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11° LIÇÃO 1° TRIMESTRE 2015 NÃO DARÁS FALSO TESTEMUNHO



NÃO DARÁS FALSO TESTEMUNHO
Nas últimas eleições presidenciais, assistimos a uma onda de boatos entre os políticos que objetivavam fazer a própria manutenção do poder. A busca pelo poder temporal faz as pessoas inventarem casos contra outras sem o menor pudor de que isso não seja verdade. 
O método é simples: levantar o dolo contra a pessoa, e que esta se vire para dar maiores explicações. Nada mais desumano quanto usarmos subterfúgios contra o nosso próximo!
Na obra "Manual do Pentateuco", de Victor P. Hamilton, sobre a aplicação do nono mandamento, deparamo-nos com o seguinte comentário "A aplicação original desse mandamento dizia respeito a testemunhos falsos em juízo ou em transações oficiais e negócios em geral" (p.224). Levantar acusações contra pessoas sem ter provas legítimas contra elas seria um ato pecaminoso e monstruoso. Não por acaso Tiago afirma que a língua é um membro capaz de incendiar uma floresta (Tg 3.7). Com a má língua pode-se destruir reputações que levaram anos para serem construídas.
"Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz" (Jo 18.37). Jesus de Nazaré tinha o compromisso com a verdade. Os fariseus e os doutores da lei não amavam a verdade e, por isso, não podiam aceitar o ensinamento de Jesus, embora reconhecessem a honestidade do nazareno (Mt 22.16). Já imaginou? Saber que alguém é da verdade e não assumir tal verdade porque o sistema religioso de outrora não o permitia? Ora, quem era do Templo na época de Jesus tinha uma alta reputação social. Passar para o lado de Jesus significava se colocar contra o Sumo-Sacerdote e perder automaticamente os privilégios da religião oficial. Não podemos perder a nossa condição de sujeito em Jesus por causa do poder temporal. O crente deve sempre escolher andar pela e na verdade em quaisquer lugares. Na família, na escola, no trabalho, nas amizades ou em todo ambiente onde os seres humanos se relacionam entre iguais. "E conhecereis a verdade, e a verdade te libertará" (Jo 8.32). A verdade de Jesus não nos deixa aprisionados, mas livres para sempre! Portanto, quem é de Jesus não tem outro compromisso que não seja a verdade. A verdade de quem é, do que fala e faz. Não empreste a sua língua para levantar falso testemunho contra alguém. O nosso Senhor foi condenado pelos homens através do falso testemunho de outrem. A vida de Jesus nos ensina o lado que devemos escolher: o melhor é sempre o da verdade.
Revista ensinador. Editora CPAD Ano 16 - N° 61. pag. 41.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
O nono mandamento tem conexão com o terceiro, visto que ambos enfocam o falar a verdade. A proibição primária aqui diz respeito a uma declaração falsa num processo legal. Isso pode ser visto tanto na linguagem e de maneira mais enfática em alguns dispositivos legais do sistema mosaico, como veremos no presente estudo. A construção "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" é exatamente a mesma nos textos de Êxodo e Deuteronômio (êx 20.16; Dt 5.20); no entanto, essas palavras no texto hebraico apresentam diferença, mas nada que mude o sentido da mensagem que o mandamento transmite.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 121.
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo (20,16). O mandamento inclui testemunho dado em tribunal, mas vai além disso. Falso testemunho é qualquer declaração maliciosa intencionada a degradar ou ferir outra pessoa, A reputação dos outros, assim como suas propriedades, devem ser resguardadas por todos.
RICHARDS. Lawrence O. Guia do Leitor da Bíblia. Uma análise de Gênesis a Apocalipse capítulo por capítulo. Editora CPAD. pag. 64.
Parecido com o abuso de um irmão por meio do roubo é desonrá-lo dando falso testemunho contra ele (Êx 20.16). Embora a proibição possa ser legitimamente aplicada à mentira em geral, a linguagem técnica (“falso testemunho”; hebraico, 'edsãqer) sugere um cenário legal ou de corte no qual um caso concernente a um crime ou contravenção está sendo julgado. As testemunhas eram (e são) essenciais na determinação da culpa ou da inocência (cf. Dt 17.6,7; 19.15), mas pessoas chamadas para testemunhar devem dizer a verdade sobre o que viram ou ouviram. Fazer menos que isso e, assim, incriminar uma parte inocente e sujeitá-la ao malogro da justiça infringiria gravemente a liberdade, as posses e possivelmente até mesmo a vida dela. Mais uma vez, a repercussão na estrutura bem ordenada de administração do Reino é óbvia e prejudicial.
Eugene H. Merrill. Teologia do Antigo Testamento. Editora Shedd Publicações. pag. 337.
I. O NONO MANDAMENTO
1. ABRANGÊNCIA.
O mandamento não se restringe apenas aos tribunais. O contexto mostra que ele se refere também às palavras que usamos. Trata-se da responsabilidade pessoal de cada um falar a verdade. Disse John Stott: Este mandamento não é somente válido nas cortes de justiça. Se bem que inclui o perjúrio, também estão implícitas todas as formas de escândalo e maledicência, toda a conversação ociosa e charlatanice, todas as mentiras e os exageros deliberados e as meias verdades que distorcem a verdade. Estamos proferindo falso testemunho quando aceitamos certos rumores maliciosos e logo os transmitimos, ou quando os usamos para outra pessoa para a prejudicar criando impressões falsas, ou quando não corrigimos afirmações falsas, tanto por nosso silêncio como por nosso discurso (Basic Christianity, p. 69; apud NYENHUIS, Gerald & ECKMAN, James P., 2002, p. 448).
O mandamento condena pelo menos quatro aspectos na vida humana: o falso testemunho no tribunal, a calúnia pessoal, o falar da vida alheia e a bajulação. Israel era um estado teocrático e, por não haver separação entre estado e religião, a ordem "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" envolvia todo o aspecto da vida do israelita. Trata-se da necessidade de cada um falar a verdade (Lv 19.11), pois o Senhor Jesus disse que o diabo é o pai da mentira (Jo 8.44).
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 122-123.
Lev 19.16 Este versículo apresenta ramificações do nono mandamento, que exige veracidade.
O próximo, contra quem não devemos iniciar nenhuma campanha de mexericos, é aqui um compatriota hebreu. Jesus, entretanto, ampliou a aplicação disso a todos os nossos semelhantes (ver Luc. 10.29 ss.). Cf. Êxo. 23.4,5. Nos vss. 33 e 34 deste capítulo, o conceito de “próximo” inclui os forasteiros.
“Não deve haver campanhas de maledicência (vss. 16-18). Não devemos tentar fazer o próximo cair em dificuldades. Devemos tratar com ele face a face, em espírito de boa-vontade. Nunca deveríamos dizer: ‘Sou o guardador de meu irmão?' conforme fez Caim. Deveríamos estar genuinamente interessados pelo bem-estar temporal e espiritual de outras pessoas, como se fosse nosso mesmo. Por quê? Eu sou o Senhor. Essa é, de fato, a ordem sagrada, física e moral, que deve haver neste mundo” (Nathaniel Micklem, in loc.).
A maledicência geralmente termina em calúnia. Isso torna-se um hábito extremamente perigoso no caso de certas pessoas, e as mulheres, especialmente, deleitam-se nesse vício. E assim, vidas inocentes são destruídas. Ver I Sam. 22.9,18; Eze. 22.9. A versão caldaica, de acordo com o Targum de Jonathan, diz aqui: “Não seguirás a língua três vezes amaldiçoada, pois ela é mais fatal do que a espada devoradora de dois fios”.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 552.
Lv 19.16 Nós somos proibidos de fazer qualquer coisa ofensiva ao bom nome do nosso próximo (v. 16), seja: 1. Nas conversas comuns: “Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo”. É uma má posição aquela em que o homem se coloca ao divulgar os erros de seus semelhantes, dando a conhecer aquilo que era segredo, agravando crimes e usando da pior maneira aquilo que estava errado, com o desejo de destruir a reputação dos homens e semear a discórdia entre vizinhos. A palavra usada para “mexeriqueiro” significa vendedor ambulante, ou pequeno vendedor. Os mexeriqueiros são aqueles que se intrometem nos negócios. Pois eles apanham histórias perversas em uma casa e as divulgam em outra, e normalmente trocam calúnias. Veja este pecado condenado, Provérbios 11.13; 20.19; Jeremias 9.4,5; Ezequiel 22.9. 2. Ao dar testemunho: “Não te porás contra o sangue do teu próximo”, se o seu sangue foi’ inocente, nem te aliarás com homens sanguinários como os descritos em Provérbios 1.11,12. Os doutores judeus dão este sentido adicional: Não deverás ficar assistindo o teu irmão em perigo, mas deverás vir em seu socorro, embora isto possa representar perigo à sua própria vida, ou a algum membro do seu corpo. E acrescentam: Aquele que pode, com o seu testemunho, inocentar alguém que é acusado, é obrigado, por esta lei, a fazê-lo. Veja Provérbios 24.11,12.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 411.
Lv 19.16 — O mexeriqueiro não era apenas um fofoqueiro, mas um caluniador, aquele que almejava destruir a reputação de outrem. Em relação ao mandamento não te porás contra o sangue do teu próximo, muitos casos podem ser incluídos aqui. No contexto do julgamento, citado nesta seção, possivelmente estava em maior evidência o falso juramento, que ocasionaria a morte do acusado, ou o testemunho que exoneraria o réu.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 241.
2. OBJETIVO.
Em linhas gerais, temos aqui a defesa da honra. Falar a verdade é para todos os povos e em todas as épocas. Mas, no sistema mosaico, o mandamento se distingue por ser revelação e por isso mesmo se reveste de autoridade divina. O mandamento é citado no Novo Testamento e foi resgatado pela graça e adaptado à graça. A fé cristã leva o tema para além dos tribunais, pois pertence à esfera espiritual, envolvendo a salvação, ao passo que na lei o seu aspecto é mais jurídico visando manter o equilíbrio na sociedade.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 122.
Dt 19.20 ... O ouçam e temam. Aqueles que sobrevivessem ao incidente (como a familia do homem que tinha cometido perjúrio), bem como a população em geral, que ouvisse falar sobre o caso, temeriam, desencorajando o crime de perjúrio. E embora isso não eliminasse o mal das testemunhas falsas, essa prática odiosa ficaria grandemente reduzida.
Dt 17.13 Neste versículo vemos a severidade da lei. Não se hesitava em executar até mesmo um juiz local, que não cumprisse o que se tinha considerado reto. Essa execução agiria como uma medida preventiva, capaz de fazer todo o povo de Israel temer. Em Israel, a justiça era imediata e terrível. Isso pode ser contrastado com nossos sistemas modernos, que podem envolver anos para que um simples caso de homicídio seja julgado. “Isso fazia o império da justiça tornar-se dotado de máxima importância na Terra Prometida, ajudando a impedir a anarquia” (Jack S. Deere, in Ioc.).
E jamais se ensoberbeça. No hebraico, essa palavra é zadown, que significa “de maneira arrogante”, “de maneira orgulhosa”. A medida disciplinar humilharia os homens e fá-los-ia temer.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 830; 822.
Deveria haver grande cuidado no julgamento, v. 18. Deveria ser feita uma investigação diligente quanto ao caráter das pessoas, e todas as circunstâncias do caso. Tudo isto devia sei' comparado, para que a verdade pudesse ser descoberta. Quando a investigação fosse realizada de um modo fiel e imparcial, eles poderiam esperar que a Providência os auxiliasse.
(5) Se ficasse evidente que um homem tinha, conscientemente e perversamente, dado falso testemunho contra seu próximo, embora o mal que lhe desejava não tivesse sido realizado, este deveria sofrer a mesma penalidade à qual seu próximo estaria sujeito, devido à sua evidência, v. 19. Nec lex estjustior idla - Nenhuma lei poderia ser ma is justa. Se o crime do qual ele acusasse seu próximo devesse ser punido com a morte, também o homem que deu falso testemunho deveria ser condenado à morte. Se a punição fosse açoitamento, ele deveria ser açoitado. Se fosse uma multa financeira, ele deveria ser multado também. E, como para aqueles que não levassem em consideração a atrocidade do crime e a necessidade de impedi-lo, pareceria ser uma punição muito dura, por ter dito algumas palavras, especialmente quando nenhum mal tinha, realmente, sido feito, aqui está acrescentado: “O teu olho não poupará”, v. 21. Nenhum homem precisa ser mais misericordioso do que Deus. O benefício que resultará, para o público, desta severidade, a recompensará com abundância: “Para que os que ficarem o ouçam, e temam”, v. 20. Tais punições exemplares seriam advertências a outros, para que não empreendessem nenhuma maldade deste tipo, quando vissem como aquele que fez a cova e a escavou havia caído nela.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 619.
Dt 19.16-20. O caso da testemunha maliciosa (lit. “testemunha de violência”, i.e. seu testemunho levaria a um ato de violência) é agora discutido. Quando tal testemunha declarava que o acusado era culpado de um ato errado (lit. “desvio”, i.e. deserção, apostasia ou má conduta moral ou religiosa), as duas partes em litígio tinham que comparecer perante Javé para responder aos sacerdotes e juízes que estivessem oficiando na ocasião. o tribunal localizado no santuário central parece ser o que se tem em vista nesta passagem (cf. 17: 8-13). Depois de cuidadoso exame os juízes (provavelmente todo o grupo de sacerdotes e juízes) dariam o veredito. Se a testemunha fosse falsa receberia o castigo que se tencionava dar ao acusado. Desta maneira o mal seria “queimado” (exterminado) de Israel e o perjúrio desestimulado.
I. A. Thompson. Deuteronômio Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag.208-209.
3. CONTEXTO.
JUIZ, O Um juiz ou magistrado civil é mencionado pela primeira vez em Israel sob a liderança de Moisés, quando Jetro sugeriu que juízes fossem designados para aliviar Moisés em suas responsabilidades administrativas (Êx 18.13-26). Mais tarde, Israel se organizou em unidades dentro de cada tribo com um homem qualificado como juiz. Estes homens deveriam julgar corretamente, destemidamente e imparcialmente (Dt 1.16ss.). Somente os casos mais importantes eram trazidos diante de Moisés (Dt 1.12-18; 21.2). Observe também a organização de Israel em Números 1-10. Sob a liderança de Josué um plano similar foi seguido (Dt 16.18-20; 17.2-13; 19.15-20; Js 8.33; 23.2; 24.1; 1 Sm 8.1). A era que se seguiu à morte de Josué retrata uma situação modificada como é descrito no livro de Juízes. Aqui os líderes principais, ou juízes do povo, eram aqueles que tinham primeiramente a missão de livrar os israelitas das nações opressoras (Jz 2.16). Carismaticamente dotados pelo Espírito de Deus, eles eram "libertadores" (Jz 3.9), capacitados a livrar e preservar Israel (Jz 6.34-36).
A palavra heb. shopet traduzida como "juiz" parece ter sido um termo emprestado dos cananeus. Ela aparece na literatura ugarítica como spt com o sentido de "governante" ou "juiz" e um sinônimo para "rei". Posteriormente, os principais magistrados de Cartago, descendentes dos fenícios ou cananeus, possuíram este título por séculos, e eram conhecidos dos romanos como sufetes. Assim, o termo heb. corretamente inclui o conceito de líder bem como o de árbitro. Durante a era entre a conquista e a monarquia em Israel, os invasores opressores foram sucessivamente mesopotâmios, moabi-tas, cananeus, midianitas, amonitas e filisteus. Os notáveis juízes que foram usados para agir contra estes foram Otniel, Eúde, Débora e Baraque, Gideão e Sansão, conforme narrado no livro de Juízes. Outros juízes a respeito dos quais pouca informação está disponível foram Sangar, Abimeleque, Tola, Jair, Ibsã, Elom e Abdom. Veja mais informações sobre cada um deles nos tópicos que trazem os seus nomes, individualmente. Alguns dos juízes desta era são mencionados no livro de Hebreus (cap. 11) como heróis da fé. Os capítulos iniciais de 1 Samuel (cf. 4.18) indicam que Eli serviu como juiz de Israel por 40 anos. Samuel não só guiou os israelitas em uma resistência bem sucedida à opressão dos filisteus, mas também estabeleceu um organizado
tribunal itinerante. Embora ele tenha designado seus filhos como juízes, as condições em mudança marcaram uma transição para um reino organizado que trazia a necessidade da unção de um rei (1 Sm 7.15-8.5). Durante a monarquia, o rei se tornou o supremo juiz em assuntos civis (2 Sm 15.2; 1 Rs 3.9,28). Os casos eram julgados pelo rei no portão do palácio (1 Rs 7.7), mas os tribunais locais estavam da mesma forma em funcionamento. Davi atribuiu aos levitas o ofício judicial e designou 6.000 homens como oficiais e juízes (1 Cr 23.4; 26.29). Josafá ampliou o sistema judicial em Judá, designando sacerdotes e juízes em cidades fortificadas com uma suprema corte em Jerusalém, onde as questões religiosas estavam sujeitas aos sacerdotes e as questões civis sujeitas ao príncipe de Judá (2 Cr 19.5-8). Os profetas frequentemente afirmavam que a justiça estava corrompida pelo suborno e pelos falsos testemunhos (Is 1.23; 5.23; 10.1; Am 5.12; 6.12; Mq 3.11; 7.3). Os reis eram frequentemente injustos em seu modo de tratar os profetas que falavam da parte de Deus (1 Rs 22.26,27; 2 Rs 21.16; Jr 36.26). Veja também 1 Reis 21.1-13, onde a lei era desconsiderada por Acabe e Jezabel e falsas testemunhas eram usadas para trazer vantagens ao rei.
PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 1112-1113,
JUIZ
1. As Palavras Originais e seus Significados. A palavra hebraica para «juiz» é shaphat. Ocorre por cento e dezoito vezes no Antigo Testamento, desde Gên. 16 até Miq. 4:3. O termo grego é kritês. Esse substantivo ocorre por dezoito vezes no Novo Testamento: Mat. 5:25; 12:27; Luc. 11:19; 12:14,58; 18:2,6; Atos 10:42; 13:20; 18:15; 24:10; II Tim. 4:8; Heb. 12:23; Tia. 2:4; 4:11,12 e 5:9.
Além de designar os indivíduos que tomam decisões sobre questões civis e religiosas, as palavras envolvidas falam sobre a tentativa de determinar causas (ver Êxo. 18:13). Entre os povos, as decisões judaicas são anunciadas de várias maneiras. Os juízes de Israel faziam-no verbalmente: «Tu és culpado!» ou «Tu és inocente!» Entre os romanos, marcava-se alguma espécie de material, como um tablete de argila ou um pedaço de papel, com um A (absolvido) ou com um C (condenado). Entre os gregos havia o costume de apresentar uma pedra branca ao acusado, para indicar sua inocência, ou uma pedra negra, para indicar sua culpa.
Outros Significados. Considerar (Atos 16:15); governar (Sal. 58:11); punir, em conseqüência de julgamento condenatório (Heb. 13:4; Eze. 7:3-8; 22:2); censurar acerbamente (Mat. 7:1).
2. No Antigo Testamento.
a. Yahweh é chamado, antes de todos, de Juiz dos homens. «Não Fará justiça o Juiz de toda a terra?» (Gên. 18:25). Deus julga os indivíduos e as nações com base em sua justiça absoluta (Gên. 3:14 ss; 6:3 ss; 11:5 ss; 15:14; 16:5; 20:3; 31:53).
b. O chefe patriarcal de uma casa, na antiguidade, era o juiz de seus familiares e de seu clã (Gên. 21, 22 e 27).
c. Moisés era o único juiz da nação de Israel, depois que esta saiu da servidão, no Egito; mas Jetro, seu sogro, encorajou-o a distribuir tal responsabilidade escolhendo juízes secundários. Disso resultou a primeira instituição dos juízes. Ver Êxo. 18:13-17; Deu. 1:9-18.
d. Na codificação que se seguiu, conforme se vê no livro de Deuteronômio, houve a nomeação de juízes e oficiais, de tal modo que cada cidade contasse com o seu próprio juiz (Deu. 16:18 ss). Se o caso assim o exigisse, os sacerdotes podiam ser convocados para atuar como juízes (Deu. 17:8-13).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 3. Editora Hagnos. pag. 636.
Êxo 22.8 Levado perante Deus. Tal como antes o sentido da frase deve ser "levado ao santuário”. O homem deve jurar solenemente em nome de Deus (ver v.11), declarando sua inocência. Esta espécie de decisão judicial precisava ser aprovada pelo queixoso (como num julgamento em que o réu tem de passar por uma prova quase impossível). Se o réu tiver jurado falsamente, a maldição que ele invocou cairá sobre ele mesmo e assim será suficientemente punido. Talvez nisso esteja a explicação da frase “ a quem Deus condena” (v.9). O homem que sofre os efeitos da maldição fica exposto como culpado pelo próprio Deus, e deve pagar em dobro ao queixoso.
R. Alan Cole, Ph. D. ÊXODO Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 166.
II. O PROCESSO
1. RESPONDER EM JUÍZO.
O verbo "dizer" em "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20.16; Dt 5.20) no Antigo Testamento hebraico é ‘ãnãh, "responder, testemunhar, falar", usado também em um processo jurídico, tanto nos tribunais humanos (Dt 19.16) como no tribunal divino (Is 3.9; 59.12; Jr 14.7). O termo hebraico ‘êd shãqer, "falso testemunho, falsa acusação", reaparece na literatura sapiencial (S127.12; Pv 6.19; 14.5; 19.5,9; 25.18). A palavra ‘êd, "declaração, testemunho", indica "alguém com conhecimento de primeira mão acerca de um acontecimento ou que pode testemunhar com base num relato que ouviu" (HARRIS; ARCHER, JR.; WALTKE, 1998, p. 1083). Tal pessoa está obrigada a testemunhar (Lv 5.1). E sheqer, "mentira, falsidade, engano", diz respeito a qualquer atividade falsa, tudo aquilo que não se baseia em fatos ou realidades. Aqui é a testemunha na qual não se pode confiar.
Entretanto, no texto paralelo em Deuteronômio, sheqer é substituído pelo substantivo hebraico shãw‘, que significa "fraude, engano, inutilidade, inútil, imprestável, falsidade, desonestidade, futilidade, vacuidade" (Dt 5.20). É o mesmo termo empregado no terceiro mandamento para "vão" em "Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente ao que tomar o seu nome em vão" (Êx 20.7; Dt 5.11). Na verdade, há uma relação entre estes dois mandamentos, como exploramos no Capítulo 4. Muitos expositores do Antigo Testamento não consideram isso uma diferença, mas uma forma de ampliar o sentido do mandamento, podendo aplicar-se tanto no campo jurídico como nos vários aspectos da vida diária. Sheqer é um termo específico, e shãw ‘ é genérico. As versões antigas não apresentam também essa diferença. A LXX emprega pseudoma seitareis, "falso testemunho", nas duas versões do Decálogo. Isso acontece ainda em outras versões antigas como a Vulgata Latina, que traduz essas palavras por falsum testimonium, além do Pentateuco Samaritano e o Targum de Ônquelos.
É no nono mandamento em que o termo "próximo" aparece pela primeira vez no texto hebraico do Decálogo como berèã ‘chã, "contra teu próximo". A palavra rêa‘, "amigo, companheiro, outra pessoa", é usada para designar "vizinho, parceiro". O amigo pode ser íntimo ou ocasional. O termo ocorre mais três vezes no décimo mandamento: "... a casa do teu próximo; ... a mulher do teu próximo,... nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20.17; Dt 5.21) e faz parte do vocabulário jurídico (Êx 21.14, 35; 22.7- 10; Dt 15.2; 19.4, 5). É a mesma palavra de "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19.18) citada pelo Senhor Jesus (Mt 19.19). A LXX traduz pela palavra grega plêsíon, "perto, próximo" ou "perto de, próximo de", que no Novo Testamento grego aparece como preposição na passagem da mulher samaritana, quando o texto diz que Sicar era perto da herdade que Jacó tinha dado a José (Jo 4.5). Como advérbio substantivado, ocorre 12 vezes em relação aos mandamentos do Decálogo (Mt 5.43; 19.19; 22.39; Mc 12.31, 33; Lc 10.27,29,36; Rm 13.9, 10; G1 5.14; Tg 2.8).
A expressão "teu próximo" era conhecida por qualquer judeu familiarizado com as Escrituras no período do ministério terreno do Senhor Jesus, mas parece que havia incerteza quanto a seu exato significado: "E quem é o meu próximo?"(Lc 10.29), perguntou um doutor da lei a Jesus. O contexto dos evangelhos deixa claro que os judeus daquela época consideravam como seus "próximos" apenas os amigos da mesma etnia, tribo e classe com quem matinha uma relação mútua de afinidade e intimidade. Mas não é esse o pensamento do Antigo Testamento, que inclui também os estrangeiros além dos israelitas (Êx 3.22; Lv 19.34). O segundo e grande mandamento, "Amarás o teu próximo como a ti mesmo", é a palavra final sobre o assunto. O próximo é qualquer pessoa, independentemente de sua etnia, status, confissão religiosa ou convicção política e filosófica.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 123-125.
Parece que o objetivo central deste mandamento é a proteção ao sistema judicial. Os tribunais seriam inúteis se os homens chegassem ali para mentir. Se tiver de ser feita uma acusação contra outra pessoa, e se 0 acusado tiver de defender-se, a verdade terá de ser dita por ambas as parles, sob pena da justiça naufragar. Mas esse mandamento também se aplica a questões individuais. A sociedade em geral perturba-se quando as pessoas saem a espalhar mentiras e calúnias sobre seus semelhantes. O trecho de Êxo. 23.1 condena 0 falso testemunho em nível pessoal. Ver Deu. 19.16-20 que requeria juízo apropriado contra falsas testemunhas que perturbavam o sistema judíciai. A linguagem e os fatos devem concordar entre si. Ver Deu. 13.14; 17.4; 22.20; Jer. 9,5; Sal. 9.5; 15.2; Pro. 12.19; 14.25; 22.21. A verdade precisa ser dita como tempero do amor (Efé. 4.15). Algumas vezes, as meias verdades prejudicam mais do que as mentiras francas. O amor, porém, guarda-nos tanto da mentira aberta quanto das meias verdades.
A mentira artística vem sendo aprovada desde os tempos mais antigos, conforme muitos eruditos supõem. Ver o caso de Labão (Gên. 29.21-27), e o caso um tanto anterior de Jacó (Gên. 27.6-36). Por outro lado, a luz que brilhou por meio de Moisés por certo condenava qualquer tipo de mentira ou abuso de linguagem.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 393.
Êxo 20.16. Não' dirás falso testemunho. Já que numa sociedade simples, vivendo no deserto, quase todos os crimes envolviam penas capitais, “ falso testemunho” bem sucedido seria equivalente a assassinato. Para evitar tal problema, a testemunha deveria ser também o executor (Dt 17:7), de modo a incorrer na culpa do sangue se estivesse mentindo. O falso testemunho assume grandes proporções no Velho Testamento (1 Rs 21:10, por exemplo), como em qualquer sociedade em que a extrema pobreza exponha o homem à tentação do suborno. Não há dúvida de que o mandamento poderia ser generalizado para incluir a proibição de intrigas e mexericos (Lv 19:16), especialmente de mexerico falso e maldoso que prejudicasse o próximo.
R. Alan Cole, Ph. D. ÊXODO Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 154-155.
O nono mandamento diz respeito ao nosso próprio bom nome, e ao do nosso próximo: “Não dirás falso testemunho”, v. 16. Isto proíbe: 1. Falar falsamente sobre qualquer assunto, com mentiras, com equívocos intencionais, e de qualquer maneira planejada para enganar o nosso próximo. 2. Falar injustamente contra o nosso próximo, para o prejuízo da sua reputação. E (o que envolve a culpa de ambos): 3. Dar falsos testemunhos contra ele, acusando-o de coisas de que ele não tem conhecimento, seja judicialmente, sob juramento (com o que são infringidos o terceiro e o sexto mandamento, além deste). Ou extrajudicialmente, em conversação comum, caluniando, difamando, inventando estórias, piorando o que é feito erroneamente e tornando-o pior do que já é, e de alguma maneira empenhando-se em aumentar a sua própria reputação sobre a ruína da do seu próximo.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 296.
2. FALSO TESTEMUNHO.
O nono mandamento não se restringe apenas ao aspecto jurídico, ao perjúrio num tribunal civil ou criminal, mas se aplica também à vida diária, como o boato e o mexerico (Êx 23.1; Lv 19.16). Estes envolvem a mentira e trazem implicações profundas na vida humana. Deus condena tais práticas, e o ensino bíblico sobre o assunto começa em Moisés e se estende até o Novo Testamento.
"Não admitirás falso rumor e não porás a tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa" (Êx 23.1). A TB traz "Não levantarás um boato falso"; a ARA e NTLH empregam "notícias falsas". A expressão hebraica para "falso rumor" aqui é shêma ’ shãw ‘. O termo shêma ’, "informação, notícia, fama, boato", é um substantivo derivado do verbo Vtpüi (shãma ‘), "ouvir, escutar, prestar atenção, obedecer". Essa informação, notícia ou fama pode ser boa ou ruim e diz respeito ao que se ouve dizer (1 Rs 10.1), diferentemente de um conhecimento pessoal, de uma experiência direta: "Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos" (Jó 42.5). E o termo shãwque significa "fraude, engano, inutilidade, inútil, imprestável, falsidade, desonestidade, futilidade, vacuidade", aparece no terceiro mandamento (Êx 20.7; Dt 5.11) e no nono mandamento na versão de Deuteronômio (Dt 5.20). O falso boato é a propagação de uma notícia infundada, não oficial e de fonte desconhecida. O contexto mostra que divulgar informação enganosa é associação com o ímpio para se tornar falsa testemunha: "E não porás a tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa" (Êx 23.1b). Mesmo as coisas triviais do dia a dia podem terminar na justiça, pois elas destroem a reputação de qualquer pessoa.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 128-129.
Como o mandamento anterior, este ressalta que as relações humanas devem ser baseadas na honestidade e verdade. Aqui, Deus pede honestidade com respeito à reputação de nosso próximo. o falso testemunho (20:16) não se restringe ao contexto de um tribunal, mas ocorre sempre que difamamos ou mentimos sobre alguém. Esse tipo de discurso é moralmente errado, pois abala a integridade do mentiroso e a reputação do indivíduo que é alvo da mentira. As palavras mentirosas têm conseqüências sérias; além de destruir relacionamentos e perspectivas de carreira, podem até resultar em prisão e suicídio. Mais adiante, Deus expande esse mandamento: “Não espalharás notícias falsas, nem darás mão ao ímpio [...] nem deporás, numa demanda, inclinando-te para a maioria, para torcer o direito” (23:1-2). Devemos nos lembrar de que testemunhas falsas foram usadas até no julgamento injusto de nosso Senhor (Mt 26:59-62; Jo 19:12).
Tokunboh Adeyemo. COMENTÁRIO BÍBLICO AFRICANO. Editora Mundo Cristão. pag. 114.
Embora negativo na forma, pode o nono mandamento apresentar um conteúdo positivo, levando-nos a não falsear a verdade em todas as afirmações (13.14; 17.4-6) e a sermos justos nos nossos juízos (17.8-13; 19.15-21). Cf. Mt 18.16. Na esteira do Mestre, deve todo o Cristão dar testemunho da verdade (Jo 18.37). E como será isto possível, senão dando testemunho daquele que é a própria Verdade?
DAVIDSON. F. Novo Comentário da Bíblia. Deuterionômio. pag. 31.
3. O PRÓXIMO.
"Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo; não te porás contra o sangue do teu próximo. Eu sou o SENHOR" (Lv 19.16). A proibição consiste em dois preceitos paralelos que expressam a mesma ideia. O termo hebraico usado aqui como "mexeriqueiro" é rãkTl, "caluniador, difamador", e aparece apenas seis vezes no Antigo Testamento, indicando alguém que calunia e revela segredos (Pv 11.13; 20.19; Jr 6.28; 9.4 [3]; Ez 22.9). Com exceção de Ezequiel, em todas elas o substantivo vem acompanhado do verbo hãlach, "andar, caminhar"; isso indica tratar-se de uma expressão idiomática para o ato de caluniar. Os léxicos geralmente informam que rãkil é um termo obscuro. A Septuaginta revela nele nuances que indicam desonestidade, decepção, duplicidade e falsidade. Assim, o mexeriqueiro aqui é muito mais que a simples fofoca ou fuxico. Isso se confirma na segunda cláusula: "Não te porás contra o sangue do teu próximo. O "sangue" diz respeito à vida: "Não atentarás contra a vida do teu próximo" (ARA). A proibição nessa segunda parte significa a responsabilidade pessoal de não colocar em perigo a vida do próximo com o falso testemunho a fim de declarar o inocente como culpado.
O mexerico corriqueiro é também condenado pela Palavra de Deus (2 Co 12.20). O cristão nunca deve falar mal de um irmão na igreja (Tg 4.11). o nono mandamento proíbe toda forma de mentira, tanto aquela que se diz deliberadamente na vida diária como também sob juramento num tribunal. Tudo aquilo que se fala com o propósito de prejudicar o bom nome de alguém é pecado e violação desse mandamento. O Senhor Jesus Cristo citou este mandamento para o moço rico, juntamente com outros do Decálogo (Mt 19.18; Mc 10.19; Lc 18.20). Da mesma maneira, fez o apóstolo Paulo (Rm 13.9). Mas na graça este mandamento aparece na esfera espiritual e não jurídica (Ef 4.25; Cl 3.9).
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 129-130.
PRÓXIMO
1. Palavras Envolvidas
Precisamos considerar quatro palavras hebraicas e uma grega:
a. Rea, «associado», «companheiro». Mas tem uma larga aplicação, incluindo até mesmo objetos inanimados (ver Gên. 15:10). Pode estar em foco um amigo íntimo (Pro. 26:10), ou um amante (Can. 5:16), ou o marido de uma mulher (Jer. 3:20). Essa palavra hebraica, pois, destaca como próximo uma pessoa que é íntima de quem fala, em um relacionamento onde imperam laços de amizade (ver £xo. 20:16, 17; Deu. 5:20). Essa palavra hebraica ocorre por cento e oitenta e nove vezes.
b. Shaken, «concidadão», «vizinho». Está em foco alguém que mora próximo, e de quem se pode pedir algo emprestado (ver Êxo. 3:22; 12:4; Pro. 27:10). Tal vocábulo também era usado para indicar cidades próximas (ver Jer. 49:18). O termo é utilizado por vinte vezes, como um substantivo, pois também era um verbo, com o sentido de «residir», etc.
c. Qarob, «próximo», referindo-se a alguém ou a algum lugar; no caso de pessoas, significava «parente». Ocorre por setenta e cinco vezes nas páginas do Antigo Testamento. Alguns exemplos: Exo. 32:27; Jos. 9:16; Sal. 15:3; Eze. 23:5,12; Gên. 19:20; Isa. 13:13; Joel 3:14; Sof. 1:14. Essas duas últimas referências mostram que a palavra também significava «perto» temporalmente.
d. Amith, «colega», «igual», «próximo». Essa palavra hebraica aparece por doze vezes no Antigo Testamento: Zac. 13:7; Lev. 6:2; 18:20; 19:11,15, 17; 25:14,15,17. Essas duas últimas referências mostram que ela pode ser traduzida em português como «outro», embora dando a entender outro ser humano, o próximo.
e. Plesíon, «próximo», «vizinho», «concidadão». Essa palavra grega aparece por dezessete vezes no Novo Testamento: Mat. 5:43 (citando Lev. 19:18); 19:19; 22:39; Mar. 12:31,33; Luc. 10:27,29,36; João 4:5; Atos 7:26; Rom. 13:9,10; 15:2; Gál. 5:14; Efé. 4:25; Tia. 2:8 e 4:12.
2. Ensinamentos Bíblicos Acerca do Próximo
Para um israelita, um outro israelita era o próximo, porquanto era um irmão, participante, com ele, do mesmo pacto com Abraão (ver Gen. 12:1-3). Dentro desse contexto foi dado o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo (ver Lev. 19:18). Esse mandamento foi universalizado no Novo Testamento; ao passo que no Antigo Testamento era restringido aos participantes do pacto abraâmico. Assim, a interpretação rabínica dizia que aos israelitas foi ordenado que amassem ao próximo, e que isso subentendia que eles deveriam odiar ao não-próximo, ou ao estrangeiro, ou ao inimigo. Jesus referiu-se a essa interpretação equivocada em Mat. 5:43 ss. E o Senhor reverteu essa ideia rabínica tão radicalmente que chegou a ordenar que amássemos aos nossos próprios inimigos, determinando que orássemos em favor daqueles que nos perseguem (ver Mat. 5:44). É desse modo que um crente chega a tornar-se um «perfeito» filho do Pai celeste (vss. 45,46] dotado de uma elevada natureza moral e espiritual. Diz Mat. 5:48: «Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste». Naturalmente, essa atitude para com o próximo faz parte da manifestação geral da lei do amor. A prática da lei do amor é prova da regeneração e da espiritualidade do indivíduo, segundo aprendemos em I João 4:7 ss.
O Antigo Testamento, de fato, emprega em sentido mais amplo o termo «próximo», conforme se vê em Êxo. 3:22; 11:2 e Eze. 16:26. Também poderíamos pensar no livro do profeta Jonas, que é o «João 3:16» do Antigo Testamento. Entretanto, essa visão mais espiritual .não conseguiu capturar a imaginação da corrente principal do judaísmo, que cada vez mais foi-se tornando uma fé exclusivista.
A mais significativa passagem neotestamentária sobre a definição de quem é o nosso «próximo», e o que isso deveria significar para nós, acha-se na parábola do Bom Samaritano, em Luc. 10:29-37.
O próximo é sempre alguma pessoa em necessidade, ao qual devemos socorrer, sem importar se essa pessoa vive perto ou longe de nós, sem importar sua raça ou religião. Do ponto de vista da criação (posto que não do ponto de vista da regeneração), todos os homens são filhos do mesmo Deus, e todos eles são irmãos. Assim, um próximo, nesse amplo sentido, tem direito ao nosso amor. Ora, esse ensino era totalmente estranho ao judaísmo exclusivista dos dias de Jesus; mas, embora concorde com a nossa teologia cristã, raramente é observado na nossa prática. A real lei de Deus consiste em amarmos ao próximo como a nós mesmos (ver Tia. 2:8); mas quanto a isso temos pouca experiência, exceto como uma proposição teológica.
Paulo também mencionou essa lei, no contexto da natureza do amor cristão (ver Rom. 13:9,10). O amor ao próximo não o prejudica. Antes, cumpre todos os requisitos da lei, que encoraja o bem e proíbe que se faça mal ao próximo (ver Gál. 5:14, que reitera esse mandamento). Um amplo ensino espiritual haverá de ser, finalmente, anunciado entre todos os homens (ver Heb. 8:11), quando então a espiritualidade do ser humano será elevada ao ponto dele deixar de ser um guerreiro tribal, conforme hoje se vê. Ver o artigo geral sobre o Amor, e também aquele sobre o Fruto do Espírito.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 5. Editora Hagnos. pag. 489.
Lv 19. 18. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Essa é a Regra Áurea. Cada um deve amar o próximo como a si mesmo. Esse é o segundo grande manda- mento, de acordo com a avaliação do Novo Testamento, que só perde em importância para o amor a Deus. Jesus citou este versículo e exaltou os princípios em que ele está alicerçado. Ver Mar. 12.31. A lei mosaica inteira repousa sobre esses dois princípios.
A lei do amor é a primeira lei da espiritualidade, e, de fato, a essência da espiritualidade (I Cor. 13). É fruto da regeneração (I João 4.7).
Teu próximo. De acordo com a definição rabínica, um compatriota hebreu. Mas notemos que até este capítulo inclui o estrangeiro (vss. 33 e 34). Jesus falou de modo que entendêssemos que próximo é qualquer outro ser humano (Luc.10.29 ss.).
Quando de Hillel foi solicitado, por um discípulo em potencial, que dissesse a essência da lei, estando de pé sobre somente um dos pés (em tempo breve, portanto), ele apresentou, sob forma negativa, o conceito à nossa frente: Ό que não quiseres que outros te façam, não faças a outros”. Mas Jesus apresentou uma versão positiva desse mesmo princípio, em Mat. 7.12: Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-0 vós também a eles”. Cf. Rom. 13.8-10.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 552.
Lv 19.17-18. A responsabilidade para com o próximo envolve uma atitude positiva de coração e mente. O ódio é ufna resposta emotiva que somente deve ser empregada contra o mal (Am 5:15), e nunca contra alguém que também é um membro (“irmão") da comunidade da aliança.
Quando se considera necessária a repreensão, a questão deve ser discutida abertamente com o transgressor, e não por detrás das suas costas, a fim de que a ira não levasse ao ressentimento e ao ódio, resultando, assim, no pecado. Paulo encorajou Timóteo a repreender os membros da igreja que estavam em erro, com amor e paciência (1 Tm 4:12). Tomar vingança da maneira de uma inimizade tradicional de sangue meramente perpetua uma injustiça, e às vezes a aumenta além de todas as proporções.
A vingança como tal pertence somente a Deus (Dt 32:35; Rm 12:19; Hb 10:30), que pagará no tempo certo. O curso para o cristão seguir em tais casos foi exemplificado por Jesus Cristo (1 Pe 2:23). A lei do amor para como o próximo é enunciada somente aqui e no v. 34, e, segundo parece, abrange membros da comunidade da aliança (“os filhos do teu povo”) juntamente com os forasteiros e estrangeiros que viviam entre eles. Na realidade, os termos “amar” e “próximo” parecem ter sido tão compreensivos no seu escopo naquele tempo quanto o são agora.
Esta assim-chamada “regra de ouro” foi citada por Cristo (Mt 19:19; 22:39; Mc 12:31; Lc 10:27, etc.) como ideal de comportamento altruístico na sociedade. O sentimento que subjaz este aforismo era sem igual no mundo antigo, e representa um dos preceitos morais mais destacados do Antigo Testamento.
R. K. Harrison. Leviticos. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 183-184.
III. A VERDADE
1. ANTIGO TESTAMENTO.
I. Terminologia Bíblica
No hebraico devemos considerar uma palavra e no grego, também uma, a saber:
1. Emeth, “verdade”, “constância”. Esse vocábulo hebraico ocorre por 92 vezes no Antigo Testamento. Há outras formas dessa palavra e outros vocábulos que ocorrem por algumas poucas vezes, e que também podem ser traduzidos como “verdade”.
2. Alétheia, “verdade”. Palavra grega que é usada por 110 vezes.
No Antigo Testamento, a palavra emeth e seus cognatos indicam as idéias de firmeza, estabilidade, fidelidade, alguma base fidedigna de apoio. É uma qualidade atribuída tanto a Deus quanto às criaturas. Também é atribuída não somente às mais diversas afirmações (por exemplo, Rute 3:12), mas também à conduta (ver Gên. 24:49) e às promessas (II Sam. 7:28). A verdade é associada na Bíblia à gentileza (Gên. 47:29), à justiça (Nee. 9:13 e Isa. 59:14) e à sinceridade (Jos. 24:14). Por essas razões, a Septuaginta, com freqüência, a traduz pelo termo grego pistis, “fé”, “fidelidade”, “convicção”, a fim de expressar o aspecto moral, em vez de empregar alétheia, “verdade”.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 5. Editora Hagnos. pag. 593.
Dt 32 .4 — Diferente da ineficácia dos deuses pagãos (v. 37), Deus dá a vida, a estabilidade e a felicidade ao povo (v. 15,18,30,31). A vida abundante que Ele concede é baseada em Sua obra perfeita. Como uma Rocha firme que permanece inabalável diante das águas furiosas de um mar revolto, o Senhor e Sua obra continuam sólidos perante o caos produzido pelas vidas em pecado. O Todo-poderoso é a fundação segura de toda verdade num mundo decadente. Além disso, Ele nunca deixará as mentiras corromperem a justiça (Sf 3.5). Ao contrário, como um juiz justo e reto, protegerá os oprimidos.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Antigo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 335.
Dt 32 (4) Ele é um Deus de verdade, cuja palavra podemos aceitar, e nela podemos confiar, pois não pode mentir aquele que é fiel a todas as suas promessas, nem suas ameaças cairão por terra.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 662.
Dt 32.1-4. Acerca do testem unho de céus e terra, cf. Is 1.2; M q 6.1,2. As palavras do cântico lembram a chuva e o orvalho porque refrescam e renovam os ouvintes, já que aludem ao caráter de Javé. Ele é tão sólido e confiável como uma rocha.
Bruce; F. F. Comentário Bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. Editora Vida. pag. 386.
2. NOVO TESTAMENTO.
Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros" (Ef 4.25). O apóstolo Paulo mostra que engendrar pensamento falso, falar mentira, propalar falsos rumores faz parte do estilo de vida do mundo pagão. Os gentios convertidos à fé cristã tinham pela frente o desafio de mudar o seu padrão de vida; precisavam agora viver como discípulos de Cristo. Verdade é aquilo que corresponde aos fatos, em contraste com qualquer coisa enganosa, a mentira (Dt 13.14; 17.4; is 43.9).
A mentira é o oposto à verdade; trata-se da prática do engano, da falsidade e da traição. No contexto bíblico, a mentira vai além da prática intelectual da desonestidade; é uma distorção do verdadeiro eu e da nossa relação com Deus e com o próximo (1 Jo 2.4; 4.20).
A proibição aqui é a divulgação não oficial e de fonte desconhecida de informação ou notícia no meio do povo de Deus. A lei que manda amar o próximo proíbe o discurso nocivo, ainda mais quando o objetivo é destruir a vida ou a reputação do outro.
A pessoa confiável e de bem guarda segredo e não divulga o que ouve para não prejudicar o próximo.
Esequias Soares. Os Dez Mandamentos. Valores Divinos para uma Sociedade em Constante Mudança. Editora CPAD. pag. 130.
Nas páginas do Novo Testamento, alétheia retém a ênfase moral e personalista que o termo paralelo hebraico tem no Antigo Testamento, embora a noção de fidelidade, com mais freqüência, seja transmitida através da palavra grega pistis. Etimologicamente, alétheia sugere que alguma coisa tenha sido descoberta, revelada, segundo a
sua verdadeira natureza, dando a ideia daquilo que é real e genuíno, em contraposição com o que é imaginário ou espúrio, ou, então, daquilo que é veraz, em contraposição com o que é falso. Assim, lemos a respeito do “verdadeiro Deus” e da “verdadeira vinha”, tal como o Credo Niceno faia sobre “o vero Deus do vero Deus”. O adjetivo grego, aléthinos, aparece em contextos assim, ao passo que alethés é palavra empregada como um predicado (ver Mat. 22:16; João 3:33, etc.). A julgar pelo uso que esses dois adjetivos têm no Novo Testamento, não se pode averiguar qualquer diferença essencial no significado fundamental desses dois termos, Porém, as referências neotestamentárias a declarações verazes tomam evidente que o conceito de verdade cognitiva deriva-se das noções de franqueza ou caráter fidedigno (ver, por exemplo, Mar. 5:33; 12:32; João 8:44-46; Rom. 1:25 e Efé. 4:25).
O conceito cognitivo é mais explícito no Novo Testamento do que no Antigo Testamento. A verdade está ligada não somente à fidelidade e à justiça, mas também ao conhecimento e à revelação. Isso se deve, pelo menos em parte, à intrusão da cultura grega com seus interesses mais acentuadamente teóricos no mundo judaico; e, também, em parte, ao idioma grego, e, portanto, seria um erro supormos que a língua grega e, portanto, o uso que o Novo Testamento faz do vocábulo aletheia, reflita um dualismo platônico, e, portanto, uma epistemologia platônica ou mesmo gnóstica. Pois, em primeiro lugar, a filosofia grega é muito variada do que isso subentende: não havia somente uma epistemologia grega. Em segundo lugar, os escritos bíblicos moldavam os significados que queriam dar a entender, mediante o seu próprio uso criterioso dos vocábulos. Sem dúvida alguma, ao escreverem para uma cultura já helenizada, com suas diferentes compreensões acerca da verdade, esses escritores conservavam em mente a ideia de verdade cognitiva. Todavia, a maneira de pensar dos escritores sagrados era mais diretamente moldada pelos conceitos veterotestamentários e acima de tudo, pela crença de que o verdadeiro Deus, o Deus alethinós, não vive oculto, mas antes, age e fala com uma franqueza totalmente digna de confiança (alethés).
II. Três Conceitos de Verdade na Bíblia
O uso que a Bíblia faz da palavra verdade, sugere três conceitos relacionados entre si, a saber: 1. a verdade moral; 2. a verdade ontológica; e 3. a verdade cognitiva. Naturalmente, os conceitos 2 e 3 dependem, logicamente, do conceito 1; e o conceito 3 depende, logicamente, dos conceitos 1 e 2. Em cada um desses casos, entretanto, a base da verdade se encontra em Deus, que é a fonte originária e o padrão de 1, a retidão; 2, o ser; e 3, o conhecimento.
1. A Verdade Moral. A verdade é um dos atributos de Deus. Como tal, esse vocábulo se refere à integridade, ao caráter digno de confiança e à fidelidade de Deus. Um poeta hebreu colebra esse atributo em Salmos 89, e o profeta Oseias o faz cm Osé. 2:19-23. Em ambos os casos, a verdade divina é combinada com a misericórdia e o amor dc Deus. De acordo com Deuteronômio 32:4, Salmos 100:5 e 146:6, a fidelidade de Deus é revelada por meio da criação; e, no livro de Apocalipse, esse é o atributo de Deus sobre o qual repousa a expectação de juízo (ver Apo. 3:7,14; 6:10; 15:3,4; 19:11 e 21:5).
Visto que o caráter divino deve ser imitado pelos homens, a verdade também deveria ser uma qualidade, virtude ou atributo humano. Por esse prisma, a verdade importa em honestidade (Sal. 15:2; Efé. 4:25) e justiça civil (Isa. 59:4,14,15). Dizer a verdade, portanto, para o homem constitui uma obrigação, de tal maneira que a veracidade (verdade cognitiva) seja uma das características do homem em quem se pode confiar (verdade moral). Entretanto, espera-se de cada indivíduo que se mostre íntegro diante de Deus e de seus semelhantes (Êxo. 18:21; Jos. 24:14). Nesse sentido moral, a verdade não é algum mero verniz superficial, pelo contrário, parte do próprio coração, distinguindo o caráter inteiro do homem interior (I Sam. 12:24; Sal. 15:2; 51:6).
2. A Verdade Ontológica. Originando-se no conceito de que o indivíduo que é inteiramente digno de confiança é veraz, temos aquele outro conceito do indivíduo que efetivamente é aquilo que se propõe a scr. Isso significa que tal indivíduo não vive uma ficção, não procura enganar ao próximo, c nem é um homem que dê um exemplo imperfeito ou negativo. Nesse sentido, “a verdadeira luz” (João 1:9) é a perfeição que João Batista refletia em parte, em sua pessoa; “o verdadeiro pão” (João 6:32) faz contraste com o imperfeito maná de Moisés; e “os verdadeiros adoradores” (João 4:23) fazem contraste com aqueles que adoravam por mera antecipação, aguardando por quem não conheciam o Messias. Os crentes tessalonicenses abandonaram seus ídolos a fim de servirem ao verdadeiro Deus (I Tes. 1:9). Cristo é a verdade personificada.
É nesse sentido que falamos sobre “um verdadeiro homem”, “um verdadeiro erudito” ou “um verdadeiro filho”,
dando a entender alguém que é fiel a algum ideal, que representa perfeitamente algum padrão de virtude. A teoria grega dos universais via, em todos os particulares, uma participação, em algum grau, nas formas ideais dos universais. Pensadores cristãos como Agostinho, Anselmo e Tomás de Aquino equipararam essas formas com as idéias e os decretos divinos (verdades eternas), tendo atribuído uma “verdade ontológica” aos objetos naturais que dão corpo a essas idéias e decretos. Entretanto, essa noção não se originou dos ensinamentos bíblicos, mas pela combinação das teorias gregas sobre a forma com o conceito bíblico de um Criador que faz todas as coisas em consonância com a sua perfeita vontade.
3. A Verdade Cognitiva. Um outro fator resultante da verdade moral é que o indivíduo veraz diz a verdade e não a mentira ou falsidade. Em Deus, a verdade origina-se na sua onisciência, de tal modo que o atributo da verdade se refere, pelo menos em parte, ao seu perfeito conhecimento de todas as coisas (Jó 28:20-26; 38:39). Visto que Deus é o Criador, tudo quanto sabemos depende, em última análise, do Senhor. Toda verdade é uma verdade divina. Nossas habilidades cognitivas são uma criação de Deus, e o caráter inteligível da natureza confirma a sabedoria de Deus. Por conseguinte, o conhecimento de Deus é um conhecimento arquétipo, do qual o nosso conhecimento é parcial, uma imitação. Aquilo que declaramos verdadeiro, só o é à proporção que concorda com a verdade, que só se manifesta perfeitamente na pessoa de Deus. Isso posto, a verdade terrestre é contingente, dependente, limitada, provisória. É por um motivo assim que o apóstolo dos gentios explicou que “... agora vemos como em espelho, obscuramente...”, e que somente na presença imediata de Deus, quando estivermos na glória, é que “...veremos face a face ...”. Sim, ainda no dizer do apóstolo, agora conhecemos apenas parcialmente; no céu conheceremos tal e qual somos conhecidos. Em contraste com o nosso conhecimento refletido, a verdade arquétipa é ilimitada, imutável e absoluta. No caso do homem, a verdade permanece em formação constante; mas, no caso de Deus, a verdade já é perfeita, completa.
Isso é expresso através do conceito do Logos, nos escritos de João, bem como na discussão, na epístola aos Colossenses, sobre o fato de estarem ocultos, em Cristo, “...todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento...” (Col. 2:3). O Cristo, por intermédio de Quem todas as coisas foram criadas, e que agora sustenta a tudo em existência, é aquele que empresta, à natureza e à história, inteligibilidade, boa ordem e propósito. Conhecer a Cristo é conhecer a fonte onisciente de toda a verdade, de todo o conhecimento, não a fim de que possamos saber de tudo quanto ele sabe, mas a fim de podermos compreender como são possíveis todo o conhecimento e toda a sabedoria. Cristo é aquele que garante o caráter fidedigno de qualquer verdade que podemos obter.
Apesar dc ser evidente, no Novo Testamento, o conceito cognitivo da verdade (ver, por exemplo, Mar. 5:33; 12:32; Rom. 1:25), é particularmente aplicado ali à mensagem anunciada por Cristo e seus apóstolos (João 5:33; 8:31-47; Rom. 2:8; Gál, 2:5; 5:7; Efé. 1:13; I Tim. 3:15; I João 2:21-27). Um mensageiro cristão fiel fala a verdade que procede de Deus; e, correspondendo a essa verdade de Deus, o crente confia em Deus, de quem procede essa verdade. A fé, pois, consiste tanto no assentimento da verdade como na dependência ao que Deus declara. Por isso é que se lê que uma pessoa “pratica a verdade”, quando dá o seu assentimento à mensagem do evangelho e
confia em Cristo, em vista de sua “verdade moral” ou fidelidade (ver I João 1:6-8; 2:4; 3:18,19).
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 1. Editora Hagnos. pag. 593-595.
« ...e a verdade...» Quanto a este particular, poderíamos destacar os pontos seguintes:
1. Jesus é a verdade de Deus porque, na qualidade de «Logos» eterno (ver João 1:1), ele é a perfeita revelação de Deus e de sua verdade, e isso não meramente para os homens, mas também para todos os seres criados.
2. Jesus é, especialmente, a revelação de Deus aos homens, no que concerne à salvação deles. Sua própria pessoa representa realmente essa verdade, porque nele, segundo os eternos conselhos divinos (ver Efé. 1:3-5), ele sempre esteve unido a Deus Pai, e o plano da redenção dessa maneira se originou dele. Assim sendo, em sua encarnação, ele trouxe essa verdade da redenção aos homens. Em sua ascensão, ressurreição e glorificação, ele assegura aos remidos a mais plena participação em toda a sua glória e em sua natureza divina. Portanto, por esses motivos ele é a verdade metafísica do homem.
3. Jesus é a verdade do caminho pelo qual os homens devem retornar a Deus, porquanto ele é o exemplo supremo e o ilustrador desse caminho. Essa é a verdade envolvida em sua encarnação. Tudo quanto o homem precisa saber está contido em sua pessoa. Jesus é a verdade ética do homem.
4. Dessa maneira, em sua própria pessoa, Cristo Jesus combina tudo quanto os homens precisam saber, crer e ser, tanto no que diz respeito à natureza de Deus como no que tange à natureza e à posse da redenção e da glória eterna.
5. Jesus é a Verdade, em o posição à religião falsa, como o judaísmo desviado e obstinado. Ele é aquela verdade para a qual apontava a lei mosaica, e da qual o pacto do A.T. era apenas uma sombra pálida. Ele é a materialização dá verdade espiritual, e não meramente um profeta de Deus ou uma representação parcial polêmica cristã contra os judeus incrédulos, que rejeitaram ao seu próprio Messias. O autor sagrado queria que tais pessoas soubessem que tudo aquilo em que confiavam, como uma revelação da parte de Deus, nada significava à parte da pessoa de Jesus Cristo, posto ser ele a concretização de toda a verdade de Deus, ao passo que Moisés, a lei e os profetas meramente apontavam para Cristo.
6. Em sua própria essência. Cristo também é a verdade de Deus, porquanto ele mesmo é divino, e assim nos tem mostrado qual é a natureza de Deus ou a verdadeira forma de vida que ele possui, a qual ele está transmitindo aos homens através de Cristo. Essa é justamente a mensagem de um trecho como Col. 2:9, onde se lê: «...porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade...» Ou então do trecho de Col. 1:15: «Ele é a imagem do Deus invisível...».
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 2. pag. 523.
Ele os traz em segurança ao lar situado lá em cima. Cristo é a verdade: Cada palavra sua pode ser confiada implicitamente, pois ela ensina o conhecimento de Deus, de aponta o caminho. O caminho que ele ensina é o único caminho certo, pois ele é a verdade absoluta. Cristo é a vida: Ele é o manancial e o doador de toda verdadeira vida, a vida que vivifica a todos aqueles que creem nele, e que é para ser gozada eternamente no fim do caminho. Aquele que nele crê tem a vida eterna, no que está na vontade e intenção de Deus, está completamente unido a Deus. Sendo estas coisas verdadeiras, a conseqüência é que ninguém pode vir ao Pai, ou alcançar o gozo da bendição eterna, a não ser só por Jesus. Não há outro caminho, sendo que todos os caminhos que são imaginados pelas pessoas, os caminhos das boas obras e da justiça própria, são trilhos falsos os quais levam à destruição eterna. Jesus é o único caminho ao céu. “Creio que é isto o que ‘verdade’, que é a segunda palavra, significa em toda sua simplicidade, a saber, que Cristo não é somente o começo do caminho, mas que é o caminho verdadeiro e seguro, que finalmente permanecerá o caminho ao qual a gente sempre se precisa ater, e não permitir que o trilho errado nos seduza a buscar algo ao lado de Jesus que nos possa ajudar na salvação.
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento. Editora Concordia Publishing House.
3. O QUE É A VERDADE.
« ...Perguntou-lhe P ilatos: Que ê a verdade?...» A pergunta, feita ao Senhor Jesus por Pilatos, e que este último não esperou ser respondida, tem sido encarada de diversas maneiras pelos intérpretes, como segue: 1. «‘Q ue é a verdade?’ disse Pilatos a zombar, sem querer esperar pela réplica». (Lord Bacon).
2. Outros estudiosos vêem uma forma de amargura mental expressa neste ponto, por alguém que já fora empurrado para lá e para cá, »no mundo político altamente competitivo e ilusório, onde a verdade real sempre aparece como a última consideração.
3. Alguns percebem nessa pergunta de Pilatos um tom de sarcasmo. Sucederia, por acaso, que aquilo que os grandes filósofos gregos, seguidos por não insignificantes pensadores romanos, não conseguiram definir e provar, havia encontrado definição por aquele entusiasta judeu? E poderia a verdade derivar-se de uma sociedade como a dos judeus, inimigos do gênero humano, que naquele exato momento exigiam a morte de um homem inocente? «Esse famoso escárnio de Pilatos revela a sua própria ignorância sobre a verdade, estando ele defronte da verdade encarnada». (Robertson, in loc.).
4. Certos estudiosos têm pensado que a indagação de Pilatos expressou uma inquirição autêntica e sincera pela verdade. (Assim pensavam Crisóstomo, Teodoreto, Arécio e outros). Porém, essa opinião não parece coincidir com a realidade dos fatos.
5. Lange (in loc.) opinou como segue: «Evidentemente ele ‘Pilatos’ não tinha qualquer idéia de verdade subjetiva e vital, e por verdade entendia meramente um problema objetivo escolástico sobre o que um homem prático e de negócios não precisava perder tempo em meditações». Essa interpretação é apoiada pelo fato de que os romanos, em sua maior parte, não se envolviam em especulações metafísicas acerca da verdade e sua natureza, a exemplo dos gregos; e, por igual modo, na filosofia romana, o ceticismo se torriara muito forte. Por definição filosófica, o ceticismo afirma que não existe qualquer coisa como uma verdade certa, imutável e eterna, e que, mesmo que tal coisa exista, os homens ainda não encontraram meios para descobri-la, não sendo mesmo provável que se possa encontrar esses meios de descoberta ou descrição. Naturalmente esse parecer dos antigos romanos é o arauto do moderno ceticismo científico, conforme pode ser visto no positivismo lógico, que decreta que a descoberta da verdade é impossível para os homens, reduzindo a filosofia a uma mera tentativa de fornecer algum método científico ao processo do raciocínio. Para essa escola, a verdade é o que funciona em qualquer dada situação, mas, em face da alteração das circunstâncias ou situações, a verdade passa a ser outra.
Pilatos, quer inclinado quer não às especulações filosóficas, sem dúvida compartilhava de algo dessa atitude tipicamente romana, por ser parte de uma sociedade que encarava as coisas dessa maneira.
Portanto, a sua pergunta a Cristo, para a qual não esperou resposta, equivale a uma declaração sua, como, por exemplo: «Quem se importa com a verdade? Esse reino de que falas, ó Jesus, é um reino que não pode ferir nossos interesses ‘romanos’ aqui em Jerusalém. Que tenho eu a ver com províncias e reinos que não podem render tributo, que não podem produzir qualquer exército que se revolte contra nós? Não passas de um fanático, e não representas qualquer ameaça política real».
E assim, com um gesto que deixava ver a sua impaciência -pois não tinha interesse algum em ouvir mais qualquer coisa sobre o que lhe parecia especulações teológicas loucas—voltou Pilatos as costas a Jesus, não querendo mais ouvi-lo. Não obstante, estava convicto de sua inocência e proclamou essa opinião francamente à multidão que o esperava ululante lá fora. Declarou que Jesus não era culpado de crime algum e que suas aspirações à realeza eram inteiramente diversas daquilo de que vinha sendo acusado.
O vocábulo «...eu...» é enfático dentro da frase: «Eu não acho nele crime algum». É como se Pilatos houvesse dito à multidão: «Quanto a vós, tendes encontrado falta nele, mas injustamente, por motivo de ódio e preconceitos religiosos e por causa dê vossa inveja; mas, quanto a mim, não encontro crime algum neste homem».
«Pilatos escarneceu tanto da grande Testemunha da Verdade como dos que aborreciam a verdade. Sua conduta apresenta um lamentável exemplo da fraqueza moral daquele espírito de poder mundano, que atingiu o seu ponto culminante no império romano». (Alford, in loc.).
A declaração que Pilatos fez nessa oportunidade, e que coincidia com a verdade e com a justiça mais pura, não demorou a ser obliterada pelas maquinações da política, onde parece mais importante preservar a paz do que salvar a vida de um inocente.
«Não encontro motivo algum para a acusação legal (ver o vs. 33). Sem importar o que ele ‘Jesus’ seja, não há qualquer prova de traição contra a majestade de César». (Ellicott, in loc.).
«A única certeza que há é que nada é certo, nem mais miserável do que o homem, e nem mais orgulhoso». (P lín io , o Velho, que assim deixava transparecer sua atitude, própria da sua época).
«A finalidade de Pilatos corresponde a uma vida vazia de toda base de verdade objetiva; de'conformidade com as autoridades clássicas, ele terminou por suicidar-se, em conseqüência de graves infortúnios». (Eusébio, História Eclesiástica, II.7).
No tocante à verdade do cristianismo, Arthur John Gossip (in loc.)
declara: «Caso Pilatos se tivesse demorado um pouco mais, Cristo poderia ter-lhe respondido: ‘Eu sou a verdade...’ Mas até isso, com toda a probabilidade, pouco ou nada teria significado para aquele altivo romano. No entanto, isso seria estritamente verdadeiro».
Não faz muito tempo em que certo professor, de nome Charles Kingsley, resignou sua cadeira de professor de história, sob a alegação de que não existe aquilo que convencionamos chamar de história, pois não haveria conhecimento fidedigno sobre os acontecimentos passados, conforme eles realmente sucederam, mas tão-somente narrativas inexatas, coloridas pelos preconceitos deste ou daquele. E muitos, por semelhante modo, têm desistido da busca pela verdade.
A verdade que conhecemos
1. Sabemos de bem pouco, mas aquilo que sabemos é imensamente importante.
2. Em contraste com o conhecimento de um historiador, que depende de pesquisas do passado distante, e isso contando com meios inadequados, a busca pela verdade religiosa depende da revelação. A revelação depende do interesse de Deus pelo mundo, e é evidência do mesmo.
3. A verdade é comprovada nas vidas daqueles que são transformados segundo a imagem de Cristo. Ê necessário poder para que isso se concretize, e o que é bom traz consigo suas próprias evidências.
A sabedoria não é finalmente testada nas escolas,
A sabedoria não pode passar de quem a tem para quem não a tem,
A sabedoria é da alma, não é susceptível de prova, é sua própria prova.
(Walt Whitman, Canção da Estrada Aberta).
Conforme disse Aristóteles (Retórica 11.13), a verdade é que os homens se vão tornando menos e menos dogmáticos, à proporção em que envelhecem, reconhecendo cada vez mais a vastidão da verdade; e isso certamente é o caso da verdade de Cristo, pois essa é infinitamente ampla e não pode ser contida por qualquer credo ou denominação religiosa, porquanto é impossível alguém cercar Deus com uma sebe.
Contra a arrogância
1. A fé não consiste de não crer em algo que não é a verdade. Urr dogma pode servir de obstáculo para a verdade que conhece as coisas. 2. Nenhuma denominação ou fé isolada pode ser guardiã da verdade
divina. Podemos aprender coisas de outros, e as janelas deveriam ser
mantidas abertas, para permitir que a luz entre, para que possa haver
crescimento.
Da preguiça que aceita meias-verdades,
Da arrogância que pensa conhecer toda a verdade,
O Senhor, livra-nos.
O próprio Paulo exibiu grande confiança: «Sei em quem tenho crido», e, no entanto, aludiu a si mesmo como mero principiante na inquirição pela verdade espiritual. (Ver II Tim. 1:12, em comparação com Fil. 3:10-14.
Quanto a Jesus como «a personificação da verdade», ver João 14:6).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 2. pag. 603-604.
Quando Pilatos ouve essa observação a respeito da verdade, ele dá de ombro. Cético como era, esse assunto não lhe desperta nenhum interesse. É bom ter em mente, neste contexto, que muitos líderes romanos tinham desistido de todas as crenças pagãs com respeito aos deuses. Ah, bom, no final de contas os deuses podem existir e se vingarem de quem os ofende. Por essa razão, muitas dessas pessoas, inclusive aquelas da fam ília de Pilatos (ver M t 19.7-9; M t 27.9), eram dom inadas por medo supersticioso; mas quanto a convicções arraigadas ou fé profundam ente radicada com respeito a Deus ou realidades básicas, isso sim plesm ente não existia para eles.
É nesse espírito de ceticismo e cinismo extremos que Pilatos deixa escapar: “O que é a verdade?” , não se dando conta de que a resposta estava em pé à sua frente (ver sobre 14.6).
Tendo dito isso, Pilatos retoma ao pórtico e definitivamente diz aos judeus - a multidão está crescendo sem parar em frente ao pretório - , “Eu não acho nele crim e algum ”. Nenhum crime, nenhum a causa para acusação! Este homem, Jesus, tal como Pilatos o via, especulava em fantasias espirituais, não era um indivíduo perigoso. Da parte dele, não havia perigo para o estado. Se o governador fosse um homem honesto, se estivesse disposto a servir à causa da justiça, ele teria, neste ponto, liberado o prisioneiro. Mas Pilatos não era esse tipo de homem. Para o caráter de Pilatos, ver sobre 18.29, 30.
Quando os judeus - pensamos que especialmente nos líderes, os membros do Sinédrio - , ouviram o veredicto de Pilatos (“Não há m otivo para acusação”), imediatam ente acusaram Jesus de sedição, que segundo eles tivera seu começo na Galiléia e continuado até Jerusalém. O resultado foi que Pilatos - que, naturalmente, sabia muito bem que tinha total jurisdição nesse caso, pois, segundo a acusação, a tentativa de insurreição teria ocorrido dentro dos portões de Jerusalém! - o enviou a Herodes. Foi um gesto de cortesia. E, ao m esm o tem po (e isso estava no âm ago da mente de Pilatos), se porventura Herodes estivesse disposto a julgar esse caso, ele (Pilatos) ficaria livre dele. E ficar livre dele era o que Pilatos mais queria! A história do aparecimento de Jesus perante Herodes é contada em Lucas 23.5-12. O estratagema falhou. Herodes devolveu o prisioneiro, paramentado num a vestimenta de chacota. Então, Pilatos outra vez se dirige aos membros do Sinédrio, dizendo-lhes que nem ele nem Herodes acharam motivo para acusação. M as, novam ente ele transige. Temor supersticioso e, quem sabe, um resquício de senso de justiça impedem Pilatos de sentenciar Jesus a ser crucificado. Ele não está pronto para isso ... pelo menos não ainda! Por outro lado, o medo do que judeus pudessem fazer-lhe caso acrescentasse m ais um a ofensa às anteriores, o impede de soltar Jesus. Desse modo, seu perverso coração está dividido entre os dois temores. Então, ele se propõe agradar aos judeus sugerindo chicotear Jesus; e aplacar a voz de sua própria consciência e os deuses {caso eles existissem !) não emitindo a ordem de crucificar o prisioneiro. Ver Lucas 23.13-16.
Os judeus, entretanto, têm outros planos. Nesse momento, a multidão - a essa altura um a multidão se juntara! - exige de Pilatos que ele faça o que tem costume de fazer por ocasião da Páscoa, isto é, soltar um prisioneiro, que eles indicariam (talvez como símbolo e recordação da libertação de seus ancestrais da casa da servidão no Egito).
KRETZMANN. Paul E. Comentário Popular da Bíblia Novo Testamento Editora Concordia Publishing House. 830-831.
Jo 18.37. Pilatos entendeu pouco. Ele sabe que Jesus falou de seu ‘reino’ e, portanto, que as pretensões de Jesus como um rei devem ser investigadas mais profundamente:
Então, você é rei! A resposta de Jesus, traduzida literalmente, diz: “Tu dizes que sou rei”, perifrasticamente traduzida por Dodd como “‘Rei’ é uma palavra tua, não minha” (H TFG, p. 99; de forma similar, Bruce, pp. 353-354). Mas, na realidade, a evidência é muito forte de que a expressão é certamente afirmativa (assim, a tradução da BLH “É o senhor que está dizendo que eu sou rei!”), mesmo se, como na expressão mais simples, ela é hesitante ou leva a uma circunlocução. Em outras palavras, Jesus foi tão longe na auto-revelação que ele deve confirmar abertamente seu próprio status real, mas ele estaria iludindo muito se não continuasse a explicar a natureza peculiar de seu reino. Depois de descrever seu reino com uma forma negativa (v. 36), ele agora define sua missão real positivamente.
Ele nasceu para ser um rei, para isso ele veio ao mundo: no contexto do quarto evangelho, esse par de expressões refere-se à encarnação, sua mudança da glória que compartilhava com o Pai em sua presença (17.5) para a sua manifestação nesse mundo arruinado para manifestar algo daquela glória (1.14). Somente nesse momento desse evangelho, o nascimento de Jesus é mencionado sem nenhuma ambiguidade. Ele veio, em suma, para ser um rei - ou, de outra forma, para testemunhar da verdade (alêtheia-, cf. notas sobre 1.14; 4.24; 14.6). O paralelismo sugere que seu reino é o reino da verdade; ou, de forma mais precisa, o exercício de seu reinado de salvação é praticamente indistinguível de seu testemunho da verdade.
Nesse contexto, a verdade é interpretada em um sentido mais que intelectual (cf dela Potterie, 2. 624ss.); ela é apenas a auto-revelação de Deus em seu Filho, que é a verdade (14.6). Revelar a verdade de Deus, da salvação e do juízo, era o principal meio de fazer súditos, de exercer seu reinado salvífico (cf. Lagrange, p. 477).
De forma similar, somente aqueles que são corretamente relacionados com Deus, com a própria verdade, podem compreender o testemunho que Jesus fornece da verdade (cf. 3.16-21). Todos os que são da verdade ouvem a Jesus (cf. 10.3,16,27).
38a. Se o reinado de Jesus é indistinguível de seu testemunho da verdade, e se seus seguidores são caracterizados por fidelidade a seu testemunho, e não pela revolução violenta, Pilatos é forçado a reconhecer que Jesus está sendo vítima de uma conspiração do Sinédrio. Além disso, há um convite implícito nas palavras de Jesus. O homem no banco dos réus convida o juiz para ser seu seguidor, para juntar-se àqueles que são “da verdade”. Jesus não é perigoso; mas ele também pode estar irritando Pilatos. De qualquer forma, Pilatos abruptamente termina o interrogatório com uma curta e cínica pergunta: Que é a verdade? - e com a mesma rispidez dá as costas, seja porque ele está convencido de que não existe uma resposta, seja porque ele não quer ouvi-la, o que é mais provável. Ele prova, assim, que não está entre aqueles a qúem o Pai deu a seu Filho (cf. Haenchen, 2. 180).
D. A. CARSON. O Comentário De João. Editora Shedd Publicações. pag. 595-596.
IV. O CUIDADO COM A MENTIRA
1. AS TESTEMUNHAS.
Sobre o Falso Testemunho (19.15-21)
Dt 19.15 Pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Esse múltiplo testemunho concorria para a preservação da justiça. A lei mosaica era severa, e por muitas vezes requeria a punição capital, devido a crimes que na cultura moderna não seriam castigados tão severamente. Uma testemunha falsa poderia tentar eliminar um adversário prestando um testemunho falso: “Meu vizinho estava adorando um ídolo!”. A fim de impedir tão ultrajante conduta, pois, foi estabelecida a lei das “duas ou mais testemunhas”. Desse modo o perjúrio, embora não fosse eliminado de todo, pelo menos era grandemente reduzido. Já vimos essa lei em Deu. 17.6. As notas oferecidas ali aplicam-se também aqui. O depoimento de testemunhas precisava ser investigado. Os juízes e os tribunais locais não deveriam aceitar passivamente os caprichos desonestos dos homens. Juízes inquiririam as teste- munhas. E as testemunhas falsas deveriam ser executadas (Deu. 19.19). Isso lançaria o temor no coração de todos, dificultando o pecado de perjúrio.
Ό uso veraz da língua, ao evitar a todo o transe a calúnia e a acusação falsa, é um dos princípios centrais da ética bíblica, sendo esse pecado condenado no nono mandamento da lei. Aqui esse principio foi expresso em linguagem leal, para uso nos tribunais (cf. Êxo. 23.1; Lev. 19.11-18)" (G. Ernest Wright, in ioc.).
As testemunhas não podiam prestar seu testemunho por meio de cartas, nem podiam enviar representantes. Era mister que comparecessem pessoalmente, a fim de serem inquiridas pelos juízes. E se houvesse 0 envolvimento de algum idioma estrangeiro, não podia haver um intérprete entre as testemunhas e os juizes. As testemunhas tinham de encarar os juízes. Cf. Núm. 35.30.
Dt 19.16 Quando se levantar testemunha falsa. É de presumir-se que os casos complicados fossem submetidos à apreciação da Corte Suprema, que funciona- va no santuário central, em Jerusalém. Ver Deu. 17.18 ss.. O lugar determinado por Yahweh como o santuário central também abrigaria o Tribunal Superior, que julgaria os casos mais difíceis. Israel dispunha de severas leis de retaliação, como olho por olho e dente por dente (vs. 21), e isso precisava ser regulamentado com medidas extremas, mediante investigação e depoimento de testemunhas oculares, para que houvesse sempre julgamentos justos. Leis severas exigiam uma justiça estrita.
Dt 19.17 Então os dois homens. É provável que tenhamos aqui a descrição daqueles entre os quais tivesse surgido alguma pendência, no santuário central; mas, se um concilio local estivesse envolvido, então deveriam prevalecer as mesmas regras de justiça. O vocábulo no singular, “juiz”, que ali aparece (vs. 9), talvez seja uma referência ao sumo sacerdote, que era o juiz supremo em Israel. A passagem de Deuteronômio 17.8-13 aborda a Corte Suprema, e nas notas expositivas a res- peito, dou informações acerca dos oficiais que operavam ali, bem como dos tribunais secundários. Ver também Deu. 16.18 ss.. Nesse versículo 18 dou informações específicas sobre a estrutura dos antigos tribunais de Israel.
Homens. Mulheres não podiam servir de testemunhas. Ver Bartenora, see. 5. Esse mesmo documento antigo assevera que tanto as testemunhas quanto os acusados tinham de dar e ouvir o testemunho estando de pé.
Perante o Senhor. Assim foi dito porque o tribunal e suas regras de ação tinham sido estabelecidos por ordem divina. Deus era o observador silente que acompanhava 0 processo inteiro de justiça, e a Sua presença inspiraria os juízes a impor uma justiça estrita.
O comparecimento pessoal era uma necessidade. Ninguém podia escrever uma carta ou enviar um seu representante.
Diante dos sacerdotes e dos juízes.
Dt 19.18 Os juízes indagarão bem. Investigações criteriosas faziam parte do dever dos tribunais, em Israel. Ninguém podia mostrar-se frívolo, nessas ocasiões. Com freqüência, a punição capital era o fim do julgamento. O Targum de Jonathan refere a um exame e interrogatório completo das testemunhas. Ver Deu. 17.4, quanto à expressão “indagarás bem”. Ver também Deu. 13.12-14 e 17.9. O trecho enfatiza a questão. Não se permitia testemunho por “ouvir dizer”, em Israel.
Dt 19.19 Assim exterminarás o mal do meio de ti. O próprio Yahweh cuidaria para que os tribunais de justiça de Seu povo não falhassem. Se alguma testemunha falsa fosse descoberta pelas investigações, então tal indivíduo sofreria exatamente 0 castigo que tinha esperado infligir sobre seu vizinho ou conhecido inocente.
A questão era levada “perante o Senhor” (vs. 17), porquanto era 0 tribunal do Senhor e os juízes do Senhor estavam julgando o caso. Sua presença, invisível mas real, seria garantia absoluta da justiça.
O castigo poderia tomar a forma de uma multa, de açoites, da perda de um dos membros do corpo, ou então de execução por apedrejamento, estrangula- mento, execução na fogueira ou morte à espada. As testemunhas falsas seriam sujeitadas a uma dessas punições, sem importar qual delas tivesse sido planejada para o homem falsamente acusado.
Dt 19.20 ... o ouçam e temam. Aqueles que sobrevivessem ao incidente (como a familia do homem que tinha cometido perjúrio), bem como a população em geral, que ouvisse falar sobre o caso, temeriam, desencorajando o crime de perjúrio. E embora isso não eliminasse 0 mal das testemunhas falsas, essa prática odiosa ficaria grandemente reduzida.
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 830.
III. Falsas testemunhas (19: 15-21). A prática do perjúrio é proibida no decálogo (5 : 20). Para desestimular o perjúrio, contudo, certas medidas judiciais foram estabelecidas. Esta breve seção trata de todo o assunto das testemunhas e, em especial, da falsa testemunha, que tem sido uma ameaça à sociedade em todas as épocas e entre todos os povos.
Dt 20.15. É perfeitamente provável que Moisés formulasse uma única lei apodítica com referência ao falso testemunho. Podemos postular tal lei nos seguintes termos: Uma única testemunha não terá ganho de causa (lit. “ficará de pé”) contra outrem com respeito a um crime qualquer.
Na explanação subseqüente a tal lei aparece a cláusula de que duas ou três testemunhas são necessárias antes que uma acusação possa ser sustentada.
Dt 20.16-20. O caso da testemunha maliciosa (lit. “testemunha de violência”, i.e. seu testemunho levaria a um ato de violência) é agora discutido.
Quando tal testemunha declarava que o acusado era culpado de um ato errado (lit. “desvio”, i.e. deserção, apostasia ou má conduta moral ou religiosa), as duas partes em litígio tinham que comparecer perante Javé para responder aos sacerdotes e juízes que estivessem oficiando na ocasioes. O tribunal localizado no santuário central parece ser o que se tem em vista nesta passagem (cf. 17: 8-13). Depois de cuidadoso exame os juízes (provavelmente todo o grupo de sacerdotes e juízes) dariam o veredito.
Se a testemunha fosse falsa receberia o castigo que se tencionava dar ao acusado. Desta maneira o mal seria “queimado” (exterminado) de Israel e o perjúrio desestimulado.
Dt 20.21. A penalidade para o falso testemunho estava de acordo com a lex talionis, ou lei da retaliação (cf Êx 21: 23ss.; Lv 24:17ss.), i.e. olho por olho, dente por dente, etc.I39 Este princípio é freqüentemente mal entendido. Longe de estimular a vingança, ele limita a vingança e serve como guia para um juiz ao fixar este a penalidade compatível com a seriedade do crime. O princípio não era, assim, o de dar margem à vingança, mas o de garantir a justiça, Lei semelhante era conhecida em outras partes do mundo semítico. Algumas sociedades faziam uso de compensações monetárias em alguns casos.141 Basicamente, a lex talionis expressa a opinião de que a vida do indivíduo é algo sagrado, sem equivalente material (cf. 12:23, 24; 15:9; 21:8; 22:6; 7; 25:11,12). A crítica feita por Jesus a esta lei (Mt 5: 38ss.) surgiu de seu emprego para regular a conduta entre dois indivíduos. Cristo não a rejeitou como princípio de justiça que deveria ser empregado nos tribunais terrenos. Com respeito a relacionamentos interpessoais Ele propôs o ideal da fraternidade, princípio marcadamente forte em todo o livro de Deuteronômio. Estender a lex talionis ao domínio interpessoal equivalia a destruir a lei de Deus.
I. A. Thompson. Deuteronômio Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 208-209.
Os Falsos Testemunhos vv. 14-21
Aqui está um estatuto para impedir fraudes e perjúrios. Pois a lei divina protege os direitos e as propriedades dos homens. Ela é uma mui grande amiga da sociedade humana e do interesse civil dos homens.
T Uma lei contra fraudes, v. 14. 1. Aqui está uma instrução implícita, dada aos primeiros colonizadores de Canaã, para que fixassem marcos, segundo a distribuição da terra às diversas tribos e famílias. Observe que a vontade de Deus é que cada um tenha o que for seu, que todos os bons meios sejam usados para evitar invasões e conflitos, e que ninguém faça ou receba o mal. Quando o direito é estipulado, deve-se tomar cuidado para que não seja, posteriormente, removido. E, se possível, que não haja oportunidades para disputas. 2. Uma lei expressa à posteridade, para que não removesse estes marcos que assim tinham sido fixados a princípio, para que um homem, secretamente, não obtivesse para si aquilo que era de seu vizinho. Este é, sem dúvida, um preceito moral, e ainda em vigor, e a nós ele proíbe: (1) Invadir o direito de qualquer pessoa, e tomar para nós aquilo que não nos pertence, por qualquer artifício ou procedimento fraudulento, como falsificar, ocultar, destruir ou alterar certificados e escritos (que são os nossos marcos, em função dos quais são feitas as apelações), ou modificar cercas, marcos e limites. Embora os marcos fossem colocados pelas mãos do homem, ainda assim, segundo a lei de Deus, aquele que os removesse seria um ladrão e um saqueador. Que cada homem fique satisfeito com a sua própria sorte, e seja justo com seus vizinhos, e então não teremos nenhum marco removido. (2) Este preceito nos proíbe de semear a discórdia entre vizinhos, e fazer qualquer coisa que ocasione disputa e processos judiciais, o que é feito (e muito mal feito) confundindo aquelas coisas que deveriam determinar as disputas e decidir as controvérsias. E: (3) Também nos proíbe de romper a ordem e a constituição estabelecidas do governo civil, e alterar costumes antigos sem justa causa. Esta lei sustenta a honra das prescrições. Consuetudo facit jus - O que é costume deve ser considerado como lei.
Uma lei contra perjúrios, que estabelece duas coisas: 1. Que uma única testemunha jamais deveria ser aceita para dar evidência em uma causa criminal, de modo que a sentença fosse proferida com base no seu testemunho, v. 15. Esta lei já foi vista antes, Números 35.30, e neste livro, cap. 17.6. Isto foi decretado a favor do prisioneiro, cuja vida e honra não deveriam estar à mercê de uma pessoa particular que tivesse algum ressentimento contra ele, e por precaução, para que o acusado não dissesse aquilo que não pudesse confirmar através do testemunho de outra pessoa. Esta lei coloca a humanidade, com justiça, em uma posição vergonhosa, considerando-a como falsa e indigna de confiança. Segundo ela, deve-se suspeitar de todos os homens. Porém é uma honra para a graça de Deus que o relato que Ele deu, a respeito do seu Filho, seja confirmado tanto no céu quanto na terra, por três testemunhas, 1 João 5.7. “Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso”, Romanos 3.4. 2. Que uma falsa testemunha deveria receber a mesma punição que fosse infligida à pessoa que ela acusasse, vv. 16-21. (1) O criminoso aqui é uma falsa testemunha, de quem se diz que “se levanta” contra um homem, não somente porque toda testemunha se levantava quando apresentava sua evidência, mas porque uma falsa testemunha, na verdade, se levanta como um inimigo e um assaltante contra aquele que ela acusou. Se duas, ou três, ou muitas testemunhas, estivessem de acordo em um falso testemunho, todas estariam sujeitas à acusação, por esta lei. (2) A pessoa prejudicada ou correndo riscos pelo falso testemunho é considerada como sendo demandante, v. 17. E se a pessoa fosse levada à morte, com base nas evidências, e posteriormente se descobrisse que eram falsas, qualquer outra pessoa, ou os próprios juízes, ex officio - em virtude do seu ofício, poderiam exigir que a falsa testemunha se explicasse.
(3) Causas deste tipo, tendo em si uma dificuldade extraordinária, deviam ser levadas diante da corte suprema, os sacerdotes e juízes, dos quais se diz que estão perante o Senhor, porque, assim como os outros juízes ficavam às portas das cidades, também estes, à porta do santuário, cap. 17.12. (4) Deveria haver grande cuidado no julgamento, v. 18. Deveria ser feita uma investigação diligente quanto ao caráter das pessoas, e todas as circunstâncias do caso. Tudo isto devia sei' comparado, para que a verdade pudesse ser descoberta. Quando a investigação fosse realizada de um modo fiel e imparcial, eles poderiam esperar que a Providência os auxiliasse.
(5) Se ficasse evidente que um homem tinha, conscientemente e perversamente, dado falso testemunho contra seu próximo, embora o mal que lhe desejava não tivesse sido realizado, este deveria sofrer a mesma penalidade à qual seu próximo estaria sujeito, devido à sua evidência, v. 19. Nec lex estjustior idla - Nenhuma lei poderia ser ma is justa. Se o crime do qual ele acusasse seu próximo devesse ser punido com a morte, também o homem que deu falso testemunho deveria ser condenado à morte. Se a punição fosse açoitamento, ele deveria ser açoitado. Se fosse uma multa financeira, ele deveria ser multado também. E, como para aqueles que não levassem em consideração a atrocidade do crime e a necessidade de impedi-lo, pareceria ser uma punição muito dura, por ter dito algumas palavras, especialmente quando nenhum mal tinha, realmente, sido feito, aqui está acrescentado: “O teu olho não poupará”, v. 21. Nenhum homem precisa ser mais misericordioso do que Deus. O benefício que resultará, para o público, desta severidade, a recompensará com abundância: “Para que os que ficarem o ouçam, e temam”, v. 20. Tais punições exemplares seriam advertências a outros, para que não empreendessem nenhuma maldade deste tipo, quando vissem como aquele que fez a cova e a escavou havia caído nela.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 618-619.
2. OS DANOS.
Êxo 21.23-25 A Lei de Talião. Temos aqui a declaração clássica da retaliação olho por olho, dente por dente. Nesse caso, a punição era de acordo com a natureza do crime cometido, de maneira a mais literal possível. Ver também Lev. 24.19,20 e Deu. 19.21 quanto a notas expositivas sobre essa lei. Tal lei provia uma retaliação em proporções exatas, evitando-se assim os exageros.
O termo “dano” (vs. 23), talvez aluda de volta ao vs. 22: um homem, em briga com outro homem, viria a ferir a mulher grávida deste, que viera em seu socorro. Se o ferimento não provocasse somente aborto, mas também a morte da mulher, então a lei determinava “vida por vida”, a primeira declaração geral da lex talionis. E o culpado era executado. Nesse caso, a palavra “dano” aponta para a morte da mulher. Embora o culpado tivesse matado a mulher sem intenção de fazê-lo, visto ter a mulher grávida e seu filho ainda não-nascido, o caso se agravava tanto que passava a ser considerado como assassinato intencional.
Mas há estudiosos que pensam que o vs. 23 dá início a uma nova seção. Nesse caso, não há qualquer vinculação com o vs. 22. E, assim sendo, “vida por vida” passa a aludir à ideia de homicídio não-intencional, já discutido nas notas sobre o vs. 12, ideia que seria aqui considerada de maneira geral. Por conseguinte, a lex talionis começaria por crimes que merecessem punição capital.
Bons intérpretes têm visto a questão por um ângulo ou por outro. Mas mesmo que o vs. 22 esteja em pauta, a expressão “vida por vida” deve ser entendida como uma declaração geral de que o homicídio intencional precisava ser punido com a execução do culpado!
Alguns estudiosos cristãos pensam que o aborto é um homicídio, pois pensam que o texto presente indica que o aborto envolvia a punição capital do culpado. Mas isso dificilmente concorda como vs. 22. Se a mulher não fosse ferida, então o simples aborto (nesse caso, provocado), era punível mediante mera muita.
Mas se tem de ser classificado ou não como uma homicídio envolve uma complicação difícil de resolver.
A lex talionis é mais antiga que a legislação mosaica, e vestígios dessa anti- ga lei podem ser encontrados em muitas culturas e em muitos antigos códigos legais.
Olho por olho...Alex talionis requeria uma retaliação exata. A vantagem dessa lei é que ela evitava exageros na aplicação da punição. Neste versículo são enfocadas porções específicas do corpo humano: olho, dente, mão, pé. Se alguém prejudicasse um dente de outrem, seu dente seria prejudicado; se prejudicasse um pé, seu pé sofre- ria dano idêntico.
Mas também devemos ver neste versículo um uso metafórico. Os crimes precisam ser punidos com precisão, e não de forma leniente e nem exagerada. Tais castigos poderiam nada ter a ver com membros literais do corpo humano. Este versículo condena a leniência geral que caracteriza nosso moderno sistema judicial. Os vss. 26 e 27 voltam à questão dos escravos; e nesse caso, não havia aplicação da lex talionis, porque os escravos eram considerados propriedades, pelo que a lei era mais branda em seus castigos nos casos de ferimentos produzidos contra escravos. Os escravos não eram tratados como iguais e nem possuíam direitos iguais às pessoas livres. Mas entre seres humanos livres, a lei tinha aplicação estrita.
A lex talionis produziu a mutilação generalizada de muitas pessoas, porquanto impunha a aplicação da punição em proporções exatas aos danos causados em alguém. Por essa e outras razões, posteriormente buscaram-se alternativas para a lex ía/ionis. E, então, a leniência na aplicação das penas veio a tornar-se a regra geral. Essa leniência, por sua vez, pode tornar-se tão acentuada que o criminoso nem mais chega a sentir o peso do castigo. De fato, em alguns paises, como em nosso Brasil, chega-se a pensar que os direitos humanos, evocados em defesa dos culpados, esquece totalmente as vítimas dos criminosos. Agora, espera-se que 0 pêndulo da justiça comece a pender de novo, paulatinamente, na direção contrária, e que os direitos das vítimas passem a ser melhor reconhecidos.
Jarchi e outros intérpretes judeus informam-nos que, quando a pena imposta era a perda de um olho, tal pena começou a ser substituída por uma multa correspondente ao preço de um olho.
A lei era regulamentada pelos anciãos que atuavam como juizes. Não era permitida a retaliação individual, da parte de pessoas particulares. Fica entendido, embora não seja dito francamente, que tais injúrias tinham sido infligidas a propósito. Não obstante, é perfeitamente possível que até mesmo danos infligidos acidentalmente eram cobertos pela lex lalionis. Essa lei, embora aparentemente uma boa medida para assegurar a justiça, na prática permitia muitos abusos e absurdos. Como um princípio, entretanto, nos ministra uma lição necessária.
Queimadura... ferimento... golpe. Qualquer tipo de dano que um homem possa provocar em outro, deveria ser castigado com um dano similar. Os Targuns dos judeus de novo pensam que a interpretação deve ser metafórica. Ou seja, uma justa retaliação deveria ser aplicada por meio de multas, como “o preço de uma queimadura” (Targum de Jonathan), ou coisa parecida. As Doze Tábuas da primitiva legislação romana continham itens assim. Favorino objetava à aplicação literal da retaliação. Como se poderia fazer um ferimento em alguém que correspondesse, exatamente, ao ferimento que se fizera contra alguém? (Apud. Gell. Noct. Attic. 1.20 g. 1). Na primitiva sociedade romana, os castigos eram negociados. Quando não se podia chegar a um acordo, então era aplicada a literalidade. Josefo falou em dinheiro pago pelo ferimento feito em um olho (Antiq. 1.4 c. 33,35).
CHAMPLIN, Russell Norman, Antigo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Hagnos. pag. 400.
O cuidado particular que a lei teve com as mulheres grávidas, para que nenhum mal lhes fosse feito que pudesse provocar o seu aborto. A lei da natureza nos obriga a sermos muito ternos neste caso, para que a árvore e o fruto não sejam destruídos ao mesmo tempo, vv. 22,23. As mulheres grávidas, que desta maneira são tomadas sob a proteção especial da lei de Deus, se viverem no temor a Ele, podem, ainda, crer estar sob a proteção especial da providência de Deus, e ter esperança de que serão salvas ao darem à luz. Nesta ocasião, é introduzida aquela lei geral de retaliação à qual o nosso Salvador se refere em Mateus 5.38: “Olho por olho”. Bem: 1. A execução desta lei não é, com isto, deixada nas mãos de pessoas individualmente, como se todo homem pudesse vingar-se, pois isto causaria confusão universal e tornaria os homens como os peixes do mar. A tradição dos anciãos parece ter colocado este disfarce corrupto sobre a lei, e em oposição a isto o nosso Salvador nos ordena que perdoemos as ofensas e não pensemos em vingança, Mateus 5.39. 2. Deus freqüentemente realiza a vingança no decorrer da sua providência, tornando a punição, em muitos casos, uma resposta ao pecado, como visto em Juízes 1.7; Isaías 33.1; Habacuque 2.13; Mateus 26.52. 3. Os magistrados devem ter em mente esta regra ao punir os criminosos, e fazer justiça àqueles que são ofendidos. Deve-se considerar a natureza, a qualidade e o grau do mal que é feito, para que possa haver reparação à parte ofendida, e outros se contenham para não fazer nada semelhante. Ou olho por olho, ou o olho ferido será redimido por uma soma de dinheiro. Observe que aquele que causa o dano deve esperar, de uma maneira ou de outra, uma recompensa de acordo com o dano que causar, Colossenses 3.25. As vezes, Deus faz com que as obras violentas dos homens caiam sobre as suas próprias cabeças (SI 7.16). E os magistrados, quanto a isto, são os ministros da justiça, pois são vingadores (Rm 13.4) e não trazem debalde a espada.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Antigo Testamento Gênesis a Deuteronômio. Editora CPAD. pag. 300.
3. O PECADO DA MENTIRA.
MENTIRA (MENTIROSO)
1. Definições Básicas
Temos preparado um longo artigo sobre os Vícios, onde é comentado o vício da mentira. Mentir é fazer declarações propositalmente falsas, meias verdades que envolvem falsas impressões. Um exagero proposital é um tipo de mentira, como também o é uma declaração parcial proposital. Até mesmo as verdades proferidas com o intuito de enganar, naquilo em que visam iludir, não passam de mentiras. Entretanto, as histórias de ficção, escritas ou filmadas, embora não correspondam à realidade, não são mentiras, visto que não se propõem a narrar fatos, mas tão-somente simbolizam fatos e idéias.
2. Palavras Bíblicas Envolvidas
No hebraico encontramos kazab, palavra usada por vinte e nove vezes, conforme se vê, por exemplo em Juí. 16:10,13; Sal. 40:4; Pro. 6:19; 14:5,25; 19:5,9; Isa. 28:15,17; Eze. 13:8,9,19; Dan. 11:27; Osé. 12:1; Amós 2:4; Sof. 3:13. Também encontramos sheqer, que aparece no Antigo Testamento por cerca de quarenta e três vezes com o sentido de «falsidade», «mentira», («mentiroso», etc., segundo se vê, para exemplificar, em Jó 13:4; Sal. 63:11; 119:69; Isa. 9:15; 59:3; Jer. 9:3,5; 14:14; 29:21,31; Eze. 13:22; Miq. 6:12; Hab. 2:18; Zac. 10:2 e 13:3. Ambas as palavras podem indicar «engano», «mentira». Outras palavras hebraicas bem menos usadas sãoakzab (Miq. 1:14), bad, «artifício» (Jó 11:3; Isa. 16:6; Jer. 48:30); kachash, «fingimento» (Osé. 7:3; 10:13; 11:12; Naum 3:1); dabar, «palavra de falsidade» (Pro. 29:12).
No grego encontramospseüdos, «mentira» «falsidade», palavra empregada no Novo Testamento por sete vezes: João 8:44; Rom. 1:25; II Tes. 2:11; I João 2:21,27; Apo. 21:27; 22:15. E também pseúsma, «falsidade», em Rom. 3:7.
3. Usos Bíblicos
Os homens mentem, principalmente, a fim de enganar. Essa palavra é usada nas Escrituras para indicar as declarações falsas dos homens acerca de Deus e das realidades espirituais (Jer. 14:14; Eze. 13:9; Rom. 1:25). A verdade divina é reduzida a uma mentira, pelas idéias e declarações dos homens. As mentiras dos homens pervertem, portanto, a verdade dita por Deus. Toda mentira cria uma falsa certeza (Isa. 28:15). Os resultados da mentira são o erro e a ilusão (Jer. 23:32). Os padrões morais são solapados pelas mentiras (Rom. 1:26 ss).
Deus não pode mentir, mas precisa julgar (I Sam. 15:29; Tito 1:2). Por isso, a mentira nunca é atribuída a Deus, mas é atribuída aos homens, como quando prestam falso testemunho (Pro. 6:19). O ato de mentir era proibido pela lei mosaica (Exo. 20:16; Lev. 19:11). Os crentes deveriam reconhecer que o ato de mentir é próprio da vida velha, na incredulidade, devendo ser rejeitado pelo crente como uma roupa indesejável, segundo se vê em Col. 3:9; «Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos». O trecho de João 8:44 apresenta Satanás como o pai da mentira. Os trechos de Apo. 21:27 e 22:15 mostram que os mentirosos habituais (que o fazem devido à sua natureza corrompida e não regenerada), ficam impedidos da salvação e do lar celestial.
4. Discussões Filosóficas
Será errada a mentira, em todos os casos? Alguns filósofos asseveram que há ocasiões em que mentir é melhor do que dizer a verdade. Um meu professor de filosofia deu um exemplo em classe, baseado na vida real, ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial. Ele falou sobre um sacerdote católico romano que se viu envolvido no movimento de resistência subterrânea de um paí» debaixo do poder militar dos nazistas. Vidas dependiam dele. Quando foi apanhado, ele confessou, e não mentiu, dizendo aos alemães que, de fato, fazia parte daquele movimento. O resultado foi desastroso. Também poderíamos pensar no caso dos pacientes terminais. Tais pacientes devem ficar sabendo da verdade, ou, pelo menos em alguns casos, é melhor enganar o doente? Há pessoas que simplesmente querem saber seu estado, e a essas deveríamos dizer a verdade. Mas há outras que, segundo os médicos e seus familiares julgam, sentir-se-iam menos premidas se a verdade não lhes fosse revelada, pois ass:m enfrentariam a morte mais tranqüilamente. Isso posto, em tais casos, seria melhor mentir a um paciente terminal. Se esses casos são exemplos de exceções válidas à regra contra a mentira, então podemos afirmar que, algumas vezes, a lei do amor é melhor servida por um engano (cují intenção é aliviar o sofrimento), do que se dizendo a verdade chocante e brutal.
CHAMPLIN, Russell Norman, Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia. Vol. 4. Editora Hagnos. pag. 228-229.
«...Não mintais...»
«Sem a honestidade, o fundo cai de todas as outras virtudes. O amor é aclamado como qualidade suprema da vida cristã; mas Paulo, ao dizer isso sobre a fé, a esperança e o amor, afirma que a maior delas é o amor, o qual deve ser sem hipocrisia (ver Rom. 12:9). O amor sem genuinidade é pior que não ter amor algum. A honestidade é a essência da coragem moral, conforme ficou demonstrado na vida de Jesus. Uma mentira inocente poderia tê-lo salvado da cruz, mas ele não a quis proferir, apesar de sua vida estar em perigo. Os primeiros cristãos deixaram profunda impressão sobre seus contemporâneos, não meramente por causa do amor que exemplificavam («Vede como esses cristãos se amam uns aos outros»), mas muito mais pela integridade de suas vidas (ver Tia. 5:12)». (Macleod, in loc.).
Um criminologista norte-americano asseverou que á fraude é a ofensa criminal mais propagada nos Estados Unidos da América, permeando todos os níveis da sociedade. Ê justo supormos que o mesmo se dá em muitos outros países.
Como a sociedade encara sem seriedade a mentira, o que se vê no grande número de piadas que se centralizam em redor dessa prática. Mas quão séria é essa questão, no N .T ., por refletir uma natureza desonesta e pervertida. Paulo adiciona essa maldade à sua pintada de vícios, conforme se vê no oitavo versículo. Este, tal e qual os outros vícios, pertence à i natureza antiga, ao homem velho e não-remido. Tal vício, tal como aqueles outros, é incompatível com a nossa nova vida em Cristo. No entanto, não é verdade que a maioria das pessoas, dentro e fora da igreja, diz o que pensa ser-lhes mais vantajoso, sem importar se é uma verdade ou uma mentira, de tal modo que o teste real da conduta é o teste «pragmático »? Serei beneficiado, se disser uma mentira? Se a resposta for «sim», então, para essas, pessoas, a mentira é preferível à verdade. «...vos despistes...» No grego temos o verbo «apekduomai», o qual, tal como o verbo do versículo anterior, pode significar «despir uma roupa». Portanto, o quase certo é que Paulo dá prosseguimento à sua metáfora do «despir-se» e do «vestir-se», tendo empregado apenas um sinônimo.
Como Nos Despimos Do Velho Homem ?
1. Quando aplicam os os meios de desenvolvimento e sp iritual, desvencilhamo-nos das vestes velhas e sujas que nos caracterizavam antes da conversão. (Isso é comentado no primeiro versículo deste capítulo).
2. Esse despir-se é realizado por ocasião da conversão (ver João 3:3), e prossegue na santificação (ver I Tes. 4:3). Ambas as coisas fazem parte da obra do Espírito.
3. Isso se cumpre através da nossa união com Cristo, por causa do que assumimos a sua natureza, e assim nos tornamos um «novo homem». (Ver II Cor. 5:17 e suas notas, quanto a esse conceito. Ver também as notas, em Rom. 6:3, sob o título «O batismo espiritual»).
4. O trecho de Efé. 4:22 encerra idêntica declaração, e ali são dadas notas adicionais que .iluminam o tema. O velho homem é representado pelas vestes velhas. Ele é a natureza antiga, não-convertido, egoísta, carnal, dominado por motivos carnais e temporais. Cristo é a «nossa vida» (ver o quarto versículo deste capítulo). Quando isso se toma uma realidade, então nos tornamos novas criaturas, ou seja, temo-nos vestido de novas vestes, metaforicamente falando. (Ver o velho homem crucificado, em Rom. 6:6).
«Torna-se perfeitô no4ommio próprio aquele que não somente se abstém dos prazeres do corpo, mas alegra-se por poder fazê-lo; ao passo que aquele que se abstém mas se entristece com isso, não tem o domínio próprio». (Aristóteles):
A m etáfora do «despojamento» nos leva de volta a todos os vícios mencionados, não aludindo somente à prática da mentira.
O paralelo a este versículo é a passagem de Efé. 4:25, onde se lê: «Por isso, deixando a m e n tira, fale cada um a verdade com o seu próxim o, porque somos membros uns dos outros». Quando mentimos para os irmãos, ferimos o corpo inteiro de Cristo, distorcendo-o e a leijando os seus membros. O «velho homem» é a «veste antiga», que deve ser, posta de lado.
O velho homem nos impulsionava a ações que nos degradavam, incluindo a mentira.
Antes de falares,
Faz tudo passar diante de três portas de ouro:
As portas estreitas são, a primeira: ‘Ë verdade!’
Em seguida: ‘È necessário?’ Em tua.mente
Fornece uma resposta veraz. E a próxima
É a última e mais difícil: ‘É gentil?’
E se tudo chegar, afinal, aos teus lábios,
Depois de ter passado por essas três portas,
Então poderás relatar o caso, sem temeres
Qual seja o resultado de tuas palavras.
(Beth Day).
A mentira é contrária tanto à lei da verdade como à lei do amor. Ë, ao mesmo tempo, injusta e sem gentileza, e tende, mui naturalmente, por destruir a amizade e a boa fé entre os homens.
«A mentira nos torna semelhantes ao diabo, o pai da mentira, sendo uma das características principais da imagem do diabo em nossas almas». (Matthew Henry, in loc., tecendo comentários sobre o trecho de João 8:44).
Referências e idéias, a mentira:
1. A mentira é proibida (ver Lev. 19:11 e Col. 3:9). 2. Ê abominável a Deus (ver Pro. 6:16-19). 3. Ë uma abominação,contra Deus (ver Pro. 12:22). 4. Ë um obstáculo à oração (ver Isa. 59:2,3). 5. É originada pelo diabo (ver João 8:44).
6. Os santos devem repelir à mentira (ver Sal. 119:29).
7. Devem evitar essa maldade (ver Isa. 63:8).
8. Devem orar para serem preservados da mesma (ver Sal. 119:29).
9. Os hipócritas são dados à mentira (ver Osé. 11:12).
10. Os hipócritas causam a mentira (ver Isa. 57:4).
11. Os ímpios mentem desde a infância (ver Sal. 58:3).
12. Os ímpio»amam à mentira (ver Sal. 52:3).
13. Os ímpios buscam a mentira (ver Sal. 4:2).
14. A mentira é uma das características dos apóstatas (ver I I Tes. 2:9 e I Tim. 4:2).
15. A mentira é um vício que exclui dos céus ao indivíduo (ver Apo. 21:27-22:15).
16. O diabo exemplifica a mentira (ver Gên. 3:4).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 5. pag. 139.
9. A chamada: Não mintais talvez pareça vir como um anticlímax, mas os efeitos sociais de promessas e compromissos indignos são enormes. Possivelmente este desafio pertença à tradição, que é usada para completar a lista no v. 8. A mesma admoestação ocorre em Efésios 4.25.
A exortação parece estar restrita a uma aplicação dentro da comunidade cristã, de modo que sua seriedade recebe uma referência deliberada. A mentira leva a um rompimento da comunhão cristã, porque engendra a suspeita e a desconfiança, e assim destrói a vida em comum no corpo de Cristo (Rm 12.4) mediante a qual somos “membros uns dos outros.”
A razão para o abandono dos maus caminhos agora é fornecida. Uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos traduz uma frase que começa com um particípio grego apekdusamenoi (“tendo despido”). É complementado por um particípio correspondente no v. 10 (gr. endusamenoi, “tendo vestido”). Todos os comentaristas concordam que há um tema batismal nestes verbos, tirado da atividade de despir-se para o ato do batismo, quando o novo cristão entrava na água, e de vestir-se depois.
A referência em Gálatas 3.27 claramente localiza a experiência como sendo batismal, embora Paulo enfatize igualmente que todos os leitores das suas Epístolas devem saber apreciar significado “interior” do ato exterior (cf. Rm 13.12, 14; cf. Ef 4.24).
O problema postulado por estes particípios aoristos, que denotam um evento passado, é saber se continuam a seqüência das admoestações ou se relembram o batismo como sendo a ocasião quando o crente fez as renúncias da sua vida antiga. No primeiro ponto de vista (declarado por Lohse, pág. 141) Paulo está continuando a linha do seu apelo que começou com a chamada: “Não mintais,” e ressaltando a obrigação que seus leitores devem enfrentar e agir à altura para abrir mão dos hábitos que pertencem à sua velha natureza, despojando 'tudo quanto pertence à sua vida anterior e substituindo-a com um novo modo de viver. Os particípios têm um sentido imperativo, de acordo com o uso rabínico e neotestamentário (veja D. Daube: “Participle and Imperative in I Peter” em E. G. Selwyn: The First Epistle o f St Peter, Londres 1947, págs. 467-88).
O ponto de vista alternativo (compartilhado por Abbott, Masson, C. Maurer em TDNT vi, pág. 644, e defendido especialmente por J. Jervell, Imago Dei, Gõttingen, 1960, pág. 236) deve ser preferido como estando mais de conformidade com o ensino atestado de Paulo. Está chamando os colossenses de volta ao seu batismo, e conclamando-os a lembrar-se do seu efeito dinâmico ao libertá-los do seu antigo modo de vida, como conseqüência da sua união com Cristo pela fé, agora confessada. Passa a conclamá-los, nesta expressão participial, a viver à altura daquela confissão batismal ao ser leal a ela, e a tomar-se na própria realidade — mediante sua renúncia e sua aceitação da sua nova vida, dada a eles enquanto foram ressuscitados com Cristo — aquilo que já foram declaradamente no seu batismo.
Partes anteriores desta carta — para não irmos mais longe no assunto da ética paulina (veja V. P. Furnish: Theology and Ethics in Paul, Nashville, 1968) — confirmam este modo de declarar a intenção de Paulo. Pode referir-se ao passado, à entrada decisiva dos colossenses no reino de Deus, que transformou as suas vidas (1.3) quando compartilharam do ato de Cristo em despir de Si mesmo a tirania dos poderes demoníacos (2.11, 25). Este evento foi seu batismo (2.12, 13, 20) que inaugurou na união com Cristo, o Senhor, a sua posição crista (3.1,3).
Esta interpretação ajuda-nos a apreciar o termo enigmático: velho homem (ou “velho Adão”) e novo homem (ou “novo Adão”). Parece claro que estes não são novos termos de individualidade mas, sim, são expressões corpóreas que denotam uma velha e um nova ordem de existência.
Paulo, portanto, está conclamando seus leitores (como em Rm 6.6-14) a acabar com seu antigo estilo de vida, com seus hábitos, inclinações e alvos, e a viver como aqueles que, no começo da sua nova vida em Cristo, entraram no novo mundo de uma nova humanidade que está viva para Deus. Nem devemos esquecer-nos de que, embora Paulo bem possivelmente esteja utilizando formas tradicionais de expressío (catequética) que eram moeda corrente nas igreja primitivas, haveria relevância especial deste ensino para os homens e as mulheres de Colossos que estavam perplexos no que dizia respeito a diretrizes rivais para o modo de vida dos cristãos, oferecidas em nome dos falsos mestres no seu meio (2.16-23). A resposta de Paulo e seu antídoto é uma declaração simples do senhorio de Cristo e o que significa viver sob aquela regra. Seus leitores (conforme os faz lembrar) eram aqueles que tinham professado lealdade ao Senhor Jesus Cristo na conversão e na renovação (2.13). Que agora ponham em prática aquela profissão, procurando ideais éticos cujo padrão é estabelecido por sua vida no “novo Adão,” o novo segmento da humanidade que obtém sua vida de Cristo Jesus.
Ralph P. Martin. Colossenses. Introdução e Comentário. Editora Vida Nova. pag. 117-118.
ELABORADO: Pb Alessandro Silva.

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