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3° LIÇÃO 1° TRIMESTRE 2015 NÃO TERÁS OUTROS DEUSES

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES
Quando lemos o primeiro e grande mandamento do Decálogo, qual sentido ele nos traz?
Será que se refere à questão meramente racional e religiosa, como a quantidade exata das divindades no céu? Ou apenas se refere a se podemos ou não ter estátuas em casa, fotografias, artes plásticas de alguma pessoa? Ou se trata apenas de um texto apologético contra as imagens de esculturas refletidas hoje nos "santos da igreja romana"?
O primeiro mandamento está interligado ao segundo, e pode-se dizer que ambos estão divididos em três partes: (1) "Não terás outros deuses diante de mim." (2) "Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra." (3) "Nãoteencurvarásaelas nem as servirás." Essa é uma informação importante para nos esclarecer a respeito do porquê desse mandamento ser tão especial ao povo judeu. Não por acaso, Deus constituiu o Shemá Israel, isto é, o "Ouve ó Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR"; a profissão de fé do monote- ísmo judeu. O medo de cair na idolatria faz com que as pessoas preocupem-se em jogarfora as esculturas de artes de casa, fotografias de familiares ou simplesmente passar longe de alguém que professa outra tradição religiosa. Mas não é bem isso que o primeiro mandamento nos ensina. Deus abomina que as pessoas atribuam a uma imagem, que tenta ser uma representação dEle, a adoração que é devida só a Ele; e também que usem a sua imagem para fins equivocados, como ganhar dinheiro ou fazer, em nome dEle, o mal, a perversidade. A nação de Israel não poderia também reproduzir outras divindades, como a de Faraó, seus pressupostos religiosos e culturais, pois a nação havia sido libertada para sempre. Por isso Jesus repete o mesmo mandamento: "Nenhum servo pode servira dois senhores" e "Não podeis servir a Deus e a Mamom (Lc 16.13).
O dinheiro e o poder estão entre os "deuses" deste século. Mamom foi o único "deus" que o nosso Senhor chamou pelo nome. Muitos são os elementos produzidos por Mamom: o "deus" dinheiro, a competição, o "deus" televisão, o "deus" internet, o consumismo etc. O problema hoje quanto à idolatria não se dá no campo do politeísmo, pois a maioria da população, ao menos no Brasil, não acredita nos deuses antigos. Mas se a questão for analisada do ponto de vista dos "deuses" que disputam a atenção da nossa mente e coração, então a coisa muda de figura. Portanto, o convite de Deus para o seu povo é o de amá-IO de todo coração, com toda a força do pensamento e de toda a alma. Ele é o único e eterno Deus das nossas vidas!
Revista ensinador. Editora CPAD. pag. 37 
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
Resumo do capítulo. A lista crítica dos mandamentos básicos morais e espirituais é introduzida: “Falou Deus todas estas palavras”. Esses princípios para viver um Focalizado, harmonioso relacionamento com Deus e com o seu proximo nao sâo meras invenções humanas. Embora eles estabeleçam um padrão moral para todos, são especialmente dirigidos para a comunidade em aliança: para homens e mulheres que partilham um relacionamento com Deus (20.1-17). O impressionante cremor do fumegante monte Sinai sublinha o fato de que é o próprio Deus que fala do céu a Israel (v. 18-22) e que a nenhum deus fictício de invenção humana terá lugar ao lado do Senhor (v. 23). O Todo-Poderoso também diz a Israel que use somente altares simples para sacrifício, para posteriormente separar a sua adoração da adoração pagã (w. 24-26). Ver página 64 para um debate sobre cada um dos Dez Mandamentos.
RICHARDS. Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia. Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Editora CPAD. pag. 63.
A ordem dos Dez Mandamentos é relevante do ponto de vista teológico. Dos dez, os dois primeiros, os que têm que ver com a singularidade e incomparabilidade de Deus, são os mais importantes, pois a menos que eles sejam observados e até que o sejam, todos os outros não têm verdadeira relevância.
O fundamento da obra redentora de Deus no êxodo era sua graça e poder soberanos; e, de forma recíproca, o êxodo e os sinais e maravilhas que o precederam apresentaram testemunho eloqüente do fato de que ele é Deus e, mais especificamente, o Senhor de Israel. Ele já demonstrara que sua vitória no Egito não fora apenas sobre o faraó e seus exércitos, mas, na verdade, fora sobre os deuses deles (Êx 12.12). Até mesmo os conselheiros do faraó foram obrigados a admitir que não podiam duplicar nem desviar os terríveis sinais e maravilhas que caíram sobre o Egito, nos quais se percebia a ação do “dedo de Deus” (Êx 8.19). O Senhor, por meio de seus atos poderosos, deixou claro que ele, se ele, na verdade, não era o único Deus, era, pelo menos, um Deus sem igual.
Eugene H. Merrill. Teologia do Antigo Testamento. Editora Shedd Publicações. pag. 324.
I. A AUTORIDADE DA LEI
1. A fórmula introdutória do Decálogo.
A fórmula introdutória "Então, falou Deus todas estas palavras, dizendo..." (êx 20.1) é característica única do Decálogo, como explicou o rabino e erudito bíblico Benno Jacob: "Nós não temos um segundo exemplo de tal sentença introdutória" (JACOB, 1992, p. 543). Nem mesmo na passagem paralela, a fórmula é repetida, mas aparece de maneira reduzida ao "mínimo absoluto" (CHILDS, 1976, p. 593) para se ajustar à estrutura da narrativa (Dt 5.5). No entanto, os outros códigos do sistema mosaico são introduzidos com um discurso de Deus a Moisés como no Código da Aliança: "Então, disse o SENHOR a Moisés"(Êx 20.22; 34.32; Levítico 17.1; Deuteronômio 6.1). Fraseologia similar é usada para designar os Dez Mandamentos: "Estas palavras falou o SENHOR a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou; e as escreveu em duas tábuas de pedra e a mim mas deu"(Dt 5.22), mas ela não introduz o Decálogo. Tudo isso revela a origem e a autoridade divina da lei.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 31-32.
Êxo 20.1 Então falou Deus. Ele foi o poder revelador. A legislação mosaica é oriunda da inspiração divina. Deus é um Deus teísta, ou seja, Ele não abandonou a Sua criação. Antes, faz-se presente na mesma, recompensando ou castigando e fazendo conhecida a Sua vontade.
Uma outra versão dos Dez Mandamentos aparece em Deu. 5.6-21, com diferenças mínimas. Ver outra versão em Êxo. 34.10-29. A ordem dos mandamentos difere em diferentes textos e versões. Os Dez Mandamentos não eram novos, e, sim, uma seleção inspirada e apta, dentre uma grande massa de ensinos morais e espirituais, compartilhados por muitos povos. Essa seleção foi divinamente inspirada e guiada. Essa seleção é uma breve síntese de ensinos espirituais e morais essenciais, em relação a Deus e em relação aos homens.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 388.
Deus falou (1) com o povo do monte em chamas. O texto em Deuteronômio declara nitidamente que Deus “no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz” (Dt 5.22) deu estes mandamentos para a assembléia. Não sabemos como Deus falou em voz audível, mas Israel entendia que a voz que ouviam era de Deus. Esta era “uma voz audível e terrível, a voz de Jeová, soando como trombeta pela multidão (19.16: 20.18)”. Este modo de descrever o evento não indica que Deus tenha cordas vocais como o homem, mas assevera que Deus criou um som audível que, de forma inteligível, enunciava suas palavras para o homem. Depois que ouviram aquela voz, preferiram que Moisés (19) lhes falasse.
Leo G. Cox. Comentário Bíblico Beacon. Êxodo. Editora CPAD. pag. 187
2. As partes do concerto.
Após a fórmula introdutória, vem o que é considerado o prefácio de toda a lei: "Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão" (Êx 20.2). Alguns críticos liberais, com base numa premissa falsa sobre a composição dos diversos códigos do sistema mosaico, querem sustentar a ideia de um Deus tribal ou nacional na presente declaração. São teorias subjetivas que eles procuram submeter a métodos sistemáticos para dar uma forma acadêmica a seus pressupostos. Mas o relato da criação em Gênesis e o relato do dilúvio, por exemplo, falam por si sós sobre a soberania de Javé em todo o universo como Senhor do céu e da terra, reduzindo tais ideias a cinzas.
Desde os tempos antigos, discute-se se esta declaração faz parte do primeiro mandamento. A autorrevelação de Deus aqui é significativa. Javé já se havia revelado a Moisés antes (Êx 3.14,15; 6.2, 3), mas aqui se trata de um relacionamento entre o humano e o divino, Deus e Israel. Na declaração "Eu sou o SENHOR, teu Deus", apesar do uso na segunda pessoa, ele se dirige à nação inteira de Israel. O nome divino está vinculado ao resgate dos israelitas da terra do Egito, a grande libertação das garras de Faraó. Esta redenção é o tema do livro de Êxodo. A "casa da servidão" é o símbolo da opressão social. O Egito era uma terra boa e abençoada, como o jardim do Éden (Gn 13.10; Dt 10.11); no entanto, passou para a história como uma caserna ou quartel de escravos. Por isso, é lembrado nas páginas da Bíblia como a "casa da servidão" (Dt 5.6; 6.12; 7.8; 8.14; 13.5, 10; Js 24.17; Jz 6.8; Mq 6.4). Os judeus consideram Êxodo 20.2 ou Deuteronômio 5.6 como parte do primeiro mandamento.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 32-33.
Êxo 20.2 teu Deus. A reivindrcação de Deus vem em primeiro lugar. Israel era dele por direito de criação e de redenção. Os mandamentos pactuais do Senhor foram dados àqueles a quem ele já atraíra a si mesmo, tirando-os da escravidão no Egito (19.4). embora não da escravidão do pecado (caps. 32-34).
Bíblia de Estudo de Genebra. Editoras Cultura Cristã e Sociedade Bíblica do Brasil. pag. 102.
O texto do tratado apresentava os detalhes da nova relação entre o suserano (o rei poderoso) e seu vassalo (a nação mais fraca). O suserano impunha deveres e tributos, além de exigir obediência e lealdade incondicionais. Por vezes, esses acordos incluíam regras específicas para garantir a proteção do suserano de futuros ataques. No entanto, embora a forma e a estmtura da aliança estabelecida por Deus com Israel fosse semelhante à de tratados políticos humanos, seu conteúdo é bem diferente de qualquer acordo desse tipo.
Como nos demais tratados, este começa com uma explanação dos vínculos históricos entre as duas partes: Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa de servidão (20:1-2). No entanto, continua com declarações sucintas que revelam a natureza de Deus e expressam sua vontade para seu povo. Deus assumiu um compromisso com eles e agiu de modo a cumprir as promessas que fez aos patriarcas, esperando do povo uma contrapartida. Deseja que seu povo sirva de modelo, transmitindo as verdades divinas às nações. A fim de cumprir essa responsabilidade e viver como um exemplo daquilo que o reino de Deus pode ser na terra, os israelitas deveriam aprender a obedecer exclusivamente ao Senhor, seu libertador, adorá-lo corretamente e distingui-lo dos ídolos. Também deveriam aprender a amar os outros membros da comunidade liberta e resgatada. Os Dez Mandamentos são uma declaração daquilo que seria necessário para tal.
Tokunboh Adeyemo. COMENTARIO BÍBLICO AFRICANO. Editora Mundo Cristão. pag. 111-112.
3. O Senhor do universo.
SOBERANIADE DEUS
O termo soberania, denota uma situação em que uma pessoa, com base em sua dignidade e autoridade, exerce o poder supremo, sobre qualquer área, em sua província, que esteja sob a sua jurisdição. Um "soberano" pois, exerce plena autonomia e desconhece imunidades rivais.
Quando é aplicado a Deus, o termo indica o total domínio do Senhor sobre toda a suavasta criação. Como Soberano que é, Deus exerce de modo absoluto a sua vontade, sem ter de prestar contas a qualquer vontade finita. Conforme se dá com outras idéias teológicas, o termo não figura nas páginas da Bíblia, embora o conceito seja reiterado por inúmeras vezes. Para tanto, as Escrituras apelam para a metáfora de "governante e súditos". Embora expresse essa idéia de outras maneiras, é principalmente nas doxologias ou atribuições de louvor que aparece o conceito. Poderíamos citar aqui uma passagem do Antigo e uma do Novo Testamentos, como prova disso. " ... até que conheças que o Altissimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer" (Dan. 4:25). "Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém" (I Tim. 1:25).
A soberania de Deus consiste em sua onipotência, expressa em relação ao mundo criado, mormente no tocante à responsabilidade moral das criaturas diante dele. Visando a um fim benfazejo, e executando o seu plano eterno para a criação inteira e para os homens Deus exerce autoridade absoluta, amoldando todas as coisas e todos os acontecimentos à semelhança do que o oleiro faz com o mesmo monte de barro amassado. Ver Rom. 9: 19 ss. Embora, erroneamente, quanto aos seus motivos, o suposto objetar, postulado por Paulo, expressou uma verdade inconteste: Pois quem jamais resistiu à sua (de Deus) vontade?" (vs. 19). Além de mandar na sua criação sem que alguém possa intervir nas decisões divinas, a Bíblia nos ensina que essa soberania é exercida tendo em vista galadoar a piedade e castigar a rebeldia. E o que se vê em trechos como o de Romanos II :22, que diz: "Considerai, pois, a bondade e a severidade de Deus; para com os que caíram, severidade; mas para contigo, a bondade de Deus, se nela permaneceres; doutra sorte também tu serás cortado". Isso nos permite chegar à conclusão de que Deus não age arbitrariamente, movido pelo capricho, quando determina todas as coisas segundo os ditames de sua soberana vontade.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag. 242.
O telsmo reinvindica possuir conhecimento; em outras palavras, declara que há evidencias conclusivas em favor da existência de Deus, suficientemente positivas para permitir-nos uma declaração em prol de sua existencia. Essas evidências nos chegam através da observação meramente empírica da grandiosidade e do designio aparentes neste mundo, através da intuição, através da razão e, sobretudo, através das experiências místicas, Outrossim, nossa experiência, fisica e espiritual, confirma para nós que Deus jamais abandonou ao seu universo, mas antes, continua bem próximo de nós, mantendo assim constante contaeto com os homens, no que visa o beneficio e o proveito eternos deles.
O trecho de Atos 17:24-31 apresenta elevadas expressões teistas. Deus, pois, é a fonte originária de toda a vida fisica e espiritual, e é o poder sustentador de ambos esses tipos de vida. Deus é a fonte de toda a forma de consciencia. Ele é a origem de todas as idéias morais, como também de todos os valores humanos. Deus é imanente em sua natureza, e não absolutamente transcendental. Ele é quem preserva todo o valor e a dignidade humanos. Finalmente, Deus é o Salvador e o Redentor do homem, aquele que se oferece para elevar o homem à vida divina, por intermédio de Cristo. Além disso, Deus é o Juiz de todas as suas criaturas inteligentes, morais, que as recompensa ou pune, de conformidade com a retidão ou a maldade de suas ações. Deus é o alvo de toda a existência. :E: a própria razão para continuarmos vivendo.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 100.
4. A libertação do Egito.
Êxo 20.2 Yahweh foi o autor do livramento de Israel da servidão ao Egito. O autor sacro alude à informação dada antes, nos capítulos primeiro a décimo sétimo, ou seja, os destrutivos prodígios das dez pragas, além do livramento no mar de Juncos (Êxo. 13.22). O Deus libertador também era o legislador. O povo de Israel, agora livre, entrava em um novo pacto, o pacto mosaico. O pacto mosaico foi o quinto dos pactos. Esse pacto deu início à quinta dispensação, a era durante a qual Israel tornou-se uma nação distintiva por causa de seu código legal superior e divinamente inspirado. Quanto à idéia que a lei mosaica exprime o caráter moral de Deus, cf. Lev. 11.44,45; 19.2.
Israel era o filho primogênito de Deus (Êxo. 4.22), e um filho precisa ter a mesma natureza moral de seu pai. Cf. a declaração de Jesus em Mateus 5.48: “Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste”. A Gratidão Requer Obediência. O povo libertado de Israel deveria reconhecer o ato libertador de Yahweh, correspondendo a isso mediante a obediência à lei mosaica. Vemos o mesmo conceito em Romanos 2.4, onde lemos que a bondade de Deus leva os homens ao arrependimento. Alguns intérpretes judeus faziam deste segundo versículo o primeiro mandamento.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 388.
Que te tirei da terra do Egito. Nos tratados de suserania do Oriente Próximo antigo, grande atenção era dada aos atos beneficentes do rei para com o vassalo. Desta forma, não é de se admirar que o pacto do Sinai fosse proclamado tendo este prólogo histórico que proclama a atividade redentora de Deus. Esta declaração é fundamental para numerosos aspectos do pensamento e da adoração israelita.
O êxodo foi a chave para a autocompreensão de Israel como povo, o seu conceito do Deus redentor, a concepção teocêntrica da História, bem como a sua vida contínua de adoração.
Comentário Bíblico Broadman. Editora JUERP. Vol i. pag. 486.
Te tirei da terra do Egito, e por isto mesmo provaram-me a ser superior a todos os deuses, ilimitado em poder, e mais gracioso, bem como temível em operação. Este é o prefácio ou introdução, mas não devem ser separados da ordem.
ADAM CLARKE. Comentário Bíblico de Adam Clarke.
II. O PRIMEIRO MANDAMENTO
1. Um código monoteísta.
O Decálogo é monoteísta e introduz essa doutrina no sistema mosaico que influenciou o pensamento teológico dos antigos hebreus, vindo a se culminar com a manifestação do Filho de Deus. O monoteísmo aqui era uma inovação, visto que as nações da época eram politeístas. A Mesopotâmia é o berço da civilização humana e o centro irradiador da idolatria. A terra do Nilo foi grandemente afetada por essa idolatria. E Israel e seus ancestrais tiveram vínculos com as culturas mesopotâmica e egípcia.
Abraão veio da Mesopotâmia e a nação de Israel se formou no Egito. Como nação, Israel seguia em direção à Terra Prometida, onde estavam os cananeus, idólatras como todos os seus vizinhos. A idolatria era a cultura predominante na época. Esse era o mundo religioso do Oriente Médio de então, com cultos envolvendo sacrifício de crianças e prostituição.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 27-28.
MONOTEÍSMO. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo são os três grandes expoentes dessa idéia da divindade. Segundo essa posição, existe apenas um único Deus, em sentido absoluto, não querendo isso dizer que ele é o nosso deus e que existem outros deuses de outros povos. Antes, somente um ser é o possuidor da divindade autêntica. É interessante observarmos que esse ensino foi antecipado ou mesmo parcialmente duplicado dentro da filosofia platônica, em seu conceito de bondade universal, como também no conceito do «intelecto puro», de Aristóteles. Essa doutrina é ensinada francamente na idéia de «Yahweh», segundo o judaísmo posterior, segundo a qual Deus é o Deus de todos, e não meramente da nação israelita. Na realidade, ele é o Deus de todos os universos, de tudo quanto existe, sem importar se pertence à categoria terrena ou celestial, humana ou angelical, material ou espiritual.
Ordinariamente as seguintes idéias são vinculadas ao monoteísmo:
a. Deus é um ser infinito ou absoluto. Daí a origem da introdução do vocábulo «omnis», em «onipotente», «onipresente» e «onisciente». Isso nos leva à suposição de que Deus é, em grau infinito, aquilo que experimentamos apenas em pequena medida.
Naturalmente os conceitos sobre a infinitude na realidade são negativos, porquanto não possuímos qualquer experiência sobre qualquer coisa infinita. Assim que alguém começa a tentar descrever o «infinito», por motivo de suas próprias descrições já começou a reduzir o infinito à mera finitude. Não obstante, temos fé suficiente para crer que apesar de nada realmente sabermos sobre a infinitude, e apesar de não possuirmos linguagem capaz de descrevê-la, podemos atribuir a qualidade da infinitude a Deus, supondo que aquilo que possuímos, de forma finita, ele possui em grau infinito. Discussões semelhantes ao raciocínio que aqui expomos mostram-nos quão pouco realmente conhecemos sobre Deus, visto que nossas descrições e nossa mentalidade não se prestam muito para descrever a natureza infinita de Deus.
b. Além disso declaramos que esse Deus possui tanto a vida necessária como a vida independente. Em outras palavras, Deus possui aquela forma de imortalidade verdadeira, que não pode deixar de existir. Esse é um dos pontos doutrinários mais exaltados do evangelho de João, onde há comentários nos trechos de João 5:26 e 6:57 no NTI. Todos os demais seres possuem uma vida que não é necessária, isto é, aquela variedade de vida que pode deixar de existir. No entanto, o ensino do evangelho de João é que Deus outorgou essa vida necessária a Jesus Cristo, como homem — e através dele, a todos os seres humanos que nele vierem a crer; e assim o homem pode tornar-se possuidor da imortalidade verdadeira, o mesmo tipo de vida que Deus tem e que caracteriza agora a vida do Senhor Jesus. Mas a vida de Deus é igualmente «independente», isto é, uma vida que existe por si mesma, sem depender de outra qualquer, para sua origem e continuação. Ora, os remidos, por intermédio de Cristo, por semelhante modo tornar-se-ão possuidores dessa «vida independente», que também caracteriza a verdadeira imortalidade.
c. Ordinariamente, o conceito do monoteísmo inclui a idéia de que Deus é o criador de todas as coisas, que somente ele existiu desde a eternidade, e que todo o resto da existência, sem importar se pertence à natureza física ou à natureza espiritual, se deriva dele. O conceito da criação, conforme aparece como idéia filosófica, não requer a introdução de um início absoluto; ou, em outras palavras, pode ser encarado no mesmo sentido em que dizemos que um objeto físico «cria» uma sombra quando exposto à luz. Nesse caso, a sombra realmente co-existe com o objeto, mas este último é a «causas» da sombra, ou seja, o «criador» da sombra. Por semelhante modo, no conceito da emanação (conforme ensinado pelo panteísmo estóico), embora a criação seja vista como parte integrante do criador, e, por isso mesmo, co-eterna com ele, contudo, ainda assim poderíamos falar em criação, pois Deus teria criado tudo emanando a si mesmo.
Não obstante, tanto o judaísmo como o cristianismo ensinam que os mundos físicos, juntamente com tudo quanto existe, tiveram início em um ponto do tempo, deixando somente Deus como eterno. Isso tem criado, para alguns, o pseudoproblema que indaga: «E o que Deus estava fazendo quando somente ele existia?» Orígenes, para resolver esse problema, supôs que a criação seria um ato eterno de Deus, de tal forma que nunca teria havido um tempo em que Deus esteve inativo. Mas outros estudiosos da Bíblia ensinam que o tempo pertence somente à criação, e que, por isso mesmo, antes da criação, não havia tempo. Ainda outros intérpretes, em busca da solução para esse problema, têm sugerido que a criação é eterna apenas como um conceito de Deus, isto é, existente na mente de Deus desde a eternidade. Todavia, a idéia ordinária, aceita pela maioria dos teólogos cristãos, é que Deus criou todas as coisas em um ponto inicial do tempo, mediante a sua própria energia, como que «do nada»; embora a criação, através da própria energia divina, com a qual Deus teria formado a matéria, baseado em princípios espirituais, não é realmente uma criação do nada. Quanto a outras notas expositivas sobre a «criação», ver Heb. 11:3 e João 1:1-3 no NTI. Ver também o artigo sobre Criação.
d. Como parte usual da teologia monoteísta avulta o conceito de que Deus é um ser pessoal, e não alguma força cósmica impessoal. Deus é um ser inteligente; e podemos saber algo a seu respeito mediante o exame do ser humano, — que foi criado à sua imagem. Mais perfeitamente ainda, podemos saber sobre Deus através do Senhor Jesus Cristo, que refletiu a sua glória, Deus é Espírito, no que faz contraste com a matéria, ainda que não saibamos no que consiste um «espírito», exceto que não pode ser compreendido em termos das coisas materiais. Além disso, Deus possui natureza emocional. Deus tem vontade e razão, de uma maneira infinita, ainda que, até certo ponto, o homem seja um reflexo dessas verdades, possuindo tais propriedades mais ou menos da mesma maneira que Deus as possui, posto que em grau muito menor. Por conseguinte, somos levados à conclusão de que Deus não é alguma força cósmica, remota, impessoal, sem qualquer consciência da existência do homem. Pelo contrário, é um ser vivo que tem todo o conhecimento dos homens, que os guia, que os castiga ou galardoa, segundo as suas ações, e que determina os eventos e o destino de cada ser humano. Ora, essa é a posição do «teísmo».
e. Ao Deus único, o Deus apresentado pelo monoteísmo, também atribuímos a qualidade da moralidade. Deus é bom, amoroso e santo, sendo o grande despenseiro da justiça. O seu amor, entretanto, não é da qualidade do «eros» ou amor erótico, sensual, e, sim. é «agape». um amor sem causa, sem começo e puro em seu princípio, consistindo em um interesse genuíno e eterno pelo bem-estar de todas as suas criaturas. Esse amor, outrossim, é independente, ou seja, não é cnado ou mantido por qualquer coisa existente no objeto amado; pelo contrário, devido à sua suprema natureza amorosa, Deus é quem dá corpo ao princípio da bondade e da justiça, não precisando indagar, de quem quer que seja, o que seria bom e o que não o seria. Assim, pois, Deus é o padrão final de todos os valores morais.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 4122-4123.
Êxo 3.3 Não terás outros deuses. Temos aqui a regra do monoteismo Neste ponto, o monoteismo substitui todas as outras possíveis noções de Deus. Todavia, não basta acreditar na existência de um Deus. Esse Deus único precisa ser reconhecido e obedecido como a autoridade moral de todos os atos humanos. Também só há um Deus no atinente à questão da adoração e do serviço espirituais. O Deus único merece toda honra. Isso labora contra o panteísmo e todo o seu caos. Este último adiciona muitas informações àquilo que comentamos aqui. Ver também Êxo. 23.13.
A nação de Israel estava cercada por povos que eram leais a um número impressionante de divindades. As pragas do Egito tinham mostrado que só Yahweh é Deus (ver Êxo. 5.2 e 6.7). Há uma profunda verdade na idéia que um homem só pode adorar a um Deus. Jesus abordou essa questão em Mateus 6.24. Os homens adoram aquelas coisas que lhes parecem importantes, incluindo o dinheiro. Há deuses externós e internos. Mas todos eles são deuses falsos.
Yahweh é um Deus zeloso que não tolera rivais (vs. 5; 34.14). Naturalmente, temos nisso uma linguagem antropomórfica. Divindades rivais seriam algo contrário ao caráter único de Deus. E um deus que não é único não é o verdadeiro Deus. Ver os vss. 22,23. A desobediência ao primeiro mandamento foi a principal razão dos cativeiros (ver a esse respeito no Dicionário) que, finalmente, Israel sofreu.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 388.
O primeiro mandamento: “Não terás outros deuses além de mim” (Êx 20.3), tem força especial contra esse pano de fundo e tudo que Moisés recontou dos tempos primevos e dos patriarcas. Esse mandamento não é tanto (nem mesmo principalmente) um argumento pelo monoteísmo, mas uma reivindicação do Senhor de exclusividade sobre Israel como o único Deus de Israel.” Sem dúvida, mesmo nessa época, a fé monoteísta fazia parte do dogma normativo hebraico (cf. Êx 9.14; Dt 4.35,39; 32.12,39), mas a intenção da proibição aqui era garantir que Israel dedicasse submissão integral ao Senhor em contraposição a todos as outras deidades reais ou imaginárias. O sentido literal do texto é: “Que não haja para você outros deuses em meu lugar”. Se as nações do mundo queriam crer em outras deidades e adorá-las, que fosse assim, mas Israel devia reconhecer só o Senhor como seu Deus.
Pode-se achar que fosse desnecessário dar essa ordem a Israel naquele momento decisivo de redenção e de concessão da aliança, mas isso seria interpretar erroneamente a predileção congênita da nação (e nossa) de procurar e adorar deuses inventados pelo homem. Os ancestrais patriarcais tinham lutado com essa questão (Gn 31.34; 35.2-5), e Israel não se comprometeria tão rápido com a aliança em vista aqui quanto se comprometeu com a construção de um bezerro de ouro, atribuindo a este a maravilhosa libertação do êxodo (Êx 32.4). Dessa época em diante — pelo menos até o retorno do exílio babilônio — Israel e Judá sucumbiram quase continuamente às lisonjas da idolatria pagã, assunto que documentaremos com detalhes.
Sem apresentar desculpas para Israel, é importante entender alguma coisa do ambiente cultural e religioso em que a nação veio à existência. As grandes civilizações do mundo do Oriente Próximo da Antiguidade, sem exceção, estavam mergulhadas em uma visão de mundo que explicava todos os fenômenos, naturais e sobrenaturais, como manifestações aleatórias de incontáveis deuses e deusas, os quais tinham de ser apaziguados a fim de que não descarregassem sua vingança sobre a humanidade ou deviam ser induzidos por vários meios a trazer fortuna e bem-estar para o homem.12 Abundância ou necessidade, saúde ou doença, paz ou guerra, vida ou morte — todos dependiam do capricho de seres poderosos que, de alguma maneira, deviam ser invocados ou apaziguados a fim de que a vida trouxesse alguma satisfação. Israel vivia nesse mundo, tendo chegado a algum sentido de um Deus verdadeiro e vivo só por meio da graça deste em afastar Abraão do paganismo sumério e em pôr a ele e seus descendentes para amadurecer em uma relativa incubação em uma Canaã muitíssimo desabitada e em uma parte isolada do Egito. Mas a remoção total daquele mundo era impossível, e Israel viu-se presa nas contra-correntes da vida cultural e religiosa da época e, mais uma vez, levada ao limiar do desastre espiritual até que, por fim, foi para o exílio assírio exatamente por causa de sua infidelidade à aliança em seguir outros deuses (2Rs 17.7-22).
Não obstante, Israel ter experimentado a provisão de Deus de proteção e do êxodo redentor, seria imensa a tentação da nação em um mundo largamente governado pela ligação de causa e efeito na atribuição de bênção por parte dos deuses da natureza. Portanto, o mandamento para não ter outros deuses não é um princípio teológico enunciado nos seguros limites da abstração acadêmica, mas afeta a vida e o pensamento diários. Ater-se a esse mandamento exigiria recursos que estavam além da capacidade de meros seres humanos; desobedecer- lhe, por sua vez, provocaria a mais severa punição; pois ter outro deus que não o Senhor seria um ato, da mais alta magnitude, de infração e de deslealdade com a aliança.
Eugene H. Merrill. Teologia do Antigo Testamento. Editora Shedd Publicações. pag. 324-326.
2. Idolatria do Egito.
As Religiões do Egito
1. História envolvida e caracterização geral. A história da religião, no antigo Egito, começa paralelamente à sua história secular, ou seja, em 3000 A.C., e, então, continua até o advento do islamismo (após 642 D.C.). Somente então podemos falar em termos do Egito medieval e do Egito moderno. Talvez somente na época do monoteísmo de Aquenaton (1372-1354) tenha havido qualquer coisa parecida com um movimento unificador na religião; mas, mesmo assim, foi um esforço de pouca duração, imposto de cima para baixo. Em tudo o mais, a religião egípcia era pluralista, estando envolvida em desenvolvimentos e práticas de cunho local, pois cada localidade tinha seu próprio deus, seu sacerdócio e seu culto religioso.
2. Características mais antigas. Muitas culturas seguem as mesmas diretrizes gerais. As primeiras divindades são sempre personificações das forças da natureza, como o sol, as estrelas, certos animais como o touro, o falcão, o crocodilo, ou então o trovão, o relâmpago, os poderes infernais (estes últimos sugeridos pelas atividades vulcânicas), a força das tempestades, dos ventos, da chuva, etc. Depois disso aparecem os espíritos dos mortos ou outros espíritos, que inspiram o terror nos homens, e os levam a adorá-los. A necessidade das colheitas, para a continuação da vida, fornecem aos homens seus deuses e deusas da fertilidade, e o desejo pelos prazeres é a inspiração dos deuses e deusas da alegria e da fertilidade. Acrescente-se a isso a inevitável atividade antropomórfica, que faz deuses e deusas serem concebidos em termos de seres humanos, embora ampliados, mas que têm virtudes e vícios melhores e piores do que as virtudes e vícios dos homens.
3. Divindades protetoras. Antes que Menes unificasse o Egito sob o seu governo, o país estava dividido em dois reinos (o Alto e o Baixo Egitos). Subseqüentemente, foi dividido em distritos, bem como em um certo tipo de cidades-estados. Cada cidade ou distrito contava com seu deus protetor ou patrono. Alguns dos deuses mais importantes eram os seguintes:
Anúbis, de Cinópolis, um deus com cabeça de chacal, que era o deus dos mortos. Atom, de Heliópolis, mais tarde identificado com o deus-sol Rá (que vide). Bastete, a deusa-gata de Bubástis. Hator (que vide), a deusa- vaca de Denderá e de Afroditópolis. Horus, o deus - sol, em forma de falcão, de Bedete. Edfu, o deus real do Egito. Khnum, o deus com cabeça de carneiro de Elefantina, que também era adorado sob a forma da catarata existente na região. Khonsu, o deus-lua de Tebas. Min, o deus-peixe fálico de Cóptos. Akhmim, um deus agrícola. Montu, o deus da guerra de Hermontis e que tinha cabeça de milhafre. Amom, o deus do carneiro sagrado, que substituiu a Montu, em Tebas. Neite, a deusa de Sais e de Esna. Necbete, a deusa corvo de El-Kab. Ptá, o deus-boi de Mênfis, que era considerado o patrono especial dos artistas. Sebeque, o deus-crocodilo de Fayum e de Kom Ombo. Tote (vide),—o deus com cabeça de íbis de Mermúpolis, que, supostamente, teria inventado a arte da escrita e que era o santo patrono da erudição e que era também representado pelo babuíno!
Os deuses animais patronos, no Egito. Além de adorarem deuses que eram representados por seres animalescos, os egípcios também adoravam diretamente a certos animais. Assim, havia ápis (vide), um touro negro com manchas brancas, adorado em Mênfis Mnevis, um boi de cor clara, que era o deus de Heliópolis. Havia ainda outros deuses-boi, relacionados a outras localidades egípcias. Outros animais sagrados, formando uma lista difícil de nela acreditarmos, incluíam o babuíno, o musaranho, o cão, o lobo, o chacal, o gato, o leão, o hipopótamo, o carneiro, a vaca e vários pássaros, como o abutre, o gavião e o ganso. Também não nos devemos esquecer da serpente, considerada uma divindade em muitos lugares do Egito. Até mesmo insetçs, como o escaravelho, vieram a fazer parte do panteão egípcio. É curioso, todavia, que a adoração direta a certos animais não garantia aos mesmos uma longa vida, conforme se dá na índia, no caso da vaca sagrada, que ninguém toca. Muito pelo contrário, os egípcios comiam o boi sagrado.
Apesar desse costume, os túmulos dos bois sagrados, em Sacara, encontram-se entre os mais impressionantes túmulos do Egito. O gato, por sua vez, era um animal considerado sagrado e muitos gatos mumificados têm sido encontrados naquele país. Ver o artigo separado sobre o Gato.
O deus-chacal, Anúbis, tinha a tarefa especial de proteger os espíritos dos mortos que vagueavam, no após-vida. Também havia cáes de guarda para os vivos e o grande Cão de Guarda para os mortos! A imaginação dos homens mostra-se ridícula, para dizermos o mínimo.
Deuses que eram forças da natureza. Entre esses havia Rá, o sol; Hapi, o rio Nilo; Num, o oceano; Sou, o ar; Tefnute, o orvalho; e Gebe, a terra.
4. Movimento de unificação da V Dinastia e outras unificações. Os teólogos de Heliópolis, nesse tempo (2560-2420 A.C.), identificaram sua divindade local, Atom, com o deus-sol, Rá. Isso deu origem a uma espécie de religião nacional, embora não tivessem sido eliminados os muitos deuses locais, o que se evidencia pelas muitas divindades descritas antes. Antes mesmo desse tempo, porém, tinha havido outras unificações, como quando Sete e Ombos tornaram-se divindades especiais no Alto Egito, e Horus tornou-se outro tanto, no Baixo Egito. Em uma outra ocasião, a deusa corvo, Necbete, do Alto Egito, obteve proeminência maior que a de outros deuses, e o deus- serpente, Buto, tornou-se muito importante no Baixo Egito. Posteriormente, Horus foi identificado com Atom-Rá-Haracte, de Heliópolis. E foi então que se tornou a divindade real dos Faraós, conferindo-lhe grande proeminência no panteão egípcio.
5. Amenopofis IV (Icnaton, 1375-1358 A.C.), da XVIII Dinastia, promoveu a causa do monoteísmo, tendo negado o poder de deuses solares, como Amon, que haviam recebido a lealdade de cidades como Tebas. Esse Faraó opôs-se abertamente à casta sacerdotal de Amom, fazendo com que Atom-Rá-Haracte se tornasse o único deus - sol do Egito. Os estudiosos referem-se a Aten como o nome do deus que resultou dessa consolidação. Outros deuses foram proscritos no Egito, embora, aparentemente, continuassem sendo reconhecidos como entidades. Portanto, temos então muito mais o fenômeno do henoteísmo do que o fenômeno do monoteísmo dos hebreus, e também diferente do fenômeno do politeísmo pagão, embora, na prática, tivesse sido estabelecido no Egito, um monoteísmo de breve duração. Todavia, essa adoração unificada não contava com qualidades morais especiais, conforme se verificou no monoteísmo hebreu. Aten era retratado como um criador benévolo, como sustentador da vida. É curioso que Aquenaton tenha se casado com a sua própria filha, embora isso não tivesse resultado de qualquer convicção religiosa, pois outros Faraós haviam feito a mesma coisa. Esse Faraó é que tem sido visto, nas visões de místicos modernos, como o progenitor do anticristo (biológico ou espiritualmente, ou ambas as coisas?)
6. Osiris. a. Pano de fundo. Os primórdios desse culto podem ser encontrados no Antigo Reino Egípcio, bastante anterior à época de Abraão e dos patriarcas de Israel. Toda uma família de deuses desenvolveu-se em torno de Osiris, o que incluía um culto muito elaborado. No entanto, nos primeiros dias do Reino Antigo, essa família divina ainda não havia sido imaginada. Ao que parece, o próprio Osiris a princípio fora o deus Nilo de Busiris, no Delta. Em tempos remotos, Osiris, ísis, Horus e Sete tinham sido divindades tribais independentes. Horus acabou sendo adorado em companhia dela, considerado seu filho. Sete era adorado como uma espécie de figura divina igual a Horus. Osiris, quando unido a essa família, tornou-se o esposo de ísis. Com a passagem do tempo, — Sete deixou de ser igual a Horus, e acabou sendo o irmão mau de Osiris. Então Osiris tornou-se o pai bom, Horus tornou-se o filho bom, e ambos faziam oposição a Sete. É deveras curioso que alguns teólogos mórmons supõem que Satanás é um irmão desviado do Filho e que tanto o Filho quanto o Pai agora se opõem a Satanás. Assim, apesar das relações serem diferentes, a idéia é idêntica: uma família de deuses na qual um dos membros erra e sofre oposição. Além disso, Osiris veio a ser imaginado como irmão de ísis, que se casou com ela, de acordo com um antigo costume entre os egípcios. Sete também tinha uma irmã, chamada Nebate, que se casou com ele. Mas, em algumas representações, Osiris teria uma segunda esposa, essa mesma Nebate, que tinha um filho divino, Anpu, ou Anúbis.
b. Osiris era o deus dos mortos, o que explica a grande proeminência dessa divindade na teologia egípcia. Para uma egípcia, a felicidade eterna dependia de ser ela favorecida e transformada por Osiris. Seu nome veio a tornar-se um sinônimo virtual de bem-aventurado. O reino de Osiris era descrito em termos vagos e indistintos; mas, antropomorficamente, de tal modo que o após - vida era visto essencialmente como uma existência análoga à do mundo presente. O famoso Livro dos Mortos, até hoje existente em várias traduções, era o roteiro para alguém chegar ao reino de Osiris. Uma cópia desse livro com freqüência era deixada nos túmulos, a fim de guiar os mortos e servir-lhes como uma espécie de amuleto. Osiris atuava como um juiz. Cada alma era pesada em comparação com a verdade e era submetida a um longo questionário referente, principalmente, àquilo que alguns chamariam de pecados mortais. Se uma alma fosse aprovada entrava na felicidade eterna. Se fosse rejeitada, ela seria expulsa sob a forma de um porco, para alguma sorte desconhecida.
c. Osiris e a ressurreição. Os mitos que circundavam essa família de deuses inclui a idéia de que Osiris foi assassinado por Sete. Horus, porém, conseguiu reunir os pedaços de seu corno desmembrado, para restaurar o seu corpo à vida. Portanto, temos aí a curiosa doutrina do filho que ressuscitou ao pai, o contrário da ressurreição de Jesus Cristo, no Novo Testamento. Naturalmente, outras religiões antigas também contavam com histórias de ressurreições, pelo que não há nenhuma conexão direta entre Osíris e o Novo Testamento, excetuando aquela esperança que os homens sempre tiveram de que a morte, de alguma maneira, pode ser derrotada mediante algum ato divino. No relato da ressurreição de Osíris, também há o paralelo com o cristianismo de que essa mesma vida pode ser dada aos homens, sob a condição deles seguirem pela vereda espiritual. Em algumas versões, quem ressuscita a Osíris, após seu assassinato, não é o filho dele, Horus, e, sim, a sua esposa, ísis.
d. O submundo e o céu . Osíris, antes de tudo, era o deus do submundo, das regiões infernais. Em tempos posteriores, entretanto, ele passou a ser imaginado como um habitante dos lugares celestiais, onde se encontraria sentado em um trono, para julgar todas as coisas.
e. Faráo e Osíris. Isso envolve uma doutrina de filiação, visto que o Faraó era tido como filho de Osiris, ou seja, divino por seu próprio direito. O conceito do rei divino exercia grande poder sobre a política e a religião do Egito.
f. A imortalidade obtida por Osíris. Um aspecto da teologia egípcia que circunda a figura de Osíris diz que ele mesmo obteve a imortalidade mediante obras piedosas, e através de ritos religiosos apropriados. Quão parecido com a doutrina católica romana! O sacerdócio que servia a Osíris é retratado como os preservadores da fórmula para a obtenção da imortalidade. Eles exortavam os homens a seguirem o exemplo deixado pelo próprio Osiris, para poderem obter o mesmo tipo de vida que ele teria obtido. Há nisso, igualmente, um curioso paralelo com a doutrina mórmon, que diz que o próprio Deus, no passado distante, foi um homem como qualquer outro, mas obteve a sua augusta posição e natureza através da obediência perfeita às leis divinas superiores.
g. Adaptações romanas. Nos tempos dos romanos, Osíris e ísis foram unidos como as divindades protetoras de certa religião misteriosa que falava sobre um deus que morrera, mas foi trazido de volta à vida.
h. Proeminência de Osiris e fsis. A adoração que circundava Osiris e a sua família tornou-se tão dominante nos tempos helénicos que os visitantes gregos do Egito, como Heródoto (ver II.42), tinham a impressão de que Osíris e Isis eram as únicas divindades nacionais do Egito. Os estudiosos das religiões do mundo supõem que essa popularidade devia-se à ênfase sobre a imortalidade alcançável que esse culto prometia aos homens. De fato, a maioria das pessoas tem a esperança de sobreviver à morte, encontrando uma vida imortal melhor do que a vida atual.
i. Unificações. Quando Osíris se tornou o fator principal da fé egípcia, esse deus começou a incorporar em si mesmo as funções e poderes de outras divindades locais. Ele absorveu deuses anteriores do submundo, como Khentamentiu, o deus com cabeça de cão de Abidos, Ptá-Socar, de Mênfis, e Gebe. Visto que os mitos afirmavam que seu corpo fora desmembrado, vários santuários afirmavam possuir algum pedaço de seu corpo. Entretanto, sua cabeça estaria guardada em um certo túmulo, em Abidos. Ali, esse alegado túmulo era exibido aos visitantes, pelo que o local tornou-se um dos principais centros desse culto. O paralelo católico romano, que envolve relíquias e ossos de santos, nem precisa ser comentado. O deus Anúbis, com cabeça de chacal (um dos filhos de Osíris), era quem teria a tarefa de dar as boas vindas às almas, levando-as ao trono de julgamento.
7. Algumas Formas religiosas. — Essas formas variavam de uma região para outra. A descrição sob o terceiro ponto, Deuses Protetores, sugere a grande variedade de formas de adoração do Egito. Antes de tudo, temos uma fantástica idolatria, que representava as divindades sob uma variedade quase interminável de figuras.
Em segundo lugar, havia castas religiosas que cuidavam dos templos, com ritos os mais elaborados. Os deuses eram sen/idos com libações (líquidos) e com alimentos sólidos. A vida após-túmulo era retratada como um estado onde as pessoas trabalhavam, pelo que pessoas proeminentes teriam escravos, os quais eram mortos e sepultados juntamente com eles, para garantir que continuariam sendo servidos do outro lado da existência. Alguns eruditos pensam que sacrifícios humanos eram comuns no Egito, embora as evidências quanto a isso não sejam conclusivas. Em tempos posteriores, em vez de serem sepultados pessoas reais, bastavam estátuas representando as mesmas, pelo que a morte só envolvia os mortos.
Amuletos e encantamentos. Não havia fim desses objetos entre os egípcios, que chegaram até nós desde os tempos mais remotos. Os amuletos incluíam objetos como olhos sagrados de cavalos, imagens de deuses, cabeças de chacal, vespas e outros insetos, todos os quais teriam propriedades mágicas e divinas.
O culto a Osíris oferecia alguns fatores interessantes. A adoração efetuada nos grandes templos incluía a veneração pessoal dos deuses. Uma parte dessa veneração incluía o ato de alimentá-los (simbolicamente, através de sacrifícios). Além disso, os ídolos que os representavam eram grandemente ornamentados. Esses serviços pessoais usualmente cabiam aos sacerdotes de cada culto. Em dias de festa religiosa ou de observância cúltica, a imagem do deus (escondida por algum véu ou cortina, para dar uma aura de mistério à coisa) era transportada em uma procissão. Quando surgiu o cristianismo, o paganismo, com suas antigas formas religiosas, sofreu um retrocesso; mas, com o tempo, o paganismo ressurgiu, sob a forma de doutrinas e cerimônias, primeiramente fora da cristandade, até 390 D.C., mas, pouco a pouco, como parte do culto cristão. Nos dias de Teodósio I, foram fechados os grandes e antigos templos pagãos. A religião pagã havia percorrido um longo caminho no Egito, e agora uma nova fase da história da religião haveria de começar.
8. A natureza e o destino da alma. A grande pluralidade envolvida na religião, no Egito, naturalmente produziu muitos conceitos sobre a alma. Alguns aspectos são dignos de menção, embora tudo quanto se diga não represente uma doutrina unificada. Um corpo embalsamado presumivelmente poderia ressuscitar, tornando-se, novamente, um veiculo da alma. O ká, ou seja, o congênere do corpo físico, ou o seu fantasma, teria início quando do nascimento do corpo, era imortal e ficava a vaguear após a morte do corpo físico. Não se pode duvidar que essa doutrina foi inspirada por experiências com fantasmas e formas espirituais, que, algumas vezes, podem ser vistas, até com certa freqüência, por algumas pessoas. O ká era associado a um outro elemento formativo do complexo humano, chamado de khaib ou «sombra», simbolizado pela sombra da pessoa à luz do sol. Esses dois elementos, segundo se concebia, estariam vinculados ao corpo material e mesmo em algum sentido também material. Todavia, também haveria elementos imateriais no complexo humano, que incluíam o bá, a verdadeira alma, simbolizada por uma ave com cabeça humana e que voaria para dentro e para fora do túmulo da pessoa morta. Naturalmente, a ave é um símbolo universal da imortalidade, um dos arquétipos do espírito, dentro da psique humana. O bá dos monarcas era simbolizado pelo falcão. Também haveria o khu, ou glória, que seria o espírito, representado pelo pássaro de crista. E também haveria o ab, simbolizado por um coração. Igualmente havia o sekhem, ou força; e, finalmente, o ran, ou nome. Porém, exatamente como esses diversos elementos se combinavam ao bá, de acordo com o pensamento egípcio, e até que ponto seriam meros sinônimos de uma mesma coisa, não é muito claro.
Relação entre e Ká e o Bá. Esse é um ponto interessante, porquanto os estudos mais recentes demonstram a existência de um fantasma aparentemente semimaterial, ou vitalidade, em contraste com o corpo físico, que é verdadeiramente material. Isso posto, o homem seria composto, pelo menos, de três níveis de energia: o corpo físico (material); a vitalidade (semimaterial); e o espirito, ou alma (imaterial). Também há provas incipientes de que o homem real é o superego, um ser semelhante ao anjo guardião do pensamento cristão. Nesse caso, o verdadeiro ser humano seria um poder elevadíssimo (semelhante aos anjos, abaixo dos quais os espíritos humanos foram postos, temporariamente, conforme se vê em Salmos 8:5 e Hebreus 2:7), capaz de manipular tanto a alma quanto o corpo, quando se trata de aprender alguma coisa. Seja como for, o contraste entre o ká e o bá também pode ser observado em alguns escritores gregos, embora não com esses nomes e nem de forma sistemática e coerente. Mas, pelo menos, fica esclarecido que o ká é o responsável por algumas formas de aparições fantasmagóricas e, talvez, das manifestações de poitergeist (que vide). Também pode estar por detrás de certos fenômenos associados às sessões espíritas ou de mediunidade. Já o bá, ou alma verdadeira, é uma outra questão; e, algumas vezes, tem contacto com os homens mortais.
Idéias Simples. De acordo com os egípcios, após a morte física, a alma ficaria pairando por sobre o túmulo da pessoa sepultada, exigindo alimentos e bebidas, uma idéia compartilhada por muitos outros povos antigos. Isso deu origem a vários ritos religiosos, mediante os quais homens mortais cuidariam de almas imortais. Em tempos posteriores, oferendas reais foram substituídas por ofertas simbólicas, sob a forma de desenhos ou pinturas, nos túmulos. Se esses sacrifícios não fossem realizados, a alma tinha de depender da deusa árvore, a fim de receber nutrição. Essa deusa viveria nas árvores existentes nos cemitérios e nas áreas onde havia túmulos, pelo que sempre havia tal deusa, com esse propósito. Por qual motivo os homens gostam de sepultar seus mortos em áreas arborizadas, até em nossos próprios dias? Porventura alguma memória antiga da raça chegou até nós? Ou simplesmente associamos a árvore à vida física, pelo que sentimos um certo consolo, ao depositarmos os corpos de nossos mortos sob a sombra das árvores? O bá, segundo os egípcios, podia entrar ou sair de um túmulo, à sua vontade.
Em tempos posteriores e mais sofisticados, os egípcios supunham que a alma iria a juízo, na presença de Osíris, podendo participar de sua bem-aventurança, se fosse aprovada por ele. Da mesma maneira que Osíris conseguira atingir uma feliz imortalidade, outro tanto poderia ser feito pela alma. E, visto que um rei podia tornar-se divino, é seguro supormos que o ensino egípcio posterior dizia que as almas humanas que são aprovadas em juízo, passam a participar da natureza divina, embora eu esteja especulando quanto a isso. O que é inegável é que a imortalidade era um aspecto importante da adoração a Osíris, tendo sido o elemento responsável, pelo menos parcialmente, pela popularidade que o culto a Osíris contava entre as massas populares do Egito.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 4196-4199.
A RELIGIÃO EGÍPCIA
A. Os deuses dos egípcios. Fundamentalmente a religião egípcia estava bem situada em suas práticas e horizontes. Os egípcios em cada distrito tendiam a adorar as suas deidades locais, principalmente, ao invés de algumas grandes figuras de importância nacional ou cósmica. Como era comum, no caso do paganismo antigo, os deuses do Egito eram, em grande parte, personificações de poderes da natureza (e.g. fertilidade), de fenômenos naturais (e.g., o Nilo) e seus supostos atributos (e.g., os deuses falcão, boi, etc.). Alguns eram cósmicos (deus sol), e alguns eram personificações de certos conceitos (e.g., Maat, deusa da “verdade” e da ordem).
Enquanto que vários animais, plantas, etc. eram respeitados símbolos de poderes naturais e forças misteriosas, ao mesmo tempo eram manifestações dos deuses, e mesmo como veículos de sua presença — uma característica que veio a ser compartilhada pelas estátuas e outras imagens, e por animais sagrados (como o boi de Apis em Mênfis, por exemplo). Isto afetou as representações dos deuses na arte. Tão cedo quanto o período do Reino Antigo, os deuses vieram a ser compreendidos em forma básica de humons. Alguns, como Ptá Osíris, eram mostrados em uma forma inteiramente humana. Outros, por um tipo de iconografia abreviada, apareciam em forma humana, exceto por suas cabeças que geralmente eram de animais conectados com as deidades respectivas. Anúbis aparece com a cabeça de chacal, Sobk com a de um crocodilo, Hóms e Rá geralmente com a de um falcão, Tóte com a de aves, etc. As vezes, eles podiam aparecer em mais de uma forma: Ainon de Tebas tinha geralmente aparência puramente humana, mas poderia ter uma cabeça de carneiro.
Entre os deuses locais, Amon de Tebas representava os poderes escondidos da natureza, e seu parente próximo era Min de Coptos que personificava a virilidade e a fertilidade, especialmente humana e animal. Em Mênfis, Ptá, era o artífice o Vulcano egípcio, o patrono dos artesãos, enquanto que Sokar era um deus local da morte e da vida nova (logo identificado com Osíris). No Médio Egito, Tóte era um deus da sabedoria e das letras, e era conectado com a adoração da lua. Mais para o sul, Hathot de Dendera era uma deusa do amor. A deusa Bast de Bubastis e Sekhme em Mênfis, respectivamente, representavam poderes beneficentes e da ameaça de pestilência, entre outras coisas.
Entre os deuses que tinham grande impacto, além de uma influência local, Rá e Osíris foram muito mais importantes. Rá, o deus do Sol (q.v.) tinha o seu culto centrado em Heliópolis (On). Ele logo tomou-se bem associado com o reino, alcançando domínio teológico no estado na 4- e 5- dinastias (Veja Pirâmide), superando Ptá de Mênfis, a capital administrativa. O seu culto também afetou as formas do culto no templo egípcio em geral. Seu impacto na monarquia é indicado pelo título “Filho de Rá” adotado por quase todos os Faraós da 5- dinastia até o período romano, totalizando uns 3.000 anos. Na 18â dinastia, Aquenaton tentou fazer uma forma especial de adoração do Sol como a única religião do Egito. Rá também afetou a vida no mundo vindouro — os mortos poderiam navegar os céus pelo dia com ele em seu barco sagrado, e também de noite pelo mundo dos mortos, se levantando diariamente com ele no horizonte leste. Durante o Reino Antigo, a elevação de Osíris deu uma alternativa depois da morte, e em dias posteriores (no Novo Reino), havia até uma construção teológica de Rá e Osíris como o sol nascente do dia e o sol noturno precedendo o novo nascimento, respectivamente.
A adoração de Osíris talvez chegou o mais perto de uma religião universal no Egito, antes do impacto do Cristianismo. Ele era um deus funerário que tomou-se identificado com Khentamentyu (“Chefe dos Ocidentais”), no Reino Antigo, que era o deus funerário local em Abidos no Alto Egito, um lugar santificado muito tempo antes das tumbas dos primeiros reis. Osíris era o senhor do mundo dos mortos e da vida além, que foi modelada parcialmente pelo Egito terreno — neste lugar os seus seguidores poderiam plantar e colher abundantemente e apreciar os prazeres previamente tidos na terra. Ele prometia uma contínua existência neste mundo além, e também se tomou identificado com o Nilo que com sua cheia anual trazia nova vida à terra. Um aspecto importante deste culto era a sua natureza “familiar”. A sua esposa era a deusa Isis, de um eficaz caráter como esposa e mãe de Fíórus que vingou seu pai e suplantou seu inimigo Sete, na mitologia. Aqui o Egito encontrou uma religião que oferecia algo depois da morte em termos que atraíam tanto aos homens como as mulheres. Aceito nos Textos de Pirâmide no Reino Antigo, o triunfo de Osíris foi completo desde o advento do Reino Médio, c. 2000 a.C. e Abidos tomou-se uma das mais sagradas e famosas cidades do Egito. Centenas de monumentos memoriais de pedras esculpidas nos museus do mundo (especialmente Cairo) exumados das areias nos últimos séculos dão um testemunho mudo ao desejo de inúmeros egípcios de ter seus nomes na presença do “grande deus”. No último período, a influência de Osíris em outros cultos foi muito enfatizada. Mesmo o grande deus imperial, Amon de Tebas na 21 - e 263 dinastias viu seu limite em Kamak pontuado com vinte ou mais santuários de várias formas de Osíris. Ainda mais tarde, o culto de Osíris (especialmente como Serapis) e a religião de Isis penetraram o mundo greco-romano, e a religião de Isis competiu com Mithras e com o cristianismo primitivo, alcançando a Europa e império romano. O deus Nilo, Japi, foi também venerado por todo o Egito, e em todos os períodos (especialmente em relação a agricultura), mas ele nunca recebeu grandes templos. Sua adoração foi mais freqüentemente marcada pelas cerimônias sazonais à margem do rio, as de Mênfis e Heliópolis (mais tarde no Cairo) sobrevivendo mesmo nos tempos modernos (a “Noite da Queda” na tradicional festa do início da cheia anual do Nilo).
No entanto, além dos cultos locais e deuses como Rá e Osíris, com um apelo mais amplo que durou milênios, a história da religião do Egito mostra também o desenvolvimento e o declínio de outros deuses, condicionado pelas mudanças políticas. Sob o domínio das dinastias mais antigas, o Reino Antigo, Ptá de Mênfis teve uma importância central na cidade, mas então foi ofuscado por Rá, deus sol. A teologia menfita desta época provavelmente representa a reivindicação de Ptá (contra Rá) pelo papel de deus supremo e criador de tudo. No final do Reino Antigo, Osíris estava ganhando tanto terreno a ponto de invadir o domínio de Rá, i.e., da teologia real; e como foi notado acima, deu aos egípcios uma poderosa esperança para a vida além, desde o Reino Médio em diante, tanto que no Reino Novo, a acomodação teológica mesmo conformou Rá e Osíris como se fossem formas diferentes do mesmo deus. Amon de Tebas ilustra bem a flutuante fortuna do deus e de sua cidade. Sua importância surgiu primeiramente quando no reino Médio ele tomou-se Amon-Rá (com um escopo mais universal) e foi favorecido pela 12- dinastia. Era originário do sul do Egito. Foi somente com os Faraós todo-poderosos de Tebas na 18- dinastia que Amon, deus das forças ocultas da natureza, tomou-se também rei dos deuses e virtualmente deus do império, com os maiores templos jamais vistos. No entanto, a desproporcional proeminência de Amon e seu sacerdócio foram sentidos no estado como uma ameaça pela monarquia, culminando na deposição de Amon e de outros deuses em favor do deus sol por Aquenaton. No entanto, o monoteísmo solar de Aquenaton foi superficial e (como notado acima) concentrou-se grandemente na beneficência e na força sustentadora do sol na natureza; não teve tom moral ou base filosófica. O título “vivendo na verdade" (Maat) refletiu meramente a reivindicação de Aquenaton de que o seu caminho, e não o de outros deuses antigos, era a verdade da ordem certa do cosmos. Não há aqui uma fonte adequada para o monoteísmo social e a moral enfática de Moisés ou do pacto do Sinai.
Na 19a e 20 dinastias, o lado de Ramsés conteve o poder de Amon favorecendo-o como um da trindade de deuses: Amon de Tebas, Rá de Heliópolis, e Ptá de Mênfis. Um ou dois textos extraordinários mesmo que sincretisticamente procuram identificar os três deuses como aspectos de uma grande deidade (conforme e.g., Gardiner, Hieratic Papyru in the British Museum, 3 séries, 1 [1935], págs. 28-37) um fato que mostra um alto nível de pensamento religioso e especulações já no séc. 13 a.C.
À luz disto, o monoteísmo revelado do AT não precisava esperar até depois do exílio babilónico para ser manifestado ou formulado. No Período Posterior (conforme citado acima), a fama externa de Amon de Tebas cresceu com o eclipse do Império, Ptá similarmente reiniciou o papel principal de artificies locais — deus de Mênfis, e Rá continuou tradicionalmente como parte da teologia real — Osíris e Isis com seu filho Hórus ganharam uma maior popularidade geral, enquanto que os deuses e deusas do Delta receberam mais proeminência com a aquisição das cidades do Delta sob o governo dos reis do Egito Baixo nas dinastias posteriores.
Finalmente, o próprio Faraó deve ser reconhecido entre os deuses. Ele era seu representante na terra, e entre os egípcios era um homem que mexia com o mundo dos deuses. O rei vivo era tido como Hórus, e o morto como Osíris; um novo rei recebia um direito de sucessão que não se podia desafiar, ao menos parcialmente por virtude de dar-se o apropriado enterro ao seu predecessor de modo filial como fez Hórus por Osíris (veja Faraó).
MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 2. pag. 332-335.
3. Como Israel preservou o monoteísmo de Abraão?
A IDOLATRIA DO MUNDO ANTIGO
Abraão nasceu em Ur dos caldeus, cidade da Mesopotâmia (Gn 11.27-31). Seus ancestrais serviam a outros deuses (Js 24.2,15). A localização geográfica é a Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque. Os babilônios adoravam a diversos deuses, que eram personificações da natureza, como Sin, o deus-sol de Ur e Harã; Istar, a deusa do amor e da guerra; e Enlil, deus do vento e da terra. Bel era o nome de outra divindade (do acádico, belo, "senhor"), equivalente a Baal, deus dos cananeus. Com o tempo, Bel veio a ser identificado como Marduque ou Merodaque, o patrono da cidade de Babilônia, que se tornou o principal deus no panteão babilônico (Is 46.1; Jr 51.44). Os assírios adoravam, entre outros deuses, a Adrameleque e a Nisroque (2 Rs 17.31; 19.37; Is 37.38).
Os textos hieroglíficos das pirâmides enumeram cerca de duzentos deuses e relatos mitológicos. Os antigos egípcios empregavam o termo Ta Neteru, "terra dos deuses", para o seu país. Havia uma proliferação de deuses e templos no Egito, e cada grande cidade contava com suas tríades de acordo com as dinastias: em Ábidos, Osíris, ísis e Hórus; em Mênfis, Ptah, Sekhmet e Nefertum, e, em Tebas, Amom, Mut e Khonsu. O templo do sol, bêth shemeshp em hebraico, "casa do sol" ür 43.13), é termo traduzido por "Heliópolis" na LXX, vindo do grego, hêliou póleõs,24 "cidade do sol". Não confundir com a cidade de Bete-Semes, em judá (2 Rs 14.11). Aqui se trata da antiga cidade egípcia de Om, seu nome hebraico, ou Heliópolis, em grego (Gn 41.45, 50 LXX). A cidade era dedicada ao deus-sol, conhecido também como Rá; é a atual Tell el Hisn, 16 km ao nordeste do Cairo.
Os cananeus adoravam a Baal (Jz 6.31), Baal-Berite (Jz 8.33). Seu plural é baalim. Baal era também conhecido pelas cidades onde eram cultuados: Baal-Peor, da cidade de Peor (Dt 4.3; Os 9.10), Baal-Meom, da cidade de Meom (Nm 32.38; Ez 25.9) e Baal-Zefom (Nm 33.7). Astarote ou Astarte (Jz 10.6), identificada em nossas versões como "postes sagrados", deusa cananeia da fertilidade" era deusa nacional dos sidônios (1 Rs 11.5, 33). Aparece como "bosque" na Versão Almeida Corrigida, "poste-ídolo" na Atualizada, e "Aserins" na Tradução Brasileira. São os ídolos de madeira e de pedras (Jr 3.9; Dt 4.28). A madeira simbolizava a fertilidade feminina, a deusa Aserá, mãe dos deuses cananeus; e a pedra representava a fertilidade masculina na religião dos cananeus.
Quemos ou Camos era o deus nacional dos moabitas (Nm 21.29; Jz 11.24; I Rs 11.7, 33; II Rs 23.13; Jr 48.7, 13, 46). Malcam ou Milcom (I Rs 11.33) era o deus nacional dos amonitas. Milcom, em hebraico milkom, e Moloque, molech, em hebraico, seriam dois deuses ou nomes diferentes do mesmo deus? (I Rs 11.5, 7, 33). Parecem ser nomes alternativos. O termo malkãm significa "seu rei", mas a Septuaginta, a Vulgata Latina e a Peshita traduzem esta palavra como nome próprio. É uma questão de vocalização da palavra. As consoantes hebraicas aqui são exatamente as mesmas - mlkm) e o texto antigo era consonantal. Dagom e Baal-Zebube eram deuses dos filisteus (Jz 16.23-24; II Rs 1.2-3, 6,16).
Os gregos do período do Novo Testamento tinham vários deuses: Zeus, o pai dos deuses; Hermes, o deus mensageiro; Afrodite, a deusa do amor; Dionísio, o deus do vinho; Atenas, ou Pala Atenas, nascida da cabeça de Zeus, deusa padroeira da cidade de Atenas. Hesíodo, em sua obra Teogonia, a Origem dos Deuses, apresenta uma lista interminável deles. Para os romanos, o pai dos deuses era Júpiter; o deus correspondente a Hermes era Mercúrio (At 14.11-13); Afrodite era similar a Vênus e assim por diante.
Esses deuses da mitologia greco-romana apresentavam os mesmos vícios e as mesmas características dos humanos: ódio, inveja, ciúme, imperfeições... eles comiam, bebiam etc. Era muito comum um homem ter o seu deus devocional, prestando-lhes cultos em particular, além de oferecer libações a outros deuses. Por isso havia nas casas romanas os penates ou nichos, espécies de altar com uma representação do deus adorado naquele lar. Em Éfeso, a deusa Diana, Ártemis para os romanos, era cultuada no templo daquela cidade, que era uma das sete maravilhas do mundo antigo. Mas os seus adoradores também tinham miniaturas da imagem de Diana em seus penates. Demétrio, de Éfeso, era fabricante de nichos (At 19.24). Os mesmos adoradores desses deuses participavam também do culto do imperador.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 29-31.
Panteões Nacionais
O Antigo Testamento frequentemente menciona os deuses das várias nações vizinhas a Israel em termos gerais. Aqui podemos encontrar praticamente todas as nações com as quais Israel teve contato. Normalmente a palavra "panteão" é usada na lista e na discussão dos deuses de qualquer grupo étnico ou político. No entanto, este é um anacronismo ilusório. A expressão semita significa "a assembleia dos deuses". Este conclave deve ser visto como uma reunião para tomada de decisões ou ações (por exemplo, o senado de alguns países pode se reunir sem a presença de todos os senadores) e não como um catálogo formal e metódico das divindades adoradas por um povo em particular. Com esta distinção em mente, podemos observar os seguintes panteões mencionados na Bíblia.
1. Os deuses dos amonitas (Jz 10.6). O principal deus era Moloque ou Milcom.
2. Os deuses dos amorreus (Js 24.2,15; Jz 6.10; 1 Rs 21.26; 2 Rs 21.11). Como pouca literatura dos amorreus chegou até nós, precisamos depender de fontes secundárias e inferências para o nosso conhecimento desse panteão. Evidentemente, era parecido com o panteão cananeu posterior. O templo de Ishtar em Mari e o templo de Dagom na Babilónia eram, provavelmente, santuários dos amorreus. Dagom, Hadade e Anate parecem ter sido divindades dos amorreus, impostas por estes aos cananeus, quando invadiram a região do médio Eufrates, como se pode inferir das descobertas em Ras Shamra (Oldenburg, The Conflict Between El and Baal, pp. 146-163).
3. Os deuses dos assírios (Na 1.14) passaram a fazer parte da jurisdição do Antigo Testamento entre os séculos IX a VII a.C. O principal deus deste panteão era Assur, substituindo o sumério Ea. O panteão assírio era parecido com o da Babilónia. Nas duas localidades, as divindades semitas substituíram os antigos deuses sumérios, em alguns casos absorvendo as suas supostas funções e os seus títulos.
4. Os deuses dos babilónios (Is 21.9; Ed 1.7) foram importantes para Israel nos séculos finais do período dos reis e durante o exílio. Existiam mais de 700 divindades listadas na Babilónia. Os conquistadores semitas dos sumérios aceitaram os deuses nativos e adicionaram os seus próprios. Esta situação foi posteriormente complicada pelo fato de que cada cidade-estado passou a ter o seu próprio panteão.
Em Lagash, nos tempos antigos, Anu, o deus do paraíso, era adorado juntamente com Antu, a sua esposa. Em Eridu, o deus principal era Enlil, deus da terra, que mais tarde foi sucedido por Merodaque. A esposa de Enlil era Damkina, e o seu filho era Merodaque. Essas figuras (exceto Merodaque) eram todas sumárias. Outros deuses da Babilónia incluíam Sin (a suméria Nanna), o deus-lua; Shamash, o deus-sol e filho de Sin; Ningal, a esposa de Sin; Ishtar (a suméria Innina), a deusa da fertilidade, e o seu esposo Tamuz; Allatu (a suméria Ereshkigal), a deusa do inferno; Namtar, o mensageiro do deus da morte; Irra, o deus das pestes; Kingsu, a deusa do caos; Apsu, o deus das profundezas do mar; Nabu, o santo patrono da ciência e do aprendizado; e Nusku, o deus do fogo. Veja Babilónia. 5. Os deuses dos cananeus (q.v.) são mencionados juntamente com os dos demais habitantes de Canaã, em uma relação com a conquista da terra pelos hebreus. Outras tribos mencionadas em Êxodo 23.23; 34.11-17; Juízes 3.5ss., e outras passagens, incluem os amorreus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Exceto para os heteus, e possivelmente os heveus (talvez os horeus, ou hurrianos; cf. a versão grega de Génesis 34.2; Josué 9.7), as demais tribos eram fortes aliadas dos cananeus e provavelmente adoravam as mesmas divindades. O mesmo era verdade sobre os sírios mencionados em Juízes 10.6, mas provavelmente houve alguma mudança naquele panteão nos últimos tempos. O panteão cananeu é o mais conhecido dos textos mitológicos de Ras Shamra, embora outras informações venham de Filo de Byblos e de fontes bíblicas, assim como de curtos textos literários em aramaico e em fenício. O principal deus e criador era El. Seu filho (às vezes chamado de seu neto) Baal era o deus das tempestades e da vegetação. Ele era chamado de "aquele que predomina", "o exaltado, deus da terra". Na mitologia, Baal é entronizado em uma montanha no norte. Durante o reinado de Acabe, ele tornou-se o principal deus de Israel. Aserá era a esposa de El e a mãe de 70 deuses. Nos textos de Ras Shamra, a deusa Anate é a irmã, e frequentemente, a esposa de Baal, mas, no Antigo Testamento, Astarote (isto é, Aserá) é normalmente a sua esposa. Em Tiro, a pátria de Jezabel, Aserá é a esposa de Baal (1 Rs 15.13; 18.19; 2 Rs 21.7; 23.4). Outros deuses cananeus proeminentes eram Dagom, Moloque, Resefe e Rimom (veja abaixo), e Mot (a morte). 6. Os deuses do Egito são mencionados na história pré-monárquica antiga dos hebreus, e novamente no período entre os séculos VII e VI a.C.(Êx 12.12; Js 24.14; Jr 43.12,13; 46.25). Como os deuses do Egito estavam em constante modificação, fusão e sincretismo, dependendo parcialmente da sorte política da província ou cidade onde uma divindade em particular era soberana, é difícil fornecer uma breve pesquisa do "panteão" egípcio. No entanto, o principal deus era conhecido por diferentes nomes em diferentes lugares e épocas. Em Heliópolis ele era conhecido como Aten-Re-Khepri; em Elefantina, como Khnum-Re; em Tebas, como Amon-Re (veja abaixo); e em Amarna (q.v.), como Aton-Re. Re, o deus-sol, era assim fundido com o deus local da província. Observam-se tríades de deuses principais em várias épocas: Ptah, Sekhmet, Nefer Tem; Amon-Re, Mut e Khonsu; Osíris, Isis e Horus. Todas estas são tríades pai-mãe-filho.
Segundo os textos das pirâmides, o Livro dos Mortos, e outros exemplares da literatura egípcia antiga, existiam mais de 1200 divindades conhecidas pelos egípcios. As principais eram as seguintes: Apis, o touro de Mênfis (Êx 32; 1 Rs 12.25-33 podem se referir à sua adoração); Hapi, o deus do Nilo; Hator, a deusa do amor e da beleza; Ma'at, o deus da justiça e da ordem; Sotis, a estrela do cão; Sihor, o deus do inferno; Shu, o deus do ar; Thot, o deus escrivão.
7. Os deuses dos edomitas são, às vezes, mencionados como os deuses de Seir (2 Cr 25.14; cf. versículo 20).
8. Os deuses dos heteus, embora não mencionados pelo nome no Antigo Testamento, têm uma referência indireta em Êxodo 23.23,24; 34.11-15; Juízes 3.5,6. O principal deus heteu, Teshub, era um deus das tempestades, grosseiramente equivalente a Baal. Portanto, é possível que os heteus tenham adorado as divindades dos cananeus como um resultado de seu contato com este povo, embora os nomes idolatria (Ex 20.3-5; 32.35; Nm 25.1-9; Dt 5.7-9). Por trás do terrível julgamento de Joel 1.4-20 estava a queda de Israel na idolatria (cf. Jl 2.12ss.). O cativeiro é representado como sendo o resultado da adoração a outros deuses (2 Rs 22.17).
PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 761-764.
III. EXEGESE DO PRIMEIRO MANDAMENTO
A Palavra. Esse termo vem do grego, ex, «fora», e agein, «guiar», ou seja, «liderar» ou «explicar". A palavra portuguesa exegese é usada para indicar «narrativa», «tradução» ou «interpretação». Dentro do contexto teológico, a ênfase recai sobre a interpretação de modos formais de explicação que podem ser aplicados a algum texto, a fim de se compreender o seu sentido. Na linguagem técnica, a exegese aponta para a interpretação de alguma passagem literâria especifica, ao mesmo tempo em que os principios gerais aplicados em tais interpretações são chamados hermenêutica (que vede).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 2. Editora Hagnos. pag. 617.
1. Outros deuses.
Estudos de críticos conservadores mostram que a ideia de henoteísmo no primeiro mandamento não se sustenta. Esse mandamento é considerado o mais genérico e o menos detalhado do Decálogo. O rabino Benno Jacob se pronunciou sobre o assunto da seguinte forma: "Nós não podemos ajudar, mas responder porque este mandamento não era usado para prover uma lição dogmática final acerca das falsas deidades, mas isto foi precisamente o que o Decálogo procurou evitar" (JACOB, 1992, p. 546). Ele explica. É que no Sinai só existiam Javé e Israel, e nada havia a ser dito sobre as nações e seus deuses, portanto orabino acrescenta: "Não existia outro deus para o Decálogo". A mais rudimentar regra da hermenêutica diz que nunca se deve interpretar um texto isoladamente, fora do seu contexto. Aqui, esse contexto mostra a proibição de sacrificar e servir a outros deuses é absoluta e sem concessão, o que remete ao monoteísmo (Êx 22.20; 23.13; 34.14; Dt 6.4, 14; 13.2). É assim que essas e outras passagens do Pentateuco explicam o primeiro mandamento. Existe um só Deus e Deus é um só; esse pensamento permeia a Bíblia inteira (2 Rs 19.15; Jo 17.3).
Os ídolos, de fato, não são deuses (Dt 32.21; Gl 4.8). Apenas são chamados assim por existirem na mente dos seus adoradores (1 Co 8.5), mas não reais de fato. O objeto de adoração dos gentios são representações demoníacas; os pagãos adoram os próprios demônios (Lv 17.7; Dt 32.17; 1 Co 10.20). Não existe Deus além de Javé (Is 44.6; 45.5, 6). Os cristãos devem manter distância dos ídolos (1 Co 10.14; 1 Jo 5.21).
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 35-36.
Gn 1.26 - “Façamos o homem à nossa imagem." Por que Deus utiliza a forma plural? Um ponto de vista alega que esta é uma referência ã Trindade — Deus. Jesus Cristo e o Espirito Santo todos um só Deus. Outra visão explica que a finalidade da palavra no plural é denotar majestade. Os reis tradicionalmente usam a forma plural ao referir-se a si mesmos. Em Jó 33.4 e Salmos 104.30. sabemos que o Espirito de Deus esteve presente na criação. Em Colossenses 1.16, vemos que Cristo. Filho de Deus. estava trabalhando na criação.
BÍBLIA APLICAÇÃO PESSOAL. Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Editora CPAD. pag. 6.
Gn 1.26 DISSE DEUS FAÇAMOS. Esta expressão contém uma referencia primeva ao Deus trino e uno. O uso da primeira pessoa no plural [“nós”, oculto] indica que há pluralidade em Deus (Sl 2.7; Is 48,16). A revelação da carecteristica trina e uma de Deus só se torna clara, porém, quando quando chegamos ao Novo Testamento (Lc 3.21-22).
STAMPIS. Donald C. (Ed) Bíblia de Estudo Pentecostal: Antigo e Novo testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 1995.
Êxo 20.3 Não terás outros deuses. Neste ponto, o monoteismo substitui todas as outras possíveis noções de Deus. Todavia, não basta acreditar na existência de um Deus. Esse Deus único precisa ser reconhecido e obedecido como a autoridade moral de to- dos os atos humanos. Também só há um Deus no atinente à questão da adoração e do serviço espirituais. o Deus único merece toda honra. Isso labora contra o panteísmo e todo o seu caos.
A nação de Israel estava cercada por povos que eram leais a um número impressionante de divindades. As pragas do Egito tinham mostrado que só Yahweh é Deus (ver Êxo. 5.2 e 6.7). Há uma profunda verdade na idéia que um homem só pode adorar a um Deus. Jesus abordou essa questão em Mateus 6.24. Os homens adoram aquelas coisas que lhes parecem importantes, incluindo o dinheiro. Há deuses externós e internos. Mas todos eles são deuses falsos.
Os vss. 4-6 descrevem e ampliam o primeiro mandamento. Os católicos-romanos e os luteranos (e também muitos intérpretes judeus) pensam que esses versículos formam, conjuntamente, o primeiro mandamento. Mas a maioria dos outros grupos protestantes e evangélicos fazem desses versículos um mandamento distinto.
Yahweh é um Deus zeloso que não tolera rivais (vs. 5; 34.14). Naturalmente, temos nisso uma linguagem antropomórfica. Divindades rivais seriam algo contrário ao caráter único de Deus. E um deus que não é único não é o verdadeiro Deus. Ver os vss. 22,23. A desobediência ao primeiro mandamento foi a principal razão dos cativeiros, finalmente, Israel sofreu.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 388.
Êxo 20.3 — Não terás outros deuses. O Senhor não deveria ser visto por Israel como um deus qualquerentre todos os outros, e nem como o melhor deles. Ele era e é o único Deus vivo. Ele, e somente Ele, deveria ser adorado, obedecido e louvado pelos israelitas. Muitos estudiosos consideram o conceito de monoteísmo uma conquista de Israel, tal como a arte é uma realização original dos gregos, e o direito, uma façanha dos romanos. Tais eruditos acreditam que o verdadeiro monoteísmo (a crença em um único Deus) não fora totalmente estabelecido até a época de Amós (séc. 8 a.C.). Entretanto, o testemunho da Bíblia apresenta uma visão diferente desse conceito crítico. A história bíblica apresenta a crença emum único Deus desde o começo da história de Israel como uma nação. O primeiro mandamento é uma comprovação disso. E tal fato não foi uma realização de Israel. Este povo foi apenas o receptor das revelações divinas.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 164-165.
2. O ponto de discussão.
Diante de mim (3) significa “lado a lado comigo ou além de mim”.20 Deus não esperava que Israel o abandonasse; Ele sabia que o perigo estava na tendência de prestar submissão igual a outros deuses. Este mandamento destaca o monoteísmo do judaísmo e do cristianismo.
“O primeiro mandamento proíbe todo tipo de idolatria mental e todo afeto imoderado a coisas terrenas e que podem ser percebidas com os sentidos.” Não existe verdadeira felicidade sem Deus, porque Ele é a Fonte de toda a alegria. Quem busca alegria em outros lugares quebra o primeiro mandamento e acaba na penúria e em meio a acontecimentos trágicos.
Leo G. Cox. Comentário Bíblico Beacon. Êxodo. Editora CPAD. pag. 189.
Diante de mim. Literalmente “ à minha face” . Esta frase vagamente incomum também parece ser usada em relação ao ato de tomar uma segunda esposa enquanto a primeira ainda estivesse viva. Tal uso, de uma quebra de um relacionamento pessoal exclusivo, ajuda a explicar o seu significado aqui. A frase está relacionada à descrição de YHWH como um “ Deus zeloso” , no versículo 5. Alguns comentaristas modernos sugerem que “ diante de YHWH” ou “ a presença de YHWH” no restante da Torah são referências ao;altar de YHWH (23:17). Vêem, portanto, uma referência ao culto israelita: nenhum outro deus pode ser adorado simultaneamente com YHWH num santuário comum, como era de praxe, por exemplo, na religião cananita. Não há dúvida de que isto é verdade, mas parece ser uma explicação inadequada. Seja qual for, porém, a maneira de encararmos os detalhes da passagem, seu sentido principal é claro: por causa da natureza de YHWH e do que YHWH fez por Israel, Ele não dividirá Seu louvor com quem quer que seja: Ele é único. Consulte Hyatt com respeito a outras interpretações da frase.
R. Alan Cole, Ph. D. ÊXODO Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 148.
3. O politeísmo.
São três as principais formas de adoração no paganismo do Antigo Oriente Médio: politeísmo, henoteísmo e monolatria. Foi nesse contexto que viveram os patriarcas do Gênesis e em que a nação de Israel foi formada.
O politeísmo é a crença em muitos deuses. O termo deriva de duas palavras gregas, polys, "muito", e theos, "Deus". Era a religião dos antigos mesopotâmios, egípcios, gregos, romanos e do atual hinduísmo. O henoteísmo é uma forma primitiva de religião que admite a existência de muitos deuses; no entanto, apenas um deles tem a supremacia. O termo, aplicado em 1881 por F. Max Muller, historiador alemão das religiões, significa literalmente "um Deus", do grego heis/hen, o numeral "um", e theos, "Deus". A forma henoteísta deve ser definida como uma crença em um Deus, mas admitindo a existência de outros deuses, como ocorre à doutrina das atuais testemunhas de Jeová.
A palavra monolatria vem de monos, "único", e latreia, "serviço sagrado, culto". O termo surgiu com o orientalista alemão Julius Wellhausen (1844-1918). Define-se como adoração ou culto "de uma deidade única para cada grupo étnico-político (clã, tribo, povo), não para toda a humanidade, de sorte que se admitem tantos deuses legítimos como povos" (GUERRA, 2001, p. 613). Assim, o henoteísmo deve ser entendido como uma forma de crença do qual a monolatria é o tipo correspondente de adoração. A ideia de henoteísmo e monolatria formarem um estágio intermediário entre politeísmo e monoteísmo não tem sustentação bíblica, visto que a religião original da raça humana era monoteísta. Não se conhecia a idolatria antes do dilúvio. A Bíblia afirma que todas essas formas falsas de adoração são uma degeneração do monoteísmo original (Rm 1.21-25).
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 28-29.
POLITEISMO. Essa palavra vem do grego, poli, -muítos-, e theóe, "deus.., ou seja, a crença de que existem muitos deuses. Isso contrasta com o monoteísmo, a crença na existência de um único Deus, e com o henotelsma, a crença de que apesar de existirem muitos deuses, somos responsáveis diante de um só Deus. Dois artigos devem ser consultados nesta enciclopédia, em relação ao politeismo.
Só as três grandes fés: a do judaismo, a do cristianismo e a do islamismo têm adotado uma forte posição monoteista. Contudo, os judeus e os maometanos vêem o conceito trinitariano cristão como uma forma velada de monoteismo. Dentro do cristianismo moderno, os mórmons defendem um politeismo teórico. De acordo com o mormonismo, na verdade existiriam muitos deuses; mas, na prática, eles promovem um triteismo: haveria três deuses com os quais temos algo a tratar, o Pai, o Filho e o Espirito Santo, que seriam pessoas separadas e deuses distintos uns dos outros, e não meras hipástases (vide) de uma única essência divina.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 5. Editora Hagnos. pag. 321.
IV. O MONOTEÍSMO
1. Os mandamentos, os estatutos e os juízos.
Dt 6.1 Mandamentos... estatutos... juízos. Temos aqui a tríplice designação da legislação mosaica, conforme já tínhamos visto em Deu. 5.31. Estatutos e juizos figuram como que formando um par em Deu. 4.1,5,8,14,45 e 5.1. E Deu. 6.20 reitera essa tripla designação. Ver as notas a respeito em Deu. 5.31. Talvez não devamos estabelecer distinções muito nítidas entre esses três termos, pois parecem ser apenas uma referência múltipla aos muitos preceitos baixados por Moisés. Alguns estudiosos têm sugerido que os “man- damentos'' são os dez mandamentos, e os outros dois vocábulos apontam para desenvolvimentos e ampliações posteriores do núcleo original da lei. O que fica claro, contudo, é que está em pauta a complexa legislação mosaica, referida por meio de vários termos. Toda essa grande complexidade precisa- va ser ensinada (Deu. 5.31), conhecida e observada (5.31-33), para que então houvesse vida (4.1 e 5.33).
... se te ensinassem. A idéia de instrução é reiterada aqui. Ver Deu. 5.31 quanto a notas expositivas completas e referências a artigos importantes sobre esse assunto.
Para que os cumprisses na terra. Ou seja, na Terra Prometida, dada a Israel por meio do Pacto Abraàmico (ver as notas a respeito em Gên. 15.18). Os três discursos de Moisés (que perfazem 0 volume maior de Deuteronômio) exortavam 0 povo de Israel para que obedecesse à lei, como meio de conquista e de vida boa e longa na Terra Prometida. Os filhos de Israel precisavam instruir à geração mais jovem quanto aos seus deveres na Terra Prometida. Por motivo de desobediência, a geração anterior havia perecido no deserto, com as exceções únicas de Caiebe e Josué (ver Deu. 1.34 ss.).
A lei destinava-se a todas as “gerações” dos filhos de Israel (ver Êxo. 29.42; 31.16). Esses estatutos eram “perpétuos” (Êxo. 29.42; 31.16; Lev. 3.17 e 16.29). Os hebreus não antecipavam um fim para 0 seu sistema religioso. Mas ele terminou, e isso serviu de instrumento para 0 começo do cristianismo. Todos os sistemas terminam e assim tornam-se instrumentos de avanço. Essa evolução é que é “perpétua”. A epístola aos Hebreus mostra como e por qual motivo 0 Antigo Pacto terminou, a fim de que 0 Novo Pacto pudesse tomar 0 lugar daquele e percorrer 0 seu próprio curso.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 781, 784.
Dt 6.1 — Os mandamentos fazem referência à instrução de amar a Deus (v. 5), e Moisés era o instrumento usado pelo Senhor para transmitir Suas ordenanças a Israel (Dt 5.22,23), como afirma a passagem estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o Senhor, vosso Deus, para se vos ensinar. Portanto, não era a lei de Moisés, mas sim a Lei de Deus.
Dt 6.2 — O temor a Deus inclui a apreensão por causa de Sua santidade e magnificência, o amor a Ele e a submissão à Sua vontade. Inicialmente, pode envolver o medo. Todavia, esse sentimento leva à sensação de admiração, ao comprometimento com a adoração e ao deleite em conhecer Deus. O Todo-poderoso esperava que Seu povo seguisse Seus caminhos por sucessivas gerações, visto que prometera abençoar geração após geração (Gn 17.7,8) todos os dias da sua vida. O Senhor presenteou Israel com bênçãos sobre a terra como um benefício da aliança (Dt4-40;5.29;6.24; 14-23; 18.5;30.15), porém elas estavam condicionadas à lealdade. O propósito de Sua Lei foi levar a plenitude de vida às pessoas mediante Sua graça (Dt 4.1). A desobediência acarretaria a perda do direito à terra e aos privilégios do concerto (Dt 4.26;30.15-19; SI 1.6; 112.10). Desta forma, Deus ensinou aos hebreus que Ele é a vida e que rejeitá-lo é escolher a morte (Dt 30.20; Jo 3.16-20).
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 323.
Dt 6:1-3. A ordem de 5: 32, 33 é agora expressa com nova ênfase. A expressão estatutos e juízos, que acontece em outras partes do livro (5: 1; 12: 1), é aqui precedida pela palavra mandamento no singular (miswâ; cf. SBB, que traz, erroneamente, o plural). O termo poderia ser traduzido como “ordem”. Em maiores detalhes, a ordem é representada por estatutos e mandamentos, embora estes não apareçam formalmente senão nos capítulos 12 a 26. A esta altura a preocupação principal é expressar princípios gerais. Israel é exortado a cumprir e guardar as leis de Javé e a teme-LO (reverenciá-LO). Quaisquer bênçãos que se seguissem seriam o cumprimento da promessa patriarcal (Gn 12: 1-7).
R. Alan Cole, Ph. D. ÊXODO Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 49.
2. O maior de todos os mandamentos.
Dt 6.4 Temos aqui a introdução ao maior de todos os mandamentos, o amor (vs. 5).
Consideremos estes pontos: 1. Dar ouvidos. 2. Israel deveria ouvir e obe- decer. O mandamento fora dado ao povo de Deus, àqueles que tinham sido libertados do Egito, aos quais fora entregue a Terra Prometida, que fazia parte do Pacto Abraâmico. 3. Monoteísmo, não somente para ser crido, mas também para ser aplicado. O único Deus verdadeiro requer obediência. A idolatria é terminantemente proibida. 4. Os direitos do Criador, o qual é Yahweh e Elohim (ver, acerca disso, as notas sobre o versículo anterior).
O monoteísmo forma a base do pronunciamento original da lei (ver Êxo. 20.3,4). Mas não devemos entender isso como mera crença na existência de um único Deus, ou que a divindade existe sob a forma de uma única unidade. Pois também envolve a obediência estrita à lei que foi dada pelo Deus único.
O original hebraico, que tem sido sujeitado a várias traduções, é: Yahweh, nosso Deus, Yahweh, um. Eis algumas das traduções:
O Senhor nosso Deus é um Senhor.
O Senhor nosso Deus, o Senhor é um só.
O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um.
O Senhor é nosso Deus, somente o Senhor.
O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.
Fica em dúvida qual a melhor maneira de traduzir o original hebraico. Mas o intuito do original hebraico é perfeitamente claro. Só existe um Deus; e Ele é nosso Senhor e dono; Ele nos deu a Sua lei; e ela deve ser obedecida. Isso rejeita peremptoriamente a idolatria. O Deus único requer o cumprimento da lei do amor, que sumaria a lei toda em uma única declaração, precisamente o quinto versículo deste capítulo.
Ό objeto da atenção exclusiva, do afeto e da adoração de Israel não é difuso, mas compacto e único. Está em foco algum panteão de divindades, cada uma das quais possuidora de uma personalidade dotada da desconcertante capacidade de ser dividida por devotos e santuários rivais, impedindo que a atenção do adorador se concentre sobre um único objeto. A atenção de Israel, porém, não podia ser dividida; antes, confinava-se ao Ser único e bem definido, cujo nome é Yahweh" (G. Ernest Wright, in loc.).
O único Senhor. Não muitos deuses; mas essa expressão também enfatiza as idéias de exclusividade e de soberania. Esse único Deus precisa ser obedecido; Ele é o doador e senhor de toda vida.
O Shema. Este versículo, que na íntegra lê: Ouve, Israel, 0 Senhor nosso Deus é o único Senhor”, tem sido assim chamado. Esse vocábulo hebraico é o verbo no imperativo: Ouve”. O versículo contém a confissão fundamental e simplificada do judaísmo, da qual tudo mais depende. Os deuses do Oriente Próximo e Médio eram muitos, imorais, brutais, imprevisíveis, jamais agindo em harmonia com outras divindades, Todas essas noções eram repelidas por Israel. No judaísmo bíblico, pois, a fé religiosa avançara, devido ao seu monoteísmo aplicado, não sendo apenas um monoteísmo teórico.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 784.
Os versículos 4 e 5 fazem parte do que chamamos Shema (hb. “ouve”). Este é o credo do judaísmo. O SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR ou “O Senhor é o nosso Deus, o Senhor é um” são traduções válidas. Os judeus consideram a palavra hebraica Yahweh* muito sagrada para ser pronunciada e, por isso, a substituem pela palavra Adonai, “meu Senhor”. Yahweh quer dizer, literalmente, “Ele é” ou “Ele se toma, Ele vem
ARC traduz por “JEOVÁ” ou “SENHOR” (assim, em letras maiúsculas) todas as vezes que, no original, ocorre a palavra hebraica Yahweh. (N. do T.) a ser”. Moffatt a traduz por “o Eterno”. Os dizeres do versículo 4 declaram que o Senhor é o Deus de Israel, que ele é o único Deus e que ele é o mesmo em todos os lugares. Esta descrição estava em oposição aos deuses das nações circunvizinhas, particularmente a Baal que era adorado de diferentes formas e com diferentes ritos em diversas localidades.
A palavra único não é incompatível com a doutrina cristã da Trindade, ou seja, três Pessoas da mesma substância em uma deidade. Com efeito, a palavra Deus está, via de regra, na forma plural nas Bíblias hebraicas como também neste versículo.
Leo G. Cox. Comentário Bíblico Beacon. Êxodo. Editora CPAD. pag. 433-434.
Dt 6.4. Ouve Israel. Israel é convidado a responder a Javé com a mesma plenitude de amor demonstrada por Javé em favor de Seu povo. No Novo Testamento o versículo 5 é apresentado por Jesus como o primeiro e grande mandamento (Mt 22: 36-38. Cf. Mc 12: 29-34; Lc 10: 27, 28).
Esta breve passagem (4-9) tem sido conhecida pelos judeus durante séculos como o Shema (sPma', ouve em hebraico) e é recitada junto com Deuteronômio 11: 13—21 e Números 15: 37-41 como oração diária. A referência à colocação das leis de Deus como frontal entre os olhos é comentada em 6: 8. A prescrição do versículo 4 tem sido considerada como uma maneira positiva de enunciar as ordens negativas dos dois primeiros mandamentos do Decálogo (5: 7-10). Esta confissão central da fé israelita consiste de apenas quatro palavras, Javé, nosso Deus, Javé, Um. A expressão tem sido entendida de várias maneiras. Traduções possíveis são: Javé nosso Deus, Javé é um”, “Javé é nosso Deus, Javé é um”, “Javé é nosso Deus, Javé somente”. Seja qual for a tradução escolhida, o significado essencial é claro. Javé deveria ser o único objeto da adoração, leal dade e amor de Israel. A palavra “um” ou “Único” implica em monoteísmo, mesmo que não o afirme com todas as sutilezas da formulação teológica.
O monoteísmo bíblico tinha uma expressão prática e existencial que levaria ao abandono de pontos de vista como a monolatria. Mesmo que alguém em Israel admitisse a existência de outros deuses, a afirmação de que somente Javé era Soberano e único objeto da obediência de Israel fazia soar o toque fúnebre para quaisquer posições inferiores ao monoteísmo.
R. Alan Cole, Ph. D. ÊXODO Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 50-51.
3. A Trindade na unidade.
O monoteísmo é instituído como confissão de fé na lei de Moisés, e o Decálogo introduz esta doutrina. O monoteísmo é a crença em um só Deus, como sugere a própria palavra: monos, "único", e theos, "Deus". O termo é usado para designar a crença em um e somente um Deus. A ênfase nesta unidade contrasta de maneira visível com o henoteísmo e a monolatria, além do politeísmo. Os patriarcas do Gênesis, Abraão, Isaque e Jacó, eram monoteístas e instruíram seus descendentes nessa crença (Dt 13.6; 28.64; Jr 19.4).
O Deus de Israel revelado no Antigo Testamento é o mesmo Deus do cristianismo (Mc 12.29-32). O Senhor Jesus não somente ratificou o monoteísmo judaico do Antigo Testamento, como também afirmou que o Deus Javé de Israel, mencionado em Deutero- nômio 6.4-6, é o mesmo Deus que ele veio revelar à humanidade (Jo 1.18). O monoteísmo cristão é trinitário porque a sua base é de um só Deus que subsiste em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 28.19). O monoteísmo judaico é chamado de monoteísmo ético, pois Javé é um Deus com propósito ético e a afirmação de um só Deus é feita com base ética. Os Dez Mandamentos são chamados de "Decálogo Ético". A doutrina de Deus é uma "questão de vida ou morte", pois, Jesus disse: "E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17.3).
O apóstolo Paulo anunciava aos gentios o mesmo Deus de seus antepassados: "O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conheças a sua vontade, e vejas aquele Justo, e ouças a voz da sua boca" (At 22.14). Veja o que ele ensina nas epístolas: "Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele" (1 Co 8.6); "Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um" (Gl 3.20); "Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos vós" (Ef 4.6). A fé cristã não admite a existência de outro Deus além do Deus de Israel (Mc 12.32). É o monoteísmo judaico-cristão.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 36-37.
TRINDADE A igreja primitiva, oposta ao politeísmo, com o AT ensinando que há um só Deus, foi logo forçada a questionar: Quem é Jesus Cristo? Era Ele apenas um homem? É Ele um anjo? Ou é Ele um Deus? E se Ele é um Deus, existem dois Deuses? Próximo ao início do século IV, um forte grupo na Igreja, sob a liderança de Ario, afirmava que Cristo era um anjo criado. Ataná-sio comandava a ortodoxia e garantiu a condenação do Arianismo no Concílio de Nicéia em 325 d.C. A decisão foi repetida e o Credo de Nicéia recebeu sua forma final no Concílio de Constantinopla em 381 d.C. O debate no concílio centrou-se no significado do título Filho de Deus. Os arianos sustentaram que o Filho nem sempre tinha existido; o Filho ou Palavra é uma criatura, uma obra, não o mesmo, em essência, com o Pai e, portanto, não era o verdadeiro Deus.
Atanásio, ao contrário, criou uma distinção entre a filiação moral, no sentido de que todo crente é um filho de Deus, e uma filiação natural, como Isaque era filho de Abraão. Então, se Cristo fosse Filho apenas no sentido moral, Ele não seria diferente de nós e não seria o único Filho de Deus. A isso, os arianos respondiam que Cristo é o único Filho de Deus porque Ele veio a ser unicamente através do Pai, enquanto todos os outros são gerados pelo Pai através do Filho. Mas essa construção, alegava Atanásio, nos tornaria filhos de Cristo ao invés de filhos de Deus. Cristo, então, nos separaria de Deus ao invés de nos unir a Ele. O debate se aprofundou em detalhes. Ario usou Provérbios 8.22, "O Senhor Deus me criou antes de tudo, antes das suas obras mais antigas" (RSV), para provar que Cristo era uma criatura. Atanásio referenciou o verso à natureza humana de Cristo. O concílio, por fim, rejeitou a afirmativa de Ario de que o Filho é como o Pai, assim como o estanho se assemelha à prata, e adotou o Credo de Nicéia para o qual o Filho é dito ser um em essência com o Pai. Alguns críticos ridicularizam a teologia e o concílio por ter discutido tão violentamente a respeito da importância da letra "i". O ponto em debate era se Jesus Cristo era da "mesma essência" (homoousios) do Pai (e, portanto, Deus por inteiro) ou de "essência similar" (homoiousios) ao Pai (e, portanto, alguém menor do que Deus). A diferença que a letra "i" faz é bem maior do que a existente entre prata e estanho; é a diferença entre Deus e uma criatura.
A doutrina da Trindade também é acusada de ter introduzido na cristandade temas pagãos da filosofia grega. Nada poderia estar mais longe da verdade. Em primeiro lugar, os argumentos de Atanásio não utilizam nem a linguagem, tampouco os conceitos da filosofia grega; eles são completamente bíblicos. Segundo, foi Ário e não Atanásio quem utilizou argumentos pagãos ao permitir que honras fossem prestadas a um ser que ele considerava inferior a Deus. E terceiro, o Credo de Nicéia removeu elementos pagãos que haviam aparecido em Orígenes e outros teólogos anteriores.
A doutrina da eterna geração do Filho, por exemplo, indicada nas palavras do Credo de Nicéia, "Unigénito de Seu Pai antes de todos os mundos", evita o erro de que o Logos, ao invés de ser um Filho eterno seja uma criação voluntária pela qual Deus se isola da contaminação da criação do mundo. Como a ênfase na eterna geração evita esse erro, a ênfase na geração eterna mostra que o Filho não é um passo em uma série descendente de emanações, e que embora a filiação por geração seja uma relação necessária, a criação é um ato voluntário. Para os cristãos ativos hoje, a questão da Trindade muitas vezes toma a forma da defesa da divindade de Cristo e a da personalidade do Espírito Santo. Esta defesa é requerida em dois casos. A teologia liberal tende a um Cristo puramente humano e as Testemunhas de Jeová ressuscitam o arianismo ao fazer de Cristo um anjo criado. O material escriturai é o mesmo, independente de qual grupo seja considerado, embora as Testemunhas de Jeová sejam mais propensas a dar atenção às Escrituras do que os liberais.
O primeiro versículo do Evangelho de João é frequentemente citado pelas Testemunhas de Jeová. Elas inevitavelmente sustentam que a tradução correta é: "No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era um deus". A resposta do cristão começa com o próprio versículo. Aqui encontramos uma expressão idiomática grega particular, o uso anarthous do nome, isto é, o uso do nome sem o artigo definido. Em grego, quando o narrador queria indicar ou designar uma pessoa ou objeto, ele usava o artigo; mas
quando queria reforçar uma qualidade ou natureza dos mesmos, ele excluía o artigo. Portanto, a tradução literal de João 1.1 seria: "E o Verbo era da mesma natureza ou qualidade de Deus" (cf. a mesma expressão idiomática em Hebreus 1.2, onde algumas versões trazem corretamente a expressão "seu Filho", embora o texto grego traga simplesmente o termo "filho"). A evidência adicional para provar que João não poderia ter ensinado que Cristo era uma criatura a quem foi concedido o título honorífico de "Deus" é claramente encontrada nos versos imediatamente seguintes a João 1.1. Outras passagens declaram dire-tamente a divindade de Cristo, como Hebreus 1.5-8, "A qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho?... Mas, do Filho, diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos" (cf. Tt 2.13). Outro verso nesse sentido, cujas duas partes os liberais tentaram separar, inserindo um ponto final entre eles é: "Cristo... o qual é sobre todos, Deus bendito eternamente" (Rm 9.5). Outras bem conhecidas afirmações da divindade de Cristo estão contidas na bênção apostólica (2 Co 13.13 e 13.14 em algumas versões) e na fórmula batismal (Mt 28.19). Referências adicionais selecionadas entre um grande número de referências disponíveis são: Mateus 11.27; João 5.23; Atos 10.36; 20.28; Romanos 10.9; Colossenses 2.9; 1 Tessalonicenses 3.11; 1 Pedro 1.2.
O fato de o termo Senhor ser a tradução, em grego, do termo Jeová utilizado no AT é, em si mesmo, uma evidência da divindade de Cristo e também nos convida a comparar passagens do AT e do NT; por exemplo, Isaías 40.3 com Mateus 3.3; Salmo 24.7,10 com 1 Coríntios 2.8; Jeremias 23.5,6 com 1 Coríntios 1.30; e Provérbios 16.4 com Colossenses 1.16.
Pode-se também supor que o AT antecipa a doutrina da Trindade ao utilizar um termo no plural, Elohim, em Génesis 1.26, e mais claramente quando se trata do Anjo do Senhor em Génesis 16; 18; 19. No caso do Espírito Santo, não é tanto sua divindade que é questionada, mas sua personalidade distinta. O Espírito Santo é uma pessoa; este é um fato que pode ser plenamente entendido. Embora o nome Espírito seja do género neutro em grego, os pronomes relativos ao Espírito são masculinos (ao contrário da tradução de Romanos 8.16 na versão KJV em inglês). Vários textos deixam bastante claro que Ele é uma pessoa distinta tanto do Pai como do Filho: Mateus 3.16; Lucas 4.18; João 15.26; 16.7; Atos 5.32; Hebreus 9.14 etc.
Alguns, às vezes, rejeitam a doutrina da Trindade por pensar que ela não está explicitamente declarada nas Escrituras (1 Jo 5.7 não consta em alguns textos gregos). Mas esta doutrina está claramente implícita no testemunho dado pelas Escrituras quanto à verdadeira e completa divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mantendo uma distinção de pessoas; em outras palavras, há três pessoas em um único Deus.
PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 1966-1968.
Definição. Os crentes comuns, e até mesmo a maioria dos mestres cristãos, se fossem solicitados a definir a trindade, apresentariam uma definição "triteísta", e não uma definição "trinitária", Diriam haver três pessoas divinas, Pai, Filho e Espírito Santo, e que são uma só pessoa. Porém, se fossem pressionados a explicar melhor suas idéias, diriam que essas três pessoas são "distintas".
A doutrina trinitária, entretanto, não contempla pessoas distintas. Se assim fosse, tudo se reduziria ao "triteismo". Em outras palavras, haveria três pessoas e, por conseguinte, três deuses, pois cada pessoa é vista dotada de existência separada das outras duas. A maioria dos argumentos apresentados em favor do "trinitarianismo", na realidade dá apoio ao "triteismo", No trinitarianismo, fala-se da essência de Deus, como algo que está sujeito à distinção em três pessoas, mas sem qualquer divisão que permita a distinção em três pessoas diversas. Não há "três deuses", e nem meramente três modos de manifestação divina. Antes, todas as pessoas são co-extensivas, co-iguais e co-eternas. Contudo, sem importar que tipo de analogia ou argumento usemos, a fim de demonstrar essa doutrina, em algum ponto não conseguiremos explicar-nos devidamente, pois simplesmente não sabemos como pode haver três, e, ao mesmo tempo, um só, porquanto a mente dos homens terrenos não se presta muito bem para entender a matemática celeste. Por conseguinte, as analogias e explanações invariavelmente se inclinam por apoiar o "triteísrno", e não o "trinitarianisrno". Até mesmo as explicações antigas, que falavam de três "hipóstases" de "uma só substância", chegavam perigosamente perto do triteismo, se é que não eram expressões dessa posição. A palavra trindade significa a "união de três partes ou expressões em uma só". Porém, se postularmos três pessoas separadas, teremos caído no triteísmo, mesmo que digamos que essas três pessoas possuem o mesmo tipo de natureza. Muitos homens existem; compartilham do mesmo "tipo de natureza"; mas não perfazem "um" único individuo.
Se dissermos que Deus é um só, em seu ser essencial, mas que a essência divina existe em três formas ou modos de ser, cada forma constituindo uma pessoa, embora participem da mesma essência, ainda assim teremos caido no triteísmo, se porventura estivermos concebendo três pessoas distintas, com existências individuais. Agostinho falava da trindade em termos de "relações internas", ou seja, aspectos de um único ser divino. Em Deus não há qualquer divisão, mas tão-somente simplicidade e unidade perfeitas. Aceitando essa forma de definição, que é verdadeiramente trinitária, encontramos dificuldade em harmonizar essas idéias com as descrições dadas pelo NT, acerca das pessoas e das obras das três pessoas divinas. O que isso significa e que, sem importar qual definição apresentemos sobre a "trindade", nossas mentes permanecem insatisfeitas, porquanto simplesmente não podemos aprender o conceito "trinitário",já que não temos qualquer experiência sobre algo que seja, ao mesmo tempo, três e um. Portanto, nossas mentes não podem entender o conceito trinitariano, quando é apresentado realmente como tal, e não como forma velada do triteísmo.
Não obstante, o NT ensina que só há um Deus, e que há três pessoas divinas. Como isso pode ser, não sabemos dizê-lo. Tomás de Aquino estava com a razão, ao asseverar que algumas doutrinas cristãs transcendem à razão e à percepção dos sentidos estão sujeitas à apreensão exclusiva da fé. O fato de que a mente humana não é capaz de entender uma doutrina não significa que tal doutrina não seja veraz. Por conseguinte, afirmamos a verdade da idéia trinitariana, porquanto certas passagens do NT, quando consideradas em seu conjunto, exigem essa idéia, ainda que as nossas explicações a respeito fiquem muito aquém de nos satisfazer plenamente. Também aceitamos a divindade e a humanidade de Cristo, mescladas no homem Jesus de Nazaré, mas não há maneira de explicar tal coisa, acerca de como ela pode ser verdadeira. Isso envolve uma dimensão do conhecimento e da verdade que as nossas mentes ainda não conseguiram atingir. Por que haveríamos de pensar que não há "mistérios" presentes em qualquer sistema de conhecimento que envolva considerações sobre a realidade última? A verdadeira definição e compreensão sobre a trindade continuasendo um mistério para nós; no entanto, possuímos excelentes indicações, nas páginas do NT, de que isso representa a verdade sobre a natureza e a pessoa de Deus, e que o l';IT, não procura nos ensinar o ''triteismo''.
História. E verdade, naturalmente, que o termo "trindade" não se acha no NT, e nem em qualquer documento há uma definição clara de "trindade". Rejeitamos enfaticamente a germinidade do trecho de I João 5:7a, Bb, conforme o mostram as notas expositivas acima, em favor de cuja rejeição há evidências irresistiveis. Contudo, o "conceito" da "trindade" é algo que se faz necessário pelo aspecto "total" da divindade, segundo esta é exposta nas páginas do N. T.
O vocábulo "trindade" evidentemente foi pela primeira vez usado por Tertuliano, na última década do século II d.C., mas não encontrou lugar na teologia formal da Igreja até o século IV d.C. Essa doutrina recebeu ampla expressão, pela primeira vez, em resultado daobra de pais capadócios da Igreja (meados do século IV d.C. e mais tarde), a saber, Basílio, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno. Eles formularam as idéias de distinção hipostática e de unidade substancial; mas algumas de suas explicações são claramente triteístas, e não trinitárias, o que se verifica sempre quando alguém tenta explanar. O que está em foco. A doutrina da trindade recebeu declaração formal na carta sinodal do concílio realizado em Constantinopla, em 382 d.C. (preservado por Teodoreto, História Eclesiástica, v.9). Ainda antes, tal como no credo de Nicéia, em 325 d.C; e nos escritos dos pais da Igreja Inácio, Irineu, Tertuliano e Orígenes, podem ser encontradas fórmulas trinitárias. O conceito da trindade, pois, é quase tão antigo como o "cânon" do próprio NT, tendo surgido na história eclesiástica quase tão prontamente quanto qualquer teologia formal.
Tertuliano falava de "uma substância, três pessoas".
Após o século IV d.C., a posição trinitária se tornou o padrão da Igreja, ainda que, periodicamente, tivesse sofrido ataques e negações. Os principais desses ataques foram o monoteísmo hebreu, o arianismo, o sabelianismo, o socinianismo e o unitarismo. A heresia gnóstica, naturalmente, antes disso, já vinha assediando a Igreja por cento e cinqüenta anos, desde os próprios dias apostólicos; essa heresia não tinha o conceito trinitário (ver CoL 2.18 no NTI quanto notas expositivas completas sobre esse sistema).
E verdade, naturalmente, que os primitivos cristãos, sem teologia sofisticada, não formularam qualquer "conceito trinitário". Somente muitas decadas de reflexão desenvolveram esse pensamento. Tal "reflexão", porém, foi frutífera, deixando transparecer certas verdades que a Igreja primitiva não possuía e nem descreveu de modo formal.
Crentes individuais têm negado, duvidado ou ignorado essa verdade, a qual não deve tornar-se base de nossa comunhão uns com os outros. É crente o indivíduo que reconhece a Jesus Cristo como Salvador (Col. 2: 19). Um homem pode fazer isso sem mostrar-se sofisticado em sua teologia ao ponto de formular um conceito trinitário.
Significação e importância da doutrina da trindade. Essa doutrina nos é revelada nas Escrituras por uma razão, não por mera curiosidade. Sugerimos os seguintes aspectos importantes dessa doutrina:
a. Confere-nos a compreensão acerca da natureza de Deus e, por conseguinte, da nossa própria, pois o homem também é uma espécie de trindade, formada de corpo, alma e espírito. Desse modo aprendemos, uma vez mais, que o homem foi criado segundo a imagem de Deus; e esse é o significado da existência toda, porquanto Deus é o alvo da vida, a saber, Deus Pai (ver Cor. 8:6) e o Filho (ver o primeiro capítulo da epístola aos Efésios, sobretudo o vigésimo terceiro versículo, e o trecho de Cal. 1:16).
b. Assim como Deus é triúno, mas cada pessoa divina tem sua função e propósito, mas todas concordam em um único propósito, assim também o homem, apesar de ser um ser extremamente complexo, pois combina aspectos espirituais e materiais, tem um grande propósito na existência. c. O conceito da trindade ensina-nos como Deus opera em sua criação: Deus Pai é o planejador de todas as coisas, incluindo a redenção humana; o Filho é o agente em tudo, criador tanto da antiga como da nova criação; e o Espírito Santo é o enviado de ambos, procurando realizar a missão do Filho durante sua ausência, especialmente a transformação dos homens remidos segundo a imagem e a natureza do Filho, que é a redenção mesma da humanidade. Todas as doutrinas cristãs, pois, têm alguma relação com o conceito da trindade. A redenção humana está a ela vinculada.
d. O conceito da trindade tira da idéia de estagnação o conceito de Deus agora e por toda a eternidade. Deus é dinâmico, pois nele existe plenitude de vida, sendo Ele a sua própria fonte originaria.
e. Esse conceito nega o "deísmo", que é a doutrina que Deus é tão transcendental que não pode e não tem qualquer coisa a ver com sua criação; bem pelo contrário, o "Filho" subentende que haverá outros filhos de Deus. Ele veio em busca dos homens para concretizar esse ideal; o Espírito Santo, na qualidade de "paracleto" e agente de Cristo, de seu alter ego, mostra que Deus sempre está com os homens, com o propósito de conduzi-los ao seio da família divina, para que sejam irmãos do Filho de Deus (ver 11 Cor. 3:18 e Rom. 8:29). Por conseguinte, o conceito da trindade subentende o "teísmo", ou seja, que Deus está conosco e visa o nosso beneficio.
f. O conceito da trindade subentende unidade na diversidade; e essa é uma lição objetiva concernente ao mundo como Deus trata com sua criação. Cristo é o centro de tudo (unidade), mas os homens, uma vez remidos, não perdem a sua individualidade, embora assumam a imagem e natureza de Cristo e venham a compartilhar de toda a plenitude de Deus (Ver Efé. 3: 19 e Col. 2: 10). O dualismo não se acha no coração central do Universo, embora agora se manifeste, por causa da presença do pecado.
g. O trinitarianistrio limita os "rivais" ao poder de Deus. Chama de "falsos", a todos os demais supostos deuses. Deus, na qualidade de benevolência suprema, portanto, garante o triunfo do bem em todo o Universo. Nem mesmo os perdidos haverão de conservar-se em hostilidade contra Deus; e isso envolve alguma forma de restauração, até mesmo para esses, apesar de não virem a compartilhar da vida dos eleitos (ver o primeiro capítulo da epístola aos Efésios, ver Col. 3:6).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag.496-498.
ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

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