcançarem succsso no progresso da prédica das boas-novas, em um mundo completamente hostil, cra poder. Por eles mesmos jamais poderiam convencer quem quer que fosse. Os homens haveriam de negar imediatamente a história da ressurreição, sem nem ao menos admitirem discussftcs a respeito, ou encontrariam alguma explicação lógica, racional ou natural para o fenômeno. Outrossim, a regeneração nao pode ocorrer mediante mera persuasão intelectual. Nenhuma alma pode vir à vida através dc meras palavras. A doutrina celestial precisa estar constituída das realidades celestiais. O Espírito Santo—Deus entre os homens—precisa estar presente, sc qualquer resultado real tiver de ocorrer. As palavras do evangelho são tão-somente veículos que esclarecem a operação do Espírito Santo, c essa operação, nesta passagem, se caracteriza pela palavra *poder».
Uma palavra que traz o hálito do Espirito de Deus, traz pulcro em si mesma; e neste caso precisamos pensar em uma presença literal de Deus e em sua influencia, porquanto este versículo não pode ser posto de lado como mera expressão poética sobre alguma verdade religiosa.
O apóstolo Paulo também empregou a metáfora do vestir, conforme se >c na expressão do trecho de Gál. 3:27; «...de Cristo vos revestistes...»; ou cm Efé. 4:24: «...vos revistais do novo homem...»; ou em I Cor. 15:53,54: «...0 corpo mortal se revista da imortalidade...· (ver também II Cor. 5:2-4). Somente Lucas c Paulo, cm todo o N.T. empregaram essa metáfora. Dessa maneira, tal como uma veste que cobre o corpo inteiro se torna conspicua, podendo ser vista por todos, assim também 0 Espírito Santo haveria de envolver aos discípulos, emanando deles e convencendo aos incrédulos do mundo inteiro sobre a veracidade da mensagem crista, levando os homens à conversão e transformando-os à imagem de Cristo, o que c a mensagem central do evangelho de Cristo. Ver as notas sobre isso cm Rom. 8:29 e Efé. 3:19.
A observação feita por Alford. neste ponto, é digna de ser notada: «...(no tocante ao revestimento do Espírito Santo) tem isso aqui seu sentido mais completo, de 'permanecer sobre alguém e caracteriza-lo*, tal como uma veste faz com uma pessoa; isso, conforme Sticr assinala, é o vestuário verdadeiro e completo para a nudez da queda». (Alford, in loc.).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 2. pag. 247-248.
Lc 24. 49. O Jesus ressurreto tem o poder para enviar o Espírito. Sua autoridade não é limitada como era durante os dias do Seu ministério terrestre. A promessa de meu Pai é uma designação incomum do Espírito Santo, e ressalta o lugar da promessa divina na Sua vinda. Os discípulos não devem tentar a tarefa da evangelização com seus próprios parcos recursos, mas, sim, devem aguardar a vinda do Espírito. O equipamento que Ele forneceria é descrito de forma pitoresca em termos de os discípulos serem revestidos de poder do alto. A nota de poder é significante, e do alto lembrava a eles (e nos lembra também) qual é a fonte de todo o verdadeiro poder para a evangelização.
I. Howard Marshall. Atos. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 322.
3. A singularidade dos doze.
A característica fundamental do apóstolo é ser alguém que tem uma missão a cumprir, enviado por quem tem autoridade espiritual para fazê-lo. Em seu discipulado, os doze apóstolos foram preparados para o cumprimento da missão mais importante que um mortal poderia receber. Serem embaixadores do Reino de Deus. Não poderiam ser pessoas desprovidas de qualificações especiais. Eram homens comuns, humanamente detentores de virtudes e defeitos, mas tiveram um treinamento aos pés do Mestre dos mestres. E demonstraram possuir algumas qualidades especiais.
1) Foram chamados por Jesus
Em seu ministério, Jesus teve muitos discípulos (Mt 8.21; 9.57-62). Mas, para cumprir a grande missão, Jesus selecionou apenas 12, e lhes deu credenciais e poder para se tornarem apóstolos. “E, chamando a si os seus doze discípulos...” (Mt 10.1a). Lucas anotou a eleição dos 12 dentre muitos outros. Após passar uma noite inteira em oração a Deus, “chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles a quem deu nome de apóstolos” (Lc 6.12 — grifo nosso).
2) Receberam autoridade espiritual
Jesus “deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos, para expulsarem, e para curarem toda sorte de doenças e enfermidades” (Mt 10.1; Mc 3.15). Inicialmente, essa autoridade foi concedida aos doze. E, na Grande Comissão, além de mandar que seus discípulos pregassem o evangelho por todo o mundo, a toda a criatura, disse que os sinais e maravilhas haveriam de seguir a todos os que nEle cressem. Não apenas aos doze, mas “aos que crerem”, ou seja, a todos os seus discípulos (Mc 16.17, 18). E importante destacar que os doze receberam dons sobrenaturais, antes que o Espírito Santo os colocasse à disposição da Igreja.
3) Tinham delegação de Cristo
Os 12 apóstolos não foram apenas “enviados”, mas tiveram um mandato especial. Jesus lhes disse; “Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.
A autoridade delegada aos apóstolos foi tão grande, que eles tinham poder para perdoar pecados ou retê-los. Jesus os enviou, do mesmo modo como Ele fora enviado pelo Pai (Jo 20.21-23).
Podemos imaginar o que os doze sentiram, ao ouvir aquelas palavras! Serem enviados por Cristo, e como Cristo o fora por seu Pai! Os que entenderam bem a missão devem ter sentido o grande peso de sua responsabilidade. Os que haviam sido pescadores, antes, podiam guardar as redes e suspender a pescaria. Mas, uma vez feitos “pescadores de homens” (Mt 4.19; Mc 1.17), não poderiam suspender a missão. Os que outrora tinham outras atividades não tinham como voltar atrás. O mundo nunca mais foi o mesmo depois de Cristo, e depois que seus apóstolos começaram a cumprir a Grande Comissão (Mc 16.15).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 73-74.
Eles foram convocados pessoalmente pelo Senhor.
Quem foram aqueles que Cristo ordenou para ser seus apóstolos ou embaixadores; eram seus discípulos (v. 1). Ele os tinha chamado, havia algum tempo, para que fossem discípulos, seus seguidores imediatos e ajudantes constantes, e naquela ocasião Ele lhes disse que eles deveriam ser pescadores de homens, promessa que Ele agora cumpria. Cristo normalmente concede honras e graças em estágios; a luz de ambas, como a luz da manhã, brilha cada vez mais. Durante todo o tempo, Cristo manteve esses doze:
1. Em uma situação de experiência. Embora conheça o ser humano, e soubesse desde o início o que havia neles (Jo 6.70), ainda assim Ele usou este método para dar um exemplo à sua igreja. Observe que sendo o ministério uma grande responsabilidade, era conveniente que os homens fossem testados durante algum tempo, antes que ele lhes fosse confiado. “E também estes sejam primeiro provados” (1 Tm 3,10). Portanto, “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos” (1 Tm 5.22), mas deixai que esta pessoa seja, primeiramente, observada como um candidato em experiência, porque os pecados de alguns homens vão adiante, e outros os seguem.
2. Em uma condição de preparação. Todo o tempo Jesus esteve preparando-os para esta grande obra. Observe que aqueles que Cristo designa e chama para qualquer serviço, Ele primeiramente, de certa maneira, os prepara e qualifica, para tanto. Ele os preparou: (1) Levando-os para estar com Ele. Observe que o melhor preparativo para a obra do ministério é o conhecimento e a comunhão com Jesus Cristo. Aqueles que o servem devem estar com Ele (Jo 12.26). Paulo teve Cristo revelado, não somente para ele, mas nele, antes que fosse pregá-lo entre os gentios (GI 1.16). Pelos atos vivos de fé e pela prática freqüente de orações e meditações, esta comunhão com Cristo deve ser mantida e preservada, e essa é uma qualificação essencial para a obra do ministério. (2) Ensinando-os. Eles estavam com Ele como alunos, e Ele os ensinava em particular, além do benefício que eles obtinham com a sua pregação pública. Ele lhes abriu as Escrituras e ampliou sua compreensão para entenderem as Escrituras. Foi-lhes permitido conhecer os mistérios do Reino dos céus e para eles estes mistérios foram esclarecidos. Aqueles que são designados para ser professores devem, antes, ser aprendizes; eles devem receber, antes que possam dar; eles devem ser capazes de ensinar outros (2 Tm 2.2). As verdades do Evangelho devem ser entregues a. eles, antes que sejam encarregados de ser ministros do Evangelho. Dar a autoridade de ensinar a homens que não têm capacidade para isto não é nada mais que uma zombaria a Deus e à igreja; é mandar mensagens pelas mãos de um tolo (Pv 26.6). Cristo ensinou os seus discípulos antes de enviá-los (cap. 5.2), e depois, quando ampliou a missão deles, deu-lhes instruções mais amplas (At 1.3).
Qual foi a comissão que Ele lhes deu.
1. Ele os chamou para que viessem até Ele (v. 1).
Ele os tinha chamado antes, para que o seguissem; agora Ele os chama para que venham até Ele, admitindo-os a uma familiaridade maior, e não mais os conservando a uma certa distância, de onde eles tinham observado até então. Aqueles que se humilharem, serão exaltados. Dizia-se que os sacerdotes, sob a lei, aproximavam-se de Deus mais que as outras pessoas; a mesma coisa pode ser dita sobre os ministros do Evangelho; eles são cha mados a se aproximarem de Cristo, o que, assim como é uma honra, também deve lhes provocar um certo respeito e temor. Lembremo-nos de que Cristo será santificado naqueles que se aproximam dele. Percebe-se que quando os discípulos iam receber instruções, eles se aproximavam de Jesus por sua própria vontade (cap, 5.1). Mas agora que eles seriam ordenados, Ele os chamou.
Convém aos discípulos de Cristo que se predisponham mais a aprender do que a ensinar. No sentido da nossa própria ignorância, devemos procurar oportunidades de sermos ensinados, e da mesma maneira nós devemos esperai' por um chamado, um chamado claro, antes de assumir a responsabilidade de ensinar aos outros; pois nenhum homem deve apropriar-se dessa honra,
2. Ele lhes deu poder, exousian, autoridade no seu nome, para convocar os homens à obediência, e para a confirmação daquela autoridade que também coloca os demônios sob sujeição. Toda a autoridade legítima deriva de Jesus Cristo. Todo o poder é dado a Ele, sem limites, e os poderes subordinados são ordenados por Ele.
Ele coloca sobre os seus ministros um pouco da sua honra, assim como Moisés colocou um pouco da sua honra sobre Josué. Note que é uma prova inegável da plenitude do poder que Cristo usava como Mediador o fato de que Ele pudesse distribuir o seu poder àqueles a quem Ele usava, e os capacitasse a realizar, em seu nome, os mesmos milagres que Ele realizava. Ele lhes deu poder sobre os espíritos imundos, e sobre todos os tipos de enfermidades.
Observe que o desígnio do Evangelho é vencer o mal e curar o mundo. Estes pregadores foram enviados, destituídos de todas as vantagens externas que os pudessem recomendar. Eles não tinham riqueza, nem aprendizado, nem títulos honoríficos, e eram muito poucos; portanto, era essencial que eles tivessem algum poder extraordinário que os colocasse acima dos escribas.
(1 ) Ele lhes deu poder contra os espíritos imundos, para expulsá-los. Observe que o poder entregue aos ministros de Cristo está diretamente apontado contra o diabo e o seu reino. O diabo, sendo um espírito imundo, trabalha tanto em erros doutrinários (Ap 16.13) como em concupiscências (2 Pe 2.10); e, nos dois casos, os ministros têm uma acusação contra ele. Cristo lhes deu o poder de expulsá-lo dos corpos das pessoas; mas isto deveria significar a destruição do reino espiritual do diabo, coma também de todas as suas obras; para este propósito, o Filho de Deus se manifestou.
(2) Ele lhes deu poder para curar todos os tipos de enfermidades. Ele os autorizou a realizar milagres para a confirmação da sua doutrina, para provar que ela era de Deus; e eles deviam realizai1 milagres úteis para exemplificá-la, para provar que ela não apenas era confiável, mas digna de toda a aceitação; que o desígnio do Evangelho é curar e salvar. Os milagres de Moisés eram, muitos deles, para a destruição. Os milagres que Cristo realizou, e designou aos seus apóstolos que realizassem, eram todos para a edificação, e evidenciavam que Ele era não apenas o grande Professor e Governante, mas também o grande Redentor do mundo. Observe que a ênfase é colocada sobre a extensão do seu poder, sobre toda enfermidade, e todo mal, sem a exceção nem mesmo daqueles que são reconhecidamente incuráveis, e com a censura dos médicos, Na graça do Evangelho, existe uma pomada para cada ferida, um remédio para cada doença. Não existe doença espiritual tão maligna, tão inveterada, mas existe suficiência de poder em Cristo para a sua cura. Que ninguém, portanto, diga que não existe esperança, ou que a brecha é tão grande quanto o mar a ponto de não poder ser curada.
O número e os. nomes daqueles que foram Eles foram feitos apóstolos, isto é, mensageiros. Anjo e apóstolo, as duas palavras significam a mesma coisa, alguém enviado em uma missão, um embaixador. Todos os ministros fiéis são enviados por Cristo, mas aqueles que foram primeira e imediatamente enviados por Ele, são eminentemente chamados de apóstolos; os primeiros-ministros de estado no seu reino. Mas isto foi apenas a parte inicial do seu trabalho; quando Cristo ascendeu aos céus é que Ele deu alguns para apóstolos (Ef 4.11). O próprio Cristo é chamado de apóstolo (Hb -3.1), pois foi enviado pelo Pai, e também os enviou (Jo 2.21). Os profetas eram chamados de mensageiros de Deus.
1. Eles eram doze, uma referência ao número de tribos de Israel, e aos filhos de Jacó, que eram os patriarcas dessas tribos. A Igreja do Evangelho é o Israel de Deus; os judeus foram os primeiros convidados a entrar nela; os apóstolos foram os pais espirituais, para gerar uma semente para Cristo. O Israel que segue a carne deve ser rejeitado pela sua infidelidade; estes doze, portanto, são nomeados para ser os pais de outra nação de Israel. Estes doze, pela sua doutrina, deverão julgar as doze tribos de Israel (Lc 22.30). Eles eram as doze estrelas que constavam da coroa da igreja (Ap 12.1), os doze fundamentos da nova Jerusalém (Ap 21.12,14), caracterizados pelas doze pedras preciosas no peitoral de Arão, os doze pães na mesa dos pães da proposição, as doze fontes de água em Elim. Este era aquele famoso tribunal (e para torná-lo um grande tribunal, Paulo foi acrescentado a ele) que foi nomeado para analisar a situação entoe o Rei dos reis e toda a humanidade. E, neste capítulo, os membros deste tribunal recebem a responsorialidade que lhes é dada por aquele a quem todo o julgamento foi confiado.
2. Os seus nomes são aqui registrados, e isto é feito para a honra deles. Até nisto eles tinham mais razões para se alegrar, porque os seus nomes estavam escritos nos céus (Lc 10.20), enquanto os nomes dos arrogantes e poderosos da terra são enterrados na poeira. Observe:
(1) Dos doze apóstolos, há alguns sobre os quais as Escrituras não nos informam nada além dos seus nomes, como Bartolomeu e Simão, o zelote; e ainda assim eles foram servos fiéis a Cristo e à sua igreja. Observe que nem todos os bons ministros de Deus são igualmente famosos, nem os seus atos são comemorados da mesma maneira,
(2) Eles são nomeados em pares; pois no início assim foram enviados, porque dois é melhor que um; um serviria ao outro, e juntos serviriam melhor a Cristo e às almas; o que um deles esquecesse, o outro lembraria, e da boca de duas testemunhas todas as palavras se estabeleceriam.
Três dos pares eram compostos de irmãos: Pedro e André, Tiago e João, e o outro Tiago e Lebeu. Observe que a amizade e o companheirismo devem ser mantidos nas relações, e devem ser úteis à religião. É algo excelente quando irmãos de sangue são irmãos pela graça, e estes dois laços fortalecem cada um deles.
(3) Pedro é nomeado em primeiro lugar, porque ele foi o primeiro a ser chamado ou porque ele era o mais entusiasmado deles, e em todas as ocasiões ele se fazia a voz dos demais, e além disso ele seria o apóstolo da circuncisão.
Mas isso não lhe deu nenhum poder sobre os demais apóstolos, nem existe a menor marca de que qualquer supremacia lhe tenha sido dada, ou mesmo reivindicada por ele, neste grupo sagrado.
(4) Mateus, o escritor deste Evangelho, aqui se une a Tomé (v. 3), mas em dois aspectos existe uma diferença entre este relato e os de Marcos e Lucas (Mc 3.18; Lc 6.15), onde Mateus é citado em primeiro lugar; nesta ordem, ele parece ter sido ordenado antes de Tomé; mas aqui, na sua própria lista, Tomé é nomeado em primeiro lugar. Observe que é muito apropriado que os discípulos de Cristo desejem, uns aos outros, que estejam em honra.
Nos livros de Marcos e Lucas, ele é chamado somente de Mateus; aqui, de Mateus, o publicano, o cobrador de impostos, que foi chamado daquele emprego infame para sei um apóstolo. Bom é que aqueles que são promovido » à honra com Cristo, olhem para a rocha de onde foram cortados; freqüentemente para se Lembrarem do que eram antes que Cristo os chamasse, para que dessa maneira possam se conservar humildes, e para que a graça divina possa ser glorificada cada vez mais. Mateus, o apóstolo, era Mateus, o publicano.
(5) Em algumas versões em inglês, Simão é chamado de “o cananeu” , um homem de Caná da Galiléia, onde provavelmente nasceu; aqui ele é chamado de Simão, “o zelote”, que alguns interpretam como sendo o significa" do de “cananeu”.
(6) Judas Iscariotès é sempre citado por último, e com aquela marca negra sobre o seu nome, “aquele que o traiu”; o que dá a entender que, desde o início, Cristo sabia quão infeliz aquele homem era, e também que tinha um demônio, e que provaria ser um traidor; ainda assim, Cristo o recebeu entre os apóstolos, para que não fosse uma surpresa e um desencorajamento para a sua igreja se, em alguma ocasião, os escândalos mais desprezíveis acontecessem nas melhores sociedades. Estas manchas têm estado nas nossas festas de caridade; joio em meio ao trigo, lobos junto às ovelhas; mas se aproxima o dia da descoberta e da separação, quando os hipócritas serão desmascarados e lançados fora. Nem o apostolado, nem os demais apóstolos, foram piores por Judas ter sido um dos doze, enquanto a sua maldade estava oculta.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 118-120.
Mt 10.1. Os seus doze discípulos (touç ôcÓôékcí |j,a0r|Tàç oarroO). Na primeira vez que Mateus menciona o grupo dos “aprendizes”, usa o artigo para mostrar que o grupo já estava estabelecido (ver Me 3.14-17). Foram escolhidos antes do Sermão do Monte, mas Mateus não cita este fato. Marcos (3.13-19) e Lucas (6.12-16) declaram que Jesus os escolheu ou nomeou depois de uma noite de oração e desceu com eles a certo lugar plano do monte para entregar o Sermão do Monte (Lc 6.17).
Deu-lhes poder “Poder” (Moffatt, Goodspeed). Ficamos um tanto surpresos que Mateus só fale sobre o trabalho de cura, ao passo que Lucas fala sobre “pregar o Reino de Deus” e “curar os enfermos” (Lc 9.2). E Mateus diz: “E, indo, pregai” (Mt 10.7). Por conseguinte, não é justo dizer que Mateus só soubesse da incumbência de curar os enfermos, por mais importante que fosse como sinal de que Jesus era o Cristo. A aflição física era grande, mas a espiritual era maior. Poder é a ideia mais provável aqui. O ministério de cura chamava a atenção e fazia muito bem. Hoje, temos hospitais, médicos e enfermeiras. Mas não neguemos o poder de Deus para abençoar essas agências e curar doenças como ele quiser. Jesus ainda é o Mestre da alma e do corpo, mas a fé inteligente não se priva de buscar a ajuda de médicos experientes.
A. T. ROBERTSON. Comentário Mateus & Marcos. À Luz do Novo Testamento Grego. Editora CPAD. pag. 115-116.
O termo grego proskaléo quer dizer “chamar para junto de si”, “avocar”. É o mesmo termo usado por Marcos, ao passo que Lucas emprega a palavra synkaléo, isto é, “convocar”. A partir do termo usado por Lucas, “Jesus convocou”, deve-se deduzir que não se deve exagerar a ideia de que Jesus e o discípulos sempre viviam juntos, sem que às vezes a convivência fosse interrompida de dia ou de noite por breves separações ou ausência de alguns. Em Cafarnaum moravam, em casas diferentes, Pedro e André, os filhos de Zebedeu e o publicano Mateus. Quando, pois, Jesus queria dizer algo a todos em conjunto, precisavam ser reunidos para esse fim. Isso acontece agora de modo solene.
Jesus chama os doze para junto de si. Antes de iniciarem seu serviço, seu serviço missionário, eles têm de chegar primeiro ao Senhor, a fim de receberam dele a vocação e a autorização. Somente depois disso poderão cumprir sua missão, sua tarefa, somente então poderão ir às pessoas. Isso é digno de nota. O envio somente é possível a partir da vocação pessoal.
Quando não existe a vocação pessoal, o envio paira no ar. Somente por meio do próprio Senhor o envio adquire fundamento, poder e objetivo. A partir de agora os doze são um conceito definido, uma unidade, a tal ponto que a designação “os doze” continuou sendo usada mesmo depois da saída de Judas. O número “doze” tem um sentido profundo. A aliança antiga estava alicerçada sobre as doze tribos de Israel. A nova aliança deveria ser construída sobre os doze apóstolos. – Do mesmo modo como o sumo sacerdote trazia sobre o peito de sua vestimenta litúrgica os nomes das doze tribos, assim Jesus, o novo e verdadeiro sumo sacerdote, carrega no coração os nomes dos doze apóstolos. – O Apocalipse de João fala das doze portas da nova Jerusalém, sobre as quais estão inscritos os nomes das doze tribos. Entre cada par de portas encontra-se uma imponente pedra retangular como fundamento do muro da cidade, e sobre cada uma dessas pedras está escrito com letras luminosas o nome de cada um dos apóstolos (Ap. 21.12ss). Desse modo está assegurada a unidade da Antiga e da Nova Aliança. Na vocação dos doze, essa unidade ficou documentada (ao convocar os doze, Jesus estabelece sua reivindicação sobre todo o povo de Israel!).
No contexto judaico, a máxima demonstração de poder é realizar milagres. É com isso, pois, que inicia a incumbência do Senhor Jesus aos apóstolos. Os demônios terão de obedecer aos apóstolos por causa de sua autoridade apostólica, e de fato lhes obedecerão por causa de seu poder apostólico.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Mateus. Editora Evangélica Esperança.
Lc 6. 12. Nós o temos nomeando seus acompanhantes imediatos como  sua família, que deveriam ser constantes ouvintes da sua doutrina e testemunhas oculares de seus milagres - para que no futuro pudessem ser enviados como apóstolos, seus mensageiros para o mundo, para pregar seu Evangelho e estabelecer nele a sua igreja, v. 13. Depois que Ele havia permanecido a noite toda em oração, poder-se-ia pensar que quando fosse dia, Ele descansaria e dormiria um pouco. Mas não foi assim. Logo que amanheceu, Ele “chamou a si os seus discípulos”. Servindo a Deus, nossa grande preocupação deveria ser não perder tempo, mas fazer, do fim de um bom trabalho, o início de outro. Os ministros cristãos devem ser ordenados mais com oração do que com simples solenidades. O número de apóstolos era doze: Ele “escolheu doze deles”. Os seus nomes estão registrados aqui é a terceira vez que nós os encontramos, e em cada uma das três passagens a ordem deles difere. Este exemplo serve para ensinar tanto aos ministros quanto aos cristãos em geral a não serem exigentes quanto à primazia, nem ao dá-la nem ao recebê-la, mas olhar para ela como algo sem importância; não importa quem seja mencionado primeiro, e quem seja mencionado depois. Aquele que em Marcos é chamado Tadeu, e em Mateus “Lebeu, apelidado Tadeu”, é aqui chamado de “Judas, filho de Tiago”, o mesmo que escreveu a epístola de Judas. Simão é chamado de “Simão, chamado Zelote”, talvez por seu grande zelo pela religião. No tocante a esses doze aqui nomeados nós temos razão para dizer, como a rainha de Sabá disse dos criados de Salomão: “Bem-aventurados os teus homens, e bem-aventurados estes teus servos, que estão sempre diante de ti e ouvem a tua sabedoria!”
Homem nenhum havia sido tão privilegiado como estes, e ainda assim um deles tinha um demônio, e demonstrou ser um traidor (v. 16). Apesar disso, quando o escolheu, Cristo não se enganou a respeito dele.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 563.
Lc 6.13. Jesus passou a noite nas montanhas, vigiando em oração. Mais de uma vez Lucas salientou essa necessidade íntima que o Redentor tinha de orar, que com freqüência impelia Jesus a lugares ermos (Lc 4.42; 5.16). Contudo os termos aqui utilizados contêm uma ênfase muito especial. A palavra “vigiar por toda a noite” ocorre unicamente aqui.
A escolha dessa expressão incomum, bem como a forma verbal analítica (imperfeito e particípio), destacam a persistência determinada e incessante dessa vigília noturna. A expressão proseuché tou theou, literalmente “oração de Deus”, é também única no Novo Testamento. Essa formulação não designa nenhum pedido peculiar, mas um estado da mais profunda devoção na presença santa e direta de Deus, uma invocação que transita para a mais íntima comunhão com Deus. Durante essa noite Jesus apresentou a Deus sua obra no estágio decisivo em que ingressara naquele momento, aconselhando-se com ele. Durante essa longa luta de oração, por toda a noite, Jesus provavelmente havia apresentado todos os seus discípulos individualmente a seu Pai, para que o Pai designasse aqueles que o Filho deveria tornar emissários da salvação. O que será que os discípulos, que haviam se ajuntado em grande número em torno de Jesus, sentiram quando Jesus, como um general, chamou um por um do meio deles, até que ficasse completo o número dos doze?
“Simão”, começou ele. Com quanta expectativa cada novo nome era aguardado! Com que estremecimento cada um ouvia, então, o chamado do próprio nome. Dentre o grupo de discípulos “ele escolheu os doze”, “aos quais também chamou de apóstolos”. Isso é significativo. Os demais discípulos tiveram de tolerar que esses doze obtivessem uma posição especial do Senhor. O Redentor os havia escolhido em virtude de ordem divina. Deus é soberano.
Os discípulos não têm outra opção a não ser obedecer a esse Senhor extraordinário. “Chamou-os a si”. Mas, se desejou aqueles que o Pai lhe concedeu, de agora em diante sabemos a quem recorrer quando desejamos chegar ao Pai. Porque ele os “ordenou” para duas finalidades.
1) Primeiramente, devem estar junto dele. Devem perseverar com ele em suas tentações até chegarem ao Getsêmani; afinal, devem tornar-se testemunhas dele até os confins do mundo (At 1.8). Precisavam conhecer suas “horas silenciosas”, conviver com ele no dia-a-dia, observar seu trabalho, obter uma visão dos mistérios de sua sabedoria de educador, e até mesmo familiarizar-se com os objetivos de sua ação. 2) O segundo aspecto é que eles partilharão de sua autoridade. Dessa maneira ele providencia, de certo modo, pernas e pés, línguas e lábios que levem adiante sua obra.
Mateus relata a convocação e o credenciamento dos apóstolos em uma ocasião (Mt 10.1ss), e Lucas o faz em dois trechos, mais precisamente como segue: de acordo com Lucas, o primeiro passo de Jesus foi nomeá-los, provavelmente para que passassem a ser seus alunos de modo especial. Isso aconteceu aqui em Lc 6.12-16. A capacitação é relatada em Lc 9.1-6, onde Jesus lhes confere a autoridade para servir como apóstolos. O relato mais preciso indica que esse deve ter sido o processo. Mateus reúne em uma só ocasião as duas ações de Jesus. Isso tem a ver com sua característica de enfatizar tão-somente o aspecto doutrinário e fundamental.
Dessa forma o Redentor obteve, portanto, um grupo de auxiliares para sua obra. Ele, o maravilhoso canal da poderosa benignidade de Deus, fora multiplicado por doze. Mas de antemão os doze não obtiveram nem poder nem incumbência para a ação espiritual propriamente dita.
Quanto ao título “apóstolo”, cf. o exposto no Comentário Esperança, Marcos, sobre Mc 3.13-19, bem como Jo 17.18; 20.21; At 1.8. Essas passagens não devem levar à conclusão que a tarefa dos apóstolos consistia tão somente em ser testemunhas de Jesus. O próprio nome expressa mais, cf. 2Co 5.20: “Somos mensageiros de Cristo… e rogamos que vos reconcilieis com Deus.”
Com a escolha dos doze estava organizada a obra de Jesus. Passou do estágio de fenômeno local e isolado para o estágio de instituição que abrange e cuja intenção arrebata povos e épocas. A obra do Senhor obteve um solo histórico firme e uma perspectiva clara para o futuro, com todas as suas esperanças e todos os seus perigos.
Fritz Rienecker. Comentário Esperança Evangelho de Lucas. Editora Evangélica Esperança.
Lc 6.13. Ao amanhecer, Jesus chamou a si os seus discípulos. Deve tratar-se de um grupo de pessoas que se ligaram a Ele de modo informal.
Um discípulo era um aprendiz, um estudante. No século I, o estudante não estudava simplesmente uma matéria; estudava com um mestre. Há um elemento de ligação pessoal no “discípulo” que falta no “estudante.” Deste grupo maior de aderentes, Jesus escolheu doze. Este é o número das tribos de Israel, número este que significa que Jesus estava estabelecendo o povo de Deus, o verdadeiro Israel. Em Jesus e nos Seus seguidores “as pessoas podiam ver uma dramatização do quadro vétêrotestamentário de Deus trazendo as doze tribos de Israel à terra prometida” (Tinsley). Jesus nunca estabeleceu uma organização. Estes doze homens representam a totalidade da Sua máquina administrativa. Alguns deles eram claramente homens de destaque, mas, de modo geral, parecem ter sido nada mais do que medianos. A maioria deles deixou pouquíssimas marcas na história da igreja. Jesus preferia operar, naqueles tempos como também agora, através de pessoas perfeitamente comuns.
A estes doze Jesus deu o nome de apóstolos. 0 termo é derivado do verbo “enviar" e significa “uma pessoa enviada ” “um mensageiro.” Lucas emprega a palavra seis vezes (com mais vinte e oito em Atos), ao passo que cada um dos demais Evangelistas a emprega uma só vez (é possível que Marcos a tenha duas vezes, dependendo da solução de um problema textual).
Nos Evangelhos, o grupo usualmente é referido simplesmente como “os doze.” Marcos explica que Jesus os escolheu “para estarem com ele e para os enviar a pregar, e a exercer a autoridade de expelir demônios” (Mc 3:14-15). Esta expressão ressalta a noção de missão e a centralidade da pregação na sua função.
Leon L. Morris. Lucas. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 118-119.
Andaram com Jesus durante todo o seu ministerio.
As principais qualificações e funções de um apóstolo estão declaradas nos versículos 21 e 22, pelo menos como entendidas por Pedro. O escolhido para assumir o lugar de Judas deve ser alguém que tenha estado associado com Jesus, desde o seu batismo por João até a sua ascensão. A principal função do apóstolo é ser testemunha da ressurreição.
Dois homens foram indicados para esta posição: José Barsabás, palavra aramaica que significa “filho do sábado”, e Matias (“presente de Jeová”). Em seguida, os discípulos oraram pedindo a orientação divina na escolha do candidato correto entre os dois. E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre Matias, que assumiu o seu lugar com os onze apóstolos (26). “O método empregado pelos judeus era o de colocar os nomes escritos em pedras dentro de um recipiente e agitá-lo até que uma das pedras caísse”.52 Os apóstolos tinham orado antes das suas indicações e também antes de lançarem sortes? Não sabemos. Mas depois do Pentecostes, não se lê mais que os discípulos tenham lançado sortes. O Espírito Santo, que passou a habitar em cada um, guiava-os.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 7. pag. 213.
2. As medidas que Pedro toma para a escolha de outro apóstolo (w. 21,22). Observe aqui: (1) As qualidades que o candidato deve ter para preencher o cargo vacante. Tem de ser alguém dos varões, estes setenta discípulos que conviveram conosco, que constantemente nos acompanharam todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, pregando e realizando milagres os três anos e meio, começando desde o batismo de João, do qual iniciou o evangelho de Cristo, até ao dia em que dentre nós foi recebido em c ima. Os que foram diligentes, fiéis e constantes no desempenho dos seus deveres em um nível mais baixo, são mais aptos a serem promovidos a um nível mais alto; os que foram fiéis no pouco receberão mais. E ninguém deve ser empregado como ministro de Cristo, pregador do seu evangelho e dirigente em sua igreja, senão aquele que conhece bem a doutrina e os feitos, do início ao fim. Ninguém deve ser apóstolo, senão aquele que tem acompanhado os apóstolos de forma contínua; não alguém que os visitou de vez em quando, mas que esteve estreitamente ligado a eles. (2) O trabalho ao qual o candidato é chamado para fazer quando preencher o cargo vacante: Ele deve ser alguém que se faça conosco testemunha da ma ressurreição. Isto nos leva a entender que havia outros discípulos com os onze quando Jesus apareceu a eles, de outra forma esses discípulos não poderiam ter sido testemunhas com os apóstolos - como testemunhas competentes que eram - da. sua ressurreição. O grande evento que os apóstolos tinham de atestar para o mundo era a ressurreição de Jesus, pois esta era a prova cabal de Ele ser o Messias e o fundamento de nossa esperança nele. Notemos que os apóstolos foram ordenados, não para ocupar um alto cargo honorífico e governo secular, mas para pregar Jesus e o poder da sua ressurreição.
mA nomeação do candidato que sucedeu Judas no ofício de apóstolo.
1. Dois homens de grande integridade e que estiveram constantemente com Jesus foram apresentados para ocupar o cargo vacante: Eles apresentaram dois (v. 23). Não foram os onze que tomaram para si a responsabilidade de determinar quem assumiria o posto, mas os cento e vinte, pois Pedro se dirigiu a eles e não aos onze. Os dois candidatos eram José e Matias, os quais não constam em outra parte das Escrituras, exceto que este José é o mesmo sobre quem Paulo fala em Colossenses 4.11: Jesus, chamado Justo, que é da circuncisão, judeu nativo, que foi um dos cooperadores de Paulo no Reino de Deus e lhe era uma consolação. Notemos que, embora não tivesse sido nomeado apóstolo, ele não deixou o ministério, mas foi muito útil em posição ministerial menos importante: Porventura, são todos apóstolos? São todos profetas? (1 Co 12.29). Certos estudiosos pensam que este José é o citado em Marcos 6.3, irmão de Tiago, o menor (Mc 15.40), e foi chamado José, o justo, como o irmão dele foi chamado Tiago, o justo. Outros o confundem com o José mencionado em Atos 4.36. Mas este er*a de Chipre, e aquele era da Galileia. Foi para diferenciá-los que este se chamava Bamabé -  da consolação, e aquele, Barsabás - um filho do juramento. Estes dois candidatos eram homens tão dignos e tão bem qualificados para o cargo vacante que a assembléia reunida não sabia dizer quem deles era o mais adequado, embora todos concordassem que deveria ser um destes. Nenhum dos dois se apresentou nem se esforçou para conseguir a vaga, mas os dois permaneceram em silêncio, aguardando humildemente a nomeação.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 11.
At 1.21/22 Pedro constata inicialmente as exigências imprescindíveis a um “apóstolo”. Um “apóstolo” é acima de tudo uma “testemunha da ressurreição de Jesus”. A ressurreição de Jesus é – obviamente mediante ligação indissolúvel com sua cruz! – o evento decisivo que realmente faz do evangelho um evangelho. Sem o acontecimento do dia da Páscoa, o “cristianismo” jamais teria surgido no mundo. Não teria significado extremo para nós e para o mundo todo o fato de que o ser humano Jesus de Nazaré viveu, ensinou, curou, amou e sofreu, se esse Jesus não tivesse sido despertado por Deus e transformado em seu “Senhor e Cristo” (cf. At 2.32-36; 3.13-15; 4.10-12; 13.38s; 17.30s). Jesus foi “designado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos” (Rm 1.4). Essa ressurreição dentre os mortos, contudo, constitui ao mesmo tempo o “impossível”, o humanamente inconcebível e por isso escandaloso, irritante e ridículo (At 17.32). Por isso o testemunho originário do apostolado, fundador da igreja, somente pode ser prestado nesse mundo alienado de Deus por aquela pessoa que presenciou pessoalmente o fato inaudito da ressurreição de Jesus e que experimentou sua verdade. Essa ressurreição, porém, não é um evento isolado em si. Jesus, e unicamente Jesus, é aquele que ressuscitou dentre os mortos! E precisamente Jesus é, como o Ressuscitado, de fato o Salvador glorioso de que os pecadores precisam. Por isso a testemunha de sua ressurreição igualmente precisa ter conhecido bem a Jesus pessoalmente. No entanto, ele não é “apóstolo” como pessoa isolada e solitária, mas – já falávamos disso – unicamente como membro do grupo de apóstolos. Por isso precisa ter estado em contado desde o início com esse grupo a que deverá pertencer integralmente. Ele deve exercer o ministério “conosco”.
23 Havia homens com essa qualificação entre os cento e vinte. Dois deles pareciam especialmente dignos de confiança aos que estavam reunidos. Destacaram José, chamado Barsabás, com o cognome Justo, e Matias. Contudo, nem eles nem os apóstolos queriam tomar pessoalmente a decisão definitiva. Afinal, o Espírito Santo, que mais tarde – p. ex., em At 13.2 – separa e convoca para o ministério, ainda não está presente.
Werner de Boor. Comentário Esperança Atos. Editora Evangélica Esperança.
Receberam autoridade do Senhor.
O poder de que eles deveriam estar revestidos, para a confirmação da doutrina que deveriam pregar (v. 17): “E estes sinais seguirão aos que crerem”. Isto não significa que todos os que crerem serão capazes de produzir esses sinais, mas aqueles que estiverem empenhados na propagação da fé, e na atração de outros a ela; pois os sinais se destinam àqueles que não creem (veja 1 Co 14.22). Aumenta muito a glória e a evidência o fato de que os pregadores não somente realizavam milagres pessoalmente, mas concediam a outros um poder de realizar milagres, poder este que seguia alguns dos que criam, aonde quer que eles fossem pregar. Eles realizavam milagres em nome de Cristo, o mesmo Nome no qual foram batizados, em virtude do poder obtido dele, e alcançado através da oração. Alguns sinais em especial são mencionados. (1) Eles expulsarão demônios; este poder era mais comum entre os cristãos do que entre outras pessoas, e durava mais tempo, como podemos deduzir pelos testemunhos de Justino Mártir, Orígenes, Irineu, Tertuliano, Minúcio Félix, e outros, citados por Grotius a respeito dessa passagem. (2) Eles “falarão novas línguas”, que nunca tinham aprendido, ou conhecido; e isto era tanto um milagre (um milagre sobre a mente), para a confirmação da verdade do Evangelho, como um meio de transmitir o Evangelho entre todas aquelas nações que não o tinham ouvido. Alguns entendem que isso evitou que os pregadores fizessem um grande esforço para aprender as línguas; e, sem dúvida, aqueles que, por milagre, receberam o domínio das línguas, receberam o domínio completo delas e de toda a sua elegância nativa, que era adequada tanto para ensinar quanto para influenciar, o que muito lhes recomendava, bem como a sua pregação. (3) Eles “pegarão nas serpentes”. Esta promessa se cumpriu na vida de Paulo, que não foi ferido pela víbora que lhe acometeu a mão, o que foi reconhecido pelos bárbaros como um grande milagre (At 28.5,6).
Os cristãos não serão feridos por aquela geração de víboras entre as quais vivem, nem pela malícia da velha serpente. (4) “Se beberem alguma coisa mortífera” - por imposição dos seus perseguidores - “não lhes fará dano algum”: muitos exemplos deste milagre são encontrados na história da igreja cristã. (5) Eles não serão somente protegidos contra ferimentos, mas também serão capacitados a fazer o bem aos outros; “imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”, como tinha acontecido com as multidões pelo toque curativo do seu Mestre.
Muitos dos presbíteros da igreja tinham esse poder, como se pode ver em Tiago 5.14, onde, como um sinal instituído dessa cura milagrosa, eles recebem a instrução de ungir os enfermos com azeite em nome do Senhor Jesus. Com que certeza de sucesso eles podiam viajar, realizando a obra que lhes fora confiada, tendo credenciais como essas para apresentar!
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 505.
A boa nova de Jesus precisa ser confirmada (16.17,18). Adolf Pohl corretamente afirma que os sinais não estão vinculados a cargos, mas em primeiro lugar à fé que deixa Deus ser Deus (5.36; 9.23; 11.22). Em segundo lugar, eles fazem parte do contexto missionário, pois o fato de eles “acompanharem” pressupõe que os discípulos estão a caminho para difundir o evangelho.
Paul Beasley-Murray diz que o que temos aqui é descritivo e não prescritivo. O que temos aqui é um sumário da vida da Igreja primitiva. Os cristãos primitivos expulsaram demônios em nome de Jesus (3.15; 6.7,13; At 8.7,16,18; 19.12). Eles falaram em línguas (At 2.4; 10.46; 19.6; 1Co 12.10,28; 14.2-40). Paulo foi picado por uma víbora sem sofrer o dano de seu veneno letal (At 28.3-6). Eles impuseram as mãos sobre os enfermos para curá-los (At 28.8). Não há, porém, nenhuma alusão no Novo Testamento sobre a ingestão de veneno. O único registro que temos na história é de Eusébio, historiador da Igreja, que fala sobre Justus Barsabas, um cristão que, forçado a beber veneno, pela graça de Deus não morreu.
Warren Wiersbe diz que alguns sinais descritos em Marcos 16.17,18 ocorreram durante o período apostólico descrito no livro de Atos. Eles foram as credenciais dos apóstolos (Hb 2.1-4; Rm 15.19; 2Co 12.12), mas não devemospresumir que eles pertencem a todos os crentes hoje. É insensatez tentar a Deus bebendo veneno, mas não é tolice confiar em Deus quando a obediência à sua vontade nos levar a situações perigosas. A presunção nos mata, mas a fé nos liberta.
B. B. Warfield, em conexão com esses dons especiais diz: “Esses dons eram parte das credenciais dos apóstolos, como os agentes autoritativos de Deus, na fundação da Igreja... tais dons necessariamente desapareceram, com os apóstolos”. Crisóstomo e Agostinho também eram da opinião que esses dons, com a morte dos apóstolos, cessaram de existir. Essa também era a opinião de Jonathan Edwards: “Esses dons extras foram dados para a fundação e estabelecimento da Igreja no mundo. Contudo, desde que o cânon das Escrituras se completou e a Igreja foi plenamente fundada e estabelecida, esses dons extraordinários cessaram de existir. Entre outros que expressaram um entendimento semelhante, estão Matthew Henry, George Whitefield, Charles H. Spurgeon, Robert L. Dabney, Abraham Kuiper, e G. T. Shedd.
Não é esse, porém, o nosso entendimento. Cremos que Deus pode e tem dado seus dons de sinais onde e quando quer, a quem quer, livre e soberanamente, segundo o seu beneplácito, para o louvor da sua própria glória, para a salvação dos eleitos e a edificação dos santos. A grande ênfase de Marcos é que quando a Igreja proclama a mensagem de Deus, o próprio Deus confirma essa mensagem com a manifestação do seu poder (1Co 2.4; 1Ts 1.5), transformando vidas, atraindo as pessoas irresistivelmente pelo seu poder sobrenatural. A Igreja é chamada para ser um sinal do Cristo vivo e ressurreto no mundo. William Barclay conclui o seu comentário de Marcos afirmando que a vida cristã é a vida vivida na presença e no poder daquele que foi crucificado e ressuscitou.
LOPES. Hernandes Dias. MARCOS, O evangelho dos milagres. Editora Hagnos.
Mc 16. 17 Começa a descrição da comunidade dos “crentes”. De forma alguma o Senhor tinha em vista apenas a primeira geração, antes, conforme o v. 16, todos os batizados. Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem. Eles não estão vinculados a cargos, mas em primeiro lugar à fé que deixa Deus ser Deus (cf. 5.36; 9.23; 11.22s). Em segundo lugar eles fazem parte do contexto missionário, pois o fato de eles “acompanharem” pressupõe que os discípulos estão a caminho para difundir o evangelho. Conforme o v. 20 os sinais reforçam a palavra missionária, de modo que esta não chega às palavras como teoria desnuda, como afirmação rígida. Paulo não podia renunciar à confirmação das suas palavras “por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15.19). Aos coríntios, que colocaram em dúvida sua condição de apóstolo, ele lembrou que seu ministério entre eles contara com “as credenciais do apostolado” (2Co 12.12; cf. Hb 2.4). Não se pensa em provas convincentes; sinais sempre podem ser mal-interpretados (3.22). Aquele que foi elevado, porém, legitima a entrada em cena dos seus mensageiros com sinais de atenção.
Os cinco exemplos relacionados a seguir são confirmados especialmente pelos Atos dos Apóstolos. Exorcismos encontramos ali em 5.16; 8.7; 16.16ss; novas línguas em 2.1-11; 10.46; 19.6; milagres com serpentes em 28.3-6 e curas em 3.1-10; 4.30; 5.12,15; 9.12,17,33s,29ss; 14.8ss; 19.11; 28.8s. Só para a preservação em caso de veneno falta um exemplo.
Como primeiro está um sinal que também tem muito peso no evangelho de Marcos (1.34,39; 3.11,15; 6.7,13; 9.38): Em meu nome, expelirão demônios. A mudança de governo pascal que os crentes proclamam não agrada aos senhores anteriores. A má vontade deles também pode manifestar-se com resistência em altos brados. Mas o nome de Jesus os faz calar.
Em segundo lugar, falarão novas línguas. O NT geralmente é mais curto: “falar em línguas”. Só duas vezes a expressão é mais longa: “falar em outras línguas” (At 2.4), e: “falar em línguas estrangeiras” (1Co 14.21. BV). Aqui a intenção é esclarecer: “falar novas línguas”. Será que se pensa realmente na mudança para uma das línguas do mundo antigo, que só são subjetivamente novas para a pessoa em questão porque não as conhecia até então? Provavelmente a expressão “novas línguas” deve ser colocada ao lado de expressões como “nova aliança, nova criação, novo céu, nova terra, nova Jerusalém, novo cântico e novo nome”. Como parte da nova criação, elas se distanciam da confusão de línguas babilônica, são “língua dos anjos” com Deus (1Co 13.1). É claro que se pode contar com manifestações diferentes, já que há “variedade de línguas”, conforme 1Co 12.10. No contexto missionário elas podem ser um sinal de condenação ou de advertência (1Co 14.22).
Mc 16. 18 Pegarão em serpentes. Cumprimentos literais temos em At 28.3-6 e na história recente de missões (p ex E. Seiler, Wunderbar sind seine Wege, Hänssler V., 1970, p 7ss). Além disso, “pisar em serpentes e escorpiões” ilustra já no AT a submissão dos poderes malignos. Lc 10.19 também está
próximo deste sentido. O ser humano governa novamente sobre os animais (Gn 1.26,28; Is 11.8). Anuncia-se a restauração da criação e do ser humano.
E, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal. O acréscimo conduz a Ap 11.4-7, onde se promete proteção à comunidade de testemunhas, igualmente vinculada ao tempo do seu testemunho. Ninguém poderá encurtar o serviço delas, nem por um dia. Também em Mt 6.25-34 Jesus garante a existência terrena dos seus mensageiros até nos detalhes. Segundo Jo 17.15, ele pede por milagres de proteção para eles, sempre tendo em vista que eles buscam em primeiro lugar o reino de Deus e executam sua missão.
Se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados. Como com seu Senhor, a imposição de mãos também para eles não é um meio de transmitir poder (cf. 7.32), mas é um gesto de bênção e intercessão.
Os sinais não são demonstrações a bel-prazer, mas fazem parte do objetivo. Por isso a relação pode ser ampliada, mas não reinterpretada, talvez em sentido moralista: em nossas obras de amor, paz e justiça temos uma confirmação muito melhor da Palavra (p ex Marti). Ou espiritualizando, trazendo a campo os milagres interiores muito maiores: qualquer pessoa pode crer em todo o amor de Deus. Recebe certeza do perdão e pode perdoar ao seu próximo. Experimenta paz e alegria na dor. Albert Schweitzer acrescentou um ponto de vista da filosofia da história (em: Allerlei Festfreuden II, em H.-H. Jenssen, Evangelische Predigtmeditationen 1976/77, p 204): A atuação do Espírito é muito parecida com um rio. Na proximidade da sua fonte, ele corre animado e ruidoso, espirra e espuma, mas ainda tem pouca força. Mais abaixo, ele corre calmo e até parecendo preguiçoso, mas carrega grandes cargas, abriga uma abundância de peixes e gira turbinas elétricas. Assim, os milagres instigantes do primeiro tempo do cristianismo diminuíram, tudo passou para dentro das margens organizadas da vida eclesial, mas em vez disto a torrente de amor derramada por Jesus – e o amor é maior que tudo! – aumentou tanto em largura e força no transcorrer da história da igreja, que não há mais motivo para ter saudade dos começos. – Tão cor-de-rosa não podemos mais ver o desenvolvimento no fim do século XX.
Mais cinco pontos de vista para classificar o texto:
1. Os sinais não são a coisa em si mas, de acordo com os v. 17 e 20, a acompanham, mais ou menos como na visita de uma alta autoridade o carro oficial é escoltado por batedores. Mas, pela causa, a ausência de sinais precisa ser considerada uma deficiência (cf. 1Co 14.24; Lc 7.18-23).
2. No território fora do cristianismo há manifestações iguais ou semelhantes (9.38s), de modo que estes sinais não podem servir, sem verificação, como prova de identificação com Cristo e de sua autoridade.
3. Conforme 6.5; 8.10-13 e 15.31,32, de vez em quando os sinais devem ser recusados legitimamente.
4. As listas de carismas no NT não são idênticas, mas têm diferenças de comprimento, conteúdo e terminologia (Rm 12.7,8; 1Co 12.8-10,28-30; Ef 4.11; Hb 2.4; 1Pe 4.11 e Mc 16.17,18). O quadro é necessariamente variado, porque as situações mudam. Por isso não se deve ceder à tentação de pinçar dons à vontade. Não concordamos com brincadeiras carismáticas em que a seqüência de carismas é praticada para alegria própria e mútua. Também não aceitamos a imposição de uma obrigatoriedade de sinais, independente de necessidades concretas.
5. A passagem sobre os sinais apostolares em 2Co 12.12 é acompanhada de uma observação chamativa: Paulo os fazia “com toda a paciência” (BLH). Isto não parece combinar. Quem tem autoridade não precisa mais de paciência! No entanto, a impaciência é exatamente o sinal dos profetas falsos, é a maneira dos senhores mundanos. A paciência, por outro lado, é o estilo do nosso Senhor. Jesus suportou a cruz renunciando às orações atendidas e à alegria, e concordando com a vergonha e o mal-entendido (Hb 12.12; cf. 1Pe 2.20s). Também para Paulo a autoridade se combinou com as insígnias da insignificância de Jesus. Sua autoridade não serviu ao seu próprio bem-estar, à sua auto-estima, à sua reputação e à sua aparência. Repetiu-se com ele Mc 15.31: “Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se” (cf. 2Co 4.12). Todo aquele que, em vista dos sinais apostólicos, é incendiado pelo desejo: “Também a mim!” (At 8.19), pense nestes contextos.
Adolf Pohl. Comentário Esperança Evangelho de Marcos. Editora Evangélica Esperança.
II - O APÓSTOLO PAULO
1. Saulo e sua conversão.
Chamado por Deus
“Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes (1 Co 1.1; 2 Co 1.1; Gl 1.1). Os Doze foram chamados por Jesus de maneira bem natural e espontânea. Ao passar pelas margens do Mar da Galileia, Jesus simplesmente olhou para os irmãos Pedro e André, e os chamou para serem pescadores de homens (Mt 4.18,19); aos irmãos Tiago e João, os chamou da mesma forma (Mt 4.21,22). E eles o seguiram também de maneira espontânea. O chamado de Paulo foi bem diferente. A caminho de Damasco, com ordens dos sacerdotes para prender os cristãos, foi interrompido por Jesus, de maneira sobrenatural e impactante.
Derrubado ao chão, Paulo teve o chamado de Deus de forma tão dramática, que caiu, ouvindo a potente voz do Senhor, que o abatera em seu orgulho e presunção, quando julgava estar fazendo a vontade de Deus no zelo do judaísmo (At 9.4; 22.7; At 9.10-19). Deus tem seus caminhos e suas maneiras de agir, às vezes muito estranhas (cf. Is 28.21). Diante de um chamado tão singular e diferente dos demais apóstolos, Paulo tinha razão em dizer que era chamado pela vontade de Deus e não dos homens. Até seu nome foi mudado, de Saulo (hb. Sha'ul, o que foi pedido) para Paulo (gr. Paulus, baixo, pequeno, humilde), após ser convocado pelo Espírito Santo para ser enviado para a missão (At 13.8).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 75.
Da Terra das Tendas Negras
Os juízes saltaram dos seus assentos, uivando de raiva.
O Corredor das Pedras Polidas, cenário de graves debates e julgamentos históricos, reverberava com o rugir da multidão em cuja mente rodopiava o linchamento. Não se contendo, a multidão invadiu o recinto, lançou mão do jovem réu e arrastou-o ao Pátio dos Sacerdotes, banhado por forte luz solar. Descendo mais degraus através desse largo espaço aberto e atravessando pátio após pátio, a enlouquecida multidão que crescia com transeuntes, adoradores e comerciantes empurrou a Estêvão para fora do templo e pelas ruas da Cidade Santa.
Ele não fora condenado à morte, e ainda que tivesse sido, a sentença não poderia ser executada sem a confirmação das autoridades romanas. Embora a pena de morte devesse ser precedida de solene ritual que assegurasse justiça até o fim, não era esse o processo que ia na mente dos juízes e da turba. Saíram pela porta norte rumo à Rocha da Execução, "duas vezes a altura de um homem". Ao chegar a esse local, deveriam solenemente despir o réu e em seguida atirá-lo abaixo a fim de lhe quebrar o pescoço ou, pelo menos, deixá-lo fora de si, para que a morte por apedrejamento não fosse tão dolorosa. Em vez disso, empurraram a Estêvão assim como estava. A roupa amor-teceu-lhe a queda e ele se levantou tonto, mas totalmente consciente.
A multidão, com o choque, voltou às formalidades legais. Como num apedrejamento judicial os acusadores deviam lançar as primeiras pedras, estes foram à frente, tiraram as capas e, olhando ao redor, procuravam alguém que as guardasse. Um jovem advogado, esbaforido da corrida pelas ruas da cidade, deu um passo à frente. Reconheceram nele um fariseu da Cilicia, na Ásia Menor, por nome Saulo entre os judeus e Paulo entre os gregos e os romanos.
Paulo dava sua aprovação à medida que cada testemunha apanhava uma pedra, erguia-a acima da cabeça e a atirava para ferir e aleijar o homem lá embaixo. Então Paulo ouviu a voz de Estêvão. Em dor, mas com clareza, ele falava como se a alguém invisível, mas próximo: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito".
Choveram as pedras enquanto a multidão se apressava a completar o que as testemunhas haviam iniciado. O sangue esguichava dos cortes e ferimentos de Estêvão. Tentando dominar a dor, ele se ajoelhou em oração. Paulo não podia deixar de ouvir as palavras que saíam com volume espantoso de alguém a morrer: "Senhor, não lhes imputes este pecado."
A próxima pedra tombou-o ao chão. O mártir perdera a consciência. A multidão continuou a apedrejá-lo.
Paulo nasceu numa cidade situada entre as montanhas e o mar. É provável que o ano tenha sido 1 d.C, mas os detalhes originais do local do seu nascimento são escassos. A indicá-lo, temos a reivindicação do próprio apóstolo: "Eu sou judeu de Tarso, cidade não insignificante da Cilicia... Da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus".
Tarso era a principal cidade da fértil planície da Cilicia, no extremo Sudoeste da Ásia Menor. O mar distava dezenove quilômetros, ao sul. As montanhas do Tauro curvavam-se num grande arco cerca de 40 quilômetros para o interior, aproximando-se do mar no lado oeste e marcando ao norte gargantas e penhascos que se elevavam como fortalezas diante das nevascas. Um panorama magnífico para a infância, especialmente no inverno, quando os picos sem nuvens eram recobertos de neve branca e suave.
O rio Cnido, estreito, rápido e de águas muito claras, a não ser quando chovia nas montanhas, atravessava a cidade e ia cair no porto artificial, obra-prima da engenharia do mundo antigo. Aí Cleópatra, uns 40 anos antes do nascimento de Paulo, aportara a fim de se encontrar com António. Tarso se admirara dos remos de prata, de uma chalupa de ouro batido e de velas cor de púrpura "tão perfumadas que os ventos por elas se apaixonaram". Na primavera, quando a navegação recomeçava e nas passagens das montanhas a neve se derretia, os escravos descarregavam mercadorias vindas do Oriente. A cidade se enchia de ruídos, aromas e sinais de prosperidade. As caravanas rumo ao norte, depois de passarem pelos portões da Cilicia — uma brecha na rocha de cerca de três metros de largura, e que era outra antiga maravilha da antiga engenharia de Tarso — seguiam a estrada romana que transpunha as montanhas.
Tarso era uma fusão de civilizações em paz sob o governo de Roma: cilicianos nativos e hititas cujos ancestrais haviam dominado a Ásia Menor; gregos de pele clara; assírios e persas, e macedônios que vieram com Alexandre, o Grande, em sua marcha contra a índia. Depois de formado o império de Alexandre, quando Tarso se tornou parte do reino dos selêucidas que governaram da Síria, Antíoco IV, por volta de 170 a.C, introduziu na cidade uma colônia de judeus. Estes, além de direitos e privilégios, possuíam a determinação de nunca dar seus filhos em casamento aos que não pertencessem à sua fé e ao seu sangue, aos quais chamavam de gentios, "nações" ou "gregos". É provável que os ancestrais de Paulo estivessem entre esses judeus que, por sua vez, devem ter saído da obscura cidade de Giscala, na Galileia.
É possível que o pai de Paulo tenha sido um mestre na arte de fabricar tendas, e trabalhasse, como os outros artesãos, em couro e cilicium. O pano era tecido dos longos pelos de bodes pretos que pastavam, como ainda hoje o fazem, nas encostas do Tauro. As tendas negras de Tarso eram usadas por caravanas, nômades e exércitos provenientes de toda a Ásia Menor e da Síria.
Da mãe de Paulo nada se sabe. Ele jamais a menciona, talvez por haver ela falecido quando ele era criança ou por alguma outra causa. Ou simplesmente porque não teve a oportunidade de mencioná-la. Ele tinha pelo menos uma irmã. Nasceram num lar rico — seu pai era um cidadão ou burguês de Tarso, e numa reforma quinze anos antes a classe de cidadão havia sido removida de todas as famílias que não possuíssem certa fortuna ou propriedades consideráveis. Além disso, a família detinha a cobiçada posição de cidadania romana. Nessa época o civis romanos era raramente concedido, a não ser por causa de serviços prestados ou por bom dinheiro. Quer o avô de Paulo tenha ajudado a Pompeu ou a Cícero quando Roma era governada pela Cilicia, quer seu pai houvesse comprado a cidadania, essa posição conferia distinção local e privilégios hereditários, os quais cada membro podia reivindicar onde quer que se encontrasse em todo o império.
Significava também que Paulo possuía um nome latino completo composto de três palavras (por exemplo: Gaius Julius Caesar). As duas primeiras eram nomes comuns a todas as famílias (no caso de César, Gaius Julius). Estas, porém, se perderam com o tempo, pois a história da vida de Paulo foi escrita pela primeira vez por um seu colega grego. E grego nenhum conseguia entender os nomes latinos. O terceiro nome, chamado cognomen, era Paulus. Por ocasião do ritual da circuncisão, no oitavo dia de vida, ele também havia recebido um nome judaico: "Saulo". Este foi escolhido ou por causa do seu significado, "pedido", ou em honra do benjamita mais famoso de toda a história, o rei Saul.
Saulo era o nome usado em casa, ressaltando que a herança judaica lhe era a coisa mais importante nos seus primeiros anos. Os gentios estavam em toda a parte, as colunas dos templos pagãos dominavam o mercado. Atenas e Roma, Babilónia e Nínive haviam combinado fundar a cidade de Tarso, e Paulo, sabendo ou não, era filho desse mundo helênico-oriental. Embora a perspectiva grega da vida influenciasse muitos judeus por todo o Mediterrâneo, essa influência parecia remota na juventude de Paulo em virtude de seus pais serem fariseus, membros do partido judaico nacionalista mais fervoroso e mais estrito em sua obediência à lei de Moisés.
Esses fariseus procuravam proteger seus filhos da contaminação. Desestimulavam a amizade com crianças gentias. Desprezavam as ideias gregas. Embora Paulo, desde a infância, falasse grego, a língua franca de então, e tivesse conhecimento de latim, em casa a família falava o aramaico, a língua da Judeia, derivada do hebraico.
Consideravam Jerusalém como hoje o islã considera Meca. Seus privilégios de pessoas livres e de cidadãos romanos nada eram diante da honra de serem israelitas, o povo da promessa, o único povo a quem o Deus vivo havia revelado sua glória e seus planos.
A escola anexa à sinagoga de Tarso não ensinava nada mais que o texto hebraico da sagrada lei. Cada aluno a repetia em coro com o guardador da sinagoga, o hazzan, até que as vogais, o acento e o ritmo se tornassem precisos. Paulo aprendeu a escrever os caracteres hebraicos em papiro e, desta forma, pouco a pouco formou seus próprios rolos das Escrituras. É provável que seu pai o tenha presenteado com outro conjunto de rolos em velo: a tradução grega do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta, lida aos sábados nas sinagogas. Aos treze anos de idade, Paulo já havia dominado a história judaica, a poesia dos salmos e a majestosa literatura dos profetas. Com seu ouvido treinado até à exatidão e seu cérebro rápido, ele podia reter o que ouvia tão instantânea e fielmente quanto uma mente fotográfica moderna pode reter a página impressa. Ele estava preparado para a escola superior.
Tarso tinha sua própria universidade, tornada famosa por causa de estudantes locais como Athenodorus, tutor e confidente do imperador Augusto, e o igualmente eminente Nestor. Esses ilustres mestres, em sua velhice, haviam retornado a Tarso e eram cidadãos honrados na infância de Paulo. Mas um fariseu severo não deixava seu filho enredar-se pela filosofia moral pagã. Assim, é provável que no ano em que Augusto morreu, 14 d.C, Paulo, ainda adolescente, tenha sido enviado, por mar, à Palestina, e tenha subido os montes na direção de Jerusalém.
Durante os seguintes seis anos ele se sentou aos pés de Gamaliel, neto do mestre supremo Hillel que, alguns anos antes, falecera com mais de cem anos de idade. Sob o frágil e gentil Gamaliel, em contraste com os líderes da escola rival de Shamai, Paulo aprendeu a dissecar um texto até revelar dezenas de possíveis significados. Gerações de rabis haviam obscurecido o sentido original mediante o acréscimo de camadas de tradição, todas com o fim de proteger o israelita da menor quebra da lei e, ilogicamente, ajudá-lo a evitar as suas inconveniências. Paulo aprendeu a debater no estilo pergunta-e-resposta, conhecido no mundo antigo como "diatribe". Aprendeu também a fazer uma exposição, pois o rabi, além de advogado de acusação ou de defesa dos que quebravam a lei sagrada, era também pregador.
Paulo excedeu a seus contemporâneos. Sua mente poderosa poderia levá-lo a ocupar um lugar no Sinédrio, no Corredor das Pedras Polidas, e torná-lo um "governador dos judeus". Por ser o estado judaico uma teocracia em que as mesmas pessoas exerciam funções religiosas e civis, os setenta e um membros do Sinédrio eram igualmente juízes, senadores e mestres espirituais. O tribunal tomava decisões supremas em todos os assuntos religiosos e dentro da pequena liberdade de se governarem a si mesmos permitida pelo romanos. Alguns dos membros do tribunal procediam do sacerdócio hereditário. Outros eram advogados e rabis.
Antes de chegar a ser mestre em Israel, Paulo teve de aprender uma profissão, como todos os judeus, porque, em teoria, nenhum rabi recebia pagamento, mas sustentava-se a si mesmo. Portanto, Paulo deixou Jerusalém no início dos seus vinte anos. Tivesse ele permanecido aí durante o ministério de Jesus de Nazaré, certamente teria argumentado com ele, à semelhança dos outros fariseus. Nos anos posteriores ele se referiu com frequência à morte de Jesus por crucificação, mas jamais confessou-se sua testemunha ocular.
É provável que Paulo tenha retornado a Tarso e trabalhado no negócio da família, a fabricação de tendas, seguindo sua antiga rotina: inverno e primavera em Tarso, e quando a planície ficava quente e doentia, ele se dirigia à cidade de veraneio nas encostas do Tauro. Em Tarso ele teria ensinado na sinagoga. Uma de suas cartas sugere que ele tinha forte inclinação missionária. Onde quer que os judeus adoravam, os simpatizantes gentios eram admitidos como "tementes a Deus". Fariseus como Paulo instavam a que os tementes a Deus se fizessem prosélitos, judeus completos: deviam submeter-se ao simples mas doloroso ritual da circuncisão, e então honrar as exigências cerimoniais e pessoais da lei em todo o seu rigor. O fardo podia ser pesado, mas a recompensa era grande, pois ganhariam o favor de Deus.
Era natural que o pai de Paulo se deleitasse nesse filho que lhe havia seguido os passos de fariseu, e que possuía força intelectual capaz de o elevar aos mais importantes cargos em Israel.
Logo depois de seu trigésimo aniversário Paulo voltou a Jerusalém — com ou sem uma esposa. E quase certo que ele se tenha casado. Os judeus raramente permaneciam solteiros, e a paternidade era um dos requisitos dos candidatos ao Sinédrio. Entretanto, a sua esposa jamais entra na história. Talvez ele tenha perdido não somente a esposa, mas também um filho único, pois nos anos subsequentes ele se mostrou impaciente com o gênero feminino, embora individualmente tratasse com gentileza as mulheres e tivesse grande compreensão do casa¬mento. Estes fatos negam que ele tenha sido misógamo. Além disso, ele praticamente adotou um jovem como se desejasse substituir o filho.
É bem provável que sua esposa e família tenham voltado com ele. Em Jerusalém, podiam desincumbir-se das obrigações mais complicadas e mais dignas da lei, e demonstrar zelo onde este seria notado. Paulo também podia combater o movimento lançado por Jesus de Nazaré. Tarso deve ter recebido ecos dos ensinos e das reivindicações do novo profeta e dos estranhos relatos de milagres, e até mesmo da notícia de que ele havia ressurgido dentre os mortos.
Estêvão
Comparada aos terraços de mármore e de ouro do Templo, a sinagoga de Jerusalém, à qual assistiam os judeus da Cilicia, era pequena, austera e fria, apesar do sol de verão. Os homens se assentavam em bancos de pedra dispostos ao longo das paredes, sob as colunas de apoio às galerias das mulheres. Os anciãos ficavam de frente para a congregação. Perto deles, ao lado do candelabro de sete velas e da arca coberta por um véu e contendo os rolos da lei, estava a pequena plataforma. Aqui os convidados dos anciãos liam a Lei em voz alta e a explicavam. Paulo aceitava o convite para falar nas sinagogas como coisa muito normal.
Mas como em Jerusalém não faltavam candidatos, o apóstolo tinha de ouvir mais do que falar. Um daqueles a quem ele ouviu era discípulo de Jesus.
É provável que Estêvão e Paulo tivessem quase a mesma idade. A palavra grega traduzida por "jovem", com a qual o historiador Lucas introduz o apóstolo, indica pessoa do sexo masculino entre a juventude e os quarenta anos de idade. Desconhecemos o local do nascimento de Estêvão. Sabemos, porém, que ele falava o grego tão fluentemente quanto o aramaico. Ambos os homens eram ágeis pensadores, possuíam mentes poderosas e amavam a controvérsia. Não nos resta nenhuma tradição referente ao porte físico de Estêvão.
Segundo se acredita, Paulo era baixo; seu porte, porém, era tal que ele sobressaía em qualquer multidão. Possuía rosto um tanto oval e sobrancelhas cerradas. Por causa da boa vida que levava, talvez fosse gordo. Ele devia usar barbas, já que os judeus desprezavam o costume romano de se barbear. E sua barba preta juntamente com seu vestuário de bainha azul, mais o talismã preso a um turbante, mostravam seu orgulho de ser fariseu. Ao andar pelos pátios do Templo ele revelava a arrogância inevitável de um homem cujos ancestrais e ações o tornaram importante. Ele praticava fielmente o interminável ciclo de purificações rituais de pratos e xícaras e de sua própria pessoa. Ele guardava os jejuns semanais — entre o nascer e o pôr-do-sol — e repetia as orações diárias na progressão e número exatos. Ele sabia o que lhe era devido: saudações respeitosas, grande precedência, lugar proeminente na sinagoga.
A carreira legal e a preparação para o céu consumiam-lhe os dias. Não lhe sobrava tempo para os pobres, aleijados e desprezados da sociedade. Bem no fundo do seu caráter corria um veio de compaixão, mas ele acreditava que os bons deviam man-ter-se à distância dos maus. Paulo teria apoiado o fariseu que, vendo Jesus permitir que uma prostituta lhe lavasse os pés com as lágrimas e os ungisse com bálsamo, achava ser isto prova de que o homem não podia ser profeta. O quadro imortal que Jesus pintou do fariseu e do publicano (coletor de impostos) orando no Templo, ter-se-ia ajustado a Paulo. Como aquele fariseu, Paulo estava seguro de merecer o favor de Deus. Ele desprezava os outros e podia ter orado, como aquele, dizendo: "Deus, agradeço-te não ser como os outros homens, extorsionários, injustos, adúlteros ou até mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana, dou o dízimo de tudo o que possuo."
Estêvão, por outro lado, passava grande parte do seu tempo distribuindo alimento e víveres às viúvas.
Nos dois anos seguintes à execução de Jesus, a cidade santa se enchera daqueles que acreditavam que Jesus ressurgira dentre os mortos. A maioria era pobre e humilde. Muitos viviam em grupos comuns e todos partilhavam os seus recursos. Quando os discípulos de fala grega reclamaram que suas viúvas estavam sendo negligenciadas, Estêvão e seis outros foram es¬colhidos para fazer a distribuição rotineira.
Paulo perturbava-se pelo fato de um homem do calibre acadêmico de Estêvão se rebaixar a preocupações sociais, e se irritava porque, enquanto seus próprios assuntos o absorviam, Estêvão andava ao redor distribuindo felicidade. Os homens respeitavam a Paulo, mas o temiam; respeitavam a Estêvão, e o amavam. Quando Estêvão pregava Paulo não podia deixar de perceber o abismo entre eles: Estêvão sempre levava as Escrituras na direção de Jesus de Nazaré como libertador ou Messias (ou Cristo, quando Estêvão usava a palavra grega), a quem todos os judeus aguardavam. Além disso, provava a sua mensagem citando a evidência de testemunhas oculares. Por mais incrível que parecesse, o cadáver tinha voltado à vida e saído do sepulcro. Eles haviam falado com Jesus em lugares diferentes nas seis semanas que se seguiram à sua execução. Estêvão não dizia ser testemunha ocular, mas tinha certeza de que Jesus estava vivo e afirmava tê-lo visto.
Paulo achava tolos os argumentos de Estêvão. O Cristo ainda não tinha vindo, e o caminho para Deus estava fixado para sempre: era preciso que o homem pertencesse à nação judaica, o povo escolhido de Deus, e tentasse obedecer a todos os detalhes da Lei. Quando pecasse, o perdão dependeria da matança ritual de animais dia após dia, ano após ano no Templo. Paulo não podia engolir a ideia apresentada por Estêvão de que a morte de um jovem, mediante uma forma de punição comum e degradante, pudesse apagar pecados. Quanto à alegada ressurreição, ele tinha pena daqueles que estreitavam sua vida seguindo após um Messias morto.
Conhecendo a sua própria bondade, ele não tinha nenhuma preocupação pessoal. Reconhecia, porém, que as ideias de Estêvão eram perigosas. Gamaliel aconselhara tolerância; Simão e os outros discípulos de Jesus adoravam no Templo e continuavam a obedecer à Lei. Mas Paulo via, assim como Estêvão, que o antigo e o novo eram incompatíveis. O homem era salvo ou pelo sacrifício do Templo em obediência à Lei, ou pela fé em Jesus. O antigo deve destruir o novo ou por ele ser destruído.
Paulo dedicou-se a demolir o argumento de Estêvão através do método clássico da disputa pública. Os bancos da sinagoga estavam repletos; os graves anciãos ouviam.
Paulo e os que o apoiavam argumentavam com base na lei. Já que Jesus fora pregado num madeiro, ele devia ter morrido sob a maldição de Deus e não podia ser o Cristo. Paulo se desfez da ressurreição usando a explicação aceita: os discípulos roubaram o corpo. A alternativa de que a ressurreição era um símbolo ou mito pelo qual os crentes expressavam a sobrevivência espiritual e o triunfo de Jesus, não lhe entrava na cabeça. O túmulo estava vazio. Tivessem as autoridades judaicas tido conhecimento de que o corpo de Jesus se encontrava no sepulcro, teriam-no retirado e exposto a fraude.
Estêvão, em resposta, mostrou que Moisés e os profetas, Davi e os salmos predisseram que o Cristo, quando viesse, não se apresentaria como um conquistador, mas permitiria ser ferido, zombado e assassinado; e que se levantaria dentre os mortos. Estêvão contou de novo a história daquela Páscoa de dois anos antes, por ocasião da morte de Jesus, e terminou, uma vez mais, citando a evidência ocular de que Jesus fora visto vivo depois da morte.
Estêvão ganhou o debate. A congregação votou-lhe as honras, e alguns perguntaram como se podiam tornar crentes em Jesus. Possivelmente nessa ocasião Paulo e seus amigos tiveram, pela primeira vez, a sensação de que não lutavam apenas contra Estêvão, mas também contra uma força que não podiam entender. Diz Lucas: "Não podiam suportar a sabedoria e o espírito com que ele falava."
A reação de Paulo à derrota, a julgar pelas reminiscências espalhadas em suas cartas, foi muito parecida com a dos fariseus aos quais Jesus repreendeu: "Começaram a pressioná-lo a fim de provocá-lo a falar muitas coisas, tentando apanhá-lo em algo que ele dissesse." Paulo fez o oposto do conselho que, na velhice, teria dado: "O servo do Senhor não deve ser briguento, mas amável a todos, corrigindo seus oponentes com gentileza". E perseguiu a Estêvão com espírito de vingança, levantando inimizade, dissensão e inveja, insultando a Jesus. Paulo não poupou seu temperamento impetuoso nem seu sarcasmo, componentes fortes do seu caráter. Estêvão não retaliou. As qualidades dele das quais os homens se lembravam eram força e encanto; ele podia demonstrar indignação e desprezo, mas os guardava para uso mais positivo.
O partido de Paulo tinha arma mais forte que o insulto. Se pudessem torcer as palavras de Estêvão, fazendo-as parecer blasfêmia, poderiam silenciá-lo para sempre, mediante processo legal. Deram início a esse processo. E o próprio Paulo, anos mais tarde, sofreria com a mesma estratégia que usaram — tortuosa e indireta. Não foram à casa do sumo sacerdote fazer uma reclamação formal. Em vez disso, houve muito movimento nas vielas mais estreitas da cidade. Logo depois, incidentes apa¬rentemente espontâneos expuseram as atividades de Estêvão aos olhos do público. Suas reuniões foram violentamente interrompidas até que anciãos e escribas, os quais não haviam ainda encontrado tempo para ouvi-lo, descobriram que era urgente suprimi-lo.
Levaram guardas do Templo, prenderam-no e o conduziram à presença do Sinédrio enquanto Paulo e seus colegas cilicianos permaneceram nos bastidores.
Os setenta e um juízes se assentavam em grandes bancos que se curvavam em ambos os lados do lugar do Presidente, na Sala das Pedras Polidas. Em cada ponta, um secretário escrevia em papiro, tentando seguir o discurso de Estêvão. De frente para os juízes e atrás do prisioneiro estavam os servos do tribunal, os advogados, os mestres e os candidatos ao Sinédrio.
Paulo se encontrava sentado em seu meio, tendo a atenção tomada pelas palavras do oponente. Estêvão tinha como que enfeitiçado o tribunal, desde o Presidente, em seu manto de sumo sacerdote e peitoral de jóias, até ao mais jovem advogado. A atenção deles estava presa à expressão do rosto de Estêvão, uma mistura de serenidade e autoridade incomuns num homem cuja vida estava em julgamento, e à compreensão que ele demonstrava da história judaica enquanto entregava, impro-visadamente, uma análise de mestre em resposta às acusações que lhe haviam sido feitas. Paulo jamais se esqueceu do tema daquele discurso, e o usaria em circunstâncias muito diferentes numa terra distante. Uma frase, "o Altíssimo não habita em lugar feito por mãos de homens", gravou-se de tal modo na sua memória que emergiu bem mais tarde quando ele falava abaixo do Partenon em Atenas.
Continuando Estêvão a falar, o ambiente mudou. A admiração deu lugar à perturbação. Recordações incômodas saídas de outro julgamento no mesmo salão dois anos antes, e do corpo executado que não fora encontrado. De súbito Estêvão percebeu que seus juízes não o ouviriam até o fim. Lançando a cautela aos ventos, ele os acusou na cara de hipócritas obstinados e de traidores e assassinos de seu Messias.
Os eruditos juízes rosnaram furiosos. A reação do prisioneiro foi igualmente espantosa. Ignorou a ira deles. Levantou a cabeça e fixou os olhos acima e além deles. Eles mal podiam acreditar no que ouviam quando esse jovem entusiasta a quem procuravam condenar por blasfêmia clamou ver a Deus, e que no lugar de honra ao seu lado estava "o Filho do homem" — expressão que todos sabiam referir-se ao falecido Jesus de Na¬zaré.
Assim teve início a pressa adoidada que culminou com um cadáver arrojado numa poça de sangue abaixo da Rocha da Execução. Não foi por acaso que as testemunhas lançaram suas vestes "aos pés de um jovem chamado Saulo". Conheciam a responsabilidade dele. Ele, porém, não atirou uma única pedra. Ele observava e aprovava — e ouviu Estêvão clamar: "Senhor Jesus, recebe o meu espírito!" "Senhor, não lhes imputes este pecado." E a ágil mente de Paulo viu e repudiou a essência dessa oração. "Senhor, não lhes imputes este pecado", significava, no ensino de Estêvão: "Senhor, tomaste sobre ti mesmo o pecado deles. Que eles creiam em ti, que te conheçam e que te amem."
Durante o restante do verão em que Estêvão foi morto (provavelmente 31 d.C.) e por todo o inverno seguinte as autoridades judaicas, tendo Paulo como principal agente, deram início a uma repressão sistemática.
Ele atacou como um animal, rasgando sua presa. Não era a triste eficiência de um oficial obedecendo a ordens desagradáveis. Seu coração, bem como sua mente, estavam engajados com a precisão de um inquisidor que desmascara a traição. Seu ímpeto chegou ao ponto de reduzir uma comunidade vigorosa de âmbito urbano à impotência e pôr seus líderes em fuga ou em esconderijos. Ele foi de casa em casa. Então realizou interrogatórios nas sinagogas durante as reuniões. Todo suspeito, homem ou mulher, tinha de se pôr de pé na presença dos anciãos enquanto Paulo, como representante do sumo sacerdote, lhes ordenava que amaldiçoassem a Jesus. Se se recusassem, seriam formalmente acusados, mas tinham o direito antigo de usar em sua defesa a fórmula: "Tenho algo a argumentar em favor de minha absolvição."
Assim, Paulo ouviu as histórias e as crenças de muitos daqueles que chamavam a Jesus de "Senhor". Muitos haviam estado com Jesus em Jerusalém ou tinham ido à Galileia a fim de encontrá-lo, e estes repetiam as suas palavras. Repetidamente, as mesmas frases, as mesmas parábolas eram apresentadas ao tribunal da sinagoga. Paulo não se surpreendia com a exatidão dessas histórias, uma vez que todos os rabis insistiam em que seus discípulos aprendessem os seus ditos com perfeição, até mesmo reproduzindo a tonalidade de sua voz. E os ditos, quer Paulo desejasse quer não, foram imediatamente armazenados na biblioteca em expansão de seu arguto cérebro.
Alguns dos nazarenos defendiam sua devoção relatando a influência de Jesus sobre seus corpos, como o cego de nascença a quem o Senhor curara, que teria respondido a Paulo de modo tão insolente quanto respondera aos indignados fariseus depois do milagre. Alguns tinham visto Jesus cambalear na direção do Gólgota e tinham-no observado morrer. Muitos insistiam tê-lo visto vivo depois de morto, não como fantasma, mas real — a despeito da surra que lhe havia arrancado a pele e desnudado as costas, e o choque, a exaustão e a exposição à crucificação romana com seu término inevitável por sufocação, se a morte não chegasse primeiro. A maioria dos acusados, contudo, não reivindicava ser testemunhas oculares, mas convertidos daqueles que o eram, particularmente de Simão chamado Pedro ou "Pedra".
Vez após vez, um discípulo tímido e sem grande influência, de educação medíocre e sem graças sociais, era atirado na presença do tribunal. Depois de algumas frases o homem se transformava: começava a falar claramente, com firme convicção. Era quase como se alguém lhe estivesse dizendo o que falar.
Alguns presos afirmavam que certamente alguém lhes dizia o que falar. Esquecidos da ira de Paulo, tiravam oportunas citações dos incontáveis ditos de Jesus, os quais haviam decorado: "Quando vos levarem às sinagogas e perante os governadores e as autoridades, não vos preocupeis quanto ao modo por que respondereis, nem quanto às coisas que tiverdes de falar. Porque o Espírito Santo vos ensinará, naquela mesma hora, as coisas que deveis dizer." "Este será um tempo de dar-lhes testemunho. . . Dar-vos-ei uma boca de sabedoria, a que nenhum dos vossos adversários será capaz de resistir ou contradizer."
Paulo podia rir-se disso.
Atirou-os nos calabouços. Um ou dois talvez tenham sido apedrejados. Paulo parece sugerir tal coisa ("Quando eram mortos, eu dava o meu voto contra eles"), mas os romanos limitavam estritamente os direitos judaicos à pena capital. A maioria era punida por meio de espancamento público, as "quarenta chicotadas menos uma" que não eram nada agradáveis para os de estômago fraco. A coragem de alguns desmoronava. Prestes a ser chicoteados, ou depois de algumas pancadas, ou quando forçados a observar a tortura da esposa ou do marido, gritavam a maldição contra Jesus, como Paulo exigia.
Ele permanecia impassível enquanto homens e mulheres saíam cambaleando com as costas inchadas e ensanguentadas. Ele permanecia igualmente impassível com a recusa de homens em ser humilhados por causa de uma surra na presença dos seus vizinhos. Diz-se que os judeus espancados na sinagoga quase morriam de vergonha, mas estes pareciam contentes, e alguns diziam estar orando por aqueles que os maltratavam e perseguiam.
Para o final do inverno chegaram notícias de que os seguidores de Jesus fugidos de Jerusalém não se deixaram intimidar, mas propagavam as suas doutrinas aonde quer que fossem — em Samaria, com êxito impressionante, e no Norte, na direção de Damasco; no país dos fenícios além das montanhas do Líbano, e até mesmo no além-mar. Paulo foi furioso à presença do sumo sacerdote. "Respirando ainda ameaças e morte" como descreve o seu primeiro biógrafo, ele pediu cartas para as sinagogas, autorizando-o a prender homens e mulheres que seguissem o "caminho" e trazê-los amarrados para Jerusalém.
Como primeiro objetivo, ele sugeriu Damasco. Embora a disciplina do Sinédrio se estendesse aos judeus de todos os lugares, os romanos não gostavam de perturbações. Mas Damasco, embora cidade romana, possuía duas grandes comunidades que contavam com certa medida de autogoverno: os árabes leais ao rei nabateu que vivia em sua capital de rocha em Petra, e os judeus. É provável que Paulo pretendesse perseguir e castigar os cristãos da Fenícia e depois os de Antioquia, a grande capital romana da Síria. Ele tinha toda uma vida pela frente.
Ele partiu na primavera, assim que as viagens tiveram início, à primeira luz da manhã, sob a forte luminosidade dos montes da Judeia. Deve ter ido de jumento ou, de acordo com a imaginação de Miquelângelo, a cavalo, embora o pequeno bando pudesse ter levado um camelo para carregar a bagagem. Teriam passado perto do local em que Estêvão fora assassinado. Se tomaram a estrada que atravessava Samaria, passaram por montes pedregosos acarpetados de variegadas flores primaveris, e no segundo dia tiveram um breve vislumbre das neves distantes do monte Hermom que domina a estrada para Damasco. No quarto ou no quinto dia chegaram ao mar da Galileia onde as próprias pedras das encostas clamavam. O local estava tão repleto de recordações de Jesus que ninguém podia passar por estas paragens sem ser intimamente tocado. Paulo teria encontrado aqui mais pessoas do que em Jerusalém as quais juravam ter visto a Jesus vivo de novo, com cicatrizes nas mãos e nos pés.
Paulo atravessou o Jordão usando a ponte romana e subiu as escarpas desnudas onde, séculos mais tarde, as armas sírias bombardeariam os kibbutzim judaicos até que aquelas fossem destruídas na Guerra dos Seis Dias. Agora ele tinha conhecimento do que Jesus havia feito e dito, até mesmo da tonalidade da sua voz, da sua aparência e caráter, este homem que era quase da mesma idade de Paulo.
Paulo jamais sugere que à medida que a sua pequena caravana avistou o monte Hermom ele tenha pesado os fatores a favor e contra Jesus. Este fora um impostor blasfemo e estava morto.
A Estrada de Damasco
O último dia da viagem deixava para trás o Hermom, cujos cumes, ainda sob a neve, erguiam-se acima dos montes marrons recobertos de flores brancas. Mas a montanha já não parecia particularmente alta porque eles estavam perto demais para ver o pico, e o planalto de Damasco encontra-se a uma altitude de mais de 600 metros.
À frente deles, ao pé de um monte desnudo e escarpado, estava o verde do oásis. Eles, porém, além de não perceberem, por causa da distância, o rio, os edifícios e as árvores — oliveiras, vinhedos, figueiras e amendoeiras em flor — estavam encorajados a prosseguir adiante até ao fim da jornada, em vez de pararem, como em outras ocasiões, antes do meio-dia. O meio-dia primaveril não causaria insolação. Paulo e seu grupo continuaram a caminhar. Um homem, na retaguarda, conduzia os burros ligados por uma corda. A estrada estava vazia. De vez em quando avistavam ovelhas ou bodes apascentados por um menino a brandir o estilingue, ou enxergavam um pedaço de terra onde, atrás do arado, um homem guiava o seu boi com uma longa vara com ponta de ferro.
O céu estava claro e azul. A memória de Paulo enfatiza que não havia nem tempestade nem vento forte, como sugerem os que buscam uma explicação natural para o acontecimento. Ele não estava perto de um colapso nervoso nem prestes a sofrer um ataque epiléptico; ele nem mesmo tinha pressa.
"Quase ao meio-dia, repentinamente grande luz do céu brilhou ao redor de mim... uma luz mais brilhante do que o sol, brilhando ao meu redor e ao redor de meus companheiros de viagem."
Todos eles caíram por terra, apavorados com o fenômeno.
Não se tratava de apenas um relâmpago, mas de luz terrível e inexplicável. Parece que Paulo permaneceu prostrado, enquanto seus companheiros se levantaram cambaleando. Para ele somente, a intensidade da luz aumentou.
Paulo ouviu uma voz, ao mesmo tempo calma e autoritária, dizer-lhe em aramaico: "Saulo, Saulo, por que me persegues?"
Ele levantou os olhos. No centro da luz que o impedia de ver ao derredor, ele encarou um homem de mais ou menos a sua idade. Paulo não podia acreditar no que ouvia e via. Todas as suas convicções, intelecto, treinamento, reputação e auto-estima exigiam que Jesus não estivesse vivo novamente. Assim, procurando ganhar tempo, ele replicou: "Quem és, Senhor?" A expressão de tratamento podia não significar nada mais que "Excelência".
"Eu sou Jesus, a quem tu persegues; mas, levanta-te, e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer."
Então ele soube. Em um segundo, que mais pareceu uma eternidade, Paulo viu as feridas nas mãos e nos pés de Jesus, viu-lhe o rosto e compreendeu que estava vendo ao Senhor, vivo, como Estêvão e outros haviam dito, e que Jesus amava não apenas aos que Paulo perseguia, mas também ao próprio Paulo: "Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões." Nem uma palavra de reprovação.
Paulo jamais admitira a si mesmo sentir as pontadas de um aguilhão ao enfurecer-se contra Estêvão e seus discípulos. Mas agora, instantaneamente, se conscientizava de que estivera lutando contra Jesus. E lutando contra si mesmo, contra sua consciência, sua falta de poder, contra as trevas e o caos de sua alma. Deus pairou sobre este caos e o levou ao momento de nova criação. Só faltava o consentimento de Paulo.
Paulo se quebrou.
Ele tremia e não estava em condições de pesar os prós e os contras para a mudança de ideias. Sabia apenas ter ouvido uma voz e visto o Senhor, e que nada mais importava a não ser descobrir a sua vontade e obedecer a ela.
"Que farei, Senhor?"
Aqui ele usa o mesmo tratamento de antes, mas toda a obediência e adoração, e todo o amor no céu e na terra entraram nessa única palavra "Senhor". Naquele momento ele se senda totalmente perdoado, totalmente amado. Em suas próprias palavras: "Porque Deus que disse: Das trevas resplandecerá luz — ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo."
"Levanta-te", ouviu ele, "e entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer." Ele havia confiado. Agora tinha de obedecer — a uma primeira ordem humilhante, quase trivial.
Ao se pôr de pé, estava cego. Estendeu a mão aos companheiros, agora ainda mais espantados ouvindo Paulo responder ao inaudível, os quais o conduziram. Os animais de carga e de montaria alcançaram a pequena caravana que se dirigia a Damasco em maravilhado silêncio.
Paulo entrou cegamente no desconhecido. Mas ele não se encontrava em trevas, e sim em luz. "Não podia ver por causa do brilho dessa luz." Embora o azul do céu, a poeira vermelha da estrada e o verde do oásis desaparecessem, pouca falta faziam. A luz lhe infundia os olhos cegos e a mente. Andando, em obediência a esse primeiro mandamento de seu novo Mestre, Paulo fez a primeira grande descoberta: Jesus permanecia a seu lado, não na forma de um corpo crucificado e ressurreto, mas como alguém invisível, contudo presente.
Passaram pelo mau cheiro do caravançarai, calmo no início da tarde, e entraram na cidade pela Rua Direita, espaçosa e cheia de colunas, que dividia a cidade ao meio. Esta rua também estava relativamente calma, pois as lojas e estandes ainda estavam fechados para a sesta do meio-dia, e as janelas das casas, por causa do sol, permaneciam cerradas. Chegaram à casa de um damasceno chamado Judas, provavelmente um rico mercador judeu, hospedeiro digno de um representante do Sinédrio. Os anciãos da sinagoga deviam estar à espera de Paulo, pois até os nazarenos sabiam que ele estava a caminho a fim de persegui-los. Ambos os grupos o perderam de vista. A escolta o entregou e desapareceu. Ele não pediu nada a Judas, a não ser o quarto de hóspede — recusando até mesmo a comida — e estar a sós.
O tempo perdeu o significado. Ele ouviu a trombeta vespertina, o cantar dos galos na manhã seguinte e o ruído de carroças no calçamento. Ouviu os gritos dos comerciantes anunciando seus produtos, percebeu o murmúrio distante de barganha-dores, e o relinchar ocasional de um burro. Então, a calma do meio-dia. Paulo passou o tempo deitado, totalmente desperto, a não ser por uma ou duas horas de sono, ou ajoelhado ao lado da cama. Ele não queria companhia humana, mas desejava estar a sós com o Senhor Jesus, como agora o chamava. Logo ele se esqueceu da fome e da sede. Sua personalidade toda estava em mudança. Ao permitir que a luz de Cristo iluminasse os recessos de sua alma, ele estava sendo virado do avesso.
"Saulo, Saulo, por que me persegues?" Agora ele podia responder a essa pergunta com as palavras do Salmo de Davi: "Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade: segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões... Contra ti, contra ti somente pequei."
Paulo se sentia imundo e nojento. Ele poderia ter usado as palavras das Confissões de Agostinho: "Tu me colocaste perante o meu rosto para que eu pudesse ver quão vil era, quão distorcido e impuro e manchado e cheio de úlceras. Vi a mim mesmo e fiquei horrorizado." Segundo o padrão da desumanidade do homem para com o homem — a repressão romana das duas rebeliões judaicas, ou do massacre de Nero aos cristãos depois do incêndio de Roma, ou da "solução final" de Hitler — a perseguição de Paulo era ninharia. Mas o assassínio sempre é absoluto à consciência despertada do assassino. Nem foi somente assassínio e crueldade. Ele havia blasfemado, insultado e perseguido ao Senhor, cuja resposta fora procurá-lo e mostrar-lhe o amor que ultrapassava tudo o que Paulo antes conhecia. Quanto mais ele, em cegueira, se banhava nesse amor, à medida que as horas passavam velozes, tanto mais ele se que¬brava ante a enormidade de seus feitos.
Ele supunha que estivesse servindo a Deus, que estivesse caindo na graça divina. Ele havia disposto seus padrões de bondade, tinha-se comparado com os outros e visto que era bom. Mas agora, em contraste com Jesus cujo Espírito lhe invadia, ele sabia que sua pureza não passava de contrafação do inexpressivamente Puro, suas boas ações nada mais eram que uma paródia da Bondade. Ele havia sido mental e espiritualmente hostil a Deus, embora o tivesse honrado com os lábios. Ele se ocupara do mal, embora praticasse seus ritos religiosos. Ele se isolara totalmente, arrastando-se para tão longe quanto pudesse da luz cegante que era Deus.
Contudo, Jesus o havia apanhado. Paulo, desse dia em diante, citaria esse fato entre as provas indiscutíveis da ressurreição, não importando o quanto os homens pudessem zombar dele ou chamá-lo de mentiroso. Deus, de maneira incrível, havia levantado do sepulcro o corpo amassado de Jesus de modo que ele estava vivo e aparecera a Paulo, não com o propósito de o humilhar ou destruir, ou vingar o sangue dos perseguidos, mas para salvar o perseguidor e sobrepujá-lo com amor e perdão. Paulo sabia, do fundo do coração, que Jesus era o Messias, o Cristo, o Salvador do mundo. Esta não era uma conclusão tirada da lógica fria, embora essa um dia haveria de chegar. Ia além do intelecto. Ele sabia porque conhecia a Jesus.
E, conhecendo a Jesus, ele compreendia o que tinha acontecido na cruz.
Paulo, em seu orgulho e conhecimento, tinha rejeitado a Jesus porque homem algum poderia ser pendurado no madeiro a menos que tivesse sido amaldiçoado. Agora, à medida que enfrentava o seu pecado, ele via, com uma intuição irresistível, que Jesus deveras sofrera uma maldição sobre a cruz, mas não a dele; era a maldição de Paulo e de todos os homens. Cada hora passada em cegueira na casa de Judas, cada dia do restante de sua vida, revelaria um pouco mais da largura, do comprimento, da altura e da profundidade das boas novas, mas o coração estava seguro delas, agora e para sempre: o amor de Cristo, "o Filho de Deus que me amou e a si mesmo se deu por mim". Paulo podia, instantaneamente, ser tratado como alguém que jamais pecou, ser recebido com amor e confiança. Quanto mais ele olhava com olhos cegos para o brilho da luz, tanto mais distinto se apresentava o fato revelado naquele instante na es¬trada de Damasco: o perdão era uma dádiva, inteira e perfeita, porque era o próprio Cristo. Não podia ser merecido. Mérito humano algum podia superar o pecado humano; mas, ao possuir a Cristo, Paulo tinha tudo.
Na casa de Judas, ele podia ter gritado o que escreveria no futuro: "Enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho". "O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou. . . Cristo em vós". "Para mim, o viver é Cristo!" Ele já sentia o impulso de orar. Não apenas as orações formais da gloriosa liturgia judaica, mas a conversação de um filho com seu Pai. Ao falar com Jesus, ele falava com o Pai, ao adorar o Pai, ele conversava com o Filho. Ele contou ao Senhor tudo o que lhe ia no coração. Ele inter-cedeu com urgência por aqueles que havia perseguido, especialmente pelos que forçara a blasfemar; pelos nazarenos de Damasco que o aguardavam com temor; por seus amigos judeus e por seus superiores.
Com a oração, veio a fome das palavras de Jesus. Como uma ovelha recém-nascida que, mesmo antes de conseguir pôr-se de pé procura instintivamente o peito da mãe, Paulo tinha fome do conhecimento de tudo o que Jesus havia dito e feito. Até à sua conversão ele havia sido indiferente às palavras de Cristo. Desde o instante em que disse: "Que farei, Senhor?" ele aceitou a sua autoridade, e agora era de importância transcendental saber o que Jesus tinha ordenado, prometido, prevenido e predito; conhecer a atitude do Mestre para com aqueles que o odiavam e para com os que o amavam, saber tudo o que ele ensinou a respeito do Pai e de si mesmo, seus veredictos em todos os assuntos do comportamento e destino humanos.
Paulo possuía ainda outro anseio: espalhar esta grande descoberta. Contudo, ele tinha de esperar. O mandamento do Mestre fora: "Entra na cidade, onde te dirão o que te convém fazer." Esperando, ele ouviu a trombeta vespertina, o cantar dos galos e o ruído de carroças e novamente a trombeta vespertina. Finalmente, na calma da terceira aurora, enquanto orava, recebeu a revelação do que viria a seguir.
No quarto de uma pequena casa da rua chamada Direita um judeu de meia-idade estava deitado entre dormindo e acordado.
Ananias, honrado membro da comunidade judaica de Damasco e também seguidor de Jesus Cristo, não se surpreendeu nem hesitou ao ouviu uma voz chamar o seu nome: "Ananias!"
"Eis-me aqui, Senhor."
"Dispõe-te, e vai à rua que se chama Direita e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de Tarso; pois ele está orando, e viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista."
Ananias ficou espantado. Seu Senhor devia ter-se enganado. É provável que Ananias tenha assistido a pequenas reuniões dos nazarenos que, com a notícia de que Saulo, o Perseguidor, se aproximava, oraram pedindo que o Senhor os livrasse, aparentemente, sem esperar que sua oração fosse atendida.
"Senhor", respondeu Ananias, "de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome."
Disse a voz: "Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido". O Senhor, a seguir, confirmou e ampliou o seu mandamento.
Com isso, Ananias levantou-se e foi.
Caminhando apressado pela viela e desviando-se dos carregadores de água que voltavam do rio, no momento em que o sol despontava nos penhascos do norte, ele quase gritava: "Aleluia!" Então o braço do Senhor não se encolhera. Ele o havia estendido para curar, e o lobo se deitaria com o cordeiro como na antiga profecia. E ele, o obscuro Ananias, de quem jamais se ouviu falar nem antes nem depois, fora escolhido para batizar a Saulo, o primeiro exemplo de um padrão histórico, segundo o qual os grandes embaixadores de Cristo, por mais preparados que sejam de outros modos, são levados à sua vocação por intermédio de insignificantes agentes. Agostinho ouve a voz de uma criança repetir: "Apanha e lê!" João Wesley escuta um moraviano anónimo ler algo de Lutero; D. L. Moody, embrulhando sapatos numa loja, faz uma pausa para atender às palavras de seu professor de escola dominical; Charles Haddon Spurgeon, procurando abrigar-se de uma tempestade de neve, ouve o sermão pregado por um operário do púlpito de um pastor que, por causa da neve, não pôde comparecer.
Ananias, levado imediatamente à presença de Paulo, permaneceu em pé ao lado da cama.
Ele via um rosto que passara de profundo sofrimento à paz. A pele se enrugava onde a boa vida de fariseu tinha sido esgotada pelo jejum; podiam-se ainda perceber as rugas feitas pela crueldade; a barba era irregular e os olhos fixos. Contudo, era um rosto descontraído, como se Paulo tivesse visto o pior e já não o temesse, tivesse olhado o melhor e soubesse que estava sendo reconstruído em seu molde.
Ananias pôs as mãos na cabeça de Paulo.
"Saulo, irmão", começou ele (e engoliu em seco ao chamar o assassino dos seus amigos de "irmão", mas a alegria tragou a hesitação), "o Senhor me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo."
Naquele instante umas como que escamas caíram dos olhos de Paulo. Ele viu Ananias. E o viu claramente. George Matheson, pregador escocês e escritor de hinos (1842-1906), pensava que Paulo tivesse ficado semi-cego pelo resto da vida, que o efeito daqueles três dias jamais o tivesse deixado. Mas temos exemplos de Paulo haver fixado os olhos no seu oponente, ou comandado a atenção de um auditório com o olhar, algo impossível aos quase cegos. Paulo recuperou a vista instantânea e completamente.
Ananias desincumbiu-se do restante das suas ordens: "O Deus de nossos pais de antemão te escolheu para conheceres a sua vontade, ver o Justo e ouvir uma voz da sua própria boca, porque terás de ser sua testemunha diante de todos os homens, das coisas que tens visto e ouvido." Paulo ouviria mais, disse ele, diretamente do Senhor Jesus, que lhe daria um vislumbre da dureza e da dor à medida que se aventurassem juntos, não só aos filhos de Israel, grandes e pequenos, escravos e reis — mas também a "todos os homens", a quem o fariseu Saulo desprezara e rejeitara.
A seguir, Ananias proferiu mais palavras, entregues como se da parte do próprio Jesus: "Envio-te para lhes abrir os olhos e convertê-los das trevas para a luz, e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim."
O alcance e a implicação dessa comissão deixou Paulo sem fala.
Disse mais Ananias: "Por que te demoras? Levanta-te, recebe o batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele."
Ananias ajudou-o a deixar a cama. Normalmente os seguidores do Caminho, como João Batista, batizavam por imersão num rio ou numa corrente de águas, mas Paulo estava fraco depois de seu prolongado jejum. É provável que se tenham encaminhado para o atrium, o jardim do pátio da casa de Judas onde havia uma fonte; ou Paulo, com sua vontade férrea, pode ter insistido em caminhar, apoiado em Ananias, os oitenta metros até o rio Abana, fora do muro norte da cidade.
Nunca as árvores pareceram tão frescas como os damas-queiros e pessegueiros, nem a água tão clara como a do Abana. A pedra cor de creme do muro da cidade e dos portões devolvia o brilho do sol, sob um céu azul. Paulo, embora advertido de que viriam tempestades, nessa ocasião podia tornar suas as palavras do Salmo 19: "Os céus proclamam a glória de Deus... o sol... se regozija como herói, a percorrer o seu caminho."
Paulo sentia bem-estar, descontração de toda a tensão, agudeza de percepção e paz mental. Andando pela rua Direita, que, como todas as ruas orientais era uma miscelânea de cores, barulhos e movimentos, ou entrando no bazar de especiarias ou na rua dos trabalhadores em metal, ele estava apaixonado com a humanidade toda. Damasco, por ser uma cidade de fronteira, atraía tipos variados: árabes, judeus, partos com seus chapéus cônicos, e soldados romanos. Paulo sabia ter sido enviado a todos — e a seu próprio povo, os judeus, porque até mesmo eles, com exceção dos que tinham visto a Jesus, possuíam so-mente um vislumbre da aparência de Deus.
Naquela noite, em companhia de Ananias, Paulo ficou conhecendo o pequeno grupo de nazarenos. Se alguns fugitivos de Jerusalém estavam entre eles — o que é possível — foi um momento de grande emoção quando os que haviam sido chicoteados sob as ordens de Paulo lhe deram o beijo da paz e, como prova de sua união uns com os outros e com Jesus, partilharam com ele o pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue do Senhor, como o próprio Senhor ensinara na noite em que foi traído.
Um incidente ainda mais extraordinário ocorreu no sábado seguinte na sinagoga mais importante de Damasco. Os anciãos e a congregação não faziam ideia da conversão de Paulo. Ele não a revelara nem mesmo ajudas. Eles meramente supunham haver-se ele recuperado da indisposição e estar pronto para a obra a respeito da qual fofocaram desde o anúncio da sua vinda. Os membros mais severos, ao sentar-se, expressaram satisfação pia de que a heresia seria apagada; os cruéis tiveram uma expectativa prazerosa de possível derramamento de sangue. Os nazarenos, contudo, que sabiam que as coisas correriam de modo diferente, estavam orando enquanto o hazwn acompanhava Paulo, ainda vestido como fariseu e trajando uma veste de barras azuis, tendo no turbante um talismã de couro, até à plataforma e lhe entregava o rolo da Lei.
Ele leu a passagem designada e devolveu o rolo. No instante de pausa, antes de começar a falar, ele se maravilhou da estratégia divina mediante a qual, nos séculos passados, levantaram-se sinagogas em incontáveis cidades gentias — prontas para o dia em que, sob a sua liderança, se transformariam nos baluartes de uma grande cruzada para Jesus Cristo! Como ele tinha visto a verdade, certamente que eles também a veriam. Ele e eles haviam sido separados para espalhar as boas novas de Jesus Cristo entre os gentios. E começariam em Damasco.
Então ele proclamou: "Jesus é o Filho de Deus." Paulo atacou com a mesma veemência e paixão que caracterizaram sua perseguição. As palavras tropeçavam uma nas outras enquanto ele contava como o Senhor lhe aparecera, que o Senhor estava vivo e que os amava. E a reação não foi nada parecida com a que ele esperava. Os adoradores ficaram espantados e horrorizados. Longe de se convencerem, ficaram com raiva. Esse vira-casaca, recebido como representante do sumo sacerdote, se declarava representante de Jesus.
Paulo se surpreendeu. Nos dias que se seguiram ele se sentiu como Moisés que "pensou que seus patrícios compreenderiam que Deus lhes estava oferecendo libertação por seu intermédio, mas não compreenderam." Ainda mais, sua impaciência com os nazarenos aumentou. Ele se reunia com eles todas as noites, mas poucos tinham recordações de Jesus. Possuíam vários dos seus ditos, os quais haviam sido repetidos por aqueles que o tinham conhecido, mas isso não satisfazia a Paulo. Ele tinha fome de evidência de primeira mão. Contudo, não podia voltar a Jerusalém. Ainda que os apóstolos, que haviam conhecido a Jesus melhor do que ninguém, confiassem nele imediatamente, Paulo não devia arriscar-se a cair nas garras de um sumo sacerdote enfurecido, que se encarregaria de fazê-lo desaparecer mediante o estrangulamento ou prisão perpétua.
De noite, na casa de Judas ou talvez agora na casa de Ananias, ele se revirava na cama, frustrado. E a glória dos dias de ce¬gueira estava a desvanecer. Finalmente, ele disse ao Senhor que deixaria tudo nas suas mãos. A paz voltou. Nenhuma voz ou luz revelou o próximo passo, somente a convicção crescente de que devia sair sozinho, não levando nada a não ser os rolos das Escrituras. Não era dos apóstolos que Paulo necessitava, mas de Jesus somente; não de uma cidade, mas do deserto.
O passo seguinte foi fácil. Damasco era o ponto final de uma das grandes rotas de especiarias que vinham do país da mirra e do incenso, ao sul da Arábia, e da Ponta da África. As caravanas de camelos voltavam trazendo moedas e mercadorias do mundo romano. O filho de um importante comerciante não teve dificuldade alguma em conseguir passagem.
JOHN POLLOCK. O Apóstolo. Editora Vida.
2. Um homem preparado para servir.
Paulo teve experiências com Deus
Um verdadeiro apóstolo é homem que deve ter comunhão e experiência com Deus. Paulo, não obstante não ter convivido com Jesus como os demais apóstolos, teve experiências espirituais que os outros não tiveram. E essas experiências fortaleceram sua vida espiritual e solidificaram o seu relacionamento com Cristo. Ele diz que teve “visões e revelações do Senhor” (1 Co 12.1); com bastante modéstia, falando na terceira pessoa, diz que “foi arrebatado ao terceiro céu”... “e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar” (1 Co 12.2,4). Que palavras foram essas, só Deus e Paulo sabem.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 75.
O prazer com que ele olha para a vida que tinha vivido (v. 7): Combati o bom combate, acabei a carreira etc. Ele não temia a morte, porque tinha o testemunho da sua consciência de que pela graça de Deus ele tinha, em alguma medida, correspondido às expectativas do propósito da vida. Como cristão, como ministro, ele tinha combatido o bom combate. Ele tinha realizado o serviço, passado pelas dificuldades da sua batalha e tinha sido um instrumento ao levar avante as gloriosas vitórias do Redentor exaltado sobre os poderes das trevas.
Sua vida foi uma carreira, e ele a tinha concluído. Como sua batalha tinha sido cumprida, assim sua corrida tinha acabado. “Guardei a fé. Guardei as doutrinas do evangelho e nunca neguei nenhuma delas”. Note que, em primeiro lugar, a vida de um cristão, mas especialmente de um ministro, é um combate e uma corrida, às vezes comparada a um ou ao outro nas Escrituras.  Em segundo lugar, esse é um bom combate, uma boa milícia. A causa é boa, e a vitória é certa, se continuarmos fiéis e corajosos.  Em terceiro lugar, devemos combater esse bom combate, devemos concluí-lo e terminar nossa carreira. Não devemos parar até que sejamos mais do que vencedores por aquele que nos amou (Rm 8.37). Em quarto lugar, é um grande consolo para um santo moribundo quando ele pode olhar para trás e dizer com o nosso apóstolo: “Combati etc. Guardei a fé, a doutrina da fé e a graça da fé”.
Se pudermos falar da mesma maneira, ao nos aproximar do final dos nossos dias, sentiremos um consolo inexprimível.
Portanto, precisamos continuar nos esforçando, contando com a graça de Deus, para que possamos terminar nossa carreira com alegria (At 20.24).
[3] O prazer com que ele olha para a vida futura (v. 8): Desde agora, a coroa da justiça me está guardada etc. Ele havia sofrido perda por Cristo, mas estava certo de que ganharia a Cristo (Fp 3.8). Que isso possa servir de ânimo para Timóteo para suportar as dificuldades como um bom soldado de Jesus Cristo, que há uma coroa da vida para ele, a glória e a alegria que abundantemente compensarão todas as dificuldades e privações do combate presente. Observe: Ela é chamada de coroa da justiça, porque será a recompensa dos nossos serviços, que o Senhor não esquecerá, porque não é injusto para esquecer, e porque a nossa santidade e justiça serão aperfeiçoadas e serão a nossa coroa. Deus a dará como justo juiz e não permitirá que alguém se desvie. Essa coroa da justiça não era somente para Paulo, como se pertencesse somente aos apóstolos, aos ministros famosos e aos mártires, mas para todos os que amarem a sua vinda. Observe: A natureza de todos os santos é amar a vinda de Jesus Cristo: eles amaram a sua primeira vinda, quando Ele apareceu para tirar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26). Eles têm prazer em refletir a respeito dela. Eles aguardam ansiosos pela segunda vinda de Cristo naquele grande Dia. Eles a amam e a aguardam com ansiedade. Em relação àqueles que amam a vinda de Jesus Cristo, Ele virá para a alegria deles.
Existe uma coroa de justiça reservada para eles, que na segunda vinda de Jesus Cristo será dada a eles (Hb 9.28). Disso, podemos aprender que, em primeiro lugar, o Senhor é o Juiz justo, porque seu julgamento é de acordo com a verdade. Em segundo lugar, a coroa dos crentes é uma coroa de justiça, comprada pela justiça de Cristo e guardada como recompensa pela justiça dos santos. Em terceiro lugar, essa coroa, que os crentes deverão usar, é depositada para eles. Eles não a têm na era presente, porque aqui eles são somente herdeiros. Ela não é deles como uma posse, e, mesmo assim, ela é certa, porque foi depositada para eles. Em quarto lugar, o justo Juiz a dará a todos que amam a sua vinda, se preparam para ela e anelam por ela. Certamente, cedo venho.
Amém! Ora, vem, Senhor Jesus! (veja Ap 22.20).
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 719-720.
I Tm 4.7 Combati o bom combate. Aquilo para o que Timóteo foi convocado (1Tm 6.12) foi cumprido pessoalmente pelo apóstolo e suportado até o vitorioso fim. Ele “proclamou o evangelho de Deus mediante grande luta”. Agora acabou a luta, esgotou-se a luta da vida, o bom combate chegou a bom fim. Ele lutou contra poderes sombrios da maldade, contra Satanás, contra vícios judaicos, cristãos e gentílicos, hipocrisia, violência, conflitos e imoralidades em Corinto, fanáticos e desleixados em Tessalônica, gnósticos helenistas judeus em Éfeso e Colossos, e não por último – no poder do Espírito Santo – o velho ser humano dentro de si mesmo, tribulações externas e temores internos. Acima de tudo e em tudo, porém, lutou em prol do evangelho, a grande luta de sua vida, seu bom combate.
Completei a corrida. A imagem do atleta competidor que alcançou a meta e por quem espera a coroa da vitória. Agora não cabe mencionar os in-contáveis obstáculos que ele certamente conhece e poderia enumerar, mas o final da corrida, a perseverança até o alvo. Nada pôde deter sua trajetória, por nada ele foi interrompido significativamente. Agora tampouco poderes mundanos destruirão sua vida de forma autocrática, ele é “prisioneiro do Senhor”. O que ele anunciou aos anciãos de Éfeso na despedida se cumpriu agora: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar o evangelho da graça de Deus.” Tu, Timóteo, cumpre cabalmente teu ministério, assim como eu agora concluí minha tarefa. Uma vida cumpriu seu propósito quando a tarefa foi reconhecida e concretizada e quando Deus é glorificado assim.
Guardei a fé. Será que se deve traduzir aqui com a frase que se tornou linguajar corrente “Guardei a fidelidade”? Sem dúvida tem-se em vista “a fidelidade até a morte”; é intencional a ligação com 2Tm 2.11-13; também a fidelidade do administrador, do qual se demanda prestação de contas no juízo; a aprovação do colaborador e sua paciência até o fim no trabalho penoso, quando os frutos estão maduros. Tudo está englobado, mas antes de tudo e em tudo vale uma só coisa: “Aqui se trata da perseverança dos santos, os que guardam fielmente os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.” “Guardei a fé”, isso é o alfa e o ômega, origem e alvo daquele que por ocasião do primeiro aprisionamento confessou: Cristo é minha vida e morrer para mim é lucro. Poder crer até o fim, ser sustentado na fé em Jesus, receber constantemente essa fé renovada e aprofundada: essa é a graça máxima, dádiva imerecida, exaltação da fidelidade de Deus.
O soldado, o corredor, o administrador (agricultor) – todas as três metáforas que Paulo lançou a Timóteo para encorajá-lo, todas direcionadas para o fim dos tempos, cumpriram-se em Paulo. Essas declarações não são marcadas pelo enaltecimento próprio, mas pela gratidão e adoração àquele que o tornou forte na luta, que o conduziu à perfeição, que o presenteou com a fé e o preservou.
Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos I Timóteo.. Editora Evangélica Esperança.
«...Combati o bom combate...» No grego temos o termo «agonidzomai», em forma verbal; e o substantivo é «agon», que se deriva da mesma raiz.
Originalmente, o termo «agon» indicava uma «assembléia» de qualquer natureza; em seguida veio a indicar a multidão que se reunia para ver as competições atléticas; e, finalmente, passou a indicar a própria competição em que homens se esforçavam po r alcançar o prêmio ou coroa. Por extensão, veio a significar qualquer forma de luta ou batalha. A forma verbal, aqui empregada, é o termo de onde nos vem a palavra moderna «agonizar». No original grego significava «entrar em combate», «lutar», «contender». Todas as expressões, usadas no presente versículo, envolvem metáforas baseadas no atletismo. A primeira dessas expressões provavelmente se alicerça sobre a luta corpo a corpo, ou sobre alguma outra forma de luta na arena; a segunda, alude às corridas dos fundistas, às maratonas, onde os corredores tinham de percorrer longas distâncias, eivadas de obstáculos; e a terceira dessas metáforas é uma alusão à «promessa» feita pelos atletas de que competiriam de conformidade com as regras (ver também II Tim. 2:5 e I Tim. 5:12). (Quanto a outras metáforas usadas pelo apóstolo dos gentios, com base na vida atlética, ver os trechos de I Cor. 9:24,25; Fil. 2:16 e 3:13,14). Na passagem de I Tim. 6:12 encontramos as seguintes palavras: «Combate o bom combate da fé...», onde o mesmo vocábulo grego é empregado.
A verdadeira vida cristã é pintada aqui como uma luta , como uma competição atlética, como uma experiência árdua e testadora, embora o seu propósito seja elevado, pois há uma coroa a ser obtida. Mas essa coroa só pode ser conquistada por aqueles que lutarem de conformidade com as regras, e assim se saírem vencedores. O ra , isso exige a ace ita ção do verdadeiro Cristo, conforme é este exposto no evangelho e na doutrina de Paulo; e, po r o u tro lado, exige a negação e a oposição contra os ensinamentos contrários. Também envolve o cumprimento fiel dos deveres cristão se do ministério da Palavra em que o crente observa todas as exigências próprias da vida cristã. E preciso, pois, seguir a santidade, propagar o evangelho e ensinar devidamente àqueles que já confiaram em Cristo.
Notemos aqui o uso do artigo definido, no original grego, «Combati ‘o’ bom combate...», ou seja, «o combate cristão», aquele combate no qual Pau lo fora posto pelo próprio Senhor. E trata-se de um « ...bom ...» combate, visto que tem por escopo bons e nobres propósitos, em defesa e propagação do bem eterno entre os homens, em prol do qual se esforçam todos os legítimos ministros do evangelho. A tradução inglesa de Williams
(aqui vertida para o português), diz: «Tenho lutado a luta pelo bem». Na passagem de I Tim. 6:12, essa luta é descrita como a luta «da fé», ou seja, em favor da propagação e da defesa da fé cristã (a «fé objetiva», tão freqüentemente usada nas «epístolas pastorais», ver notas expositivas a respeito , em I Tim. 1:2). O comentário de Adam C lark e , sobre este particular, é o seguinte (m loc.): «Tenho lutado e vencido em favor de uma causa honorabilíssima».
Notemos que a lu ta do apóstolo Pau lo term in o u em «calamidade», conforme os homens podem ver as coisas, porquanto o apóstolo dos gentios estava prestes a morrer como mártir. Para o próprio Paulo, no entanto, isso era a coroação e a glória, o triunfo final de sua luta, de seu combate. As palavras «Combati o bom combate...» poderiam ser entendidas como: «Não me lamento, porquanto agora posso gloriar-me nas realizações de meu combate».
«Nenhum escravo romano, tangido pelo açoite ou pelo aguilhão, poderia ter trabalhado como Paulo trabalhou. Paulo exigiu o máximo de seu corpo frágil e de seu espírito sensível; e durante a vida inteira teve de enfrentar a oposição, a zombaria e a perseguição, da parte daqueles que deveriam ter sido seus amigos, e que de fato se mostraram amigáveis para com ele, até ao momento em que entrou para o serviço de Jesus Cristo... Segundo o ponto de vista do mundo, ele dera muito e ganhara pouco, além das tribulações e do opróbrio. Desistira de distinguida posição na comunidade judaica, a fim de tornar-se o homem mais odiado entre aquele povo capaz de ódios apaixonados. Apesar de que seus esforços, em favor dos gentios, haviam terminado, uma terceira vez, em aprisionamento em uma prisão gentilica, da qual, segundo ele via claramente, só poderia ser libertado através da morte física ... contudo, a despeito disso, o apóstolo Paulo se mostra triunfalmente exultante... É que ele media as tribulações dentro do tempo pelas glórias da eternidade. Com olhos da fé ele divisava para além de seu aparente fracasso e percebia a coroa da justiça, que o justo Juiz já tinha em reserva para ele, bem como para os milhares e milhares de outros também—a saber, para todos aqueles que tiverem aprendido a esperar anelantemente pelo tempo em que o seu Senhor voltará. Em tudo isso podemos perceber, em miniatura, a história da cristandade, desde a morte do apóstolo». (Plummer, in loc.).
«Nada há de sutil ou obscuro nessa afirmativa profundamente comovente; e aquilo que ele nos diz aqui é claro como o cristal. Lembra-nos que a vida cristã é um conflito contra o mal, em nós mesmos e ao nosso derredor... Lembra-nos que a carreira não está ganha enquanto não tivermos cruzado a linha da chegada, não podendo haver afrouxamento do esforço ao longo do caminho. Entre as mais penetrantes parábolas de Jesus, encontram-se aquelas nas quais ele salienta o fracasso daqueles que começaram bem, mas não foram capazes de prosseguir até ao fim. (Ver Luc. 14:25-33; Mat. 13:5,6,20,21; 25:8-10). Lembra-nos que nos temos oferecido a Cristo, a quem devemos lealdade fiel». (Noyes, in loc.).
«... completei a carreira...» No grego, o substantivo é «dromos», que significa «pista de corrida», onde é efetuada a competição. (Quanto a essa metáfora, em sentido mais extenso, ver Fil. 3:13,14). O «prêmio» buscado é a «vida eterna», isto é, tornar-se o que Cristo é e compartilhar de sua natureza e atributos, ou perfeições, que procedem da parte de Deus Pai, mas que Cristo outorga aos homens (ver Efé. 3:19; 1:23; Col. 2:9,10; II Cor. 3:18; Rom. 8:29 e II Ped. 1:4), para que assim venham a compartilhar de sua herança e glorificação (ver Rom. 8:17,29,30). Neste caso, naturalmente, essa carreira completa aponta para o sucesso obtido no ministério; contudo, não podemos destacar disso o sucesso individual na obtenção da vida eterna (ver o trecho de I Tim. 4:16, onde o prêmio conquistado através da conduta de um autêntico ministério é a própria salvação e a de outros; e ver também a passagem de I Tim. 6:12, onde o «combater o combate da fé» é equivalente ao «apossar-se da vida eterna»),
A vida cristã é retratada como uma longa carreira, como uma maratona, repleta de obstáculos e dificuldades que esmagam aos homens que não possuem a força conferida por Cristo. Nisso não pode haver vitória a menos que o corredor prossiga até à linha de chegada; mas essa linha é cruzada triunfalmente. Aprendemos que a carreira exige dedicação e coragem, bem como o poder espiritual do Espírito Santo, pois, de outro modo, será inteiramente impossível concluí-la com êxito, o que também é comprovado pela experiência diária. Sabemos, com base de tudo quanto encontramos e sofremos, que correr com sucesso a carreira cristã não é coisa fácil. Cristo exige a total dedicação de nossas almas, a outorga da própria vida às mãos de Cristo, que é aquela atitude a que denominamos de «fé». (Ver a nota de sumário sobre a «fé», em Heb. 11:1).
«Sabes tu que em uma carreira correm todos os corredores, mas somente um pode obter o prêmio? Deves correr de tal maneira que possas obter o prêmio» (I Cor. 9:24, segundo a tradução inglesa de Williams, aqui vertida para o português).
«Porém, em nada (nos sofrimentos, nas perseguições e nos encarceramentos) considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus» (Atos 20:24).
Clemente de Alexandria expande essa metáfora, até seus detalhes mais completos, em seu Quis dives salvetur, capítulo terceiro. «Cristo já nos deu o exemplo, como o precursor (ver Heb. 6:20)». (Lock, in loc.).
«...guardei a fé...» Se porventura a metáfora tem continuação, então temos aqui o «compromisso» de um atleta de que «observaria as regras», de que «se esforçaria legitimamente» (ver II Tim. 2:5 quanto a notas a esse ,respeito). Em sua aplicação, isso indica: 1. Esforçar-se legitimamente, como autêntico ministro de Cristo, em obediência às suas ordens, trabalhando sob a sua autoridade. 2. Confiar na mensagem cristã, sem adições e nem corrupções. 3. Defender a fé (a doutrina e a prática paulinas ortodoxas) contra os assédios da heresia. 4. Propagar a «fé» aos perdidos. 5. Ensinar a fé em toda a sua pureza, aos novos convertidos. A fé, neste caso, é a «fé objetiva», ou seja, o «ensinamento cristão ortodoxo, interpretado por Paulo», conforme é comum nestas «epístolas pastorais». (Ver as notas expositivas a respeito em I Tim. 1:2. Ver Heb. 11:1 quanto à «fé subjetiva», que consiste da outorga da alma aos cuidados de Cristo). 6. Em tudo isso está envolvida a «fidelidade» pessoal para com o Senhor. É como se Paulo tivesse dito: «Tenho sido fiel às minhas promessas e ao meu compromisso com ele; tenho feito o seu trabalho e tenho sido seu servo fiel. Tenho transmitido a sua mensagem aos homens, em sua forma original e pura».
«Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus» (Apo. 14:12). A alusão que temos aqui é à dificuldade de guardar a fé, em oposição contra o anticristo, durante o negro período da Grande Tribulação.
A Conduta Ideal·. Paulo terminou a sua carreira, a sua «missão determinada», o seu destino terreno. Todos os homens têm tal curso e destino, e todos são indivíduos ímpares, sem igual, conforme se aprende em Apo. 2:17. E o alvo final não é necessariamente a «felicidade», como também por certo não é o bem-estar físico. O texto à nossa frente ilustra isso perfeitamente. A conduta ideal consiste da tentativa de cumprirmos nossa carreira e nosso destino fixos. Para Aristóteles, a virtude consistia de «função»; e função indicava o cumprimento do desígnio específico para o que o indivíduo estava melhor preparado e dotado. Faz parte de nosso dever moral saber que função é essa, saber o que podemos fazer, e realizá-la ao máximo de nossas forças e de nossas habilidades. Há nisso certa verdade, se a aplicarmos às nossas vidas espirituais. Deus nos coloca na posição em que nos encontramos, e confere-nos uma tarefa, para então a realizarmos com todas as nossas forças. O N.T. não recomenda a preguiça, e nem o viver diário meramente para desfrutar dos seus prazeres. Mas é entristecedor o fato que, nas igrejas, muitas pessoas, incluindo ministros e mestres, vão passando de um ano para outro sem nenhuma tentativa séria de se aprimorarem, em suas próprias vidas cristã e em seu trabalho. Mas se essa atitude fosse tomada no que concerne às atividades comuns do mundo dos negócios, todos ficariam estagnados. Portanto, o que não é permitido no mundo, devido ao seu espírito competitivo, é praticado na igreja praticamente sem qualquer reprimenda. Mas é por isso mesmo que tantas pessoas sentem que a igreja é monótona e maçante, e alguns declaram-no francamente.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 5. pag. 401-402.
3. “O menor dos apóstolos”.
Paulo era um homem de grande cultura
Desmistificando a crença ou “doutrina” de que Deus só usa pessoas de pouca instrução, o exemplo de Paulo é bem marcante. Era homem de alto conhecimento bíblico e teológico, discípulo de Gamaliel, um dos mestres do judaísmo (At 22.3).
Paulo era um intelectual poliglota. Falava hebraico, por ser judeu e fariseu (At 22.2); por ser cidadão romano (At 22.25), falava latim; suas epístolas foram escritas em grego, o que dá a entender que, sendo um homem culto de sua época, falava a língua helénica; e, como judeu zeloso, certamente, falava o aramaico, que era língua usual, nos meios intelectuais de sua época. Em sua soberania, e segundo seus propósitos divinos, Jesus resolveu contrariar a lógica humana, e chamar um perseguidor do evangelho para ser salvo e fazer dele um apóstolo dos mais destacados entre os que quis escolher.
Enquanto alguns de seus primeiros discípulos, do grupo dos Doze, eram humildes pescadores, de menor grau de instrução, Paulo era um homem intelectual, que haveria de levar o evangelho aos gentios, ou gentes de todas as nações, fora de Israel, inclusive aos “reis” ou governantes de povos estrangeiros. Além dessa característica marcante, em seu ministério, Paulo foi o grande teólogo e intérprete dos evangelhos de Cristo. Dos 27 livros do Novo Testamento, 13 foram escritos por ele. E ainda resta dúvida se a epístola aos hebreus também foi de sua autoria.
Não foi por acaso que Paulo foi o primeiro apóstolo a levar o evangelho de Cristo à Europa. Ele foi o grande evangelizador do Império Romano (Rm 15.24,28). Em suas viagens missionárias, levou o evangelho de Cristo a cidades de Israel, passou pela Turquia, pela Ásia Menor; pregou na Macedônia, na Acaia, na Grécia, centro cultural da Europa, à época; e, em sua última viagem missionária, reviu discípulos nas igrejas que fundara, e terminou em Roma, para onde foi levado preso, e pregou na capital do Império mundial da época. Concluiu sua extraordinária missão, declarando solenemente: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4.7).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 75-76.
O Apóstolo Paulo (I Cor 15.8-11). Paulo se inclui entre aqueles que viram Jesus ressuscitado: E, por derradeiro de todos, me apareceu também a mim (8). Paulo não acreditava que tivesse visto Cristo somente numa visão. Ele considerava sua experiência na estrada de Damasco uma válida aparição da pessoa do Senhor ressuscitado. Ele não conhecia nenhuma aparição posterior de Cristo a qualquer pessoa - pois a aparição de Cristo a João na ilha de Patmos aconteceu depois da morte de Paulo. O apóstolo refere aqui a si mesmo como um abortivo (ektroma). Essa estranha frase significa um aborto, ou nascimento fora do tempo, e “denota um filho nascido de forma violenta e prematura”.
Esta referência à conversão de Paulo é a descrição “da rapidez e violência da transição... enquanto ele ainda estava num estado de imaturidade”.13 Fazendo um contraste, os 12 discípulos haviam sido escolhidos, alimentados, treinados e depois comissionados. Haviam sido aprendizes, antes de se tornarem apóstolos. A mudança de Paulo foi dramática e excepcional. No entanto, ele havia visto o Senhor de forma tão real como eles.
Paulo não só havia visto o Senhor, como a experiência havia revolucionado completamente a sua vida. Ele estava bastante ciente de ser o menor dos apóstolos (9) e indigno de ter esse nome, por causa da intensa perseguição que havia feito à igreja. Mas, apesar da sua falta de mérito e aptidão, a graça de Deus (10) o havia tornado semelhante aos apóstolos para essa tarefa. A abundante graça que foi concedida a Paulo não foi vã, pois deu frutos e era valiosa.
Sobre os outros apóstolos, Paulo declara: Trabalhei muito mais que todos eles. Isso pode querer dizer que Paulo viveu mais tempo, portanto trabalhou mais, ou pode significar que ele teve mais sucesso que os outros na fundação das igrejas. Embora Paulo seja suficientemente humano para apreciar seu sucesso como servo do Senhor, ele reconhecia que as suas realizações não eram o resultado de seus talentos, mas da graça de Deus que estava em sua vida.
A conclusão é que todos os líderes apostólicos e várias centenas de crentes da Igreja Primitiva aceitavam o fato da ressurreição de Cristo. Além disso, esse fato havia sido pregado aos coríntios e eles o haviam aceitado. Cheio de propósito, Paulo podia declarar em relação à ressurreição: Então, ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos, e assim haveis crido (11).
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 358.
I Cor 15. 8,9 Por fim, Paulo cita também a si mesmo como ―testemunha da ressurreição‖ (At 1.22). “Afinal, depois de todos, foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo. Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus.” Se de fato for um verdadeiro ―apóstolo‖, Paulo também precisa constar do rol de testemunhas. Nisso, porém, ele é apenas algo como um ―nascimento falho‖ ou ―o aborto‖ de um apóstolo. Porque a tarefa de um apóstolo é a edificação fundamental da ―igreja de Deus‖. Paulo, porém, “perseguiu a igreja de Deus”, tentando aniquilá-la (Gl 1.13). Por isto ele era – de modo completamente diferente do que todos os demais ―apóstolos‖ com todas as suas falhas – em si mesmo o exato oposto de um apóstolo. Ele não é “digno de ser chamado apóstolo”, e por consequência é “o menor dos apóstolos”.
Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos I Corinto. Editora Evangélica Esperança.
A mesma palavra aqui traduzida por «...foi visto...» é usada tanto no caso de Paulo como no caso dos demais discípulos de Jesus que o viram redivivo; todavia, nenhum argumento importante se pode edificar com base nesse fato, como se alguma diferença entre sinônimos pudesse «fazer alguma diferença» na natureza das manifestações de Jesus. Todas essas manifestações foram «corporais», todas foram experiências de Jesus. Todas essas manifestações foram «corporais», todas foram «experiências místicas» também.Se pudéssemos interrogá-lo, provavelmente Paulo não teria admitido qualquer distinção no modo do aparecimento de Jesus. Porém, embora fosse uma aparição mística, não há motivo para duvidarmos que foi perfeitamente real. Talvez não tivesse sido capaz de tocar no Senhor, a exemplo de Tomé; mas foi a «presença real» do ser de Jesus Cristo que Paulo viu e sentiu. Por conseguinte, não há qualquer diferença quanto à realidade desta manifestação de Cristo, e isso é o que importa. Tal como no caso de outros igualmente privilegiados, o encontro de Paulo com o Senhor, na estrada de Damasco, foi a cena de sua comissão como testemunha de Cristo, acerca de sua ressurreição, de sua importância cósmica, e de seu poder de salvar toda a humanidade.
«....nascido fora de tempo...» O vocábulo grego aqui traduzido como «...fora de tempo...», ê «ektroma», forma jônica de «ektrauma», que significa «proveniente de trauma», isto é, de injúria, de dor; e isso é uma alusão à experiência dolorosa da maioria dos abortos. Tal palavra indica «nascimento abortivo». Através de tal palavra Paulo se refere à «subitáneidade», à «violência», ao «inesperado» de sua transição para a vida em Cristo, bem como de sua comissão subseqüente como um apóstolo. Os demais apóstolos tomaram-se tais de maneira natural, tendo sido ensinados pessoalmente por Cristo, lentamente, tendo tido de amadurecer em sua formação espiritual. Mas Saulo de Tarso surgiu repentinamente, ainda um tanto imaturo, tal çomo uma criança que nasce antes do tempo certo, como que nasceu repentinamente, do ventre morto do judaísmo, tendo recebido vida do alto.
A maneira como Paulo se refere à questão parece indicar que ele se mostrava muito sensível em relação à sua vida anterior de erros, que havia precedido & sua conversão.
«.. .também por mim.. .» são palavras que Paulo usa com certo senso de humildade, porquanto fora ele um elemento incrédulo, um indivíduo odioso, perseguidor e assassino dos cristãos. O fato que ele fora tal coisa (um incrédulo, à semelhança de Tiago, mas muito mais destruidor para a causa cristã), mas que repentinamente se convertera de todo, demonstra o poder e a realidade das aparições do Senhor Jesus para ele.
«Porque todos quantos souberam qualquer coisa sobre a história de Paulo, como perseguidor zeloso da igreja, aceitavam isso como um argumento final e convincente. Ele fora transformado para perder toda a semelhança de seu antigo ‘eu’; e assim, na qualidade do grande missionário dos povos gentílicos, embora nem ele e nem os outros o soubessem então--ele se tornou um dos homens mais significativos do mundo greco-romano. Àquilo em que Paulo cria, a despeito da sua fortíssima expectação do retorno quase imediato de Jesus Cristo -embora até mesmo então possamos supor, legitimamente, que um ponto de vista mais maduro sobre essa grande consumação estava se formando naquela mente fértil e que via longe- é que a igreja, mantida no germem de sua comunhão, aponta o verdadeiro caminho da vida para a humanidade inteira. Isso fazia, tanto da igreja como do apóstolo, as razões de maior significação possível para as eras futuras. Alguns historiadores não têm hesitado em salientar que a tradição cristã, que é um dos elementos essenciais da civilização do mundo ocidental, deve o fato de sua proeminência, sobretudo, às viagens missionárias de Paulo. Mas certamente ele mesmo não teria feito reivindicação similar. (Ver o décimo versículo deste capítulo, bem como o trecho de Gál. 2:20)». (John Short, in loc.).
«.. .Paulo.. foi como que lançado para fora do ventre, nem bem recebera a fagulha vital...ora, esse seu nascimento prematuro toma a graça de Deus ainda mais ilustre em Paulo do que se tudo tivesse acontecido pouco a pouco, mediante passos sucessivos, até chegar ele à maturidade em Cristo». (Calvino, in loc.).
Paulo quis salientar diversas coisas através desse símbolo: Seu aparecimento súbito e aparentemente fora de tempo entre as fileiras apostólicas; sua «imaturidade» por ocasião de seu aparecimento; sua «inferioridade» natural diante dos outros apóstolos, exceto a graça de Deus; e, no entanto, quão grande é a graça de Deus que tal pessoa veio a tomar-se, por assim dizer, o principal dentre todos os apóstolos. E foi assim que Paulo completou a lista de testemunhas da ressurreição de Cristo, aludindo a si mesmo. Jesus foi visto após sua morte, e estava vivo. E isso constitui um fato histórico digno de confiança. Conforme disse Sir William Barrett: «O que quer que os mais humildes homens afirmem, com base em sua própria experiência, isso é digno de ser ouvido; porém, aquilo que até mesmo os homens mais habilidosos negam, em sua ignorância, jamais merece um momento sequer de atenção».
Paulo se considerava bem pouca coisa. As palavras «...o menor dos apóstolos...»nada têm a ver com sua estatura física, ou seu poder espiritual ou suas realizações; porquanto, nessas coisas, ele foi realmente o maior de todos. Por igual modo, isso não se pode referir à sua dedicação, ao seu propósito e à sua espiritualidade genuína, pois, uma vez mais, nessas coisas, ele foi o maior de todos os apóstolos. Mas temos aqui a estimativa humilde em que Paulo tinha a si mesmo, no que concerne ao seu «valor pessoal», que ele poderia ter a fim de merecer tão elevado ofício. Em si mesmo, dificilmente ele era digno de ser ao menos um crente comum e possuir a vida eterna, em Jesus Cristo, porquanto perseguira miseravelmente à igreja de Deus. A dor de consciência se mostra clara aqui. Ele aprisionara e assassinara a mulheres e crianças inocentes, entre suas outras vítimas. Não admira, pois, que ele visse a si mesmo como o menor dos apóstolos e que se não fora a graça divina, nem ao menos era digno de ser chamado «apóstolo». (Comparar essa autodepreciação de Paulo com os trechos de Efé. 3:8 e I Tim. 1:15. Quanto às suas perseguições anteriores contra os cristãos, ver as passagens de Atos 8:3; Gál. 1:13 e Fil. 3:6).
Paulo havia dito que era ele qual um «aborto» entre os apóstolos; e essa era outra razão para ter-se em tão pouca conta. Ele empregou aqui o termo grego «ikanos», que é traduzido aqui por «digno». Mas essa não é a mesma palavra grega «aksios», a palavra grega ordinariamente traduzida por «digno». Antes, o termo aqui usado significa «competente», «adequado»
(comparar com II Cor. 2:16). Ele não via qualquer mérito em si mesmo, como explicação de por que Deus lhe outorgara tão estupenda graça. Contudo, a graça não lhe fora dada em vão, conforme sucede quando o livrearbítrio de um homem teimoso interfere com os planos divinos. Pelo contrário, a vontade de Paulo correspondia aos impulsos divinos; e isso era tudo que o Senhor requeria da parte dele. Seu «aborto» violento, para fora do judaísmo, fora uma necessidade; porque ele fora um destruidor; e, através desse processo, normalmente jamais teria vindo aos pés de Cristo, e muito menos poderia ter assumido a posição de sua mais importante testemunha.
Todavia, a grande mancha de culpa de sua vida jamais foi olvidada pelo apóstolo Paulo (ver Gál. 1:3; I Tim. 1:12-14 e Atos 26:9). Por igual modo,
não foi eliminado o princípio da colheita segundo a semeadura; porquanto existe uma lei que dita que tudo quanto um homem semear, isso também terá de colher.É o mesmo caso de Davi, o qual, mésmo depois de haver-se arrependido de seus pecados e de ter sido perdoado, teve de sofrer as conseqüências. Paulo ainda teria de pagar pelos erros cometidos. Ele, o grande perseguidor, tornou-se o grande perseguido. Aquele que havia encarcerado a outros, agora era freqüentemente encarcerado. Aquele que havia assassinado a outros, finalmente foi morto. Essa é uma grande lei, que não admite qualquer exceção, até mesmo quando o perdão entra em operação. (Ver Gál. 6:7,8).
«Houve ocasiões em que esse fato terrível (o de ter perseguido a igreja)' confrontava a Paulo como um pesadelo. E quem não compreende essa forma de contribuição?» (Robertson, in loc.).
«Embora Deus o tivesse perdoado, o próprio Paulo dificilmente se perdoaria por seu pecado passado». (Faucett, in loc.).
O trecho de Efé. 3:8 apresenta Paulo a dizer algo ainda mais depreciativo a seu respeito. Lá ele aparece como «...o menor de todos os santos...».
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 239-241.
I Cor 9 .2 a) O apostolado de Paulo (9.1-3). Em primeiro lugar, Paulo afirma que ele não estava preso a uma lei ritual. “Não sou eu apóstolo? Não sou livre?” (1). Em se tratando da atividade cristã, ele tinha completa liberdade dentro dos limites das leis da ética e do espírito. A esse respeito, ele gozava da liberdade de todos os cristãos, cuja redenção pessoal está baseada na fé no Senhor Jesus Cristo. Mas Paulo gozava de uma liberdade ainda maior, a liberdade de um apóstolo. Sua pretensão a todos os privilégios dessa função tinha o apoio de dois fatos.
1) Ele havia visto a Jesus Cristo, Senhor nosso (1). Por definição “um apóstolo é alguém que é enviado diretamente pelo Senhor, o único que pode conferir esse mandato”. Isso não significa que ele viu Cristo como parte de uma multidão ou como uma visão, mas que isto “pode apenas designar o fato histórico positivo da aparição de Jesus no caminho de Damasco”. Esse conhecimento pessoal de Cristo era a essência do apostolado (At 1.22; 2.32; 3.15; 4.33).
2) A segunda validação de Paulo como apóstolo era o sucesso do seu trabalho entre os coríntios. Ele havia equilibrado a doutrina com seus resultados práticos. Não sois vós a minha obra no Senhor? Essa era uma pergunta que só podia ser respondida afirmativamente. E a resposta iria confirmar sua alegação, pois ele havia ido a Corinto como apóstolo do Senhor Jesus Cristo. Dessa forma, os coríntios seriam os últimos a questionar a validade desse encargo. Eles eram o seu selo... no Senhor (2).
O selo ou sinete era o emblema da propriedade e da segurança. Da maneira como foi usada aqui, essa “palavra significa a impressão feita pelo selo, usada metaforicamente a respeito dos convertidos de Corinto, como uma autenticação do apostolado de Paulo”. Todas as outras congregações fundadas por Paulo teriam selos semelhantes.
A palavra defesa ou exame (3) “significa uma investigação crítica de sua reivindicação ao apostolado”. O uso do tempo presente sugere que algumas pessoas de Corinto estavam continuamente usando a prática de desafiar as credenciais apostólicas de Paulo. Alford afirma que a frase: “Esta é a minha defesa para com os que me condenam”, se refere aos versículos anteriores. Lenski acredita que os versículos 1-2 são preliminares, e que a verdadeira defesa que Paulo faz do seu apostolado começa no versículo 4.
Donald S. Metz. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 8. pag. 311-312.
I Cor 9.2 Ademais, não falta o ―selo‖ à sua incumbência apostólica: ―Porque o selo de meu apostolado sois vós no Senhor‖. Como os coríntios podem duvidar da autenticidade de sua incumbência? Nesse caso também deveriam colocar em dúvida a autenticidade de sua condição cristã e sua existência como igreja de Jesus. “Se não sou apóstolo para outros, certamente o sou (pelo menos) para vós” [tradução do autor]. Essa é a sucinta e contundente ―defesa‖ de seu apostolado contra os que se posicionam como juízes contra ele em Corinto.
Werner de Boor. Comentário Esperança Cartas aos I Corinto. Editora Evangélica Esperança.
I Cor 9.2 Paulo enfatiza a prova de seu apostolado, dada no primeiro versículo deste capítulo, onde diz que os próprios crentes de Corinto eram uma prova de seu ministério. Quanto a outros, que tão-somente tinham ouvido falar sobre Paulo, mas nunca tinham contemplado o seu poderoso ministério em primeira mão, era possível que se desculpassem por não reconhecer nele o grande homem de Deus, de fé e poder como ele era. Mas os crentes de Corinto não podiam apresentar essa mesma desculpa. Acima de outros, tinham de reconhecer como Cristo operava por intermédio dele. Paulo estivera entre aqueles coríntios por nada menos de dezoito meses, isto é, por mais tempo do que estivera entre qualquer outro grupo de pessoas, excetuando Efeso.
«...selo...» Essa era a marca da autenticação, nas culturas antiga e moderna. O «selo» ou «caminho» da autoridade, impresso sobre um documento, é necessário para dar-lhe legalidade. Ora, os labores tão bemsucedidos de Paulo serviam-lhe de selo, de autenticação. Entre esses labores havia o estabelecimento do evangelho na cidade de Corinto. Paulo não poderia ter conseguido tal coisa, a menos que tivesse sido preparado para tanto pelo Espírito de Deus. Através do dons espirituais, que resultavam em poderosos sinais e grandes maravilhas, além de uma pregação eloqüente e convincente, homens e mulheres ficavam convictos do poder de Cristo, atuante nesse apóstolo. Nisso consistia o selo autenticador de Paulo.
Alguns intérpretes encaram a natureza da própria igreja de Corinto, possuidora que era de dons espirituais em abundância, como uma prova da fonte apostólica de sua conversão. Ê provável que isso expresse uma verdade, porquanto muitos poderiam ter-se convertido através de ministros menores; porém, os notáveis dons espirituais que os crentes de Corinto possuíam agiam como uma prova que nenhum mero ministro comum labutara entre eles.
«...no Senhor...», tal como já dissera no primeiro versículo, numa repetição que indica a forte convicção que tinha o apóstolo de que tudo quanto fazia, fazia-o através do poder do próprio Cristo, mediante o seu Santo Espírito, tudo tendo como fonte ao Senhor, e tudo tendo ao Senhor por alvo.
«A despeito de suas imperfeições, a igreja de Corinto era uma brilhante evidência da comissão de Paulo; provavelmente era a maior igreja até então fundada em seu ministério independente». (Findlay, in loc.).
«.-. .selo...»«Aquilo com que alguém conclui, designa e confirma qualquer coisa; então também ‘confirmação’, ‘testemunho’, ‘testemunho original’». (Kling, in loc.).
«...mediante os sinais e portentos que ele operara entre eles, como diz Crisóstomo, alicerçado em II Cor. 12:11-13...a conversão era a grande prova». (Alford, in loc.).
Nos tempos antigos, vários tipos de selos eram usados, a saber:
1. As portas eram seladas com uma corda, e os túmulos com grandes pedras. Algumas vezes a argila era usada para selar portas. (Ver Dan. 6:17; Bel e o Dragão 14; Herod.ii.121 e Mat. 27:66).
2. O selo cilíndrico era um dos mais comuns. Tratava-se de um cilindro feito de barro cozido ou de pedra, com gravuras esculpidas ao derredor. O cilindro era rolado por cima de um objeto, deixando suas marcas em uma linha reta.
3. Selos de cera eram usados para selar livros e outros documentos. Então, qualquer perturbação no selo notificava que o livro fora aberto. Esse é o tipo de selo aludido em Apo. 5:1 e em vários outros trechos.
4. Selos escaravelhos, feito de rocha ou de outro material, esculpido na forma de um besouro, com figuras gravadas no mesmo, e com o qual se fazia a impressão.
5. Selos em anéis. Algumas vezes os selos escaravelhos eram  ngastados em um anel, embora também existissem outros tipos. Muitas figuras eram usadas nesses selos, incluindo figuras humanas, divindades, vários animais e quaisquer letras ou palavras.
6. Asas de jarras têm sido encontradas com freqüência pelos arqueólogos.
Muitos selos escaravelhos têm sido encontrados no Egito. Selos cilíndricos têm sido achados nas ruínas da Fenícia e da Síria, principalmente. Cento e cinqüenta selos, inscritos com nomes pessoais em hebraico, prevêem a massa maior dos nossos achados arqueológicos de «inscrições» feitas com selos. As escavações efetuadas na Palestina têm produzido mais de seiscentas asas de jarras com impressões feitas por selos.
De que maneiras eram utilizados esses selos?
1. Servia de sinal de autenticidade e autoridade, como o selo que José recebeu, na qualidade de representante de Faraó.
2. Servia para testificar e confirmar a autenticidade de documentos. (Ver Jer. 32:11-14; Nee. 9:38 e Dan. 9:24).
3. Servia para impedir a leitura de um documento ou livro. Simbolicamente, pois, esse tipo de selo representa algo oculto ou ainda não revelado.
Neste texto, o selo de que Paulo fala servia essencialmente como «autenticação» de seu ministério, como uma «testemunha», como uma confirmação do mesmo.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 4. pag. 131.
III - APOSTOLICIDADE ATUAL (Ef 4.11)
1. Ainda há apóstolos?
Aplicamos este termo ao que já vimos no item 1.1, ao “Colégio Apostólico”, ou aos Doze discípulos que foram selecionados por Jesus, e enviados como apóstolos para dar início à Grande Comissão (Mc 16.15). Apóstolos como eles não existem mais. Eles eram apóstolos no sentido estrito da palavra, e nas circunstâncias em que foram chamados e enviados por Jesus.
1) Estiveram com Cristo, durante todo o seu ministério terreno
Enquanto Paulo aprendeu “aos pés de Gamaliel”, os Doze aprenderam aos pés de Jesus, o Mestre dos mestres, no mais perfeito curso de evangelização e discipulado que alguém poderia realizar. Próximo à sua morte, Jesus lhes disse: “E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações” (Lc 22.28). O fato de ter visto a Cristo não é condição exclusiva, pois Paulo também o viu (1 Co 9.1,2). Mas o terem aceito seu chamado diretamente de sua parte; de terem caminhado durante cerca de três anos, ao seu lado, ouvindo sua palavra, e vendo seus milagres; de terem comido e dormido ao seu lado, muitas vezes sem ter “onde reclinar a cabeça” (Mt 8.20); só os Doze compartilharam momentos tão expressivos da humanidade, bem como da divindade de Cristo.
2) Eles estiveram com Jesus, após a sua ressurreição
Outros discípulos também estiveram com Jesus, como os do Caminho de Emaús (Lc 24.13-31). Mas os que compartilharam da companhia do Senhor, de modo privado e especial, foram os 11, visto que Judas traiu o Mestre e foi para o seu destino trágico. “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco! E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegraram, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós” (Jo 20.19-21).
3) Receberam a Grande Comissão
O mandato para evangelizar o mundo é destinado a todos os crentes em Jesus, a toda a Igreja do Senhor. Mas os Doze receberam a ordem missionária, diretamente da boca de Jesus (Mc 16.15). Jesus não disse aos Doze que eles fizessem apóstolos, mas sim, discípulos em todas as nações (Mt 28.18-20).
4) Os Doze terão seus nomes nos fundamentos da Nova Jerusalém
Esse importante detalhe, registrado no Apocalipse, certamente, constitui argumento mais que suficiente para se entender, que o apostolado especial dos Doze, que constituíam o Colégio Apostólico, não é repetido em nenhuma fase da História da Igreja. João viu esse singular privilégio, concedido unicamente aos que seguiram Jesus, durante o seu ministério terreno (Ap 21.12-14).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 77-78.
APOSTÓLICA, ERA A época que tem início a partir do Pentecostes (aprox. 30 d.C.) até a morte do apóstolo João (aprox. 100 d.C.) é aquela em que os apóstolos estavam exercendo a sua influência entre as igrejas. Esta era prontamente se divide nos períodos pré-paulino (aprox. 30-40 d.C), paulino (aprox. 40-67 d.C.) e pós-paulino (aprox. 67-100 d.C). Durante o primeiro período, o cristianismo esteve grandemente confinado a Jerusalém e ao povo judeu. Não houve nenhuma tentativa de fazer um rompimento definitivo com o judaísmo até então. A vida da igreja foi marcada pela simplicidade, pureza e poder. No período paulino ocorreu uma transição de uma igreja judaica para gentio-judaica com uma expansão correspondente ao tamanho do império. Vários problemas começaram a tomar forma, tais como a perversão judaística na Galácia, irregularidades em Corinto e a heresia em Colossos. A principal figura do período pós-paulino foi o apóstolo João, cuja morte trouxe o final da Era Apostólica. Nesta época, o cristianismo havia sido firmemente plantado em todas as terras de Jerusalém a Roma.
PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 161.
Temos aqui as promessas de Cristo aos discípulos e a todos aqueles que trilham nos caminhos da fé e da obediência. Cristo desconsidera, sem dar a perceber, aquilo que havia de vaidade ou de vãs esperanças naquilo que Pedro disse, mas aproveita a ocasião para estabelecer o vínculo de uma promessa:
(1) Para seus seguidores imediatos (v. 28). Eles haviam enfatizado o seu respeito para com Ele, como os primeiros que o seguiram, e a eles o Senhor promete não apenas tesouros, mas glória no céu; e aqui eles têm uma concessão ou privilégio sobre isso, daquele que é a fonte da glória naquele reino: “Vós, que me seguistes... na regeneração... vos assentareis sobre doze tronos”. Observe:
[1] O preâmbulo ao privilégio ou ao exame da concessão, que, como de costume, é um relato dos serviços deles: “Vós, que me seguistes... na regeneração”; portanto, eu farei isso por vós. A época do aparecimento de Cristo no mundo era um tempo de regeneração, de correção (Hb 9.10), quando as coisas antigas começavam a se extinguir, e as coisas novas começavam a surgir. Os discípulos haviam seguido a Cristo quando a igreja ainda estava no estágio embrionário, quando o templo do Evangelho não tinha mais do que colunas, quando tinham mais do trabalho e ocupação de apóstolos do que da dignidade e do poder que pertenciam ao seu cargo. Agora eles seguiam a Cristo, com cansaço permanente, quando poucos o faziam; e por isso, sobre eles, Ele colocará sinais especiais de glória. Cristo demonstra um favor especial por aqueles que lhe entregam a sua vida desde cedo, que confiam nele mesmo sem vê-lo, como fizeram aqueles que o seguiram na regeneração. Pedro falou que eles haviam deixado tudo para segui-lo – Cristo fala somente da atitude de seguirem-no, que era o assunto principal.
[2] O dia de sua honra, que define a hora inicial. Não imediatamente após aqueles dias. Não. Eles devem permanecer por algum tempo na obscuridade, como estavam. Mas quando “o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória”; e a isso alguns se referem como: “ na regeneração” : “Vocês, que agora me seguiram, serão, na regeneração, dignificados dessa maneira”. A segunda vinda de Cristo será umâ regeneração, pois haverá novos céus e uma nova terra, bem como a restauração de todas as coisas. Todos aqueles que tiverem parte na regeneração e na graça (Jo 3.3) terão parte na regeneração que ocorrerá em glória; pois assim como a graça é a primeira ressurreição (Ap 20.6), a glória é a segunda regeneração.
O fato de a glória deles ser adiada até que o Filho do Homem se assente no trono de sua glória implica, em primeiro lugar, que eles devem aguardar pelo seu desenvolvimento.
Assim como a glória de nosso Mestre é postergada, é adequado que a nossa também o seja e que devamos esperar por ela com fervorosa expectativa, como a de uma esperança invisível (Rm 8.19). Devemos viver, trabalhar, e padecer na fé, na esperança, e na paciência, que conseqüentemente serão testadas por esse período de espera. Em segundo lugar, que eles devem compartilhar os resultados do avanço da obra de Cristo - a glória deles deve ser uma comunhão com Ele em sua glória. Eles, tendo sofrido com um Jesus sofredor, de vem reinar com um Jesus vencedor, pois agora e no mundo futuro, Cristo será tudo em todos; estaremos onde Ele estiver (Jo 12.26), nos manifestaremos com Ele (Cl 3.4); e essa será uma recompensa abundante não apenas por nossa perda, mas pelo adiamento; e quando o nosso Senhor vier, receberemos não apenas o que é nosso, mas o que é nosso com juros. As viagens mais longas trazem os maiores retornos.
[3] A própria glória aqui assegurada: “Vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”. É difícil determinar o sentido específico dessa promessa, e se ela não deveria ser cumprida muitas vezes (o que não vejo problema em admitir). Em primeiro lugar, quando Cristo for elevado à mão direita do Pai e se sentar no trono de sua glória, então os apóstolos receberão o poder do Espírito Santo (At 1.8); serão tão aperfeiçoados em relação à sua condição atual, que pensarão estar assentados sobre tronos, na promoção do evangelho.
Eles o comunicarão com autoridade, como um juiz a partir da tribuna; eles terão seus poderes aumentados e anunciarão as leis de Cristo, pelas quais a Igreja, o Israel espiritual de Deus (G16.16), será governado, e o Israel segundo a carne, que se mantiver na infidelidade, com todos os outros que assim o fizerem, será condenado. A glória e o poder que lhes são conferidos podem ser explicados através de Jeremias 1.10: “Ponho-te neste dia sobre as nações e sobre os reinos”; Ezequiel 20.4: “Julgá-los-ias tu”?; Daniel 7.18: “Os santos receberão o reino”; e Apocalipse 12.1, onde a doutrina de Cristo é chamada de “uma coroa de doze estrelas”. Em segundo lugar, quando Cristo surgir para a destruição de Jerusalém (cap. 24.31), então Ele enviará os apóstolos para julgar a nação dos judeus, pois nessa destruição, as previsões deles, de acordo com a Palavra de Cristo, se cumprirão.
Em terceiro lugar, alguns pensam que isso se refere à conversão dos judeus, que ainda está para acontecer, no fim do mundo, após a queda do Anticristo; assim pensa o Dr. Whitby, e que “isso diz respeito à autoridade dos apóstolos ou às doze tribos de Israel, não pela ressurreição de seus corpos, mas por uma revivificação do Espírito que neles residia, e da pureza e do conhecimento que eles comunicaram ao mundo, e, principalmente, pela confissão do seu Evangelho, como a base da sua fé e do rumo de suas vidas” . Em quarto lugar, é certo o seu cumprimento total na segunda vinda de Cristo, quando os santos em geral e os doze apóstolos, especialmente, como assessores de Cristo, julgarão o mundo por ocasião do “juízo daquele grande Dia”, quando o mundo todo receberá a sua sentença final e os apóstolos ratificarão e aplaudirão a sentença. Mas as tribos de Israel são citadas, em parte, porque o número de apóstolos era designado pelo mesmo número de tribos; e em parte porque os apóstolos eram judeus, o que deveria trazer algum grau de amizade. Porém, embora os apóstolos mencionassem então os judeus, eram perseguidos por estes de uma forma implacável. Isso dá a entender que os santos julgarão os seus conhecidos e familiares segundo a carne e, no Grande Dia, julgarão aqueles com quem tinham amizade; eles julgarão os seus perseguidores, aqueles que os julgaram neste mundo.
Mas o propósito geral dessa promessa é mostrar a glória e a dignidade que estão reservadas aos santos no céu, o que será uma abundante recompensa pela desonra que sofreram aqui pela causa de Cristo. Há maiores graus de glória para aqueles que mais realizaram e sofreram.
Os apóstolos, neste mundo, eram perseguidos e torturados, lá eles se sentarão para descansar e relaxar; aqui obrigações, angústias e mortes habitavam neles, mas lá eles se sentarão em tronos de glória; aqui eles eram arrastados aos tribunais, lá eles serão promovidos a juizes; aqui as doze tribos de Israel os espezinhavam, lá elas estremecerão diante deles. E isso não será uma recompensa suficiente para compensar as suas perdas e gastos por amor a Cristo? (Lc 22.29).
[4] A ratificação desse privilégio. Ele é permanente, é inviolável e imutavelmente garantido, pois Cristo disse, em outras palavras: “Em verdade vos digo: Eu sou ‘o Amém, a testemunha fiel e verdadeira’, que tem o poder de dar este privilégio; Eu o disse, e isto não pode ser revogado”.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 250-251.
«Doze tronos». Evidentemente alude ao poder político literal, não sendo mero símbolo dc glória ou de autoridade. Os paralelos desta secção, em Marcos e cm Lucas, não contêm este versículo, mas o trecho de Luc. 22:30 encerra uma promessa semelhante: ·Para quc comais e bebais à minha mesa no meu reino: e vos assentareis cm tronos para julgar as doze tribos dc Israel ״. Esse ministério, por conseguinte, está especialmente relacionado ao
governo da nação de Israel no milênio. Alguns intérpretes dão uma interpretação simbólica, dizendo quc Israel representa 0 estado da sociedade ou da igreja, e que a palavra «tronos· representa a autoridade que será conferida aos doze nessa sociedade. Nessa idéia sc encontra certa verdade. Por certo os apóstolos desfrutarão de tais posições na igreja universal e eterna, mas nào há razão para que se negue o seu reinado literal sobre 0 Israel literal, na terra, durante o milênio. O trccho dc Apo. 21:24 indica a continuação da existência das nações no milênio, e, provavelmente, até mesmo no estado eterno. As populações dessas nações, no milênio, provavelmente passarão por uma transformação metafísica em seu scr. quando da regeneração; mas é óbvio que essa transformação será cm menor grau do que a transformação doscrentes á imagem de Cristo. Não contamos com muitas informações sobre essa questào. e precisamos ficar à espera dc um conhecimento mais sólido, quando ocorrer a própria revelaçào da ·regeneração·.
Mas, se por um lado, essa promessa dos doze tronos foi espccialmcntc feita para os apóstolos, por outro lado. a passagem de II Tim. 4:8 indica quc a recompensa quc será dada aos crentes fiéis é certa, adquirindo diversas formas. Trechos como os de Rom. 8:17: I Cor. 6:2; II Tim. 2:12; Apo. 2:26 e 3:21 implicam todos na verdade que pelo menos uma parte da recompensa dos crentes será o poder dc reinar com Cristo, em seu reino.
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 1. pag. 493.
Mt 19.28 — Os apóstolos jamais se esqueceram da promessa de Jesus sobre o lugar que ocupariam no Seu Reino; isso era algo que ainda estava muito vivo na mente deles em Atos 1.15-26.
Na regeneração aponta para a vinda do Reino prometido em Daniel 7.13,14. Trono da sua glória. Cristo hoje está assentado à destra do trono eterno do Pai. Em Seu Reino futuro, Ele ocupará o trono de Davi (Ap 3.21). E, nesse Reino, os doze apóstolos se assentarão sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 58-59.
A cidade tinha um grande e alto muro com doze portas (12), guardadas por doze anjos, e nomes escritos sobre elas (i.e., nas portas), que são os nomes das doze tribos de Israel. Havia três portas (13) em cada um dos quatro lados da cidade. Grande parte dessa descrição é bastante parecida com o que lemos em Ezequiel acerca da nova Jerusalém (Ez 48.31-34). Em relação às doze tribos, Swete diz: “O objetivo do vidente em relação às tribos é simplesmente defender a continuidade entre a Igreja cristã e a Igreja do AT”.
O muro da cidade tinha doze fundamentos e, neles, os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro (14). Jesus disse aos seus apóstolos: “também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel” (Mt 19.28). Paulo escreveu que a Igreja é edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas” (Ef 2.20). O simbolismo das doze tribos de Israel (12) e dos doze apóstolos do Cordeiro (14) aponta para a nova Jerusalém.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 10. pag. 497.
Ap 21.12 Agora a descrição da cidade passa da altitude para a profundidade dos muros, passando pelos portões, até os fundamentos. Tinha grande e alta muralha. Na Antigüidade, o viajante que se aproximava de uma grande cidade inicialmente não via nada além de muros, que muitas vezes sobrepujavam até as casas. Da grandeza deles podia depreender a força, a riqueza e a segurança da cidade. João destaca intensamente os muros da nova Jerusalém. Contudo, simbolizam para ele sobretudo a separação realizada entre o puro e o impuro (v. 27), pois na nova terra descartou-se a tarefa de repelir ataques. ―O mar já não existe‖ (Ap 21.1) e ―já não haverá noite‖ (Ap 21.25; 22.5). O muro demarca a ―santidade‖ da cidade (v. 10), isto é, sua separação do que não é sagrado, do que se encontra ―lá fora‖, a saber, no charco de fogo. Conforme esse dado, não existe um céu no qual ―naturalmente‖ todos entrarão um dia. A nova Jerusalém não é uma ―ubiqüidade que se dilui para todos os lados‖ (W. Stählin).
O pensamento continua a desenvolver-se. No muro há doze portas (―portões‖), e, junto às portas (―sobre os portões‖), doze anjos, ou seja, vigias dos portões. Em decorrência, os portões, que conforme o v. 25 estão abertos, não devem ser interpretados erroneamente. Não contradizem o que os muros altos anunciam. Os textos de Ap 21.27 e 22.14,19 sublinham que não existe acesso à cidade santa sem um controle. Quem tem permissão de entrar nela?
E nos portões estavam nomes inscritos, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel, muito semelhante a Ez 48.30-35. O sentido é que não poderá ingressar na cidade ninguém que não fizer as pazes com Israel. Além de Israel não existe nenhuma outra base de salvação nem tampouco uma nova Jerusalém (cf. Ef 3.6; 2.19; Rm 11.13-15).
Nesse ponto fica clara também a mais singela explicação do número doze, sempre recorrente. Ele não é deduzido de concepções cósmicas (EXCURSO 20b), mas sim do AT. Logo, essa visão não sonha de maneira genérica com o aperfeiçoamento do mundo, mas está profundamente comprometida com a história da revelação no AT. O que o antigo nome ―Jerusalém‖ já proclamava (Ap 21.2) é agora ressaltado por ―Israel‖: na última cidade o povo das doze tribos da antiga aliança é aperfeiçoado.
Rissi expõe que cada portão representa um convite do Deus fiel àquela tribo de Israel cujo nome ele traz. Os portões, portanto, seriam um indício para o grande retorno de Israel da ―sinagoga de Satanás‖ (Ap 3.9) e do charco de fogo. Por princípio ele também coaduna o número doze com a nação de Israel, enquanto, segundo sua opinião, no contexto da igreja de Jesus deveria aparecer o número sete. A delimitação dos doze à nação de Israel, no entanto, será corrigida pelo v. 14, e o número sete é relacionado no Ap a tantas coisas que é impossível restringi-lo justamente à igreja. Na realidade parece improvável que os portões fossem denominados conforme um Israel que se encontra do lado de fora. Apoiando-se na profecia do AT, o texto projeta uma imagem inversa: não é Israel que vem, mas são os reis dos povos que vêm à cidade, a ―Israel‖ (v. 24-26).
Ap 21.13 À semelhança de Ez 48, o v. 13 distribui os doze portões entre os quatro pontos cardeais. Do Leste três portões levam à cidade, e do Norte três portões, e do Sul três portões, e do Oeste três portões. A simetria, narrada solenemente, não apenas alegra o olhar, mas igualmente o coração. Anuncia ao observador que nenhuma parte da cidade está em condições mais precárias e fracas que a outra. Cada lado da cidade e cada parcela da população dessa cidade está equipada de forma homogênea. Nas cidades antigas os edifícios dos portões, com um pátio amplo, constituíam centros importantes, nos quais se desenrolava a vida. Desse modo assegura-se o resultado de que nenhum membro do povo de Deus sofre, mas que cada um deles é gloriosamente considerado (1Co 12.26). O olhar resignado lançado ao membro melhor situado (1Co 12.15,16) ou ao servo talentoso (Mt 25.16), um olhar que ainda hoje impossibilita tanto serviço e louvor a Deus, finalmente desaparecerá. Todos louvam a Deus ―a uma boca‖ (Rm 15.6 [RC]).
Ap 21.14 Na menção e descrição das pedras das fundações, para as quais o AT não fornece nenhum paralelo, salienta-se um interesse singular. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro. Esse dado impede enfaticamente que se refira
a nova Jerusalém unilateralmente ou mesmo predominantemente à nação Israel (cf. o exposto sobre o v. 12), pois o fundamento da cidade é formado pelos apóstolos do Cordeiro, que pelo seu sangue comprou para si pessoas ―que procedem de toda tribo, língua, povo e nação‖ (Ap 5.9). Quem separa os gentílico-cristãos dos apóstolos, não somente esvaziaria a nova Jerusalém, mas também a cruz de Cristo.
Pelo fato de que João vê tanto os nomes dos doze patriarcas quanto também os nomes dos doze apóstolos como emblema da nova Jerusalém, ele está vendo a unidade da história da salvação, do povo da salvação e da consumação da salvação. Um significado análogo já estava contido na passagem do cântico de Moisés e do Cordeiro (Ap 15.3). Tudo isso é confirmado também por Paulo, sobretudo na carta aos Efésios (nota 320). Contudo, em 1Co ele igualmente está lutando para que a plenitude do evangelho não seja diminuída, combatendo qualquer tentativa de usar Pedro contra Paulo ou vice-versa. Percebe uma divisão do grupo de apóstolos como divisão do próprio Cristo (1Co 1.13). A nova Jerusalém é o contrário dessas divisões, ou seja, nela congregam-se todos os santos dentre judeus e gentios, para a unidade do reconhecimento de fé no Filho de Deus (Ef 4.13).
Adolf Pohl. Comentário Esperança Apocalipse. Editora Evangélica Esperança.
Ap 21.12. A cidade tinha grande e alta muralha com doze portas. De acordo com o v. 13 havia três portas em cada lado do muro. O quadro é emprestado diretamente de Ez 48:31ss.
E junto às portas havia doze anjos, montando guarda nas torres. Veja Is 62:6, onde havia guardas sobre os muros para interceder por Israel e orar pela vinda do reino messiânico. Sobre as portas estavam inscritos os nomes das doze tribos dos filhos de Israel (veja Ez 48:31).
14. A muralha da cidade tinha doze fundamentos, e estavam sobre estes os doze twmes dos doze apóstolos do Cordeiro. Isto é uma alusão óbvia à teologia da igreja, edificada sobre o fundamento dos apóstolos e profetas (Ei 2:20). Com este simbolismo das doze portas com os nomes das doze tribos de Israel e dos doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos João indica que a cidade engloba as duas dispensações, mostrando que o Israel do Antigo Testamento e a igreja do Novo Testamento têm seu lugar na morada derradeira de Deus.
George Eldon Ladd. Apocalipse Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 209.
2. Apóstolos fora dos doze.
Já ressaltamos o envio dos “setenta” discípulos, que, sendo enviados, de dois em dois, cumpriram o papel de apóstolos. Mas, além deles, o Novo Testamento também cita outros exemplos de apóstolos, como Paulo, que se considerou a si mesmo “o menor dos apóstolos” por ter perseguido “a igreja de Deus” (1 Co.15.9; Rm 1.1; 2 Co 1.1); ele viu a Jesus Cristo (1 Co 9.1). Barnabé também foi reconhecido como apóstolo (At 14.14). Havia “outros apóstolos”, a que Paulo se referia em sua carta aos romanos (Rm 16.7) e em outras epístolas (G1 1.19; 1 Ts 2.6,7).
1) A liderança dos apóstolos
Segundo o comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal, os apóstolos “Eram homens de reconhecida e destacada liderança espiritual, ungidos com poder para defrontar-se com os poderes das trevas e confirmar o Evangelho com milagres. Cuidavam do estabelecimento de igrejas, segundo a verdade e pureza apostólicas”. Eles tinham a mensagem “original” de Cristo, e náo eram apóstolos, com alguns, hoje, que apresentam um “evangelho genérico”, antropocêntrico e deturpado, com ensinos que não têm fundamento bíblico, como a falsa “teologia da prosperidade”, a absurda “confissão positiva”, o “teísmo aberto” e outros da mesma natureza.
2) A itinerância dos apóstolos
Diz, ainda, a Bíblia de Estudo Pentecostal que os apóstolos “Eram servos itinerantes que arriscavam suas vidas em favor do nome de nosso Senhor Jesus Cristo e da propagação do evangelho (At 11.21-26; 13.50; 14.19-22; 15;25,26). No presente, vemos “apóstolos”, que nunca foram além dos limites da cidade onde vivem e assumiram a direção de uma igreja. São “presidentes” de igrejas, radicados e estabelecidos em domínios eclesiásticos bem característicos. Os que se consideram “apóstolos”, hoje, em geral, adquiriram tal “posição”, após terem sido ordenados a evangelista ou pastor, ou bispo, o que lhes confere a ideia de que estão em posição hierárquica superior. Nada mais inadequado para um verdadeiro apóstolo de Cristo, que deve ser, antes de tudo, um servo ou um servidor e não alguém em grau de superioridade.
3) A ordem de fazer discípulos
A expressão “ensinai todas as nações”, no texto bíblico original (Mt 28.19), escrito em grego, tem o sentido de fazer discípulos. A tradução mais aproximada seria “ide, fazei discípulos em todas as nações”. “O propósito da Grande Comissão é fazer discípulos que observarão os mandamentos de Cristo. Este é o único imperativo direto no texto original deste versículo”.4 De modo mais didático e direto, lemos, na Bíblia de Estudo Palavras-Chave sobre o versículo de Mt 28.19: “3.100 (mathêteuo), intransitivo, tornar-se um aluno-, transitivo, ser discípulo, i.e., inscrever-se como estudante: — ser discípulo, instruir, ensinar. O termo correlato, mathetês (3101), “discípulo. Ser discípulo de alguém (Mt 27.57); treinar como discípulo, ensinar, instruir; por exemplo, a Grande Comissão (Mt 28.19). Também Mateus 13.52; Atos 14.21”.5 (grifos nossos).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 78-80.
«...apóstolos...» Deve-se notar, neste ponto, o uso do termo «apóstolo», aplicado a Barnabé. Trata-se do uso secundário e não-técnico da palavra. Como título oficial, que dá a entender poderes e autoridade especiais, em referência aos alicerces da igreja cristã (ver Efé. 2:20), aplicava-se exclusivamente aos doze apóstolos originais, a Matias e a Paulo. Todo apóstolo dessa categoria principal precisava ter sido testemunha ocular da ressurreição do Senhor Jesus, dele tendo recebido sua comissão apostólica especial. Não há qualquer evidência bíblica de que esse ofício tenha sido transferido a outros, embora várias tradições e alguns dogmas eclesiásticos façam essa transferência, o que é aceito pela Igreja Católica Romana, mas é rejeitado pela maioria dos grupos protestantes. (Quanto a notas expositivas sobre o ofício do apostolado, ver Mat. 10:1. Quanto a uma descrição sobre os «apóstolos» propriamente ditos, ver Luc. 6:12. Quanto a comentários sobre as qualificações dos apóstolos— em referência ao seu ofício e ao uso mais estrito do termo— ver as notas expositivas sobre Atos 1:15,21,22).
Contudo, há também um sentido não-técnico, secundário, da palavra «apóstolo». Trata-se de uma significação mais lata, em que o termo foi aplicado a muitas outras pessoas, nas páginas do N.T. Esse sentido secundário dá a entender essencialmente «missionários», enviados dotados de poder e autoridade especiais. Foi assim que Barnabé é aqui incluído como um «apóstolo», juntamente com Paulo. Não sabemos precisar,, naturalmente, se ele chegou a ver 0 Senhor Jesus ressurreto, mas isso não seria motivo essencial para ele não poder ser chamado de «apóstolo» nesse sentido secundário.
A palavra «apóstolo» significa enviado, pelo que também pode ter grande gama de aplicações, enquanto não é utilizada em algum sentido técnico, para indicar o ofício especial do apostolado, conforme foi instituído pelo Senhor Jesus. O apóstolo Paulo aplica essa palavra a Tiago, irmão do Senhor (ver Gál. 1:19), a Epafrodito (ver Fil. 2:25), por ser mensageiro da igreja em Filipos, a Silvano e a Timóteo (ver I Tes. 2:6 e Atos 18:5), e, possivelmente também a Apoio (I Cor. 4:9), a Andrônico e a Júnias (ver Rom. 16:6). Os próprios «judaizantes» foram chamados «falsos apóstolos», pelo mesmo Paulo, 0 que demonstra a grande flexibilidade desse vocábulo, quando usado em seu sentido mais amplo (ver II Cor. 11:13).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 3. pag. 288.
Lucas introduz a palavra apóstolos. Um estudo de Atos revela que Lucas emprega o termo consistentemente em relação aos doze apóstolos e somente duas vezes (vs. 4,14) em referência a Paulo e Barnabé. Os Doze, tendo Pedro como seu cabeça, são portadores e guardiães do evangelho de Cristo em Jerusalém (8.1,14). Os próximos na ordem a reclamar o título são Paulo e Barnabé, que foram comissionados pela igreja em Antioquia para proclamar o evangelho aos gentios (13.1-3).
E por fim, num sentido mais abrangente, Paulo menciona Andrônico e Júnias, que são pregadores do evangelho e reconhecidos pelas igrejas como apóstolos (Rm 16.7). Não obstante, o apóstolo tinha de ser testemunha da ressurreição de Jesus e ter sido comissionado pelo próprio Cristo. Assim, Matias é nomeado por Cristo em Jerusalém, e Paulo, nas imediações de Damasco. Mas Apolo e Timóteo jamais são chamados de apóstolos.
Embora em Atos, Lucas duas vezes designe Paulo como apóstolo, ele registra três vezes o seu chamado e comissionamento para ser apóstolo aos gentios (9.1-19; 22.1-21; 26.2-18). E mais, Jesus diz que Paulo é seu instrumento escolhido para levar seu nome perante os gentios e reis (9.15). Jesus o envia como apóstolo (22.21; 26.16,17; a palavra deriva do verbo grego [eu envio]. Paulo cumpriu o requisito do apostolado determinado pelos apóstolos quando escolheram Matias para ser o sucessor de Judas Iscariotes (1.21,22). Por causa da sua experiência de conversão perto de Damasco, Paulo viu Jesus e se tornou testemunha da ressurreição de Cristo. Apesar de Paulo não ter seguido Jesus desde o tempo de João Batista até a ascensão de Cristo, os Doze o aceitaram como um genuíno apóstolo. Como Lucas retrata Paulo?
“O quadro pintado por Atos não é o de que Paulo não fosse um apóstolo, porém que ele era um apóstolo singular, o que está de acordo com o relato do próprio Paulo (1Co 9.1-3; 15.5-9; Gl 1.12-17).”11 E por fim, Paulo indiretamente, chama Barnabé de apóstolo (1Co 9.6; Gl 2.9,10).
William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento. Editora Cultura Cristã. pag. 18-19.
3. O ministério apostólico atual.
Como demonstrado, o ministério dos Doze, ou do colégio apostólico, náo se repete. Nenhum dos Setenta, nem qualquer dos apóstolos da Igreja Primitiva; ou dos tempos antigos, modernos, atuais, ou futuros, jamais terá seu nome nos fundamentos da Nova Jerusalém. Aqueles Doze foram únicos. Não há sucessão apostólica, como entende a Igreja Católica. Referindo-se aos apóstolos de Jesus, no sentido especial, a Bíblia de Estudo Pentecostal diz: “O ministério de apóstolo nesse sentido restrito é exclusivo, e dele não há repetição. Os apóstolos originais do Novo Testamento não têm sucessores”.
Atualmente, o que podemos ver como ministério de caráter apostólico, é o trabalho dos missionários, quando são enviados para desbravar campos, em países de povos não alcançados pelo evangelho de Cristo. Se um missionário vai assumir um trabalho que já está estabelecido, cujas bases e desenvolvimento deveram-se ao esforço de outros companheiros, não pode dizer que faz um trabalho de apóstolo, e sim, de pastor ou evangelista.
Paulo ensina que Jesus, depois de subir ao alto e levar “cativo o cativeiro”, “deu dons aos homens”. Observando o texto bíblico, de Efésios 4.11, lemos: “E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11,12). Esses “homens-dons”, concedidos por Deus e seus ofícios ou ministérios, têm por finalidade alcançar a “unidade do Espírito” (Ef 4.3), visando “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério” e a “edificação do corpo de Cristo”. Dessa forma, se existe atualidade para os ofícios de “profetas”, “evangelistas” e “doutores” ou “mestres”, por que não deveria haver atualidade do ofício do apóstolo?
Sem dúvida alguma, o ministério de caráter apostólico deve ser desenvolvido, na atualidade, ao lado dos demais ministérios, indispensáveis à unidade e à edificação do corpo de Cristo. Homens como John Wesley, William Carey, cognominado “pai das missões modernas”; Adoniran Judson, Hudson Taylor, D. L. Moody, Jorge Müller, Smith Wigglesworth, Gunnar Vingren, Daniel Berg, Richard Wurmbrand, e tantos outros, em tempos mais recentes, podem ser considerados verdadeiros apóstolos de Jesus. São homens que expuseram suas vidas para levar a mensagem do evangelho aos mais longínquos lugares do mundo.
Patzia afirma: “Visto que a Igreja de hoje não tem lugar para o cargo de apóstolo, por exemplo, a tentação é encontrar-se uma contrapartida contemporânea nos líderes eclesiásticos, como superintendentes ou supervisores”.7 Há realmente, essa “tentação”, de se buscar aplicação para o termo “apóstolo”, a funções que pouco ou nada têm de apostólicas.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 80-81. 

ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

Um comentário:

  1. Vaso de Deus, parabéns pelo blog, em me ajuda muito publico sempre as lições Bíblicas em meu blog e estou te seguindo viu Deus te abençoe seu blog rem sido fonte de benção e de profundo conhecimento.
    http://samuelbeneditodasilva.blogspot.com.br/

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