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11° LIÇÃO 2 TRIMESTRE 2014 O PRESBÍTERO, BISPO OU ANCIÃO


O PRESBÍTERO, BISPO OU ANCIÃO
Data: 5 de Junho de 2014                                   HINOS SUGERIDOS: 115, 344, 516.
TEXTO ÁUREO
Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros [...]” (Tt 1.5).
VERDADE PRATICA
O presbitério deve ser constituído por pessoas idôneas para auxiliar na administração da igreja local.
LEITURA DIÁRIA
Segunda       - Tt 1.5                      O estabelecimento dos Presbíteros
Terça             - Tg 5.14                  Homens espirituais
Quarta           - 1 Tm 4.14              A ação do presbitério
Quinta            - 1 Pe 5.1,2             Presbíteros apascentadores
Sexta             - 1 Pe 5-3                Como exemplo do rebanho
Sábado         - Tt 1.5,7                  Bispo - Outro nome para presbítero
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE
Tito 1.5-7; 1 Pedro 5,1-4.
Tito 1
5 - Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei:
6 - aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.
7 - Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espanca dor, nem cobiçoso de torpe ganância;
1 Pedro 5
1 - Aos presbíteros que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles, e testemunha das aflições de Cristo, e participante da glória que se há de revelar:
2 - apascentai o rebanho de Deus que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto;
3 - nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho.
4 - E, quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa de glória.
INTERAÇÃO
A igreja local é o Corpo Invisível de Cristo num tempo e num espaço. Ela é constituída por distintos seres humanos. Por issot é preciso haver uma liderança que a norteie, a oriente e a administre com sabedoria. Então, aprouve ao Senhor levantar obreiros para dela cuidar. A igreja local jamais pode ser administrada por um único líder. Apesar da importância do pastor titular; este deve contar com um grupo de obreiros aptos a ensinar e a administrar a igreja local: o presbitério. O nosso Pai levantou presbíteros, homens honrados, de boa índole e idôneos, para junto do pastor titular, cuidar e zelar do rebanho do Senhor.
OBJETIVOS
Após esta aula, o aluno deverá estar apto a:
Conceituar o termo e a função do presbítero.
Valorizar o ministério do presbítero.
Apontar os deveres dos presbíteros.
ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA
Caro professor, para concluir o assunto do primeiro tópico, sobre a função do presbítero, reproduza o quadro da página seguinte conforme as suas possibilidades. Peça aos alunos para discutirem as funções do presbítero apresentadas no quadro, preenchendo os espaços vazios.
Conclua afirmando que a função de um presbítero, em primeiro lugar, é pastoral. Isto implica múltiplas ações e zelo com a igreja local instituída pelo Senhor numa região. Ao final da aula, juntamente com os alunos, interceda pelo presbitério de sua igreja local.
PALAVRAS-CHAVE
Presbítero: Ancião. Pessoa madura na fé.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
No início da Igreja do primeiro século havia líderes que orientavam os crentes quanto ao Evangelho, bem como à organização e desenvolvimento da igreja local. O Evangelho frutificou na vida das pessoas, e por isso, surgiam cada vez mais novos crentes. Foi necessário, afim de garantir o discipulado integral da nova pessoa em Cristo, separar crentes idôneos e maduros na fé para cuidarem desse precioso rebanho. Assim, os apóstolos de Cristo passaram a estabelecer presbíteros para zelar pela administração e a vida espiritual da igreja local.
I - A ESCOLHA DOS PRESBÍTEROS
1. Significado da função. De acordo com a Bíblia de Estudo Palavras-Chave, o termo “presbítero” (do gr. presbyteros) é uma forma comparativa da palavra grega presbys, “pessoa mais velha”. Como substantivo, e no emprego dos judeus e cristãos, “presbítero” é um títuío de dignidade dos indivíduos experientes e de idade madura que formavam o governo da igreja local. É um sinônimo de bispo (gr. episkopos, supervisor); de professor (gr, didaskolos); e de pastor (gr. poimêri).
2. A liderança local. O apóstolo Paulo cuidou de organizar a administração das igrejas locais por onde as plantava, separando um grupo de obreiros para tal trabalho. Quando escreve ao seu discípulo, o jovem Tito, Paulo o instrui a estabelecer presbíteros em diversos lugares, de cidade em cidade (Tt 1.4,5,7). Está claro, assim, o aspecto pastoral da função exercida pelos presbíteros nas comunidades cristãs antigas.
3. As qualificações. Em o Novo Testamento, as referências aos presbíteros encontram-se no plural; “presbíteros”, “bispos” ou “anciãos” (At 11.30; 15.2,4,6; 20.17;Tg 5.14; 1 Pe 5.1). Como a liderança local era formada por um grupo de irmãos experientes na fé para cuidarem da igreja, a função dos presbíteros era pastoral. Portanto, o presbítero é um pastor, um apascentador de ovelhas! A Palavra de Deus expressa qualificações bem objetivas para o exercício fiel dessa função. Tais qualificações estão descritas em Tito 1.6-9 para presbítero, assim como em 1 Timóteo 3.1-7 para “bispo”, denotando o aspecto sinonímico dos dois termos. Uma leitura atenta das duas listas indica a importância da função e como as igrejas não podem descuidar-se quando da ordenação de pessoas para servi-la.
O bom conselho do apóstolo Paulo ainda é a maneira mais segura para se separar obreiros.
SINOPSE DO TÓPICO (1)
O termo presbítero (do gr. presbyteros) é um sinônimo de bispo (gr. episkopos), de professor (do gr. didaskoíos) e de pastor (do gn poimêrí). Logo, a sua função é pastoral.
II - A IMPORTÂNCIA DO PRESBITÉRIO
1. Significado do termo. “Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério” (1 Tm 4.14). Foi dessa forma que o apóstolo Paulo lembrou Timóteo, aconselhando-o acerca do reconhecimento do ministério do jovem pastor pelo conselho de obreiros. O Novo Testamento classifica esse corpo de obreiro de “presbitério” (do gr: presbyterion, substantivo de presbítero, um conselho formado por anciãos da igreja cristã).
2. A atuação do presbitério. No Concílio de Jerusalém, em relação às sérias questões étnicas e eclesiásticas que podiam comprometer a expansão da igreja, os apóstolos e os anciãos (presbíteros) foram chamados para debater e legislar sobre o assunto (At 15.2,6,9-11). Em seguida, os presbíteros foram enviados à Antioquia para orientar os irmãos sobre a resolução dos problemas que perturbavam os novos convertidos: "E, quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém” (At 16.4).
3. A valorização do presbitério. O presbitério deve ser valorizado, pois desde os primórdios da Igreja cristã, a sua existência tem fundamento na Palavra de Deus. O rebanho do Senhor será ainda mais bem atendido se o presbitério das nossas igrejas for preparado para uma atuação mais efetiva no governo da igreja e no ministério de ensino, tal como instruiu o apóstolo Paulo: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina” (1 Tm 5.17). O Novo Testamento mostra que, apesar de haver um pastor titular, o governo de uma igreja não era exercido por um único líder, mas pelo conselho de obreiros (At 20.17-37; Ef 4.11, 1 Pe 5.1). O presbitério é de vital importância ao desenvolvimento das igrejas locais e ao bom ordenamento do Corpo de Cristo.
SINOPSE DO TÓPICO (2)
Fundamentado na Palavra de Deus desde os primórdios cristãos, o presbitério atua no governo da igreja local junto ao pastor titular.
III - OS DEVERES DO PRESBITÉRIO
1. Apascentar a igreja. Os presbíteros têm o dever de alimentar o rebanho de Deus com a exposição da Santa Palavra. O apóstolo Pedro bem exortou aos presbíteros da sua época acerca desta tarefa: (1 Pe 5.2a). O apascentar as ovelhas do Senhor se dá com cuidado pastoral, não pela força ou violência, como se os obreiros tivessem domínio sobre o Corpo de Cristo. Esse ato ocorre voluntariamente, sem interesse financeiro, servindo de exemplo ao rebanho em tudo (1 Pe 5.2,3) Os presbíteros formam o conselho da igreja local cujo objetivo maior é atuar na formação espiritual, social, moral e familiar do povo de Deus.
2. Liderar a igreja local. A liderança da igreja loca! tem duas esferas principais de atuação: o governo e o ensino. O presbítero, quando designado para essas tarefas, tem o dever de exercê-las na “Igreja de Deus” (1 Tm 3.5). Para isso, ele precisa saber governar a sua própria casa” e ser "apto a ensinar” (1 Tm 3.2,4). Liderar o rebanho de Deus, segundo o Novo Testamento, é estar disponível “para servir” e “não para ser servido” (Mt 20.25-28; Mc 10.42-45). Com o objetivo de exercer competentemente esta função, o presbítero deve ser uma pessoa experiente, idônea e pronta a ser exemplo na igreja local. Ensinar e governar com equidade e seriedade é o maior compromisso de todo homem de Deus chamado para tão nobre tarefa.
3. Ungir os enfermos. “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e orem sobre ele, ungindo-o com azeite em nome do Senhor” (Tg 5.14). O ato da unção dos enfermos não pode ser banalizado na igreja local. Ele revela a proximidade que o presbítero deve ter com as pessoas. O membro da igreja local tem de se sentir à vontade para procurar qualquer um dos presbíteros e receber oração ou uma palavra pastoral. Tal obreiro foi separado pelo Pai e pela igreja para atender a essas demandas.
SINOPSE DO TÓPICO (3)
Apascentar a igreja de Cristo, * liderar uma igreja local e ungir os enfermos são algumas das muitas responsabilidades do presbítero.
CONCLUSÃO
Vimos que os termos presbítero, bispo e pastor são sinônimos. Os presbíteros, ou bispos, sempre formaram um corpo de obreiros com a finalidade de contribuir para a edificação da igreja local Eles exercem uma função pastoral. Nas Assembleias de Deus no Brasil, os presbíteros exercem este serviço, pastoreando as congregações.
Eles ainda cuidam da execução; das principais tarefas da Igreja: a evangelização e o ensino da Palavra. Portanto, esses obreiros precisam É ser bem selecionados e valorizados pela igreja local.
AUXÍLIO BIBLIOGRÁFICO I
Subsídio Teológico
“As qualificações dos Presbíteros (1.6-9)
As qualificações no verso 6, de acordo com o idioma original, são condições ou questões indiretas relativas aos candidatos que estão sendo considerados para o ministério. O grego traduz literalmente: ‘Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução [desperdício de dinheiro] nem são desobedientes’ — este pode ser considerado como um candidato ao presbitério Paulo parece estar usando as palavras "ancião/presbítero’ (presbyteros, v.5) e ‘líder/bispo’ (episkopos, v.7) de modo intercambiável [.,,]. Neste primeiro período da história da Igreja, os ofícios ministeriais eram variáveis e indistintos (STRONSTAD, Roger; ARRINCTON, French L. (Eds.) Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. Vol. 2: Romanos a Apocalipse. 4.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, pp.704,05).
AU XÍLIO BIBLIOGRÁFICO II
Subsídio Histórico Pentecostal
“PRESBÍTEROS
As Assembleias de Deus, especialmente no Brasil, certamente em razão de se constituírem inicialmente de crentes de diversos grupos evangélicos, atraídos peia crença bíblica do batismo no Espírito Santo, do ponto de vista administrativo, ministerial, adotaram uma posição intermediária mais aproximada do sistema presbiteriano. Não admitem hierarquia. Não aceitam o episcopado formal, senão o conceito bíblico de que o pastor é o mesmo bispo mencionado no Novo Testamento. Admitem, entretanto, o cargo separado de presbítero. O presbítero (anteriormente chamado ‘ancião’) é o auxiliar do pastor. Porém, em algumas regiões, em campo de evangelização das Assembleias de Deus, de certo modo, é-lhe dado cargo correspondente ao de pastor, onde, na ausência deste, ele desempenha todas as funções pastorais: unge, ministra a Ceia e batiza. Entre esses, há os que possuem a dignidade, capacidade e verdadeiro dom de pastor.
[...] Porém, na Convenção Geral de 1937, na AD de São Paulo (SP), foi debatida a questão sobre se os anciãos (presbíteros) não poderiam ser considerados pastores. Os convencionais compreenderam, citando textos como 1 Pedro 5.1, Atos 20.28 e 1 Timóteo 5.1 7, que, em alguns casos, parece haver uma diferença entre anciãos e anciãos com chamada ao ministério, e estabeleceram, assim, a hierarquia eclesiástica que até hoje existe nas Assembleias de Deus: diáconos, presbíteros e ministros do evangelho (pastores e evangelistas).
[...] Nas Assembleias de Deus, embora o trabalho do presbítero tenha a sua definição, passou a ser também visto como o penúltimo cargo a ser exercido pelo obreiro, na sucessão das ordenações, antes de ser consagrado a evangelista ou pastor” (ARAÚJO, Isael Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp.71 5,16).
VOCABULÁRIO
Intercambiável: Que pode intercambiar, permutar, trocar ou mudar reciprocamente. Étnica: Relativo a etnia; pertence ou próprio de um povo. Sinonímia: Qualidade das palavras sinônimas; de relação de sentido entre dois vocabulários que tem significação muito próxima.
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
STRONSTAD, Roger; ARRINGTON, French L. (Eds.) Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. Vol. 2: Romanos a Apocalipse. 4.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal, Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
EXERCÍCIOS
1. Segundo a lição o que é um presbítero?
R: É um título de dignidade dos indivíduos experientes e de idade madura que formavam o governo da igreja local
2. Qual o significado do termo “presbitério”?
R: “Presbitério” vem do gr. presbyterion, substantivo de presbítero, um conselho formado por anciãos da igreja cristã. O termo designa o conjunto de presbíteros que administram uma igreja local.
3. Relacione os deveres dos presbíteros.
R: Apascentar a igreja, liderar a igreja local e ungir os enfermos.
4. Quais as duas esferas principais de atuação da liderança da igreja local?
R: O governo e o ensino.
5. Qual é o maior compromisso de todo homem de Deus chamado para ser presbítero?
R: Ensinar e governar com equidade e seriedade.
Revista Ensinador Cristão CPAD, n° 58. p.41.
Ao longo da história da Igreja, vários modelos de governo eclesiásticos apareceram. Mas, oficialmente, podem-se classificar três exemplos: o Episcopal, o Presbiteriano e o Congregacional.
No governo episcopal, o bispo é a autoridade máxima numa hierarquia constituída de presbíteros e diáconos. Adotam esse modelo as igrejas Romana, Anglicana, Ortodoxa e Metodista, por exemplo.
O governo presbiteriano é constituído de um conselho eleito pela assembleia geral da igreja local. Tal conselho é formado por presbíteros regentes (administradores) e docentes (pastor titular e pastores que cuidam do ensino e da liturgia) tipificados pelas igrejas presbiterianas de fé reformada. Ainda há o presbitério (regional) subordinado ao Sínodo (estadual) que, por sua vez, submete-se ao Supremo Concílio (nacional).
O governo congregacional caracteriza-se pelas decisões tomadas em assembleia geral constituída pela igreja local. As igrejas batistas são a denominação que mais caracteriza esse modelo.
Tecnicamente, as igrejas pentecostais adotam o modelo episcopal de governo. O das Assembleias de Deus no Brasil constituiu-se pelas funções de Pastor, Evangelista, Presbítero, Diácono e Auxiliar de Trabalho - a função de Auxiliar submete-se à de diácono; esta à de presbítero; esta à de evangelista; e esta à de pastor; mas todas, por sua vez, à de Pastor-Presidente.
Constituída por diversos campos de trabalhos, onde uma igreja matriz exerce a liderança em relação às igrejas setoriais e as demais congregações, e de setores eclesiásticos regionais, a função do presbítero tem uma importância singular na liderança local da igreja. O presbítero da Assembleia de Deus é um pastor local, pois ele pastoreia as congregações sob a supervisão do pastor setorial (pastor de uma igreja setorial da sede), isto é, um bispo responsável pela supervisão de várias congregações em uma região daquele campo de trabalho.- Por isso, uma grande e extraordinária tarefa pesa sobre os ombros dos presbíteros.
E importante ressaltar que, segundo o pastor Isael Araújo, no "Dicionário do Movimento Pentecostal" (CPAD), o modelo de governo assembleiano no Brasil foi abundantemente influenciado pelo da Suécia e trazido pelos missionários que lideraram inicialmente a igreja no Brasil quando da sua fase embrionária. Por outro lado, o governo da Assembleia de Deus da América é diametralmente oposto ao da brasileira.
COMENTÁRIO
INTRODUÇÃO
A Igreja deixou de ser localizada apenas em Jerusalém, passando pela Judeia e Samaria, e começou a se deslocar para “os confins da terra” (At 1.8). As “igrejas de Deus” sofriam a perseguição e se espalhavam por vários lugares (1 Ts 2.14). A conversão do fariseu Saulo, no caminho de Damasco, fez dele um dos maiores evangelistas de todos os tempos. Em suas viagens missionárias, muitas igrejas foram abertas, inclusive na Europa. Em consequência, as igrejas necessitavam de líderes, que orientassem os crentes acerca do evangelho, da organização, do desenvolvimento e da maneira de viver dos novos grupos de cristãos.
Os apóstolos, como verdadeiros evangelistas e missionários, não podiam ficar radicados num só lugar. Uns tinham que se dedicar “à oração e à palavra” (At 6.4). Outros precisavam sair evangelizando, mas o crescimento da obra exigia mais pessoas para ajudá-los. Assim, com o passar dos anos, foram surgindo crentes de mais idade, que demonstravam condição para cuidar dos mais novos convertidos. A boa semente do evangelho frutificava em vários lugares, e os líderes da Igreja (pertencentes ao Colégio Apostólico) tomaram providências para que, em cada cidade, fossem estabelecidos líderes locais para cuidarem do rebanho.
Barnabé e Saulo foram encarregados de levar socorro aos irmãos da Judeia, os quais o fizeram, entregando a ajuda “aos anciãos” (At 11.30). Havia uma grande fome naquela região e os líderes, com sabedoria, não mandaram a ajuda de qualquer forma. Enviaram aos líderes da comunidade cristã. Em sua primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé chegaram a Icônio, foram perseguidos e saíram para listra, Derbe, Antioquia, Pisídia e por muitas outras cidades. Eles fizeram excelente trabalho missionário, fundando muitas igrejas por onde passavam. E as multidões de crentes precisavam ser discipuladas.
Aquela altura da expansão da Igreja, não havia ainda um ministério organizado como conhecemos hoje, com pastores, evangelistas, mestres, presbíteros e diáconos, de forma bem definida e até impropriamente hierarquizada. Por isso, os discípulos mais antigos, e de mais idade, eram designados para cuidar de cada igreja. Eram os anciãos, que iam sendo escolhidos para serem superintendentes, supervisores, ou bispos. Exortando os irmãos de Éfeso, Paulo falou para os líderes daquela igreja: “Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At 20.28 — grifo nosso).
Em sua carta a Tito, Paulo mostra que é um verdadeiro pastor e líder, chamado por Deus (1 Co 1.1; G1 1.1), e tem cuidado das igrejas que fundou em suas viagens missionárias. E diz para seu discípulo: “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei” (Tt 1.5). De acordo com o entendimento da época, a igreja local deveria ter à frente um obreiro experiente e de mais idade. Que fosse um ancião. Um jovem obreiro pode ter muito conhecimento bíblico e até muita unção de Deus. Mas a experiência só se consegue com o tempo, com o passar dos anos (Jó 32.7).
Ao longo dos séculos, a atividade do presbítero caracterizou-se pelo ministério de administrar as igrejas, bem como do ensino da Palavra. Sua função não é inferior à do pastor ou do evangelista. É atividade necessária para o bom ordenamento das atividades das igrejas locais. O presbítero é obreiro que colabora com o pastor da igreja, ajudando-o no cuidado do rebanho do Senhor Jesus Cristo.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 129-130.
I - A ESCOLHA DOS PRESBÍTEROS
1. Significado da função.
A palavra presbítero, em sua origem significa “Forma comparativa” depresbys (gr.), que tem o significado de “mais velho, como substantivo, uma pessoa mais velha; especialmente um membro do Sinédrio israelita (também figurado, membro do conselho celestial) ou um “presbítero” cristão — ancião, mais velho, “um título de dignidade” “Anciãos de igrejas cristãs, presbíteros, encarregados da administração e governo das igrejas individuais”. Equivale a “episkopos, supervisor, bispo. Também didaskolos, professor; poimén, pastor”.
Nos primórdios da Igreja, o presbítero era “o pastor” local, fazendo parte de um grupo de obreiros, responsáveis pelo cuidado das novas igrejas que surgiam em decorrência da evangelização intensiva. O apóstolo Paulo, que também era pastor e presbítero, teve o cuidado de organizar a administração das igrejas por ele abertas em suas viagens missionárias. Escrevendo a Tito, seu discípulo, orientou-o quanto ao estabelecimento de presbíteros, nos diversos lugares, onde havia igrejas, indicando que eles seriam de fato os responsáveis pela liderança das novas igrejas.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 130-131.
PRESBITÉRIO, PRESBÍTERO Grupo ou ordem de anciãos que consagrou o jovem Timóteo (1 Tm 4.14). Parece que Paulo, nesta ocasião, liderava este grupo (2 Tm 1.6). Da mesma maneira que a nação israelita tinha seus anciãos, as Sinagogas também tinham seus, e o mesmo ocorria com o Sinédrio. Junto com o presbitério havia um conjunto de sacerdotes e escribas. Na época do NT este grupo tinha como presidente o sumo sacerdote. Paulo estabeleceu as igrejas sob o governo de um corpo de anciãos (At 14.23; 16.4; Tt 1.5; cf. At 15.4,6,23; 20.17,28). Nas igrejas atuais, particularmente naquelas que adotam a forma de administração presbiteriana, o grupo de anciãos da Igreja local é chamado de sessão, enquanto aqueles que se reúnem como representantes das igrejas de uma área maior são chamados presbíteros. E impossível dizer se os anciãos mencionados em 1 Timóteo eram de uma ou mais igrejas.
PFEIFFER .Charles F. Dicionário Bíblico Wycliffe. Editora CPAD. pag. 1591.
ANCIÃO NO NT (literalmente pessoa mais velha ou homem mais velho; algumas vezes transliterado como presbítero). Este termo designava três grupos diferentes no NT: (a) indivíduos mais velhos; (b) líderes político-religiosos do Judaísmo e (c) os primeiros líderes da igreja apostólica.
1. Formação: AT, Judaísmo Rabínico e a comunidade de Qumrã. De acordo com a terminologia do AT, o ancião era um termo vagamente definido, designando os líderes religiosos e políticos, especialmente de Israel. As referências bíblicas mostram que outras nações, como Egito e Moabe, possuíram tais líderes (cp. Gn 50.7; Nm 22.7). Embora vários termos hebraicos foram usados para descrever estes líderes, três termos aparecem com mais frequência que outros: ii?T sendo o termo técnico para ancião, mas geralmente significando uma pessoa mais velha (cp. Gn 43.7; Êx 3.16,18; 12.21; 17.5,6); nxw, significando idade avançada ou uma idade mais velha, do verbo que significa ser muito antigo (cp. lRs 14.4); e 12?, significando líder, chefe ou governador, e frequentemente aparecendo em contextos onde é claramente um sinônimo de ancião (cp. Jz 5.15; 6.6-16). Em Isaías 3.2,3 são mencionadas pelo menos onze diferentes posições de liderança pelo profeta; ancião é uma delas. Particularmente importante é a ideia dos “setenta anciãos” no AT (cp. Êx 24.1; Nm 11.16).
No primeiro século d.C., o ofício de ancião era uma posição regular na sinagoga judaica. No tratado do Sinédrio sobre a Mishná, as obrigações deste ofício são claramente destacadas. O conselho de anciãos era responsável pelo governo da comunidade judaica. Em lerusalém, o Sinédrio, que era um conselho composto de setenta e um anciãos, agia como a corte suprema para todo o Judaísmo. (Cp. Berakhoth4:7;Nedrarim 5:5; Me- ghillah 3:1; Edhuyoth 5:6; Ta’anith 3:8; Middoth 2:2; Ed 10.8; Lc 6.22; Jo 9.22; 12.42.)
As descobertas de Qumrã têm revelado uma comunidade pactuai, na qual o ofício de ancião também funcionava quase do mesmo modo que no Judaísmo, e há um consenso geral de que a comunidade de Qumrã realmente tinha conexões significantes com o Cristianismo primitivo. Isto não sugere que a Igreja Primitiva adotou sua estrutura eclesiástica da comunidade de Qumrã. O Manual de Disciplina (1 QS VI) fala dos anciãos (mebaqqer) como os que estavam em segundo lugar em autoridade, vindo logo após os sacerdotes.
2. O significado e a importância para a Igreja do NT. Os termos associados com esta posição aparecem mais de setenta vezes noNT: (a) quase metade das citações referem-se ao ofício no Judaísmo (cp. Mt 15.2; 26.47; Mc 8.31; 14.43; At 4.5; 25.15; note: o termo não é usado nenhuma vez no evangelho de João, exceto na variante textual em 8.9, e isto é particularmente significante à luz do tom negativo do quarto evangelho para com o Judaísmo em geral); (b) cinco referências são designações comparativas de idade (cp. Lc 15.25; At 2.17 [RSV “homens mais velhos”]; Rm 9.12; lTm 5.2 [RSV “mulheres mais velhas”]; Hb 11.2 [RSV “homens de idade”]; (c) as referências restantes são em relação ao ofício na Igreja Primitiva.
Na história apostólica de Lucas, o ofício aparece, sem explicações de sua origem, pela primeira vez em Atos 11.30. A referência aqui é aos presbíteros na Igreja da Judéia, para quem uma coleta foi tirada na Igreja de Antioquia. Nos é dito mais tarde que Paulo “designou” (do verbo grego que significa “escolher ou eleger por meio de mãos levantadas ou indicação”) presbíteros em cada Igreja (At 14.23). A exata natureza desta ordenação apostólica ou nomeação não é descrita exceto para sugerir que orações e jejuns faziam parte do ritual. Nós podemos supor que esta aparição inexplicável, em contraste com a escolha dos sete em Atos 6, implica numa transição natural, da estrutura da Sinagoga Judaica para a organização da Igreja Primitiva (cp. At 2.46).
A questão sobre a qual a Igreja tem se dividido através dos anos é acerca do relacionamento do ofício de presbítero em relação ao ministério total da Igreja. Primeiro, deveria ser observado que em muitas passagens eclesiológicas importantes o ofício de presbítero não é especificamente mencionado. Os ofícios de diácono, bispo ou pastor assim como ancião são notavelmente omitidos ((ICo 12.4-11, e vv. 28-30). (em ICo 12.28 traduzido como “administradores” que pode ser uma referência a um tipo de presbítero moderador.) Em uma lista um pouco mais definida dos ministérios da igreja,
em Efésios 4.11, “pastores” (Ttotjnjv) e “professores” estão entre os títulos usados para descrever estes líderes. Segundo, as epístolas pastorais referem-se somente a dois ofícios: pastores ou presbíteros e diáconos. Em 1 Timóteo
3.1-13,0 texto usa episkopos e diakonos\ enquanto que Tito 1.5-9 parece usar os termos episkopos e presbuteros quase que de modo permutável: “te deixei em Creta, para que... em cada cidade, constituísses presbíteros... porque é indispensável que o bispo (episkopos) . “., Na carta à igreja em Filipo, a saudação menciona somente “bispos” (episkopos) e “diáconos” (diakonos), e deve ser observado que ambos termos são plurais.
Duas questões são levantadas pela evidência do NT. Primeira, qual é a importância da pluralidade de anciãos na igreja do NT? Segundo, qual é o relacionamento de bispo ou pastor com o ofício de presbítero?
Em relação à primeira questão, deve ser observado que duas possíveis explicações estão disponíveis. Por um lado, a estrutura existente da sinagoga, com sua pluralidade de anciãos é comparada à organização da Igreja do NT. Deve ser destacado aqui que, mesmo na sinagoga havia, um “cabeça”. A pluralidade neste caso não proibiria a liderança predominante de um presbítero, talvez referido como “presbítero que preside” (lTm 5.17). Há, na história posterior da igreja, um desenvolvimento que pode ser seguido desde uma pluralidade de presbíteros a um bispo presidente até uma estrutura episcopal hierárquica. A natureza das assembleias cristãs primitivas do NT, que geralmente cultuava em lares dos membros, pode também ajudar a explicar a pluralidade de presbíteros. Em outras palavras, em uma dada comunidade poderia haver um número de presbíteros responsável pelo cuidado de uma congregação particular, que se reunia em seu lar ou no lar de algum outro cristão na congregação. Exemplos claros disto são encontrados no próprio NT (cp. At 16.11ss.;Rm 16.3-5).
Em relação à última questão, já se tem observado que na época em que as epístolas pastorais foram escritas os termos “bispo” e “presbítero” foram usados de modo permutável (cp. lTm 3; Tt 1). Mas mesmo mais cedo no ministério de Paulo (cp. At 20.17-38), quando ele se encontrou com os presbíteros da igreja de Éfeso, ele parece referir-se aos três termos ao mesmo tempo — presbítero, bispo ou supervisor e pastor. A ideia de presbíteros servindo como pastores do rebanho e supervisionando a administração da Igreja ajudou a distinguir o título do ofício de suas funções práticas. Em outras palavras, o termo presbítero, originalmente, designava aqueles que eram, tanto natural quanto espiritualmente, mais velhos ou mais maduros. Observe que Paulo faz menção específica ao fato de que ninguém deveria ser admitido ao ofício de presbítero ou bispo sendo um “recém convertido” ou noviço (cp. lTm 3.6). Os outros termos — pastor e bispo ou supervisor — referem-se às funções deste ofício na Igreja. Um presbítero é, portanto, um homem mais velho, um homem membro da Igreja espiritualmente mais maduro, que é responsável pela administração da congregação. Neste último caso, é instrutivo que Pedro refere-se a si mesmo como um presbítero; “Aos presbíteros, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou presbítero com eles” (IPe 5.1). Nos últimos escritos pós-apostólicos da Igreja, há uma evidência clara de que o ministério de pastor ou bispo e presbítero eram o mesmo (cp. Didaquê 10.6).
Finalmente, deve ser observado que o termo também tem um significado escatológico definido. Em Apocalipse de João, um grupo selecionado recebe o título de “vinte e quatro anciãos” e eles são chamados para participar na estrutura escatológica da redenção. Comentaristas do NT discordam sobre a precisa referência destes “vinte e quatro anciãos”, mas pode ser sugerido que este título aponta novamente para origem judaica do ofício (AT e Rabínico), bem como ao relacionamento dinâmico de Israel com a Igreja. A duplicação do número doze pode apontar para uma unidade espiritual que será concretizada escatologica e eclesiologicamente no fim dos tempos! (Cp. Ap 4.4,10; 5.5-14; 7.11-13; 11.16; 14.3; 19.4; Rm 9-11.)
MERRILL C. TENNEY. Enciclopédia da Bíblia. Editora Cultura Cristã. Vol. 1. pag. 297-299.
PRESBÍTERO. No AT. Os “anciãos do povo” ou os “anciãos de Israel" são frequentemente associados a Moisés quando este lidava com o povo (Ex 3.16; 4.29; 17.5; 18.12; 19.17; 24.1, 11; Nm 11.16). Posteriormente, administram o governo local (Jz 8.14; Js 20.4; Rt 4.2) e participam dos negócios da nação (1 Sm 4.3) mesmo depois da instituição da monarquia (1 Sm 8.4; 30.26; 2 Sm 3.17; 5.3; 1 Rs 21.8). Galgam nova preeminência durante o exilio (Jr 29.1; Ez 7.1; 14.1; 20.1) e depois da volta do exilio, estão associados tanto ao governador nas suas funções (Ed 5.9ss.; 6.7) quanto à administração local (Ed 10.14). Em si mesmos, têm certas funções jurídicas (Dt 22.15; 25.7ss.) e associam-se aos juizes, que provavelmente são escolhidos dentre os “anciãos" (ou “presbíteros”), para administração e execução da justiça (Dt 16.18; 21.2ss.; Ed 7.25; 10.14). Além disso, estão associados a Moisés e Arão na transmissão
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da palavra de Deus ao povo (Ex 3.14; 4.29; 19.7) e na representação do povo diante de Deus nas ocasiões grandiosas (Ex 17.5; 24.1; Nm 11.16). Cuidam dos preparativos para a páscoa (Ex 12.21).
Outras nações tinham anciãos (cf. Gn 50.7; Nm 22.7), o direito ao título estava ligado à idade, o respeito de que o indivíduo gozava, ou ao cargo específico ocupado na comunidade (cf. o alderman saxônico, o senator romano, a gerousia grega). O ancião em Israel obtinha inicialmente, sem dúvida, sua autoridade e seu status, bem como seu nome, da sua idade e da sua experiência.
No período dos macabeus, 0 título “anciãos de Israel" é aplicado aos membros do Sinédrio judaico que, segundo se considerava, tinha sido estabelecido por Moisés quando nomeou os setenta anciãos em Nm 11.16ss. No nível local, uma comunidade de 120 (cf. At 1.15) ou mais, podia nomear sete anciãos (Mishna, Sanhedrin 1.6). Estes eram chamados os “sete de uma cidade”, e é possível que os sete que foram nomeados em Atos 6 fossem considerados anciãos desse tipo (cf. D. Daube, The NT and Rabbinic Judaism, 237). Nos evangelhos, os anciãos estão associados com os escribas e com os sacerdotes principais que fizeram padecer Cristo (Mt 16.21; 27.1) e os apóstolos (At 6.12).
No NT. Os anciãos ou “presbíteros” (presbyteroi) aparecem já no início da vida da igreja, e assumem posição juntamente com os apóstolos, profetas e mestres. Em Jerusalém, estão associados a Tiago no governo da igreja local da maneira usada na sinagoga (At 11.30; 21.18), mas em associação aos apóstolos compartilham, também, do governo mais amplo, tipo Sinédrio, da igreja inteira (At 15.2,6,23; 16.4). Um apóstolo pode ser um presbítero (1 Pe 5.1).
Os presbíteros não aparecem em Antioquia durante a estada de Paulo (At 13.1), nem são mencionados nas primeiras epístolas dele. É possível que o governo eclesiástico fosse questão de importância secundária naquele período. Mesmo assim, Paulo e Barnabé, em sua primeira viagem missionária, promoveram a eleição de presbíteros em todas as igrejas que fundaram (At 14.23).
Os presbíteros aos quais Paulo dirigiu a palavra em Éfeso (At 20.17ss.) e aqueles aos quais 1 Pedro e Tlto falam, têm um lugar decisivo na vida da igreja. Além da sua função de humilde supervisão pastoral, deles depende, em grande medida, a estabilidade e a pureza do rebanho quando as tentações e crises se aproximam. Ocupam uma posição de autoridade e de privilégio que pode ser abusada. São co-participantes do ministério de Cristo entre 0 rebanho (1 Pe 5.1-4; At 20.28; cf. Ef 4.11)·,
É asseverado frequentemente que nas igrejas gentias 0 nome episkopos é usado como substituto de presbyteros, com significado idêntico. Parece que as palavras são intercambiáveis em At 20.17, 18 e Tt 1.5-9. Mas, embora todos os episkopoi sejam indubitavelmente presbyteroi, não fica claro se o inverso sempre se aplica. A palavra presbyteros indica principalmente o status de “ancião”, ao passo que episkopos denota a função de pelo menos alguns dos anciãos. Mas é possível que tenha havido “presbíteros” que não eram episkopoi.
Em 1 Tm 5.17, o ensinp é considerado uma função desejável do presbítero, e não somente a da supervisão. É provável que, quando os apóstolos, mestres e profetas, em suas viagens, já não podiam ministrar a toda a igreja, a função do ensino e da pregação recaísse sobre os presbíteros locais, e assim, desenvolver-se-ia o cargo de presbítero, e as qualificações dos presbíteros. Isso, por sua vez, pode ter levado a uma distinção dentro do presbiterado. A presidência do grupo local de presbíteros, tanto na disciplina da congregação, quanto na celebração da Ceia do Senhor, tenderia a ser um cargo permanente, exercido por um só homem.
O “presbítero” em 2 e 3 João refere-se meramente a alguém que gozava de alta estima dentro da igreja. Os vinte e quatro anciãos que com tanta freqüência aparecem nas visões do livro de Apocalipse são exemplos de como toda a autoridade deve adorar humildemente a Deus e ao Cordeiro (Ap 4.10; 5.8-10; 19.4). Deve-se notar que até mesmo esses presbyteroi, segundo parece, ministram no céu à igreja na terra (Ap 5.5, 8; 7.13).
Na História da Igreja. Na época da Reforma, Calvino entendeu que o cargo de presbítero era uma das quatro “ordens ou cargos” que Cristo instituíra para o governo normal da igreja, sendo que as outras eram: pastores, mestres e diáconos. Os presbíteros, como representantes do povo, eram responsáveis pela disciplina, lado a lado com os pastores ou bispos. Na Escócia, posteriormente, o presbítero recebia uma ordenação vitalícia, sem a imposição das mãos, e tinha 0 dever de examinar os candidatos à comunhão da igreja e de visitar os enfermos, sendo incentivado a ensinar. Surgiu a teoria, através de 1 Tm 5.17, de que os ministros e os demais presbíteros eram da mesma ordem, e que os ministros eram presbíteros quer ensinavam, e os demais, presbíteros que governavam. De modo global, no entanto, a Igreja Presbiteriana tem sustentado que há uma distinção entre a ordenação ao ministério e a ordenação ao presbiterado, sendo que o tipo de ordenação é determinado segundo a sua finalidade. O presbítero tem sido considerado representante do povo (sem, porém, ter sido nomeado pelo povo, e sem ser responsável diante deste) na organização dos assuntos da igreja, e tem cumprido muitas das funções que, no NT, são próprias do diaconato. O padrão da obra do presbítero dentro da igreja corresponde estreitamente àquele do “ancião do povo” no AT.
WALTER A. ELWELL. Enciclopédia HISTÓRICO-TEOLÓGICA DA IGREJA CRISTA. Editora Vida Nova.
2. A liderança local.
O crescimento das igrejas, como fruto da evangelização e do discipulado, exige a delegação de atividades a pessoas que tenham condições de liderar o rebanho do Senhor Jesus (Tt 1.5,7). Os pastores não podem abarcar tudo para si, sob pena de não darem conta das inúmeras responsabilidades que a igreja local requer. Como a referência a presbíteros, no NT, sempre é feita no plural “presbíteros”, “bispos” ou “anciãos”, dá a entender que, em geral, o presbítero não agia isoladamente, mas como um corpo de ministros, ou de líderes, que cuidava da igreja local. “Sempre são citados no plural, isto é, não é mencionada uma só igreja onde houvesse apenas um presbítero (At 11.30; 15.2,4,6; 20.17; Tg 5.l4; 1 Pe 5.1).”
Certamente, pela inexistência de pessoas qualificadas com o dom ministerial de pastor, havia a necessidade de uma liderança, formada por um grupo de irmãos mais idosos, para cuidar da igreja local. Entende-se, assim, que os presbíteros têm um ministério de grande importância, auxiliando os pastores, designados por Deus para apascentarem e cuidarem da Igreja do Senhor sob seus cuidados.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 131.
Tt 1. 4,5,7. Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum: graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador (4). Em Atos dos Apóstolos, Tito não é mencionado entre os assistentes de Paulo, embora seja mencionado várias vezes em 1 Coríntios, Gálatas e 2 Timóteo. Ele era grego e provavelmente foi ganho para Cristo pelo ministério do apóstolo. Quando surgiu a controvérsia dos judaizantes, Lucas nos informa que os irmãos determinaram que “Paulo, Barnabé e alguns dentre eles subissem a Jerusalém aos apóstolos e aos anciãos sobre aquela questão” (At 15.2). Paulo nos fala (G1 2.3) que entre estes “alguns dentre eles” estava Tito (presumindo que se trate da mesma visita a Jerusalém). Mais tarde, este jovem aparece na segunda carta de Paulo aos Coríntios, onde há oito referências a ele, que o mostram como ajudante de confiança do apóstolo. Em 2 Timóteo 4.10, lemos que Tito estava em missão na Dalmácia. Na época da carta de Paulo a Tito, o jovem é o representante do apóstolo em Creta (ver Mapa 1), onde era evidentemente pastor da igreja cristã.
Paulo se dirige a Tito por meu verdadeiro filho, segundo a fé comum, expressão que é mais bem traduzida por “meu filho verdadeiramente nascido na fé que compartilhamos” (NEB). A bênção que se segue é de caráter tipicamente paulino, conferindo nota adicional de autenticidade a esta epístola: Graça, misericórdia e paz, da parte de Deus Pai e da do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador.
O apóstolo passa a tratar imediatamente da razão que o levou a escrever a carta. Notamos a falta de uma declaração de estima ou gratidão a Tito como ocorre em 2 Timóteo 1.3-5 (embora também não ocorra em 1 Timóteo). Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei (5). Os dizeres dão a entender que fazia pouco tempo que Paulo estivera em Creta acompanhado com Tito que lhe servia de assistente. Não há registro histórico em Atos que fale desta campanha cretense. O Livro de Atos termina abruptamente com os acontecimentos finais da primeira prisão de Paulo em Roma. Nossa tese, que torna possível a autoria paulina das Epístolas Pastorais, é que o apóstolo foi liberto do primeiro aprisionamento e continuou o seu trabalho. Embora não haja relato dos anos finais da vida do apóstolo, teria havido tempo suficiente para a ampla evangelização da ilha de Creta. O fato de Tito ter sido encarregado de ordenar presbíteros... de cidade em cidade mostra a extensão dessa atividade. O ministério de Paulo em Creta havia terminado recentemente; mas o apóstolo deixou ali Tito, seu assistente, para completar a tarefa de organizar as igrejas. A linguagem de Paulo dá a entender que nem tudo estava bem nas igrejas cretenses e que parte da tarefa de Tito era corrigir o que estava errado.
Tito foi instruído a designar e ordenar presbitérios (ou “pastores”, BV) para as igrejas. Esta prática estava de acordo com o costume do apóstolo. Já na primeira viagem missionária, Lucas nos informa que, “havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido” (At 14.23). Há diferenças nas instruções de Paulo entre 1 Timóteo e Tito. Na primeira, já havia bispos no exercício do cargo, ao passo que na última, provavelmente por ser algo novo na igreja cretense, era a primeira ordenação de presbitérios.
Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância (7). O assunto desta lista adicional de qualificações é o bispo (no singular) e não os “presbíteros” (no plural). Barrett observa que “a mudança do plural (presbíteros) para o singular (bispo) é mais bem explicado não pela suposição de que em cada cidade havia um grupo de presbíteros e só um bispo, mas pela interpretação [...] de que, enquanto que presbítero descreve o cargo, bispo descreve sua função: Os presbíteros que você designar devem ter certas qualificações, pois o homem que exerce a supervisão tem de ser”1 não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância.
A qualidade da irrepreensibilidade — “caráter inatacável” (6) — ocorre novamente, pois a responsabilidade do bispo é servir como despenseiro da casa de Deus (7). O termo despenseiro quer dizer, literalmente, “o administrador de uma casa ou família” (Kelly). O bispo era o gerente financeiro da igreja local e por isso, se por nenhuma outra razão, deve ser homem de extrema integridade.
O apóstolo alista cinco defeitos que devem estar visivelmente ausentes no bispo (7). São falhas de caráter que, caso sejam toleradas em um líder eclesiástico, lhe causarão ruína certa. O soberbo é alguém propenso a ser “arrogante” (BAB), opinioso e teimoso. Característica como esta constituiria alta traição do espírito do Mestre. O iracundo seria indivíduo esquentado, vingativo e totalmente falto de paciência (“impacientes”, BV), que é tão essencial ao servo de Cristo. Nem dado ao vinho (“beberrão”, BJ) é expressão que sempre nos deixa surpresos num contexto como este. Contudo, era um problema muito sério na igreja do século I. A viticultura era abundante em todos os lugares ao longo da bacia mediterrânea, e a tentação de beber vinho e, daí, ficar bêbado vinha de todos os lados. Nem espancador (“violento”, BAB, BJ, CH, NTLH, NVI, RA) indica a tendência à ação violenta ou arbitrária, que com certeza ocorria ocasionalmente entre os líderes locais na igreja primitiva. Nem cobiçoso de torpe ganância (“nem ávido por lucro desonesto”, NVI, cf. BJ, CH) é outra característica grosseira contra a qual Paulo adverte. Como guardião dos fundos monetários da igreja esta poderia se tornar fonte de tentação para o bispo.
J. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 543-546.
Tt 1.4 A Tito, meu autêntico filho segundo a fé em comum. Tito abraçou a fé em Jesus por meio da proclamação do apóstolo, representando um fruto real do serviço apostólico. Autêntico também pode ser a designação de um companheiro de luta na fé, desde que seja aprovado.
O relacionamento do apóstolo com Timóteo, o “filho amado”, certamente era mais íntimo, mas Tito também está bem próximo dele. Tanto mais surpreendente é que um colaborador tão próximo e íntimo de Paulo não seja mencionado em nenhuma passagem de At.
Sobre a fé em comum apoia-se o relacionamento espiritual entre pai e filho. Chama atenção a diferença em relação a 1Tm 1.2, onde simplesmente se lê: meu autêntico filho na fé. Será que a ênfase do que há em comum permite inferir uma maior independência de Tito, ou será que a intenção é enfatizar a posição comum de todos os que creem (cf. 1b: em consonância com a fé dos eleitos)? Tito representou o apóstolo com sucesso em uma questão complicada na igreja de Corinto, enquanto Timóteo praticamente teve de ser protegido dos coríntios.
Em outras ocasiões Paulo também escreve da “fé em comum”, compartilhada com todos os discípulos de Jesus; com todos eles participa da “salvação conjunta”. Entendida nesse sentido, a catolicidade, i. é, a validade geral ou participação geral na fé, representa uma preocupação central da Bíblia.
Tt 1.5 – Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi.
Dessa frase pode-se concluir que Paulo e Tito evangelizaram juntos em Creta. Judeus de Creta estiveram em Jerusalém por ocasião do Pentecostes. Não se pode descartar que alguns deles aceitaram a fé em Jesus, o Messias, retornando a Creta como primícias da fé. Tais primeiros contatos podem ter aberto o caminho para uma posterior viagem missionária. O motivo direto da carta são os dois colaboradores mencionados em Tt 3.13, que viajam até Creta, entregando a missiva a Tito.
Na época da redação Paulo está livre (Tt 3.12). A situação é semelhante à de 1Tm: Timóteo deve organizar o necessário em Éfeso, e Tito em Creta. Tanto em 1Tm quanto em Tt a instrução oral é seguida por confirmação e complementação escritas, um procedimento que não é incomum para Paulo.
Tito também deixará a ilha. Por isso é necessário que as instruções sejam entregues por escrito às mãos dos irmãos colaboradores e co-dirigentes em Creta. Em 1Tm já se pressupõem formas e serviços eclesiais mais sólidos, em Creta parece existir um estágio anterior de constituição da igreja.
As coisas faltantes são aquilo que ainda falta para o desenvolvimento de uma igreja plenamente emancipada. O que Paulo deixou inconcluso é confiado a Tito para que este cuide da evolução posterior. O que Deus começou ele pretende levar à maturidade. Aqui não se tem em vista apenas um aperfeiçoamento em termos de organização! Já em 1Ts 3.10 Paulo escreve que deseja dirimir as falhas que ainda estão ligadas à fé. As igrejas devem chegar à aprovação na fé.
Tito recebe particularmente a incumbência de instituir presbíteros em cada cidade. Aparentemente a fé em Jesus se expandiu primeiramente nas cidades, ou as igrejas cresceram mais rapidamente nelas, de modo que se tornasse necessária a instalação de presbíteros. As aldeias e localidades das redondezas eram evangelizadas a partir das cidades. Em todos os lugares a instalação de servos para a igreja aconteceu com a participação dos membros da igreja. At 14.23 informa que Paulo e Barnabé retornaram a três cidades em que se haviam formado igrejas durante a primeira migração evangelizadora. Somente agora, na segunda estadia, elegem presbíteros em cada igreja, recomendando-os em conjunto com a igreja ao Senhor, mediante oração e jejum. A evangelização em Creta pode ter ocorrido de forma similar. Primeiramente Paulo e Tito viajaram em conjunto pela ilha, anunciando o evangelho de Jesus. Em uma segunda visita, pouco tempo depois, Tito (ele permaneceu na ilha, enquanto Paulo seguiu viagem) deve confirmar, em e com as jovens igrejas, presbíteros que se evidenciaram como agraciados e aprovados por Deus em vista de seu serviço aos fiéis.
Em todas as igrejas surgidas da atividade missionária de Paulo havia serviços eclesiais organizados desde o princípio, tão logo um grupo sólido de discípulos estivesse de fato formado. O NT não dá notícia de nenhuma igreja sem liderança. O estilo de liderança pode se configurar de formas muito distintas, porém nunca na forma de uma posição especial excludente ou de uma reivindicação legal consolidada.
Tt 1.7 O presidente deve ser irrepreensível como administrador de Deus: O presidente é um dos presbíteros e vem das fileiras deles, por isso é repetida para ele a característica decisiva: que seja irrepreensível! O singular não exclui a possibilidade de que houvesse vários presidentes em uma cidade, especialmente quando se formavam várias igrejas caseiras na mesma localidade. Ao contrário de 1Tm, não se mencionam aqui diáconos. Não se trata de listar todos os serviços na igreja e muito menos de instituir um cargo de bispo monárquico, nem de providenciar o ordenamento jurídico de cargos.
A prestação de serviços na administração de Deus acontece pela fé. Cada administrador presta contas do que faz e deixa de fazer. Na sequência são arrolados cinco vícios que o presidente deve evitar (v. 7), e depois ocorrem seis exigências, imprescindíveis para sua contribuição na edificação da igreja.
Não autocrático: usurpador, sem escrúpulos, caprichoso, teimoso. Um bom líder não imporá a si mesmo, não tentará avançar solitariamente e sem os irmãos co-responsáveis. O dirigente seja servo de todos, não seu comandante e senhor.
Não irascível: faz parte de autocrático. Quem considera a si mesmo capaz de tudo ou confia demais em si rapidamente perde a paciência com outros. Um valentão em breve se torna solitário, alguém que tem apenas seguidores submissos, mas não irmãos co-responsáveis.
Não dado ao vinho, não briguento, não ganancioso: Houve tentativas de explicar essas condições, de conotação óbvia, com os primórdios da missão e o baixo nível do entorno gentílico. Contudo demandas morais que parecem elementares não são cumpridas de forma óbvia. Quando as exigências básicas (aquilo que é fundamental e elementar) são apenas pressupostas, e não são constantemente propostas, examinadas e exercitadas, todo avanço permanece incerto e pode levar à auto-ilusão.
Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos Tito. Editora Evangélica Esperança.
Tt 1.4 Tito, um grego, era um dos mais confiáveis e responsáveis cooperadores de Paulo. Como um verdadeiro filho, ele pode ter sido um dos convertidos de Paulo. Embora ele não esteja mencionado no livro de Atos, outras epístolas chamam a atenção para o fato de que Tito realizou diversas missões em nome de Paulo.
Paulo repetiu a sua saudação padrão (graça e paz) com uma ligeira modificação. A última palavra repete a idéia do versículo 3. Paulo usou a palavra “Salvador” tanto para Deus Pai como para Jesus Cristo, revelando, desta maneira, a sua compreensão da natureza de Deus e da obra de salvação (veja também 1.3; 2.10,13; 3.4,6).
Tt 1.5 Creta é uma ilha comprida (240 quilômetros) e estreita, situada no mar Mediterrâneo. Entre os seus habitantes, havia muitos judeus. Os primeiros convertidos foram provavelmente judeus cretenses que tinham estado em Jerusalém por ocasião do Pentecostes (At 2.11), mais de trinta anos antes de Paulo escrever esta carta. Talvez tivesse havido algum novo contato com Paulo quando ele esteve ali como prisioneiro, em sua primeira viagem a Roma, para ser julgado.
Posteriormente, ele e Tito retornaram para uma visita evangelística.
Aparentemente, Paulo não ficou muito tempo em Creta, de modo que deixou Tito, seu leal e capaz cooperador, para completar o trabalho de estabelecer o ensino correto e lidar com os falsos ensinadores, como também indicar presbíteros de cidade em cidade.
Paulo tinha indicado presbíteros em várias igrejas durante as suas viagens (At 14.23).
Ao retornar da primeira viagem missionária, Paulo dedicou um tempo extra para visitar novamente cada igreja e estabelecer a liderança de cada uma delas. Ele não podia permanecer em todas as igrejas, mas sabia que estas novas igrejas precisavam de fortes líderes espirituais.
Os homens escolhidos deveriam liderar as igrejas, ensinando a sã doutrina, ajudando os crentes a amadurecer espiritualmente, e capacitando-os a viver para Jesus Cristo, apesar da oposição. Os versículos seguintes fornecem as qualificações para os presbíteros.
Tt 1.7 A expressão “convém que o bispo seja irrepreensível” enfatiza que esta qualidade é essencial em qualquer pessoa que seja um despenseiro da casa de Deus. Os líderes da igreja que agem de maneira indigna e trazem acusações e reprovações sobre si mesmos também danificam o trabalho de Deus. As diretrizes de Paulo adquirem uma importância adicional no cenário de Creta, pois os cretenses eram conhecidos por terem má reputaçáo (veja 1.12). Às vezes, as diretrizes de liderança das Escrituras estarão em harmonia com os padrões predominantes para os líderes maduros em uma cultura, e em outras ocasiões, elas estarão em conflito.
Aparentemente, Tito devia ser prudente com os cretenses.
Uma armadilha da liderança é tornar-se soberbo. Mas o orgulho pode seduzir as emoções e obscurecer a razão, tornando um líder de igreja ineficiente. O orgulho e a arrogância foram a razão da queda do diabo, e ele usa o orgulho para apanhar outros. Além disto, uma pessoa iracunda irá falar e agir sem pensar, magoando as pessoas e danificando o trabalho e a reputação da igreja.
Estas três últimas proibições tinham importância especial para a busca de Tito de líderes da igreja na Creta do século I. Um líder de igreja não deve ser dado ao vinho nem espancador (frequentemente, o resultado de a pessoa ser iracunda ou dada ao vinho). Além disto, os líderes que Tito escolhesse deveriam servir por amor, e não por serem cobiçosos por dinheiro.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 552-554.
3. As qualificações.
A missão do presbítero é de tanta importância que o Novo Testamento dedica vários textos a respeito das qualificações que se devem exigir dos obreiros que são escolhidos para essa função ministerial. Não é um “dom de Deus”, como já vimos no estudo sobre Efésios 4.11. Mas é um ministério, no sentido a que Paulo se refere, ao dizer que “há diversidade de ministérios” (1 Co 12.5).
“O papel dos oficiais da igreja era variável e flexível na época do Novo Testamento. Até o período patriótico primitivo, tais funções ainda não tinham sido padronizadas e regulamentadas”.4 Tendo em vista a origem do presbítero, como acentuado em item anterior, sua importância é indiscutível. E suas qualificações são das mais relevantes. Em sua escolha, segundo a Palavra de Deus, devem ser observadas algumas qualidades ou qualificações, com base no texto de Tito 1.6-9, que equipara o presbítero ao “bispo”'.
1) “Aquele que for irrepreensível”. O presbítero, ou bispo, deve ser uma pessoa de caráter cristão ilibado, íntegro, exemplar. Um “obreiro que não tem de que se envergonhar” (2 Tm 2.15).
2) “Marido de uma mulher Significa que o candidato ao presbitério ou ao episcopado deve ser um homem fiel à sua esposa. O renomado comentarista Matthew Henry, em seu Comentário Bíblico sobre o Novo Testamento, diz sobre ser “marido de uma mulher” o bispo não deve ser bígamo, tendo duas ou três mulheres, “de acordo com a prática pecaminosa comum daquela época, por uma imitação perversa dos patriarcas”.5
3) Que tenha familia ajustada. Paulo dá destaque especial à criação dos filhos do presbítero ou bispo (cf. 1 Tm 3.4,5).
4) “Não soberbo”. E sinônimo de “arrogante, orgulhoso, presunçoso”. Um presbítero não deve ser orgulhoso. Quando Jesus, Mestre dos mestres, e “Sumo Pastor”, lavou os pés dos discípulos, quis dar uma grande lição aos pastores, e aos presbíteros ou bispos. E bom lembrar que cargo ministerial não é sinônimo de grandeza espiritual (1 Pe 5.5).
5) “Nem iracundo”. Uma pessoa iracunda é raivosa, colérica, furiosa. Um presbítero deve ser pessoa que sabe refrear seus impulsos emocionais. A ira é a pior opção para ser cultivada. Um iracundo perde os melhores amigos e afasta a muitos de seu convívio. Jesus oferece um curso de mansidão (Mt 11.29). Há vaga para todos.
6) “Nem dado ao vinho”. Ou seja: não dado a fazer uso de bebida alcoólica (ver Ef 5.18). Não deve beber vinho embriagante, nem ser tentado ou atraído por ele, nem comer e beber com os ébrios (Mt 24.49). (1) A abstinência total de vinho fermentado era a regra para reis, príncipes e juizes, no Antigo Testamento (Pv 31.4-7)/’ Não há necessidade de o presbítero, bispo ou pastor tomar vinho. Um suco de uva puro tem as mesmas propriedades terapêuticas que o vinho, exceto o teor alcoólico.
7) “Nem espancador”. Ou não violento, agressivo. O obreiro precisa ter o fruto da temperança ou do domínio próprio, para não dar lugar a seu temperamento agressivo. O servo de Deus não deve guiar-se por seu temperamento, mas pelo Espírito Santo (G1 5.16). Alguém pode espancar outro com palavras, ou ferir com agressões verbais ou psicológica (cf. Jr 18.18). Sempre houve pastores grosseiros, prepotentes, alguns que cometeram “assédio moral” contra pessoas a seu redor. Isso é reprovável sob todos os aspectos. O presbítero ou bispo deve ser ordeiro, humilde, de bom trato para com todos.
8) “Nem cobiçoso de torpe ganância”. A ganância por bens materiais ou pelo poder tem sido a causa de muitos escândalos e descrédito contra o ministério pastoral. O apóstolo Pedro deu a mesma exortação aos presbíteros (1 Pe 5.2).
9) “Mas dado à hospitalidade”. O bispo deve ser hospitaleiro (Hb 13.2). Um presbítero, bispo ou pastor deve ser uma pessoa acolhedora; que sabe receber bem, com cortesia e amabilidade, qualquer pessoa, em sua casa, na igreja, ou em qualquer lugar. Não deve ser grosseiro nem fazer acepção de pessoas (At 10.34; Tg 2.1, 9).
10) “Amigo do bem”. O presbítero deve ter o fruto do Espírito da “benignidade”, que é a qualidade daquele que se dedica a fazer o bem (SI 37.27; G16.9, 10). Quem faz o bem colherá os frutos do que semeou.
11) “Moderado”. É sinônimo de “comedido, prudente, contido”. O presbítero ou o bispo deve ser uma pessoa assim, sem afetação, sem exibicionismo; ter uma vida sem exagero, seja na vida ministerial, seja na vida pessoal; sem ser radicalista ou liberalista, evitando os extremos. Não deve ser precipitado no falar, no agir, mas deve ter autocontrole em suas atitudes e ações. Deve ter o fruto do Espírito da temperança (G1 5.22).
12) “Justo”. É sinônimo de “imparcial, isento, neutro, justiceiro". Ê qualidade indispensável ao líder. O Sumo Pastor nos guia “pelas veredas da justiça por amor do seu nome” (SI 23.3). O presbítero ou bispo, que apascenta as ovelhas do Senhor, deve ter o mesmo cuidado, de ser justo e não praticar qualquer ato de injustiça. Nunca usar os “dois pesos e duas medidas”.
13) “Santo”. É qualidade e condição indispensável para que uma pessoa seja salva. Ser santo é ser separado ou consagrado para Deus. Um líder tem o dever de zelar pela santidade. Para isso precisa estar sempre exercitando o processo da “santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14; 1 Pe 1.15).
14) “Temperante”. E qualidade de quem tem “temperança”, ou domínio próprio, autocontrole. Que sabe dominar seus impulsos e paixões, seja na área dos relacionamentos, na área afetiva, sexual, ou nos apetites carnais. O intemperante em qualquer área acaba prejudicando a si ou aos outros. O bispo ou presbítero precisa ser um exemplo na temperança.
Após enumerar as quatorze qualificações para a escolha de um presbítero ou bispo, Paulo diz a condição para que ele possa exercer sua nobre missão, de cuidar, zelar e alimentar o rebanho:
1) “Retendo firme a fiel Palavra, que é conforme a doutrina (1.9a)”. Para que todas as qualificações do ministro tenham valor é necessário que ele seja “exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, na caridade, no espírito, na fé, na pureza” (1 Tm 4.12).
2) “Para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes” (1.9b). Guardando ou retendo a “Fiel Palavra” de Deus, o líder tem autoridade para admoestar os que aceitam a “sã doutrina” e para “convencer os contradizentes”, ou opositores da liderança. Paulo sabia o que era esse tipo de gente (1 Tm 1.20; 2Tm 2.17; 4.14).
Para que as qualificações do presbítero ou bispo sejam completas, é interessante reunir as qualidades aqui estudadas com as da lista de Paulo a Timóteo, no capítulo 2.1-7. Uma complementa a outra.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 131-135.
Tt 1. 6-9. Paulo descreve o tipo de homens a ser selecionado para este cargo importante: Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes (6). Estas qualificações que os presbíteros têm de possuir são semelhantes à lista de qualifieações para bispo em 1 Timóteo 3. Irrepreensível significa ter “caráter inatacável” (NEB), “integridade inquestionável” (CH). Esta é qualidade importantíssima. O ministro cristão deve ser pessoa que evita não só o mal, mas a própria aparência do mal. Sob todos os aspectos de conduta, ele tem de estar acima de repreensão. Suas relações matrimoniais não devem ter a mínima nódoa de escândalo. Muitos na igreja primitiva consideravam que marido de uma mulher era proibição de casar-se de novo por qualquer razão. A referência óbvia aqui é a casamentos duplos. As tradições cristãs de nossos dias não desaprovam o crente casar-se de novo após o falecimento da primeira esposa. Devemos tratar esta área com toda a discrição. O escândalo do divórcio tem envenenado tão completamente o fluxo da ordem social de nossos tempos, que devemos ser extremamente sensatos e cuidadosos nesta questão de segundo casamento, “para que o nosso ministério não caia em descrédito” (2 Co 6.3, NVI).
Que tenha filhos fiéis (6) é expressão que requer algumas considerações. Seu verdadeiro significado foi capturado pela tradução: “que tenha filhos crentes” (BAB, RA; cf. NVI). A estipulação registrada em 1 Timóteo 3.4 diz apenas: “Tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia”. Mas aqui Paulo vai mais longe, insistindo que em Creta os homens separados para o cargo de presbítero têm de ser bem-sucedidos em entregar a fé cristã aos seus filhos. E verdade que nenhum pai pode controlar ou determinar as decisões morais e espirituais dos filhos. As vezes, apesar de nossos melhores e mais sinceros esforços, os filhos no livre exercício da vontade fazem escolhas que causam profundo sofrimento para os pais. Mas não há nada que recomende a sinceridade e devoção de um ministro piedoso que o fato de que seus filhos estão seguindo-o como ele segue Cristo.
Que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes (6) é, de certo modo, alternativa a fiéis. Esta tradução esclarece a frase: “Não sujeitos à acusação de serem libertinos ou insubordinados” (RSV; cf. CH, NVI).
Porque convém que o bispo seja irrepreensível como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância (7). O assunto desta lista adicional de qualificações é o bispo (no singular) e não os “presbíteros” (no plural). Barrett observa que “a mudança do plural (presbíteros) para o singular (bispo) é mais bem explicado não pela suposição de que em cada cidade havia um grupo de presbíteros e só um bispo, mas pela interpretação [...] de que, enquanto que presbítero descreve o cargo, bispo descreve sua função: Os presbíteros que você designar devem ter certas qualificações, pois o homem que exerce a supervisão tem de ser”1 não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância.
A qualidade da irrepreensibilidade — “caráter inatacável” (6) — ocorre novamente, pois a responsabilidade do bispo é servir como despenseiro da casa de Deus (7). O termo despenseiro quer dizer, literalmente, “o administrador de uma casa ou família” (Kelly). O bispo era o gerente financeiro da igreja local e por isso, se por nenhuma outra razão, deve ser homem de extrema integridade.
O apóstolo alista cinco defeitos que devem estar visivelmente ausentes no bispo (7). São falhas de caráter que, caso sejam toleradas em um líder eclesiástico, lhe causarão ruína certa. O soberbo é alguém propenso a ser “arrogante” (BAB), opinioso e teimoso. Característica como esta constituiria alta traição do espírito do Mestre. O iracundo seria indivíduo esquentado, vingativo e totalmente falto de paciência (“impacientes”, BV), que é tão essencial ao servo de Cristo. Nem dado ao vinho (“beberrão”, BJ) é expressão que sempre nos deixa surpresos num contexto como este. Contudo, era um problema muito sério na igreja do século I. A viticultura era abundante em todos os lugares ao longo da bacia mediterrânea, e a tentação de beber vinho e, daí, ficar bêbado vinha de todos os lados. Nem espancador (“violento”, BAB, BJ, CH, NTLH, NVI, RA) indica a tendência à ação violenta ou arbitrária, que com certeza ocorria ocasionalmente entre os líderes locais na igreja primitiva. Nem cobiçoso de torpe ganância (“nem ávido por lucro desonesto”, NVI, cf. BJ, CH) é outra característica grosseira contra a qual Paulo adverte. Como guardião dos fundos monetários da igreja esta poderia se tornar fonte de tentação para o bispo.
Para compensar esta lista de cinco defeitos a serem evitados, Paulo faz uma lista de seis virtudes a serem cultivadas pelos líderes da igreja: Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante (8). Na lista de Paulo das qualificações de bispo registrada em 1 Timóteo 3.2 consta o dever da hospitalidade, quesito repetido aqui. Na função de líder da igreja, tornou-se responsabilidade do bispo receber em casa os apóstolos e evangelistas visitantes que em suas viagens passassem por ali. Só nos tempos atuais o “quarto excedente” na casa foi substituído por hotéis para o alojamento de convidados. A hospitalidade cretense do século I era recurso importante para o líder da igreja.
Amigo do bem (8) tem o significado literal de “amante do bem” ou “reto” (“amante da bondade”, RSV; “bondoso”, BJ). Esta qualidade nos lembra a advertência de Paulo em Filipenses 4.8: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai”. Seguir esta instrução é ser amante da bondade, característica que o ministro da igreja de Cristo deve se sobressair em excelência.
O termo grego traduzido pela palavra moderado é de significação muito próxima de temperante (8) que consta nesta mesma lista de virtudes. Ambos os termos sugerem autodomínio ou autocontrole (“controlado”, CH; “domínio próprio”, NVI; “domínio de si”, RA), a habilidade de lidar objetivamente com situações difíceis sem se deixar influenciar por preconceito. Barclay, em sua tradução, prefere a palavra “prudente” (NTLH), e cita a definição que Trench dá ao termo: “Controle total sobre as paixões e desejos, de forma que elas não recebam outras concessões além do que a lei e a reta razão admitirem e aprovarem”.2 As qualidades denotadas pelas palavras justo e santo mostram idéias estritamente religiosas. Mas é provável que devamos entender justo não como referência à posição do homem diante de Deus, por ter sido justificado pela fé pela graça, mas à sua habilidade de tratar com correção seus semelhantes, de administrar seu oficio com justiça escrupulosa e integridade inatacável. O termo santo é traduzido por “devoto” (NEB), conotando a qualidade de piedade (cf. “piedoso”, AEC, BJ, RA), a qualidade da relação pessoal afetuosa e terna com Cristo. Mas Barclay afirma que o termo conota muito mais, “pois descreve o homem que reverencia as decências fundamentais da vida, as coisas que voltam além de qualquer lei ou regulamento feito pelo homem”.3
O apóstolo introduz no versículo 9 uma exigência adicional: Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar (“exortar”, BAB, RA) com a sã doutrina como para convencer os contradizentes. Este é um tema que aparece em 1 Timóteo, embora não com todo este grau de ênfase. Em 1 Timóteo 5.17, Paulo destaca os presbíteros que “trabalham na palavra e na doutrina” como “dignos de duplicada honra”. Mas aqui, na Epístola a Tito, a competência nesta área é de todos os presbíteros. É a um ministério como este que Deus chama os homens quando os convoca a ir e pregar. E responsabilidade do pregador “oferecer Cristo aos homens”, como Carlos Wesley gostava de dizer. Neste verso, ele descreve liricamente esta tarefa central de pregar:
Ofereço-lhe meu Salvador;
Amigo de publicanos e Advogado:
Seus méritos e morte, ele advoga por você;
E intercede com Deus pelos pecadores na terra*
Mas pregar Cristo e oferecê-lo às pessoas é conhecer seguramente a Palavra de Deus relativa a Cristo, mantê-la em consideração reverente e declarar sua verdade às pessoas. Nestas Epístolas Pastorais, Paulo está vitalmente interessado na sã doutrina. Por essa época, a mensagem da igreja tomara forma em credos e fórmulas batismais. Vemos fragmentos dessas declarações de credo afloradas nas cartas a Timóteo. Cada nova geração de líderes cristãos tem a necessidade de declarar novamente as doutrinas básicas da fé cristã e justificá-las na mente e consciência dos que as ouvem. Mas a sã doutrina também tem preceitos éticos, que mostram como todos os cristãos, homens e mulheres, moços e velhos, escravos e livres, devem viver em um mundo que rejeita Cristo. Tudo isto faz parte da tarefa de admoestar e convencer os contradizentes — os que negam e contradizem a verdade.
J. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 545-547.
Tt1 1.6 Paulo descreveu resumidamente algumas qualidades que um presbítero deveria ter. Ele tinha dado a Timóteo um conjunto de instruções semelhante para a escolha de líderes na igreja de Éfeso (veja 1 Tm 3.1-7; 5.22). Observe que a maioria das qualificações envolve caráter, e não conhecimento ou talento. O modo de vida de uma pessoa e os seus relacionamentos são uma janela para o seu caráter. Tenha em conta estas qualidades quando avaliar pessoas para posições de liderança em sua igreja. É importante ter líderes que possam efetivamente pregar a Palavra de Deus, mas, ainda mais importante, eles devem viver de acordo com a Palavra de Deus e ser exemplos para que os outros sigam.
A primeira qualidade é ser irrepreensível.
Um presbítero não deve apresentar conduta que possa ser base para qualquer tipo de acusação. Ele estava acima de qualquer crítica. Novamente, a questão aqui não é que os líderes não possam ser acusados, mas que, quando acusados, a sua vida prove a falsidade da acusação.
Ser marido de uma mulher significa que um líder de igreja não deve ser promíscuo, mas sim fiel no seu casamento. Isto não impede uma pessoa que não seja casada de se tornar um líder. Filhos crentes que não são acusados de dissolução nem são desobedientes mostrariam que o líder da igreja provou que pode ser líder na sua própria casa. Os filhos de um presbítero devem receber instrução espiritual e devem ser fiéis. Isto provará que os líderes se preocupam com o ensino da doutrina correta e com a disciplina dos outros.
Obviamente, aqueles cujos filhos são rebeldes. insubordinados e se recusam a obedecer não são apropriados para a importante posição de liderar o povo de Deus. A maneira como vivem os filhos de uma pessoa atesta como a vida cristã é praticada em casa.
Tt 1.7 A expressão “convém que o bispo seja irrepreensível” enfatiza que esta qualidade é essencial em qualquer pessoa que seja um despenseiro da casa de Deus. Os líderes da igreja que agem de maneira indigna e trazem acusações e reprovações sobre si mesmos também danificam o trabalho de Deus.
As diretrizes de Paulo adquirem uma importância adicional no cenário de Creta, pois os cretenses eram conhecidos por terem má reputação (veja 1.12). Às vezes, as diretrizes de liderança das Escrituras estarão em harmonia com os padrões predominantes para os líderes maduros em uma cultura, e em outras ocasiões, elas estarão em conflito.
Aparentemente, Tito devia ser prudente com os cretenses.
Uma armadilha da liderança é tornar-se soberbo. Mas o orgulho pode seduzir as emoções e obscurecer a razão, tornando um líder de igreja ineficiente. O orgulho e a arrogância foram a razão da queda do diabo, e ele usa o orgulho para apanhar outros. Além disto, uma pessoa iracunda irá falar e agir sem pensar, magoando as pessoas e danificando o trabalho e a reputação da igreja.
Estas três últimas proibições tinham importância especial para a busca de Tito de líderes da igreja na Creta do século I. Um líder de igreja não deve ser dado ao vinho nem espancador (frequentemente, o resultado de a pessoa ser iracunda ou dada ao vinho). Além disto, os líderes que Tito escolhesse deveriam servir por amor, e não por serem cobiçosos por dinheiro.
Tt 1.8 Depois de apresentar as características que um líder de igreja não deve ter, Paulo apresenta três qualidades positivas. A hospitalidade tinha uma importância fundamental nesta cultura. Ordenava-se que os crentes fossem hospitaleiros (veja 3 João), de modo que os seus líderes deviam ser dados à hospitalidade, revelando devoção e preocupação pelo bem estar de outros. Paulo insistiu que os líderes deviam ser conhecidos por serem amigos do bem. Uma pessoa assim exibe esta bondade no campo espiritual quando vive de maneira moderada e é justa com os outros. Um crente que é santo provavelmente também será temperante, tendo uma vida disciplinada, retratando uma pessoa que, como um atleta, está constantemente “em treinamento” na sua vida cristã e no seu ministério. (Veja a observação sobre 1 Timóteo 3.2, para informações adicionais sobre “temperança” ou “auto-controle”.)
Tt 1.9 O líder da igreja deve satisfazer exigências morais e espirituais na sua vida pessoal, e ser confiável na compreensão e no ensino da palavra que lhe foi ensinada. A última expressão, na verdade, vem em primeiro lugar no texto em grego, por uma questão de ênfase. A mensagem, como tinha sido ensinada pelos apóstolos, era a mensagem fiel que os líderes da igreja devem ensinar à sua congregação. Eles devem ser firmes e poderosos, para poderem admoestar os outros com a sã doutrina e mostrar o erro dos que são contra esse ensino.
Os pastores devem cumprir uma função positiva e outra negativa ao lidar com a verdade.
Eles devem incentivar, pregando, apoiando e reforçando as pessoas que seguem a verdade. Mas eles também devem confrontar e refutar as ideias falsas. Líderes confiantes, com determinação, cornem, e uma mensagem irrefutável, estariam em um contraste completo com o modo de vida, as características de personalidade e os falsos ensinadores cretenses (descritos nos versículos seguintes).
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 553-554.
LIDERES ORDENADOS E QUALIFICADOS (Tt 1:5-9)
Um dos motivos pelos quais Paulo deixou Tito na ilha de Creta foi para que organizasse as congregações locais, "[pondo] em ordem as coisas restantes". Essa expressão é um termo médico e se refere a endireitar um membro torto. Tito não era o ditador espiritual da ilha, mas sim o representante apostólico oficial de Paulo, com autoridade para realizar sua obra. Fazia parte da política de trabalho de Paulo ordenar presbíteros nas igrejas que começava (At 14:23), mas o apóstolo não havia ficado tempo suficiente em Creta para ordenar esses líderes.
Tito 1:6-8 apresenta uma série de qualificações já discutidas em nosso estudo sobre 1 Timóteo 3:2, 3: "irrepreensível, esposo de uma só mulher, temperante, sóbrio, modesto, hospitaleiro, apto para ensinar; não dado ao vinho, não violento, porém cordato, inimigo de contendas, não avarento". O fato de esses critérios aplicarem-se aos cristãos da ilha de Creta, bem como àqueles da cidade de Éfeso, comprova que o padrão de Deus para os líderes não varia. Tanto as igrejas das cidades grandes quanto aquelas das cidades pequenas precisam de pessoas piedosas nos cargos de liderança.
Vejamos, agora, outras nove qualificações.
"Que tenha filhos crentes (v. 6b). Os filhos dos presbíteros devem ser cristãos. Afinal, se um servo de Deus não pode ganhar os próprios filhos para Cristo, como espera ser bem-sucedido com os de fora?
Trata-se do mesmo princípio que Paulo enfatiza a Timóteo (1 Tm 3:5): a vida e o serviço cristãos devem começar no lar. Os filhos dos presbíteros não apenas devem ser salvos, mas também ser bons exemplos de obediência e de dedicação. Caso pudessem ser acusados de "dissolução" [vida desregrada] ou "insubordinação" [desobediência, incapacidade de se sujeitar à autoridade], desqualificariam o pai para o presbiterato. É evidente que isso se aplica aos filhos que ainda vivem com a família sob a autoridade do pai.
É comum cristãos novos na fé sentirem o chamado para o ministério e o desejo de ser ordenados mesmo antes de terem firmado sua família na fé. Quando os filhos são pequenos, não se trata de um problema sério, mas para os filhos mais maduros, pode ser um grande choque ver que, de repente, sua família tornou-se "religiosa"! O pai sábio ganha a própria família para Cristo e lhes dá a oportunidade de crescer antes de ir para o seminário. Teríamos menos desastres no ministério, se essa política fosse seguida com mais frequência.
"Despenseiro de D eu s" (v. 7a). Um despenseiro não possui coisa alguma; antes, administra tudo o que seu senhor lhe confia.
Talvez o despenseiro {ou "mordomo") mais conhecido da Bíblia seja José, que tinha controle absoluto sobre todos os negócios de Potifar (Gn 39:1-9). A característica mais importante do despenseiro é sua fidelidade (Mt 25:21; 1 Co 4:1, 2). Deve usar o que lhe é confiado para o bem e para a glória de seu senhor, não para os próprios interesses (ver Lc 16:1-13).
O presbítero não deve jamais dizer: "Isto é meu!" Tudo o que ele tem vem de Deus (Jo 3:27) e deve ser usado para Deus. Seu tempo, seus bens, suas ambições e talentos lhe foram dados como empréstimo pelo Senhor, e ele deve ser fiel ao usar todos esses recursos para honrar a Deus e edificar a igreja.
É evidente que todos os cristãos, não apenas os pastores, devem ser despenseiros fiéis!
"Não arrogante" (v. 7b). Um presbítero não deve ser inflexível, sempre fazendo pressão para que sua vontade prevaleça. Por certo, os membros da igreja devem respeitar e seguir a liderança do presbítero, mas devem estar certos de que ele é, de fato, um líder, não um ditador. Um pastor inflexível é arrogante, não aceita as críticas e sugestões dos membros da sua igreja e impõe sua vontade em todas as coisas.
"Não ira scível" (v. 7c). Não deve se irritar com facilidade. Existe uma ira justa contra o pecado (Ef 4:26), mas grande parte de nossa ira é injusta e dirigida contra pessoas.
O homem reto deve irar-se diante da injustiça.
Como diz um conselho sábio: "A calma é preciosa demais para ser perdida".
"Amigo do b em " (v. 8a). Isso inclui a amizade com pessoas boas e o gosto por bons livros, boa música, boas causas e muitas outras coisas boas. O homem bom é aquele que tem um coração bom e se cerca de coisas boas. É difícil crer que um servo consagrado de Deus se envolveria deliberadamente com coisas nocivas a ele e a sua família.
"Justo" (v. 8b). Uma boa tradução para esse adjetivo é "direito". Deve ser um homem de integridade, fiel a sua palavra e que pratica o que prega. Sua conduta é reta.
"Piedoso" (v. 8c). Esse termo dá a ideia de pureza e de santidade. "Sede santos, porque eu sou santo" (1 Pe 1:16). O radical da palavra "santo" significa "diferente". Os cristãos são diferentes dos pecadores perdidos, pois, pela graça de Deus, são novas criaturas (2 Co 5:17).
"Que tenha domínio de si" (v. 8d). Trata-se de uma referência ao autocontrole e se aplica aos desejos e às ações do homem. Um termo sinônimo é "disciplinado". O pastor deve ter disciplina quanto ao uso de seu tempo, a fim de fazer todo o seu trabalho. Deve ter disciplina quanto a seus desejos, especialmente quando membros bem-intencionados tentam empanturrá-lo com bolo e café!
Deve ter a mente e o corpo sob controle, sujeitando-se ao Espírito Santo (Gl 5:23, ter "domínio próprio").
"Apegado à palavra fie l" (v. 9). Paulo gostava de Usar o termo fiel (ver 1 Tm 1:15; 4:9; 2 Tm 2:11; Tt 3:8). A Palavra de Deus é fidedigna, pois Deus não pode mentir (Tt 1:2). Uma vez que a palavra é fiel, os que ensinam e pregam a Palavra também devem ser fiéis. Paulo volta a falar da sã doutrina que vimos em 1 Timóteo 1:10. É a doutrina salutar, que promove crescimento espiritual.
Assim, os presbíteros têm dois ministérios com respeito à Palavra de Deus: (1) edificar a igreja pela sã doutrina; e (2) rejeitar os falsos mestres que espalham doutrinas perniciosas. O membro ingênuo que declara: "Não quero doutrinas; prefiro devocionais práticas!", não sabe o que está falando. Sem a verdade (ou seja, sem a doutrina bíblica), não há ajuda nem saúde espirituais. A menção aos que se opõem à verdadeira doutrina leva Paulo à terceira responsabilidade de Tito.
WIERSBE. Warren W. Comentário Bíblico Expositivo. N.T. Vol. II. Editora Central Gospel. pag. 338-340.
I Tm 3.1 A palavra bispo, também traduzida como ancião, indicando o episcopado, referia-se a um pastor ou a qualquer pessoa que exercesse uma posição de supervisão. O Novo Testamento usa diversas palavras para se referir aos líderes da igreja; as mais comuns são: apóstolo, presbítero, bispo, ancião, e diácono. A princípio, o cargo de “apóstolo” referia-se somente aos Doze e poucos outros, como Paulo, mas a palavra veio a ser usada em um sentido menos técnico para os representantes da igreja (veja 2 Co 8.23; Fp 2.25). Os bispos eram líderes em congregações específicas, e as palavras eram usadas alternadamente nas cartas de Paulo.
Eles eram os pregadores ou ensinadores. Os diáconos eram os administradores nestas primeiras igrejas - lidavam com as pessoas, a administração, as finanças etc.
Aparentemente, havia uma palavra (ou ensino) trazida pela liderança da igreja, e Paulo a citou aqui como sendo fiel (ou verdadeira).
É bom desejar ser um líder espiritual. Desejar significa “dirigir o coração em direção a alguma coisa”. A liderança é uma excelente obra. Paulo destacou a sua importância. No entanto, como ele iria mostrar, os padrões são elevados.
I Tm 3. 2 Paulo enumerou diversas qualificações para um bispo. Ele deve viver uma vida irrepreensível, o que significa que ele não deve ter falhas no seu comportamento que possam ser base pata qualquer tipo de acusação. Ele deve ser irrepreensível. Esta palavra serve como um resumo geral do seu caráter. Um líder na igreja deve ter uma boa reputação entre os crentes. A liderança define as bases. O que vem a seguir são os tijolos que edificam sobre aquela reputação.
A qualificação “marido de uma mulher” levou a diversas interpretações. Alguns dizem que ela indica que ele deveria ser casado. Esta interpretação ganha força pelo fato de que os falsos ensinadores proibiam o casamento (4.3). No entanto, tanto Paulo como Timóteo não eram casados. Se Paulo ensinasse que um líder devia ser casado, ele mesmo não poderia liderar e estaria contradizendo as suas instruções em 5.14 e I Coríntios 7.25-33. Provavelmente, o líder, se fosse casado, deveria ser um homem de uma única mulher, posicionando-se de uma forma contrária aos padrões morais presentes na cultura pagã de Éfeso. A Bíblia rejeita o casamento por conveniência e exige fidelidade e participação na única carne que se cria quando o marido se une á sua esposa (veja Gn 2.24; E f 5.22-33).
Que ele seja temperante ou vigilante, era outra maneira de dizer que um líder deveria possuir um discernimento firme e equilibrado, ou até mesmo bom senso. Cada uma destas qualidades é exigida dos líderes, mas elas devem ser o objetivo de todos os crentes.
Um líder da igreja deve ser sóbrio, o que significa que a sua vida deve estar marcada pela moderação, por limites, sem nada extremo ou excessivo, com ausência de extravagâncias. Nós usamos o termo “equilibrado” para indicar que este líder possui a ênfase apropriada em cada uma das prioridades da sua vida.
Ser honesto, ou ter uma boa reputação, refere-se ao respeito social básico – um comportamento normalmente digno. A palavra grega deriva de kosmos, “o mundo ou universo”, e retrata uma pessoa que vive em harmonia com a maneira como Deus criou o mundo.
A hospitalidade era amplamente enfatizada nas culturas do Oriente Médio e no Antigo Testamento (veja Êx 22.21). Os crentes sáo instruídos a serem hospitaleiros (Hb 5.10; 13.2; I Pe 4.9; 3 Jo 5), de modo que um líder também deveria estar disposto a hospedar pessoas na sua casa.
Os líderes cristãos devem estar aptos para ensinar. Uma das tarefas mais importantes de qualquer líder de igreja é ensinar as Escrituras aos membros da congregação. O líder deve entender e ser capaz de transmitir as verdades profundas das Escrituras, como também lidar com aqueles falsos pregadores ou ensinadores que as tratam de maneira inadequada.
I Tm 3.3 Um bispo não deve ser dado ao vinho, por motivos óbvios. Muitas destas qualidades podem ter caracterizado os falsos ensinadores, que provocavam brigas na igreja (veja 6.3,4).
Ele não deve ser violento ou espancador. Uma pessoa violenta é uma pessoa que ofende. A ofensa pode assumir muitas formas (verbal, física, sexual, e até mesmo espiritual), mas nasce de um profundo desrespeito pelos demais. Pode estar envolvida também uma doença mental. Uma pessoa assim tende a ser defensiva, insegura, e insensível. Uma pessoa com um histórico de batalhas verbais pode achar difícil liderar eficientemente. Uma pessoa assim não deve ser escolhida para a liderança.
Em contraste, o bispo deve ser moderado e não contencioso. Esta pessoa está livre da aspereza, da severidade, e da violência. Um líder cristão não ser avarento, ou amar o dinheiro (veja 6.5-10). Os líderes devem ter uma atitude adequada para lidar com as finanças da igreja. Isto afeta o uso ético dos fundos da igreja e a administração de programas apropriados pata arrecadação de dinheiro. Muitos possíveis líderes combinam o amor ao dinheiro com uma natureza contenciosa e acabam brigando na igreja por causa de assuntos financeiros. Uma pessoa assim não deve ser escolhida para liderar.
I Tm 3.4,5 As qualificações tanto dos bispos como dos diáconos dependem da capacidade de cuidar da sua própria casa (veja também 3.12). Não é absolutamente necessário que um bispo seja casado ou tenha filhos. No entanto, se este for o caso, ele deve governar bem a sua própria casa. A palavra “governar” significa uma administração misericordiosa, que traz direção e orientação (veja I Ts 5.12; 1 Tm 5.17), sem um controle rígido, cruel, tirânico, e autoritário. Este tipo de liderança familiar reflete a  correspondência entre a igreja e o lar vista em Efésios 5.28-6.9.
Faz sentido que Paulo use este requisito, pois ninguém pode conduzir um lar eficientemente sem amor e firmeza, misericórdia e diretrizes. E, se os pais não exemplificam o que ensinam, dificilmente as crianças seguirão as diretrizes, exceto sob pressão. Existem dois pensamentos nesta frase: por um lado, embora seja verdade que os filhos devam respeitar e obedecer aos seus pais, o respeito e a obediência são subprodutos de uma liderança responsável em casa. A melhor maneira de ver a capacidade de uma pessoa de lidar com uma grande responsabilidade é ver o seu desempenho com uma responsabilidade pequena. A capacidade de governar a sua casa é uma base de treinamento para a capacidade de um homem de administrar a família de Deus, que está reunida na igreja. O mesmo amor, compaixão, firmeza e misericórdia são necessários para as duas tarefas.
I Tm 3.6 Os novos crentes devem se tornar seguros e fortes na fé antes de assumirem posições de liderança na igreja. Frequentemente, quando está precisando desesperadamente de obreiros, a igreja coloca um neófito prematuramente em uma posição de liderança. Os novos crentes devem tomar parte no ministério de Deus, mas não devem ser colocados em posições de liderança até que estejam firmemente enraizados na sua fé, com um modo de vida solidamente cristão e um conhecimento da Palavra de Deus. De outra maneira, o novo crente, ensoberbecendo' Se, cairá na condenação do diabo. A referência ao diabo ensina que, da mesma maneira como Satanás caiu, por causa do seu orgulho, assim também o perigo do orgulho espreita os novos crentes a quem é dada alguma responsabilidade antes que estejam prontos para assumi-la. Os novos crentes que são promovidos muito rapidamente podem ser alvos fáceis para a poderosa tentação do diabo: o orgulho. O orgulho pode seduzir as emoções e ofuscar a nossa razão. Pode tornar aqueles que são imaturos suscetíveis à influência de pessoas inescrupulosas.
I Tm 3.7 Exigir que os líderes tenham uma boa reputação com as pessoas de fora da igreja (isto é, os não-crentes da comunidade) dava à igreja em geral uma boa reputação na comunidade. Os líderes da igreja, sendo as pessoas mais visíveis da igreja no mundo secular, fariam bem em manter os mais altos padrões e a melhor reputação. Ver diversos líderes de igreja nas manchetes nos últimos anos devido à evasão de impostos, uso ilícito de fundos e escapadas sexuais certamente danifica a credibilidade da igreja. Os líderes de igreja que seguem os conselhos de Paulo evitam que a sua igreja enfrente ofensas desnecessárias. Do contrário, o resultado é ficar desmoralizado e cair em afronta e no laço do diabo, juntamente com os crentes e os não-crentes. Este laço pode ser o fracasso moral e o julgamento resultante em que um homem escolhido para ser líder irá cair, ou pode significar a armadilha da tentação que leva ao orgulho, conforme mencionado no versículo 6. Quando os líderes cristãos têm uma reputação ruim, isto impede que os incrédulos venham a Cristo.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 494-496.
Esta é uma palavra fiel: Se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja (1). A primeira vista, a observação com a qual apóstolo inicia esta seção da carta — esta é uma palavra fiel — é igual à declaração dita anteriormente em 1.15: “Esta é uma palavra fiel”. Mas a igualdade é meramente aparente. A primeira observação deu início a um ensino muito importante sobre a obra redentora de Cristo. Mas aqui não há tal declaração solene de fé. Ainda que os estudiosos não tenham chegado a um acordo quanto a este ponto, é provável que esta tradução seja a correta: “Há um dito popular que diz: Aspirar à liderança é ambição honrosa’” (NEB; cf. AEC, BJ, BV).
A palavra episcopado é um tanto enganosa para os leitores de hoje, porque para nós o cargo de epíscopo ou bispo tem associações eclesiásticas. Desejar este cargo seria buscar promoção no ministério cristão. Estamos devidamente certos em reputar que tal ambição é indigna da pessoa cuja vida é dedicada ao serviço de Cristo. Como ressaltamos na Introdução, o termo “bispo”, tradução da palavra grega episkopos, veio originalmente da organização das sociedades seculares e tem o significado básico de “inspetor” ou “líder”. O apóstolo está dizendo que é uma ambição digna a pessoa desejar um lugar de serviço responsável entre o povo de Deus. A declaração que Paulo cita era um provérbio bem conhecido na época, o qual ele usava como introdução do assunto que desejava tratar.
Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar. No total, há 15 qualificações estipuladas pelo apóstolo, sete das quais ocorrem no versículo 2. E importante que a primeiríssima destas seja a irrepreensibilidade. O significado da palavra é “acima de repreensão”, “de reputação irrepreensível” (cf. CH), “de caráter impecável”, “que ninguém possa culpar de nada” (NTLH). Por qualquer método que avaliemos, esta é a virtude mais inclusiva que aparece na lista. Significa que o líder na igreja de Cristo não pode ter defeito óbvio de caráter e deve ser pessoa de reputação imaculada. Dificilmente se esperaria que não tivesse defeito, mas que fosse sem culpa. E apropriado que o ministro seja julgado por um padrão mais rígido que os membros leigos da igreja. Os leigos podem ser perdoados por defeitos e falhas que seriam totalmente fatais a um ministro. Há certas coisas que um Deus misericordioso perdoa em um homem, mas que a igreja não perdoa no ministério deste. A irrepreensibilidade do candidato é requisito no qual devemos ser insistentes hoje em dia, como o foi Paulo no século I.
O líder da igreja deve ser exemplar especialmente em assuntos relativos a sexo. Este é o destaque da segunda estipulação do apóstolo: Marido de uma mulher (2). Trata-se de precaução contra a poligamia, que gerava um problema sério para a igreja cujos membros eram ganhos para Cristo vindos de um paganismo que tolerava abertamente casamentos plurais. Em todo quesito que a igreja com seus altos padrões éticos relativos a casamento confrontar o paganismo de nossos dias, em regiões incivilizadas ou não, a insistência cristã na pureza deve ser enunciada de forma clara e seguida com todo o rigor.
Mas temos de perguntar: A intenção de Paulo era desaprovar o segundo casamento? Alguns dos manuscritos antigos requerem a tradução “casado apenas uma vez” (conforme nota de rodapé na NEB). “Sobre este assunto, como em muitos outros”, comenta Kelly, “a atitude que vigorava na antiguidade difere notadamente da que prevalece em grande parte dos círculos de hoje. Existem evidências abundantes provenientes da literatura e inscrições funerárias, tanto gentias quanto judaicas, que permanecer solteiro depois da morte do cônjuge ou depois do divórcio era considerado meritório, ao passo que casar-se outra vez era visto como sinal de satisfação excessiva dos próprios desejos”.1 E óbvio que em alguns segmentos da igreja primitiva esta era a opinião prevalente, chegando ao extremo último da ordem de um ministério celibatário.
Mas esta não é a interpretação do ensino de Paulo que prevalece hoje. E bem conhecida sua própria preferência da vida solteira em comparação ao estado casado; e há passagens nos seus escritos em que ele recomenda este estado aos outros (e.g., 1 Co 7.39,40). Talvez o melhor resumo da intenção do apóstolo para os nossos dias seja a declaração de
E. F. Scott: “O bispo tem de dar exemplo de moralidade rígida”.2
As próximas três especificações — vigilante, sóbrio, honesto (2) — têm relação próxima entre si e descrevem a vida cristã ordeira. Moffatt traduz estas qualidades pelas palavras: “temperado [NVI; cf. RA], mestre de si, calmo”. A temperança neste contexto transmite a ideia de autocontrole (cf. CH) ou autodisciplina.
O próximo quesito qualificador é apresentado pelo apóstolo na palavra descritiva hospitaleiro (2). Esta mesma característica é mais detalhada em Tito 1.8: “Dado à hospitalidade, amigo do bem”. Nesses primeiros dias da igreja, esta era uma virtude muito importante. Havia poucos albergues no mundo do século I, e os apóstolos e evangelistas cristãos que eram enviados de lugar em lugar ficavam dependentes da hospitalidade de cristãos que tivessem um “quarto de profeta”, mantido com a finalidade de atender essas necessidades. Em nossos dias de hotéis, expressamos nossa hospitalidade cristã de modo diferente. Mas quando a igreja era jovem, essa hospitalidade era extremamente primordial. O dever e privilégio de ministrá-la recaíam naturalmente sobre o bispo ou pastor. O espírito essencial do ato é tão importante hoje como era outrora.
Igualmente essencial e até mais importante é a sétima qualidade que Paulo menciona: Apto para ensinar (2). Pelo visto, nem todos os pastores eram empregados no ministério de ensino. E o que mostra 5.17: “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina”. Mas a aptidão para ensinar era rendimento certo para o ministro cristão. Era importante então como é hoje. Sempre haverá indivíduos que possuem maior capacidade nesta ou naquela área que outros, mas certa habilidade para ensinar é de extrema necessidade ao ministério completo e frutífero.
Este versículo contém mais seis especificações que devem caracterizar o líder cristão: Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento (3). Todos os quesitos, exceto um, são negativos, mas todos são importantes. O primeiro nos soa um tanto quanto estranho, sobretudo quando seu significado preciso é entendido com clareza. Temos estas opções de tradução: “Não deve ser indivíduo dado a beber” (NEB); “não pode ser chegado ao vinho”, (NTLH); “não deve ser apegado ao vinho” (NVI; cf. BAB); “não deve ter o vício da bebida” (BV); ou pelas palavras diretas: “Não bêbedo” (RSV). O ponto que confunde o leitor da atualidade é que tal estipulação fosse necessária. No pensamento da maioria dos evangélicos hoje em dia, a abstinência total de bebidas alcoólicas é elementar na vida cristã. E não é difícil perceber que o julgamento moral que determina a abstinência total para o cristão — leigo ou ministro — é a compreensão básica da ética cristã. Mas esta ideia, como o julgamento moral das trevas, não fora discernida claramente no século I. Temos de manter isso em mente para entendermos as alusões do apóstolo ao uso do vinho neste e em outros textos. Kelly observa que “hoje em dia, as pessoas por vezes se surpreendem que Paulo achasse necessário fazer tal determinação, mas o perigo era real na sociedade desinibida em que se situavam as congregações efésia e cretense”.3
Não espancador (3) é expressão que exige interpretação neste contexto. Significa, literalmente, “não doador de socos”. Kelly traduziu por “não dado à violência” (cf. BAB, BV, CH, NVI, RA). O homem de Deus deve ser caracterizado por amor e comedimento cristão.
Não há ambigüidade ligada à próxima estipulação de Paulo: Não cobiçoso de torpe ganância (3). Esta é advertência contra o amor do dinheiro que o apóstolo, mais adiante nesta mesma epístola (6.10), declara ser “a raiz de toda espécie de males”. Tal proibição tinha relevância imediata, pois fazia parte da responsabilidade do pastor cuidar dos bens e capitais da igreja. Esta seria fonte constante de tentação para o avarento. Somente aquele que desse toda prova de não ter espírito de cobiça pode ser separado com segurança para a obra do ministério.
Claro que é perfeitamente possível que ministros e leigos sejam enganados pelo que nosso Senhor chamou de “a sedução das riquezas” (Mt 13.22). A sutileza desta sedução é que a pessoa não precisa possuir riquezas para ser enganada por elas. Desejá-las ardentemente, permitir-se adotar atitudes calculistas na esperança de obter riquezas, ficar indevidamente interessado por salários e lucros deste mundo não podem deixar de empobrecer e, no final das contas, destruir o valor do próprio ministério. Tudo isso está implícito no aviso paulino do desejo controlador por dinheiro.
A única virtude positiva no versículo 3 é moderado, (“tranquilo”, CH; “cordato”, RA). Isto significa não tanto a capacidade de manter a calma sob controle quanto a capacidade de resistir sob pressão, com infalível espírito de bondade e paciência. Paulo exalta esta virtude em 1 Coríntios 13.4, quando nos assegura que o amor é sofredor e benigno — benigno mesmo no fim do sofrimento. As especificações adicionais — não contencioso, não avarento (5) — são repetições para enfatizar os quesitos já estipulados.
Este é ponto da mais grave importância: Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (4). Como ressalta E. K. Simpson: “O ideal do celibato sacerdotal é tão totalmente estranho ao modelo primitivo, que se toma por certo que o candidato ao ministério já seja casado de idade madura. A disciplina paterna relaxada o desqualifica imediatamente para a posição de liderança na igreja”.4 Esta é a versão que Phillips fez do versículo 4: “Deve ter a devida autoridade em sua própria casa e ser capaz de controlar e exigir o respeito de seus filhos” (CH). Temos de admitir que, entre todos os padrões, este é um dos mais difíceis que Paulo estabeleceu. Mas como é importante! Muitos ministros têm tido sua utilidade limitada ou mesmo destruída por não exercerem a disciplina parental. E fácil ficarmos tão envolvidos em salvar os filhos dos outros que acabamos deixando os nossos próprios filhos escapulir de nosso controle. Chega o momento em que os filhos crescem e têm de assumir a direção da própria vida. Nessa hora, ninguém estará com eles ao tomarem decisões que julgarem acertadas. Mas a disciplina firme, cheia de amor e regada com oração durante os anos formativos da vida de nossas crianças é seguramente o poderoso fator determinante que possuirão quando tiverem de decidir sozinho o curso que seguirão na vida. Há, portanto, força convincente no fato de Paulo insistir no dever que o ministro tem de controlar a própria casa. E ninguém pode contradizer a verdade básica que está entre parênteses no versículo 5: Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?
O versículo 6 oferece perspicácia muito interessante sobre a situação em Éfeso: Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo
(6). Esta é advertência contra a promoção muito rápida à liderança de “recém-convertidos” ou pessoas “recentemente batizadas”. Embora a igreja efésia já tivesse muitos anos de existência e, provavelmente, não devesse ter carência de líderes maduros, havia indícios de que candidatos imaturos ao ministério estavam sendo postos em serviço. Paulo acreditava em maturidade e preparação de candidatos para este cargo santo, e por uma boa e suficiente razão. Existia o perigo de que, para alguém inadequadamente preparado, a tentação ao orgulho espiritual se tornasse grande demais para ser resistida. Isso é tragédia na certa, tragédia descrita pelo apóstolo nos seguintes termos: Cair na condenação do diabo. C. K. Barrett destaca que “o julgamento não é tramado pelo diabo, mas feito por Deus em rígido acordo com a verdade”.6 A tradução de Phillips expressa o que o apóstolo quis dizer: “Para que não se torne orgulhoso e participe da queda do diabo” (CH).
Esta determinação lembra uma situação nos procedimentos de nosso Senhor com seus seguidores, relatada em Lucas 10.17-20. Os setenta haviam acabado de voltar de sua missão designada e estavam exultantes com o fato de que “até os demônios se nos sujeitam”. Jesus não reprovou imediatamente o orgulho espiritual principiante, mas observou um tanto enigmaticamente: “Eu via Satanás, como raio, cair do céu”. E completou: “Eis que vos dou poder [...] [sobre] toda a força do Inimigo. [...] Mas não vos alegreis porque se vos sujeitem os espíritos”. Foi o orgulho que custou a Lúcifer o seu lugar nas hostes celestes, e esta foi a condenação do diabo. O ministro cristão tem de estar atento para que o orgulho não o compila a participar desta condenação.
Resta ainda uma especificação final para aquele que deseja servir na posição de bispo ou líder: Convém, também, que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta e no laço (“armadilha”, NTLH) do diabo (7). O ministro cristão tem de inspirar o respeito e a confiança da comunidade fora da igreja, caso deseje ganhar as pessoas dessa comunidade para a igreja. E fácil dizer: “Não me importo com o que as pessoas pensem de mim”; e contanto que essa atitude seja devidamente planejada e corretamente compreendida, justifica-se. Mas ninguém deve ser indiferente à sua reputação na comunidade em que vive. Ele deve desejar veementemente que as pessoas o considerem inteiramente acima de repreensão. Ver a questão de outro modo, diz Paulo, é expor-se à mesma armadilha que aguarda o indivíduo cujo espírito está arruinado pelo orgulho espiritual.
J. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 468-472.
I Tm 3. 1 Contra a atuação dos hereges, que se precipitarão sobre o rebanho após a despedida de Paulo, o apóstolo não tomou providências de cunho jurídico-eclesiástico ou de natureza organizacional, e tampouco ampliou a competência dos presidentes, mas exortou os presbíteros reunidos em Éfeso que se mostrem dignos de sua vocação pelo Espírito Santo, que cuidem de si mesmos e do rebanho que lhes foi confiado. Não escreve nada diferente a Timóteo: deve cuidar de si mesmo e da doutrina, de modo que salvará a si e aos que lhe derem ouvidos. De modo análogo cabe agora exortar os presidentes e diáconos em vista de sua vida e seu serviço pessoal.
Serviço de presidente. Há um consenso entre a maioria dos comentaristas de que este texto não pode estar tratando do chamado cargo do episcopado monárquico. Nem sequer o singular para serviço de presidente (v. 1) e presidente (v. 2) permite concluir que apenas uma única pessoa fosse dirigente de uma igreja local. Em 1Tm 5.17 fala-se de vários presbíteros que presidem bem. Fazem o que se espera tanto dos epískopoi (presidentes) como dos diáconos.
Por isso é melhor traduzirmos com “presidente”, e suas incumbências, com “serviço”, porque não – ainda não – se trata, de forma alguma, no caso deles, de um cargo com honra e dignidade nem de um belo título, mas de uma “bela obra” (QI 25e).
A igreja em localidades maiores podia ser formada de várias comunidades domiciliares com seus presidentes (v. 4!) e um presidente podia executar diversas tarefas. Alguns trabalham “em palavra e doutrina”, outros cuidam para que tudo transcorra em ordem na igreja. O termo presidente, supervisor (epískopos) designa originalmente “todo aquele a quem o cuidado por deter-minada questão é confiado como incumbência duradoura ou temporária no seio de uma comunidade”.
É lícito buscar um serviço de presidente e almejá-lo. A Bíblia não condena a aspiração humana, Deus a concedeu ao ser humano. Não se deve ambicionar riqueza (1Tm 6.10, o mesmo verbo), mas bens melhores e serviços belos.
Aspirar: almejar. Não se deve reprimir o prazer do coração humano, mas purificá-lo e dirigi-lo para alvos dignos, “assim tens teu prazer no Senhor, e ele te dá o que teu coração deseja”.
Ao despertar a aspiração do coração para praticar a vontade de Deus, o Espírito Santo conduz o crente aos serviços e incumbências que correspondem à vocação divina e que por isso podem se tornar o prazer e amor da própria pessoa.
I Tm 3. 2 O presidente, pois, deve ser irrepreensível. Essas palavras não instituem o presidente nem seu ministério, mas o pressupõem, e isso sem qualquer ênfase, como em Fp 1.1. Em primeiro lugar se falou do “sacerdócio de todos os fiéis” (cap. 2) e agora de seus servos, em plena concordância com 1Co 3.5. Podemos chamar a lista subseqüente de “catálogo de virtudes”, em contraposição ao chamado “catálogo de vícios”. Chama atenção que não se fazem exigências especiais, exceto, talvez, de “apto para ensinar”. Pelo contrário, enumeram-se atitudes práticas e cotidianas que precisam ser consideradas “elementares” para todos os cristãos. Por que, no entanto, escrever acerca delas mesmo assim? Essa lista ou outras similares nas past só podem ser descartadas depreciativamente como “moral burguesa” ou “ética cristã mediana” se ignorarmos como tudo está fundamentado e como as coisas elementares são e continuam sendo necessárias para a fé.
Quando as coisas elementares não são constantemente renovadas e re-direcionadas em direção ao que é fundamental (a base) e final (o alvo, a consumação, em grego, o eschaton), rapidamente surgem enredamentos e descaminhos igualmente elementares, arrastando consigo o indivíduo e a sociedade. É preciso ver as orientações das past diante do pano de fundo de uma in-domável correnteza de “anomia” na sociedade e igreja.
Irrepreensível não significa simplesmente gozar de boa fama, mas ter um testemunho justificadamente bom. A crítica e as acusações não devem encontrar pontos vulneráveis para seu ataque. Aparentemente a palavra designa o comportamento abrangente, fundamental para tudo o que segue. Jesus frisa a importância do bom testemunho, como também ocorre em geral no NT. Nessa questão é decisivo que o bom testemunho seja reconhecido e fornecido pelos que não fazem parte da igreja. “Vossa conduta seja decorosa aos olhos dos estranhos.” Essa exortação da carta mais antiga de Paulo coincide integralmente com a exigência de ser irrepreensível, o que não pode ser questionado nem mesmo por observadores críticos e hostis. Um modo de vida desses só é viável a partir do “mistério da fé, preservado em uma consciência pura”. Essa é a origem e a renovação de toda a autêntica irrepreensibilidade. Representa o oposto tanto do comportamento anti-social como da exagerada adaptação pacata a todos e a tudo.
Marido de uma só mulher. O presidente deve ser exemplarmente casado. Não se espera o celibato dos servidores da igreja, mas que tenham plena capacidade matrimonial e sejam modelos no casamento. A melhor “escola matrimonial” acontece por “exemplos matrimoniais”. Presidentes e diáconos devem ser casados uma única vez; isso aponta em 3 direções:
1) Acerca da profetiza Ana lemos que era virgem até se casar. Quando o marido morreu após 7 anos de casamento, ela passou a viver sozinha até idade avançada (84 anos), servindo a Deus. De acordo com a palavra profética permaneceu fiel ao “noivo de sua mocidade”.
2) Conforme as palavras do Senhor a monogamia é o alvo original, estabelecido por Deus, do relacionamento entre homem e mulher. Se os próprios gentios chamam atenção para isso e os cristãos aspiram ao amor e à fidelidade no matrimônio, quanto mais isso deveria valer, então, para aqueles que se “apresentam em todas as coisas” (logo também no casamento) como “exemplo de boas obras”.
3) A interpretação aqui fornecida possui relevância justamente com vistas à prática do divórcio, que naquela época se alastrava com força, e do correlato recasamento de pessoas divorciadas, seja entre gregos, seja entre judeus.
A expressão única pode ser mantida em forma tão genérica pelo fato de que deve caracterizar de forma abrangente a atitude básica fundamental da castidade em todas as situações. O casto não reprimiu sua sexualidade, mas a tornou íntegra, porque castidade é alegrar-se com a sexualidade respeitando os limites do respeito.
Sóbrio (nephalios) vale tanto para mulheres como para homens idosos. O verbo correspondente já é utilizado por Paulo em sua carta mais antiga: “Não durmamos como os demais, mas vigiemos e sejamos sóbrios.” Ser sóbrio faz parte da oração e da vigilância e diz respeito a uma contenção de orientação escatológica diante de todo tipo de fanatismo, embriaguez, dissoluções no pensar, sentir e agir.
Quem reconhece a verdade em Deus torna-se sóbrio diante do delírio do pecado, para viver uma vida reta.
Sensato (sophron): assim como o adjetivo “sóbrio”, também ocorre somente nas past, mas o termo é usado como verbo na carta aos Romanos: cada qual deve pensar com moderação, ser sensato, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Quem é temperante possui uma medida correta de auto-avaliação, um sentido para o que é real. É compreensivo. Depois de ser curado, o homem antes possesso está tranqüilamente assentado, está vestido e em perfeito juízo. O temperante é espiritualmente saudável. “O fim de todas as coisas está próximo, sede, portanto, criteriosos e sóbrios a bem das vossas orações!” Ambas as palavras – sóbrio e temperante – possuem um viés escatológico, e o fato de aparecerem juntas serve para enfatizar isto. Quem está embriagado e alimenta sonhos devotos a respeito de si mesmo e do mundo não consegue orar de fato, porque orar é justamente o contrário de fugir da chamada “realidade” para um mundo onírico. Vale o contrário: quem ora acorda para a verdadeira situação, e quem está alerta ora de olhos abertos. É disso que resultam as boas obras.
Digno (kosmios): sensato e digno (como em 1Tm 2.9 para as mulheres!) pode ter aqui o sentido de cortês, solícito, o que no entanto não deve ser entendido como cortesia artificial, que visa as aparências, porque isso representaria uma contradição com sóbrio e sensato. Realmente cortês é aquele que ao avaliar a si mesmo e a todas as coisas de forma sensata e de acordo com a perspectiva de Deus, acordou para as necessidades daqueles aos quais serve.
Hospitaleiro: em outras ocasiões Paulo também exorta as igrejas para que cuidem das necessidades dos santos e pratiquem a hospitalidade. Nos escritos do NT lemos a respeito de cristãos que são viajantes e também comerciantes; outros são perseguidos e precisam fugir para outras cidades. Os apóstolos e seus colaboradores viajavam de localidade em localidade, dependendo para isso da acolhida solícita nas casas dos crentes. Para as reuniões da igreja e para os que estavam em trânsito as casas das famílias dos fiéis representavam o alojamento propício. Tudo isso torna necessária a exortação de que não se esqueçam da hospitalidade. Mais tarde é preciso proteger a hospitalidade contra os abusos de andarilhos itinerantes e “irmãos estranhos”.
Hoje quem viaja por países em que os cristãos são perseguidos ou representam uma minoria sabe o que significa e custa a hospitalidade. Mas também onde os cristãos são maioria na sociedade, mas as formas eclesiásticas não são (mais) marcantes e formadoras de comunhão, a cordial liberalidade das famílias que crêem em Cristo em relação a visitantes, conhecidos e desconhecidos, constitui o nervo vital para uma igreja que irradia para dentro do mundo. A abertura hospitaleira não é uma palavra em favor, mas contra o aburguesamento, porque o burguês se isola e se fecha em seu castelo, ainda que seja apenas uma pequena moradia alugada no mesmo edifício com outros 10 ou 100 inquilinos. O burguês não gosta de se colocar a caminho, nem gosta de ser incomodado por inconstantes. A vida de gueto de muitas comunidades eclesiais tem por correlação a vida na reclusão caseira e na privacidade de seus membros. Os servidores da igreja, porém, devem ser exemplos no matrimônio e na família pelo fato de serem abertos e livres para o hóspede.
Apto para ensinar (didaktikos): em todo o NT o termo ocorre somente aqui e em 1Tm 3.2. O seu sentido é descrito exaustivamente em Tt 1.9: o presidente deve “apegar-se à palavra confiável e conforme a doutrina, para que seja capaz de, pelo reto ensino, exortar bem como convencer os que o contradizem”. Deve estar aberto para questões doutrinárias, capaz de formar sua própria opinião e instruir a outros. Precisa discernir entre o que é importante e o que leva a descaminhos, entre doutrina verdadeira e falsa, saudável e doentia e ser capaz de ensinar e transmitir corretamente o que é apropriado em cada caso.
Do presidente espera-se capacidade de ensinar, do diácono não. Não se pode concluir disso que ensinar seja atribuição exclusiva do presidente, nem é possível obter aqui uma base para o posterior “magistério” católico-romano. Porque conforme 2Tm 2.2 Timóteo deve transmitir o evangelho a “pessoas fiéis”, não especificamente apenas presidentes, que serão capazes de novamente ensinar a outras. O ensino ministrado por mestres específicos somente tem sentido sob a premissa de que todos são capazes de se instruir e exortar mutuamente. No entanto, só se pode esperar isso deles quando e porque eles próprios são “ensinados por Deus”. Ademais, 1Tm 5.17 deixa explícito que a presidência não era exercida por uma pessoa sozinha, e que nem todos que presidiam ou eram presbíteros também ensinavam.
Os presidentes tinham de ser exemplos no ensinar, não para aliviar outros desta tarefa, mas capacitando-os para isso. Na escola o professor de matemática deve instruir os alunos para que saibam solucionar pessoalmente tarefas de matemática. Não deve resolver a tarefa por eles, e nem todos os alunos devem tornar-se matemáticos ou professores de matemática.
I Tm 3. 3 Não dado ao vinho, não espancador, porém amável, não briguento, não avarento.
Em Corinto as ágapes e as santas ceias da igreja haviam degenerado em comilanças. Em seu meio havia pessoas que se intitulavam irmãos, mas cujo Deus na verdade era seu próprio estômago. O estômago era o poder máximo que os determinava. Comer e beber, bem como digressões sexuais, significavam tudo para eles. Quem ainda era escravo de tais vícios mesmo como cristão dificilmente podia conduzir aqueles que haviam se convertido do mundo gentílico para novos hábitos de vida. O simples fato de que era preciso dar essas instruções a presidentes e diáconos permite reconhecer que à época da redação da carta a igreja não passava pela vida inerte, em um “aburguesamento” distante e impassível: “impuros, idólatras, adúlteros, garotos de programa, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes, assaltantes” era o contexto de onde vinha uma parcela da igreja, não apenas em Corinto, e com tais concidadãos seus membros conviviam no cotidiano. Como aprenderiam que uma vida assim era indefensável na igreja, por ser anti-social e inconciliável com o reino de Deus? Verdadeira transformação não podia ser trazida por ordens e condenações genéricas, mas somente por modelos de vida nova vivenciados. Por essa razão o presidente não deve ser beberrão nem galo de briga com discurso autoritário, mas instrutor amável de uma vida verdadeira. Para a nossa época
uma lista equivalente talvez seria: nem fumante inveterado, nem obeso, nem viciado em leitura de jornais ou televisão, nem polemista.
Porém amável: benigno, solícito, transigente; o contrário de rigorismo inflexível, que tão-somente provoca contendas. De acordo com o linguajar atual poderíamos traduzir o sentido com: objetivo, isento de agressão diante dos agressivos. Em Tt 3.2s “transigente” foi combinado com “manso”, como também em 2Co 10.1, onde Paulo escreve que ele exorta a igreja em conformidade com a amabilidade (transigência) e mansidão que o determinam. Também na época atual de embrutecimento das relações entre as pessoas, dos protestos e das provocações (desafios) de âmbito mundial, quando se visa desencadear e consequentemente desmascarar (super) reações autoconscientes em palavras e ações, é imprescindível para a igreja de Cristo e seus servos que todos estejam firmemente enraizados na forte mansidão de Jesus. Martin Luther King não permitia nenhum participante nas marchas de protesto que em provas anteriores havia se deixado arrastar para reações violentas.
Também nessa palavra não se deve ignorar a conotação escatológica. Como o Senhor está próximo, os cristãos devem expressar sua amabilidade a todas as pessoas, também diante dos que os difamam e perseguem.
Não briguento: trata-se aqui de briga por palavras, ter palavra de comando, ser irredutível no debate., diferente de “não espancador”, que briga chegado às vias de fato, muitas vezes embriagado.
Não avarento: Quando Jesus disse que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, os fariseus zombaram dele porque eram gananciosos. Jesus espera do bom administrador que lide fielmente com o dinheiro injusto. De acordo com Tt 1.7 o presidente, que é um administrador (ecônomo) de Deus, não de-ve ambicionar a torpe ganância.
Lutero traduz: “não ávido de querelas, mas brando, não briguento, não ávido por dinheiro.”
4 Que presida bem sua própria casa, criando os filhos com toda a dignidade em obediência.
5 Mas se alguém não sabe presidir a própria casa, como poderá cuidar da igreja de Deus?
Assim como o relacionamento conjugal reflete a relação entre Cristo e a igreja, assim a associação familiar em uma grande casa é réplica e a célula originária da família de Deus, do qual toda a paternidade no céu e na terra recebe o nome. Pela fé em Cristo os gentios tornaram-se “membros da família de Deus”.
Como um pai governa os filhos e a todos na própria casa, assim o presidente deve conduzir a igreja de Deus, executando seu ministério com entusiasmo, i. é, bem. Ao contrário do mundo grego, os cristãos não mandavam educar os filhos por meio de escravos pedagogos, mas assumiam pessoalmente essa tarefa. Na obediência autêntica (que é o contrário de coação, porque obediência autêntica é voluntária) e na decorrente autonomia disciplinada dos filhos adolescentes seria possível reconhecer a dignidade do pai amável. Isso também pode ser dito de outro modo: somente quem possui autoridade real pode favorecer dignamente a obediência. Quem está amarrado e inseguro, lançará mão de meios violentos, conduzindo assim os filhos à rebeldia, não à subordinação espontânea. “Com toda a dignidade” salienta a autoridade interior, que se situa acima da contraposição de educação autoritária – antiautoritária.
Cuidar da igreja de Deus. O presidente da igreja domiciliar não deve governar sobre ela de forma arbitrária ou ditatorial, mas pensar em seu bem-estar físico, comunitário e espiritual. A igreja não pertence a ele, mas a Deus. “Nisso sê diligente”, enfatiza Paulo mais tarde.
Família e igreja poderão crescer de forma saudável quando se encontram na mais estreita interação. Igrejas perdem seu caráter familiar quando famílias cristãs já não formam as verdadeiras células da igreja. Quando as famílias, mesmo as famílias nucleares de nosso tempo, não forem mais centros espirituais e locais de treinamento do amor experimentado de Deus, as igrejas se tornarão desertas, apesar de todo o ativismo. Por isso cuidar das igrejas significa providenciar em primeiro e principal lugar famílias saudáveis na fé. O cuidado pastoral matrimonial certamente ainda é a área mais negligenciada do aconselhamento. Quando o foco cair sobre a igreja como família de Deus, seu caráter de exemplo no matrimônio e na família se reveste de fundamental importância. Novamente não se deve entender isso como uma fachada de devoção hipócrita. Exemplo não é encenar o que não existe. Nem mesmo a pergunta temerosa sobre o que os outros dirão deve determinar ou tolher a vida familiar dos servidores da igreja.
6 Não um recém-convertido, para que não se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo.
Visto que tantas coisas dependem da pré-figuração e do procedimento do presidente de uma igreja, seu fracasso pode ser fatal não apenas para ele, mas para muitos. Por isso ele não deve ser um recém-convertido. Afinal, um novato ainda não teve oportunidade de comprovar a fé no cotidiano.
No presente texto não se trata da questão da idade (ao contrário de 1Tm 5.1,9,17,19). O próprio Timóteo era “jovem” na idade, jovem demais para seus críticos. Contudo Paulo lhe atesta que ele está comprovado na fé e no amor que se desprende de si mesmo, que vê as necessidades dos outros e os assiste. A validade da autoridade de Timóteo estava somente na aprovação e no exemplo, não na idade ou na apresentação imponente, muito menos em um título oficial concedido.
Quem alcança influência como recém-convertido facilmente se embriaga com o poder que parece possuir; deixando de ser sóbrio, perdendo o discernimento para diferenças e distinções.
Ensoberbecer-se: estar inflado, anuviar; a fumaça ascendente obscurece a visão. O presidente está ameaçado pelo mesmo perigo que os hereges, e as mulheres: inebriar-se com as liberdades e possibilidades de influência conquistadas e, em seguida, tropeçar. O inflado paira como um balão sobre as baixadas do “cotidiano burguês”. Em seus vôos ele secretamente despreza os pobres e simples, os humildes e comuns. Vê, fala e atua por sobre as cabeças da igreja.
A tentação da soberba não pode ser banida definitivamente nem mesmo por anos de aprovação, mas para os recém-convertidos ela será quase inevitável e um constante risco para aquele que é experimentado há mais tempo. Por isso Paulo confessa, a seu próprio respeito, que lhe foi dado um “anjo de Satanás” para discipliná-lo, para que ele não se envaideça.
E não incorra na condenação do diabo: em Corinto havia uma igreja inteira inflada. Vangloriava-se de sua “liberdade”, na qual permitia que um membro da igreja se casasse com a mulher de seu pai (falecido), i. é, com a madrasta. Esse tipo de “matrimônio” não era permitido nem mesmo entre os gentios, mas os cristãos, em sua presunção, não viam “nada de mau” nisso.
Paulo ordena entregar a referida pessoa ao julgamento temporal de Satanás, para que seja salvo no dia do Senhor. A expressão refere-se tanto à disciplina interior na consciência (auto-acusações, autocensura, contrição, vexação) quanto à disciplina exterior eclesial. Paulo não espera apoio moral, mas lamento pela culpa partilhada por toda a igreja em sua situação de soberba, que possibilita esses pecados, tolerando-os em seu meio.
I Tm 3. 7 Mas ele também precisa ter um bom testemunho dos de fora, a fim de não cair na difamação e no laço do diabo.
Já em sua carta mais antiga o apóstolo exorta a congregação para que tenha uma “conduta decente (honrada)” aos olhos dos de fora. Não ser tropeço nem causar escândalo! Essa exortação vale para a conduta diante de todos: judeus, gregos, cristãos. Isso não tem nada a ver com uma falsa adaptação aos padrões e costumes do mundo, porque a igreja deve ser irrepreensível e pura em meio a esta geração pervertida e corrupta. Suas boas obras devem poder ser vistas à luz do dia e se diferenciar das inúteis obras das trevas. Porque “enquanto os cristãos se preocupam sacerdotalmente pelo mundo, o mundo lança o afiado olhar da hostilidade sobre a igreja, a fim de encontrar pontos vulneráveis. Por isso não será recomendável colocar na liderança da igreja homens que eram notórios na cidade por seus pecados ou fraquezas passadas, ainda que se tenham emendado sinceramente”.
Os de fora na realidade estão fora da igreja, mas nem por isso fora do alcance do juízo e da graça de Deus. Os que estão fora da igreja possuem uma percepção implacável e um juízo insubornável para os pecados daqueles que se dizem cristãos. Com essa atitude na verdade condenam a si mesmos, porque confessam que sabem muito bem o que é certo e como deveriam viver. Contudo, isso não desculpa a igreja. Ela mesma deve manter um juízo vigilante acerca das próprias transgressões e por isso ir com humildade e mansidão ao encontro dos “de fora”.
Quando se pondera como os meios de comunicação de massa vasculham a vida passada e atual de líderes políticos, econômicos e religiosos com a criatividade de um detetive, desnudando-a em público (em geral por motivos ignóbeis de luta pelo poder), torna-se ainda mais atual a exigência do bom testemunho de fora. Pois quando a difamação circula em lugar do bom testemunho, ela pode influir de modo tão terrível sobre o envolvido que lhe rouba a fé no perdão de Deus, lançando-o no desespero. Como uma mosca na teia da aranha, ele ficará então emaranhado nos laços do diabo, do acusador originário.
A lista das 16 “virtudes” começa de forma aparentemente inofensiva com a irrepreensibilidade como premissa fundamental para o serviço de presidente. O catálogo termina com a condição quase idêntica do bom testemunho dado pelos de fora da igreja, anunciando surpreendentemente a
verdadeira razão e a grave conotação de toda a listagem: laço e juízo do diabo, esses são a ameaça e o risco reais daquele que visa servir a outros sendo seu presidente. Enquanto assim se abre a visão para o pano de fundo da sedução demoníaca, o catálogo de virtudes perde sua limitação helenista e o sabor pequeno-burguês resultante da apreciação meramente superficial.
Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos I Timóteo. Editora Evangélica Esperança.
II - A IMPORTÂNCIA DO PRESBITÉRIO
1. Significado do termo.
I Tm 4.14. Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério (14). Nesta passagem, o apóstolo reconhece que o poder, que chamaríamos preparação carismática para o ministério, é decididamente o mais importante. Ele firma que Timóteo recebeu este dom por profecia, observação repetitiva de Paulo (1.18). O chamado de Deus para servir na obra do ministério é consideração anterior e principal. E o Espírito Santo que tem de instigar a escolha do homem para esta vocação santa. E com o seu chamado temos razão para crer que haverá as qualificações acompanhantes da “graça, dons e utilidade”. Pode haver casos excepcionais em que uma ou outra destas qualidades não esteja em evidência, mas Deus as vê em estado latente; contudo, a regra é conforme está declarada acima. Isto significa mais que “ter facilidade em falar”, ou “ser muito extrovertido”, ou “dar-se bem com as pessoas”, ou “ser líder nato”. Algumas destas qualidades podem complementar o equipamento espiritual essencial, mas nenhuma o substitui.
Além disso, seria erro presumir que a ordenação da igreja fornece esta qualidade mística quando em falta. A significação da ordenação da igreja e sua relação com a ação anterior do Espírito estão claramente expostas em Atos 13.2,3. Falando da igreja em Antioquia na Síria, Lucas relata: “Disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram”. O mero “contato manual”, como disse alguém, a imposição das mãos do presbitério não tem significado sem essa obra antecedente do Espírito Santo. A linguagem de Paulo dá a entender perfeitamente que, referindo-se à ordenação de Timóteo, a ação do presbitério (os pastores) era reconhecimento e confirmação da ação anterior do Espírito.
J. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 484-485.
I Tm 4.14 Ninguém deveria desprezar Timóteo (4.12), nem ele deveria desprezar a si mesmo. Paulo lembrou Timóteo de que ele tinha os requisitos necessários para realizar aquela obra difícil em Éfeso. Entre eles, estava um dom espiritual de Deus. Embora Paulo não defina especificamente este dom, ele estava preocupado com a possibilidade de Timóteo hesitar em usá-lo ou deixar de usá-lo. Quando virmos as capacitações de todos os tipos (espiritual, relacional, técnica) como dons de Deus, será mais fácil vermos a sua mão operando por meio dos esforços humanos. A incumbência de Timóteo como líder da igreja tinha ocorrido por profecia e com a imposição das mãos do presbitério (veja também I.I3). O dom de Timóteo tinha sido reconhecido publicamente. Isto ajudaria a confiança hesitante de Timóteo. Ele poderia realizar a tarefa porque Deus o tinha chamado para realizá-la, o tinha capacitado para realizá-la, e estaria com ele durante a realização dela.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 502.
Ao ler, exortar e ensinar, Timóteo exerce o dom da graça recebido e faz uso dela, ao invés de negligenciá-lo. Novamente deve-se considerar a conjunção de graça e responsabilidade, dom da graça e incumbência da graça. Intimidado pela condescendência ou pelo desprezo dos anciãos, premido pelos hereges, desanimado por dúvidas e temores pessoais, Timóteo corre perigo de negligenciar o carisma (dom da graça) recebido (QI 31d), recebendo em vão a graça de Deus (Compare-se o texto paralelo em 1Co 15.10; 2Co 6.1: receber graça e ministério = trabalhar com ele; receber em vão = negligenciar).
Dom da graça (carisma): será que se trata de um equipamento espiritual recebido por ocasião da “ordenação”? Porventura está-se falando de “graça ministerial”? A interpretação de toda a frase precisa render uma resposta a essa questão. Para Paulo o carisma está no começo e no centro de todo serviço e de toda a vida da igreja. O carisma não é algo acrescentado ao ministério, nem mesmo algo que somente possui certa importância à margem da verdadeira ordem eclesiástica. Dons da graça foram dados a todos para todos, ainda que nem todos recebam os mesmos dons. Em 1Co 12-14 Paulo não fala contra os dons da graça, mas somente contra seu abuso. Timóteo não corre o risco dos carismáticos de Corinto. Pelo contrário, a ele o apóstolo precisa dizer: não negligencies o dom da graça em ti. O próprio Deus o concedeu a você, não uma instância humana. Por isso utilize esse dom, exercite-se nele, use-o diligentemente!
Mediante profecia: por meio de uma palavra profética; profecias que apontam para Timóteo; falam de sua vocação. Desse chamado de Deus lhe advém força para a luta. No começo do serviço não está o cargo, mas o carisma. No começo do carisma não está a ordenação, mas a vocação pelo próprio Deus. Tanto o AT como o NT deixam inequivocamente claro que os servos estabelecidos para um serviço específico recebem a dádiva do Espírito antes de receber os dons do Espírito para o serviço.
Pela imposição de mãos: A imposição das mãos confirma o que aconteceu, a saber, a vocação prévia por Deus, profeticamente divulgada. A prática da imposição das mãos situa-se no âmbito dos sinais visíveis que acompanham a fé.
Que autoriza para o serviço de presbítero: como interpretar esse genitivo? Como genitivo subjetivo seria preciso traduzir: o conselho de anciãos impõe as mãos. Isso talvez constituísse,
embora não obrigatoriamente, uma contradição com 2Tm 1.6, onde Paulo escreve que impôs as mãos a Timóteo. Portanto, trata-se de duas oportunidades distintas, ou então Paulo lhe impôs as mãos em conjunto com os anciãos (QI 30). Contudo, supondo-se um genitivus finalis, que assinala a finalidade, algo não apenas plausível, mas provavelmente correto no contexto, a tradução será: pela imposição de mãos que torna alguém presbítero. Assim como Tito deve instalar presbíteros de cidade em cidade, assim o próprio Paulo havia instalado Timóteo como presbítero. A instalação do presbítero não era uma ação arbitrária do apóstolo, mas ele reconhecera no Espírito que Deus já havia posto sua mão sobre o jovem: o apóstolo então agiu de modo correspondente. Embora Timóteo fosse jovem na idade, Deus o havia chamado como “ancião” e o manifestou mediante profecia. Concedeu-lhe o Espírito Santo, incutiu-lhe o carisma pa-ra o serviço, confirmou sua vocação pela imposição de mãos por Paulo perante muitas testemunhas.
Que carisma específico Timóteo havia, pois, recebido? Será que era pastor, mestre ou evangelista? (“Faça a obra de um evangelista!” 2Tm 4.5). Seria igualmente difícil definir um dom espiritual específico para Paulo. O dom geral da “palavra”, i. é, a vocação para o “serviço à palavra”, podia abranger proclamação, exortação, ensino e evangelização, mas apresentava ênfases diferentes nos diversos servos. Dependendo também das circunstâncias com que se deparavam, um ou outro serviço podia passar mais para o primeiro plano. Essencial para todos os dons espirituais é que cada um carece de complementação. Por mais abrangentes que sejam, ocorrem de forma apenas limitada em cada pessoa, carecendo da permanente complementação por parte de outra.
Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos I Timóteo. Editora Evangélica Esperança.
2. A atuação do presbitério.
At 16.4,5 Pelo menos um dos novos itens da agenda da sua viagem era explicar a decisão tomada em relação aos mandamentos que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos no concílio de Jerusalém (At 15). As questões entre judeus e gentios que tinham sido solucionadas no concílio provavelmente surgiriam novamente nas áreas predominantemente gentílicas para onde Paulo estava viajando.
O crescimento rápido era importante nesta primeira etapa da divulgação do Evangelho em meio aos gentios. Os críticos do ministério de Paulo orientado aos gentios (especialmente a facção judaica) estariam esperando ansiosamente por uma oportunidade para calar Paulo, ou pelo menos para diminuir a sua influência. Mas aqui, na primeira penetração real do Evangelho no mundo gentílico, a igreja prosperava, da mesma maneira como havia ocorrido no início com a igreja que era composta, em sua maioria, por pessoas de origem judaica.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 1. pag. 697.
E, quando iam passando (tempo imperfeito) pelas cidades (Listra, Icônio, Pisídia, Antioquia) os irmãos lhes entregavam (4) — os gentios cristãos — os decretos — lit., “dogmas” usados para os decretos imperiais (17.7; Lc 2.1)127 — que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém. A expressão Que haviam sido estabelecidos quer dizer literalmente “que foram julgados”. Esta é a única passagem no Novo Testamento onde o verbo comum krino foi traduzido como estabelecidos. A luz desse contexto (cap. 15), provavelmente a melhor tradução para a frase seria: “As decisões a que chegaram” (Phillips) ou “Os decretos que foram deliberados”.128
Aparentemente, a promulgação dos decretos do Concílio de Jerusalém mais ajudou do que prejudicou os trabalhos, pois lemos que: as igrejas eram confirmadas na fé e cada dia cresciam em número (5) — lit., “estavam sendo fortalecidas” e “estavam aumentando” (verbos no tempo imperfeito). Este é o quarto relatório resumido sobre o progresso do trabalho missionário (cf. 6.7; 9.31; 12.24).
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 6. pag. 328-329.
«...decisões...», isto é, os decretos baixados quando do concilio que houve na cidade citada, eram entregues e explicados aos irmãos. A palavra aqui empregada para traduzir decisões é o mesmo termo usado nos trechos de Luc. 2:1 e Atos 17:7, para indicar qualquer determinação oficial da parte do imperador, ou seja, um «decreto». Paulo sem dúvida ansiava por mostrar-se leal ao pacto firmado em Jerusalém. Essa própria lealdade demonstra que Paulo não via qualquer coisa de errado na circuncisão de Timóteo, ou que fizera qualquer coisa em contradição com as determinações tomadas durante aquele concilio. Lembremo-nos, além disso, que Silas era um dos delegados originais enviados pelos irmãos de Jerusalém, o qual poderia acrescentar o seu próprio testemunho sobre a natureza das providências tomadas naquela cidade. «Os decretos e as determinações salutares devem ser diligentemente observados, pois, de outro modo, assemelhar-se-iam a um sino sem badalo». (Starke, in loc.).
«Esses decretos ainda eram claramente considerados, pelos convertidos vindos do paganismo, como a carta magna com base na qual poderiam tomar posição firme em qualquer disputa com os judaizantes, e, sem dúvida, esses decretos ajudaram a determinar muitos que ainda estavam hesitantes, a buscarem admissão na igreja cristã». (E.H. Plumptre, in loc.).
CHAMPLIN, Russell Norman, O Novo Testamento Interpretado versículo por versículo. Editora Candeias. Vol. 3. pag. 328.
3. A valorização do presbitério.
Recompensa Adequada pelo Serviço Fiel (5.17,18)
As palavras “anciãos” (1) e presbíteros (17; aqui quer dizer “pastores”, cf. BV) são tradução da mesma palavra grega; os significados, embora distintos, estão correlacionados. No versículo 1, significa os membros mais idosos da congregação; mas aqui diz respeito aos indivíduos separados para a obra do ministério: Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina (17). Há comentaristas que entendem que este versículo antecipa a distinção entre “pastores” que governam e “pastores que ensinam”, que é a prática em certas igrejas reformadas. Mas isso é improvável, quando lembramos que Paulo já havia declarado especificamente que todo bispo (ou pastor) tem de ser “apto para ensinar” (3.2).
O apóstolo está estipulando a Timóteo que o pastor que combina igreja com o serviço fiel e talentoso como pregador e professor de honra. É difícil acreditar que signifique “pagamento em dobro” (NT Lógico que incluiu o aspecto monetário, como as observações adicio claro; mas junto do honorário deve ser incluída a honra. Ainda não h avia chegado o dia em que os ministros da igreja seriam totalmente sustentados. O costume que então vigorava era que os líderes da igreja se sustentassem, da mesma maneira que o apóstolo o fazia. Na opinião de Paulo, o bom serviço merece reconhecimento e recompensa. Aquele cujo tempo era tomado quase todo pelo trabalho da igreja deveria receber maior compensação.
Paulo sustenta seu conselho com um argumento que lembra 1 Coríntios 9.9: Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que debulha. E: Digno é o obreiro do seu salário (18). A primeira destas passagens é um preceito do Antigo Testamento
encontrado em Deuteronômio 15.4, e em sua situação original é uma ordenação humanitária. Mas em outro texto Paulo argumenta que tem um significado mais profundo: “Porventura, tem Deus cuidado dos bois? Ou não o diz certamente por nós?” (1 Co 9.9,10). O apóstolo também cita outra passagem para a qual dá importância igual: Digno é o obreiro do seu salário. Esta é declaração de nosso Senhor registrada em Lucas 10.7.0 fato surpreendente é que os estudiosos do Novo Testamento não conseguem achar evidências para provar que o Evangelho de Lucas tinha acesso geral quando estas palavras foram escritas. Alguns expositores, claro, concluem imediatamente que as Epístolas Pastorais devem ter sido escritas muito depois que a data que lhes designamos. Mas o mais provável é que o Evangelho de Lucas fosse conhecido por Paulo e também por Timóteo.
E. K. Simpson assume a posição, junto com B. B. Warfield, de que “temos aqui uma citação verbalmente exata do Evangelho de Lucas, tratada como porção integrante das Santas Escrituras”. Nesta passagem, o apóstolo deixa clara sua opinião de que o serviço fiel e eficaz merece reconhecimento e remuneração adequada. E óbvio que a igreja começava a mudar rumando para um ministério assalariado.
J. Glenn Gould. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 9. pag. 490-491.
I Tm 5. 17 Assim como o v. 3 destaca dentre o grupo de mulheres idosas (v. 2) as viúvas que servem na igreja, salientando a reverência que lhes é devida, assim são analisados agora (v. 17) os homens dirigentes dentre os idosos e o comportamento devido diante deles.
Presidir bem: algo esperado primeiramente para a administração da própria família e em seguida tanto dos presidentes como dos diáconos; aqui espera-se esta atitude de todos os anciãos que exercem qualquer função de responsabilidade na igreja, seja a administração econômica, seja, o que é particularmente evidenciado, o serviço missionário e doutrinário. Deles a igreja espera que presidam bem, ou seja: importa não já o serviço (o cargo!) como tal, mas o modo como é exercido (QI 12).
Dobrada honra: o termo honra retoma nitidamente o tema do v. 3, onde já se evidenciou que ele não podia se referir apenas ao sustento ou ao salário. Honrar uma pessoa significa reconhecê-la, atribuir-lhe o valor que lhe cabe. O próprio Timóteo não havia recebido a honra e o reconhecimento que merecia. Em vez de exigi-los para si, deve responder a essa deficiência com vida exemplar. Conceder “dobrada honra” pode significar ou honrar uma pessoa idosa por ser anciã e por trabalhar na igreja como anciã ou, além do sustento material recebido por todos os idosos carentes, manter (intelectualmente) honrados os idosos que presidem a igreja, por causa de seu ministério. A igreja deve ser generosa e pródiga no sustento de homens e mulheres idosos e de forma alguma ser reticente quando desempenham um bom ministério em prol da igreja.
Sobretudo os que trabalham na palavra e no ensino: que realizam algo, que se esforçam, termo frequente em Paulo.
Palavra: como em 1Tm 4.12; 1Co 1.5; de modo geral a proclamação da mensagem de Cristo.
Ensino: instrução para viver a partir da fé. De acordo com 1Tm 3.2 e Tt 1.9, ensinar faz parte das atribuições do presidente. Consequentemente se fala aqui de vários presidentes em Éfeso, assim como acontecia na igreja em Filipos. Os dirigentes das famílias em cujos lares surgiram as primeiras igrejas caseiras também eram os presidentes naturais para as igrejas, caso fossem aprovados.
Contrariando a declaração, muitas vezes reiterada, de que as past preferem títulos para cargos sem descrever a função deles, ao passo que o próprio Paulo raramente empregaria títulos para cargos, mas em troca assinala o conteúdo dos diversos serviços, aparece o presente versículo: “Sobretudo aqueles que trabalham na palavra e no ensino.” Nem aqui nem em 1Tm 3.1s se fala de uma ordem hierárquica dos ministérios. Por isso o jovem Timóteo pode ser convocado para ser “presbítero”, porque em última análise a chave não é a idade, nem o cargo em si, mas o serviço ao evangelho, o empenho e o labor dentro dele (1Tm 4.14).
Hans Bürki. Comentário Esperança Cartas aos I Timóteo. Editora Evangélica Esperança.
NORMAS PARA A ADMINISTRAÇÃO PRÁTICA
1 Timóteo 5:17-22
Esta passagem consiste numa série de normas muito práticas para a vida e a administração da Igreja.
 (1) Deve-se honrar adequadamente os anciãos, e também pagar-lhes como corresponde. No Oriente quando se debulhava, as hastes de trigo se deixavam na era; logo se fazia com que várias juntas de bois caminhassem sobre eles; ou se atava os bois num poste no meio, como um eixo. e eram partidos ao redor do grão; outras vezes se acoplava a eles um pau de debulhar, aquele que se fazia passar e repassar sobre o trigo; mas em todos os casos se deixava os bois sem focinheira; estavam livres para comer todo o grão que quisessem como prêmio pelo trabalho que estavam fazendo. A lei existente de que não se devia atar a boca aos bois encontra--se em Deuteronômio 25:4. A afirmação de que todo obreiro é digno de seu trabalho pertence a Jesus (Lucas 10:7). O mais provável é que Ele tenha citado um provérbio. Todo homem que trabalha merece seu sustento, e quanto mais trabalha, mais terá ganho e merecido. O cristianismo nunca teve nada que ver com a ética suave e sentimental que exige salários iguais para todos. O que recebe o homem deve ser sempre proporcional a seu trabalho. Mas devemos notar quais são os anciãos que devem ser especialmente honrados e retribuídos. Trata-se daqueles que trabalham na pregação e no ensino. Não se trata aqui do ancião que se limitava a dar conselhos e recomendações, cujo serviço consistia em palavras, discussões e argumentos e que considerava terminados seus deveres de ancião quando se sentou a uma mesa e falou. O homem que verdadeiramente honrava a Igreja era aquele que trabalhava para edificá-la com sua pregação da verdade às pessoas, e com sua tarefa de educar os mais jovens e os novos conversos no caminho cristão.
(2) A Lei judia estabelecia que não se podia condenar a ninguém com o testemunho de uma só pessoa: “Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniquidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato” (Deuteronômio 19:15).
A Mishnah, a lei rabínica codificada, ao descrever o processo de um juízo diz: " A segunda testemunha era igualmente trazida e examinada.
Se fosse encontrado que o testemunho dos dois coincidia, seu o caso era aberto para a defesa." Quer dizer, se sustentava-se uma acusação com a evidência de uma só testemunha, considerava-se que não havia motivo para iniciar uma causa.
Em épocas posteriores as normas da Igreja estabeleceram que as duas testemunhas deviam ser cristãs, porque teria sido fácil para um pagão malicioso inventar uma falsa acusação contra um ancião cristão para desacreditá-lo, e através dele à Igreja. Nos primeiros dias da Igreja, as autoridades eclesiásticas não duvidavam em aplicar a disciplina, e Teodoro de Mopsueste, um dos pais primitivos, assinala quão necessária era esta norma, porque os anciãos estavam expostos sempre ao desagrado e especialmente a ataques maliciosos "como aquela desforra que tinham sido repreendidos por seus pecados". Uma pessoa a que se tinha chamado à ordem podia querer obter sua revanche acusando maliciosamente a um ancião de alguma irregularidade ou algum pecado. O certo é que este seria um mundo mais feliz, e a Igreja seria mais feliz, se a pessoa compreendesse que difundir ou repetir histórias a respeito das pessoas, que não são, nem podem ser seguras, é nada menos que um pecado. Os falatórios irresponsáveis, caluniosas e maliciosas fazem danos infinitos e causam muitas feridas, e Deus não deixará de castigar.
NORMAS PARA A ADMINISTRAÇÃO PRÁTICA
1 Timóteo 5:17-22 (continuação)
(3) Aqueles que persistem no pecado devem ser repreendidos publicamente. Essa reprimenda pública tinha um duplo valor. Fazia com que o pecador considerasse seriamente sua forma de ser, e despertava o sentimento de vergonha; e fazia com que outros se cuidassem de não ver-se envoltos eles mesmos numa humilhação similar. A ameaça da publicidade não é má, se faz com que a pessoa se mantenha no caminho correto, ainda que seja por medo. Um dirigente sábio, saberá quando é o momento de calar as coisas, e quando deve fazer uma reprimenda pública. Mas seja o que for que aconteça, a Igreja não deve dar ao mundo nunca a impressão de que está tolerando o pecado.
(4) Timóteo vê-se urgido a administrar sua tarefa sem favoritismos nem preconceitos. D. S. Easton escreve. "O bem-estar de toda comunidade depende da disciplina imparcial." Nada faz mais mal que tratar a algumas pessoas como se não pudessem fazer o mal, ou a outros como se não pudessem fazer o bem. A justiça é uma virtude universal, e nela a Igreja nunca deve estar por baixo das normas de imparcialidade que até o mundo exige com razão.
(5) Previne a Timóteo que “a ninguém imponhas precipitadamente as mãos”. Isso pode significar uma de duas coisas.
(a) Pode ser que signifique que não deve ser muito ligeiro em impor as mãos a qualquer pessoa para ordená-la numa função da Igreja. Antes de promover-se a uma pessoa num negocio, ou no ensino, ou nas forças armadas, deve dar prova de que ganhou A ninguém imponhas precipitadamente as mãos essa promoção e que a merece. Ninguém deveria começar no posto mais alto. A pessoa deve dar provas de que merece uma posição de responsabilidade e liderança. Isto é duplamente importante na Igreja; porque uma pessoa que é elevada a uma alta função e logo fracassa nela ou a desacredita, não só traz desonra sobre si mesmo, mas também sobre a Igreja. Num mundo crítico a Igreja não pode deixar de ser muito cuidadosa no que concerne à classe de pessoas que escolhe como dirigentes.
(b) Na Igreja primitiva era costume impor as mãos sobre um pecador penitente que tinha dado prova de seu arrependimento e tinha retornado ao redil. Estava estabelecido: "Quando cada pecador se arrepende e mostra frutos de seu arrependimento, ponha-se as mãos sobre ele, enquanto todos oram por ele."
Eusébio, o historiador da Igreja, relata-nos que era um costume antigo que os pecadores arrependidos fossem recebidos novamente com a imposição de mãos e com oração. Se esta passagem refere-se a isso, pode tratar-se de uma advertência a Timóteo que não seja muito ligeiro em receber novamente à pessoa que havia trazido desonra à Igreja; que esperasse até que tivesse demonstrado que sua penitência era genuína e que estava verdadeiramente decidido a modificar sua vida para concordar com suas manifestações de penitência.
Isto não quer dizer em nenhum momento que se deva manter à distancia a esta pessoa e que se deve tratá-la com suspicácia e desconfiança. Tal pessoa deve ser tratada com toda simpatia em seu período de prova ajudando-a o e guiando-a. A comunidade cristã nesse momento deve fazer tudo o que esteja a seu alcance para ajudar à pessoa a que se redima e comece outra vez. Significa que não se deve tomar com ligeireza a condição de membro da Igreja, e que as pessoas devem mostrar seu penitência pelo passado e sua determinação para o futuro, não antes de ser recebido na comunidade da Igreja, mas sim antes de ser recebido como membro dela. A comunidade da Igreja existe para ajudar a estas pessoas a redimir-se a si mesmos, mas o ser membros da Igreja é para aqueles que dedicaram suas vidas a Cristo verdadeira e sinceramente.
BARCLAY. William. Comentário Bíblico. I Timóteo. pag. 129-133.
I Ped 5.1 Aqui prossegue a linha de pensamento de 4.12-19. Como o julgamento de Deus irá “começar pela casa de Deus” (4.17), os presbíteros destas congregações tinham grande responsabilidade. Os presbíteros eram os líderes nomeados nas igrejas (veja At 14.23; 20.17; 1 Tm 5.17,19;Tt 1.5,6); eles deveriam conduzir as igrejas por meio do ensino das doutrinas sadias, ajudando os crentes a adquirirem maturidade espiritual e equipando os crentes para viverem para Jesus Cristo, apesar das oposições. Os presbíteros tinham grande responsabilidade, e esperava-se que fossem bons exemplos. Pedro pediu como um presbítero também, identificando-se, desta forma, com os outros líderes da igreja, embora tivesse ainda mais autoridade por ser um dos apóstolos. Pedro tinha sido uma testemunha das aflições de Cristo. Na verdade, ele não testemunhou a crucificação de Cristo, porque ele tinha negado e desertado a Jesus; a palavra “testemunha”, neste versículo, não significa “testemunha ocular”. Nem ele nem os demais presbíteros tinham sido testemunhas oculares; no entanto, todos eles tinham sido convocados para “testemunhar” (declarar ou noticiar) os sofrimentos de Cristo àqueles que estivessem sob os seus cuidados. Como testemunhas, eles também poderiam participar daqueles sofrimentos, “testemunhando-os” pessoalmente em sua própria vida.
Mas eles compartilham ainda mais, pois Pedro e os demais presbíteros, assim como todos os crentes, serão participantes da glória de Cristo, que se há de revelar quando Ele retornar. Pedro e os crentes estavam participando da glória de Cristo naquela época, e eles também participarão desta glória quando ela for revelada, no último dia (a Segunda Vinda).
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 732.
Os presbíteros (1) eram obreiros maduros da igreja que agiam como supervisores; eles tinham deveres administrativos e pastorais definidos. O contraste com os “jovens” (v. 5) indica uma forma simples de governo da igreja nos tempos de Pedro. Uma administração sábia das obrigações da igreja é vital para a pureza e preservação da Igreja, e mais ainda quando as perseguições impõem responsabilidades peculiares para os líderes. Sou também presbítero. Pedro pode ter considerado seu apostolado um tipo de responsabilidade de ancião em termos mais amplos ou ele pode ter servido como ancião (presbítero) na igreja da região onde morava. Com humildade ele refere-se ao seu apostolado, como testemunha das aflições de Cristo. Ele tinha muito a dizer acerca das aflições do seu Senhor. A descrição do seu ofício é a descrição que se espera de uma pessoa santa. Não há auto-exaltação nem depreciação, nem qualquer alusão a primazia, como alguns têm alegado em relação a Pedro.
Ele também era um participante da glória que se há de revelar quando Cristo retomar à terra. Pedro esteve no monte da Transfiguração e lá viu a glória do nosso Senhor. Ele observou as provas gloriosas e infalíveis da sua ressurreição e ouviu a promessa do anjo de que Cristo voltaria. Ele havia recebido uma comissão especial que estava disposto a cumprir (cf. Lc 22.32; Jo 21.15-17); essa epístola é prova disso.
Roy S. Nicholson. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 10. pag. 242.
III - OS DEVERES DO PRESBITÉRIO
1. Apascentar a igreja.
A natureza e o significado honrosos do cargo ou da função do presbítero ou bispo lhe confere muitas responsabilidades. Seus deveres são inerentes às suas qualificações, como foi visto no item I, deste comentário. A seguir, resumimos alguns desses deveres, conforme indicam os textos bíblicos sobre o presbítero.
APASCENTAR A IGREJA
Os presbíteros, como pastores, na igreja local, têm o dever de alimentar o rebanho de Cristo, com a sã doutrina, que é o alimento puro, saudável e nutritivo para sua vida espiritual, social, moral, familiar, como cidadão do céu e da terra. O apóstolo Pedro exorta muito bem aos presbíteros quanto a esse dever primordial de sua missão: “Apascentai o rebanho de Deus que está entre vós...” (1 Pe 5.2a).
CUIDAR DO REBANHO
Diz Pedro aos presbíteros que devem apascentar “o rebanho de Deus”, “tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; nem como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe 5.2,3). Os cuidados pastorais com as ovelhas requer muita graça e capacidade, concedidas por Deus. O presbítero deve ter a consciência de que não é dono do rebanho. Ele cuida de ovelhas que pertencem ao Senhor Jesus e não a ele.
1) Não “por força”. Por isso, o presbítero, pastor ou bispo não tem o direito de usar “a força” ou o autoritarismo para dirigir a igreja local. Já ouvimos de obreiro que, aborrecido com alguma atitude de um ou outro crente, esbraveja, no púlpito: “Aqui, quem manda sou eu; quem quiser pode sair”. Esse tipo de comportamento revela um obreiro fracassado; que não tem autoridade nem competência para cuidar do rebanho de Deus. O líder cristão não deve agir “por força”, mas pelo poder do Espírito de Deus (cf. Zc 4.6).
2) “Mas voluntariamente”. O trabalho do presbítero deve ser voluntário, ou espontâneo. Não deve ser feito por obrigação imposta. Os obreiros que mais progridem em seus ministérios e as igrejas sob seu cuidado crescem são aqueles que o fazem por satisfação em servir. Quem serve voluntariamente enfrenta as lutas próprias do ministério, mas não sofre tanto desgaste quanto aqueles que executam as atividades “por obrigação”.
3) “Nem por torpe ganância”. Uma das qualificações do presbítero ou bispo é não ser “cobiçoso de torpe ganância” (Tt 1.7). E não ter apego “ao lucro desonesto”, ao uso indevido dos recursos financeiros da igreja que dirige.
4) “Mas de ânimo pronto”. Essa recomendação fala de disposição mental para servir à igreja, com prontidão. Deus chamou Davi para ser rei, porque, entre suas qualidades pessoais ele era “valente e animoso” (1 Sm 16.18). Uma das piores coisas para uma igreja é um obreiro desanimado, sem coragem, sem interesse em ver a obra crescer. Há obreiros que estão à frente de uma igreja, apenas para ter um emprego, uma fonte de renda. Não deve ser indicado para presbítero um obreiro sem ânimo.
5) “Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus”. É um terrível engano, quando o obreiro acha que é dono da igreja local. Jesus não chama o obreiro para que ele “mande” na igreja, mas para ser servo da igreja. Autoritarismo não faz parte da liderança cristã. A resposta de Jesus ao desejo de grandeza (Mt 20.21) foi uma lição eloquente para todos os líderes cristãos (Mt 20.25-28).
6) “Mas servindo de exemplo ao rebanho”. O presbítero ou bispo deve ser um líder. E o verdadeiro líder não é o que “manda”, mas o que vai à frente dos liderados. O Bom Pastor não manda as ovelhas irem à frente. Ela vai “... adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz” (Jo 10.4). O líder é o que influencia com seu exemplo as ovelhas e elas o seguem para o seu objetivo.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 135-137.
A responsabilidade pastoral desses presbíteros é descrita assim: apascentai o rebanho de Deus (2). A palavra “pastorear” explica melhor o significado do original do que apascentai. O dever do pastor é triplo: providenciar pasto, caminhos para o pasto e proteção nos caminhos para o pasto. Portanto, o dever do pastor vai além da pregação. O rebanho é a Igreja. Ela pertence a Deus como sua possessão comprada. Em certa época seus membros eram como ovelhas desgarradas, mas elas voltaram ao “Pastor e Bispo” da sua alma (cf. 2.25). O pastor deve instruir e guiar o rebanho em obediência e sujeição à completa vontade de Deus. O cuidado a ser exercido envolve três particularidades expressas de forma negativa e positiva. 1) Quanto ao espírito desse serviço, ele não é por força, mas voluntariamente. A liderança da igreja era tão perigosa naqueles dias que poderia custar a vida do líder. Mesmo assim, ele não deveria fazer essa obra relutantemente como se fosse um fardo ou considerá-lo como um dever profissional obrigatório. Em vez disso, esse era um ministério para o qual Deus o havia apontado e chamado e, por isso, deveria ser feito com obediência e alegria. 2) A motivação dessa supervisão não deveria ser por torpe ganância, mas de ânimo pronto — não como um mercenário que espera ganhar dinheiro. Os presbíteros tinham o direito de esperar sustento material daqueles a quem ministravam; mas sua motivação não deveria provir de um “amor ao ganho constitucional”, que “é uma desqualificação para o ministério cristão”.90 Considere seu efeito em Judas Iscariotes! 3) Quanto à forma de supervisão, ela não deve ser como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho (3). Os líderes nunca devem ser tirânicos ou se esquecer dos direitos das pessoas que lhes foram confiadas. Eles não devem dominar como o arrogante Diótrefes (3 Jo 9-11), mas liderar pelo poder de uma vida santa. O pastor nunca deve esquecer que ele não é o Sumo Pastor (4).
A compensação terrena do líder pode ser insignificante, mas quando aparecer o Sumo Pastor (cf. 4.13), ele terá a sua recompensa incorruptível (cf. 1.4,5), a coroa de glória, “a felicidade do céu, o elemento principal de a vida de Deus ser derramada na alma por meio de Cristo”;91 “uma participação perpétua na sua glória e honra” (Bíblia Viva).
Roy S. Nicholson. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 10. pag. 242-243.
I Ped 5.2,3 O mandamento de Pedro para que os presbíteros apascentem o rebanho de Deus é uma repetição das palavras que o Senhor Jesus disse ao próprio Pedro: “Apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21.16). A mesma palavra grega é usada nas duas passagens, significando “guiar”, “atender”, “cuidar”, ou “pastorear”. O “rebanho” são os crentes; os presbíteros tinham responsabilidades sobre as igrejas individuais e, consequentemente, sobre uma certa parte do “rebanho” de Deus. Os presbíteros deviam ser como pastores, que conduzem, orientam e protegem as ovelhas que estão sob os seus cuidados. Os crentes precisariam de bons líderes quando enfrentassem a perseguição. Esta passagem descreve três possíveis problemas que os presbíteros poderiam enfrentar e a maneira como deveriam agir: Motivação errada. Cuidar do rebanho não por força, mas voluntariamente. Os presbíteros deviam servir em razão do amor que sentiam por Deus. Pedro esperava que eles fizessem a vontade de Deus à sua maneira, tentando agradar a Deus com fervor. Os pastores e os presbíteros devem servir voluntariamente nas igrejas hoje. É frequentemente difícil obter uma lista de candidatos para o cargo de presbítero devido à falta de disposição das pessoas da congregação para servir.
Objetivos errados. Cuidar do rebanho não por torpe ganância, mas de ânimo pronto. Em muitas das igrejas, os presbíteros eram pagos pelos seus serviços; no entanto, esta remuneração sozinha provavelmente não tornaria um presbítero rico. Esta tentação de ser ambicioso provavelmente surgiu porque as finanças da igreja (o dinheiro arrecadado para os pobres etc.) eram normalmente confiadas ao presbítero ou ao bispo. A oportunidade de abusar da confiança era bastante real. Assim, tanto Pedro como Paulo explicaram que os presbíteros devem receber um pagamento adequado e precisam ser homens de confiança no que se refere ao dinheiro (veja 1 Tm 3.8; 5.17,18; Tt 1.7,11). Em vez de se concentrarem no dinheiro, os presbíteros deveriam se concentrar no serviço. A palavra traduzida como “pronto” é muito forte em grego e expressa grande zelo e entusiasmo. Hoje, os pastores recebem um pagamento para servir, mas eles podem se tornar vítimas do desejo ambicioso por dinheiro. Não ter dinheiro ou ter enormes quantias são situações que podem igualmente levar a muitas preocupações financeiras.
Métodos errados. Cuidar do rebanho não como tendo domínio sobre a herança de Deus, mas servindo de exemplo ao rebanho. Os presbíteros lideram pelo exemplo, e não pela força. “Tendo domínio” significa “dominando ou sujeitando pela força”. Os presbíteros também devem resistir à tentação de abusar da sua autoridade e prejudicar a igreja que está sob os seus cuidados. A fórmula que Jesus usava sempre era que aqueles que lideram devem ser os melhores servos (Mc 10.42-45). Os líderes devem ser exemplos de humildade e de servilismo. Os líderes não devem intimidar nem coagir as pessoas.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 732-733.
Aqui podemos observar:
I As pessoas a quem são dadas essas orientações – aos presbíteros, pastores e líderes espirituais da igreja, presbíteros e anciãos por ofício, e não por idade, ministros daquelas igrejas às quais escreve esta epístola. n A pessoa que faz essa exortação - o apóstolo Pedro:
“...admoesto eu”. E, para reforçar essa exortação, ele lhes diz que é presbítero com eles, e assim não impõe nada a eles que ele não esteja disposto a fazer também. Ele é também “...testemunha das aflições de Cristo”, tendo estado com Ele no jardim, acompanhando-o ao palácio do sumo sacerdote, e muito provavelmente tendo sido testemunha do seu sofrimento na cruz, à distância, entre a multidão (At 3.15). Ele acrescenta que é também “...participante da glória” que em certa medida foi revelada na transfiguração (Mt 17.1-3), e vai ser completamente desfrutada na segunda vinda de Jesus Cristo. Aprenda: 1. Aqueles cujo ofício é ensinar a outros devem cumprir atentamente seu próprio dever, assim como ensinam ao povo o dever deste. 2. Como eram diferentes o espírito e o comportamento de Pedro do espírito e do comportamento dos seus pretensos sucessores! Ele não ordena e manda, mas exorta. Ele não reivindica soberania sobre todos os pastores e igrejas, nem se intitula príncipe dos apóstolos, vigário de Cristo ou cabeça da igreja, mas se apresenta como presbítero. Todos os apóstolos eram presbíteros, ou anciãos, embora nem todo presbítero fosse apóstolo. 3. Foi uma honra peculiar de Pedro e de alguns mais serem testemunhas dos sofrimentos de Cristo; mas é privilégio de todos os verdadeiros cristãos serem participantes da glória que há de ser revelada.
A descrição do dever do pastor, e a maneira em que esse dever precisa ser cumprido. O dever do pastor é tríplice: 1. “...apascentai o rebanho...”, por meio da pregação honesta da palavra de Deus ao rebanho, e ao conduzi-lo de acordo com as orientações e a disciplina que são prescritas pela palavra de Deus, que estão ambas incluídas nessa expressão: Apascentai o rebanho.. 2. Os pastores do rebanho precisam ter a supervisão dele, o seu cuidado. Os presbíteros são exortados a fazer o seu trabalho de bispos (que é o significado da palavra), por meio do cuidado pessoal e da vigilância sobre todos que no rebanho estão comprometidos ao seu cuidado. 3. Eles precisam ser “...exemplo ao rebanho”, e praticar a santidade, a autonegação, a mortificação e todos os deveres cristãos, que eles pregam e recomendam ao seu povo. Esses deveres precisam ser realizados “...não por força”, não porque você tem de fazê-los, não por compulsão de um poder civil, ou pela coação do medo ou da vergonha, mas de uma mente voluntária que tem prazer na obra. Não “...por torpe ganância”, ou por algum lucro ou proveito relacionados ao lugar em que você reside, ou de uma prerrogativa relativa ao ofício, “...mas de ânimo pronto”, considerando o rebanho mais do que a lã, sincera e alegremente se empenhando para servir à igreja de Deus. “...nem como tendo domínio sobre a herança de Deus”, agindo como tirano sobre o rebanho por compulsão ou força coerciva, ou impondo invenções humanas ou não-bíblicas a ele em vez dos deveres necessários (Mt 20.25,26; 2 Co 1.24). Aprenda: (1) A dignidade eminente da igreja de Deus e de todos os seus verdadeiros membros. Esses cristãos pobres, dispersos e sofredores eram o rebanho de Deus. O restante do mundo é uma manada irracional. Esses constituem um rebanho pacífico e ordeiro, redimido para Deus pelo grande Pastor, vivendo em santo amor e comunhão uns com os outros, segundo a vontade de Deus. Eles são também dignificados com o título de herança de Deus, sua porção peculiar, escolhidos dentre a multidão comum para ser seu povo, para desfrutar do seu favor especial e para fazer para Ele um serviço especial. No Novo Testamento, a palavra nunca é restrita aos ministros da religião. (2) Os pastores da igreja devem considerar o seu povo o rebanho de Deus, a herança de Deus, e tratá-lo de acordo com isso. Não são seus, para serem dominados segundo o seu prazer; mas são povo de Deus, e devem ser tratados com amor, mansidão e ternura, por causa daquele a quem pertencem. (3) Aqueles ministros que são forçados ao trabalho por necessidade ou atraídos a ele por torpe ganância não podem realizar o seu dever como deveriam, porque não o fazem voluntariamente e com disposição. (4) A melhor forma que um ministro pode usar para obter o respeito das pessoas é cumprir o seu próprio dever entre elas da melhor maneira que puder, e ser um constante exemplo a elas de tudo que é bom.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 882.
2. Liderar a igreja local.
O presbítero ou bispo tem o dever de cuidar “da Igreja de Deus” (1 Tm 3.5). Para tanto, precisa saber “governar a sua própria casa” (1 Tm 3.4). Daí, deduz-se que um dos seus deveres é “governar” (cf. 1 Tm 5.17a) ou liderar a igreja local.
ENSINAR A IGREJA
O presbítero como homem mais experiente tem o dever de ser um ensinador na igreja local. “Os presbíteros que governam bem sejam estimados por dignos de duplicada honra, principalmente os que trabalham na palavra e na doutrina (1 Tm 5.17 — grifo nosso).
PRESERVAR A IGREJA CONTRA OS ERROS
Em todos os tempos, as igrejas foram alvo das heresias e dos falsos ensinos. Nos tempos presentes, não é diferente. Multiplicam-se como ervas daninhas os ensinos distorcidos, os modismos e as práticas estranhas à ortodoxia bíblica. O presbítero, como líder do rebanho, deve preservar a igreja local das investidas dos falsos mestres, “...retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9; 1 Tm 4.1).
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 137.
O DEVER DE REPREENDER
1 Timóteo 5:1-2
Sempre é muito difícil repreender a outro com afabilidade; e a Timóteo algumas vezes corresponderia uma tarefa duplamente difícil — a de repreender uma pessoa mais velha que ele.
Crisóstomo escreve: "A reprimenda ofende por natureza, em particular quando a dirige a uma pessoa mais velha; e quando provém de um homem jovem também, há uma tripla amostra de atrevimento. Deverá suavizá-la, portanto, com o modo e benignidade da mesma. Porque é possível repreender sem ofender, se tão somente se cuida nisso; requer uma grande discrição, mas pode-se fazer."
Sempre é problemático censurar e repreender. Podemos detestar tanto a tarefa de advertir a alguém que a evitemos por completo. Muitas pessoas se teriam salvado de cair na aflição ou na desgraça, se alguém lhes tivesse advertido ou repreendido a tempo. Não pode haver nada mais terrível na vida que escutar a alguém que nos diga o seguinte: "Nunca teria chegado a isto, se você me tivesse falado a tempo." É um equívoco evitar a palavra que se devia pronunciar.
Podemos censurar e repreender a uma pessoa de tal forma que não haja nada mais que irritação em nossa voz e amargura em nossas mentes e corações. Uma reprimenda dada com ira, em tal forma que pareça provir do rechaço, do chateio, do desprezo, do desgosto pode produzir medo; pode ferir e faz doer; mas quase inevitavelmente produzirá ressentimento; e seu efeito final poderá ser simplesmente o de confirmar a pessoa equivocada no erro de seu caminho. A repreensão irada e a reprimenda que rechaça e despreza são raramente efetivos, e o mais provável é que causem mais mal que bem.
Diz-se que Florence Allshorn, a grande mestra missionária, quando era diretora de um colégio de senhoritas, sempre repreendia a suas alunas, quando era necessário, como se as estivesse abraçando. Só a reprimenda que provém do amor é efetiva. Se alguma vez tivermos razão para repreender a alguém, devemos fazê-lo de tal maneira que esclareçamos que o fazemos, não porque o desejamos, mas sim porque somos obrigados pelo amor, e porque queremos ajudar e não ferir.
AS RELAÇÕES DA VIDA
1 Timóteo 5:1-2 (continuação)
Estes dois versículos estabelecem o espírito que deveriam exibir as diferentes relações das distintas idades da vida.
(1) Devemos tratar as pessoas mais velhas com afeto e respeito. Deve-se tratar o homem mais velho como a um pai, e a mulher mais velha como uma mãe. O mundo antigo conhecia bem a deferência e o respeito que se deviam à idade.
Cícero escreve:
"Portanto, é o dever do homem jovem demonstrar deferência para com seus superiores, vincular-se ao melhor e ao mais digno deles, para receber o benefício de seus conselhos e influências. Porque a inexperiência da juventude requer da sabedoria prática da idade para ser fortalecida e dirigida. E esta época da vida deve ser protegida sobre todas as coisas da sensualidade e deve ser treinada no trabalho e na resistência da mente e do corpo, para poder estar forte para a tarefa ativa no serviço militar e civil. E mesmo quando queiram relaxar suas mentes e entregar-se à alegria, deveriam estar atentos aos excessos e ter em mente as regras da modéstia. E isto será mais fácil, se os jovens estiverem de acordo com que seus superiores estejam com eles, até em seus prazeres" (Cícero, De Officis, 1:34).
Aristóteles escreve: "Também deve-se render honras a todas as pessoas maiores de acordo com sua idade, levantando-se para recebê-los e lhes buscando assento e demais." (Aristóteles, Etica nicomaquea, 9:2).
Uma das coisas mais terríveis da vida é que a juventude muitas vezes tende a considerar os anciãos como uma moléstia. Deve-se dar sempre à velhice o respeito e o afeto devido, àqueles que viveram por longo tempo e andaram muito pelo caminho da vida e da experiência. Uma famosa frase francesa diz como num suspiro: "Se só a juventude tivesse o conhecimento, se só a velhice tivesse a força." Mas quando existe um respeito e um afeto mútuos, então a sabedoria e a experiência da idade podem cooperar com a força, o espírito aventureiro e o entusiasmo da juventude, para grande benefício de ambos.
(2) Devemos mostrar fraternidade a nossos contemporâneos. Os homens jovens devem ser tratados como irmãos. Aristóteles diz: "Dever-se-ia-se permitir que os camaradas e os companheiros tivessem liberdade de expressão e utilização em comum de todas as coisas" (Aristóteles, Etica nicomaquea, 9:2). Deve haver tolerância e se devem compartilhar as cotas com nossos contemporâneos. Os cristãos nunca poderão ser estranhos uns dos outros; devem ser irmãos no Senhor.
(3) As relações para com aqueles do sexo oposto devem distinguir-se pela sua pureza. Os árabes têm uma frase para descrever um cavaleiro. Chamam-no: "Irmão das jovens". Há uma frase famosa que fala da "amizade platônica". Deve-se reservar o amor para uma pessoa; é algo temível que o físico domine a relação entre os sexos, e que um homem não possa olhar a uma mulher sem pensar em seu corpo. Deve existir uma fraternidade de mente e coração entre o povo de Cristo, limpa de todo desejo e assegurada pela classe mais alta de mútuo amor cristão.
BARCLAY. William. Comentário Bíblico. I Timóteo. pag. 117-119.
I Tim 3.2 — Irrepreensível significa alguém não sujeito a punição ou repreensão. A ideia não é que um bispo ou ministro não cometa mais pecado, mas, sim, que mostre uma conduta cristã madura e consistente que não dá margem para vir a ser acusado de algum erro grave. O sentido literal de marido de uma mulher é o tipo de homem de uma só mulher. Essa expressão tem sido interpretada como uma forma de excluir do cargo todos os que sejam imorais ou polígamos, ou como referência específica àqueles que se casem novamente após uma separação ou divórcio. É uma qualificação também para os diáconos (v. 12). Sóbrio significa sem bebida, lúcido; significa ter controle do próprio corpo e da mente. E um estado de espírito de equilíbrio, resultante de autocontrole. Honesto significa sincero e disciplinado. Hospitaleiro significa que recebe bem os estranhos. A casa de um ministro cristão deve estar aberta aos propósitos do ministério.
Apto para ensinar também poderia ser traduzido por qualificado para ensinar ou que se dispõe a ensinar. Uma vez que tem a ver com caráter, parece melhor entender essa qualificação como de alguém que se dispõe a ensinar, como uma necessidade para o homem de Deus (1 Timóteo 5.17; 2 Timóteo 2.24; Tito 1.9 mostram a exigência de o presbítero ser capaz de ensinar).
I Tim 3.3 — Não dado ao vinho significa não viciado em bebida alcoólica. Não espancador tem sido traduzido também por não violento. O bispo ou presbítero não deve ser propenso a briga, a violência e a querer agredir fisicamente as pessoas. Não cobiçoso de torpe ganância. Não deve ter uma atitude egoísta em relação ao dinheiro ou aos bens. Isso é também uma advertência para os líderes de igrejas quanto à devida administração das finanças da casa de Deus.
Não contencioso significa que não discute, não cria problemas; é a qualidade do homem pacífico.
O bispo ou presbítero deve contender pela fé, sem ser contencioso. Não avarento significa literalmente que não ama a prata (1 Tm 6.9). Observe que essa é a segunda advertência aqui sobre dinheiro.
Alguns presbíteros em Éfeso estavam recebendo ajuda financeira para o ministério (1 Tm 5.17,18). Paulo os exorta para que não deixem que o desejo de obter seu ganho se tome sua maior prioridade.
I Tim 3.4 — Governe significa que se coloque diante de, ou administre.
A sua própria casa. O presbítero deve administrar bem sua própria família. Seus filhos devem submeter-se à sua liderança com modéstia e respeito. I Tim 3.5 — Se um ministro for incapaz de governar a própria família, não terá cuidado devidamente de sua igreja. Ao passar de governar para ter cuidado, Paulo enfatiza o carinho do presbítero em sua função de apascentar a igreja local.
EarI D. Radmacher: Ronald B. Allen: H. Wayne House. O Novo Comentário Bíblico Novo Testamento com recursos adicionais. Editora Central Gospel. pag. 594.
Mt 20 25-28. Aqui estão a repreensão e a instrução que Cristo deu aos outros dez discípulos, diante do desprazer que demonstraram pelo pedido de Tiago e João. O Senhor teve de suportar muitas fraquezas por parte de todos eles, que eram muito fracos no conhecimento e na graça; no entanto, Ele os suportou com amor.
1. A irritação causada aos dez discípulos (v. 24):
“Indignaram-se contra os dois irmãos” ; não porque desejassem ser preferidos antes deles - que foi o pecado de Tiago e João, pelo qual Cristo se entristeceu - , mas porque queriam ter a honra para si mesmos, o que revelava descrédito em relação aos dois irmãos. Muitos parecem ter uma indignação pelo pecado; porém, não a sentem pelo pecado em si, mas porque tal pecado os toca. Eles se indignarão contra um homem que amaldiçoa; mas somente o farão se ele lhes amaldiçoar, e lhes afrontar, não porque tal homem esteja desonrando a Deus. Esses discípulos estavam com raiva da ambição de seus irmãos, embora eles mesmos fossem igualmente ambiciosos. E comum que as pessoas se enfureçam com os pecados dos outros, os quais elas permitem e toleram em si mesmas. Aqueles que são orgulhosos e cobiçosos não gostam de ver outros assim. Nada causa mais dano entre irmãos, ou é a causa de mais indignação e contenda, do que a ambição e o desejo de grandeza. Nós nunca encontramos os discípulos de Cristo discutindo; mas eles enfrentaram uma situação de contenda essa ocasião.
2. A correção que Cristo lhes fez foi muito suave, por meio da instrução sobre o que eles deveriam ser, e não por meio da repreensão pelo que eles eram. Ele havia reprovado esse mesmo pecado antes (cap. 18.3), e lhes dissera que deveriam ser humildes como crianças pequenas; o entanto, eles reincidiram nesse pecado, mas Cristo os repreendeu de forma moderada. “Então, Jesus, chamou-os para junto de si”, o que sugere um grande carinho e familiaridade. Ele não lhes ordenou, com raiva, que saíssem de sua presença, mas os chamou, com amor, para virem à sua presença. Ele está sempre pronto a ensinar, e nós somos convidados a aprender dele, porque ele é “manso e humilde de oração”.
O que Ele tinha a ensinar dizia respeito tanto aos dois discípulos como aos outros dez; portanto, ele reúne todos. E lhes diz que enquanto estavam perguntando qual deles deveria ter o domínio em um reino temporal, não havia realmente tal domínio reservado para nenhum deles. Porque: (1) Eles não deveriam ser como os “príncipes dos gentios”. Os discípulos de Cristo não deveriam ser como os gentios, nem como os príncipes dos gentios. O principado não torna ninguém ministro, da mesma forma que o “gentilismo” não torna ninguém cristão.
Observe: [1] Qual é a maneira dos príncipes dos gentios (v. 25): exercer domínio e autoridade sobre aqueles que lhes são sujeitos (mesmo que só possam alcançar o domínio com mão forte), e uns sobre os outros também. O que os sustenta nessa posição é que eles são grandes, e os homens grandes acham que podem fazer qualquer coisa. Domínio e autoridade são as grandes coisas que os príncipes dos gentios procuram, e de que se orgulham; eles deteriam o poder, venceriam todas as dificuldades, teriam todos sujeitos a si, e todo feixe inclinado ao deles. Eles queriam ter a seguinte proclamação diante de si: “Inclinai-vos”; como Nabucodonosor, que matava, e deixava viver, ao seu bel-prazer. [2] Qual é a vontade de Cristo com relação aos seus apóstolos e ministros, nesta questão. Em primeiro lugar: ‘“Não será assim entre vós’. A constituição do reino espiritual é bem diferente dessa. Deveis ensinar os súditos desse reino, instruí-los e exortá-los, aconselhá-los e consolá-los, esforçarem-se com eles, e sofrer com eles, não exercer domínio e autoridade sobre eles; não ter ‘domínio sobre a herança de Deus’ (1 Pe 5.3), mas trabalhar em benefício dela” . Isto proíbe não só a tirania e o abuso de poder, mas a reivindicação ou o uso de qualquer autoridade secular, como os príncipes dos gentios legitimamente exercem. E tão difícil para os homens vaidosos, mesmo para os homens bons, terem tal autoridade, e não ficarem envaidecidos com ela, e fazerem mais mal do que bem com ela, que nosso Senhor Jesus considerou necessário bani-la totalmente da igreja. Até mesmo o apóstolo Paulo rejeita o domínio sobre a fé de qualquer pessoa (2 Co 1.24). A pompa e a grandeza dos príncipes dos gentios não convém aos discípulos de Cristo. Então, se o poder e a honra não foram planejados para estar na igreja, era uma insensatez deles estarem disputando quem deveria tê-los. Eles não sabiam o que pediam.
Em segundo lugar, então qual será o relacionamento entre os discípulos de Cristo? O próprio Cristo havia sugerido uma grandeza entre eles, e aqui Ele explica: “Todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal; e qualquer que, entre vós, quiser ser o primeiro, que seja vosso servo” (w. 26,27). Observe aqui: 1. Que é dever dos discípulos de Cristo servirem uns aos outros, para a edificação mútua. Isto inclui tanto a humildade como a utilidade. Os seguidores de Cristo devem estar prontos a se submeter aos ofícios de amor mais inferiores para o bem mútuo; devem ser sujeitos uns aos outros (1 Pe 5.5; Ef 5.21), para a edificação de uns para com os outros (Rm 14.19), agradar ao seu próximo para o bem (Rm 15.2). O grande apóstolo se comportou como servo de todos (veja 1 Co 9.19). 2. A dignidade dos servos de Cristo está relacionada ao fiel cumprimento dessa obrigação. O modo de ser grande, e o primeiro, é ser humilde e servil. Esses serão mais considerados e mais respeitados na igreja, e será assim para todos aqueles que entenderem as coisas de forma correta. Os mais honrados não são aqueles que são dignificados com nomes elevados e poderosos, como os nomes dos grandes na terra, que aparecem em pompa, e assumem para si mesmos um poder proporcional; os mais honrados serão aqueles que forem mais humildes e que mais renunciarem a si mesmos, aqueles que mais planejarem fazer o bem, embora diminuam a si mesmos. Esses honram mais a Deus, e a esses Ele honrará. Assim como o que quer ser sábio deve se fazer de tolo, quem quiser ser o primeiro deverá se comportar como servo. O apóstolo Paulo foi um grande exemplo disso; ele trabalhou mais abundantemente do que todos, tornou- se (como diriam alguns) um escravo do seu trabalho. E ele não é o primeiro? Não o chamamos por unanimidade de “o grande apóstolo”, embora ele se autodenomine o menor entre os menores? E talvez o nosso Senhor Jesus estivesse pensando em Paulo quando disse: “Haverá derradeiros que serão primeiros”; porque Paulo nasceu fora do tempo devido, como um abortivo (1 Co 15.8); ele não foi apenas o filho mais novo da família dos apóstolos, mas, póstumo, tornou-se o maior dentre eles. E talvez fosse para ele que o primeiro posto de honra no reino de Cristo estivesse reservado e preparado por Deus Pai, e não para Tiago e João, que o buscaram. Portanto, antes de Paulo começar a ser famoso como um apóstolo, a Providência o ordenou, de forma que Tiago foi excluído (At 12.2), para que, no colegiado dos doze, Paulo pudesse ser o seu substituto. (2) Eles devem ser como o próprio Mestre; e é muito apropriado que eles o fossem, pois, enquanto estivessem no mundo, deveriam ser como Ele foi quando estava no mundo. Porque para ambos o estado atual é um estado de humilhação; a coroa e a glória estavam reservadas para ambos no estado futuro. Eles precisavam considerar que “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida em resgate de muitos” (v. 28). O nosso Senhor Jesus aqui se coloca diante dos seus discípulos como um padrão de duas qualidades anteriormente recomendadas: a humildade e a utilidade.
[1] Nunca houve um exemplo de humildade e condescendência como houve na vida de Cristo, que não veio para “ser servido, mas para servir”. Quando o Filho de Deus entrou no mundo - o Embaixador de Deus para os filhos dos homens alguém poderia pensar que Ele deveria ser servido, que deveria ter se apresentado em um aparato que estivesse de acordo com a sua pessoa e caráter; mas Ele não fez isso; Ele não agiu como uma celebridade, Ele não teve nenhum séquito pomposo de servos de Estado para servi-lo, nem se vestiu em túnicas de honra, porque tomou sobre si a “forma de servo”. Ele, na verdade, viveu como um homem pobre, e isto fez parte da sua humilhação. Houve pessoas que o serviram com as “suas fazendas” (Lc 8.2,3); mas Ele nunca foi servido como um grande homem. Ele nunca tomou a pompa sobre si, não foi servido em mesas, como um dos grandes deste mundo. Jesus, certa vez, lavou os pés dos seus discípulos, mas nunca lemos que eles tenham lavado os pés dele. Ele veio para ajudar a todos quantos estivessem em aflição. Ele se fez servo para os doentes e debilitados; estava pronto para atender aos seus pedidos como qualquer servo estaria pronto para atender à ordem do seu senhor, e se esforçou muito para servi-los. O Senhor Jesus serviu continuamente visando este fim, negando a si até mesmo o alimento e o descanso para cumprir essa tarefa. [2] Nunca houve um exemplo de beneficência e utilidade como houve na morte de Cristo, que “deu a sua vida em resgate de muitos”. Ele viveu como um servo, e fez o bem; mas morreu como um sacrifício, e com isso Ele fez o maior bem de todos. Ele entrou no mundo com o propósito de dar a sua vida em resgate; isto estava primeiro em sua intenção. Os aspirantes a príncipes dos gentios fizeram da vida de muitos um resgate para a sua própria honra, e talvez um sacrifício para a sua própria diversão. Cristo não age assim; o sangue daqueles que lhe são sujeitos é precioso para Ele, e Ele não é pródigo nisso (SI 72.14); mas, ao contrário, Ele dá a sua honra e a sua vida como resgate pelos seus súditos. Note, em primeiro lugar, que Jesus Cristo sacrificou a sua vida como um resgate. A nossa vida perdeu o direito nas mãos da justiça divina por causa do pecado. Cristo, entregando a sua vida, fez a expiação pelo pecado, e assim nos resgatou. Ele foi feito “pecado” e uma “maldição” por nós, e morreu, não só para o nosso bem, mas “em nosso lugar” (At 20.28; 1 Pe 1.18,19). Em segundo lugar, foi um resgate por muitos. Ele foi suficiente para todos, mas eficaz para muitos; e se foi eficaz para muitos, então diz a pobre alma duvidosa: “Por que não por mim?” Foi por muitos, para que por ele muitos pudessem ser feitos justos. Esses muitos eram a sua semente, pela qual a sua alma sofreu (Is 53.10,11). “De muitos”, assim eles serão quando forem reunidos, embora parecessem então um pequeno rebanho.
Então esse é um bom motivo para não disputarmos a precedência, porque a cruz é a nossa bandeira, e a morte do nosso Senhor é a nossa vida. Esse é um bom motivo para pensarmos em fazer o bem, e, em consideração ao amor de Cristo ao morrer por nós, não hesitarmos em “sacrificar as nossas vidas pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Os ministros devem estar mais ansiosos do que os outros para servir e sofrer pelo bem das almas, como o bendito apóstolo Paulo estava (At 20.24; Fp 2.17). Quanto mais interessados, favorecidos e próximos estivermos da humildade e da humilhação de Cristo, mais prontos e cuidadosos estaremos para imitá-las.
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento MATEUS A JOÃO Edição completa. Editora CPAD. pag. 260-262.
Mt 20.24,25 Os outros dez discípulos indignaram-se com o fato de que Tiago e João tivessem tentado usar o seu relacionamento com Jesus para obter as posições mais altas. Por que tanta ira? Provavelmente porque todos os discípulos desejassem honra no reino. Talvez Pedro, dominado pelo seu gênio, estivesse liderando os dez discípulos indignados, pois ele era o terceiro, juntamente com Tiago e João no grupo mais próximo a Jesus. Isto provavelmente parecia como um verdadeiro desprezo a ele. As atitudes dos discípulos degeneraram em pura inveja e rivalidade.
Jesus imediatamente corrigiu suas atitudes, pois eles nunca realizariam a missão para a qual tinham sido chamados se não amassem e servissem uns aos outros, trabalhando juntos para o bem do reino. Assim, Jesus pacientemente reuniu os seus discípulos e explicou-lhes a diferença entre os reinos que eles viam no mundo e o reino de Deus, que eles ainda não tinham experimentado.
Os reinos dos gentios (um exemplo óbvio era o império romano) têm líderes que dominam o povo, exercendo autoridade e exigindo submissão (veja 1 Pedro 5.1-3).
Nos reinos gentios, a grandeza das pessoas depende da sua posição social ou do nome da família. Mas Jesus explicou que o seu reino seria completamente diferente.
Mt 20.26-28 Em uma frase, Jesus ensinou a essência da verdadeira grandeza: Todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal. A grandeza é determinada pelo serviço.
O verdadeiro líder coloca as suas necessidades em último lugar, como Jesus exemplificou na sua vida e na sua morte. Ser um “servo” não significa ocupar uma posição servil, mas sim ter uma atitude na vida que atende livremente às necessidades dos outros sem esperar nem exigir nada em troca. Os líderes que são servos apreciam o valor dos outros e percebem que não são superiores a ninguém; eles também entendem que o seu trabalho não é superior a nenhum outro trabalho. Procurar honra, respeito e atenção dos outros vai em direção contrária às exigências de Jesus para os seus servos. Jesus descreveu a liderança a partir de uma nova perspectiva. Ao invés de usar as pessoas, nós devemos servi-las.
A missão de Jesus era servir aos outros e dar a sua vida por eles. Um verdadeiro líder tem o coração de um servo. Os discípulos devem estar dispostos a servir porque o seu Mestre deu o exemplo. Jesus explicou que Ele não veio para ser servido, mas para servir a outros. A missão de Jesus era servir — em última análise, dando a sua vida para salvar a humanidade pecadora. A sua vida não foi “tomada”, Ele a “deu”, oferecendo-a como sacrifício pelos pecados do povo. Um resgate era o preço pago para libertar um escravo da escravidão. Jesus pagou um resgate por nós, e o preço exigido foi a sua vida. Jesus tomou o nosso lugar, Ele morreu a morte que nós mereceríamos.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 1. pag. 123-124.
.A Ambição Pessoal de Tiago e João (20.20-28)
Em Marcos 10.35-45, a outra passagem onde esse episódio está registrado, foi dito que Tiago e João fizeram o pedido. Aqui é a mãe, com seus filhos (20). Obviamente, o pedido foi feito juntamente, pelos três. Nesse ponto, Mateus abandona a sua prática habitual, e se torna mais específico do que Marcos. Adorando-o significa inclinando-se perante Ele.
O pedido era que os dois filhos pudessem se sentar, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu Reino (21). Depois do segundo anúncio da Paixão, os discípulos haviam perguntado: “Quem é o maior no Reino dos céus?” (18.1). Jesus havia respondido colocando uma criança no meio deles e dizendo: “Aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus” (18.4). O presente episódio mostra como era profunda a falta de entendimento deles sobre essa verdade, assim como sobre os ensinos ministrados por Jesus a respeito de sua Paixão, que se aproximava. Eles haviam deixado de entender totalmente o espírito do seu Mestre. Ainda estavam pensando no estabelecimento de um reino terreno. E já haviam decidido quem deveria ser o “maior” no reino, embora ainda não soubessem quem deveria se sentar à direita - lugar da mais elevada honra - e quem se sentaria à esquerda.
A resposta de Jesus foi clara: Não sabeis o que pedis (22). Algumas pessoas estão sempre procurando os privilégios de uma posição, sem reconhecer as responsabilidades envolvidas. Aqueles que estiverem mais próximos de Cristo irão sofrer mais. Será que desejavam ser pendurados em uma cruz, ao Seu lado? Não haveria quem rivalizasse com eles para essas posições! No entanto, quando o Senhor perguntou: Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber? Eles responderam de forma alegre e inocente: Podemos. Beber o cálice era uma figura muito conhecida dos judeus (cf. SI 75.8). Williams diz: “Aqui, o cálice significa os sofrimentos interiores, mentais e espirituais, que Cristo suportou (cap. 26.39, 42)”.
O Mestre advertiu os seus dois discípulos: Na verdade bebereis o meu cálice35 (23). Tiago foi o primeiro dos apóstolos a ser martirizado (At 12.2). Em relação aos últimos dias de João existem muitas lendas, mas nada se sabe ao certo, exceto que ele sofreu na ilha de Patmos (Ap 1.9).
Jesus acrescentou que não lhe competia atribuir assentos à Sua direita e à Sua esquerda, mas estes lugares são reservados ...para aqueles para quem meu Pai o tem preparado.
Isso parece ser uma negação de autoridade da parte de Cristo. E mais provável que nessa passagem mas {alia) signifique “exceto” {ei me), como aceito por Blass-Debrunner36 e J. H. Moulton. Dessa maneira, essa passagem pode ser assim entendida: “Não me compete dar estes lugares a alguém, exceto àqueles a quem Deus planejou concedê-los”. Isso não significa nenhum favoritismo, mas que os lugares no Reino Messiânico serão dados a cada um de uma forma justa, e de acordo com um critério pré-estabelecido.
Quando os outros dez apóstolos perceberam o que Tiago e João haviam feito, eles indignaram-se contra os dois irmãos (24). Esse verbo significa “rebelar-se, indignar- se, irar-se”. Eles se ofenderam porque os dois filhos de Zebedeu estavam tentando “alcançar uma posição” superior à deles. Mas, infelizmente, não existem provas de que seus motivos fossem mais puros do que os demonstrados pelos dois irmãos.
Jesus reuniu os doze discípulos, e os preveniu de que as políticas de seu Reino eram diferentes daquelas dos governos terrenos. Ele lembrou que pelos príncipes dos gentios são estes dominados e que os grandes exercem autoridade sobre eles (expressão encontrada apenas aqui e na passagem paralela em Marcos 10.42). O verbo exercem autoridade talvez possa significar “tiranizar sobre alguém”.
Mas não seria assim entre os seguidores de Cristo (26). Em uma escala ascendente, Jesus diz primeiramente que todo aquele que quiser ser grande, deve ser um serviçal. Essa palavra corresponde a diakonos, de onde se originou a palavra “diácono”. Em segundo lugar, quem quiser ter algum destaque deve, antes de mais nada, ser servo (27) - literalmente, “escravo”. Isso ilustra o antigo ditado: “Para subir, é preciso descer”. Aquele que se tornar servo de todos, será glorificado e elevado por todos.
O versículo 28 representa uma grande passagem teológica. Jesus declarou que o Filho do Homem não veio para ser servido (diakonethenai), mas para servir (diakonesai), e para dar a sua vida em resgate de muitos. A palavra para vida é psyché. Resgate é lytron (somente aqui e em Marcos 10.45), e vem de lyo, “libertar”. Ela significa “preço da liberdade, resgate (especialmente o dinheiro do resgate para a alforria dos escravos...)”. Esse uso está bastante ilustrado nos papiros, como mostrou Adolf Deissmann. Ele cita três documentos em papiros datados de 86, 100 e 107 (ou 91) d.C. que usam essa palavra com esse sentido. Seu comentário é o seguinte: “Mas quando alguém ouvia a palavra grega lystron, ou “resgate”, no primeiro século era natural que pensasse no dinheiro necessário para comprar a alforria de um escravo”.
Em resgate de (anti) muitos. O significado comum da preposição grega usada nesta expressão nos papiros daquele período era “ao invés de”.42 Essa conotação está claramente evidente nas outras duas passagens em Mateus, onde essa palavra ocorre. Em 2.22 lemos que Arquelau reinava “em lugar de” (anti) seu pai, Herodes. Ele havia tomado o seu lugar. Em 5.38 ouvimos a expressão olho “por” (anti) olho e dente “por” (anti) dente. Obviamente, isso significa um olho retirado “em lugar de” um outro olho, e um dente retirado “em lugar de” um outro dente. De alguma forma misteriosa, que só é conhecida por Deus, Cristo deu a sua vida em resgate, “em lugar de muitos”, para libertá-los da escravidão do pecado e para salvá-los da condenação eterna.
O uso da palavra muitos, neste contexto, não nega o fato de que Cristo morreu por todos. Em 1 Timóteo 2.6, Paulo escreve que Cristo Jesus “deu a si mesmo em preço de redenção [antilytron] por [hyper] todos”. Cristo morreu por todos, mas muitos foram salvos como resultado de sua morte.
Sob o título “Verdadeira Grandeza” podemos pensar: 1) No preço da grandeza - Podeis vós beber o cálice... e ser batizados com o batismo...? 2) Na prática da grandeza - Todo aquele que quiser, entre vós, fazer-se grande, que seja vosso serviçal; 3) No padrão de grandeza - O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir.
Ralph Earle. Comentário Bíblico Beacon. Editora CPAD. Vol. 6. pag. 142-143.
3. Ungir os enfermos.
A unção com óleo é um ato de fé que acompanha a “oração da fé”, feita por homens de Deus, que, liderando a igreja local, ou auxiliando os pastores-líderes, atendem aos que se encontram enfermos, e oram por sua cura, “em nome de Jesus” (Mc 16.18c). Orar pelos enfermos e curá-los é sinal de fé para “os que crerem”, independente de serem obreiros regulares. Mas orar com unção com óleo é confiado aos presbíteros.
Elinaldo Renovato. Dons espirituais & Ministeriais Servindo a Deus e aos homens com poder extraordinário. Editora CPAD. pag. 137.
Tg 5.14 Uma característica da igreja primitiva era a sua preocupação com os doentes e o cuidado para com eles. Aqui Tiago incentiva os doentes para que chamem os presbíteros da igreja, pedindo aconselhamento e oração. Os presbíteros eram pessoas espiritualmente amadurecidas, responsáveis pela supervisão das igrejas locais (veja 1 Pe 5.1-4). Os presbíteros iriam orar sobre a pessoa doente, pedindo a cura ao Senhor. A seguir, eles a ungiriam com azeite em nome do Senhor. Enquanto oravam, os presbíteros deviam pronunciar claramente que o poder da cura residia no nome de Jesus. A unção era frequentemente usada pela igreja primitiva nas suas orações pedindo cura. Nas Escrituras, o azeite era tanto um remédio (veja a parábola do bom samaritano, em Lucas 10.30-37) como um símbolo do Espírito de Deus (como quando usado para ungir reis; veja 1 Sm 16.1-13). Desta forma, o azeite pode ter sido um sinal do poder da oração, e pode ter simbolizado a separação da pessoa enferma para a atenção especial de Deus.
Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Editora CPAD. Vol 2. pag. 691.
Recebemos aqui orientações específicas acerca dos doentes, e a misericórdia perdoadora e curadora prometida aos que obedecem a essas orientações.
“Está alguém entre vós doente”, então se pede deles: 1. Que “chame os presbíteros - presbyterous tes ekklesias - os pastores ou ministros da igreja” (w. 14,15). E do doente a responsabilidade de chamar os ministros, e desejar a ajuda e as orações deles. 2. E dever dos ministros orar pelos doentes, quando chamados a isso. “...orem sobre ele”; que as suas orações sejam adequadas a esse caso, e suas intercessões sejam como convêm aos que são afetados com as calamidades. 3. Em tempos de curas milagrosas, os doentes deviam ser ungidos “...com azeite em nome do Senhor”. Os expositores em geral restringem esse ungir com azeite àqueles que tinham o poder de fazer milagres; e, quando cessaram os milagres, essa instituição também cessou. No evangelho de Marcos, lemos do incidente em que os apóstolos ungiram com azeite muitos que estavam doentes, e os curaram (Mc 6.13). E temos relatos disso sendo praticado duzentos anos depois de Cristo; mas então o dom de cura também acompanhava a unção, e, aí quando o dom milagroso cessou, esse ritual foi deixado de lado. Os romanistas na verdade fizeram disso um sacramento, que eles chamam de extrema-unção. Eles a usam, não para curar os doentes, como era usada pelos apóstolos; mas, como em geral eles contrariam as Escrituras nas ordens da sua igreja, assim aqui eles ordenam que isso seja ministrado somente àqueles que estão à beira da morte. A unção do apóstolo foi ordenada para curar a doença; a unção romanista é para a expulsão dos restos do pecado, e para capacitar a alma (como eles pretendem) a combater melhor os poderes do ar. Quando não conseguem provar, por nenhum efeito visível, que Cristo reconhece a continuação do seu rito, eles mesmo assim levam as pessoas a crer que os efeitos invisíveis são maravilhosos. Mas certamente é muito melhor omitir essa unção com azeite do que invertê-la contra os princípios estabelecidos para ela nas Escrituras. Alguns protestantes pensaram que essa unção foi apenas permitida ou aprovada por Cristo, e não instituída por Ele. Mas deveria parecer, pelas palavras de Tiago aqui, que foi uma coisa ordenada nos casos em que havia fé para a cura. E alguns protestantes a têm defendido com isso em vista. Não deveria ser usada comumente, nem mesmo na era apostólica; e alguns têm pensado que não deveria ser deixada totalmente de lado em nenhuma época, mas que sempre que houver uma medida extraordinária de fé na pessoa que unge, e nas que estão sendo ungidas, uma bênção extraordinária poderá seguir a observância dessa orientação para os doentes. Seja como for, há uma coisa que precisa ser cuidadosamente observada aqui, que a salvação do doente não é atribuída à unção com azeite, mas à oração: “...e a oração da fé salvará o doente” (v. 15). Assim que: 4. A oração sobre os doentes precisa proceder de uma fé viva, e ser acompanhada dela. Precisa haver fé tanto na pessoa que ora quanto na pessoa pela qual se ora. Em tempo de doença, não é a oração fria e formal que é eficaz, mas a oração de fé. 5. Deveríamos observar o sucesso da oração: “...o Senhor o levantará”. Isto é, se essa pessoa for capaz e adequada para o livramento, e se Deus tiver algo a mais para essa pessoa fazer no mundo, “...e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados”; isto é, onde a doença foi enviada como castigo por algum pecado específico, esse pecado será perdoado, e como sinal disso a doença será removida. Assim como quando Cristo disse ao homem incapaz: “Não peques mais, para que te não suceda alguma coisa pior” (Jo 5.14), é sugerido aqui que algum pecado particular foi a causa da enfermidade do doente. A grande coisa que devemos pedir de Deus para nós mesmos e para os outros em épocas de doença é o perdão dos pecados. O pecado é tanto a raiz da doença quanto o aguilhão dela. Se o pecado for perdoado, ou a aflição será removida em misericórdia, ou obteremos misericórdia na continuidade dela. Quando a cura está fundamentada no perdão, podemos dizer como Ezequias: “Tu, porém, tão amorosamente abraçaste a minha alma, que não caiu na cova da corrupção” (Is 38.17). Quando você está doente e com dor, é muito comum orar e clamar: O, alivia-me! O, restaura a minha saúde! Mas a sua oração deveria ser antes e principalmente: O, que Deus perdoe os meus pecados!
HENRY. Matthew. Comentário Matthew Henry Novo Testamento ATOS A APOCALIPSE Edição completa. Editora CPAD. pag. 851.
1 – O cristão e a enfermidade (v. 14).
Tg 5.14 “Está alguém entre vós doente?”: para muitos é um tormento que haja enfermidade também na vida do cristão.
a) A Bíblia vê a enfermidade relacionada com o pecado humano. “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23), e a enfermidade como precursora da morte é igualmente decorrência do pecado. É verdade que Jesus baniu a conclusão de que o portador de uma enfermidade especial também deve ter pecado de maneira especial (Jo 9.2ss). No entanto, alguém pode constatar em si mesmo a doença como decorrência de seu pecado e curvar-se debaixo dela – dando razão ao julgamento de Deus.
b) Acontece, porém, que os pecados nos foram perdoados em decorrência do sofrimento expiatório de Jesus. Será que nesse caso não deveriam ter sido retiradas também todas as consequências do pecado? Afinal, Jesus não carregou também todas as nossas enfermidades (Is 53.4)? “Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo” (Ec 3.11). Na consumação não haverá mais enfermidade nem morte, nem “sofrimento” (pela perda de entes queridos), “clamor” (de lamentação e acusação, de falta de paz e de guerras), “dor” (da doença e das feridas). “E a morte não existirá mais” (Ap 21.4). Com a primeira vinda de Jesus, Deus dá o primeiro passo e cura, sempre que for acolhido, a causa oculta do mal: perdoa o pecado e concede a sua paz. Com a segunda vinda, Deus dá o segundo passo e também anula todos os efeitos visíveis do pecado: discórdia entre pessoas, enfermidade e morte (Ap 21.4). Afinal, se Jesus não vier antes, também nós teremos de morrer. Vivemos em uma época de “não ver e, apesar disso, crer” (Jo 20.29; 1Pe 1.8; 2Co 5.7; 1Co 13.12; Rm 8.24; 1Jo 3.2). Crer sem ver é o principal tema do exame de toda a nossa vida cristã em nosso mundo.
c) Isso não exclui que Deus conceda desde já aperitivos do que há de vir, uma primeira prestação (cf. v. 15): os milagres de Jesus outrora e hoje são “sinais” (Jo 2.11; 3.2; 11.47) que mostram o que ele fará um dia de forma grandiosa e geral. As noites do “não ver e, apesar disso, crer” não são tão escuras que não luzam nelas também as estrelas. E Deus com certeza estaria disposto a nos dar mais se confiássemos nele.
d) Logo vale a regra: a salvação é presenteada por Deus em todos os casos a cada um que o pedir (Jl 2.32; Rm 10.13), mas a cura exterior, durante a presente era, é presenteada onde e quando lhe aprouver. – Por isso ambas as posições estão biblicamente erradas: d.1) A frase comum em vários “grupos pentecostais”: “Quem crê não está enfermo, e quem está enfermo não crê corretamente.” d.2) A opinião já existente desde o tempo do Iluminismo: “Que adiantará, pois, a oração contra a enfermidade e outras dificuldades? Afinal, a vontade de Deus é perfeita.” Ou: “Obviamente a oração não muda nada; apenas nos torna mais dóceis para a vontade de Deus.” Por isso a única oração que deveria existir seria: “Seja feita a tua vontade!” Isso tem conotação muito lógica e devota, mas não corresponde à comunhão de vida que o Pai no céu concede a seus filhos neste mundo conforme as Escrituras. Temos o privilégio de lhe dizer o que move nosso coração, e lhe dirigir preces, deixando então por conta de sua sabedoria paterna o que ele fará com essas orações. Jesus declara: “Peçam, e receberão” (Mt 7.7). Toda oração correta é atendida, embora com frequência de modo diferente e em momento diferente do que imaginamos, porém de forma melhor e em tempo mais acertado.
2 – O enfermo e a igreja (v. 14)
Enfermidade traz solidão. Isso é particularmente doloroso para um cristão cujo lar é a igreja. Tiago escreve que o próprio membro enfermo da igreja deve tomar a iniciativa: “Chame os presbíteros da igreja”. Não é dito: “Fique resmungando em seu canto e pense: vejamos quanto tempo demorará até que alguém tenha a ideia de me visitar.” Tiago quer que o enfermo convide os visitadores da igreja com a mesma naturalidade com que chama o médico. De acordo com o v. 14, o que cabe aos visitadores fazer poderá ocorrer unicamente mediante o consentimento do enfermo. Se o próprio enfermo chamou os anciãos, tudo fica claro nesse aspecto desde o princípio. – O NT também fala do dom especial da graça (em grego chárisma) de cura dos enfermos (1Co 12.9,28,30). Havia, nas igrejas, cristãos em que a efusão do Espírito de Deus trouxe consigo esse dom, da maneira como outros recebiam outras dádivas. Aqui não se fala de um carisma especial. É possível que esses “anciãos”, em grego presbýteroi (literalmente: “mais idosos”), naqueles primórdios do cristianismo e nas igrejas às quais Tiago escreveu, ainda nem sequer fossem detentores de um cargo regulamentado, mas que simplesmente se tratava de cristãos mais antigos, mais maduros. Confiando nessa palavra da Bíblia também hoje, na hora da enfermidade, podemos chamar à nossa casa tais cristãos, a fim de que nos prestem esse serviço.
3 – A igreja e seus enfermos (v. 14).
“Estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor”:
a) Quando alguém não puder vir à igreja, a igreja tem de ir até ele: “Se um membro sofre, todos os membros participam do seu sofrimento” (1Co 12.26 [TEB]). Por meio dos anciãos a igreja visita o enfermo. O próprio Jesus atribuiu uma importância especial à visita a enfermos e concedeu à oração conjunta uma promessa especial (Mt 25.36; 18.19).
b) Os anciãos da igreja oram, não apenas, mas também por saúde. – Eles “ungem com óleo”. Esse era também um remédio caseiro contra doença e contusão (Lc 10.34). Contudo o ungem “em nome do Senhor”. Nesse sentido o óleo na Escritura sempre representa um sinal para o Espírito Santo. Foi por isso que no AT reis e sacerdotes eram ungidos (Êx 29.7; Nm 35.25; 1Sm 9.16; 10.1; 16.12). E João escreve: “Recebestes a unção” (1Jo 2.27). O Espírito Santo concede força (Rm 15.13; 1Co 2.4; 2Tm 1.7) começando pelo íntimo e chegando ao físico.
Será que não é suficiente impor a mão como sinal de bênção? É obrigatório que suceda ainda uma unção com óleo? Em várias outras passagens da Escritura constatamos que há imposição de mãos para bênção e cura sem a unção com óleo (At 5.12; 14.3; 19.11). Sem dúvida podemos aderir a essa regra. Contudo, quando alguém por simples obediência à presente palavra da Bíblia deseja recorrer à unção com óleo ou a solicita para si, ele de qualquer forma tem em seu favor uma boa razão da Escritura.
Fritz Grünzweig. Comentário Esperança Carta De Tiago. Editora Evangélica Esperança.

ELABORADO: Pb Alessandro Silva

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